Retrocesso Seguir historia

rk Raíssa Kreppel

Em meio a tantos excessos Chanyeol se encontrava em uma encruzilhada pessoal onde Baekhyun não existia. Sentindo o impacto de uma realidade totalmente nova e deturpada, o peso de sua vida passada e sentimentos enjaulados, aqueles pesos começaram a cair sobre si. Ligações que levariam algum tempo para se resolver, afinal, por mais ferido que Chanyeol estivesse, não existia em si o medo de retroceder, mesmo que isso significasse abdicar de tudo aquilo que mais amava, encarar dias solitários ou seus demônios de perto. [chanbaek | continuação de Tá Osso]


Fanfiction Bandas/Cantantes Sólo para mayores de 18.

#drama #angst #chanbaek #exo #baekhyun #chanyeol #tá-osso #chanyeol-baekhyun
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Um novo começo

Era noite quando Baekhyun tocou a campainha de Chanyeol. Ele estava nervoso e meio apavorado com a ideia que colocara na cabeça desde o dia que foi hospitalizado; não que diminuísse qualquer sentimento de angústia ou de um provável arrependimento, mas era uma causa necessária. Ao menos era assim que pensava até pousar o olhar na expressão cansada do mais novo.

Um novo sentimento, uma nova escolha e isso deixaria de lado qualquer ressentimento que poderia surgir naquele apartamento. Era tão injusto e contraditório que resolvesse ficar por pura pena. Não por amor, mas por pena.

Ou medo que não conseguisse seguir em frente. Afinal de contas foi Chanyeol que ficou ao seu lado, mesmo quando o culpava — de certa forma — pelas torturas que sofreu — e claramente era um pensamento perturbador, deveras insensato. Entretanto, como conseguiria fingir que nada havia acontecido? Como passaria em cima daquele pressentimento horrível?

Supor que poderia abraça-lo como no início do namoro; quando ambos sequer possuíam maturidade para decidir alguma coisa propriamente dita. Era, inclusive, uma lembrança engraçada.

O moreno bonitão que cursava direito, levando consigo suspiros sagazes, olhares admirados e seu amigo paspalho que só faltava babar numa veterana de enfermagem. Eram a dupla dinâmica, isto quando não estavam vadiando pelo campus da faculdade.

Baekhyun gostava de admirá-lo quando o via correndo pela pista de atletismo, às vezes revelando bem mais do que permitido enquanto arrancava mais arfares e imaginações quentes do pequeno. Certa vez até se esqueceu dos cálculos em uma prova importantíssima para fantasiar os músculos tensionados implorando por descanso ou uma massagem seguida de beijos molhados.

Era frustrante e engraçado. Até mesmo pelos zeros que recebera em provas e trabalhos do semestre.

No entanto, ao mesmo tempo em que Chanyeol partia para a sua primeira ida ao inferno, o Byun ficou chocado quando descobriu que o “moreno bonitão” resolvera trancar a faculdade por alguns problemas de saúde. O menor chegou a se questionar como alguém que, aparentemente, corria cinco vezes pela pista de atletismo podia deter problemas de saúde. Não fazia sentido.

Meses se passaram e lá estava Park retornando aos estudos, arrastando mais calcinhas molhadas e cuecas apertadas atrás de si. E o desgraçado nem ligava, era o que mais irritava Baekhyun; um Baekhyun, aliás, com muito tesão acumulado e que puxava os cabelos para que o gigante olhasse para si.

Foram tempos melhores e mais fáceis de lidar. Não possuía tantas preocupações ou questionamentos sobre como deveria se portar. Se deveria ficar e lidar com todo aquele desprazer horrendo que sucumbia seu âmago.

— Baekhyun.

— Chanyeol — Balançou a cabeça num cumprimento formal. — Eu posso entrar?

O maior piscou os olhos devagar como se processasse a informação ao mesmo tempo que dava uma brecha para Baekhyun entrar no cômodo aconchegante. Chanyeol apesar de deter uma personalidade excêntrica e, por vezes, em uma mistura muito estranha de sensualidade e fofura sempre preservava os aposentos de uma maneira agradável.

A sala era um bom exemplo. O sofá em éle repleto de mantas e almofadas coloridas; o tapete tão confortável quanto a mobília cromatizada; a mesa de madeira extensa no decorrer da sala e mesmo as luzes amareladas surtiam um efeito hospitaleiro. Não era atoa que sempre se sentia calmo nos momentos que passava ali.

