riocortello Rio Cortello

Breves narrativas distintas sobre a eterna união pelos indissolúveis laços de dois inevitáveis: o amor e a morte


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Os Inimigos

Bianca e Laerte sequer possuíam a capacidade de ocupar o mesmo espaço, tamanha eram suas diferenças. Ambos consideravam-se o completo oposto um do outro, o que apenas reforçava a crença de suas famílias de que a união entre os dois seria próspera, porém, era justamente a semelhança entre eles que os repelia. Bianca e Laerte eram parecidos demais em suas diferenças, o que tornava impossível a convivência, esse era o único fato no qual concordavam em suas opiniões distintas, visto que um culpava o outro pela aversão que sentiam. Entre tantas teorias, entretanto, permanecia a certeza, Laerte e Bianca não cabiam na vida um do outro, e disso logo todos se convenceram.

O compromisso designado entre os dois na época em que eram ainda muito jovens para tomarem as próprias decisões fora anulado anos após aprenderem a palavra não, dita com frequência quando o tema das conversas era o casamento arranjado. Ela e ele não viveriam sob o mesmo teto nem que estivessem mortos, sempre fora assim, desde que aprenderam a andar, caminhavam em direções opostas, um saia pela mesma porta pela qual o outro havia passado assim que esse entrava, sequer olhavam-se ao falharem em evitar um encontro, se questionado, Laerte não saberia dizer a cor dos olhos de Bianca, como ela não faria ideia do que responder caso questionada se Laerte possuía barba, bigode ou costeletas. Era estranho, até, o modo como não se suportavam ao ponto de não trocar olhares sendo que não haviam nem mesmo trocado, ao todo, dez palavras um com o outro. Nas raríssimas ocasiões em que eram forçados a permanecerem no mesmo recinto, mantinham os lábios selados, guardando dentro de si as palavras que desejavam cuspir, como nas cartas de ódio, que todos liam, com exceção do remetente. Assim que um adentrava o salão, ou sentava-se a mesa, o outro calava-se, ainda que não falasse deste que acabara de chegar, e sua voz tornava a ser ouvida somente na ausência daquele.

Bianca e Laerte conheciam-se apenas pelas palavras de amigos e familiares, o que bastava para que lamentassem o dia em que, pela primeira vez, ouviram a pronúncia do nome, que também jamais era ouvido em suas vozes, ainda que recitassem contra o outro as piores ofensas que escutariam caso tivessem a audácia de as dizer àquele a quem as endereçava, porém, Laerte e Bianca, que tratavam-se por ele e ela, já que o nome em seus lábios lhes soava como uma heresia, recusavam-se a trocar uma só palavra que fosse além do estritamente essencial, ainda que fosse um insulto.

Enquanto permitiam que o ódio lhes fluísse do peito em letras através das lágrimas de tinta que pingavam da pena, que era cravada na folha como uma espada sendo fincada na carne daquele sobre o qual falavam durante o desabafo com o papel, Bianca e Laerte juravam a si mesmos, tendo apenas as páginas em que escreviam como testemunhas, que durante suas vidas, e até depois de suas mortes, caso tivessem o infeliz destino de atravessarem a eternidade juntos, que jamais, sequer, encarariam um ao outro.

Para a tristeza de ambos, cruzarem-se vinha tornando-se comum conforme esforçavam-se em evitar o encontro, como se o destino, em seu infinito sarcasmo, teimasse em uni-los justamente por desejarem a distância, porém Bianca e Laerte se viam dispostos a batalhar contra o destino que os queria juntos, ainda que não houvesse chance de vitória contra sua vontade soberana, lutariam contra ele o quanto pudessem enquanto lhes fosse permitido por ele que o fizessem, ainda que para isso desperdiçassem suas vidas inteiras, que poderiam ser de felicidade ao lado um do outro, nessa guerra.

