brina Sabrina Leone

Enquanto o mundo se levanta após os eventos inesquecíveis da Segunda Guerra Mundial, Anna Schelle trava sua própria batalha contra o cotidiano nos anos 50. Tendo que conciliar sua vida amorosa com família e trabalho, ela ainda se vê num conflito de proporções inéditas. Para lidar com o inacreditável, Anna terá que unir forças com quem ela menos espera; só assim ela terá alguma chance de impedir múltiplas ameaças que assombram o início de um mundo novo. Agente Schelle é a nona história de uma série de histórias que antecedem esses eventos. Então, meu caro leitor, antes de se aventurar nas páginas desse conto, sugiro que leia as histórias que vieram antes dessa. Todas elas estão postadas aqui, e estas são: 1: The Cooper. 2: O Retorno de Sheldon Cooper. 3: Imortais. 4: A Primogênita. 5: O Paladino Vermelho. 6: Insight. 7: Entre a Ciência da Dedução e a Arte da Sedução. 8: Efeito Insight.


Acción Todo público.

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Os Anos Dourados

Os anos 50 foram marcados por grandes avanços científicos, tecnológicos, mudanças culturais e comportamentais. Foi a década em que começaram as transmissões de televisão, provocando uma grande mudança nos meios de comunicação. No campo da política internacional, os conflitos entre os blocos capitalista e socialista ganhavam cada vez mais força. A década de 1950 foi eternamente conhecida como o período dos "Anos Dourados". Pois, os Estados Unidos tornam-se um modelo de prosperidade e confiança, uma vez que desenvolve níveis de bem-estar social muito elevados graças as melhores qualidades de habitação e de telecomunicações. A política nos anos de 1950 fica marcada pelos conflitos entre os blocos capitalista e socialista, como a Guerra Fria e a extensão da Guerra do Vietnã.

Quanto aos avanços científicos, podemos destacar o primeiro transplante de órgão, em 1954; o desenvolvimento da primeira vacina de poliomielite, em 1955. E, mais a frente, ainda em 57, aconteceria o lançamento da nave Sputnik I, bem como o primeiro ser vivo em órbita da Terra, a cadela Laika. A corrida espacial que aconteceria futuramente há de se tornar um verdadeiro símbolo do cabo de guerra entre os Estados Unidos e a então União Soviética pela liderança na exploração do espaço.

Finalmente, é nessa década que surge o rock'n'roll nos Estados Unidos. A repercussão mundial esteve nas vozes de cantores como Elvis Presley, que começa a fazer sucesso em 1956 e outros, como Chuck Berry, Chubby Cheker e Bill Haley.

Não obstante, com o fim da escassez do pós-guerra, a beleza pode ser considerada um tema importante pela indústria. Assim, era tempo de cuidar da aparência de modo sofisticado. Sem espanto, será durante os anos 50 qur a alta-costura e a indústria de cosmética irão se desenvolver sem precedentes. Daí, surge a moda colegial, inspirada no visual sportswear. No que respeita ao padrão de beleza, a década de 50 é marcada pelos corpos esquálidos, diferentemente daquele corpo da década anterior — marcado pelas curvas de Marilyn Monroe. Agora, o padrão de beleza a ser alcançado é o de Brigitte Bardot, até 1957. Note que a mulher está cada vez mais independente, mas além de bela e bem cuidada, ela ainda acumula a função de dona-de-casa, esposa e mãe.

O conservadorismo masculino prosperou com ainda mais vigor nesta época, obrigando todos os homens, mesmo que jovens no colégio, a usarem ternos escuros. Quanto menos cor, melhor. As cores na década de cinquenta eram sóbrias, girando em torno do preto, cinza escuro, azul, azul escuro e marrom. Homens eram vistos como cavalheiros em suas camisas listradas, suspensórios, ternos escuros e calças estreitas, embora com boa parte de "sobra" de tecido nas pernas. E, é claro, não podiam esquecer do chapéu. O chapéu fedora marcou as ruas, assim como o tabaco.