Metodicamente retirou os sapatos lustrosos, detendo certa dificuldade devido a perna machucada enquanto negava toda e qualquer ajuda que partisse do namorado. Por mais que aquilo causasse dor ou forçasse quase um pedido de socorro no tempo que se livrava dos calçados.

— Tem certeza que não quer ajuda? — Chanyeol questionou, andando lentamente atrás do mais baixo; seu lado super protetor em completo alerta, pois não queria que Baekhyun se machucasse ou sofresse como vinha sofrendo nas últimas semanas.

— Sim — Sussurrou ao apoiar as muletas próximas ao braço do sofá.

— ‘Tá tudo bem? — Soltou a pergunta estúpida, mesmo sabendo que o retorno seria negativo. Ele só queria escutar a voz do mais velho, sentir o arrepio gostoso atravessar toda a derme escondida pelas mangas compridas enquanto percebia o peito ser preenchido por algum tipo de afeto. — E-eu sei que foi uma pergunta impertinente — Justificou-se quando notou o observar debochado do outro. — Desculpe.

Assim você estraga o meu deboche, Chanyeol — Disse, atraindo os orbes castanhos repletos de aflição para si. — Nós precisamos conversar.

— Fiz alguma coisa errada? — Indagou parando em frente ao pequeno que sentou sobre as mantas macias. — E-eu sinto muito, de verdade.

“Fez e não fez, Chan”, pensou se sentindo incomodado pelo o olhar culpado de Chanyeol. Aquilo seria mais difícil que pensava e honestamente uma conjuntura que sequer imaginou passar.

— Não é algo que possamos mudar — Fitou-o. O frio na barriga aumentava cada vez que se inclinava acerca de uma frase bem montada, porém malditamente presa pelo nó na garganta. Não queria ir embora, não queria. — Acho que precisamos de um tempo — Foi direto no mesmo momento que o estômago embrulhava e a perna boa tiritava em nervosismo.

— O quê?

Aquela frase servira como um soco na boca do estômago, fazendo-o se sentar no amontoado de almofadas lançadas pelo tapete. A testa se enrugou no tempo que os braços enlaçavam a própria cintura em uma posição de ‘autodefesa’.

— Por quê? — Mordeu o lábio inferior.

— Não quero explicar os meus porquês, Chanyeol — Retrucou, fitando-o preocupado. — Não acho que vale a pena, não nesse momento. Eu... — Respirou fundo — Eu preciso de espaço ‘pra pensar e sei que é isso que você precisa também.

— Por que insiste falar por mim?

— Ok, eu não falo por você — Devolveu. — A questão é que eu, Byun Baekhyun, preciso de um tempo. Preciso ficar longe de você, Chan, tente entender isso — As vistas estavam nubladas enquanto ele tentava engolir o soluço de um choro latente. — Eu tenho que aprender a não culpá-lo.

— Culpa? Que porra de culpa, Baekhyun? — Estava desacreditado com o que escutara. — Por Jongin? É isso que ‘tá tentando me dizer? Acha que eu pedi ‘pra ele entrar na minha casa, no meu quarto e machucar você?

— Chanyeol...

— Não, Baekhyun! — Levantou-se. — Você não sabe como me sinto desde o dia que o encontrei machucado sobre a nossa cama, não sabe o quão apavorado eu fiquei. Você não sabe — Permitiu que as lágrimas manchassem as bochechas. — O inferno que foi para trazer o batalhão até a minha casa, fugir de todos os questionamentos do porquê de você estar completamente ensanguentado e apagado na minha cama. O quanto eu chorei querendo abraça-lo, querendo o mínimo de notícias suas e não conseguir quase nada.

— Ele veio atrás de você, Chanyeol! — Berrou, segurando o tecido da calça.

— Ele veio atrás de nós! — Soltou um riso incrédulo. — Meu Deus, como pode pensar que eu tenho culpa desse psicótico querer te machucar? Eu... Eu sei que tenho minha parcela de culpa, sei que não fui perfeito e me culpo todos os dias por não pegá-lo, Baek. — O queixo tremia em desespero; os braços completamente estagnados ao lado do corpo ao mesmo tempo em que fechava as pálpebras para pensar melhor e não encontrando qualquer resposta. — Sabe o que dói mais?

— Não — Abaixou a cabeça, entregando-se também ao choro.

— Saber que você não confia mais em mim, em nós.

— Não é isso, Chan.

