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ayzu-saki Ayzu Saki

Kuraimā: O alpinista “Não é sobre o que te espera do outro lado, é a escalada.” Estória original criada para o desafio inkdisney



LGBT+ Sólo para mayores de 18.

#estória-original #mistério #drama #transgênero #trans-male-character # #inkdisney
Cuento corto
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Capítulo único

Notas iniciais

Estória criada para o desafio inkdisney, ao qual o roteiro deve ser inspirado por uma música de um filme da Disney.

Música escolhida: The Climb, de Hannah Montana o filme

Essa estória é uma original, então o enredo e os personagens pertencem a mim.

Aborda temas como transgênero (personagem trans) , depressão, pensamentos suicidas e conflitos familiares. Não procuro ofender ninguém, e espero que tenha feito uma abordagem adequada, e estou sempre aberta a críticas e melhorias. : - )

Boa leitura!

......................

Eu quase posso ver

O sonho que venho sonhando, mas

Há uma voz dentro da minha cabeça dizendo

‘Você nunca vai alcançá-lo’

Sentia-se patético. A todo momento olhava ao redor, esperando alguém apontar isso, mas todos pareciam ignorar sua batalha interna. Sentia-se exposto no vestido de cetim, seus pés doíam nos sapatos. E o rosto refletido na taça que lhe foi servida era de uma pessoa completamente estranha.

Seus olhos focaram no irmão no salão. O terno social, a barba bem feita. A confiança com que se movia. Livre. Sem máscaras, sem teatros.

“Vou ser como ele um dia.” Jurou, olhando fascinado. Podia se imaginar dessa forma tão claramente, que queria gritar como todos pareciam tão cegos. Como eles não viam isso?

A mão da sua mãe estava ali nas suas costas, o tirando de seus devaneios e lhe apresentando para um grupo de pessoas.

- Essa é minha filha, Kohaku.

Sentiu seu corpo inteiro tenso. Sua boca seca, a língua pesada que não lhe deixava corrigi-la.

Filho, sou seu filho.

Apenas sorriu serenamente, apesar de querer gritar até sua voz ser finalmente alcançada.

........

Cada passo que eu estou dando

Cada movimento que eu faço, parece

Perdido, sem direção

Sua mãe o olhava de forma horrorizada. Os cabelos ainda estavam na pia, a tesoura ainda na sua mão. E sabia que segundos antes de ela entrar de supetão no banheiro, estava sorrindo de forma maníaca.

Se encararam, em completo silêncio por quase um minuto. Podia ver as expressões no rosto dela, horror, confusão, os olhos escurecendo em fúria. Os lábios apertados, muito perto de explodir.

Seu irmão apareceu na porta logo no inicio do primeiro grito. Os olhos dele confusos na cena, focando em seu cabelo cortado de qualquer jeito, nas faixas em seu peito que cobria rapidamente vestindo um capuz.

- VOCÊ ENLOUQUECEU?

Seu irmão tocou o braço da sua mãe a impedindo de avançar em cima dele, e então o fitou de forma firme.

-Vai.

Não saiu a tempo de perder o primeiro soluço dela.

.........

Minha fé está abalada

Mas eu, eu tenho que continuar tentando

Tenho que manter minha cabeça erguida

Não sabia exatamente como viera parar ali naquela ponte. Estava olhando para baixo, vendo o impacto da chuva sob a água. Ao redor, as pessoas passavam com pressa, debaixo de guarda-chuvas e capas.

Poucos notavam o adolescente ensopado, olhando para baixo. Contemplando todas as possibilidades.

Contemplar sua vida não era algo que gostava de fazer. Suas notas perfeitas, seu sonho de ser astrofísico, tudo parecia nublado pelo fato de que havia algo de errado com ele. Nenhuma conquista era o bastante. Ainda continuava a decepção na família. Ainda continuava o ator.

Seu pai nem mesmo o fitava, sua mãe, às vezes, queria que ela não o fitasse tanto.

Seu irmão fazia tudo melhor que ele, pelo simples fato de não temer ser ele mesmo.

Se aproximou mais da bancada. As pessoas continuavam sem o notar. E pensou se em algum lugar, em alguma outra realidade poderia ter sido feliz. Ter nascido em sua própria pele.

Se havia alguma decisão que pudesse ter tomado, que mudaria alguma coisa. Se havia virado em alguma esquina errada, ou se tudo era só uma piada do destino.

Ele não achava que as coisas fossem melhorar, não tinha mais essa ilusão. Era dali montanha abaixo. Se apenas pudesse...

-Ei, garoto.

Duas palavras. Essas duas palavras. Garoto. Seu coração acelerou e olhou para o lado. Notou que havia parado de chover na sua cabeça, agora protegida por um guarda-chuva. Olhou para cima e viu o rosto bonito e sereno de um estranho. Os olhos âmbar eram estranhamente familiares, o sorriso de alguém conhecido.