E, quebrando todo um estereótipo conservador e machista, Anna Schelle surgia. Ela usava terno, o que nenhuma mulher se atrevia a vestir na época. Um terno vivo, azul, feito a mão e sob medida, visível ao longe. Entre um mundo cinza de ternos e fumaça, Anna Schelle era a cor, especialmente com seu maior marco característico: seu chapéu fedora vermelho-vivo. Era, sem sombras de dúvida, o maior destaque de Nova York, o que era irônico já que Anna ocupava o mais novo cargo de agente secreta da então batizada como C.E.C.E. (Centro de Espionagem Científica Estratégica).


Era por volta de 1946 quando Schelle ainda tinha memórias da guerra. Ela atuou o tempo todo no gabinete, mas sentia a mão de meio mundo acima da sua a cada decisão tomada.

Hoje, mesmo com o fim da guerra, Anna ainda se perdia em seus pensamentos quando encarava a janela de seu simples apartamento no Brooklin. A chaleira apitou quando a água ferveu, informando a Schelle de que ela ficara olhando para aquelas frias janelas por mais de meia hora. Ela se virou, monótona, naquela manhã. Tomou um gole do chá e fez sua cama. Sem pressa alguma, Schelle foi se trocar. Ao remover sua camisola, sentiu um leve incômodo em seu ombro. Dois pequenos pontos, cicatrizes, a faziam se lembrar do tiro de raspão que sofreu quando o Parlamento foi invadido na Inglaterra.

Aquelas memórias, contudo, ficaram para trás. Ela estava em Manhattan agora, na América, bem longe do Reino Unido.

Com uma saia azul que cobria até seus joelhos e uma manga-longa branca social, Anna Schelle estava quase pronta quando sua porta foi aberta.

—Vou usar sua cama— notificou Judith.

Nascida em New Rochelle, Judith Colon acabou se mudando parao Brooklin a pouco tempo. Trabalhando em uma fábrica de fósforos, Judith tornou-se colega de quarto de Anna Schelle paraajudar a pagar as contas. Elas dividiam a mesma cama, afinal trabalhavam em horários diferentes e quase nunca se encontravam. Anna ficava o dia todo fora, e Judith a noite toda.

—Eu estou morta— Judith se jogou de costas na cama.

Judith Colon era dois anos mais nova que Schelle, naturalmente loira, e com a pele clara, era uma bela mulher, embora, na opinião de Anna, exagerasse em sua maquiagem.

—Você tem trabalhado muito— comentou Anna, enquanto dava os últimos retoques em seus ondulados cabelos castanhos.

—Mais dez meninas foram dispensadas ontem— disse Judith —Se eu não fazer o trabalho de três, posso ser a próxima a ficar sem emprego.

Anna se virou, entrando no banheiro com sua pequena bolsa em mãos.

—Muitas garotas estão sendo mandadas embora nesses últimos meses— observou Schelle —Alguém disse o porquê dessa vez?

—Porque mais dez soldados foram dispensados— respondeu Judith, coçando o nariz —Eles tem preferência pra entrar na indústria, e nós acabamos perdendo o emprego. Hoje, tive que ensinar um cara de Canarsie a usar um rebitador e...— Judith foi brutalmente interrompida por uma tosse terrível —Desculpe, Anna.

—Não pensa em ir ao médico?— questionou Schelle, colocando sua meia-calça marrom —Você está doente já vai fazer uma semana.

—Eu estou bem, Anna— alegou ela, deitando mais confortavelmente em sua cama —Eu só preciso descansar...

—Não prenda a respiração— aconselhou Schelle —Pode ser tuberculose.

—Só porque há um surto de tuberculose nas ruas, não significa que eu também a tenha— desconsiderou Judith, franzindo a testa —E não se esqueça, vamos ao cinema no sábado.