— É exatamente isso, Baekhyun — Engoliu seco. — Não existe motivo ‘pra continuar um relacionamento onde você me culpa por ser torturado e eu me culpo por não salvar você. O meu coração se quebra todas as malditas vezes que revivo as cenas, eu sou um asco.

— Chan — Chamou num gemido sofrido.

— Você quer um tempo, não é? — Perguntou retoricamente. — Tome o tempo que precisar, Baek.

[...]

As costas estavam apoiadas na porta do próprio apartamento. Em uma tentativa quase inútil ainda arriscava puxar o ar rarefeito, sendo poucas as tentativas com sucesso que chegaram em seus pulmões. Os polegares tentavam barrar as gotas fujonas desde que pusera os pés fora da casa do ex-namorado e, inevitavelmente, sentia o peito em chamas.

Baekhyun estava triste. Magoado. Cansado.

Tudo que almejava do fundo do coração era um abraço carinhoso o suficiente para acolhê-lo e protege-lo. Em contrapartida queria ficar sozinho para pensar nas decisões que tomara e isso incluía a demissão que deixara em cima da mesa do Coronel horas antes de encontrar Chanyeol.

Baekhyun sabia que não fazia diferença no final das contas, porque sempre frisavam o quão estúpido e fraco ele era e naquela conjuntura onde tudo desabava sobre sua cabeça, não deixava de concordar. Não foi feito para se aventurar como policial, não. Nunca foi sua praia, na verdade; por mais que tivesse participado de tarefas perigosas ou se comportasse como um louco.

Amava números; amava organizar e examinar documentos, planilhas e tudo praticamente controlado por uma organização impecável; essa era a sua praia. Nada de armas ou correria e nada de agir como um imbecil para chamar atenção dos colegas de equipe.

Tantos anos de treinamento para segurar um fuzil e atuar como um verdadeiro escroto; inclusive ao montar um cenário em que todos acreditavam nas palavras hipócritas e ‘motivacionais’ quando por dentro estava completamente devastado. Ele pensava nas situações em que se comportava como um maníaco; um maníaco fictício e que só queria carinho do namorado, este que apenas se preocupava com o trabalho e como teria que ser perfeito.

Quantas vezes não se escondeu no banheiro do batalhão para respirar, tomar um fôlego cada vez que a cabeça entrava em pane? Ele não era obrigado a aturar aquela situação — fato —, mas não queria passar muito tempo afastado de Chanyeol e se ele saísse — da polícia —, sabia que o tempo seria escasso.

E nada o garantia que continuariam namorando.

Byun era uma pessoa carente e com inúmeras máscaras para esconder o verdadeiro eu. Um pequeno jovem que gostaria de ficar em casa, assistindo os problemas locais pela tevê enquanto sondava alguma planilha catastrófica, podia até imaginar um namorado — o seu crush da faculdade e não aquele otário que assumira seu lugar.

Com a destra tremendo, ele capturou a chave da porta para que pudesse abri-la. Havia um único desejo de colocar roupas confortáveis para que pudesse se jogar na cama e se esconder do mundo reconfortando-se no calor das cobertas e dos travesseiros macios.

Parecia bom.

E era.

Inclusive se permitir chorar por uma pessoa que já não devia significar algo para si. Nem nutrir qualquer sentimento amoroso para fazê-lo fraquejar querendo voltar atrás.

O celular vibrou avisando que alguém enviara uma mensagem. Baekhyun pouco se lembrava da existência do aparelho quando o coração se encontrava em pedaços, porém pedaços feitos pelo fruto do próprio fracasso.

Ele provocou e mais ninguém.

Soo: Baek?

Baek: O que foi, Soo?

Soo: Já ‘tá em casa?

Franziu a testa enquanto empurrava a porta com o ombro para abri-la. Ele ainda sentia os olhos arderem, porém ignorou completamente no momento que ligou a luz.

Baek: Acabei de chegar (emoji com um meio sorriso).

Soo: Quer que eu vá ‘pra aí?

Baek: Não quero te incomodar. ‘Tô horrível.

Soo: Eu sei (emoji frustrado).

Soo: Chego em trinta minutos.

Baek: Soo, sério, eu preciso ficar sozinho.

Soo: Você precisa conversar. Qualquer coisa deixa a porta aberta.

Baek: Vou esperar (emoji revirando os olhos).