O estranho não pareceu se incomodar com seu escrutínio.

-Melhor sair dessa chuva garoto.

Garoto. Sentiu seus ombros relaxarem. Se afastou mais da bancada. O homem sorriu mais quando assentiu.

-Dia ruim?

Deu de ombros apenas, mas o homem pareceu não se importar.

- As coisas vão melhorar.

Havia tanta convicção na voz do estranho que sorriu divertido. Fazia tanto tempo que não sorria.

-Só manter a cabeça erguida, certo? – O homem continuou. E então apontou para uma livraria entre dois prédios do outro lado da rua.

-Eu trabalho ali, vem comigo. Precisa trocar essas roupas.

Sabia que era perigoso ir com estranhos. Mesmo estranhos com sorrisos serenos.

Ainda assim, ele foi.

........

Sempre haverá outra montanha

Eu sempre vou querer movê-la

Sempre haverá uma batalha a frente

E as vezes eu terei que perdê-la

Kuraimā era um homem diferente. Podia até dizer que um tanto excêntrico. Apesar de ser jovem, a alma dele parecia velha demais.

Depois daquele primeiro dia em que o levara a livraria, lhe dera roupas para trocar, uma xícara de chá quente e uma conversa agradável, acabou se pegando indo ao lugar todos os dias. Era um refúgio quando tudo parecia demais, entre os livros empoeirados, xícaras de chá e conversas sobre física e o universo. O homem era brilhante. Não entendia como ele estava ali naquela livraria mofando e não ensinando em alguma universidade de prestígio.

Sempre saia de lá com a espinha mais ereta e sua mente fervilhando de ideias. Para seu amigo não importava sua aparência, ele via o que tinha por trás de sua casca. Ele o ouvia, suas ideias, seus sonhos. Imaginava de forma agridoce, se teria tido uma relação assim com seu pai, se as coisas fossem diferentes.

Aquele dia na ponte havia mudado tudo.

E quando havia chegado em casa tarde da noite, tudo silencioso, seu irmão o esperava no quarto ainda. os dois ficaram se olhando longamente, parados. Até seu irmão suspirar e passar a mão nos olhos.

-Kohaku, seu cabelo...

-Eu prefiro assim. – cortou, da forma mais firme que podia.

-Eu sei. Só ia me oferecer para ajustar as pontas.

Ele apontou para a tesoura na cama, e o fitou surpreso.

Kuraimā não havia sido o único aliado que encontrara naquele dia.

.....

Havia dias ruins. Os uniformes obrigatórios na escola, as brigas dentro de casa. Seu pai cada vez mais distante, sua mãe cada vez mais tentando lhe impor seus desejos.

O medo de sair nas ruas quando era percebido por quem era. As brigas na escola tão frequentes, principalmente quando algum colega tentava o rebaixar.

Cada dia era um leão a enfrentar, uma batalha a se travar.

Kuraimā o ajudava em todas.

- Você não vai vencer todas as batalhas.

Kuraimā falou da sua forma suave, enquanto lhe ajudava a passar o antisséptico em seus cotovelos ralados, depois de mais uma briga na escola. Havia trocado o uniforme feminino por roupas confortáveis que deixava ali para isso.

Ir a Kuraimā depois das aulas havia se tornado um ritual.

-E algumas vitórias irão parecer derrotas. – o homem continuou, se erguendo de onde estava sentado, guardando as coisas.

-Eu sei. Mas a pior batalha é a que se perde por não lutar, certo?

A risada suave percorreu por entre as estantes de livros. A cabeça dele apareceu, o fitando de forma divertida. E teve certeza ali, vendo a bondade nos olhos dele, a inteligência, a confiança com que se movia.

Não era como seu irmão que queria ser afinal. Ele queria ser assim. 

Ele um dia iria ser como Kuraimā.

- Falou como um verdadeiro encrenqueiro.

Bufou e o homem sorriu mais.

-Vamos, pegue suas notas. Que teoria tem para mim hoje?

-Paradoxos temporais.

A expressão que o outro fez foi engraçada, o olhar se tornou distante por alguns segundos. E então ele voltou a sorrir.

-Paradoxos temporais, lá vamos nós.

............

Não é sobre o quão rápido eu chegarei lá

Não é sobre o que está me esperando do outro lado 

É a escalada

- As vezes é melhor focar nas batalhas de cada dia, e não na guerra inteira.

-Mas isso não seria como ignorar a grande pintura, Kuraimā?

-Não, isso seria como ser contente por cada coisa que recebe. As vitórias do dia-a-dia. A única certeza que temos da vida, é que ninguém vai sair dela vivo.

-Isso é tão mórbido. – Riu, servindo o chá. Lá fora caia uma fina garoa. Algumas pessoas circulavam entre as estantes.

