vitorhenrique Vitor Henrique

Adentre os recantos mais sombrios do passado, onde vingança e redenção se entrelaçam, em uma narrativa que tece a teia intricada de um homem destinado a ser temido. Nas páginas desse spinoff de Correntes do Universo, Rukasu conta os detalhes meticulosos sobre a morte dos quatro membros dos Leoni.


Aventura No para niños menores de 13.
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O sabor da desgraça

Tenho saudades de Dora. Espero que esteja bem. Ela se foi, fugiu do monstro que chamava de irmão. O quanto sofreu apenas por nascer na mesma família que eu, essa que fora outrora destruída por “eles”. Não sobrou mais ninguém.


Sabia que estava viva, em meio ao caos da minha cabeça, ainda sentia as batidas do seu pequeno coração carinhoso palpitar pela existência.


Já se passaram oito anos, me perguntava se manteve seu cabelo comprido e ainda gostava de vestidos longos e escuros, ou se ainda subia nas árvores para imitar o nosso velho.


— Você sabe onde ela está, pai? — questionei, segurando minha arma a frente de meus olhos.


É claro, não podia ouvi-lo, mas ele estava ali, assim como minha mãe, abrigando meu tesouro herdado.


Me levantei da cama de linho improvisada, senti fome, precisava comer, estiquei o tecido para deixá-lo uniforme, mesmo sendo pouco provável o meu retorno. O canto dos pássaros anunciava a chegada da manhã.


Saí casa abandonada rumo à floresta.


— Que frio.


Bocejei.


Meus passos golpeavam o solo lentamente. Gotas de orvalho desviavam minha atenção.


Dois dias sem comer.


O Umbra deixava meu corpo em um retardo temporário, não sentia fome ou sede sobre seu efeito, todavia, era castigado quando ele saía do meu metabolismo.


Peixe sempre foi meu alimento favorito, minha mãe o preparava de diversas formas, mas o ensopado era sua maior demonstração de habilidade culinária.


Ela costumava enriquecer o sabor da carne com ervas e legumes que cultivava nos fundos de nossa casa, mesmo com a baixa fertilidade da terra da Vila Vermelha.


Hoje eu apenas retiro as entranhas do animal com uma faca improvisada das lascas de uma pedra, e asso a carne em uma fogueira, patético, ela se decepcionaria.


Caminhei sentido ao amanhecer. Escutei o som das águas que cortavam a região, me aproximei, conseguia ver os peixes dançando em meio à correnteza, como se competissem para saciar minha fome.


Repousei minha mão esquerda sobre a arma na cintura e analisei os peixes por um instante. Eram todos do mesmo tamanho, com sutis diferenças, queria me certificar de escolher o melhor.


— Mãe, eu quero aquele. — pensei, olhando para o peixe que adornava duas manchas escuras na cauda.


Saquei a arma da cintura e apontei para o escolhido, canalizei minha aura até ela, apenas um tiro com uma quantidade pequena de energia na cabeça do animal, garantiu minha refeição.


Ele boiou, sendo levado pela correnteza enquanto o vermelho pintava a água cristalina.


— Meu pai deve estar decepcionado. — pensei.


Ele me levava para pescar quando estava em casa. Construíamos varas de bambu que ele trazia das missões no oriente. Mas já o testemunhei usar suas armas na pescaria quando perdia a paciência.


Sorri, lembrando-me de meu velho.


Adentrei o rio, e avancei até o ponto onde a água alcançava meus joelhos, me esforcei para pegá-lo por uma de suas nadadeiras.


*****


Me aqueci à beira das chamas trepidantes da fogueira, onde o peixe empalado aguardava. Joguei as entranhas na floresta, para que algum animal aproveitasse. Desci até o rio novamente para tirar o forte cheiro de minhas mãos.


Dora sentia-se mal com o odor, ela se afastava para perto da horta sempre que minha mãe limpava os peixes. Mas os saboreava como ninguém.


Sempre pensava na família que perdi, porém, naquela manhã, não conseguia parar de fazê-lo. Acredito que fora pela vida do Leoni que havia tirado no dia anterior.


Ficar de pé se tornava uma tarefa desafiadora, meu corpo começava a cobrar a dívida de minhas escolhas. Voltei até a presença da fogueira e me sentei. Por um momento, senti minha visão embaçar.


Peguei o galho que segurava o peixe e feria o solo. Estava bom, a carne branca se desmanchava em minha boca a cada mordida. Era impossível compará-lo às receitas de minha mãe e não me decepcionar em seguida.


O alimento atuou como um pilar central de um castelo, garantindo o sustento da estrutura do meu corpo por mais algumas horas.


A dor se manifestava gradualmente em diversas áreas do meu corpo. Levantei minha camiseta com o mindinho da mão esquerda revelando as intensas queimaduras.


— Ah, merda!


Não importava, havia dado o primeiro passo para cumprir a minha justiça.


