Do I Wanna Know Seguir historia

hinadono

Kageyama Tobio está sendo assombrado. E não, não é por um fantasma ou algo do tipo. Seu algoz é bem mais perigoso que um simples espectro vindo do além. A insegurança vive em seu corpo; o consome de dentro para fora. Ela se manifesta através de palavras maliciosas sussurradas ao ouvido humano, e, para ele, surge na forma de uma pergunta: eu quero saber?


Fanfiction No para niños menores de 13.

#arctic-monkeys #songfic #haikyuu #kagehina #kageyama-tobio #Hinata-Shouyou #yaoi #conto #gay #karasuno #vôlei #comédia #romance
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A Resposta

Você está com as bochechas coradas?

Você já teve aquele medo de não poder mudar

O tipo que gruda como algo em seus dentes?

- Merda! - gritou Kageyama Tobio, ao chutar a porta do banheiro da casa de um dos seus amigos e ex-colega de clube: Sugawara Kouchi.

Kageyama sentia-se frustrado. Tão furioso consigo mesmo, com sua falta de autocontrole. Seu nariz sangrava, consequência de sua atitude ridícula mais cedo na quadra de vôlei. Ele tinha sido acertado por um corte violento do antigo Ace do Karasuno, Azumani Asahi. Até aí tudo bem. Já fazia um tempo que não levava uma bolada na cara, mas não é como se fosse morrer por isso. Não, o que estava matando-o não era a dor física e sim a emocional. A dor causada pela vergonha de saber o porquê de ter sido atingido. Por que não estava prestando atenção no jogo? Era a resposta para essa pergunta que o envergonhava. E sua vergonha, assim como a frustração e raiva, só aumentou quando ele ouviu uma voz preocupada perguntar:

- Você está bem, Kageyama?

Ele não olhou para o dono da voz. Não precisava se dar ao trabalho, sabia exatamente quem veria: um homem em seus 22 anos; o cabelo ruivo mais curto do que costumava ser nos tempos de colégio, assim como um corpo mais definido, com músculos bem distribuídos por toda sua nova estatura de 1,82 m. E ainda assim, apesar de toda essa óbvia masculinidade, feições do rosto delicadas; olhos grandes e expressivos; lábios finos sempre exibindo a sombra de um sorriso - esse era Hinata Shouyou, razão de sua vergonha.

Há algum Ás na sua manga?

Você não faz ideia de que é minha obsessão?

Sonhei com você quase todas as noites essa semana

Não recebendo uma resposta, o ruivo aproximou-se de Kageyama, que lavava o rosto na pia do banheiro.

- Deixe-me dar uma olhada..

- Não - disse, rejeitando o toque de Hinata. Ou talvez fosse mais apropriado usar a palavra "fugindo"?

- Pare de ser teimoso! Eu sou médico, é meu trabalho cuidar de machucados.

Médico. Sim, essa era a profissão de Hinata agora - ou seria, assim que ele recebesse seu diploma. Tornar-se um jogador profissional de vôlei era só mais um dos vários sonhos que ficaram para trás, junto com o de ser um astronauta, cowboy, milionário e etc. A realidade chama por todos, uma hora ou outra. E isso valia para todos os garotos - agora homens - do time de vôlei da Karasuno, incluindo ele mesmo. Atualmente, Kageyama cursava o quarto ano da faculdade de Direito, na mesma universidade que Hinata. Uma coincidência, é claro.

É. Claro.

- Tenho pena dos seus pacientes. Eles vão descobrir que é melhor morrer do que ser atendido por você.

- Como é?! Você tem sorte de me ter aqui, ouviu? Quando eu me formar, você vai precisar pagar pelos meus serviços! - resmungou, indignado pelo comentário do outro. - Agora deixa eu ver essa merda.

Kageyama não teve tempo para reagir. Hinata ainda era tão ágil como sempre e usou isso para encurralá-lo contra a pia, agarrando seu rosto e o olhando fixamente.

Ruim. Muito ruim.

- Está muito inchado. De zero a dez, o quanto dói?

- U-um. - A voz dele não passava de um sopro.

- Um? Mentiroso. Sabe que mentir só prejudica você mesmo, não é?

Hinata tinha razão, aquilo foi uma mentira. Seu nariz doía pra caramba, mas "um" parecia levar menos tempo para ser dito do que "duzentos" - que era o nível real de sua dor. E como Kageyama queria acabar com aquela situação o mais rápido possível, mentiu. Falar a verdade daria início a perguntas, que por sua vez, exigiriam respostas e isso só prolongaria tudo.

Hinata estava perto demais. Seus músculos - os responsáveis por distraí-lo durante o jogo - estavam perto demais. Ele sequer tinha se dado ao trabalho de colocar uma camisa antes de seguir Kageyama até ali.

Ruim. Toda aquela situação era muito ruim. E estava prestes a piorar.

Kageyama ia responder àquilo com um comentário ácido, mas teve de se apressar e tapar o nariz com a mão, quando percebeu que este tinha voltado a sangrar.

- Merda.

- Viu? Você é um idiota!

- Cala a boca, boke! - retrucou.

Queria ter batido no menor - sim, apesar de ter crescido, Hinata continuava sendo menor que ele - como nos velhos tempos, mas seus movimentos, assim como sua respiração, foram paralisados pela próxima ação do ruivo: pressionar o peitoral dele ao seu, com força, enquanto tentava alcançar o porta papel toalha posicionado do lado direito da pia.

- Aqui - disse ele, oferecendo um punhado de papel para Kageyama. Ele parecia irritantemente alheio à situação, ao que aquela proximidade fazia com o moreno. - Pressione. Com força. Se você colocar a cabeça pra trás, o sangramento para mais rápido. Pelo menos não quebrou.

Novamente, Kageyama não respondeu. E, novamente, Hinata se irritou com a atitude dele.

- Você é surdo?! Faz logo o que eu mandei! - Pegando o papel, ele tentou fazer o serviço por si mesmo. Porém, não estava nos planos de Kageyama deixá-lo aproximar-se mais que aquilo, então o empurrou.

- Não.

- Não seja infantil Kageyama! Eu só quero ajudar! - O ruivo voltou a aproximar-se, ignorando seu aviso.