Abandou o celular no aparador à medida que retirava os sapatos, demorando alguns poucos minutos para finalmente andar até o sofá e colocar a perna machucada para o alto. As dores físicas sobrepujavam qualquer sofrimento emocional, mas Byun pouco se importava; quer dizer, importava-se com a reabilitação e com a agonia que lidaria meses mais a frente, só que pensar em Chanyeol, naquele momento, não era algo que traria algum benefício.

E capaz que o próprio Park pouco se importasse.

— Céus — Esfregava os polegares contra as pálpebras, ruminando sobre os sentimentos confusos e nas condutas precipitadas que tivera naquele dia de merda. A sentença filha da puta, o plangor que o atingira depois das palavras quase cruéis do juiz e o término infinitamente diabólico; um dia e tanto. — Talvez eu devesse sumir... — Um vinco apareceu entre as sobrancelhas após sussurrar essas palavras, talvez considerando que fosse uma ideia maravilhosa.

E como nos desenhos animados, uma lâmpada apareceu em cima de sua cabeça.

Sumir.

Era isso que faria.

[...]

O moreno piscava espaçadamente enquanto fitava o anel de compromisso, não notando que o sol já nascia no horizonte para trazer mais um dia. A ardência continuava presente mesmo depois de tanto tempo chorando; Chanyeol não ligava para as evidentes olheiras ou o nariz carmesim pelo pranto que se estendeu durante a madrugada.

Há anos que não sentia aquele sentimento de vazio o consumir; era tão estranho que sequer almejava descobrir, mesmo que soubesse que em algum momento isso iria acontecer. Estava impotente demais tentando lidar com a mistura da tristeza e mágoa, sentia o gosto amargo inundar seu paladar e o coração se afundar completamente numa escuridão, com medo.

O moreno experimentava o peso da farda quase o levar ao chão junto da aliança que possuía o nome de Baekhyun. Os dígitos compridos seguravam delicadamente o único pedacinho que lembrava o castanho ao mesmo tempo em que fechava os olhos e permitia um suspiro abatido repercutir pela sala.

Sehun: Como você ‘tá?

O celular largado ao seu lado mostrou uma nova mensagem do amigo. Em algum momento da madrugada Chanyeol discou para Sehun e, entre um soluço ou outro, desligou se condenando por ser tão fraco.

Estalou a língua tomando a terrível decisão de responde-lo.

Chanyeol: Vivo.

Chanyeol: Desculpe incomodá-lo.

Sehun: Assim você me ofende. Sou seu amigo, Chanyeol, sempre que precisar de algum ombro ‘pra chorar ou ‘pra rir, sei lá.

Sehun: É até bom, porque assim eu sei que não trabalho com um robô.

Chanyeol: Tudo bem.

Sehun: Vai ao batalhão?

Chanyeol: Sim, eu preciso resolver um problema.

Sehun: Almoçamos juntos então?

Sehun: Você precisa desabafar.

Chanyeol: Vou pensar no seu caso.

O moreno guardou o celular no bolso traseiro enquanto passava o anel em uma corrente antiga, esta inutilizada desde que trancara a faculdade. Os orbes vagaram pelo cômodo para finalmente se levantar e seguir até o batalhão; Chanyeol precisava conversar com Junmyeon.

[...]

A sala estava silenciosa e escura ou quase isso. Somente a luz que saía da luminária que estava em cimada mesa dava alguma chance de enxergar algo, pois até as janelas estavam fechadas com a intenção de barrar a luminosidade do dia. O Coronel possuía uma grande mania de ficar no escuro quando ficava muito irritado e isso servia de alerta para quem fazia parte do batalhão.

Quando isso acontecia praticamente ninguém queria encontrar o Coronel. Ou ficar em seu caminho.

E era por isso que Chanyeol aguardava qualquer indício de Junmyeon enquanto sentado próximo de sua mesa. Ele não fazia questão de falar ou iniciar uma briga que certamente iria arruinar tudo que restou do psicológico abalado. Os dígitos embolados e a perna trêmula evidenciavam o quão nervoso se encontrava, tendo como único pensamento que precisava desesperadamente sair dali.

O Park suspirou ao resolver elevar o olhar para o outro, que permanecia de costas para si ao mesmo tempo que fitava uma parede desgastada e suja pela poeira que invadia o cômodo. Ambos estavam rijos e sem qualquer intenção de quebrar a atmosfera inconveniente instalada; o moreno sabia que se falasse primeiro corria um grande risco de receber um grito ou cair no choro justamente com quem menos ansiava se deparar.

Não podia fazer nada, no entanto. O maior precisava aguentar um pouco mais para finalmente chegar em casa e sucumbir aquela tristeza.

