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Olho para o calendário. Vinte dias já se passaram. Vinte dias equivalentes cada um a dois ou três meses, longos e em sua maioria, vazios. Esse ritmo lento me incomoda porque tenho muitas horas à disposição para viver algo que possa compartilhar com você se acaso retornar, se reconhecer no brilho do seu olhar que ainda ocupo uma posição de importância na sua vida, porque na minha você é uma porção tão relevante que eu estou me afogando em dor e já nem faço mais questão de impedir que venha o choro, o desejo de escrever banalidades que vou guardar por aí, ouvir certas músicas que me aproximam de você.


Cuento Todo público.

#carta-de-amor #carta #melhores-amigas #conto #saudade #2010 #amor #inspiração #separação
Cuento corto
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Até mais

Olhar para trás tornaria não aquela situação mais difícil do que já era sem o acréscimo de que quem os narra é de natureza dramática. Não olhar nem uma única vez para te ver perdida naquele mar de gente. Para não doer ainda mais o fato de que a distância é impactante de qualquer forma. Para não ceder ao impulso de correr atrás e gritar a plenos pulmões tudo aquilo que proferido foi no silêncio de um olhar.

A visão estava turva porque aquelas lágrimas que acudi para demonstrar que ficaria bem decidiram me trair. Inspirei fundo, depois expirei para libertar de vez aquele desespero de uma criança assustada no primeiro dia de aula. Chorei tanto que dei graças pela chuva que caiu no meio da tarde e me encharcou durante o trajeto de volta. A parte mais triste, não minto, era apagar o seu cheiro do meu corpo enquanto o chuveiro também chovia comigo, sem o menor pudor.

Sentada na cama com as pernas cruzadas, trouxe o travesseiro para o meu colo e o abracei, encostando a cabeça ali, fechando os olhos para fazer de conta que naquele instante meu mundo cabia num par de braços e eu me encaixava tão bem no seu ombro, no entanto o travesseiro não tem o cheiro do seu xampu nem o calor de um coração apaixonado pela vida, é só um artifício para aliviar esse aperto no peito que guardo a sete chaves e meia, como que me equilibrando no parapeito de um prédio em ruínas.

Eu continuo sendo eu sem você, mas estou dispersa, cansada, mais introspectiva do que de costume, fazendo o que precisa ser feito com a estranha sensação de que algo está fora do lugar e isso não tem nada a ver com a bagunça que se encontra dentro do meu guarda-roupa. É algo mais profundo, mais difícil de externar, até porque eu seria prolixa e correria o risco de soar ridícula, demagoga.

Olho para o calendário. Vinte dias já se passaram. Vinte dias equivalentes cada um a dois ou três meses, longos e em sua maioria, vazios. Esse ritmo lento me incomoda porque tenho muitas horas à disposição para viver algo que possa compartilhar com você se acaso retornar, se reconhecer no brilho do seu olhar que ainda ocupo uma posição de importância na sua vida, porque na minha você é uma porção tão relevante que eu estou me afogando em dor e já nem faço mais questão de impedir que venha o choro, o desejo de escrever banalidades que vou guardar por aí, ouvir certas músicas que me aproximam de você.

Desde o último dia em que nós nos vimos, tenho usado largamente outro escudo que me torna uma hipócrita, aquele famoso "está tudo bem comigo", só que não, não está, não sei se algum dia estará, porque vou guardando a dor dentro do peito para acolher outros rostos chorosos que precisam do meu carinho e me esqueço de que também necessito de cuidados, de amor, de um pouco de atenção, porque quando eu estava com você não havia “assunto proibido”, a franqueza era recíproca.

Na maioria do tempo eu me sinto pisando em ovos porque preciso filtrar o que vou dizer a certas pessoas porque por trás de um sorriso afável encobre-se o fel da indireta, da vaidade, da competitividade, contudo com você eu costumava caminhar ao lado, você me ensinando a ver as coisas de outro jeito, com uma leveza tão sóbria, tão sublime, que é realmente difícil imaginar que estou executando o mesmo percurso e apertando os lábios para não desabar. Não porque seja errado ou tolo. Desabar me humaniza e você mesma me disse que eu não tinha a obrigação de carregar todo peso do mundo em meus estreitos ombros. Desabar significa, em outras palavras, impor limites a mim, não àqueles que me impedem de progredir, mas para suportar.