Essa atitude o irritou profundamente. Tudo o que ele queria era que Hinata respeitasse seu espaço pessoal - e isso era para o próprio bem dele! Toda vez que via o ruivo, o animal selvagem dentro de si começava a colocar as garras para fora, querendo arranhá-lo, marcá-lo como seu. Era sempre tão problemático manter seus instintos sob controle, tão cansativo. E ali estava ele - alheio ao perigoso sentimento de possessão que kageyama emanava - sem camisa, todo suado, insistindo em invadir a merda do seu espaço pessoal.

- Eu já disse que não! - Empurrou-o novamente, só que usando mais força dessa vez, para que ele o levasse a sério. Teve certeza que funcionou quando, após escorregar no piso molhado do banheiro e cair com um baque surdo no chão, Hinata olhou para cima, raiva presente em seus olhos, e gritou:

- Qual é o seu problema?! - Choque e raiva inundavam a expressão do menor.

Kageyama, que tinha se arrependido no instante em que ouviu o outro rapaz soltar um gemido de dor, não se desculpou. Ao invés disso, continuou gritando, por nenhuma outra razão além de ser um completo idiota.

- Que merda Hinata! Por que você nunca me ouve?! Hã?! Eu disse que não preciso de ajuda, então por que não me deixa em paz?! Some daqui, porra!

Se antes havia choque e raiva na expressão de Hinata, depois de ouvir aquilo houve dor. Kageyama o machucou física e emocionalmente. Droga!

- O que está acontecendo aqui? - Sawamura Daichi, que correu até ali após ouvir gritos, perguntou. Atrás dele, vários rostos conhecidos da época do Colégio - todos reunidos para o "Churrasco dos Corvos", como Nishinoya apelidara o encontro anual dos antigos membros do clube de vôlei do Karasuno.

- Nada. - Foi o que Hinata respondeu, levantando-se do chão e saindo do banheiro. - Vamos continuar o jogo.

Alguns dos rapazes comemoraram ao ouvir aquilo e seguiram atrás dele - aquele encontro também era a oportunidade perfeita para matarem a saudade do esporte que tanto amaram quando adolescentes, já que Sugawara havia construído uma quadra profissional nos fundos de sua casa há não muito tempo. No entanto, Daichi e Suga, ou os "pais dos corvos" como eram conhecidos, não estavam dispostos a deixar as coisas por isso mesmo.

- O que aconteceu, Kageyama? - perguntou o moreno.

- Nada demais. Vocês sabem como o Hinata é. Ele enche o saco às vezes, só isso.

- Pensei que vocês já tivessem superado isso. - Suga alfinetou. - Francamente, vocês já estão muito velhos para esse tipo de coisa.

- É, avisa isso pra ele, já que foi ele quem começou.

- E com certeza velhos demais para esse tipo de resposta infantil. - Os mais velhos riram.

- Vem, vamos voltar pro jogo - chamou Daichi.

- Eu não vou jogar mais. Meu nariz...

- Precisa de ajuda?

- Não, obrigado.

- De nada. - Suga ia seguindo Daichi para fora do banheiro, mas mudou de ideia e falou: - Sabe.. você estava estranho hoje. Não só no jogo, mas o dia todo. Pensei que fosse algo no seu trabalho, faculdade... Mas, depois disso tudo, acho que encontrei a resposta.

- Não sei do que está falando. - Ficou imediatamente na defensiva. Sugawara sorriu.

- Será mesmo que não sabe? Bem, não importa. O Hinata parece saber o suficiente por vocês dois. - Pausou, esperando uma pergunta que não veio. Então, continuou: - Ele estava sorrindo. Agora pouco, quando saiu daqui, Hinata tinha um sorriso no rosto. O sorriso convencido do gato que pegou o canário. Ou seria o corvo?

Sorrindo, ele saiu. Deixando um Kageyama confuso para trás, sozinho para pensar sobre o assunto. Mas que Diabos...?

Quantos segredos você consegue guardar?

Porque existe essa música que encontrei

Que me faz pensar em você de alguma forma

E eu a coloco para repetir

Até eu pegar no sono

Derramando bebidas no meu sofá

Já fazia duas semanas desde o Churrasco dos Corvos. Duas semanas desde que ele agiu como um completo idiota e atacou Hinata sem necessidade alguma. Duas semanas e eles ainda não haviam voltado a se falar. Hinata tinha todo o direito de ficar bravo, de se afastar, odiá-lo, e o estava usando muito bem. Não o cumprimentou quando se cruzaram na universidade, muito menos o procurou fora dela. Kageyama estava dividido entre o alívio - ele não saberia o que dizer, como se desculpar, caso fossem conversar - e a saudade. As visitas aleatórias do ruivo ao seu apartamento cessaram completamente. Ele sentia falta delas. Sentia falta da companhia sempre alegre do rapaz, mesmo que eles sempre discutissem por algo banal durante essas visitas.

Suspirando, Kageyama se dirigiu até o aparelho de som, pescou o álbum "AM" da prateleira e deu play. Perdera as contas de quantas vezes ouvira aquele álbum - a banda era uma de suas favoritas e aquele álbum era o melhor trabalho deles, em sua opinião. Embora tivesse ouvido milhares de vezes, as letras e melodias sempre o envolviam. O sentimento era sempre o mesmo. Principalmente quando ouvia "Do I Wanna Know" - sua faixa favorita do LP. E também sua faixa favorita da banda, do mundo, do universo e além. Afinal, ele era um masoquista filho da puta.

Assim que os primeiros acordes começaram a soar pelo apartamento, Kageyama pegou uma garrafa de vinho e sentou-se no sofá - era hora de relaxar. Nada como passar uma noite de sexta-feira em casa, sozinho, ouvindo música e enchendo a cara, para aliviar o estresse acumulado durante uma semana inteira de trabalho, estudos e problemas amorosos.

Embora o último item tivesse um impacto bem maior no percentual total de seu nível de estresse do que no de outras pessoas. Sendo sincero, 99,9% de seus problemas de irritação, acumulado nos últimos 6 anos de sua vida, se deviam a problemas amorosos. Ou melhor, a um problema de amor platônico. Sorriu divertido. Já fazia tanto tempo que ele nem tentava esconder mais. Por que negar? A negação não o levaria a lugar algum, sabia disso. Houve uma época em que tentou esconder seus verdadeiros sentimentos, dos outros e de si mesmo, mas não funcionou. Nem sequer por um segundo. Na verdade, sua negação só o prejudicou, causando uma situação da qual se envergonharia para sempre.

