rayel Felipe Rayel

Num mundo onde as sábias palavras de Hipócrates foram esquecidas, a medicina tornou-se refém da ganância e da política. O pai da medicina ergueu a ética, mas a humanidade, cega pela busca desenfreada pelo progresso, permitiu que grandes corporações ditassem o destino da saúde. Nesse cenário sombrio, a prática médica tornou-se um ofício à beira da extinção. Uma jornada intrigante pelo labirinto onde a moralidade se perdeu e a esperança de resgatar a nobreza da medicina parece fugaz.


#25 en Cuento Todo público.

#cyberpunk #distopia #futuro #medicina #tecnologia
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O Pesadelo de Hipócrates

Considerado o pai da medicina, Hipócrates (460 a.C) defendeu a ética e criou o juramento que todo médico tinha orgulho de seguir. Mesmo assim, na busca pelo progresso a qualquer custo, a humanidade acabou se perdendo em labirintos éticos e políticos. Permitindo que o futuro da medicina fosse conduzido por grandes corporações com interesses obscuros, fazendo com que a prática médica se tornasse um ofício em extinção.

A história a seguir se passa em um futuro distópico, onde os bebês já nascem sabendo mexer em dispositivos eletrônicos. Mas não, não é uma linguagem figurada. Eles realmente nascem sabendo… Rodrigo foi um desses. Seus pais compraram o kit completo, que prometia adiantar até mesmo o aprendizado da fala em até 3 idiomas.

Rodrigo era um jovem dedicado e estudioso; no entanto, naquele dia, ele chegou no seu limite. Escolhera trilhar o caminho da Medicina e, exausto, sentiu-se como um verdadeiro médico se sentia. Já era noite, e ele ainda nem havia almoçado. A intervenção cirúrgica precisou ser realizada presencialmente, e nada saiu como planejado.

Ao voltar do hospital, como sempre, o carro autônomo lhe deixou no local errado, a dez metros da sua casa. Mas cansado e com chuva, tudo o que ele não queria era ter que suar um pouco mais.

Os robôs cirurgiões eram os mais novos milagres da tecnologia. Apesar de permitirem cirurgias no espaço e em lugares distantes, onde não havia médicos, falhas como a daquele dia eram impossíveis de ignorar. No meio de um transplante hepático, a inteligência artificial acionou o alerta de pânico e passou o controle da cirurgia para o modo manual. O robô travou, com os braços mecânicos para cima, como se tivesse desistido de tudo.

Rodrigo, que apenas assistia ao procedimento, teve que terminar sozinho, o que a máquina não conseguiu fazer. Apesar de tudo, o resultado foi um sucesso, mesmo Rodrigo sendo ainda um estudante de Medicina.

Já em casa, foi até a cozinha e no forno, hidratou sua janta, que ficou pronta em 15 segundos. Filé de peixe sintético era a melhor das opções, pois sempre achou as outras proteínas com gosto de sabão. Enquanto comia, ligou sua tela de estudos, onde monitorava dois pacientes virtuais: Vanessa e Renan.

Vanessa se recuperava de uma grave infecção pulmonar e estava em um quadro estável que não exigia muita intervenção. Apenas observou a medição dos aparelhos e prescreveu um analgésico para os nano robôs terminarem de restaurar seus alvéolos. Porém, a medicação já estava sendo aplicada automaticamente pela máquina, sem mesmo que ele soubesse.

O caso de Renan era mais grave. Vítima de atropelamento, fraturou as vértebras C1 e C2 e precisou fazer um upgrade da coluna vertebral para ter seus movimentos de volta. No momento, estava em observação para evitar a rejeição do novo e polêmico dispositivo produzido pelas Indústrias Nakamoto. Saber que aquele implante poderia ser desativado remotamente pela empresa em caso de inadimplência era um tanto assustador, mesmo para ele, já acostumado a ver coisas daquele tipo.

Rodrigo podia prescrever medicações e solicitar qualquer procedimento que um braço robótico pudesse realizar. Na tela, era possível ver em detalhes os dois pacientes artificiais. Eles eram parte de uma avaliação do seu curso de medicina, e tudo que Rodrigo fazia seria avaliado remotamente pelos professores.