O homem riu da sua cara, e então provou o chá com um sorriso misterioso.

-É a verdade. Tudo o que temos certeza é do agora. Vamos ser felizes com o que conseguimos a cada dia, sim?

...........

Havia terminado a olimpíada de física em primeiro lugar. Seu colégio comemorou, seus pais foram chamados.

Nenhum dos dois apareceu.

Ignorou os olhares de pena, a expressão do seu irmão enquanto falava com os professores. Continuou sentado segurando seu prêmio entre os dedos, feliz por a ocasião não ser obrigatória ao uniforme, e por isso poder estar longe das odiosas saias.

Era um passo a mais da sua escalada. 

Estava conseguindo, aos poucos. 

E a indiferença de seu pai e a vergonha da sua mãe não iriam diminuir a felicidade que sentia naquele momento por sua pequena vitória. Não quando estava olhando para as pequenas batalhas, micro ambições. As venceria aos poucos.

Quando saíram de lá, não foram para casa. Queria ir a livraria, mas dizer isso ao seu irmão seria como revelar um segredo precioso. E isso que Kuraimā era, seu segredo. Seu refúgio, e por agora, não queria dividir com ninguém.

Os irmãos passaram a tarde em cafés, foram ao cinema. Terminaram nos balanços em um parque perto da sua casa.

Os dois não sabiam o que falar um para o outro. Hiro parecia chateado. Era a primeira vez que via seu irmão chateado por ele. Ou que notava isso.

-Hiro!

Alguém chamou e notou nervoso um grupo de garotos mais velhos, amigos de seu irmão. Ficou sentado, enquanto ele se levantou sorrindo. Ignorou a conversa entre eles, se balançando devagar até que..

-Quem é ele?

-Ah? É meu irmão.

Escondeu o sorriso gigante que deu com isso abaixando a cabeça.

Pequenas grandes vitórias.

....

As lutas que estou enfrentando

As oportunidades que eu estou tendo

Às vezes podem me derrubar, mas

Não, eu não estou falhando

-Ele nunca me dá uma chance.

Kuraimā removeu o olhar de algo que construiu na mesa e o fitou, esperando continuar.

-Otou-san, nunca me dá uma chance.

-Talvez ele apenas não saiba como agir.

..................

Tudo começou quando seu pai estava empesteando seu irmão para assistir um campeonato com ele. Apesar de tudo, sentiu um pouco de pena do seu pai por não conhecer o filho o bastante.

- Isso não é minha área. – Hiro por fim cortou o pai, tentando o máximo não ser rude. Tentou segurar o riso de onde estava sentado fazendo seu dever de casa. Seu irmão era o maior artista da escola, os dois não podiam ser mais diferentes. – Isso é a área dele.

Ergueu o olhar surpreso com isso, encontrando os olhos dos dois em seu rosto. Os do Hiro eram escuros como os da sua mãe, enquanto os seus eram como os do seu pai. O homem o olhava de forma surpresa.

-Sua irmã gosta de artes marciais?

A surpresa deu lugar a vergonha e abaixou a cabeça. Sua irmã. Hiro nem mesmo piscou ao continuar.

-Ele é o melhor da escola. Ganhou faixa preta mês passado.

‘E vocês não foram o ver’ ficou não dito. Apesar do tom ser meio óbvio.

Seu pai o fitou por alguns segundos, e então voltou o olhar para a televisão. Seu irmão não disse mais nada.

Nenhum deles falou.

No outro dia ficou surpreso quando seu pai foi o buscar na escola, já estava pronto para ir a livraria. Ele estava com dois ingressos na mão, o olhando de forma incerta.

Era longe do ideal, mas aceitou a pequena vitória.

Quando fitou o sorriso do seu pai durante a luta, a forma como ele o olhava para ter certeza que estava se divertindo, percebeu como os olhos âmbar dele eram parecidos com o de Kuraimā em certas expressões

Não passaram a ser pai e filho da noite para o dia depois disso, mas as coisas começaram a parecer mais esperançosas.

.............

Eu posso não saber disso

Mas estes são os momentos que

Eu vou lembrar mais, yeah

Só tenho que continuar

E eu, eu tenho que ser forte

E apenas continuar

-Eu tento não esperar a aprovação de ninguém, mas sempre espero a dela.

-E isso te frustra?

Assentiu, olhando a rua. Já estava perto de ir para casa. De enfrentar sua mãe, como sempre.

- Você a ama, não há o que ser feito sobre o que sente. Mas tem que lembrar, que a pessoa com quem tem que ser mais verdadeira é você mesmo.

-O que quer dizer?

-Quero dizer que é normal tentar ter aprovação da sua mãe. Você quer que ela fique orgulhosa de você. Mas não tente se castrar para agradar a ninguém, ou vai acabar decepcionando a pessoa mais importante.