Joguei o galho sobressalente na fogueira e uma pequena cortina de faíscas pintaram o ar por um instante.


Decidi mergulhar no rio gelado para aliviar a dor. Retirei meu sobretudo preto e o repousei sobre o galho de uma árvore, apanhei algumas vezes para retirar a poeira. Joguei as demais peças ao chão.


Notei meu corpo adornado por hematomas outrora ocultos pelos tecidos.


Mergulhei de uma só vez, deixando a pureza gelada lavar meu corpo, o cabelo repousava sobre meu rosto.


— Sabia que viria para cá. — A voz de Edward invadiu meus ouvidos.


Abri meus olhos, testemunhando sua presença, repousando suas costas em uma árvore à margem, seus braços cruzados.


Ele afastou-se do tronco e caminhou até a beirada, calmo como sempre.


Chegou ao lado de uma pedra grande, presa na divisa entre grama e água, passou mão direita sobre ela e sentou-se.


— Essa queimadura, parece grave. — disse.

— Ainda dói. E acho que vai continuar assim por um tempo. — respondi, meus olhos fechados enquanto deixava meu corpo boiar.

— Parece que ele te deu trabalho. — disse.

— Quase morri. — respondi.


Ele riu, brevemente.


— E então, como se sente? — indagou.


Aquela pergunta tocou meus pensamentos, não sabia ao certo, quais eram meus sentimentos em relação à morte do Leoni. Diferente do momento em que o ato fora consumado.


Marco se mostrou um adversário formidável, todos os anos que passei em treinamento ao lado de meu mestre, somado ao auxílio do Umbra, quase não foi suficiente para superá-lo. Ele era habilidoso, frio… cauteloso.


Três dias atrás, estava sentado nas pedras da caverna onde os seguidores de meu mestre se encontravam. Éramos dezesseis.


Em meio a todos aqueles, Edward era meu único amigo. Ele se mostrava empático com minha história, enquanto os demais afirmavam que minha serventia se repousava sobre o egoísmo.


Uma mulher adentrou a caverna trazendo consigo uma moeda de ouro, pagamento do último trabalho que fez para uma família do oriente.


Sua imagem crescia em minha direção, um leve sorriso dançou em seus lábios perfeitos, enquanto me estendia a mão direita, com a moeda repousando em seus dedos claros.


— Essa é para você. — disse, seu tom alegre.


Encarei o preto dos olhos dela, confuso, enquanto a moeda quase tocava meu sobretudo.


— Não me lembro de sua dívida comigo, Prilla. — disse.


Ela suspirou, fechando os olhos enquanto o sorriso fugia da boca.


— Não estou pagando nada, Rukasu. Nosso mestre mandou lhe entregar. — respondeu.


Ela se inclinou para frente, colocando a moeda sobre minha perna direita.


— Acho que chegou sua hora de conhecer o velho Ethan. — disse, repousando a mão na cintura sobre seu vestido branco.


Encarei a moeda, tentando associá-la ao homem mencionado.


— Quem? — questionei.


— Ethan é um informante! Ele possui um pacto com uma entidade de sangue, que lhe concerne a habilidade de antecipar alguns acontecimentos. — respondeu, Edward, encarando meus olhos.

— Ele pode ver o futuro? — questionei.

— Não é tão simples assim. — respondeu, Edward.

— E o que essa moeda tem a ver com ele? — questionei.

— Pensei que fosse mais esperto. — respondeu, Prilla.

— Você precisa pagar o velho se quiser “ver o futuro”! — disse Edward.


Minha visão se curvou ao vazio, cerrei os punhos com força, alguns dedos estalaram.


Após oito anos, poderia finalmente buscar a justiça que tanto desejava. Vestígios dos rostos de meus pais tomaram minha mente.


Senti a mão de Edward sobre meu ombro, desviei meu olhar para ele, notei que sorria por baixo da máscara.


Ele acenou positivamente com a cabeça, um ato sutil que demonstrava sua felicidade por ver minha realização pessoal.


Retribui o gesto. Peguei a moeda, me levantei e caminhei em direção ao profundo escuro da caverna, buscando a presença de meu mestre.


Vi sua silhueta quase invisível, sentado sobre a pilha de pedras que dizia ser o seu trono. Me aproximei, o suficiente para consegui observar o brilho azul de seus olhos, que se inclinavam para a direita, acompanhando seu rosto repousado sobre o punho.


— Vejo que a moeda chegou até você, rapaz. — disse. Seu tom soberano.

— Sim, senhor. — respondi, erguendo levemente a cabeça.

— Que bom que veio até mim antes de partir. — respondeu.


Ele entrelaçou seus dedos no cabelo, jogando-os para trás da orelha esquerda.


— Sei que está ansioso para ir, porém, com a força que possui agora, você ainda é incapaz de vencer. — disse.


Suas palavras deixaram-me atônito, engoli o seco, me esforçando para não demonstrar sentimentos.