—Eu vou tentar...— Anna removeu uma pequena tábua solta do assoalho bem atrás da privada, de onde ela tirou uma caixinha de madeira —Você sabe como o trabalho me ocupa tempo...— ela abriu a caixinha, pegando um revólver de dentro dela.

—Qual é, Anna, você trabalha em uma companhia telefônica— brincou Judith —Não é vida ou morte...

—Você nem faz ideia— murmurou Schelle, guardando o revólver em sua bolsa e devolvendo a caixinha vazia para o assoalho falso.


Anna Schelle sempre saia mais cedo para o trabalho, pois gostava de ir andando até ele. Pegar o bonde ou um táxi todos os dias da semana lhe custava demais no fim do mês. Ela então adotou uma caminhada de meia hora até seu emprego todas as manhãs. Ela ia, sem pressa, atraindo a maioria dos olhares novaiorquinos que encontrava pelo caminho, afinal ela era uma mulher de terno e chapéu no meio de todos aqueles homens que, assim como ela, levantavam cedo para mais um dia de trabalho.

Anna parou na frente de um grande edifício acinzentado, com centenas de janelas quadradas. Na frente, um cino de concreto carregava a escrita abaixo "Companhia Telefônica de Nova York."

Schelle entrou, empurrou as portas escuras de carvalho e passou direto pelas recepcionista. Entrou pelo corredor esquerdo, desceu alguns degraus e saiu numa sala repleta de telefonistas. Havia uma extensa fileira de mulheres entre os vinte e sessenta anos; filhas, mães e avós. Uma ao lado da outra, cada uma ficava em frente a um grande bloco negro, repleto de pequenas lâmpadas amarelas que acendiam a cada ligação. Elas então conectavam um cabo de conexão na entrada abaixo de cada lâmpada, atendendo a quem quer que estivesse disposto a fazer alguma ligação.

—Telefonista— elas ouviam em seus fones de ouvido —, por favor me ligue com o senhor Ramos.

Não havia ligação direta naquela época, tudo tinha que passar pelas telefonistas, que acabavam, por vezes, ouvido toda a conversa entre duas pessoas em linha única.

E passavam o dia todo assim, conectando e desconectando pessoas.

O que a maioria das telefonistas, e o restante das pessoas comuns de Nova York, não sabiam era que aquela Companhia Telefônica, na realidade, era um dos escritórios da C.E.C.E. (Centro de Espionagem Científica Estratégica). Para muitas das mulheres que trabalhavam ali, e para todos do lado de fora, aquele prédio era apenas uma simples Companhia Telefônica, mal sabiam eles de que muitas diretrizes e decisões eram tomadas naquele edifício sem vida.

Anna passou por elas e pegou o elevador. Diariamente, viam homens engravatados subir e descer por aquele mesmo elevador. Para aquelas mulheres que ali trabalhavam, eram apenas empresários, e executivos que atuavam no ramo de comunicação. Ninguém podia dizer que eram agentes federais.

A Companhia Telefônica de Nova York era apenas uma fachada para uma das organizações mais importantes da atualidade.

No décimo nono andar, Schelle caminhou entre mesas de escritório, cada qual com seu agente especial. Mais uma vez, Anna trazia cor para um ambiente sem vida. Enquanto todos aqueles homens usavam ternos de cores neutras, Schelle vinha com seu clássico chapéu vermelho, e seu terno azul-marinho.

Ela mal chegou a sentar em sua mesa quando o Diretor David Pittman se dirigiu até eles. David era uma americano alto e forte, tinha um leve bronzeado na pele, cabelos castanhos e preservados em um corte padrão, estando no auge de seus 45 anos.

—Senhores, recebemos um alerta da Capital— ele informou, fazendo com que todos se levantem —Vamos ao trabalho!

Alertas da Capital eram mais do que importantes, pois significa deixar todo os outros trabalhos em segundo plano para dar atenção àquele evento. Imediatamente, eles rumaram para a sala de reuniões, onde David parou Anna, impedindo que ela siga com os demais.