-Quem?

-Você mesmo. Se amar, essa é a tarefa mais importante, e as vezes acaba sendo a mais difícil.

............

Era seu aniversário. Não esperava que houvesse comemoração em casa, depois de tudo. Aceitou graciosamente os parabéns de Hiro, e de seu pai, e tentou esconder a magoa por não ver sua mãe o dia inteiro.

Quando chegara em casa, no entanto, ela estava o esperando na porta. Não havia grandes sorrisos, ou abraços entre os dois, mas obedeceu quando ela pediu para que a seguisse para ajudar com as caixas no porão.

Imaginava que ela fosse lhe mostrar as fotos de infância. Era sempre uma estratégia sua nos últimos tempos, mas dessa vez ela ignorou essa caixa e puxou um baú antigo.

As coisas do seu avô.

Mesmo confuso com a atitude, a ajudou a arrumar as coisas. Apenas depois de quase uma hora com poucas palavras, ela parou e o fitou. A expressão mais relaxada do que vira por meses. Os olhos dela iam do seu rosto para uma foto em sua mão.

-Você parece com seu avô.

-Pareço?

-Exceto os olhos. Você tem os olhos âmbar do seu pai.

Ela franziu a testa, pensativa. E então algo em seu rosto mudou ao notar o que havia dito.

Escondeu o sorriso ao voltar a caixa.

-Aha! Aqui. – ela o interrompeu novamente. Olhou e ela lhe estendia uma caixa de veludo. – Pegue, feliz aniversário.

Dentro da caixa havia um cordão de couro, com um pingente âmbar, da cor dos seus olhos. Era simples, mas absolutamente lindo a seus olhos.

-Era dele.

Os dois ficaram lá a tarde inteira, até seu pai vir os chamar.

Era a primeira vez em meses que passava tanto tempo com sua mãe sem os dois brigarem.

................

Porque, sempre haverá outra montanha

- Um dia, vou poder olhar a mim mesmo no espelho e me enxergar como sou de verdade.

-Como você é?

-Menos curvas, sem os...hn, sabe.

O homem riu da sua falta de jeito, e fez um muxoxo.

-Falo sério.

-Eu sei.

-Quero uma barba também. – Coçou o queixo. – Igual a sua.

............

Eu sempre vou querer movê-la

Havia passado o ano inteiro trabalhando na livraria de Kuraimā, juntando dinheiro. Quando se formou no ensino médio, apenas seus pais e seu irmão estavam lá. E, por um momento nem mesmo achou que sua mãe fosse. Foi o melhor aluno, poderia ser o quisesse da vida.

Semanas depois estava indo para o outro lado do país para estudar. Se despedir de Kuraimā havia sido mais difícil do que se despedir de sua família. Ainda assim, ele havia prometido que a livraria estaria lá quando chegasse.

............

Sempre haverá uma batalha a frente

Quando fez 21 anos, era oficialmente legal. A primeira coisa que fez foi ir em uma clínica. Semanas depois começava sua transição.

Notou maravilhado sua voz mudar de timbre, as curvas ficarem menos pronunciadas. O pelo ralo que começava a nascer em seu rosto.

Começava a se ver mais e mais na pessoa do outro lado do espelho.

...........

Às vezes eu terei que perdê-la

Quando fora em casa a primeira vez depois de começar a transição, sua mãe ficou trancada no quarto por dias.

Quando voltou ao campus, ela nem mesmo havia saído para se despedir, e seu pai parecia não saber o que fazer além de o olhar um tanto decepcionado.

Não voltou para casa até o fim da universidade.

Quando se formou, fez a remoção dos seios, graças a um amigo do seu irmão que o ajudou nos custos. Era um físico, oficialmente. Ia começar seu mestrado.

Não falava com seus pais há mais de 3 anos.

Nunca mais voltou para casa.

............

Não é sobre o quão rápido eu chego lá

A livraria continuava igual ao que lembrava. Era como se nunca tivesse saído de lá. Atravessou a rua, as luzes dos postes lhe dando nostalgia. Faziam quase 10 anos que não se viam, se comunicando apenas por cartas.

Kuraimā o esperava na porta.

Ele estava mais velho. Havia fios brancos na cabeça, e o mesmo sorriso suave no rosto.

-Bela barba.

Sorriu e o abraçou com força. Queria dizer tanto. O quanto não teria conseguido sem ele, mas esperou que conseguisse transmitir tudo isso em um abraço.

Quando o soltou ele bagunçou seu cabelo, os olhos em seu rosto tão mais masculino, tão mais confortável e confiante em sua própria pele.

-Um astrofísico. 10 anos, hn?

-Desculpe a demora.

-Chegou a tempo.

-Tempo?

O homem sorriu, os olhos mais tristes.

-De se despedir.

