Plantão Seguir historia

astoria Amber Liz

Tudo pode acontecer no primeiro dia do ano em um plantão de uma UPA... Festividade para alguns, despedida para outros...


Cuento Todo público.

#medicina #reflection
Cuento corto
0
3917 VISITAS
Completado
Tiempo de lectura
AA Compartir

1 de janeiro

Pi...

O som da voltagem percorrendo um corpo.

Pi...

– Um, dois, três... – o reinicio da contagem da massagem cardíaca duelando com o zumbido que anunciava a falha da reanimação.

O médico, com roupas verdes, gastas e folgadas do serviço de urgência e emergência apresentava bolsas escuras sob os olhos escuros, mas nem mesmo a exaustão diminuía a potência da manobra de ressuscitação cardiopulmonar.

– Vamos, reage! – Proferiu através da máscara cirúrgica como se o corpo imóvel pudesse reagir ao seu pedido.

Cada segundo era precioso. Cada segundo era uma contagem regressiva para não ter mais volta.

E mesmo naquele caos que se transcorria naquela sala de operações, a médica só conseguia observar tudo através dos vidros da porta como uma telespectadora assistindo a uma peça de Teatro.

Ela deveria correr para ajudar como sempre fazia ou talvez devesse correr para aplicar o ATLS em outro paciente recém-chegado durante aquele plantão de réveillon. E havia tantos chegando...

Politraumatizados, sob efeitos de álcool, drogas, ou apenas com uma leve escoriação que para uma mãe poderia ser interpretado como o pior dos traumas cranioencefálicos.

Haviam pacientes para estabilizar, parentes para tranquilizar, cirurgias para fazer, transferências para realizar, horas da morte para se determinar, tudo isso em meio ao caos de uma UPA que não tinha leito para todos.

Ela deveria estar fazendo tudo isso como sempre fez tão habilmente, mas naquelas primeiras horas do ano – antes mesmo do primeiro alvorecer despontar no horizonte anunciando que era hora de se colocar em prática tudo o que se prometeu na virada do ano –, aquela plantonista nada fez. Apenas continuou observando o seu colega de trabalho, já tão cansado, subir em cima da maca para continuar com mais voracidade a massagem cardíaca.

Não era o ato – tão conhecido por si – que a deixou parada naquele corredor que outros percorriam afoitos com seus próprios pacientes e problemas, mas sim quem recebia aquele suporte avançado de vida, pois, a pessoa entre o limiar da vida e da morte, era ela própria.

Talvez ela devesse se chocar, se desesperar, mas nenhuma dessas emoções alcançou a médica. Era como se estivesse em um limbo e nenhuma emoção a alcançasse ali.

Sabia que cada tic ou cada tac que o relógio na parede fazia, piorava o seu prognóstico, aproximava-a mais das garras do sono eterno.

Era como uma bruma escura que se preparava para abraçá-la enquanto a ampola de adrenalina era preparada.

Talvez todos os seus pacientes devem ter sentido algo semelhante quando estavam nas suas mãos, pensou em certo momento. No entanto, o que a diferenciava dentre tantos outros pacientes, é que ela não parou ali devido a um acidente, um choque hipovolêmico ou uma briga de bar.

Suas roupas também verdes e folgadas denunciavam que estava em serviço. As bolsas escuras sob os olhos, as horas de trabalho. A clavícula evidente e os lábios sem cor, o seu descuido com a sua própria saúde...

Quantas horas ela trabalhou sem folga? Sem ir para casa e ter um sono reparador? Trinta e seis horas? Quarenta e oito horas? Ou setenta e duas horas? Ela nem sabia mais, tinha parado de contar há muito tempo. Entretanto, por mais que os olhos permaneçam alertas devido a adrenalina do trabalho, o corpo definha, como o dela definhou após tantos alertas que ela resolveu ignorar.

Pena? Remorso? Desejo de uma segunda chance? Nada disso a atingia, apenas um sorriso sem humor que mal existia desenhava os seus lábios enquanto seus olhos desviavam para a porta um pouco enferrujada no canto.

Por mais que trabalhasse ali há tanto tempo, era a primeira vez que parava para notar aquele pequeno detalhe, pois ela sempre correu, ela sempre abdicou, ela sempre fez tudo, mas não percebeu os pequenos detalhes da vida.

Talvez tenha sido por isso que seus relacionamentos não duraram, talvez tenha sido por isso que Carlos tenha terminado com ela e ido construir uma família com aquela outra mulher.

Trinta e dois anos e o que ela tinha? Um gato, um apartamento que mal usava, uma carreira e uma conta suficiente para bancar os caprichos que qualquer pessoa gostaria de ter...

Apenas isso, nada mais...

Pensou em como seus sonhos juvenis tinham sido postergados, como suas viagens não foram realizadas e como ela sufocou suas desilusões em horas de plantão, doses de álcool e até medicamentos de tarja preta, enquanto a seringa introduzia a adrenalina na sua veia, mas o “Pi...” continuava a ecoar pelo ambiente e toda a equipe permanecia petrificada olhando para o monitor esperando alguma reação.

O médico, já com seus quarenta e poucos anos, abaixou seu olhar para a colega de roupa suja de sangue que não era seu antes de proferir:

– Hora da morte, duas e cinquenta e três.

Ninguém teve coragem de romper o minuto de silêncio fúnebre para mais aquela colega que eles perdiam.

A médica sorriu pensando que pelo menos naquele caso eles não teriam que lidar com filhos ou um marido que aguardava as notícias da sua esposa sendo atendida.

Ela deu as costas para a imagem da sala e viu no final do corredor a bruma negra a esperando.

Com coragem, ela deu seus últimos passos naquele corredor tumultuado antes de alcançar seu último destino...

12 de Marzo de 2018 a las 09:03 0 Reporte Insertar 0
Fin

Conoce al autor

Amber Liz Apenas uma viajante no mundo da lua...

Comenta algo

Publica!
No hay comentarios aún. ¡Conviértete en el primero en decir algo!
~