Você sorria e eu olhava para os seus lábios, era involuntário. Cada gesto, cada movimento, cada sílaba e a entonação, cada emoção exprimida. E eu sorria também, segredando quantas vezes imaginei que poderia haver uma harmônica junção entre nossas bocas, quem sabe algo parecido com um beijo, se ele pudesse ser a ponte que eu percorreria sem resmungar até aquele universo criado por mim e por você, a junção de toda a nossa essência, a construção de um mundo à parte, meu e seu, sempre nosso, mais do que qualquer coisa no mundo.

Você costumava dizer que eu deveria sorrir mais porque gostava de me ver contente. E eu sempre cismei em não sorrir para a câmera. Sempre me esquivei, como evitava me fitar naqueles espelhos enormes emoldurados no banheiro da escola onde minhas olheiras pareciam mais roxas do que nunca e a pele sem viço algum, onde todos os fios do meu cabelo soavam desajeitados, tanto quanto minhas tentativas de manter uma relação sadia com a balança, com aqueles ponteiros que me indicam sempre o quanto estou longe da perfeição.

Olhar para trás, eu olhei, antes de te perder de vista, porque nada me custou tanto quanto soltar a sua mão e te deixar ir porque antes de você ser minha melhor amiga, fez suas escolhas, sempre deixou claro que era uma alma livre e decidiu alçar esse voo tão desafiador para quem tem medo de ter medo. Ir para tão longe da zona de conforto. Impossível não admirar sua ousadia, sua forma de encarar a vida, que inspirou transformações não só na minha, mas nas de todos aqueles que não reclamam da falta de oportunidades, protagonizam feitos que deixariam os céticos sem argumentações para as prováveis réplicas.

Você faz por merecer os dias que recebeu porque poderia apenas se sentar, receber ordens e acatar com a cabeça, sem reação, sem emoção, todavia compreendeu que caminhar pela trilha onde todos já deixaram sua marca não te levaria para o seu destino. E você sempre detestou moralismos estúpidos, falta de emoção, revirava os olhos somente de ler a palavra acomodação, logo era preciso encarar os fatos, tudo o que vivemos de bom se traduz no orgulho, nas lágrimas que são antagônicas por excelência porque ao mesmo tempo em que denotam gratidão e emoção pelo privilégio a mim concedido — o de conhecer uma pessoa tão iluminada como você — também não disfarçam aquela pontada de tristeza que assola meu peito e eu não deixo ninguém perceber.

Você escolheu voar. Quem seria eu para te impedir?

Analise a situação: não faria o menor sentido desejar o seu bem e em contrapartida controlar seus passos de acordo com as minhas expectativas porque não seria justo com você, com a sua luta para crescer e vencer, agir com certa dose de egoísmo ao colocar minhas vontades acima das suas pelo puro e simples medo de te perder.

Ver-te voar me preenche de coragem. Tenho traçado o meu momento que cedo ou tarde haverá de chegar. Também quero abrir mão dessa falsa ilusão de estabilidade e sair pelo mundo porque mesmo que eu engula tudo o que desejo dizer a fim de evitar conflitos de dimensões incalculáveis, me cansei de ser o capacho dos outros, escrava dessa rotina sem sal, sem cor, de ser a filha preterida, aquela por quem todos querem opinar, aquela que todos pensam ser de plástico porque é angustiante ver todos ao meu redor falando de mim como se eu não estivesse presente para ouvir ou não fosse capaz de pensar por conta própria.

Atribuo essa culpa a mim mesma. Acomodei-me por inteiro a fim de pacificar, de evitar que meus conflitos interiores se externassem. Adormeci no ponto esperando aquele momento certo que não chega porque para ele deixar de ser utopia precisa ser atitude, acima de tudo. Agora que despertei, estou ciente de que preciso consertar tantas coisas que nem sei por onde começar.

Você abriu suas asas e mesmo que eu tivesse me preparado para te dividir com o mundo e esperar que nesse coração houvesse um lugar para mim, falhei no treinamento porque se o drama me define, pode acreditar que toda vez que amanheço, desejo te encontrar e me perder de vez nesse abraço que foi minha morada, meu lugar preferido no mundo todo, foi onde sempre encontrei o descanso que não tive no mundo de aparências onde vivo.