Na cápsula de higienização, ele pensava nas 8 cirurgias que teria que assistir no dia seguinte. Dois minutos depois, ele já estava limpo e seco. Sem hesitar, deitou-se na cama e, após uma picada seguida de um leve formigamento na nuca, Rodrigo já estava dormindo, desfrutando de suas merecidas 4 horas de sono. Quantidade mais do que suficiente, segundo recomendação da Organização Mundial de Saúde desde a popularização do AXIS.

AXIS era o equipamento que permitia que as pessoas pudessem dormir menos, acordando sempre dispostas e revigoradas. A tecnologia era polêmica, como tudo o que a Nakamoto produzia, pois ninguém sabia ao certo como aquilo funcionava. Mesmo assim, tornou-se muito popular, porque qualquer um conseguia pagar, trabalhando a mais nas horas que antes tinham que dormir.

Rodrigo caminhava com pressa pelo corredor do hospital. Olhou para os lados e viu toda aquela gente em movimento, mas não conseguiu se lembrar de como foi parar ali.

Ao passar pela cafeteria, viu médicos como os que almejava ser. Estavam em pé, bebendo energéticos que tinham nome de bomba: “Little Boy”. Bebiam aquilo com a pressa de quem tinha hora marcada para um derrame cerebral e não poderiam perder.

Rodrigo começou a perceber a loucura que o mundo tinha se tornado e pensou sobre como aquilo não parecia certo. As pessoas estavam utilizando dispositivos que aceleravam suas vozes, permitindo que conversassem a uma velocidade duas ou três vezes superior ao normal.

De repente, alguém repousou a mão sobre seu ombro, dizendo: — Obrigado doutor. Assustado, ele se virou e viu um homem sorrindo, esperando ser reconhecido.

 — Não lembra de mim doutor? Salvou a minha vida! — Disse o homem.

Rodrigo esfregou os olhos, tentando lembrar daquele rosto familiar, mas estava confuso. Aquilo não fazia sentido.

 — Renan? Mas… mas você não é real — disse Rodrigo.

 — Do que está falando, doutor? Estou aqui na sua frente. O atendimento remoto é frio, eu concordo. Mas eu via o seu rosto no monitor todos os dias!

 — Não é possível. Deveria ser um treinamento. E eu não sou doutor. Ainda não me formei!

 — Poxa! O doutor deve estar precisando beber mais energético. Você é médico há vários anos. Um dos melhores que já conheci, e ali é o seu consultório, veja!  — Disse Renan apontando para uma porta com o seu nome: dr Rodrigo Magalhães.

Aquilo não era um sonho. Tudo parecia real, desde o barulho das rodinhas das macas autônomas até o cheiro do antisséptico borrifado no ar a cada 30 segundos. Rodrigo coçou a cabeça e caminhou até a porta com o seu nome, entrando na sala. O lugar parecia familiar, decorado com objetos pessoais que não via há muito tempo. Sobre a mesa, o elefante de porcelana que sua filha havia lhe dado. Mas quem era sua filha que ele não se lembrava de ter tido?

Sentou-se na cadeira e a tela sobre a mesa ligou sozinha, revelando uma agenda com 120 atendimentos a serem realizados naquele dia. Pelo reflexo do vidro, viu rugas que não existiam em seu rosto e cabelos brancos que jamais havia tido.

O AXIS era um equipamento fantástico, mas às vezes fazia com que coisas insólitas como aquela acontecessem. Era evidente que a Nakamoto tinha muito a explicar sobre o que estava acontecendo ali.

Rodrigo sentiu um princípio de pânico, o que fez com que um ansiolítico fosse injetado em seu sangue automaticamente pelo dispositivo implantado em sua cabeça. Como consequência, ele sentiu uma leve sonolência e deitou a cabeça sobre a mesa, caindo em uma rápida soneca não planejada.

Quando acordou, viu que estava em seu quarto, e já eram 5 horas da manhã, no mesmo horário de todos os dias. Levantou-se da cama confuso, pensando ainda no estranho sonho que acabara de ter.