A corrente, até então escondida no uniforme, por vezes se mexia para lembra-lo que estava sozinho; dando uma falsa sensação de sufoco para deixa-lo inquieto na cadeira, aspirando internamente que o metal preso no cordão sumisse e que àquela impaciência fosse substituída por um incerto otimismo barato. Lentamente uniu as pálpebras num começo de entendimentos ruins, a derme se arrepiou conforme sentia o ar pesado bater sobre si e a respiração se tornou custosa notando a taquicardia ataca-lo a fim de fazê-lo se render.

— Chanyeol — Sobressaltou-se assim que escutou a voz do mais velho que ainda estava de costas para si repercutir pelo cômodo abafado.

— Coronel — Tentou manter a voz firme, mas logo tratou de morder a bochecha quando percebeu que não conseguiria continuar naquela pose de babaca. — Queria discutir alguma coisa? — Indagou, corajoso.

— Queria avisá-lo sobre a demissão de Byun Baekhyun — Chanyeol arregalou os olhos por não esperar uma atitude tão precoce do antigo companheiro. Ok, imaginava que ao menos um tempo ele pediria para a corporação, mas demissão? — Os superiores pediram para que o colocasse como encarregado definitivo do ‘Oeste’.

— O... quê? — Soprava o ar enquanto sentia o coração pesar numa enxurrada de emoções. A barriga doía em uma clara demonstração que a ansiedade dava “boas vindas” por todos aqueles episódios insanos que vinha vivendo e os orbes ardiam na necessidade absurda de libertar toda aquela merda guardada. — Senhor, eu... eu fico muito honrado com a oportunidade, mas terei de recusá-la.

— A questão, Park, — Debochou — é que não existe essa alternativa para você — Resolveu olhá-lo ao mesmo tempo em que se sentava em cima da mesa de metal. — Ou aceita essa maravilhosa oportunidade ou pede ‘pra sair — Deu de ombros acreditando piamente que Chanyeol não o diria “não”.

— Então posso arrumar as minhas coisas?

— Acho que você não entendeu, Park...

— Eu entendi muito bem, senhor — Respondeu ao agarrar a bainha da camiseta. — Mas não irei aceitar o cargo de Capitão do Oeste, sinto muito.

— Sente muito? — Junmyeon semicerrou os olhos. — Pelo que exatamente? — Entornou a cabeça. — Por ser um bosta como Baekhyun?

— Não se atreva dizer alguma coisa sobre ele — Murmurinhou entredentes. — Se quer dizer alguma coisa, diga logo.

— Ou o quê?

— Ou nada, Junmyeon.

— Ainda sou seu superior, Capitão Park, não o dei o direito d...

— Direito de quê? — Questionou, soltando uma risadinha infeliz. — Eu falo como quiser com você, ainda mais quando meu próprio superior não consegue ter um pingo de empatia por alguém que sofreu nas mãos de um traficante. Não estou apto para o cargo de Capitão do Oeste, Junmyeon.

— Chanyeol, — Respirou fundo conforme passava os dedos pela clavícula — eu não ‘tô com paciência ‘pra lidar com essa infantilidade sua.

— E eu sem paciência com essa sua cara debochada — Imitou os movimentos do mais velho. — Já é óbvia a minha demissão, caralho, ‘pra que ‘tá insistindo tanto?

— Porque você vai aceitar, você não tem escolha.

— Ah — Gargalhou, sentindo o ar abandonar os pulmões no processo. — O quê? Vai bancar o maníaco do parque e me obrigar a assinar os documentos, Coronel? Uau, você já foi melhor nessa merda.

— Eu posso muito bem te prejudicar caso não aceite — Sorriu.

— ‘Tô pouco me fodendo — retribuiu. — Como eu disse Junmyeon, você já foi melhor que isso e eu não sou obrigado a nada. Engraçado, né? — Internamente seus olhos estavam arregalados e com o coração na garganta. Não chegava a acreditar que aquele boçal seria tão frio ao ponto de sequer ligar para o que aconteceu e ainda por cima querer prejudicá-lo. — Não ‘tá falando sério — Olhou-o incrédulo. — O julgamento foi ontem!

— E eu com isso?

— Pera, — Passou a destra pelos cabelos cacheados para bagunça-los — as minhas alternativas se tornaram apenas uma ou é somente você que ‘tá me impedindo de viver em paz? — Elevou-se da poltrona que ficava próxima da mesa. — Você pode não ter nada a ver com o que aconteceu ontem, mas me afetou e eu já disse não, porra.