Foi durante o segundo ano do Ensino Médio, ano em que descobriu-se apaixonado pelo colega de clube, Hinata Shouyou, e, desesperado como estava com aquela situação, acabou se metendo em uma pior, da qual resultou o seu maior arrependimento até o atual momento: beijar Tsukishima Kei.

Tudo aconteceu no baile de formatura do Colégio Karasuno. Naquela época, quatro de seus senpais - Daichi, Suga, Asahi e Kiyoko - já haviam se formado, e aquela era a festa de despedida de mais alguns deles: Tanaka, Nishinoya, Ennoshita, Narita e Kinoshita. Como era de se esperar, os dois primeiros fizeram questão de deixar sua "marca" no colégio - como se o troféu de Campeões das Nacionais, ganhado naquele ano mesmo, não fosse o suficiente - e por isso batizaram, sem que ninguém notasse e pudesse impedir, o ponche dos alunos.

Acontece que Kageyama adorava ponche e, como qualquer adolescente sem vícios, era fraco para bebidas. Bastou dois copos para ele sentir seu corpo relaxar. No terceiro, um sorriso bizarro surgiu em seu rosto, assustando alguns professores e causando risadas histéricas nos alunos mais próximos. Seu sorriso, no entanto, não durou muito. Assim que ele viu, com o olhar anuviado pelo álcool, duas pessoas dançando no meio da pista, ao som de uma música lenta, seu sorriso desapareceu. Yachi, a manager do time, enlaçava firmemente o pescoço do próximo Ace da Karasuno, Hinata, enquanto sorria alegre para ele. Da posição em que se encontrava, Kageyama não podia ver o rosto do ruivo, mas tinha certeza que ele correspondia aos sorrisos da garota. Por alguma razão, imaginá-lo sorrindo para ela enquanto dançavam agarradinhos, o irritava mais do que a dança em si. Talvez porque, quando estavam juntos, eles apenas brigavam ou falavam sobre vôlei. Às vezes, Kageyama perguntava-se quando foi que aquilo - só ter a atenção de Hinata quando o assunto era vôlei - começou a incomodá-lo. Queria poder resetar e voltar para o tempo em que a presença do ruivo, ou a falta dela, não fazia a menor diferença na vida dele.

Perdido em pensamentos, Kageyama demorou para perceber que estava sendo observado e, quando o fez, não gostou nada de descobrir por quem. Sentado do outro lado da quadra de esportes - o mais longe possível do palco improvisado onde uma banda colegial, The Ride, tocava e da platéia que dançava ao som deles - estava Tsukishima Kei, o ser humano mais insuportável que ele tivera o desprazer de conhecer em sua vida. Certo, talvez o segundo - Oikawa Tooru ainda ocupava a primeira posição, apesar de não vê-lo há bastante tempo, graças a Deus. Ainda que várias mesas e pessoas estivessem entre os dois, não foi difícil notar o sorriso sarcástico que o loiro tinha no rosto, como se soubesse exatamente o que ele estava pensando.

Imbecil. Não sabia como Yamaguchi suportava ficar 24/7 atrás daquele cara. Apesar de que já fazia um tempo que os dois só eram vistos no mesmo lugar durante os treinos do time. Interessante. Será que haviam brigado? Talvez por isso o loiro estivesse observando seus passos aquela noite: para tentar não observar os de Yamaguchi que, no momento, conversava animadamente com a namorada, Yumi - uma terceiranista de outra escola. Rindo internamente, Kageyama brindou o loiro com um sorriso maldoso e um gesto obsceno antes de dar as costas para ele e ir atrás de mais ponche. Precisava manter-se ocupado.

E, de certa forma, conseguiu. Uma hora e incontáveis copos de ponche mais tarde, Kageyama estava tão ocupado tentando chegar ao banheiro sem desmaiar, que não tinha tempo para pensar no que Hinata estava fazendo ou deixando de fazer com a manager. Tanta era sua concentração no ato de andar, que viu os sapatos finos de uma garota virem em sua direção antes mesmo de ver a dona. E ainda assim, não conseguiu evitar trombar com ela - tinha perdido o controle de seus membros após o sexto copo do ponche batizado.

- D-desculpe - disse, tentando soar o mais normal possível.

- Ai meu Deus! Você está bem? Sinto muito, eu não te vi! - A garota falou ao mesmo tempo que ele.

Depois de ouvir aquela voz tão suave, fez um esforço para levantar a cabeça e olhá-la. Ela era linda. Trajava um vestido branco simples, com uma faixa roxa marcando a cintura fina. Nos pés, sapatos de salto alto na cor preta. Os cabelos escuros estavam soltos, servindo como moldura para o belíssimo quadro que era o rosto dela, principalmente aqueles olhos... O que era aquela cor? Não podia ser real. Pareciam... Brancos, talvez?

- Etto... Você está bem? - Ela repetiu a pergunta. Kageyama passara tempo demais encarando-a. Porém, antes que pudesse se desculpar e mentir sobre estar tudo bem, uma voz gritou atrás deles:

- Hinata! Oe!

Hinata...

- Hai!

Então o nome da garota era Hinata? Que tipo de mundo invertido é esse que permite coincidências como aquela ocorrerem? E uma bem ruim, diga-se de passagem. Pronto, estava novamente irritado. Tudo culpa daquela garota. Nem mesmo a beleza dela poderia amenizar seu mau humor agora. Sendo assim, ignorou totalmente as perguntas dela, a rodeou e seguiu seu caminho em direção ao banheiro.

Para sua surpresa, o lugar estava quase vazio, apenas duas pessoas além dele lá dentro. É claro que sua sorte não durou muito; morreu antes de sequer dar o primeiro suspiro. Assim que aliviou suas necessidades geradas pelo consumo excessivo de líquido durante aquela noite, ele saiu da cabine e deu de cara com o loiro insuportável de antes lavando as mãos na pia.

- Yo, Rei - disse ele, olhando-o pelo espelho fixado na parede.

