Florescência Seguir historia

ditto Liiz Lestrange

Um pânico terrível o paralisou no chão. E se ele houvesse dito alguma coisa para a Irmã? E se falasse na língua estranha na frente dela? Por que diabos ele tinha que ter dado o endereço para um total estranho? Mas ele não parecia um estranho, parecia tão familiar…


Fanfiction Anime/Manga Sólo para mayores de 18.

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Florescência


Três batidas secas. Naruto acordou rapidamente, sacudiu a cabeça tentando dispersar a sonolência e se sentou o mais depressa que podia. Irmã Geraldine abriu a porta impaciente e não precisou olhar em volta para encontrar o adolescente em sua cama improvisada naquele minúsculo quarto que costumava ser um armário de vassouras.

— Levanta, preciso que você vá à cidade buscar uns documentos pra mim — ela disse limpando as mãos no avental antes de caçar nos bolsos um papelzinho dobrado e entregar ao menino. — Depois do desjejum você vá até lá, eu lhe dou o dinheiro para o metrô, é na faculdade. Você sabe onde fica, não sabe?

— Sei sim, senhora.

— Pois então, vá até lá e entregue isso para eles, deve estar tudo pronto. Vá depressa e volte sem fazer nenhuma parada no caminho, entendeu?

— Entendi.

— Não quero você causando problemas por lá, é só buscar os documentos e voltar, ouviu bem?

— Sim, senhora.

Ela saiu, fechando a porta novamente. Naruto deu um suspiro aborrecido e voltou a se deitar. Não valia muito a pena insistir ou reclamar sobre aquilo, a última coisa que precisava era dar motivos para irritar a mulher. Então ele foi. Depois do desjejum, como combinado, Irmã Geraldine lhe deu o dinheiro trocado para tomar o metrô, repetiu as instruções mais uma vez (ou duas, por desconfiança) e reclamou de seu cabelo despenteado antes de ir abrir o portão para ele.

— Não fale com ninguém que não deva!

Ele consentiu com a cabeça entediado e saiu apressado em direção ao ponto.

Era quase sempre Naruto quem as Irmãs mandavam realizar tarefas pela cidade. Faziam isto porque o enviavam no horário das aulas e as outras crianças eram prioridade em questão de educação (ou qualquer outra). O resultado, na aula seguinte, era uma cobrança injusta e humilhante da matéria que havia perdido, mas não se importava tanto. Na verdade, era muito bom sair um pouco do orfanato. Não tinha liberdade alguma quando estava lá, sua vida se resumia entre a escola, missas, trabalhos exaustivos e o quarto. Não falava com ninguém, não podia passear muito, não conseguia se divertir um mínimo que fosse sem acabar ganhando um castigo. Quando tinha a chance de sair um pouco sozinho, mesmo que apenas fosse para realizar tarefas, era um pequeno momento de alívio em que se sentia solto no mundo. Até porque, felizmente, passando dos muros do orfanato ninguém sabia quem ele era e ninguém o temia ou odiava por isso.

A faculdade ficava no centro da cidade. Era fácil de ver, porque era um prédio enorme, imponente e intimidador. Ouvira alguém comentar que era o segundo mais alto de Londres. A inauguração fora poucos meses antes, havia ido outras duas ou três vezes desde então, portanto estava acostumado com o caminho. Sentia-se imensamente deslocado sempre que ia até lá: todos ao seu redor estavam sempre muito bem vestidos, engomados, de cabelo limpo e ajeitado, roupas novas e bem cuidadas, e sapatos brilhantes. Ele trajava vestes velhas e encardidas de segunda mão, umas peças mais largas do que deveriam ser, outras justas demais, sapatos gastos e o cabelo sujo.

Um segurança, que foi o examinando de cima a baixo conforme atravessava o átrio até o edifício, perguntou o que queria ali e lhe indicou a secretaria ao ler o bilhete entregue pela Irmã. Coisa rápida, não demoraria muito. Logo ao passar pela porta, entretanto, sentiu um rebuliço no peito. Não soube dizer o motivo e tentou ignorar, já havia estado ali antes, não se incomodara com o corredor alto e acinzentado das outras vezes, não havia o que temer ali. Mas foi caminhando, passo a passo, seus sapatos ecoando no mármore e o coração palpitando inquieto, cada vez mais ansioso, como se estivesse se aproximando de algo importante, até alcançar o final do corredor, onde a secretaria ficava à esquerda. Foi então que soube instantaneamente o que lhe causava aquela sensação, porque seus olhos foram puxados - quase como se houvesse uma força magnética agindo sobre si - para a direita.

Numa entrada dois degraus acima do corredor, simetricamente com o da esquerda, onde havia um grande balcão de recepção, existia uma espécie de sala de espera, com algumas poltronas elegantes e uma mesinha de centro. Naruto deveria ir reto para a esquerda, mas travou no meio do corredor, com o coração mais acelerado do que nunca e os olhos colados a um rapaz que deveria ter a sua idade. O outro garoto era completamente diferente de si, visivelmente bem cuidado, bem alimentado, bem vestido, com os cabelos negros penteados para trás e uma postura elegante. Estava em pé na sala de espera, aparentemente falava com um homem mais velho, mas a posição de sua mão sugeria que provavelmente houvesse feito sinal para interromper a conversa. Ele encarava Naruto de volta com um ar incrédulo e impressionado enquanto o adulto ao seu lado parecia confuso e olhava de um para o outro tentando fazer alguma associação.

Naruto tinha certeza que jamais havia visto aquele garoto em toda a sua vida, mas tinha a mais curiosa e estranha sensação de que o conhecia de algum lugar. Não era pela aparência, aqueles traços não lhe tinham familiaridade alguma, mas sabia que o conhecia. Talvez pelo olhar, talvez pela aura… Não. Não tinha como conhecê-lo, aquilo era ridículo. Fechou a boca, que sequer havia percebido entreaberta, balançou a cabeça de leve e se virou para o outro lado inspirando fundo. Ele também havia sentido aquilo, estava encarando de volta. Expeliu o ar num suspiro nervoso tentando afastar o pensamento.

— Bom dia, no que posso ajudar? — cumprimentou com simpatia a moça da recepção, cortando seus devaneios. Naruto ergueu os olhos para ela e tentou sorrir.

— Olá… Eu vim… pegar uns documentos… — ele disse tentando colocar as ideias no lugar e focar no que havia ido fazer ali. Lembrou-se do bilhete e o pegou novamente em seu bolso para entregá-lo. — Aqui… A Irmã Geraldine me mandou.

A moça pegou o papel e o leu devagar, depois sumiu atrás do balcão procurando algo nas gavetas. Naruto manteve-se de cabeça baixa, reprimindo a enorme força que tentava convencê-lo a continuar encarando o rapaz elegante. A recepcionista voltou suspirando.

— Não está aqui, achei que estivesse — ela reclamou torcendo o nariz. — Mas com certeza, se não deixaram o envelope comigo, está na administração.

Ela descreveu como chegar e o que dizer quando chegasse lá. Naruto deu meia volta de cabeça baixa e olhos fixos no chão, passou pela porta no final do corredor sem dirigir meio olhar para o rapaz da sala de espera, mas mesmo sem vê-lo podia sentir o peso de seu olhar o encarando e estudando fixamente. Na administração, fez como o instruído e entregaram-lhe de prontidão um gordo envelope pardo. A sensação inquietante havia sumido ao passar pela porta, mas no caminho de volta começou a ficar nervoso só de pensar que o garoto ainda estaria por lá. Porém, quando chegou ao salão de entrada, ele havia sumido. Não tinha ninguém além da recepcionista naquele corredor, pelo menos até onde conseguia ver. Mas mesmo que não enxergasse através de cada vão, sabia que ele não estava mais lá: se estivesse, sentiria a palpitação curiosa novamente.

Acenou um adeus tímido à recepcionista e seguiu em direção à saída. Estava a um passo da porta quando sentiu a sensação voltar. Travou por um momento, um pequeno pânico o acometeu de repente. Não sabia dizer o que causava aquilo tudo, mas sentia-se culpado e aterrorizado só de pensar, tinha medo só de pensar o que a Irmã Geraldine faria se descobrisse. Não tinha como ela descobrir, era só uma sensação, ela não lia mentes. Naruto respirou fundo e saiu do prédio. Era só não dizer nada, não fazer nada, logo estaria longe daquela universidade e nunca mais veria o rapaz misterioso novamente.

Mas lá ele estava.