— Céus, você é mais estúpido que o Byun — Resolveu citá-lo na conversa mais uma vez. — Faz o que eu ‘tô mandando, porra.

— Não — Bateu o pé na mesma tecla.

— Chanyeol — apelou, caminhando apressadamente até o mais novo para segurá-lo na gola da camiseta. — ‘Tá pensando que é quem, porra?

— Eu ‘tô pensando que sou dono do meu nariz e não devo satisfação ‘pra um babaca que se acha o “gostosão” do batalhão — Soltou-se do aperto a medida que passava a sestra pelo amaçado feito por Junmyeon. — Eu que te pergunto: ‘tá pensando que é quem? — Franziu as sobrancelhas demonstrando a irritação que crescia em seu peito. — Você é apenas um Coronel e não o meu ‘senhorio’, amigão, acorda.

O moreno sentia as mãos tremerem num nervosismo evidente; ele precisava sair daquela salinha. O ar abafado criava uma situação pior que esperava e a sensação de sufoco apenas aumentava.

Estava perdido.

— ‘Tá agindo como vi...

— Antes que continue essa frase, senhor — Tentou respirar fundo. — Preciso dizer que possui uma fascinação muito grande por nós e, claro, — Mexeu os ombros na pequena atitude cínica — por Baekhyun. Não que eu tenha alguma coisa a ver com a sua vida — Bateu as mãos para procurar uma forma de diminuir o mau humor. — Mas vamos melhorar esse seu empenho de querer usar palavras ‘depreciativas’ como xingamento. ‘Cê pode fazer melhor que isso, uh? — Deu uma piscadinha.

— ‘Por nós’? — Repetiu as duas palavras que não faziam sentido.

— Ah, meu Deus, como eu posso explicar? — Continuou irredutível com o tom debochado. — Upa — Deu uma tapa na própria cabeça como se lembrasse de algo. — Não tenho que explanar nada, mas já que você, Junmyeon, é uma pessoa altamente aplicada no que diz respeito ao “Baekhyun” e “homossexuais”, eu devo frisar que sua fixação nesses dois assuntos o fará mal.

— Vai direto ao ponto.

— Oh, agora quer que eu vá direto ao assunto? — Foi devagar até chegar ao lado do mais velho, aproximando os lábios do lóbulo esquerdo. — Por nós, Junmyeon, gays.

Não conseguiu evitar que um sorriso astuto aparecesse, como se apreciasse as feições céticas do menor. Em poucos segundos, os punhos do Coronel tentaram alcançar o rosto de Chanyeol, que logo tomou distância em virtude da quase agressão.

— Cuidado — Alertou com a sobrancelha erguida. — Você não pode fazer o que quiser, Coronel.

— Posso, sim — Pendeu a cabeça para o lado enquanto formava um vinco no cenho. — Você ‘tá tão fodido, Chanyeol.

— Vou esperar ‘pra ver — Bateu as palmas das mãos contra as coxas. — Se me dá licença, eu vou arrumar as minhas coisas. — Fez a continência pronto para sair do aposento. — Ah, antes de mais nada, eu tenho pena de você. Um, por esse seu preconceito babaca. Dois, por você ser babaca. — Suspirou. — Vai pela sombra, Coronel. Um dia essa crista cai.

[...]

Chanyeol sabia que não era a melhor decisão quando resolveu confrontar Junmyeon, ainda mais quando revelou sua orientação sexual para alguém que sequer era importante em sua vida. A verdade era que ele não tinha alternativa se não usá-la para sair daquele lugar; era sabido que o Kim jamais o “demitiria” por apenas querer — mesmo que supostamente apresentasse duas alternativas.

Naquele dia, quando infelizmente teve que revelar algo íntimo para sair da corporação, o moreno recebeu uma nota provisória que estava sendo afastado do cargo; o que, claro, arrancou uma gargalhada altíssima de si. Não imaginava que o preconceito movia tão rápido as pessoas, afinal de contas aquela nota demoraria duas ou três semanas para ser emitida.

E, claro, que logo a notícia chegou aos ouvidos do Capitão do Sul; ele brotou na sala do ex-companheiro de equipe completamente desacreditado e horrorizado. O pobre coitado até tentou conversar com o Coronel, mas tudo que recebeu em troca foi um tapa na cara e uma represália para que parasse de defender “baitolas” — a vontade estúpida de Sehun em querer agredi-lo não pode ser comentada.