Ficou surpreso, notando as caixas de livros só então, as estantes vazias.

-Está indo embora?

O homem sorriu novamente, e assentiu: - Resolvi o que vim fazer.

-Não, espera. Agora? – Estava surpreso demais. Não queria que ele fosse. – Vamos nos ver ainda, certo?

-De certa forma.

O olhou confuso, mas o outro apenas balançou a cabeça.

-Vamos dar uma volta, sim?

..........

Não é sobre o que está esperando do outro lado

Os dois caminhavam por entre as ruas calmas. Subiam as ladeiras, até onde sabia havia o monte que dava a visão para toda a pequena cidade costeira.

Quando pararam, lado a lado, se recostaram na mureta.

Se encolheu mais no casaco, se escondendo da noite fria. Podia ver sua casa dali. Esperava poder ir ver os pais depois de tantos anos. Havia prometido a seu irmão.

-Eu não quero que vá embora. – Quebrou o silêncio

Kuraimā o fitou longamente, de lado: - Sabe o que significa meu nome?

-Alpinista.

O homem assentiu, tocando seu ombro:

-Eu escolhi esse nome para mim, porque a vida me jogou montanhas na frente, e eu tive que escalar todas elas. Cada uma que aparecia. Você tem as suas, e estava tentando movê-las. Escale.

-Eu...certo. – olhou com incerteza.

- Você vai ficar bem agora, garoto. – a voz dele era convicta. – As coisas vão ficar bem.

-Como sabe disso?

Kuraimā sorriu e tirou algo de seu pescoço, o mostrando. Arregalou os olhos ao notar o pingente conhecido. Tocou em seu pescoço, e encontrou o mesmo ali.

Âmbar.

Da cor dos seus olhos.

Da cor dos olhos do homem que o fitava a sua frente.

-Como..,?

O homem sorriu mais, sua voz soou saudosa.

-Era do meu avô. Minha mãe me deu de presente, por ser da cor dos meus olhos.

Prendeu a respiração ao ouvir isso. Finalmente, entendendo. O fitou com afinco. As curvas do rosto, o sorriso, os olhos. Não eram parecidos com seu pai como pensara.

Era como ele mesmo.

Ficou paralisado, sem acreditar. As conversas sobre paradoxo temporal, as ideias, tudo parecia ter sentido mas...havia apenas ponderado a ideia dias atrás? Como aquilo poderia ser real?

-Cuide da loja, ela sempre foi sua.

Ergueu os olhos, vendo ele caminhar já ao longe, acenando.

-Espera!

Correu atrás dele, mas quando chegou a curva, ele não estava mais lá.

Ele havia ido embora.

Ficou parado no meio da ladeira, fitando a frente, paralisado por segundos. Todas as interações agora na sua mente por uma nova ótica.

Em como desejou um dia ser como kuraimā.

E no fim das contas...era ele.

Riu, entre histérico e maravilhado.

Pela primeira vez na vida, um futuro se desenhava brilhante na sua frente. Que viessem as montanhas.

Ele estava preparado.

.............

É a escalada

...........

Notas finais

Kohaku – âmbar

Kuraimā – alpinista

E um grande plot twist. 

12 de Mayo de 2018 a las 20:54 23 Reporte Insertar 12
Fin

Conoce al autor

Ayzu Saki Detesto o tempo, sempre adianto meu relógio para nunca me atrasar, e ainda assim me atraso. Detesto o tempo, porque ele não cura as coisas, só passa. Queria domar o tempo mesmo, para viver todo o que quero viver e não pode caber na minha vida. Essa é a minha sina, e um monte de histórias não terminadas no fundo da gaveta.

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MRz Rz MRz Rz
História maravilhosa, com mensagem maravilhosa e um final surpreendente! Parabéns!
11 de Marzo de 2019 a las 19:06
Vany-chan 734 Vany-chan 734
Ok, com certeza não tava esperando por esse final. Primeiro eu quero te parabenizar por tratar da transexualidade de uma forma tão suave, foi bem fácil de compreender os sentimentos do "garoto". Confesso, sorri igual uma besta quando ele foi chamado de garoto e quando o irmao o chamou de irmao. <3 Sobre o plot twist, bem, fugiu do clichê, mas eu meio que estava esperando por algo assim, tava meio esquisito a interação deles... mas tava morrendo de medo de ser um angst e o cara sequestrar ele HSAUSAUHSUAH Ta certo, eu preciso parar de ler angst KKKKKKKK Bem, até mais!
24 de Junio de 2018 a las 20:46