A distância dói. Em você, não mensuro o quanto. Nem preciso dizer sobre mim, estou como aquele cão deitado na cama para quem a criança joga a bola e ele faz de conta que não olha, apenas enfia a cabeça na cama e mergulha num sono sem sonhos, escuro como a noite, como a vida quando se perde a capacidade de amar.

Olhar para trás como quem desgruda os dedos do barbante e deixa o balão subir aos céus. Hesitante, relutante, amedrontada. Foi dessa forma que encarei aquele "se cuida", quando as delicadas pontas dos seus dedos seguraram o meu rosto e nossos olhos ficaram tão próximos que foi quase impossível não sentir todo o meu corpo se arrepiar. Porque mesmo depois do banho que tomei quando voltei para casa, a impressão permaneceu ali, seu toque na minha memória, nas noites em que meu nariz entope de tanto que choro olhando a sua fotografia, eu me lembro de que não importa o que você vista, seu sorriso é o diferencial porque é como se ele acendesse uma cidade inteira de vagalumes, acordasse as estrelas e aquecesse até aqueles corações mais fechados para o amor.

Porque até eu te conhecer não imaginava que uma estranha poderia se tornar minha melhor amiga e pouco a pouco esse amor fraterno evoluir para algo além do meu parco entendimento, que me emociona, me fortalece, me faz querer lutar por todos aqueles sonhos engavetados, até mesmo escrever, escrever para você, de coração para coração, como sempre se deu nossa conexão.

Quatro da tarde. Em ponto. Seus dedos se desgrudavam do meu rosto, tão lentamente que a maciez do toque entoou mais dor à despedida. Você olhou dentro dos meus olhos mais uma vez e me pediu para ficar bem, com aquela austeridade no olhar que denotava o quão honesto era aquele clamor que você fez enquanto tomava minhas mãos por entre as suas e as pontas do seu polegar acarinhavam as falanges geladas de uma alma em completo torpor. Não disse nem tchau nem adeus, apenas "até mais" e acenou, sorridente, seguindo o seu caminho enquanto eu dava meia volta para seguir o meu.

Olhar para trás, não para aquela imagem que me motivou a escrever para você, de uma área de embarque apinhada de pessoas indo e vindo. Olhar com o coração, com a certeza de que esse tempo em que estamos separadas uma da outra nos transformará e eu não sei dizer até a que ponto isso é bom ou não, porque somente quando olhei para trás tive certeza de que nem a maior das distâncias será capaz de apagar o sentimento predominante nessa amizade: o amor.

E, não, eu não vou deixar passar, deixar para trás, ser indiferente. Você me pediu para viver intensamente e não me importar com o que as pessoas dissessem a meu respeito, para que eu cuidasse mais de mim e não desperdiçasse meus dias tentando impressionar a quem eu nunca serei boa o bastante.

Eu me descobri verdadeiramente eu a partir do momento em que aceitei — não sem antes me torturar por isso — que sempre caminharia em círculos enquanto não olhasse para dentro de mim e beijasse todas as feridas que acumulei ao longo de tantos anos vivendo sonhos que não eram meus de verdade porque feito isso, era hora de descobrir quais eram minhas aspirações, meus desejos mais profundos, razões pelas quais a desconstrução deixa tudo ao redor bagunçado e muitos passam a vida sem fazê-lo.

Esse mergulho requer destemor e entrega, capacidade de se analisar, se perdoar, se permitir vivenciar as emoções sem refreá-las. Até os retrocessos impulsionam o progresso, tudo é questão de interpretação. Grata às minhas desilusões sou porque se o acaso que juntou nossos destinos se ergueu sustentado em materiais resistentes, mesmo que de maneira subjetiva e questionável, interpretar as linhas tortas seria, portanto uma tarefa laboriosa e pouco prazerosa, e não é porque faz parte dessa nova jornada.

A direção era, foi e sempre será uma só. Aprender a amar. E não se aprende a amar de outra forma que não seja amando.

As quatro em ponto você levou num compartimento do seu coração uma porção do meu e aquela que está comigo, que me motiva a acordar em dias tão cinzentos em que o resto do mundo faz de conta que não existo, estou cuidando com todo o meu esmero.

Não importa onde você esteja agora. Minhas palavras vão encontrar um meio de te afagar. Até mais, meu bem. Até mais.