Enfim, felizmente Chanyeol havia saído daquele batalhão — e infelizmente percebeu tarde demais que deixara muita coisa de lado pelo BOPE. A graduação, dignidade, sanidade e, principalmente, Baekhyun; percebendo tarde demais que não podia voltar no tempo e acreditando que tudo era culpa sua.

O que não era verdade.

Depois que a advertência se tornou definitiva, pondo-o como um sujeito completamente incompetente e que sequer poderia tentar algum cargo em outro órgão policial, Chanyeol tomou uma grande decisão de vender tudo o que tinha. Era precipitado?

Absolutamente.

Entretanto, ele precisava estudar e de dinheiro para sustentar algum muquifo para que pudesse guardar suas roupas. Não duraria muito, no entanto. Era um novo começo, inclusive para a própria cabeça que implorava por uma pausa.

E enquanto isso não acontecia — a questão de encontrar um novo lar —, ele fora praticamente arrastado para a casa de Lu e Sehun que estavam muito preocupados com o amigo. Ainda assim, mesmo que tivessem todas as preocupações do mundo e quisessem externá-las para que Chanyeol se sentisse melhor, ele mesmo sabia que não poderia viver num mundo utópico.

E sabemos como Park não aguentaria conviver tanto tempo com o casal; ok, tudo bem, eles queriam ajudar. Queriam resguardá-lo de todos os males que poderiam acontecer consigo, mas não era assim que tudo se resolveria. Não que não gostasse dos amigos, era mais uma questão de querer um tempo sozinho e respeitar a intimidade de ambos.

Chorar até que tudo estivesse resolvido ou ao menos em partes. Era um grande começo e solução para tudo aquilo que vinha acontecendo. Parecia bobo, talvez supérfluo demais e completamente necessário para Chanyeol. Antes ele se sentiria muito babaca por ter vontade de chorar o que sequer fazia sentido e não o deixaria menos temido.

Tudo bem se você quiser chorar, ok? Ninguém seria melhor ou pior que isso; na verdade, valeria a pena. Não partilhando alguma opinião com relação a qualquer assunto que estiver acontecendo, mas guardar tudo para si e lidar com esse sofrimento sozinho seria pior.

Machucaria mais. Doeria. Doeria tanto que em algum momento ficaria insuportável, tipo uma bomba relógio. E, honestamente, era tudo que se encaixava na vida complexa de Chanyeol.

Não falando que fosse algum acaso do destino ou que dar o braço a torcer acabasse sendo a pior escolha, não era isso! A questão era que: guardar tanta mágoa e ressentimento e misturá-la com todas as péssimas decisões que tomara acabavam o machucando além da conta.

E não havia o que mudar ou como mudar. Essa era a mais pura verdade: o tempo não voltaria para Baekhyun ou para a situação com o Coronel. Chanyeol precisava lidar com a circunstância fosse boa ou não.

E, cara, o cenário que o moreno se encontrava não era nem um pouco bom.

— Tem certeza que eu posso ficar? — Indagou pela vigésima vez. Os pensamentos massacrando seus pensamentos a todos os instantes enquanto uma ondinha de tristeza inundava seu âmago.

Um revirar de olhos partiu da mais velha que logo tratou de capturar a pequena bolsa presa nos ombros do amigo.

— Se perguntar isso mais uma vez, eu vou encher a sua cara de bolacha — Elevou a sobrancelha. — Você é praticamente um irmão ‘pra mim, seria muita babaquice minha se não ajudasse — Retirou-se para o quarto de hóspedes.

— Sabe que não precisa fazer isso, né?

— Até parece que você não quer ficar com a gente, Chanyeol — Notou o olhar de soslaio do amigo. — Nunca deixaríamos você na mão, espero que saiba disso — Passou o braço direito pelos ombros do maior. — Você é da família.

— Obrigado — Abaixou a cabeça, sentindo os olhos arderem. Um sentimento de conforto preencheu o peito, deixando-o quase sufocado por senti-la depois de tanto tempo. — A-acho que preciso deitar um pouco — Arranhou a garganta, tentando disfarçar a voz embargada.

— Vai lá. Você precisa descansar.

[...]

Uma feição desgostosa estampava o rosto de Baekhyun. Certo que não era o melhor lugar para recomeçar, mas já era alguma coisa quando sequer pensava em seu antigo apartamento no centro do Rio; não quando significava pensar em Chanyeol e o namoro deveras turbulento. Nem era opção. Ele precisava melhorar físico e mentalmente para retornar ao lar — e não necessariamente para o Park.