—Um momento, Schelle— disse ele —Talvez leve um tempo lá dentro, preciso de alguém nos telefones caso ocorra uma emergência.

Sem desmanchar seu sorriso, Anna agarrou o primeiro telefone que encontrou na mesa ao lado e apertou a tecla de mudo.

—Rose— ela falava com a única telefonista que sabia da existência da C.E.C.E. —, se houver ligações de emergência, por favor, encaminhe para a sala de reuniões.

—Sim, Agente Schelle— a mulher assentiu nos andares abaixo.

David não gostou nada daquilo e bufou quando Anna se juntou aos outros agentes na sala de reuniões. Como havia sido atrasada por seu chefe, Anna acabou ficando sem lugar na ampla sala, e teve que ficar em pé ao lado da porta para ficar por dentro do ocorrido.

David caminhou entre seus agentes, apagando a luz da sala ao entrar. Ele ligou o vintage projetor após coloca uma fita de vídeo em formato de disco prateado. As fitas começaram a girar, e uma lanterna se acendeu contra um espelho quadrado que havia ao lado, refletindo a imagem através de duas lentes, que imediatamente projetaram as imagens na parede branca ao sul.

Com ausência das cores fora o preto e o branco, as imagem que apareciam a seguir eram gravadas acima de um jornal, cuja capa dizia:


"O Gazeta Diário apresenta Abraham Addams: Gênio, Milionário, Playboy... Traidor?"


Schelle imediatamente franziu o cenho.

A imagem mostrava Abraham Addams, um inglês de aproximadamente trinta anos, tal como Schelle. Ele era magro e esguio, tinha cabelos negros e sempre bem penteados num corte formal. Seu bigode também era muito bem cuidado. Seus olhos castanhos eram grandes e curiosos. E, sendo uma das celebridades mais bem conhecidas do ramo, tinha um ego de se odiar; Schelle havia chegado a esta conclusão pessoalmente.

Na imagem, Addams estava em frente a um Ford Continental daquele ano, como seu mais novo veículo, o qual ele prometera, em uma coletiva de imprensa, transformá-lo num carro movido apenas à eletricidade solar, o que era uma aposta e tanto para todo o mercado.


"Por muito tempo, o mundo acompanhou a carreira de inventor de Addams. De garoto genial à desenvolvedor de armas, à multimilionário. Muitos mais acompanharam sua vida privada..."


A imagem passou a mostrar Addams rodeado de mulheres, muitas delas atrizes de novelas de rádio famosas.


"Mas suas façanhas recentes ameaçam colocar esse homem em queda livre. Acusado de vender armas aos inimigos, o fundador das Indústrias Addams foi recentemente convocado ao Capitólio"


Agora, Schelle via Abraham em uma bancada em Washington, cercado de microfones, no centro de dezenas de jornalistas que tiravam incontáveis fotos.


—Posso fazer uma pergunta?— questionou Abraham Addams, afrouxando sua gravata.

—Não até responder as perguntas já feitas perante a este comitê— respondeu o Governador.

—Já faz tanto tempo— Abraham rolou os olhos em descaso total —Eu sequer lembro o que me disseram.

O Governador suspirou, rolando os olhos de exaustão.

—O senhor, senhor Addams, conscientemente, vendeu tecnologia militar aos inimigos dos Estados Unidos?— voltou a questionar o Secretário de Estado.

—Não conscientemente— respondeu Addams, sem olhá-lo.

—Então fez isso inconscientemente?— indagou o Governador.

—Por definição, isso seria impossível de responder, senhor Governador— zombou Abraham, sorridente, removendo risos dos jornalistas.