  • Ayzu Saki Ayzu Saki
    Menina, mas tu é pior do que eu pra pensar no pior viu hahaha Engraçado que estou surpreendendo as pessoas por dar finais felizes e não o contrário! Mas é verdade, deixei escapar as pistas no texto para ver quem conseguia captar a mensagem. 25 de Junio de 2018 a las 08:36
Inkspired Brasil Inkspired Brasil
Olá! Eu nem consigo descrever o quanto essa história me deixou emocionada, de verdade, eu chorei lendo esse final, e nossa que PLOT TWIST!!! Eu realmente não estava esperando por isso, apesar de relendo perceber que você deixou dicas! Na parte em que falou de paradoxos temporais ainda, tava na cara o tempo todo e a gente nem percebe!! Que genial! A forma como você usou a música também foi muito boa, foi sutil, mas ficou bem clara também com ela sendo introduzida pelas lições de vida que o Kuraimã dava pra... ele mesmo! hahaha E como você foi fazendo a evolução do protagonista também, foi muito boa, ele vai aprendendo tudo com o tempo e não acontece de uma hora para outra, é como literalmente uma escalada. Até mesmo o formato do texto é como uma escalada, nos intervalinhos ali que você faz, cada um com uma vitória, mostra como ele está subindo. A relação do Kuraimã com a família é outra coisa que me deixa emocionada, a rejeição pelos pais e principalmente a da mãe e como isso machuca ele, nós conseguimos sentir daqui a tristeza, assim como a felicidade daquela interaçãozinha mínima entre os dois no aniversário dele, como o próprio diz, pequenas grandes vitórias. O irmão dele é mesmo também um grande aliado, é tão gratificante ver como desde o inicio o Hiro aceitou ele e sempre dava umas "broncas" sutis nos pais, sempre tentando chamar a atenção deles, como na parte que sobre as artes marciais e o pai se refere ao Kuraimã no feminino e logo em seguida ele ignora e chama do jeito certo, acho que foi uma das cenas que mais gostei até por ser o inicio da aceitação dele de volta dentro da família (e nessa cena você ainda deixa a pista da cor dos olhos, aaaaa olha que ardilosa!). Uma pena que com os pais depois foi mais complicado, eu tinha esperança que eles se acertassem, mas é aquilo, não dá para vencer todas as batalhas. Fiquei feliz que o final não foi trágico, nem nada do tipo que geralmente acontece com personagens LGBTs e foi um final muito diferente do que eu esperava. Parabéns por essa história, muito obrigada por ter nos presenteado com ela porque ficou muito maravilhosa <3
23 de Junio de 2018 a las 11:57

  • Ayzu Saki Ayzu Saki
    Emocionada demais para conseguir responder esse comentário direito 25 de Junio de 2018 a las 08:35
Anne P. Anne P.
Arrepiei aqui, mana eu não tô bem. Amei o plot e como tem tudo haver com a música. Kuraima era o ele só futuro e cara eu nunca ia esperar por isso Ayzu você é muito 10, melhores enredos e ótimas histórias ❤
18 de Junio de 2018 a las 20:43

  • Ayzu Saki Ayzu Saki
    Plot twiiiiist. Adoro fazer essas coisas haha Muito obrigada <3 25 de Junio de 2018 a las 08:32
Nactis Aoneko Nactis Aoneko
AAAAAAAAAAAAAAAAAAA MANO, CE NÃO CANSA DE ME MATAR, NÉ? Porra, assim vc pega bem no meu ponto fraco, não pode. Eu tive um pequeno ataque de choro enquanto pensava por onde anda minha versão do Kuraimã. Não acredito que você fez isso comigo, eu tô muito no chão. Sei nem o que dizer direiro, só que foi absurdamente lindo e que foi um tiro no meu cy. Obrigado por fazer essas coisas. Sério, a primeira fic com um cara trans que eu li na vida era um capítulo de bruma (acho que era essa) que o Naruto tá falando com a Hinata e eu quase tive um treco, pq é tão pouca representatividade. Aí vc vem e desenvolve um negócio maior ainda, é incrível de um jeito que nem dá pra dizer.
18 de Junio de 2018 a las 19:06

  • Ayzu Saki Ayzu Saki
    hahaha, que bom que gostou <3 Eu lembro, foi um capítulo de o amor é um café amargo na verdade, o conto do príncipe! Fico feliz que tenha evoluído mais a ideia, é um assunto importante pra se retratar, mas infelizmente se acha poucas estórias :( 25 de Junio de 2018 a las 08:33
B. L. P. B. L. P.
AAAAAAAAAHHHHHHHH CA RA LHOW Um twist desses bichoooow Fiquei realmente emocionada com a história dele, até porque deve ser foda ser trans numa família preconceituosa... É na vdd difícil ser LGBT no mundo, num geral. Amei o jeito que você casou The Climb (música que eu amo), com a história. Ficou perfeito! Amei demais! ❤️
18 de Junio de 2018 a las 17:08