Antes, Kageyama tinha a leve impressão que Tsukishima estava dando o seu melhor para roubar o primeiro lugar de Oikawa no quesito "ser humano mais insuportável", agora tinha certeza. Fingindo que não tinha mais ninguém ali, lavou e secou as mãos. Porém, quando estava se retirando, o loiro disse:

- Ignorando o plebeu? Tsc, vejo que sua atitude não melhorou em nada. - Kageyama ia ignorá-lo como sempre, já que não era a primeira vez que o outro o provocava, mas isso foi antes dele apelar: - E é exatamente por isso que um certo ruivo prefere a companhia de uma certa manager à sua - cantarolou.

O moreno, que já estava com a mão no trinco da porta, parou. Respirou fundo, contando até três, antes de olhar para o loiro com o sorriso mais gentil que tinha em seu arsenal de bizarrices, e então, destilar seu veneno:

- Tem certeza que está falando de mim? Eu podia jurar que o fato de o Yamaguchi estar trepando com uma garota mais velha tem a ver com o seu tipo de atitude - retrucou, dando ênfase na palavra "garota". O outro rapaz já não sorria, mas Kageyama ainda não tinha terminado. - Ou eu estou enganado? Talvez só tenha a ver com o fato de você ser um homem e ele preferir mulheres, não?

- Cala a boca.

- O nome dela é Yumi, certo? Ela é bem atraente...

Antes que pudesse terminar sua frase, foi violentamente arrancado de seu lugar junto à porta de saída e lançado contra uma das paredes divisórias entre as cabines.

- Cala a merda da boca! - O loiro gritou, furioso. Todavia, ele também não estava em um dos seus melhores dias, por isso grudou na camisa social do outro e o empurrou com toda a força que restava em seu corpo bêbado, fazendo-o colidir contra o balcão da pia no lado esquerdo do banheiro.

- Ah, então você gosta de provocar os outros, mas não aguenta ouvir umas verdades, hein?!

- Eu já mande você calar sua maldita boca! - Tsukishima estava vermelho de raiva.

- Não calo! - Kageyama gritou mais alto, ignorando o olhar estranho que passou pelos olhos castanhos dourados. - Você quis me ating...

O quê?

O que era aquilo?

O que estava acontecendo ali?

O cérebro de Kageyama, já normalmente lento, levou vários segundos para processar a situação inusitada em que se envolveu: um beijo. Tsukishima estava o beijando.

Seu primeiro beijo...

MAS QUE MERDA É ESSA?

Assim que seu cérebro terminou de processar aquele absurdo, foi a vez de seu corpo entorpecido pelo álcool tentar se livrar daquela situação. Ele não foi rápido o bastante, no entanto. O estrago já estava feito. E não se referia somente ao roubo de seu primeiro beijo, mas a algo pior, muito pior que isso.

- Minha nossa... - A voz de Hinata soou atrás dele. Parecia assustada, chocada... E o rosto, branco como papel.

- H-hina... - Kageyama sequer conseguia pronunciar o nome dele.

- Com licença? Eu quero passar. - Tsukishima disse para o ruivo em seu caminho. Um olhar para ele e entendeu tudo: ele tinha visto Hinata entrar no banheiro e por isso o beijou. Por vingança. Porque Kageyama havia o magoado. - Até mais, Rei! - Sorriu maliciosamente.

Cretino filho da puta!

- E-eu... Hum... K-kageyama? O que foi isso?

- Nada.

- Como nada? V-vocês... vocês...

Kageyama queria cavar um buraco na terra e se esconder para sempre - não só a cabeça, seu corpo inteiro. Precisou reunir toda a coragem cedida pelo primeiro porre de sua vida para dizer as poucas palavras que enterrariam de vez sua dignidade:

- Esqueça isso, por favor. E não comente com ninguém.

- E-eu não... mas..

- Por favor.

Hinata ainda parecia confuso. Com certeza queria respostas, mas fez o que lhe foi pedido e esqueceu aquilo. Hoje, seis anos depois, aquele acontecimento continuava esquecido, devidamente enterrado por todos os envolvidos. Bom, pelo menos até um deles misturar álcool com músicas tendenciosas, como ele estava fazendo aquela noite.

- Eca. - Só de relembrar isso, seu rosto se contorceu em uma careta de nojo. Realmente, aquele foi um tempo sombrio de sua vida.

Bebeu uma taça cheia de vinho para afastar o amargor da boca, assim como as lembranças indesejadas. Estava prestes a tomar outra quando a campainha de seu apartamento tocou. Ótimo, a pizza havia chegado!

- Já vai! - gritou para o entregador, enquanto ia buscar o dinheiro em sua carteira e aproveitava para vestir uma camiseta. Contando o dinheiro, ele abriu a porta. E quando olhou para cima...

- Você não devia abrir a porta com a sua carteira na mão. Não tem medo dos gatunos? - perguntou Hinata, um sorriso divertido no rosto.

(Eu quero saber) Se esse sentimento é recíproco?

(Triste por te ver partir) Eu meio que esperava que você ficasse

(Querido, nós dois sabemos) Que as noites foram feitas principalmente

Para dizer coisas que não se pode dizer no dia seguinte

Me arrastando de volta para você

Já pensou em ligar quando você tomou umas?

Porque eu sempre penso

Talvez eu esteja muito ocupado sendo seu, para me apaixonar por outra pessoa

Agora, pensei bem sobre isso

Me arrastando de volta para você

- H-Hinata? O que está fazendo aqui?

Ignorando a pergunta, o ruivo adentrou o apartamento, levando sua carteira no processo.

- 10 mil yen? - Soltou um assovio impressionado. - Dólares?! Você tem dólares Kageyama-kuuuun! - gritou, se abanando com algumas notas de dólares que havia em sua carteira.

Irritado, foi até o sofá onde ele estava deitado e tirou o objeto de suas mãos.

- São apenas 30 dólares, boke! Para de show!

- Não importa. Você tem dólares na sua carteira! Sabe o que tem na minha? Vento! E algumas moedas de 100 yen... Para um mero mortal como eu, você é praticamente o Bill Gates asiático. Como o esperado de um bocchan!

- Não me chame assim. - Assumiu um tom sério. Odiava quando ele mencionava a diferença de classes entre os dois. Sendo o filho único de dois advogados empresariais muito bem sucedidos, Kageyama sempre teve de lidar com as piadinhas de seus colegas menos favorecidos, porém, ouvir isso de seu interesse amoroso - alguém que viu a mãe solteira precisar arrumar dois empregos para sustentar os filhos - o incomodava muito, pois deixava em evidencia o enorme abismo que havia entre os dois.