Sabia quem era ele no átrio sem sequer olhar, a presença dele era gritante. Estava o esperando sair, com certeza. Não olhou e continuou andando em passos apressados e nervosos para a rua, mas o outro apertou o passo para alcançá-lo.

— Espera.

Naruto congelou. Estava se preparando internamente para ignorar se fosse chamado e continuar seu caminho, mas não foi em inglês que o outro garoto o chamou. Aquilo não podia estar acontecendo, talvez ele tivesse escutado errado. Ele só podia ter escutado errado. O garoto parou atrás de si, seu coração batia mais rápido do que nunca.

— Quem é você?

Não havia dúvidas: ele não estava falando em inglês. Naruto não sabia o nome daquele idioma, em toda a sua vida jamais havia escutado alguém que o conhecesse, mas reconhecia o som daquelas palavras como se fosse sua língua natal. Fazia mais de cinco anos desde a última vez que, por descuido, falara naquela língua em voz alta, mas ainda tinha calafrios e os olhos ardiam só de pensar na surra desumana que recebera e das horas infinitas que passara, aterrorizado e horrivelmente ferido, trancado num armário apertado e sem luz, antes de ser finalmente levado a um hospital. “Ele caiu da janela”, explicou Irmã Geraldine com frieza.

— Ei, me responda! — o rapaz insistiu.

Naruto se virou hesitante, apertando sem querer o envelope em suas mãos. Olhando-o de perto tinha ainda mais certeza de que conhecia aquele garoto de algum lugar, ainda que não fosse de rosto. E tinha certeza que não era de rosto, pois se lembraria de ter visto uma face como a dele, era como olhar para uma obra de arte: tinha os traços suaves, mas bem definidos, uma pele de porcelana, olhos bem escuros e amendoados e um nariz perfeitamente reto. Encarava-o com um ar impaciente esperando resposta.

— Eu só vim buscar uma coisa — murmurou hesitante. O outro torceu o nariz.

— Você entende o que eu digo, certo?

Naruto mordeu a boca. As Irmãs estavam certas, ele era endemoniado, aquele devia ser o próprio diabo que viera buscá-lo. O rapaz estalou a língua e respirou fundo.

— Entende ou não?  ele insistiu, nervosismo começando a transparecer em sua voz.

Naruto fez que sim com a cabeça.

— Então por que responde em inglês? Não me importa o que veio fazer, eu perguntei quem você é.

Olhou em volta, não havia ninguém próximo o suficiente para ouvir o que diziam. Sentia um comichão aflito para respondê-lo na mesma língua.

— Eu…  arriscou num sussurro ansioso — eu sou Naruto…

— Quem o enviou?

— ... A Irmã Geraldine, lá da Casa…

— Não.  O garoto balançou a cabeça impaciente. — Você vem em nome de qual Deus?

Naruto o encarou confuso. O outro esperou uma resposta, mas vendo que não a conseguiria tornou a respirar fundo.

— O Deus que o enviou à Terra? Não? Você… Não faz a menor ideia?  Fez que não com a cabeça, sentindo um pânico cada vez maior com aquela conversa. — Você não sabe de nada? Não sabe quem é, não sabe por que está aqui?

— Não, eu não faço ideia do que você está falando!

O outro estalou a língua mais uma vez e desviou os olhos pensativo. Depois voltou o olhar para Naruto e o estudou de cima a baixo antes de levar uma mão ao seu rosto. O garoto assustou e fechou os olhos por reflexo, mas o toque foi suave e familiar. Ele encaixou a palma em sua nuca e não se moveu por um momento. O contato da mão fria contra a sua pele lhe causava uma singular sensação, tão familiar, quase podia dizer que o conhecia a vida toda. Abriu os olhos, ele o mirava com aquele ar contemplativo e distante, mas então se tornou firme e ele recolheu a mão parecendo repleto de certeza.

— Rá.

— O quê?

— Você é Rá.

Naruto não disse nada, franziu o cenho confuso e esperou que o outro se explicasse. Do que diabos ele havia o chamado?

— Eu sou Thoth.

— Seu nome é Thoth?

— Não, eu sou enviado de Thoth. Você é enviado de Rá. Isso é muita coisa… Na verdade, talvez eu esteja aqui por você…

Ele parecia estar falando mais para si mesmo do que para Naruto, que também não entendia absolutamente nada do que aquilo significava.

— O que é enviado de rá?

— Deus Rá, o Deus Sol.

— ... Certo.  Nada daquilo fazia sentido. O tempo estava passando, apesar do nervosismo estava curioso sobre o que o outro falava, sobre aquelas sensações, mas precisava voltar logo se não quisesse levar uma sova pela demora. — Eu preciso ir.

— Espera. — Ele fez que ia virar para ir embora, mas o outro o interrompeu antes. — Onde exatamente você mora?

— Nazareth House, em Hammersmith…

— Certo… Meu nome é Sasuke Uchiha.

Naruto pasmou, cogitando se deveria dizer mais alguma coisa. Repetiu o nome dele mentalmente e deu um passo incerto para trás.

— Até mais — disse meio atropelado antes de se virar e sair andando tão depressa que parecia estar fugindo. Foi a primeira coisa que lhe veio à cabeça, mas ao se afastar pensou que não tinha a menor ideia se haveria, de fato, mais. Uchiha havia pedido seu endereço, será que tinha intenção de ir até o orfanato para vê-lo?

A resposta chegou no dia seguinte. Estava encerando o chão da sala de leitura quando uma das Irmãs chamando seu nome.

— Irmã Geraldine mandou te buscar, há um rapaz procurando por ti na sala de visitas.

Um pânico terrível o paralisou no chão. E se ele houvesse dito alguma coisa para a Irmã? E se falasse na língua estranha na frente dela? Por que diabos ele tinha que ter dado o endereço para um total estranho? Ele não parecia um estranho, parecia tão familiar…

— Mandou chamar? — murmurou ansioso ao entrar no cômodo. A Irmã estava sentada em uma poltrona atrás da mesa, com aquele semblante tão cínico e simpático que fingia em frente a visitantes. E lá estava, de fato, o Uchiha tomando um chá enquanto conversava com ela. Os dois tornaram para si quando entrou, o rapaz se ergueu respeitosamente, Naruto procurou aflito seu olhar para tentar sinalizar num grito mudo que ficasse quieto, que não dissesse nada, que não contasse a verdade.

— Naruto, este rapaz muitíssimo educado gostaria de vê-lo — a mulher disse com o sorriso torto e fingido. — Disse que você o ajudou ontem.

— Sim, estava contando à Irmã como eu, por acidente, derrubei minha papelada ao vento e você teve a bondade de me ajudar a recolher. — Ele sorriu com naturalidade e confiança. Naruto poderia ter suspirado de alívio e lhe dado um abraço pela mentira. Mas não deixava de ser curioso: não agia nada como o rapaz que conhecera no dia anterior.

— Sim! Sim, eu… era o mínimo que eu poderia fazer, é meu dever ajudar — apressou-se em concordar.

— Pois bem, eu não tive a chance de agradecer apropriadamente ontem, mas aquela papelada é de extrema importância, de uma pesquisa crucial que estou fazendo em nome da Universidade de Londres, e eu jamais poderia agradecer o suficiente.

— Não precisa agradecer, não foi nada.

— Não, foi realmente muito importante, se o vento houvesse levado alguma folha, eu estaria perdido. Por isso, eu gostaria de agradecer lhe oferecendo um trabalho como meu assistente na faculdade. — Naruto deixou o queixo cair. Não fazia ideia do qual era a intenção do outro com aquilo, mas ficava mais curioso e confuso a cada segundo. — Estávamos justamente conversando as condições antes do senhor chegar. Eu trouxe os formulários necessários e os explicava à Irmã Geraldine.

De fato, a mulher tinha um maço de papéis nas mãos, mas lançou-lhe um olhar de censura, teve impressão que ela não gostava nada da proposta.

— Então, como eu dizia, sr. Uchiha — ela deu uma risadinha sem graça —, eu criei este garoto praticamente desde o nascimento, garanto que ele não seria de nenhuma utilidade no ambiente acadêmico. Sempre teve muita dificuldade de aprender qualquer coisa, até para falar inglês direito foi difícil, metia umas palavras inventadas no meio quando era menor, um fracasso com números, tem ataques histéricos de raiva com frequência, extremamente agressivo, nem mesmo as outras crianças gostam dele, tivemos que tirá-lo do dormitório para a segurança dos outros meninos.

Sasuke sorriu cordial.

— Tenho certeza que encontraremos a função perfeita para ele na universidade. Um oficial da faculdade virá buscá-lo pela manhã.