  • Ayzu Saki Ayzu Saki
    Obrigada <3 Fico muito feliz em ter conseguido repassar sobre a situação de kohaku de alguma forma, já que é algo que só consigo captar por observações :) E também adoro essa música <3 25 de Junio de 2018 a las 08:29
Crazy Clara Crazy Clara
Obrigada por me fazer chorar e rir. De novo. Ayzu, você é fenomenal. Todas as histórias que li, uma autora de mão cheia, tanto em escrita quanto em criatividade. Agora falar o porque, sim? Ok. Confesso ter muito pouco repertório de obras que abordem o tema de transexualidade. Lei e vejo quando tropeço em um, não é algo que procuro especificamente. Mas mesmo com poucos exemplos, nenhum até agora me pegou de surpresa com essa virada de jogo com ficção científica que você colocou. Duvido que eu vá topar com outro assim. O que por si só já é algo bacana. Meu repertório pequeno tem mais abordagens com o drama da transição dos personagens que outro foco apesar de. Você, sem medo algum, tratou do assunto, do drama da transexualidade, e somou outro assunto. E tão bem, tão lindo. Eu fiquei me perguntando quem era o cara, o que diabos havia de semelhante, aí esse tapa no final de toda uma rede maior. Meu deus, ele realizou o sonho dele E voltou no tempo para se ajudar. Cara, esse tipo de assunto, de se amar, se superar e crescer com o próprio passado me deixa chorosa. É lindo, amei. Não conhecia a música, ela agora está me dando mais tapas aqui. Parabéns e muito obrigada por essa beleza.
16 de Junio de 2018 a las 17:26

  • Ayzu Saki Ayzu Saki
    Oláaa (ノ^_^)ノ*`*`* E eu fico como depois de ler esse comentário? >///< Fico muito feliz pelo feedback na estória, por ser original - muitas originais acabam sendo ignoradas :( - e por ser um assunto que infelizmente não é tão abordado. Fico feliz que tenha gostado do plot twist, não vou mentir que gosto de fazer isso de vez em quando ¯\_(ツ)_/¯ Mas essa em especial era focar na importância de amar em si mesmo - o que você captou bem por sinal -, enfim, agradeço demais pelo comentário <3 17 de Junio de 2018 a las 15:05
Marina Tavares Marina Tavares
Nossa, eu me coloquei no lugar do Kuraima, senti todas as suas dores, suas ansiedades, etc. Se teve alguma coisa ofensiva para as pessoas trans, eu não sei (pra começar, eu não sou trans), mas essa história está muito maravilhosa e muito bem escrita! ^-^
6 de Junio de 2018 a las 12:16

  • Ayzu Saki Ayzu Saki
    ↖(^▽^)↗ Primeiramente, obriga por ler e comentar! Fico super feliz de ter feedback, especialmente em algo que me tirou da minha zona de conforto. Fico mais feliz ainda de ter conseguido passar o que queria sobre Kuraima <3 17 de Junio de 2018 a las 15:00
Nanahoshi G Nanahoshi G
OK OK EU DISSE QUE IA COMENTAR SÓ EM HISTÓRIAS QUE TIVESSEM DE 0 A 2 MAS CARALHOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO. Mano eu to palavraless. TOTALMENTE PALAVRALESS. E SE TU ME DEIXOU COM PALAVRALESS PREPARA QUE LOGO Q PASSA VEM TEXTÃO *me recompondo* Cara, se o grosso das histórias LGBT+ fossem geniais como a sua, eu com certeza superaria meu trauma adquirito por algumas fujoshis que me atacaram gratuitamente alguns anos atrás e mandaria ver. Tem tanto elogio que eu sei nem por onde começar. Você explorou cada centímetro da música, e a história ficou absurdamente real. Você usou os altos e baixos da vida de uma forma fantástica, e casou maravilhosamente com os trechos que você colocava da música. Vc realmente estudou a letra E A MELODIA milimetricamente (pq o ritmo da história segue os ritmos lentos e acelerados da música também - sim eu fiz vários testes ouvindo a música enquanto lia HUE). Ler a música enquanto eu lia me ajudou ainda mais a pegar o feeling da história, e eu criei uma empatia incrível com o protagonista. Você abordou o tema (q querendo ou não é pesado) de uma forma muito bonita, e por mais q seja bem melancólica a história, é bastante acessível pra qualquer pessoa (nada de 13 reasons why aqui obrigada vc é uma pessoa abençoada). Acho extremamente importante abordar o tema de uma forma mais leve (mesmo que a realidade possa ser completamente o oposto) porque é um assunto que precisa ser abordado pela galera toda, precisa ser discutido e também cria mais adesão. Eu me emocionei muito TU ME BOTOU PRA CHORAR, e como uma pessoa que está fora desse contexto, foi extremamente esclarecedor. A montagem do plot com os altos e baixos citados anteriormente ficou impecável pq ME ADERIU. Eu queria saber o que ia acontecer. Eu queria saber se no final ia dar tudo certo. DAÍ TU ME VEM COM ESSE TIRO AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA Mano pior que você deu todas as dicas (eu voltei no texto depois pra ver) e eu fiquei parabéns Júlia vc tem que refinar sua interpretação de texto. MANO EU FIQUEI NO CHÃO EU CHOREI MUITOOOOOOOOOOOOOOO!! Pq tipo foi um final aberto (eu amo finais abertos socorro) que se aproximou mt da realidade e da mensagem da música. Nesse final vc tacou na nossa cara qual era o objetivo da história: não era mostrar se ele conseguiu ou não, era mostrar A TRAJETÓRIA DELE, A ESCALADA. TU CASOU CERTINHO MANO EU TO PAGANDO MT PAU PRA SUA GENIALIDADE SOCOOOOOOORRO!! Fora que vamos combinar que sua escrita É IMPECÁAAAAAAAAVEL. Eu tô muito feliz de ter achado essa plataforma pq parece que grande parte do que é postado aqui tem um nível superior de qualidade (pelo menos de escrita) em relação às outras plataformas de autopublicação. E você a prova viva disso. Apaixonadíssima pela sua escrita e por seu talento com plots. Deus abençoa vc ter visto minha publicação <3 Obrigada por me conceder o prazer de ler uma oneshot fabulotopster dessa *u* POR MIM GANHAVA O INKDISNEY AAAAAAAAAAAAA <3 Beijos da Nana-chan!
26 de Mayo de 2018 a las 17:22