Hinata apenas sorriu.

- Viu? Não foi difícil falar comigo, foi? Não precisava ter me evitado esse tempo todo.

- O quê? - Nem ao menos tinha se dado conta que eles conversavam normalmente, como se ele não tivesse surtado da última vez que os dois se viram. Ao perceber que o sorriso do ruivo aumentava, desconversou: - Eu estava bem aqui o tempo todo. Você foi o único que sumiu e não falou comigo nem na faculdade.

- Eu estava me fazendo de difícil! Não é justo que eu me arraste atrás de você, sendo que não fui eu quem errou!

- E não é exatamente isso o que você está fazendo agora? - Kageyama observou com uma satisfação culpada enquanto o ruivo corava e desviava o olhar, rendido.

- Bom... A comida acabou. E como orgulho não enche a barriga de ninguém... Aqui estou eu! Pronto pra te perdoar enquanto comemos algo gostoso e celebramos nossa amizade!

- Você é um idiota. - Foi tudo o que respondeu, apesar de estar gargalhando internamente.

- Sim, sim! E um idiota bem faminto! Por favor, me diga que você está esperando uma pizza.

- Metade calabresa...

- METADE NAPOLITANA!!!! - Hinata completou sua frase.

Como cada um deles tinha uma preferência de sabor, sempre que compravam pizza ela era rachada ao meio: calabresa para ele e napolitana para o ruivo. Kageyama só esperava que Hinata não comentasse o fato de que ele havia pedido a pizza de sempre mesmo estando sozinho. Felizmente, antes que isso acontecesse a campainha tocou novamente e ele foi atender. Depois de pagar o entregador, depositou a grande caixa em cima da mesinha da sala e se retirou para a cozinha.

- Aonde vai? - perguntou Hinata, ocupado demais salivando em cima da pizza para olhá-lo.

- Buscar mais vinho. - Sorriu. - Estamos celebrando nossa amizade, não é mesmo?

- Kageyama-kun! Você tem um coração!

- Cala a boca, boke.

Então você criou coragem?

Estive pensando se seu coração ainda está aberto

E se estiver, quero saber que horas ele fecha

Acalme-se e prepare seus lábios

O álbum continuava tocando no repeat. Hinata fazia coro à voz do vocalista Alex Turner - completamente fora do tom, é claro. Como cantor, ele era um excelente médico.

Médico... E pensar que ele escolheria uma das profissões mais difíceis do mundo - e com aquelas notas!

Kageyama ainda lembrava-se da surpresa que sentiu quando ficou sabendo que ele tinha passado no vestibular. Honestamente, sua surpresa só não foi maior do que a do próprio vestibulando. Mais do que surpresa, no entanto, sentiu-se feliz por ele. Genuína e completamente feliz. Como se aquela também fosse uma conquista sua - e talvez fosse. Não dizem que quando se ama honestamente, tudo - desde a alegria mais profunda até o sofrimento mais terrível - é dividido por dois? A melhor parte, a parte que o consolava nos piores momentos, era que, apesar de não ser o mesmo tipo de amor, Hinata também estava conectado com ele, sentindo-se feliz e triste por ele. Apenas saber disso já fazia seu sangue correr mais rápido e seus ossos vibrarem agradavelmente.

- Você ainda gosta dele?

- O quê? - Perdido em pensamentos, Kageyama não se dera conta que Hinata havia parado de cantarolar e começado a encará-lo. - Pode repetir?

- Você ainda gosta dele?

- De quem? - Franziu a testa em confusão.

- Tsukishima.

- É o que?!

- Você ainda gosta do Tsukishima?

- Eu ouvi da primeira vez! Quero saber que merda é essa que você tá falando!

- Foi por causa dele que você se irritou aquele dia? Por que o Yamaguchi e ele vão se casar?

Sim, Tsukishima e Yamaguchi estavam noivos. Anunciaram isso - contra a vontade do loiro - durante o último Churrasco dos Corvos. Mas por que Hinata pensava que aquilo o afetou de alguma forma, fugia de sua compreensão. Porém, antes que pudesse estapeá-lo, para que seja lá qual fosse o parafuso que tivesse se soltado em sua cabeça voltasse ao lugar, o ruivo recomeçou a falar:

- Tudo bem se você ficou com ciúmes. Sei que não é fácil esquecer o primeiro amor. Não se culpe.

- Prim... Pelo amor de Deus, Hinata, cala a boca! Só cala essa boca!

- Por quê? - O desgraçado ainda ousava parecer confuso.

- "Por quê?" Não é óbvio? De onde foi que você tirou que eu amo o Tsukishima?

- Eu não disse "ama", eu disse "gosta". Quem tá falando de amor é você!

- Eu vou te matar! - Bem que ele queria, mas o ruivo foi mais rápido e fugiu de suas garras.

A uma distância segura, Hinata ergueu as mãos em sinal de rendição e disse:

- Certo. Me desculpe. É só que, aquela vez, no colégio...

E aí estava. Então ele não tinha esquecido totalmente aquele acontecimento. Que pena. Com uma expressão de desgosto, Kageyama sussurrou envergonhado:

- Foi só um beijo. Não rolou nada mais.

Graças a Deus por essa misericórdia.

- Nem depois?

- É claro que não, boke! O que acha que eu sou?

- Ah.. Desculpe. Eu só pensei...

- Não pense. Todos nós sabemos que você não é bom nisso.

- Também não precisa ofender. - Emburrado, ele voltou a sentar do seu lado no chão, as costas contra o sofá.

Só porque sabia que ia irritá-lo, disse:

- Boke! Hinata Boke!

Hinata se limitou a soltar um "tsc" em resposta.

Satisfeito por ter a última palavra, Kageyama abriu uma nova garrafa de vinho - a sexta da noite - e encheu sua taça até a borda. Não era elegante, mas ele não se importava. Não há como ficar bêbado somente com vinho de outra maneira - e pensar que sua resistência à bebidas alcoólicas tinha aumentado tanto assim. Infelizmente, mal deu o primeiro gole no saboroso líquido e foi obrigado a cuspi-lo.

- Você ainda sai com homens?

Assim que recuperou-se do engasgo ocasionado pelo susto, virou-se furioso para Hinata.