A fita rebobinou e ficou tudo escuro novamente. David Pittman religou as luzes e deslizou o projetor, caminhando entre seus agentes enquanto fala em alto e bom tom:

—Até agora, seis peças das Indústrias Addams apareceram no mercado negro e nos arsenais de países inimigos— contou o Diretor —Como puderam ver, o responsável por essa tecnologia militar esteve brincando no Capitólio, tratando a coisa toda como uma piada infame... Ontem foi o último dia de audições, a última chance que o governo americano deu para o senhor Addams se explicar e se defender... Mas o playboy não apareceu. O escritório de Washington fez uma limpa nas dezenas de casas, e nas dezenas de escritórios de Addams, mas não acharam nada. Então, até o momento, Abraham Addams não só desacatou o Congresso, como também se tornou um fugitivo da justiça. Encontrem-no, e apertem-no até que perca seu senso de humor... Gallagher, você lidera.

HenryGallagher era o garoto de ouro de David. No auge de seus 35 anos, Henry era alto, forte e belo. Seus cabelos loiros eram invejados até pelas mulheres, seus olhos claros e seu maxilar definido transformavam-no em um padrão de beleza masculina. Um príncipe encantado— era como as secretárias o chamavam secretamente.

Particularmente, Anna o odiava. Seus esforços para a C.E.C.E. não foram em vão e o fizeram merecer seu algo cargo, de fato. Ele não chegou aonde estava da noite para o dia. Porém, desde que experimentou o gosto do poder, Henry ficou muito mais arrogante e impaciente.

—Obrigado pela oportunidade, senhor— Gallagher agradeceu ao seu chefe, levantando-se ao tomar a palavra —A primeira coisa que devemos fazer é apreender seus aviões. Vou ver se consigo congelar algumas contas no banco do senhor Addams, afinal, uma garota no banco me deve um favor.

—Senhor, devo objetar— Anna não conseguiu se segurar e interrompeu.

—Por que não estou surpreso, Schelle?— questionou o Diretor Pittman, em um suspiro exausto.

—Conheci Abraham durante a guerra— comentou Anna —Sua ajuda foi inestimável. Ele pode ser muitas coisas, mas não é um traidor.

—Estamos cientes dos seus registros, Schelle— respondeu David —E estou certo de que fizeram um bom trabalho no Parlamento. Mas esta na América agora, e a guerra acabou... A carta branca de Addams não vale mais. Ele não pode deixar sua tecnologia cair em mãos inimigas e fugir dos interrogatórios como se fosse o dono do mundo.

Anna então ficou quieta, ela não podia negar que a reclusa de Abraham Addams em se explicar podia gerar suspeitas.

A reunião foi encerrada, e a sala foi se esvaziando. Mas conforme comentários e murmúrios se repercutiam entre os agentes, Anna acabou ouvindo algo que poderia passar despercebida por sua audição.

Aposto que Schelle conheceu muitos homens na guerra.

Aquelas palavras tão nojentas e carregadas de machismo, achismo e sexismo saíram da boca imunda de Ralph Phelps, um agente de quase 150kg que Schelle nunca entendeu direito qual era sua função no escritório. Ela só o via papear entre seus colegas, e ir do banheiro para a cafeteria inúmeras vezes ao dia.

—O que você disse, Agente Phelps?— indagou Clint Gilmore.

Clint era um homem pouco maior que Anna, e menor que o restante da equipe. Ele tinha uma nariz pontudo, e olhos castanhos. Seu cabelo era castanho escuro, e imitava o mesmo corte de todos os outros homens de Nova York. Ele era, na opinião de Schelle, um dos poucos homens que pensavam além da bolha de testosterona que assombrava aquela cidade, um dos poucos com quem Schelle podia ter uma conversa comum.

Clint se aproximou com dificuldade, pois, desde a guerra, teve que administrar seu novo estilo de vida, sendo obrigado a inserir o uso de muletas em seu cotidiano. Sua perna esquerda fora gravemente ferida na região do joelho, o que o impedia de andar sem sentir dores. David Pittman havia lhe oferecido um bom auxílio caso Clint optasse por ficar em sua casa, mas o tédio de uma vida na frente de uma televisão não era atraente para um homem solteiro de trinta e três anos.

Ralph Phelps não o respondeu, apenas seguiu caminho escritório adentro.