Ele se ergueu e estendeu a mão para mulher, que o cumprimentou a contragosto, e depois para Naruto antes de sair. Um curto silêncio pairou na sala, nenhum dos dois se moveu. Depois, com um pesado suspiro, a Irmã se levantou devagar. Podia dizer que ela estava furiosa só pela respiração.

— O que foi que você disse para ele? — perguntou com um tom ameaçador e o dedo em riste.

— Nada, eu juro! Foi como ele disse, eu só ajudei a recolher os papéis e ele entrou no prédio!

— Então como é que ele sabia onde você morava?

— Ele perguntou. Eu juro por Deus, foi só isso, eu não disse nada!

A respiração dela continuava pesada, remexeu a mão por um momento enquanto ponderava as informações e a abaixou. Ela não acreditava. Sabia que ela não acreditava. Mas não importa, não há nada que ela possa fazer, certo? Não havia como impedir o que estava acontecendo ou descobrir a verdade. Ela parecia ter chegado na mesma conclusão, mas continuava decidida a fazer alguma coisa, então ela levou as mãos à cintura e desafivelou o cinto.

Na manhã seguinte, como o anunciado, um homem bem vestido e educado apareceu para levar Naruto até a faculdade. Nunca havia andado de carro antes, era diferente atravessar a cidade observando a paisagem pela janela, confortável, sendo bem tratado. Gostava daquilo. O oficial acompanhou-lhe até o oitavo andar do prédio, onde as placas indicavam bibliotecas, salas de estudo e escritórios relacionados à história antiga e arqueologia. Pararam em frente a uma porta em que se lia “Antigas Civilizações Orientais” e ele bateu de leve antes de entrar. A sala era relativamente grande, as paredes, com exceção à da janela, eram repletas de livros e o resto do espaço era preenchido por escrivaninhas de madeira. Em uma delas, estava Sasuke. O homem pousou uma mão nas costas de Naruto e o encaminhou até ele.

— Aqui está ele, Uchiha.

Ele ergueu os olhos e estudou o garoto de baixo à cima.

— Obrigado, Clark.

O sujeito se despediu com um aceno de cabeça e saiu da sala. Naruto continuou ali parado.

— E então?

Sasuke, que havia voltado a trabalhar no que parecia ser uma tradução (cujos dois idiomas Naruto desconhecia completamente), fez sinal para que ele pegasse uma cadeira mais próxima e trouxesse até lá.

— Queria ter conversado direito com você ontem, mas infelizmente aquela mulher medonha não ia nos deixar a sós de jeito algum.

Pelo jeito, apenas conversariam na língua sem nome. Naruto suspirou e puxou a cadeira da mesa ao lado.

— Por que você me trouxe aqui?

— Bom, eu preciso despertá-lo, é claro. É bastante preocupante você ter chegado a esta idade sem saber nada… Quantos anos tem? Dezessete?

— Isso….

— Imaginei. Eu também.

— Que línguas são essas?

— Este é norueguês, estou traduzindo para francês.

— Caramba, quantas línguas você fala?

— Trinta e duas.

— Puta merda! Ah, aliás! Em que língua… nós estamos conversando?

Sasuke parou de escrever e o encarou. Sua expressão não mudou nada, mas de alguma forma era claro seu espanto com a ignorância do outro.

— Egípcio antigo.

— E...gípcio?

Ele deu um longo suspiro, marcou as páginas e fechou os livros em que trabalhava.

— Acho melhor nós começarmos logo.  Ele levantou, seguido de Naruto, e parou em uma prateleira para coletar alguns livros antes de sair. — Eu preciso que você me diga absolutamente tudo o que sabe, tudo o que pode fazer de peculiar, tudo de que se lembra.

— Eu… Eu não sei. Acho que nada.

— Deve haver alguma coisa, tive a impressão ontem de que a monstrenga o acha endemoniado.

— O que eu sou?

— Eu lhe disse anteontem, você é Rá.

— E o que diabos isso significa?

Eles pararam frente a uma porta com as letras S.U. no final do corredor e Sasuke fez sinal para que entrasse primeiro, já que levava uma grossa pilha de livros nos braços. Naruto bufou irritado e entrou, era um quarto espaçoso e bem iluminado, tinha uma bela cama, armário e escrivaninha em mogno e uma cortina branca emoldurando a janela. Sasuke deixou os livros sobre a mesa, fechou a porta e sentou-se na cadeira, indicando a cama para o outro.

— Como eu disse, você é Rá, Deus do Sol. Enviado, na verdade. De tempos em tempos os deuses enviam um mandatário para observar o mundo. Tudo veio naturalmente para mim conforme eu recebi exposição de alguma coisa relacionada ou conforme meus dons afloravam, então qualquer coisa que você puder citar seria um bom ponto de partida.

— Como é a sua família?

A sobrancelha de Sasuke estremeceu, podia quase sentir a frustração dele por ter seu pedido ignorado, mas ele não reclamou.

— Eu não tenho família, eu cresci na universidade.

— E todo mundo só aceita que você chega falando que é enviado de um deus que não é mais cultuado há dez mil anos?

— Na verdade, é há menos de dois mil anos. Mas não, eu não perco meu tempo tentando convencer ninguém de coisas que eles não têm capacidade de entender. Até onde eles sabem, eu sou apenas superdotado.

— E, além de falar duzentas línguas, você tem super poderes?

— Eu tenho uma aptidão excepcional em muitas áreas da ciência. Mas a maior é, mesmo, nas artes literárias, eu sou formado em História e Literatura e Língua Inglesa, por mera formalidade, e cursos intermediários em todas as áreas do conhecimento, porque faço traduções de todo tipo de artigo para a universidade. Enfim, mas o que você faz?

Naruto franziu o cenho.

— Eu lavo o chão.

O outro deu um longo e pesaroso suspiro, cruzou os braços e se encostou para trás na cadeira.

— A mulher disse  ele começou com paciência, o encarando firme — que as outras crianças têm medo de você. Por quê? Algum incidente, algo de estranho que assustou os outros garotos?

— Aconteceram algumas coisas assim quando eu era pequeno... Mas não lembro o que foi.

— Não consegue se esforçar para lembrar algum detalhe?

— A única coisa que eu lembro é de ser trancado num armário escuro, sangrando por todos os lados, com o pulso deslocado e congelando de frio, porque eu ainda tinha levado um banho de água com gelo para “exorcizar o demônio”  um silêncio fúnebre se estendeu por momento. Naruto fungou com cinismo. — Pensando bem, eu nunca peguei resfriado nem doença nenhuma. Deve ser meu dom, que sorte a minha.

— Quanto tempo faz desde a última vez que algo do tipo aconteceu?

— Os incidentes ou os espancamentos?

— Os incidentes.

— Uns dez anos, acho, eu ainda era criança.

Sasuke virou-se para seus livros e ficou quieto por um tempo, pensativo.

— Bom, isso não me dá nenhuma boa referência do que possa ajudar, então eu vou tentar te mostrar tudo o que conseguir e ver o que traz resultados.

Ele escolheu um livro entre os que tinha trazido e foi se sentar ao lado de Naruto na cama, onde começou a folhear devagar.

  Sobre o Egito antigo você sabe alguma coisa?  murmurou enquanto passava os olhos pelo índice.

— Muito pouco… Sei que há pirâmides lá, acho que uma estátua grande de gato sem nariz, algo assim…

Sasuke foi pego desprevenido pelo comentário e deixou escapar uma risada fantasticamente espontânea. Ele balançou a cabeça de leve e se virou incrédulo para o outro. Era injusto, Naruto achava, que alguém tão bem sucedido, inteligente, afortunado e elegante ainda tivesse o disparate de ser tão bonito. Se ele fosse mesmo enviado de algum deus tão importante, então o mínimo que merecia era a beleza do outro, não parecia nada equilibrado que fosse tudo de uma vez para Sasuke e a ele sobrasse imunidade a resfriados. Virou o rosto injuriado, além de tudo ainda merecia ouvi-lo rir de sua ignorância, era só o que faltava.

Assustou-se, de súbito, com um toque suave afastando seu cabelo. Levou um segundo encarando o olhar sério de Sasuke em seu rosto para entender que ele havia notado as feridas do dia anterior. Repeliu seu toque com um tapa com as costas da mão e afastou a cabeça bruscamente, voltando a ajeitar o cabelo bagunçado por cima das marcas.