- Que merda é essa agora?! O que deu em você hoje?!

O ruivo apenas o encarava. Seu olhar, apesar de turvo e excessivamente brilhante devido ao vinho, era determinado. Aquilo não era uma piada. Ele estava falando sério. Então Kageyama resolveu ficar sério também.

- Você está bem interessado em mim hoje, Hinata. E quanto a você? Por que não fala um pouco sobre a sua vida amorosa?

- Porque ela é uma droga - respondeu sem hesitar. - Sou tão ocupado que não tenho tempo para nada. Nem sequer para uma foda sem compromisso. Sua vez.

Diferente de Hinata, Kageyama hesitou, e muito, antes de responder. Mas como ele, também foi honesto:

- Sim, ainda saio com homens. Na verdade, só saio com homens.

- Você é gay.

Não era uma pergunta, entretanto, respondeu mesmo assim:

- Sim, eu sou gay. Você tem algum problema com isso?

- Certamente que não. Até porque, até onde eu estou ciente de mim mesmo, eu também sou gay. Talvez não por inteiro, mas uma parte de mim com certeza é gay. Definitivamente.

Era a bebida. Só podia ser a bebida. O vinho devia ser muito bom, mais forte do que ele pensava. Ou talvez fosse o contrário: era tão ruim que causava alucinações. Devia estar envenenado. Era a única explicação sensata para o que estava acontecendo ali. Porque, se ele não estava alucinando, então aquilo... A palavra "gay" continuava ecoando em seu ouvido. Não tinha jeito, teria de perguntar.

- O quê?

- Eu sou gay.

- Meu Deus do céu...

Kageyama já sentia um leve latejar em sua testa - primeiro sinal do que seria uma grande dor de cabeça. Fechou os olhos e começou a massagear uma de suas têmporas com os dedos médio e indicador. Hinata continuava falando, aparentemente alheio ao seu desespero.

- Quero dizer, o termo correto é bissexual já que sinto atração por homens e mulheres. Apesar de que só transei com mulheres até agora...

- Por que nunca...

- Te disse? Pela mesma razão que você nunca me contou que é gay. Ou, quem sabe, foi pela mesma razão que você nunca me contou que está apaixonado por mim.

- Não sei do que está falando - respondeu, automaticamente. Aquela frase deve ter soado tão falsa para Hinata quanto soou para ele, já que o ruivo sorriu sarcasticamente.

- Não sabe? Eu explico então: é a forma como olha para minha boca e corpo quando pensa que não estou prestando atenção. É o fato de você estar numa faculdade pública, apesar de seus pais serem ricos e você ter sido aceito em uma particular. É o jeito como olhou para mim naquele jogo, tão perdido em meu corpo, que acabou levando uma bolada na cara. - Riu, convencido. - Preciso continuar? Porque eu posso.

Ele sabia. Todo esse tempo Hinata sabia sobre os seus sentimentos e ainda assim...

- Se você sabia, então por que todo esse teatrinho? - Dessa vez, Kageyama não precisou fingir. A frieza em sua voz era real. Estava congelando de ódio. Embora isso não tenha abalado Hinata.

- Não sabia por onde começar a falar o que tenho para dizer. Estava procrastinando. Sinto muito. Aliás, sobre o Tsukishima, acho que você deveria saber que ele me explicou o que realmente aconteceu aquela noite, anos atrás. Sabe... Sobre ele ter te beijado à força.

- O que você quer? - Praticamente rosnou a pergunta.

Quanto mais Hinata falava, mais queria bater nele. Kageyama sabia que o ruivo há muito deixara de ser o garoto inocente da época do colégio, mas aquilo já era demais. Durante todo esse tempo - não dias ou meses, mas ANOS - ele soubera a verdade e por anos brincou com ele. Agora que pensava nisso, houve situações em que Kageyama quase chegou a acreditar que era correspondido, tudo por causa das provocações de Hinata. Saber que tudo foi de propósito o enlouquecia.

- Anda, Hinata! Fale logo! O que você quer?!

- Você. - Ele respondeu. Novamente, nenhuma hesitação na voz. - Cada pedacinho seu. É isso o que eu quero. - Ao ver que Kageyama não estava em condições de responder coisa alguma, prosseguiu: - Você deve me achar cruel, mas a verdade é que o cruel sempre foi você. Me provocando, me atiçando e nunca, nem uma vez sequer, cumprindo o que seu corpo prometia. Por que você é incapaz de tomar a iniciativa quando se trata de nós?

Nós? Quando foi que isso aconteceu?

- Sabe o que você fez comigo? Sabe quão cansativo é tentar não te agarrar e beijar toda vez que você faz o que está fazendo agora?

Fazendo?

- Meus olhos ficam aqui em cima, Kageyama-kun. - Com o dedo indicador, Hinata segurou seu queixo, chamando sua atenção e fazendo-o desviar seus olhos da... Ah. Ele esteve olhando para a boca de Hinata esse tempo todo.

Ele não sabia o que dizer, então ficou em silêncio. Precisava colocar os pensamentos em ordem. Afastou o dedo de Hinata do seu queixo e agarrou a garrafa que estava na mesinha. Ignorou a taça, não precisava dela. Precisava era de mais álcool em seu organismo. Então, bebeu do gargalo. Embora essa atitude primitiva tenha gerado uma confusão de vinho escorrendo pelos cantos de sua boca e manchando a roupa limpa, não foi esse o maior problema e sim o que aconteceu depois de ter devolvido a garrafa, vazia, para seu lugar na mesa. Antes que pudesse limpar a bagunça por si mesmo, lá estava Hinata, limpando o vinho que escorreu pelos cantos de sua boca... Com a língua.

Kageyama sobressaltou-se. O ruivo tinha aproximado-se tão rápido... Exatamente como naquele jogo em que se conheceram.

- O que você pensa que está fazendo?!

Hinata não demonstrou vergonha alguma. Muito pelo contrário, voltou a aproximar-se dele, olhos brilhando, bochechas coradas e uma voz macia ao dizer:

- Tudo bem, Kageyama. Bebemos o suficiente para podermos culpar o vinho amanhã de manhã.

- Nã..