Laerte e Bianca uniram-se apenas em desviar-se da união que o destino insistia em lhes impor. Desviaram olhares, como se o pudessem cegá-los, toques, como se fossem contrair uma grave moléstia, e caminhos, como se nesses estivesse a morte. Fugiram para outros continentes, não só um do outro, mas do destino, apenas para encontrarem-se odiando um ao outro em diferentes idiomas. O destino jamais quis que se gostassem, o destino apenas queria que permanecessem juntos, fosse por compaixão aos dois, que sem ter a quem odiar viveriam na solidão de nada sentir por ninguém mais, ou meramente de perversidade, regozijando-se no desgosto que despertavam entre si.

O destino fora, em demasia, paciente, porém somente sua decisão é imortal, e ele já havia decidido-se, Bianca e Laerte permaneceriam juntos ainda que não quisessem.

Bianca e Laerte faleceram de velhice, um recusava-se a morrer antes que outro partisse, queriam ter o prazer de, ao menos por um dia, viver em um mundo no qual o outro não existia, esse desejo não lhes fora concedido, já que nunca concederam ao destino o seu desejo. Morreram no mesmo instante, não foram livres um do outro nem por um minuto. Laerte e Bianca jamais contaram às famílias que formaram a respeito um do o outro, o marido, os filhos, suas noras e os netos e bisnetos de Bianca nunca o conheceram, assim como a esposa, as filhas, seus genros, as netas e bisnetas de Laerte. Preservaram consigo o ódio que sentiam, não o compartilharam com aqueles que passaram a amar, possuíam o direito a uma nova vida em que não precisavam lidar com a presença do outro, ainda que fosse na simples curiosidade daqueles que não chegaram a conhecê-lo, talvez porque sequer existissem quando o ódio entre eles nasceu. O ódio, entretanto, permaneceu vivo até que morressem. Após a morte dos pais e irmãos, da viuvez, da partida dos filhos, do abandono dos netos e de suas memórias, que apagavam-se cada vez mais com o passar dos anos, restou a Bianca e Laerte o sentimento que sentiam, que forçou seus corações a continuarem pulsando até a última batida, e que não os deixou até que o outro houvesse deixado este mundo. Laerte e Bianca morreram na companhia um do outro, com a maior distância entre eles que foram capazes de chegar. Sem que soubessem, os parentes de Bianca a sepultaram em frente ao túmulo de Laerte, se houvessem sido avisados, talvez tivessem se preocupado em enterrá-la noutro cemitério, para que ela não dividisse com ele nem mesmo a terra sobre seu caixão. A família de Laerte certamente não teria se importado, já que nem ao menos se incomodaram em cremá-lo como havia pedido em seu testamento, debaixo dos sete palmos de terra não era possível ouvir suas reclamações.

Laerte e Bianca agora encaravam-se de suas lápides, olhando nos olhos em preto e branco de suas fotos, que permaneceriam eternamente abertos, congelados um no outro, enquanto as flores, postas sobre seus túmulos, murchavam, sob as gotas de chuva e os raios de sol do céu acima de suas lápides, tendo suas pétalas arrastadas de uma sepultura à outra junto às folhas despencadas das árvores, de acordo com a direção que tomasse o vento, que nunca era tão forte a ponto de levá-las para longe. O destino, como foi de sua vontade, uniu Bianca a Laerte, para toda a eternidade.


22 de Agosto de 2023 a las 04:59 10 Reporte Insertar Seguir historia
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E. M. Vicente E. M. Vicente
Legal. Vou te seguir.
January 28, 2024, 13:38

Bella Oliveira Bella Oliveira
Amei ♥️
December 10, 2023, 14:58
Daniel Trindade Daniel Trindade
Saudações! Sou membro da Embaixada Brasileira do Inkspired. Parabéns, sua história foi examinada recentemente e está sendo verificada. Desejo que ela seja apreciada por diversos leitores de nossa comunidade. Sucesso e felicidade em sua arte! ♡
November 15, 2023, 14:37
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