Nota da autora: Olá, queridos leitores do Inkspired. Faz pouco tempo que estou aqui e estou gostando muito da plataforma, então gostaria de saber se vocês se interessariam em ler uma versão estendida deste conto que possui um significado muito especial para mim porque ele me ajudou a vencer um bloqueio criativo. A história não é tãooooo longa assim, no entanto estou com dúvidas em relação à postagem dos capítulos porque tem alguns capítulos que são no formato de carta e os títulos aludem a datas, portanto a fim de evitar problemas, deixo de presente a versão original que sempre terá um espacinho especial no meu coração. Espero que vocês tenham gostado. ♥

4 de Junio de 2018 a las 13:53 3 Reporte Insertar 6
Fin

Conoce al autor

Mary Curitibana, futura jornalista, escritora em constante progresso, escorpiana com ascendente e lua em peixes. Apaixonada por todas as singelezas da natureza, onde se encontra o olhar compassivo de Deus. Em matéria de livros, filmes e músicas, minha lista tende a crescer, mas sempre há aqueles que têm um espacinho especial no meu coração. Prazer, eu sou a Mary.

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Karimy Lubarino Karimy Lubarino
Olá, autora, tudo certo? Bom, você perguntou, nas notas, sobre a possibilidade de postar a versão estendida deste conto. Sinceramente, se ainda não o fez, devia. Estou encantada por esse conto, por vários motivos. Talvez um dos maiores tenha sido sua escolha de usar frases corridas; isso legitimou, e muito, a noção de uma carta de uma pessoa comum para outra, tirando um pouco aquela carga pesada de narrador que narra o que o personagem escreveu na carta, como foi até mesmo citado acima; o que também cria um lindíssimo paralelo. Além disso, devo dizer que está tudo muito coerente, mesmo que você tenha invertido algumas construções; o que pode causar certos problemas caso o escritor não esteja atento. A estrutura do conto também está muito cativante A história começa com apenas uma carta de alguém apaixonado e desiludido para dar vida a uma melhor amiga em uma despedida que, na verdade, foi muito menos e ao mesmo tempo muito mais do que no princípio parece; menos porque não foi uma morte, uma traição ou algo nesse nível, mais porque o significado de tudo aumentou muito por causa da amizade composta antes e durante o amor. A sua escrita é maravilhosa. Apesar de ter notado que você escolheu deixar algumas pouquíssimas virgulas de lado (para preservar o estilo narrativo, acredito eu, o que ficou muito aparente e por isso muito sutil e bem-feito), não mudaria nada. Gostaria de aconselhá-la a acrescentar mais algumas tags ao conto, tal como #carta, #despedida, entre outro, porque é através das tags que muitos leitores encontram histórias incríveis como a sua. Mil bjs!
2 de Febrero de 2019 a las 18:31

  • Mary Mary
    Olá, querida leitora! Tudo melhor agora, com certeza! Obrigada por comentar. Esse conto originou a versão estendida que viabilizou a existência de Primeiros Erros a qual no momento estou sem atualizar porque me desanimei um pouco (motivos pessoais). Acho bonito a maneira como você comenta. Queria saber sobre a sua formação, pois você avalia meu texto de uma maneira que ninguém antes fez e, sinceramente, isso me ajuda, pois tenho consciência de que meus textos não são perfeitos e que posso sempre aprimorar meus conhecimentos, algo de que tenho disposição de fazer. Pela sua ilustração, noto que seu conhecimento acerca de regras textuais e gramaticais é bem vasto, então me ocorreu que você seja formada ou tenha um mestrado em Letras. Já pensei em estudar esse curso, mas quando comecei a graduação entendi que meu sonho mesmo era o Jornalismo. Sério, você não tem noção do quanto um comentário ajuda não só a me motivar a voltar a escrever, mas também a voltar com o desejo de melhorar tudo que precisa ser melhorado. Obrigada de verdade por ter oferecido seu tempo para a leitura deste conto. Por favor, sempre que você se interessar por um trabalho meu e notar algum ponto que você considere que eu poderia melhorar, não hesite em me avisar. Vou colocar mais tags no conto. Mil bjs e muito obrigada por fazer uma autora feliz! 2 de Febrero de 2019 a las 19:24
  • Karimy Lubarino Karimy Lubarino
    Foi um prazer ler e comentar sua história. Estudo Letras, mas já tenho me preparado para dar continuação aos meus estudos, me aprofundando na área de literatura, que é a que mais me encanta. Por isso, alguns conhecimentos acabam sendo indispensáveis. Bjs! 4 de Febrero de 2019 a las 17:00
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