Não teve tempo de terminar sua recusa, pois foi beijado por Hinata antes disso. O ruivo o deitara no chão, chutando a mesinha para abrir mais espaço para seus corpos. Beijava-o com tanto desejo, tanta fome, que Kageyama só podia acreditar que tudo o que ele disse até aquele momento era verídico. Ele realmente andou se segurando.

O mesmo podia ser dito de si próprio. Kageyama não gostava nem um pouco da forma como as coisas aconteceram, mas não podia negar que gostava, e muito, do que estava acontecendo. Por isso correspondeu aos beijos de Hinata com a mesma paixão com que era beijado. O beijou como sempre quis. O amou como sempre quis. Finalmente tinha sua resposta para aquela pergunta que o atormentava desde o Ensino Médio: seus sentimentos eram, sim, correspondidos. Bom, pelo menos um deles - o desejo - era. Não tinha dúvidas quanto a isso. Hinata estava totalmente entregue ao momento, assim como ele. Ainda bem que eles tinham o vinho para culpar por todas as coisas que aconteceram na sala, no corredor a caminho do quarto, na cama e no banheiro durante uma chuveirada na manhã seguinte.

Sinto muito interromper, é que estou constantemente à beira

De tentar te beijar

Não sei se você sente o mesmo que eu

Mas poderíamos ficar juntos se você quisesse

- Por que ontem?

Era hora do café da manhã. Depois de uma noite sem dormir devido a todo aquele exercício, eles precisavam de um café da manhã reforçado para recuperar a energia. Kageyama fritava o bacon e os ovos, enquanto Hinata cozinhava o arroz na panela elétrica. Ambos beliscavam os restos da pizza da noite anterior, para manter seus estômagos sob controle.

- Hã?

- Por que veio ontem? Podia ter esperado até hoje cedo, não ia morrer de fome por ficar uma noite sem jantar.

- Por que ir pra cama sem comer, se eu podia ter pizza de graça? - tentou fugir do assunto com uma piada, mas ao ver o olhar de Kageyama, confessou: - Uma pessoa morreu ontem. No estágio.

- Seu paciente?

Como aquele já era o quarto ano de Hinata em Medicina, ele fora autorizado a estagiar no hospital da própria universidade. Normalmente, ele e seus colegas só realizavam o atendimento básico, como suturas e exames raios-x, mas nunca se sabe - não há nada mais imprevisível do que a vida humana.

- Não inicialmente. No entanto, depois que as coisas complicaram, fui chamado para ajudar. Você sabe, hospital universitário... A maior parte dos médicos lá são alunos. - Pausou. Kageyama não disse nada. Deixaria ele ter seu tempo. - Era uma garota. 16 anos. Estava com as colegas, voltando do Intercolegial... De vôlei.

- Ah...

Então era isso.

- Pelo que eu ouvi, um motorista bêbado bateu com o caminhão no ônibus que levava o time. - Seus dedos apertaram a tampa da panela involuntariamente, indignado. - Elas tinham avançado para as quartas de finais. - Deu um sorriso triste. - Com certeza estavam muito felizes e então... Isso.

- Sinto muito.

- Eu também.

- Mais alguém...? - A palavra "morreu" não foi pronunciada, mas ainda assim abriu um buraco negro na cozinha, sugando todo o ar para dentro.

- No nosso hospital, não. Ainda não. Três estão na UTI. Haviam muitos alunos no ônibus, a torcida também estava com elas. Eles foram divididos entre vários hospitais, cinco foram para o da universidade.

Eles ficaram em silêncio. Não havia muito o que dizer depois daquilo. Mesmo assim, Hinata tentou:

- Ela, Reina era seu nome, me lembrou de nós. Mais precisamente, me lembrou de você.

Dele?

- Lembra que eu disse que das cinco pacientes transferidas para o nosso hospital, três estão na UTI? Então, a quarta era a Reina e a quinta... A namorada dela.

- Ah...

A mesma reação estúpida de antes. Mas, novamente, o que mais ele poderia dizer diante de uma situação daquelas?

- Essa garota só teve ferimentos leves - alguns arranhões e um braço quebrado. Ficou consciente o tempo todo e sempre perguntando sobre a namorada. Quando... aconteceu, e nós saímos da sala de cirurgia, ela estava lá. Kageyama, foi horrível. Verdadeiramente desesperador. E por um segundo, eu vi você naquela maca, olhos fechados para sempre... - Os olhos dele estavam cheios de dor. Kageyama não pensou duas vezes antes de desligar o fogo e ir abraçá-lo com toda a força que possuía. Queria garantir para ele, e também para si mesmo, que os dois estavam bem e assim permaneceriam por muito tempo.

Depois de alguns minutos naquela posição, Hinata afastou-se, enxugando o rosto e respirando fundo. Quando voltou a falar, sua voz soava fraca, mas calma:

- A próxima coisa de que me lembro é de estar aqui. Nem sei se passei em casa antes.

- Então tudo aquilo sobre estar passando fome era mentira? - Tentou descontrair para aliviar o clima pesado que se instalou na cozinha. Hinata entrou na onda.

- É claro que não! É certo que eu talvez tenha uma cabeça ou duas de repolho na geladeira, mas o resto acabou mesmo. Eu juro por Deus! - Beijou os dedos cruzados - o que era uma blasfêmia, já que, obviamente, aquilo era uma mentira.

- Você me deve o valor de três pizzas grandes - disse ele, estendendo a mão para que o ruivo depositasse o dinheiro que ele tinha gasto com os lanches da noite anterior.

- O quê?

- Acha que dinheiro cresce em árvore?

- Mas você é rico!

- E pretendo continuar sendo. É por isso que não vou permitir que você me leve à falência. Me pague!

Hinata ficou em um silêncio chocado por alguns instantes, depois falou:

- Bom, como você sabe, eu sou extremamente pobre...

- Me pague.

- ... Então só vejo duas soluções para esse impasse, nenhuma delas envolve te pagar imediatamente...

- Me pague.

- Da pra me escutar um pouco?!

- Me pague.

- Argh! Okay, vou te pagar! Escolha o modo de pagamento que menos te ofenda, por favor: 1- através de favores sexuais. 2- essa também envolve sexo, mas não com você. Eu teria que me prostituir até conseguir o seu dinheiro - em espécie, é claro. E aí? Qual vai ser?