Enquanto degustava o seu café feito à base de cúrcuma, ligou a tela de estudos para ver como seus pacientes virtuais haviam passado a noite, mas tomou um susto ao encontrar o leito de Renan vazio. O paciente recebeu alta, e ele conseguiu a nota máxima dos professores, um 10. No entanto, enquanto olhava através da tela, viu um pedaço de papel sobre o leito que o perturbou profundamente. Naquele pedaço de papel estava escrita uma mensagem que jamais esqueceria: “Obrigado, doutor!”

10 de Noviembre de 2023 a las 00:38 12 Reporte Insertar Seguir historia
4
Fin

Conoce al autor

Felipe Rayel Felipe Rayel, residente na cidade de Campinas/SP, tem 46 anos e é formado em Ciência da Computação, com experiência de mais de 20 anos na área. Além de sua dedicação à tecnologia, Felipe escreve contos de ficção científica e terror. Sua jornada como escritor é impulsionada pelo fascínio em explorar temas do gênero, proporcionando uma perspectiva única e instigante em suas narrativas.

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dl daniela miriam lopes pereira
Oi! voltei aqui! Vi o filme que você mencionou! Source Code (Contra o tempo). Caramba! Dá um nó no cérebro! Vale a pena ver mais vezes pra não perder os detalhes! Boa sorte! Quem sabe um livro só está esperando para nascer?
December 20, 2023, 20:34

  • Felipe Rayel Felipe Rayel
    Legal que viu o filme e voltou para contar :) Até certo ponto você acha que é um filme de ação qualquer... Mas o final, é surpreendente e nos faz pensar no que é real, ou se na verdade, nada é real. Como a matrix. :) December 20, 2023, 20:50
dl daniela miriam lopes pereira
Saudações, Felipe! Que trama! Quantos detalhes! Ficção e medicina me recordou Robin Cook! Por isso é assustador! Acho que um dos gêneros literários mais interessantes é o da ficção. Ele tem a liberdade de analisar a humanidade de forma crua, direta e sem melindres. É possível mostrar o quanto estamos despreparados para o futuro. Utopias, distopias, não importa! Haverá sempre alguém que não vai seguir a "fila", que vai desconfiar do que é ofertado e pode ter razão em temer o desconhecido, principalmente quando o progresso desumaniza o indivíduo. Seremos números numa equação complexa, seremos códigos de barra sem rosto ou voz. O consumo, a escassez de recursos e a sintetização de coisas parece assustador pra mim, assim como a ideia de estar totalmente conectado a tudo, sem chance de desligar, sob o risco de algo ou alguém invadindo as mentes e moldando os pensamentos inescrupulosamente. Por isso Matrix e Ghost in the shell foram um sucesso. Por isso Terminator assustou tanta gente e Transcendence (2014) me fez pensar muito. De repente, Renan é um "fantasma" da máquina? Isso tem poder pra algo maior que um conto!
December 13, 2023, 17:05

  • Felipe Rayel Felipe Rayel
    Obrigado pelo comentário, Daniela! Muito legal sua observação. Com certeza, escrever este conto me despertou a vontade de contínua-lo. Ficaram muitas coisas para explicar. Sim, Renan era real ou não? Será que isso faz diferença? Espero ter um tempo para escrever mais :) Uma referência usada nesse conto é o filme Source Code, de 2011. Já viu? December 13, 2023, 19:58
Bella Oliveira Bella Oliveira
Amei ♥️
December 10, 2023, 15:01

Juliene Vargas Juliene Vargas
Eu estou simplesmente apaixonada nesse conto. Que universo! Terá mais sobre?
November 16, 2023, 20:46

  • Felipe Rayel Felipe Rayel
    Obrigado por ter lido e comentado! Não planejei nada, pois seria apenas um conto. Mas vejo que ainda há muito para contar neste universo. November 16, 2023, 21:26
Daniel Trindade Daniel Trindade
Saudações! Sou membro da Embaixada Brasileira do Inkspired. Parabéns, sua história foi examinada recentemente e está sendo verificada. Desejo que ela seja apreciada por diversos leitores de nossa comunidade. Sucesso e felicidade em sua arte! ♡
November 11, 2023, 17:58

  • Felipe Rayel Felipe Rayel
    Obrigado pela verificação Daniel! November 13, 2023, 13:25
CG Carlos Adriano Garcia
Excelente! Um futuro bem possível...
November 10, 2023, 01:42

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