O quartinho do pequeno hotel era mais que suficiente para pouco tempo, assim era o esperado. E mesmo que tivesse uma parede mofada, uma televisão em tubo que deixara de funcionar, os cobertores fedidos a suor ou os azulejos do banheiro completamente encardidos e cheios de limo; era um bom lugar para passar o tempo.

Bobagem!

Era péssimo, mas ainda assim fingir que era um cômodo maravilhoso seria uma benção para a ignorância. Não havia opções e não era como se ele tivesse várias possibilidades para se refugiar. A questão era que realmente sequer existia a alternativa; ou era aquilo ou aquilo e acabou.

Sim, ele possuía recursos e fundos para se aventurar em um maravilhoso hotel, porém qual seria a graça quando se estava sozinho e provavelmente esgotando a única coisa que funcionaria como sua redenção?

Baekhyun estava solteiro, cansado e repleto de mágoas consigo mesmo. O pretexto que usou para se afastar do mais novo era ridículo e sem cabimento — e nem adiantava ele tentar se convencer daquela mentira porca e cuspida que metera em Chanyeol, não funcionaria dentro da própria cabeça —, estando sozinho poderia colocar em prática todas os arrependimentos possíveis.

E ele sabia que o primeiro seria o ex-namorado.

Chegava ser ridículo. Culpá-lo por algo que tanto batalhou para não acontecer; conseguia imaginar os orbes cheios de lágrimas e ressentimento, medo. O castanho sabia que Chanyeol não queria perdê-lo, tinha medo da solidão e da própria cabeça; mas ele precisava ser egoísta.

Ao menos uma vez.

A vista do quarto dava para uma pequena praça e lojinhas de comida. Não havia barulho de trânsito ou gritaria de criança. Mas o melhor de tudo era o peço baratinho daquele lugar — devido ao péssimo estado do aposento, qual é. Supostamente deveria se sentir acolhido apesar dos outros fatores já citados e era aquilo.

Não havia mais alguma coisa para se questionar ou afirmar, no fim das contas para Baekhyun sua saída sempre seria mesma. Não podia olhar para os lados nem respirar mais devagar para pensar.

Tinha que começar a aceitar a nova realidade imposta por si.

Uma vida no qual Chanyeol não faria mais parte e cujo seu único foco seria melhorar a perna. Parecia bom, exceto quando seus próprios pensamos o traiam e o levavam para a pessoa que tomava suas horas com tantas preocupações e nenhuma ao mesmo tempo.

Egoísta. Tinha que ser egoísta!

Os punhos bateram contra as têmporas num sinal de exaustão com tantos pensamentos turbulentos. Aquele era o primeiro sintoma que entraria em desespero junto do andar desorientado pelo quarto enquanto tentava respirar.

Chanyeol — Fechou os olhos, implorando para si mesmo não chorar. Não deveria. Não podia. Não queria. — Channie, me ajuda.

A destra se movimentou para frente do tronco para que não esbarasse em nada e caísse estatelado ao chão — notoriamente ele repetia para não cair em prantos e desistir daquela loucura toda. Ainda de olhos fechados Baekhyun andou devagar pelo cômodo, procurando alguma cadeira ou pelo sofá desgastado para que pudesse sentar e sossegar.

Talvez fosse o desgaste da pequena mudança. Ou apenas o inevitável daquilo que poderia acontecer, ele estava psicologicamente acabado e fisicamente destruído.

Quando finalmente sentiu o acolchoado do sofá, o moreno se permitiu abrir os olhos para arrumar o “cantinho da soneca”. E no momento que menos esperava sentiu um caminho úmido ser trilhado pela bochecha; era quente e emocionalmente desconfortável.

A boca se abriu e sem qualquer permissão os soluços inundaram a sala. As lágrimas saíram desenfreadas e tudo que ele sentia e queria era somente chorar até que a sensação fosse embora, mesmo sabendo que aquele sentimento ficaria por um longo tempo.

Naquele instante.

Naquele mínimo momento em que se permitia estragar o seu novo começo, Baekhyun chorou.

Chorou por todas as vezes que não se permitiu chorar.

Chorou por saber que precisava de Chanyeol.

E chorou por saber que ele também precisava de si.

18 de Enero de 2019 a las 23:13 0 Reporte Insertar 0
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