— Eu vou te tirar de lá logo mais — Sasuke disse, depois de um momento estranho de silêncio. — Eu já mandei arrumar o quarto do lado para você. Estavam usando para organizar alguns arquivos, então não tiveram tempo de preparar ainda, talvez leve alguns dias até reorganizar tudo e montar os móveis, mas até semana que vem deve estar tudo pronto.

Naruto o encarou aborrecido.

— Por quê?

— Como assim?

— Por que eu poderia morar aqui? Como eu vou morar numa faculdade?

— Porque eu pedi. Não precisa se preocupar com nada, não vai precisar trabalhar para pagar sua estadia, por enquanto estou arcando com as suas despesas. Para todos os efeitos eu estou o contratando como meu assistente, já disse isso ontem.

— O que você quer comigo?

— Sua existência é muitíssimo preciosa, Rá, você não faz ideia do quanto.  Ele o mirou sério e fechou o livro. — Você vem reprimindo seus dons há muitos anos, não sabe nada sobre quem é ou seu propósito, não faz sentido o largar naquele lugar imundo onde você é maltratado e não tem espaço para aflorar seu poder. É meu dever treiná-lo e descobrir qual é o tamanho do seu verdadeiro potencial.

— Entendi  caçoou franzindo o cenho. — Parece muito confiável, mesmo, eu passo a vida inteira ouvindo que sou endemoniado, um verme, horrível, doente por fazer coisas que eu não entendo, por falar uma língua que não sei como aprendi, apanhando por qualquer merda, dormindo num armário escuro... Então surge você, sem mais nem menos, diz que não tem nada de demônio, que sou enviado de um deus que nunca ouvi falar na vida, que sou importante... E resolve me trazer para esse lugar...

— Você sabe que estou falando a verdade, não sabe?  ele perguntou, bastante calmo apesar de Naruto levantar o tom de voz mais a cada palavra. — Você consegue sentir que é real, não consegue?

— Eu sinto, mas... Nada disso...  Parou no meio da frase, sentindo que as palavras não acompanhavam a velocidade do que se passava em sua cabeça para expressar-se direto.— Ugh!

Ele levantou frustrado da cama. Um silêncio se seguiu, ele apenas andava em círculos lentos, pisando duro enquanto encarava o chão.

— Eu consigo sentir quando você se exalta muito...  o outro murmurou pensativo. — Tenho bastante convicção de que fui enviado com o propósito de orientar você.

— Ótimo. Saio de onde eu era saco de pancadas para virar rato de laboratório de um almofadinha metido a intelectual! — Ele parou no meio do quarto, fazendo cara feia para Sasuke. Este mal se moveu, o encarou austero com uma sobrancelha muito franzida e a outra muito erguida. — Aposto que você me viu lá, todo esfarrapado e perdido, e pensou que era uma ótima chance de arranjar um coitado pra fazer as coisas para você em troca de umas migalhas de comida e qualquer cantinho para dormir! Com certeza eu tenho cara de quem aceitaria qualquer coisa para sair do orfanato, não é? Pois que seja, então, vai fazer um monte de testes horríveis comigo até descobrir o que eu posso fazer de estranho, não vai?

Sasuke estalou a língua e rolou os olhos.

— Eu não vou fazer teste nenhum, ninguém me forçou para que eu descobrisse meus dons, não há motivo para que eu faça algo do tipo contigo.

— Então o quê? Vou ser só seu criado? Ou lhe pareceu divertido ter um animalzinho de estimação? Achou engraçado que eu não saiba de nada e você saiba de tudo?

— Não sei de onde tira essas coisas. Se você prestasse atenção no que eu digo e me deixasse mostrar os livros, já teria entendido que você, como eu disse, é Rá, o Deus do Sol, Deus de toda a criação. Não tem cabimento se comparar com um rato ou um bicho de estimação, muito menos um criado, você não entende a sua posição. Você é Rá. Você não é servo de ninguém, os outros que são seus servos. Todos, incluindo a mim. Eu disse uma vez e vou repetir: eu fui enviado por você. Para você. Meu propósito é servir a você, lhe orientar, lhe dar suporte e assistência no que for necessário.

— Até parece! Você brota de repente na minha vida, como uma fada madrinha, me leva embora do orfanato, me diz que sou um deus importante e seu propósito é me servir e eu devo só acreditar nisso como se fosse razoável?

— Se não quiser acreditar, ótimo!

Sasuke finalmente se aborreceu o suficiente para levantar a voz, bateu as duas mãos no livro ao segurá-lo e se ergueu da cama num movimento rápido. Por reflexo, Naruto se retraiu e fechou os olhos bem apertado.

Congelou ali, percebeu o que havia feito antes que arranjasse forças em si para relaxar o corpo e sentiu-se, de repente, minúsculo e vulnerável diante do outro. Não se lembrava a última vez em que havia erguido a voz e se imposto para alguém com tanta facilidade, apenas para se encolher assustado como um vira-lata ferido no instante seguinte. A vergonha não lhe permitiu voltar a mirar seus olhos mesmo depois de voltar ao normal, mantendo a cabeça baixa. Sasuke também parecia não se mover, percebeu pelo canto dos olhos que ele ainda segurava o livro na altura do peito, inerte. Demorou um momento até ouvi-lo respirar fundo e, só então, abaixar as mãos.

— Quer que eu o deixe sozinho? — ele perguntou num tom baixo.

Naruto cogitou a possibilidade, mas não queria isso. Não queria parecer tão fraco, não queria se deixar render por vergonha e medo. Ergueu a cabeça orgulhoso e voltou a se sentar onde estava antes.

— Me mostra o que você queria ensinar. Vamos começar logo com isso.

Sasuke levou um instante para sentar-se novamente ao seu lado, abriu o livro em silêncio e hesitou um pouco, mas o apoiou sobre as pernas do outro rapaz invés das suas.

— Eu vou começar bem do começo  disse, ainda numa voz mais baixa que o seu normal. —. Os livros tem muitos furos, porque o conhecimento humano é muito falho e os estudos arqueológicos ainda estão muito atrasados com esses escritos, então grande parte você vai precisar prestar atenção ao que eu digo.

— Tudo bem.

Naquele primeiro dia, Sasuke de dedicou a lhe contar apenas sobre quem era Rá, o que havia criado, os deuses com quem se relacionava, seus filhos, sua história, suas proezas, sua vida. Tudo o que ouvia, era inegável, tinha um quê de familiaridade para Naruto, mas também não o lembrava de nada. Não lhe vinha nenhuma memória, nenhuma imagem, nenhuma sensação. Era como escutar uma história que já havia sido lhe contada muito antes, mas nada além. Parte de si não conseguia se livrar da insistente insegurança sussurrando em sua cabeça que era tudo uma farsa ou que Sasuke houvesse recrutado o garoto errado. Não fazia sentido, porque não havia outra explicação para a língua que falavam ou as sensações fortes e certeiras que tinha. Mas o medo continuava lá, aguardando uma explicação que puxasse seu tapete.

Por todos os dias durante aquela semana, o mesmo funcionário da universidade vinha buscá-lo de carro e o levava para estudar com Sasuke. Ficaram novamente em seu quarto no segundo dia, em outros estudaram na biblioteca, noutro acabaram passando a tarde no refeitório. Além dos estudos, claro, estava almoçando e jantando na universidade. A comida era mil vezes melhor que a insossa e gosmenta do orfanato, ainda que Sasuke dissesse que não chegava aos pés do restaurante ao lado do parque.

Sasuke, aliás, não puxava por conta própria nenhum assunto que não fosse para ensinar algo sobre deuses ou povos que os cultuavam, mas, também, não se recusava a responder sobre qualquer outra aleatoriedade que Naruto lhe perguntava (mesmo que torcesse a boca frustrado quando a conversa cortava algo que estivesse tentando explicar). A única coisa nele que incomodava Naruto era como apenas se referia a ele como Rá e a si mesmo como Thoth. Reclamou vez ou outra que aquele não era seu nome, mas fora ignorado.

Ao chegar o oitavo dia, finalmente estava tudo pronto para a mudança. Sasuke tomou o cuidado de não avisar às Irmãs do orfanato com antecedência, por precaução. Também, para garantir que nada desse errado, convenceu o reitor da universidade e o coordenador da área a irem consigo para fazer a Irmã Geraldine assinar a papelada. Estava certíssimo em supor que seria o suficiente para intimidá-la, assentiu tudo com prontidão e não rebateu um “a”. Naruto não disse nada, mas estava exuberante de gratidão e entusiasmo por tudo aquilo. Saiu levando o pequeno embrulho que eram seus únicos pertences (algumas roupas, uma escova de dentes e um bonito broche de prata que achara na rua), não olhou para trás duas vezes nem disse adeus aos rostos curiosos nas janelas antes de entrar no carro.