  • Ayzu Saki Ayzu Saki
    Oiê *`*`* ヽ(^o^)ノ Finalmente respondendo o comentário <3 Muito obrigada por ler a fic, eu sei o quanto originais as vezes passam desapercebidos, por isso considero dupla vitória ᕕ( ᐛ )ᕗ Fico muito feliz em ter conseguido passar o que queria sobre o assunto, e pelo plot twist no finalzinho ter agradado. ↖(^▽^)↗ Beijos 17 de Junio de 2018 a las 14:57
Isis Isis
CA RA LHO. Ayzu, eu to sem palavras. Não é de hoje que eu sei que você é ótima pra criar histórias profundas e com plot twist - a primeira q li sua foi canção de ninar, então... - mas eu real não esperava esse fim. Ficou incrível! A maneira como vc abordou a transexualidade foi muito sensível. As fases com a família, eu quis abraçar Hiro quando ele começou a usar os pronomes masculinos. Agora, Kuraimã ser ele o tempo todo... uau. Amém paradoxos temporais. Primeira do inkdisney que leio e já levei esse tiro muito bem dado!
15 de Mayo de 2018 a las 13:31

  • Ayzu Saki Ayzu Saki
    Canção de ninar, realmente foi o maior plot twits que já fiz hahaha. Que bom que gostou, ainda mais por ser um tema bem delicado de se tratar, fico feliz de ter conseguido passar de uma forma verossímil. <3 E OBRIGADA POR COMENTAR. Eu sei que é bem difícil as pessoas se interessarem por originais nas plataformas 16 de Mayo de 2018 a las 19:23
Hime  Hime
Caralho, eu tô boba. Plot twist do caramba. Eu pesquiso muito sobre a transsexualidade e até converser com um garoto que antigamente era garota sobre isso. Tenho muita curiosidade, e gosto de aprender e compreender antes de sair espalhando uma opinião sem bases. A batalha para ser quem quiser, e a frustração de sentir-se no corpo errado. Mesmo não sentindo tal coisa, procuro compreender os sentimentos de quem sente. Tem uns animes interessantes sobre isso também, embora eu não lembre do nome agora hahdha. Eu adorei essa história e a mensagem que ela transmite. Você tem uma criatividade incrível, parabéns!
12 de Mayo de 2018 a las 17:48

  • Ayzu Saki Ayzu Saki
    É um assunto complexo, mas é sempre bom tentar se colocar nos pés de alguém antes de fazer qualquer julgamento realmente. O mundo seria tão melhor se as pessoas buscassem entender umas as outras! Obrigada por ler, por comentar, e por ser essa pessoa que tenta entender <3 13 de Mayo de 2018 a las 19:49
Lory Cake Lory Cake
MDS GAROTA EU VOU FAZER UM SCANDALO DURANRE TODA A ESCALASA. EU TO DESTRUÍDA DE UMA FORMA MUITO BOA. MDS CARA. MDSSSSSSSS EU TO FORA DE MIM. EU NÃO TO SABENDO NEM O QUE COMENTAR. PQP QUE HINOOOOOOO
12 de Mayo de 2018 a las 15:44

  • Ayzu Saki Ayzu Saki
    Como eu to feliz com esse comentário <3 Agora é ouvir climb várias vezes seguidas como fiz o dia todo haha 12 de Mayo de 2018 a las 16:18
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