—Não de ouvido a esses caras, Schelle— Clint disse a ela —Você é uma agente como todos nós, merece o mesmo tipo de tratamento.

—Obrigada, Agente Gilmore— agradeceu Schelle.

Schelle não sorriu como gratidão, ela havia aprendido a não sorrir para ninguém, ainda mais em seu local de trabalho. Ela não tinha muitas dúvidas a respeito de Clint, mas o restante dos agentes naquele lugar podia confundir um sorriso como um sinal. Anna teve que aprender a ser sempre séria.


Quando a noite caiu, Schelle não foi diretamente para casa. Como era de seu costume, ela parou no Revenez Souvent, um antigo e aconchegante restaurante francês aberto por 24hrs. Naquele horário, a partir da meia-noite, já não havia tanta necessidade daquele lugar estar com as luzes acesas, pois quase ninguém o frequentava. Porém, o dono ainda mantinha esperanças de recolher as almas perdidas na madrugada, oferecendo-lhes música boa e café quente. Era o lugar favorito de Schelle.

Pisando sobre o ladrilho preto e branco, ela caminhou entre as cadeiras de estofado verde, entre as mesinhas brancas e foi até sua mesa de costume: a última do lado esquerdo, próximo ao balcão e à vitrola. Anna inseriu uma ficha, e viu quando a espátula interna da vitrola trocou o disco. A música "All The Things You Are" de Ella Fitzgerald começou a tocar em volume agradável.

Anna então se sentou em seu lugar de praxe, pegando um exemplar do jornal Gazeta Diário, onde, na quinta página encontrava-se uma fotografia de Danny Boy.

Anna o conhecera pessoalmente no Parlamento, e era o maior motivo das fofocas dentro da C.E.C.E. O fato dela ter sido amiga do herói esquecido da guerra, e dele ter revelado, mais de uma vez, possuir sentimentos maiores por Schelle, rendeu boas histórias no esquadrão. Porém, naquela época, Schelle não tinha cabeça e muito menos tempo para relações extra-oficiais. As forças nazistas estavam devastando o mundo, e mais: seu irmão Michael Jones estava na linha de frente. Ela não conseguia pensar em mais nada.

Na imagem, contudo, mostrava Danny Boy olhando para o céu. O aviador tinha um cabelo ralo, era musculoso, obviamente forte, alto e bonito.

—Eu o vi uma vez— a voz de Elizabeth Prince assustou Schelle por um segundo.

Anna desviou o olhar para cima, Elizabeth era uma das únicas garçonetes do turno da noite, e que criara uma certa relação de amizade com Schelle devido à frequência com a qual Anna ia até o restaurante.

—Ele é um pitel— continuou Elizabeth —, podia comê-lo com uma colher. O que é estranho, já que eu nunca pensei isso de um homem de cor.

Anna fechou os olhos e balançou negativamente a cabeça, tentando impedir que seu cérebro registre as falas da garçonete.

—Você está bem, Anna?— perguntou Elizabeth, servindo seu café de costume.

—Estou, Beth— assentiu Anna, pegando a xícara.

—É o trabalho, não é?— Prince fingiu limpar a mesa para prolongar a conversa com Schelle.

Era mais do que evidente que Elizabeth Prince nao sabia da real natureza do trabalho de Anna, ninguém fora do escritório sabia, então não havia alguém em sua vida pessoal que pudesse ouvir a versão verdadeira dos problemas de Anna. Ela sempre tinha que mudar algumas informações.

—Antes de ser telefonista, eu trabalhava em uma fábrica— afirmou Schelle —E lá na fábrica, Beth, eu sentia que tinha um propósito, entende? Eu tinha responsabilidades e um trabalho realmente importante, no qual eu via resultados...— contou Anna, pensativa —Mas a fábrica fechou com o fim da guerra e eu fui forçada a vir para cá... Onde virei telefonista... e agora, tudo o que faço é atender ligações e repassar recados...