Seguiram o caminho costumeiro até o quarto de Sasuke, mas continuaram um pouco além, em frente à última porta do corredor. Em letras cromadas (visivelmente novas em folha) lia-se N.U., Naruto mordeu a boca e virou hesitante para o rapaz ao seu lado.

— As iniciais…?

— Eu, er…  Ele pigarreou, olhos fixos à porta sem se atrever a encará-lo. — Você não foi registrado com sobrenome algum, pelo que vi…

— Não, ninguém sabe quem eram meus pais…

— Pois bem, eu… Eu precisava de um sobrenome para registrá-lo nos documentos da universidade, então… eu coloquei o meu…

— Uchiha?

— ... Isso.

— É quase como se nós fôssemos casados…

Sasuke pigarreou mais alto, seu rosto avermelhou.

— É só uma formalidade  ele se explicou, um tanto exasperado —, esses nomes não têm importância real, são apenas uma identificação. Eu sou Thoth, você é Rá. De qualquer jeito, vai entrar ou ficar o dia todo aí parado?

— Desculpa, estou nervoso…

Ele respirou fundo e girou a maçaneta. Sentia-se um pouco bobo por tanta ansiedade: o quarto, como imaginava, era exatamente igual ao de Sasuke, mas invertido, já que a porta e janela ficavam à direita do quarto ao invés da esquerda. Naruto avançou em passos pequenos e lentos, abraçando seu embrulho de pertences junto ao corpo. Era insano sair do pequeno armário onde dormira por oito anos sob caixas improvisadas para um quarto elegante, espaçoso e completo daqueles. Tinha uma cama de verdade, com lençóis novos e brancos, uma escrivaninha, armário, gaveteiro… Ele abraçou suas coisas um pouco mais forte.

— Eu vou morar sozinho aqui? — murmurou olhando em volta.

— Sim… Não é grande coisa, mas deve ser mais confortável que o orfanato. É igual ao meu, como deve ter reparado, e não costuma ter muita gente morando nesse andar, mas eu estou ao lado sempre que precisar.

— Parece coisa demais… Eu não tenho nem o que guardar em tanta gaveta!

Teve impressão de que Sasuke ia dizer alguma coisa, mas ele ficou em silêncio, então foi para o armário guardar os poucos pertences que tinha. Para sua imensa surpresa, todavia, se viu diante de um cabideiro repleto de roupas. Congelou em confusão, havia, pelo que contou com os olhos, meia dúzia de camisas, três calças, três ternos e dois coletes, além de um par de sapatos reluzentes. Procurou o olhar de Sasuke em busca de uma explicação, ele continuava ali parado em sua pose séria de sempre e as mãos cruzadas para trás do corpo.

— São para você, achei que seria apropriado. Eu mandei fazer… uns dois centímetros mais curtas e mais justas que as minhas próprias medidas. Creio que vão ficar um pouquinho largas, mas você deve ganhar algum peso agora que vem se alimentando direito, então achei melhor assim. Os sapatos são do mesmo tamanho que os meus, se não servirem bem é só avisar.

Naruto largou suas coisas dentro do armário e olhou feio para o outro.

— E depois você fala que não é para eu me sentir seu animalzinho de estimação! — bufou, fechando a porta do armário um pouco mais forte do que planejara. — Mas aí você me bota num quarto todo chique a troco de nada, me dá um monte de roupas novas e bonitas… Não é para eu me sentir um poodle de madame assim? Aposto que não queria mais ser visto com alguém andando todo maltrapilho do seu lado, não? Ou o grande Rá não pode usar roupas de segunda mão?

Sasuke o encarou de cenho franzido, respirando duro, e estalou a língua.

— As roupas foram um presente, Naruto — respondeu ríspido, virando as costas para sair do quarto. — Tanto faz, me chame quando estiver disposto a estudar. Ou não, você é quem sabe.

Ele sumiu de vista, mas Naruto ouviu a porta do quarto ao lado fechando. Admirou-se bastante de Sasuke tê-lo chamado pelo nome. Era a primeira vez que ele o havia feito enquanto estavam sozinhos, costumava chamá-lo assim somente em inglês, com outras pessoas presentes. Aquilo foi o que, acima de tudo, amoleceu sua raiva injustificada e o fez ir bater na porta vizinha cinco minutos depois, devidamente trocado em uma das vestes novas (que serviu bastante bem, apesar de um pouco larga na cintura). Não teve coragem de pedir desculpas ou mencionar o pequeno surto, torceu pela roupa falar por si, mas disse que estava disposto a estudar, desde que o fizessem no refeitório novamente. Sasuke lhe lançou um olhar seco e ofendido, mas também não disse nada sobre o ocorrido. Estalou a língua e anunciou que deveriam almoçar fora em celebração pela mudança.

Acabaram não passando nada sobre deuses ou Egito antigo. Depois do almoço, que fora sem dúvidas a melhor refeição que Naruto já tivera, distraíram-se com as lojas ao redor, passearam por todo o centro de Londres, tomaram sorvete em um quiosque de rua e voltaram no final da tarde, caminhando devagar. Sasuke disse que o ajudaria a escolher áreas em que tivesse interesse e aptidão para que fizesse cursos na universidade e, também, que o ajudaria a estudar para as provas de admissão.

Naruto não era um especialista em felicidade, mas tinha certeza que aquele era o melhor dia de sua vida. Nunca antes havia feito um passeio assim pela cidade, livre, sem hora para voltar, comendo coisas gostosas pelo caminho, conversando com alguém que apreciava sua companhia, alguém que não tinha medo ou repulsa por ele e a quem ele também não temia nem odiava. E não era o principal, mas conversavam sempre naquela língua, que agora sabia ser egípcio. Crescera pensando naquele idioma e por anos tivera tanta dificuldade de comunicar-se em inglês com os outros, mas não podia fazer nada além de policiar sua boca. Não podia evitar quando estava exaltado demais, por raiva ou medo, e acabava explodindo em palavras que ninguém mais entendia, porque era tão mais fácil se expressar assim! Mas também tão perigoso… Aprendera na marra a falar apenas em inglês e a se repreender mentalmente só de pensar na outra língua quando estava distraído. E agora, lá estava ele: conversando alegremente com Sasuke. Em plena luz do dia. Em público. Sem medo.

— Bom, eu… acho que é tarde demais para estudar, certo?  disse Sasuke ao chegarem no átrio da universidade. — Pode tirar o dia para descansar, se quiser, acho que vou subir para trabalhar.

—Ah… — Naruto deu um sorriso sem graça e desviou os olhos para o chão. — Eu não tenho nada para fazer… Não costumo ter tempo livre assim, tudo o que eu poderia pensar, nós já fizemos hoje.

— Oh…

— Talvez você… poderia me mostrar melhor a universidade? Eu não conheço o prédio muito bem e já que vou morar aqui…

— Você tem pique para continuar andando? Eu juro que essa caminhada toda me deixou exausto.

— Ah, tudo bem, foi só… uma ideia… Não quero atrapalhar seu trabalho, eu arranjo alguma coisa para fazer…

— Não! Digo… Sei que não é muito interessante, mas se quiser subir comigo… eu posso mostrar no que estou trabalhando.

Naruto abriu um enorme sorriso.

— Eu acho muito interessante! Pode me mostrar!

Sasuke esboçou um sorriso e pigarreou.

— Certo… Então vamos!

— Sasuke, espera…  Ele havia virado para sair, mas parou e se voltou à Naruto, que o encarava ansioso. — Eu queria pedir desculpas…

— Não precisa.

— Preciso sim. Me desculpe por hoje cedo. Eu não sei o que me deu, eu fico… procurando a armadilha em tudo positivo que acontece… Você tem sido muito legal e paciente comigo, eu não tenho o direito de gritar com você, perdão.

— Bem… Preciso dizer, eu não estou nada acostumado a ter alguém brigando comigo desse jeito...

— Perdão, eu não sei o que me deu! Eu também não estou acostumado a brigar com ninguém assim! Jamais! Eu levaria um tabefe só de cogitar, não sei como sempre acabo gritando com você, não é nada típico de mim, eu juro!

— Hm… Eu acho, na verdade, apropriado que se sinta confortável assim comigo —Sasuke disse pensativo. Ele encarou Naruto com firmeza. — Caso não tenha ficado claro, você não vai levar tabefe nenhum, por motivo nenhum, nunca mais. Vamos subir, está escurecendo.  Seus olhos correram o outro de cima à baixo devagar. — As roupas novas lhe caíram bem, aliás.