Kageyama podia sentir o latejar de uma veia em sua testa. Aquilo era sério? Ele estava dando o seu melhor para animá-lo depois daquele relato triste e era assim que ele respondia? Testando os seus limites? Brincando com seus ciúmes? Pois muito bem. Agora ele iria se queimar. Sem nenhum aviso, o pegou no colo, só para deitá-lo no chão logo em seguida. Após sentar-se em seus quadris e imobilizar seus braços em cima da cabeça, falou:

- Eu escolho a opção 1, mas fique sabendo que sua divida acaba de aumentar: também terá que pagar por cada garrafa de vinho aberta durante essa noite. Boa sorte com isso, algumas delas eram realmente caras.

- O quê? Mas você foi quem mais bebeu!

- Calado. - Sem dar tempo para que ele reclamasse mais, o beijou. Violentamente. E só parou quando respirar se fez absolutamente necessário.

Ofegante e mais vermelho que um pimentão, Hinata arriscou algumas palavras. Kageyama ia beijá-lo de novo para calá-lo, mas parou ao ver algo brilhar nos olhos do menor: determinação.

- O-ontem... Ontem eu vim aqui porque só de pensar na ideia de que fosse você no lugar daquela menina... Se fosse você e eu tivesse te perdido sem nunca contar como me sentia, por puro orgulho, simplesmente porque eu queria que você fizesse o primeiro movimento... - Balançou a cabeça para afastar os pensamentos. - Não gosto nem de imaginar. É por isso que, a partir de hoje, vou ser sincero com você, comigo, com meus sentimentos. Começando agora. Por favor, não se assuste, mas...

Kageyama ouvia atentamente. Seu coração batia tão rápido, tão forte, que o som podia muito bem estar ecoando pela cozinha inteira. Entendia o que Hinata queria dizer com aquilo: porque a vida é imprevisível, devemos vivê-la ao máximo. Era isso. Ele também queria viver assim, sem arrependimentos. Foi por isso que reuniu todo o sentimento que sufocara nos últimos 6 anos, e o libertou de uma só vez:

- Eu te amo.

Eles nunca chegaram a saber quem declarou-se primeiro. Mas não importava. Não mais. 

7 de Mayo de 2018 a las 17:55 6 Reporte Insertar 11
Fin

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Ellie Blue Ellie Blue
Olá! Depois de ter lido essa mesma fic umas quatrocentas e cinquenta vezes em DOIS DIAS, acho que, realmente, tá na hora de comentar aqui (desculpa, eu esqueci). Antes de tudo, eu queria dizer que AMO essa banda, essa música, que a forma como a fic se seguiu em torno dela me deixou muito feliz! AM é um álbum muito bom, realmente. Agora, sobre a fanfic em si, eu AMEI a sua escrita, ela é leve e bem fluida, me deixou numa paz danada ao ler. Você pegou nossos queridos personagens e encaixou de maneira correta em suas respectivas personalidades. Eu imaginei eles falando de verdade, sabe, como no anime (no mangá não dava pra ouvir, então...). A questão é que: ficou tudo maravilhoso. Eu amei. Quero explodir o mundo, porque essa fic ganhou meu coração. É AQUELA fic, sabe? Eu finalmente achei uma kagehina assim! Mano, EU TÔ TÃO FELIZ. Ai, agradeço pela existência dessa fic, mermão! Obrigada, de verdade. <3
29 de Septiembre de 2018 a las 20:40

  • Taty Price Taty Price
    Que comentário mais "iti malia" é esse aqui? Sério, vc me fez muito feliz com o seu comentário! Eu AMO essa música e enquanto a escutava essa história surgiu na minha mente. E desde o começo tinha que ser KageHina, eu só conseguia enxergar os dois nesse enredo. Amo meus filhos demais <3 Enfim, que bom que gostou. :) 3 de Octubre de 2018 a las 10:00
AnnyeCS AnnyeCS
MANA DO CÉU! EU TÔ MUITO GRATA POR ESSA FIC! Tô completamente apaixonada por esse Hinata adulto, universitário de medicina e totalmente desinibido. Gente nunca achei que teria tesão no Hinata, ele é muito bebê pra mim! E hshahaha é muito a cara do Tobio dizer "eca" lembrando do provável pior beijo que ele teve na vida! AHHHHHHHHHHH SUA FIC TÁ DEMAIS DE VERDADE! Me prendeu do início ao fim. Me fez rir também em ele umas situações. Meus parabéns. !
9 de Junio de 2018 a las 17:17

  • Taty Price Taty Price
    AHHHHHHHH MUITO OBRIGADA!!!! Que bom que vc gostou! Eu também acho o hinata um bebê, mas é por isso que é tão legal escrever sobre ele já na fase adulta! Meu filho vai arrancar suspiros (e deixar o kageyama louco de ciúmes) quando crescer kkkkkkkkkk E sim! Imagina como não foi pro kageyama beijar o tsukki kkkkkkk 10 de Junio de 2018 a las 08:28
Iara Coelho Iara Coelho
OH MEU DEUS!!!! OLHA ESSES DOIS MANO! OLHA ELES!!! AAAHHHHH EU SOU APAIXONADA POR ELES!!!! Ok, Taty, vc já se tornou profissional em me fazer chorar, gritar e beijar o chão. Oq eu posso dizer desta perfeição de fic? Além de que ela é mto perfeita? Caralho, eu tô mto no chão agora!!!! QUERO MAIS!!! ME DA MAIS PF!!!! E com lemon se possível rsrsrrrrs Adorei. Esse Hinata mais adulto e totalmente malicioso fodeu com a minha cabeça. Amei!!!! Tô extasiada, pronto falei. É isto. Rsrsrsrsrrsrs Maravilhosa como sempre neh tu!!! Bjoooooooooooo ❤️❤️❤️❤️❤️
8 de Mayo de 2018 a las 08:46

  • Taty Price Taty Price
    eu amo histórias em que eles são mais velhos justamente por esse amadurecimento por parte do Hinata. As pessoas veem o Kageyama como o adulto da relação, mas para mim o Hinata sempre foi o mais decidido e tal (esse jeito malicioso dele é um bônus kkkk). Sobre o lemon: no geral, eu não sou muito boa escrevendo cenas de sexo kkk (não importa se gay ou hétero). Tanto é que na maioria das minhas fics não tem. Mas tô tentando melhorar kkk 8 de Mayo de 2018 a las 10:29
~

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