Ele se inclinou para o lado direito da pilha de pedras, alcançando um pequeno jarro de barro vedado com uma rolha.


— Pegue. — disse, enquanto o estendia para mim.


Me aproximei, tomando o recipiente de suas mãos.


— O que é isso? — questionei.

— Uma das chaves para a justiça que deseja. — respondeu.


Olhei para o jarro em minhas mãos, coloquei os dedos sobre a rolha e saquei, um forte cheiro se manifestou, imediatamente tragado por minhas narinas. Era pior que as entranhas dos peixes.


Fechei meus olhos e desviei meu rosto para afastar-me do odor.


— Acho que o senhor me deu uma chave estragada, mestre. — disse.


Ele sorriu, minuciosamente.


— O sabor é tão ruim quanto o cheiro. — afirmou.

— Sabor? Vou ter que tomar essa coisa? — questionei.

— Você não pode esperar que o sangue de um cadáver tenha gosto de vinho, Rukasu. — respondeu.

— A situação parece piorar, sempre que o senhor abre a boca. — disse, colocando a rolha no jarro.

— O Umbra, vai te dar um aumento significativo de força, quando estiver próximo de enfrentar o Leoni, beba-o. — disse.


Senti uma forte decepção, como se meus esforços para alcançar meus objetivos fossem em vão. Meus dedos pressionaram o jarro com força.


— O senhor treinou a mim durante oito anos. Não seria melhor se tivesse me oferecido essa coisa antes? — questionei, com voz raivosa.

— Não treinamos você para derrotar os Leoni, Rukasu. Treinamos o seu corpo para suportar os efeitos do Umbra. — respondeu.


Todo aumento não natural de poder tem um preço, sabia que, com o Umbra, não seria diferente.


— E quais são? — questionei.


Ele pausou por um momento, como se selecionasse cada palavra que diria a seguir.


— Ele ficará armazenado no seu corpo por horas ou até mesmo, dias. Durante esse período, você será incapaz de identificar as necessidades básicas de seu corpo, fome, sede ou sono. Seus sentidos ficarão mais afiados, sua força e velocidade aumentarão em um nível que jamais imaginou alcançar. — disse, seu tom sério.

— Não me parece tão ruim. — respondi.

— A parte ruim acontece quando o efeito se vai, todos os impulsos nervosos são mandados a seu cérebro de uma só vez. Você sentirá fome, sede, dor, e todo sentimento negativo que seu corpo reprimiu. O despreparado físico mataria você. — concluiu.

— E a qual cadáver pertence esse sangue? — questionei.

— Você pode ir embora agora. — respondeu.


Evitei questioná-lo novamente, sabia que meu mestre tinha seus motivos para omitir essa informação. Não importava, desde que o Umbra cumprisse seu papel, sua origem seria irrelevante.


Aceitei meu presente e voltei a Edward.


Enquanto me aproximava, notei seu olhar fixo no frasco em minhas mãos, como se ele o hipnotizasse.


— Você já bebeu isso? — questionei.

— Sim. Fiz coisas que nunca imaginei com o Umbra em meu corpo, porém, com o tempo, ele se torna a sua desgraça. — respondeu, enquanto se erguia.

— Se refere aos efeitos colaterais? — indaguei.

— Não. Não mesmo.

— E então?

— À abstinência. Após consumi-lo algumas vezes, seu corpo se tornará dependente. Mesmo com todo dano que ele causa. — respondeu.

— Então, acho que estou segurando minha ruína. — respondi.

— Não duvido disso. — respondeu, enquanto caminhava para fora da caverna.

18 de Octubre de 2023 a las 05:04 1 Reporte Insertar Seguir historia
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Conoce al autor

Vitor Henrique Sou um designer nerd que adora música e videogames. Recentemente, descobri minha paixão pela escrita e estou trabalhando em uma história fantástica que criei desde a infância. Misturo criatividade, habilidades técnicas e uma mente curiosa para explorar novos mundos em diferentes formas de expressão.

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Daniel Trindade Daniel Trindade
Saudações! Sou membro da Embaixada Brasileira do Inkspired. Parabéns, sua história foi examinada recentemente e está sendo verificada. Desejo que ela seja apreciada por diversos leitores de nossa comunidade. Sucesso e felicidade em sua arte! ♡
October 18, 2023, 12:19
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Correntes
Correntes

Histórias entrelaçadas por laços humanos profundos, capazes de moldar destinos e desencadear uma cadeia de eventos inesperados. Cada ação, cada escolha, reverbera através das vidas entrelaçadas dos personagens, criando um tecido complexo de relacionamentos e consequências. Os laços de amor, amizade, família e até mesmo os encontros casuais têm o poder de transformar trajetórias, revelar segredos ocultos e desafiar o destino preestabelecido. Nesse universo, as consequências das interações humanas são exploradas em toda a sua magnitude, convidando os leitores a refletirem sobre o impacto de suas próprias escolhas e conexões na tessitura da existência. Leer más sobre Correntes.

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