Naruto rolou os olhos, mas sorriu para si mesmo enquanto o outro ia na frente. De repente uma sensação gostosa parecia ter preenchido seu peito, esqueceu-se do que estava fazendo por um segundo. No escritório, não entendia nada do que Sasuke lhe explicava sobre os complexos trabalhos que estava traduzindo. Apenas acenava com a cabeça e se esforçava para parecer interessado enquanto seus olhos silenciosamente percorriam cada linha de seu perfil. Desde os olhos meio puxados, que sempre pareciam tão centrados e firmes, com aqueles cílios longos e cheios emoldurando, descendo por aquele nariz miseravelmente reto até os lábios. Eram finos, perfeitos como cada centímetro da pele imaculada que ele tinha, quase sempre estavam crispados (o que de início fazia Sasuke parecer arrogante e constantemente aborrecido, mas agora parecia encantador), mas ali estavam em movimento e avermelhados o suficiente para parecerem apetitosos, um pouco mais a cada vez que ele os umedecia para voltar a explicar o que quer que fosse

Demorou-se um pouco demais nos lábios.

Sabia que estava se iludindo por meia dúzia de comentários vagos. A extrema carência o deixava propenso a se desesperar ao primeiro sinal de afeto, não era inocente a ponto de ignorar isso, mas era agradável pensar que, talvez, ao invés da fada madrinha em seu resgate, Sasuke fosse o príncipe encantado. Era um daqueles pensamentos que, com certeza, renderia uma bronca enorme e colérica de Irmã Geraldine sobre perversão demoníaca que ouviria ajoelhado no milho, alguns dias sem jantar e toda a faxina do prédio masculino por sua conta pelo resto da semana. Mas, começando daquele dia, Irmã Geraldine não fazia mais parte de sua vida, e pensamentos, felizmente, eram particulares.

Um grupo de professores muito mais velhos apareceu no jantar e chamou Sasuke para uma reunião de trabalho. Ficou chateado de precisarem se separarem, mas sorriu e avisou que passearia pelo prédio para conhecer o lugar. Supôs que não o veria novamente até o dia seguinte, então foi andar pelos corredores até às dez da noite, quando finalmente foi se deitar.

O quarto parecia diferente de noite. Era estranho estar ali, podia parar bem no centro e abrir os braços ao máximo sem tocar parede alguma, tinha uma cama de verdade, grande e confortável, macia, com lençóis novos, ninguém viria de noite checar se estava dormindo na posição correta, ninguém o acordaria à força de manhã, o lugar era seu. Era espaçoso, confortável, quieto e aterrorizante. Por algum motivo, não conseguiu dormir. Apagou as luzes e tentou se sentir bem, mas não ouvia as crianças fazendo a oração antes de deitar, não ouvia a tábuas velhas rangendo aos passos lentos das Irmãs passando no corredor, não estava num armário de vassouras, tinha uma janela deixando as luzes fracas do céu noturno passarem pela fresta da cortina, a porta era tão longe, seu coração estava disparado e sentia suor frio escorrer pelo corpo.

Estava em pânico. Não sabia sequer apontar o porquê, mas estava sentado no meio da cama, ofegando convulsivamente, quando Sasuke surgiu aflito e sentou de frente para si. Teve a impressão atrasada de que ele havia batido antes de entrar, mas só se deu conta quando ele segurava seus ombros e perguntava o que estava acontecendo.

— Eu tô assustado… — conseguiu balbuciar em uma voz falha.

— Por quê? O que há de errado?

— Isso tá acontecendo rápido demais… Eu não deveria estar aqui… Não deveria estar acontecendo, eu não mereço nada disso…

— Você merece sim!

— Não, eu não deveria estar aqui, eu não fiz nada para merecer tudo isso, eu deveria estar no orfanato, no meu quarto… Olha esse lugar enorme, as paredes são tão longe...

— Não. Olhe para mim  Sasuke não o segurava mais, mas olhava firme em seus olhos. — O que você não merecia era ter passado pelo que passou por todos esses anos. Ninguém merecia lembrar de um armário e chamá-lo de quarto. Isso acabou, e você merece todo o conforto e oportunidade que eu puder oferecer. Se este quarto lhe parece grande demais, sinto muito informar, mas eu não o tirei daquele cubículo triste para prender neste quarto, você tem o mundo inteiro agora. O mundo é infinitamente maior que aquele armário, que este prédio, e você merece cada centímetro.

— Eu tenho tanto medo… Você tá me oferecendo tanto e eu nem consigo despertar essas coisas que você espera de mim e… E eu fico pensando que um dia você vai perceber que eu não sou nada do que você pensa que sou ou… que vou acordar e descobrir que foi tudo um sonho estranho…

— Não é. É real, eu tenho certeza de quem você é, e sei que você também sente isso. E tudo ainda vai estar aqui quando você acordar, incluindo a mim.

Naruto encheu os pulmões de ar e segurou por um instante.

— Você pode… ficar aqui?  pediu num murmúrio, sem encará-lo. — Só por esta noite…

Sasuke não respondeu, mas acenou com a cabeça. Pensou em apenas ficar quieto e tentar encontrar na companhia dele conforto o suficiente para conseguir dormir, mas a mão dele chegou hesitante até a sua e, por algum motivo, isso desencadeou uma crise de pranto além de seu controle. O outro não soube o que fazer, então ficou apenas ali em silêncio, segurando sua mão até cessar.

Na manhã seguinte, acordou com uma movimentação estranha e levou um instante para entender que era Sasuke, comprimido entre ele e a parede, erguido sobre os cotovelos e encarando a cabeceira.

— O que foi? — murmurou sonolento.

— Meu despertador…— Ele esfregou os olhos e se sentou na cama. Naruto fez algum esforço e, de fato, reconheceu o som abafado de um alarme-relógio tocando no quarto vizinho, mas quando o outro fez que ia sair da cama, o alarme parou e Sasuke deu um suspiro. — Bom… Eu não tenho nada de muito crucial a fazer nesta manhã, acho melhor voltarmos a dormir.

— Ah…  Naruto se sentou também, parecendo preocupado — Eu arruinei sua noite de sono, não é? Perdão…

— Para de pedir perdão sem motivo.

— Perdão, eu vou…  Ele se calou e fez uma careta. — Ops…

Deitado novamente, Sasuke riu baixinho enquanto se ajeitava. Naruto demorou para voltar a se deitar, algo havia chamado sua atenção. A quietude anormal fez o outro abrir os olhos e franzir o cenho.

— O que há?

— Seu cabelo… Nunca tinha visto você sem o cabelo para trás…

— Bem, eu não passo gel para dormir…  Ele respondeu seco, mas um leve colorido tingiu suas bochechas com o olhar do outro.

— Fica bonito assim.

— Dorme.

Naruto ria discretamente ao se deitar, assistindo o vermelho se acentuar no rosto dele. Não podia negar o quanto era maravilhosa aquela sensação familiar de dormir ao lado de uma pessoa tão querida, preenchia seu peito. Exceto que não deveria ser uma sensação familiar, porque jamais dormira ao lado de outra pessoa, particularmente alguém querido. Perceber isso lhe causou um rebuliço e não soube se foi a súbita mudança em sua respiração ou aquela conexão que Sasuke tinha consigo, mas os dois se ergueram sentados ao mesmo tempo.

— O que foi?

Sua mente parecia inundada por lembranças muito vívidas — mas desconexas — de si mesmo dividindo uma cama com outra pessoa. Não era a mesma pessoa em todas as lembranças. Também não era a mesma cama. Ele também não era o mesmo. Era como tentar se lembrar de alguma palavra, tê-la na ponta da língua, mas nunca realmente chegar. Uma vertigem fez o quarto inteiro girar por um momento e ele voltou a se deitar, ainda que tivesse os olhos arregalados e o coração disparado demais para sequer cogitar dormir.

— Está acontecendo, Sasuke! Eu lembrei de coisas!

Ambos se exaltaram, Naruto quase caiu da cama. Desistiram de dormir e foram correndo estudar. Sasuke pegou todos os livros, perguntou sobre as memórias que ele tivera, mas Naruto não teve o atrevimento para admitir ter visões de amores passados causados por ele. Desconversou os detalhes e insistiu que eram nada além de flashes de rostos desconhecidos. Não deixava de ser verdade, apenas escondeu o contexto.