—Olha, Schelle, eu sei que não é isso o que quer ouvir, mas você tem sorte— respondeu a garçonete, deixando Schelle intrigada —A maioria de nós está perdendo o emprego. Você sabe, quando os homens foram para a guerra, nós começamos a trabalhar e agora que eles voltaram... Nós temos que voltar a ser donas do lar... Mas nem todas nós tem um lar para ser dona...

As palavras de Elizabeth eram mais do que certas, eram pessoais. Anna logo entendeu que a garçonete também estava desabafando com ela.

—Hey, isso é um self-service?— questionou um cliente, de repente —Onde está a garçonete?

Anna olhou para o homem a duas mesas de distância dela. Ele tinha em torno de quarenta anos, era grande, gordo e arrogante.

—Parece que tenho que ir— Elizabeth pegou seu bloco de notas no bolso de seu avental.

—Ele pode falar com você assim?— questionou Anna.

—Eu estou conversando em horário de serviço— ela jogou os ombros —O cliente tem sempre razão.

Com Elizabeth indo até o cliente, Schelle dobrou o jornal para tomar seu café, foi quando um pequeno papel caiu do meio das folhas do Gazeta Diário. Era um guardanapo dobrado, com uma escrita pouco borrada de caneta, dizendo:


"Encontre-me no beco o mais rápido possível"


Schelle olhou ao redor, além dela só havia mais quatro clientes: o homem gordo, uma mulher no balcão e dois rapazes levemente embriagados. Nenhum deles parecia do tipo misterioso ao ponto de deixar-lhe tais instruções. Anna pensou em ignorar, mas ela era uma agente. Espionagem estava no seu sangue desde que estudou na Casa das Meninas quando criança.

Anna deixou o dinheiro, no balcão e partiu. Deu a volta na rua e parou no beco em questão. A iluminação era baixa, haviam apenas a saída em que veio.

—Senhorita Schelle— ela ouviu uma voz vir das sombras afrente.

—Nós nos conhecemos?— questionou ela.

—Infelizmente, nós ainda não tivemos o prazer...— o homem começou a deixar o anonimato —Mas poderemos ter...

Era um homem alto, branco, inglês, que parecia estar no auge de seus quarenta e cinco anos. Schelle não era uma perita em moda, mas conhecia as marcas o suficiente para saber que o terno escuro que ele usava valia o triplo de seu salário. As abotoaduras eram douradas, os sapatos brilhavam mesmo ao luar. Ele possuía um cabelo castanho fino em um corte formal abaixo do chapéu obscuro que criava uma sombra sobre seus olhos.

—Você vem comigo— afirmou ele.

Anna não levou mais do que um segundo para decidir o que faria a seguir. Ela o golpeou com força, enterrando seu punho no nariz dele. Com inesperada atitude, o homem desequilibrou para trás, incrédulo e dolorido. Schelle não perdeu tempo e deu-lhe um gancho de direita que o fez se curvar, dando a ela a oportunidade perfeita para chutar o rosto dele com seu joelho e, repentinamente, atingir as costas do homem com seu cotovelo. Quando ela realizou sua sequência de golpes, todos em menos de dois minutos, poderoso faróis se acenderam atrás dela. Rapidamente, a Agente se virou, deparando-se com um Tucker Torpedo de carroceria branca vindo em sua direção. Ágil, ela sacou seu revólver e atirou contra o motorista, que logo se abaixou e pisou nos freios.

—Espera!— o condutor gritou, abrindo a porta do veículo.

Anna, ainda sobre as luzes do farol, não abaixou sua arma e apenas observou aquele homem baixo sair do veículo. De mãos para o alto, ele se aproximou, deixando que seu famigerado rosto falasse por si só.

—Addams...— Anna o reconheceu, abaixando seu revólver.

—Eu sei, Schelle, eu sei— com uma cômica expressão de culpa, Abraham Addams sorriu sem mostrar os dentes —Eu devia ter ligado.

7 de Octubre de 2023 a las 22:49 0 Reporte Insertar Seguir historia
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