Pela omissão ou por qualquer outro motivo, o estudo não deu frutos naquele dia. E, tirando uma ou outra reprise que teve das mesmas lembranças, não houve avanço por outras duas semanas. Ainda assim, não desanimaram. Naruto estava tomando gosto pelas histórias que Sasuke contava e, descobriu muito satisfeito, conseguia ler hieróglifos, contanto que a inscrição estivesse completa e a foto tivesse boa qualidade.

Sua maior alegria, entretanto, não eram os escritos ou estudos, mas quando saíam pela cidade. Num desses passeios, convenceu Sasuke a levá-lo ao cinema. Fora a primeira vez que assistira a um filme, uma comédia romântica chamada Bringing Up Baby*, sobre o amor improvável entre um paleontologista dedicado e uma garota desmiolada e impulsiva. Sasuke não era exatamente paleontólogo, mas trabalhava como historiador, e Naruto não era garota, mas certamente se identificava com a parte desmiolada e impulsiva. Sasuke dissera ter detestado, mas Naruto andava deslumbrado desde então. Estava apaixonado pelo cinema, pelas músicas, pela projeção tremulante, pelos atores, pela história... E pela companhia.

Mas, com ou sem cinema, qualquer passeio era bem vindo, e naquela tarde fez sol. Em Londres, sol era motivo o suficiente para convencer qualquer um a sair, Sasuke não era exceção. Como tinham estudos marcados, conseguiu convencê-lo a, ao menos, estudar no parque.

— É a terceira vez que você me interrompe para falar sobre o filme — Sasuke reclamou enquanto caminhavam —, talvez eu devesse parar de lhe ensinar sobre os deuses e lhe mostrar uns roteiros decentes.

— Sabe, para alguém de dezessete anos, você dá um ótimo senhor de meia idade.

— E você, pelo jeito  Sasuke começou, rolando os olhos —, se aproveitou da liberdade que eu lhe dei para transformar petulância num hobby.

Naruto riu.

— O que posso dizer? Suas expressões me divertem.

— Bom saber que eu ao menos sirvo para lazer. — Ele foi cínico, mas tinha um discreto sorriso de canto. — Sempre um prazer lhe ser útil, Rá.

— Sasuke, chega com essa coisa de Rá — Naruto cortou, num tom de repente sério. Os dois pararam de andar e o outro franziu o cenho ao encará-lo. — Eu entendo que isso seja muito importante e tudo mais, mas eu tenho meu próprio nome, minha própria vida… Pode não ser tão relevante diante de Rá, mas a minha vida vai além de ser um mandatário. E você também! Você fez uma vida, uma carreira, por que você não pode só usar nossos nomes normais de vez em quando?

Ele esperou alguma resposta, mas Sasuke não disse nada, apenas o encarou atônito. Naruto suspirou fundo e cruzou os braços.

— Às vezes eu acho… que você só conversa comigo o tempo inteiro em egípcio e usa esses nomes só por algum senso idiota de superioridade… Outras vezes eu acho que você só usa isso para se fechar e se esconder.

— Que mania que você tem de inventar motivos para brigar comigo! — ele finalmente respondeu. — O que exatamente você espera de mim? O que quer que eu faça?

Naruto olhou em volta, procurando qualquer sinal, e deu de ombros.

— Eu não sei  suspirou frustrado. — Só queria que você falasse comigo como Sasuke. Só por uma vez, me diz alguma coisa, faz alguma coisa, mas de Sasuke pelo Naruto, não do Thoth pelo Rá.

Silêncio. Sasuke continuou apenas o encarando sem reação. Talvez ele não tivesse mesmo nada a dizer para Naruto, talvez aquela relação lhe servisse apenas como instrumento. Vinha segurando até então, mas ia soltar, estava pronto para desistir e seguir em frente. Mas então Sasuke se moveu. Ele deu meio passo em frente, segurou seu rosto com as duas mãos e colou os lábios nos seus. Naruto mal conseguiu reagir. Com um estalo, Sasuke o soltou e voltou o meio passo para trás, voltando a encará-lo com seu ar aborrecido, Naruto retribuía com um olhar chocado.

— E isso — finalmente conseguiu murmurar, depois de um silêncio demasiado longo — foi algum cumprimento egípcio estranho ou… alguma coisa do Thoth …?

O outro rolou os olhos e bufou.

— Não, isso foi o Sasuke imaginando como seria beijar o Naruto na boca — ele retrucou ríspido.

— Oh…— Naruto começou a sentir o rosto queimar e o coração disparar sem controle. Sua voz mal saía — E ele… gostou?

Sasuke desviou os olhos e voltou a andar.

— Gostei.  Ele pigarreou. — Enfim, se você não for mais prestar atenção, podemos voltar para a faculdade.

— Não, eu vou prestar atenção!

Não que depois daquilo Naruto conseguisse ter algum resquício de foco, mas certamente não desviou mais o assunto, porque sua mente parecia ter se esvaziado por completo.

Voltaram ao escurecer. Continuava com o beijo na cabeça, estava nas nuvens comemorando que houvesse eliminado duas de suas inseguranças: Sasuke o enxergava além de sua função celeste e, ao menos até certo ponto, retribuía seus sentimentos. Mas Naruto não queria um selinho, queria muito mais. Jamais tivera sequer a chance, passando a puberdade inteira trancado e reprimido de todas as formas. Estava louco para estender suas asas, pronto para irromper tudo o que tinha guardado em si e agora que uma fresta se abria na sua frente, estava desesperado por mais.

— Eu vou trabalhar naquele artigo  Sasuke anunciou ao chegarem na porta de seu quarto —, me chame se precisar de alguma coisa.

Naruto mordeu a boca, estava tendo uma ideia idiota. O outro percebeu sua hesitação e parou em meio caminho de entrar, a mão na maçaneta, esperando que dissesse alguma coisa. Mas ele não disse nada, em vez disso tomou fôlego e empurrou Sasuke para dentro, roubando sua boca num beijo afoito.

Estava pronto para ser enxotado para fora do quarto aos tapas, mas isso não aconteceu. Sasuke fechou a porta e o prensou contra ela, aprofundando o beijo e segurando sua cintura por dentro do terno. Naruto suspirou, deixou as mãos subirem pelas costas do rapaz, deslizarem por seus ombros e sondarem seus braços. Gostava do sabor de sua boca, do corpo dele pressionado contra o seu, de como as mãos dele entravam sorrateiramente por debaixo de seu colete para massagear sua cintura, da forma que ele impunha a coxa entre suas pernas e a friccionava contra a sua intimidade. Sentiu o corpo arder, seus joelhos fraquejaram, soltou um gemido alto e sôfrego.

— Não  Sasuke repreendeu, afastando o quadril e a boca para mirar seus olhos. — Ainda não.

— Não para  suplicou apertando seus braços.

— Não vou parar.

Contrariando o que disse, ele deu um passo para trás. Naruto poderia chorar de frustração, sentia-se tão febril e excitado que contorcia os dedos dentro do sapato e estava inteiro arrepiado. Mas Sasuke parecia saber o que estava fazendo um pouco melhor do que ele, se livrou apressado do terno e do colete, depois o puxou pela roupa para voltar a beijá-lo ao mesmo tempo em que também o despia das peças e o guiava para perto da cama. Ele levou as mãos ao seu colarinho e desceu desabotoando a camisa, depois o virou pela cintura para despí-la por trás. Por um instante, Naruto lembrou que não queria que ele visse as marcas em suas costas, mas antes que tivesse tempo de organizar os pensamentos e esboçar alguma reação, o outro começou a distribuir beijos nuca abaixo e ele só conseguiu focar em manter sua respiração funcionando.

Ainda colado às suas costas, Sasuke deslizou as mãos de sua cintura para o cós da calça e a desabotoou. Naruto se arrepiou por inteiro só com aquilo e ganhou uma risadinha rouca em seu ouvido. Depois ele afastou o corpo, apenas a boca continuou colada ao seu pescoço, e quando voltou a abraçá-lo, também havia tirado a camisa. Tornou a virar Naruto para si e, desta vez, o empurrou para cima da cama, onde voltaram a se beijar e tatear o corpo alheio com voracidade.

Tinha a sensação de que sua cabeça não conseguia acompanhar a velocidade daquilo muito bem, mal percebeu em que ponto haviam tirado os sapatos, mas de repente estavam enroscados um no outro inteiramente despidos. Viu Sasuke levar a mão à boca, depois teve um arrepio violento ao sentir ele passar a saliva em seu ânus, logo estava fincando as unhas com força nas costas dele e sentindo uma dor intensa que parecia que ia rasgá-lo ao meio. Deixou um grito escapar, Sasuke abraçou sua cintura, lhe deu um beijo na testa e outro nos lábios, esperando que se acostumasse com a sensação antes de se mover. Ainda doía quando começou, mas Naruto não se importava muito, antes que percebesse haviam voltado a devorar a boca um do outro enquanto aumentavam a velocidade das estocadas, Sasuke agarrando suas coxas e o traseiro com gosto, ele com uma mão enroscada nos cabelos, agora bagunçados, do parceiro e a outra fincando as unhas na cabeceira.

Nenhum dos dois durou muito, logo se largaram ofegantes. Sasuke se ergueu sobre os cotovelos para sair de cima do outro e levantou a cabeça. Seu queixo caiu em choque, Naruto observou confuso enquanto a cor de sua face mudava de um vermelho vivo para uma palidez preocupante. Sasuke sentou-se apressado entre suas pernas e agarrou seu joelho para dar uma sacudida, Naruto entendeu o sinal e se ergueu também. Ao virar de costas para o rapaz, entendeu o motivo de seu espanto: a cabeceira da cama, que costumava ser lixada e polida, parecia ter se tornado um tronco vivo. Havia pequenos galhos e vinhas enrolados por toda a madeira, com folhagem e pequenas flores de cores muito vivas, tudo saindo do ponto onde estava sua mão momentos antes. Naruto sentiu o desmaio um segundo antes de tudo escurecer.


-


Estava deitado, conseguia sentir o lençol sob suas costas, mas ainda não havia recobrado consciência o suficiente para se mover. Sasuke tocou seu rosto. Lembrou-se do que acontecera, haviam transado, estava radiante de felicidade. E ele transformara a cabeceira numa árvore viva. Era isso o que acontecia quando era criança, fazia umas flores brotarem do assoalho, certa vez reanimara um camundongo morto. Claro que podia criar vida, fora ele quem criara toda a vida do planeta, os homens vieram de suas lágrimas. Sasuke tocou seu rosto novamente. Quem diria que amaria Thoth assim? Era seu braço direito, talvez fizesse sentido. Gostava muito de como ele havia vindo naquela forma. Estaria bem ao lado dele na guerra que estava por vir, precisavam sair da cidade antes que se tornasse uma área de risco, havia muito o que fazer.

Abriu os olhos devagar e esticou o corpo lentamente. Sasuke arregalou os olhos e se remexeu, estava sentado ao pé da cama, mas veio para perto ao vê-lo acordar.

— Naruto!  exclamou alarmado. — Como você está? Você me deu um tremendo susto!

— Sasuke…  Sua voz saiu falhada. Ele pigarreou e fez um esforço para se sentar.

— Como se sente? Está tudo bem?

— Sasuke, eu me lembrei.

— Mesmo?! Lembrou do que?

Naruto sorriu satisfeito.

— De tudo.



[*Bringing Up Baby foi oficialmente traduzido como Levada da Breca, mas a tradução oficial seria algo como "Trazendo Baby", que é o nome do bicho que eles tão levando... que eu acho.. que era um puma, mas eu n lembro... algum gatinho grande desses, talvez uma onça, n lembro AUHAIUAHUHA

enfim

M E U D E U S que correria. essa fanfic foi feita para o desafio norte e sul, meu tema era fantasia mítica, eu usei a mitologia egípcia porque eu gosto muito e tal.... Eu fiz muito mais pesquisa do que provavelmente é saudável fazer pra uma fanfic desse tamanho khsdfghskdfgjsg mas tudo oq é citado na fanfic existe, os lugares, o filme, menos os personagens, lógico, além do naruto e do sasuke eu só inventei qualquer nome britânico, er..... enfim. Eu me apego muito a esses detalhes, comecei com uma pesquisinha aqui e ali, do nada eu sabia a história inteira da comunidade lgbt na inglaterra E no egito, o mapa do metrô de londres em 1938, os filmes que estavam em cartaz, li uns trinta relatos sobre maus tratos nos orfanatos de nazareth house e mais um monte de coisa que acabou nem fazendo muita diferença no final, mas EU ME DIVERTI MUITO, recebi vários sinais divinos de que eu deveria seguir esse plot, ouvi muito é o tchan no egito AAAAAALIBABÁ O CALIFA TÁ DE OLHO NO DECOTE DELA

enfim, espero que vcs tenham gostado! aaaa *morre*]

3 de Septiembre de 2018 a las 02:58 4 Reporte Insertar 24
Fin

Conoce al autor

Liiz Lestrange No mundo das fanfics há mais de dez anos, obcecada com sasunaru há mais de cinco, apaixonada por todo tipo de arte e sempre exaltando meu otp como se não houvesse amanhã.

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KC Karina Costa
Eu amei cada parte dessa fic, os detalhes e o enredo tá muito perfeito ! Só estou um pouco triste por te sido único, mas mesmo sendo só esse capítulo o final não deixou a desejar. Então parabéns 👏👏
2 de Noviembre de 2018 a las 00:18
Inkspired Brasil Inkspired Brasil
MANO DO CÉU, QUE HISTÓRIA FOI ESSA??? Bom, vamos lá... Perdi o ar aqui de tão maravilhosa que essa leitura foi, tipo tô louca. A riqueza de detalhes dela é uma das mais impressionantes que li, a história se mantém, é boa de ler, leve e, quando você vê, acabou, como assim? Fiquei por horas entretida nessa narrativa, o Narutinho sofrendo por causa daquela freira do capiroto, isso mesmo do capiroto chamando ele de endemoniado e atiçando as criancinhas contra ele. Nossa, foi de partir o kokoro. Depois veio o Sasuke e salvou a pátria. Tudo foi de tirar o fôlego... Quando o Naru descobriu a verdade, gritei. Mano, o enredo foi incrível, fiquei muito feliz de você ter persistido nele, até porque casou direitinho com o desafio, então lá tu absorveu não só a mitologia egípcia como absorveu o desafio, fez um puta trabalho épico de pesquisa e entregou algo sensacional. Está de parabéns! E, se não fosse tudo isso que citei, meu deus, que lemon maravilhoso!!! Fiquei feliz ao ler que tu se divertiu com o desafio, espero você mais vezes para ter essa experiência fantástica de leituras outra hora! Beijinhos 😘
4 de Octubre de 2018 a las 14:18
Celi Luna Celi Luna
Calma estou muito abalada ainda antes de comentar aaaaaaaaaaaa Mds q história linda toda delicadinha e ainda envolvendo mitologia egipcia q é maravilhosa. Eu digo delicadinha no sentido de tipo, é um fluffy mto gostosinho de ler, vc le le e não ve o tempo passar por estar morrendo de amores em como o sasuke trata o naruto, ele é tão anjo aff aaaaa todo dedicado em ensinar ele sobre o passado e as lendas e tirar ele daquele local horrível (Será que é pecado eu querer bater em uma freira?) E essa relação de Rá faz todo o sentido com o Naruto pq ele é um raiozinho lindo de sol com certeza suahsuahsuahsua MAS E ESE FINAL? QUERO UMA CONTINUAÇÃO! COMO ASSIM ACABA NA MELHOR PARTE PRA ME DEIXAR CURIOSA AFFS, deixo minha unica reclamação aqui, por que o resto tá linda
8 de Septiembre de 2018 a las 20:10
Ellie Blue Ellie Blue
Eu ainda to sem reação. Calma! Respira, Sabrina, respira. Mano, o que foi isso? Como pode? Como é possível que, em uma hora, eu estava chorando e depois sorrindo como uma besta? Vamos começar do começo. Só os deuses sabem como eu ODEIO a forma como o Naruto era tratado (tanto no anime quanto aqui). Viam-no como uma aberração e o julgavam sem conhecê-lo. Isso me deixa tão mal, fico enjoada só de pensar. Ninguém merece ser tratado dessa maneira, ninguém. Assim como o personagem, Naruto, meus sentomentos variaram entre tristeza, desconfiança e extrema alegria. A forma como ele pensava que era tudo mentira, me deixava tão... não sei, incomodada? Quando se vive em condições como as qie ele viveu, acho que é meio difícil acreditar quando algo bom acontece e isso me deixa tão triste. Além de tudo, nós tivemos mitologia egípcia e, mano, como eu amo mitologia egípcia! E também tem a escrita. Sua escrita é assustadoramente maravilhosa! Eu adorei a forma como você descreveu as cenas, os sentimentos do personagens, estava tudo extremamente magnífico. Bem, é isso! Eu realmente amei.
5 de Septiembre de 2018 a las 17:14
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