Olhos abrasadores Seguir historia

wingless_bird Wingless_ Bird

Tristan se muda com a família para uma cidade pequena, onde as nuvens parecem nunca se dissipar. Como se não bastasse ficar longe de seus amigos e do rapaz que ele ama, Tristan tem que lidar com uma maldição que se prendeu à casa que passa a morar. O primeiro morador invocou um demônio, que se alimenta de sentimentos negativos das pessoas que ele se prende. Tristan está na mira do ser. O bullying, os boatos maldosos, as torturas aos pensamentos do rapaz, tudo gerado pelo diabo, através de um pacto que não beneficiava o humano. Porém, a criatura não é má por natureza, e sim, por não saber fazer agir de outro jeito. Tristan tem uma esperança de ensinar o demônio a ter sentimentos bons, mas as coisas sempre parecem estar fugindo do controle do rapaz, seja para o bem ou para o mal.


LGBT+ Sólo para mayores de 18.

##Gay ##Sexo ##Mutilação ##Sobrenatural ##Políamor ##Loucura ##Threesome
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Prólogo: Teias de aranha

A nova paisagem preenchia meus olhos com suas cores sutis e enchia meu coração de saudade da minha terra natal. Não que minha nova cidade tivesse aspecto feio, mas era completamente diferente do que estava acostumado de nascimento. As casas, mesmo grandes, tinham aspecto velho e triste, feitas de madeira com jardins à frente, o de nossa casa parecendo descuidado com mato subindo pela varanda. Toda cidade parecia ter saído de um filme. Uma vez ouvi que as nuvens de chuva costumam ser atraídas para esse local por misteriosas correntes de ar, levar um guarda-chuva é meio que obrigação aqui. Essa casa antiga, esse lugar, seria meu novo lar.

Numa “promoção” do trabalho de meus pais fomos atraídos para essa cidadezinha de interior no fim do mundo, como as nuvens negras, só que ao invés de seguir uma corrente de ar frio seguimos o cheiro do dinheiro fácil. E, convenhamos, dinheiro nunca é demais. Não acho que mudanças são ruins, mesmo que varias pessoas tenham que ficar para trás, junto com lugares que nos causavam uma doce nostalgia.

Deixei para trás amizades, amores. É claro, no sentido físico, pois sempre os teria no coração. As caixas bem embrulhadas continham presentes das três pessoas que deixavam minha vida mais alegre. Conti a ansiedade de abri-las no carro, já que os remetentes disseram-me para desembrulhar suas lembrancinhas apenas quando chegasse à nova casa. E agora começo a pensar que pode ser difícil me mudar para outra escola no meio do ano letivo, estando no fim das férias escolares não tive tempo de me despedir dos colegas de classe e agora teria que me acostumar a tanta coisa diferente...

- Preparados? – Perguntou meu pai a ponto de colocar a chave na fechadura.

Minha mãe deu pulos de alegria movimentando o cabelo loiro escuro tão parecido com o meu e soltou um gritinho fino, animada. Mas ficou por isso, pois meu pai parou. Ele deu meia volta e entregou a chave na minha mão.

- Aqui, Tristan. – Disse o homem com carinho. – Essa casa e tudo que conquistaremos nela será sua herança.

- Já está pensando em morrer, velho? – Disse em tom de brincadeira, ganhando uma risada deles.

- Não. – Respondeu com os olhos castanhos claros serenos. – Mas logo você terá 18 anos, vai ter que ir a faculdade, trabalhar...

Pensei em falar que faltavam dois anos para isso acontecer, que eu já tinha um dinheiro guardado do meu trabalho na antiga cidade e que nem sabia que curso faria, mas ao ver mamãe começar a morder as longas unhas achei que seria melhor terminar com isso de uma vez. Espetei o metal na fechadura e sem muita cerimonia virei, empurrando a porta sem muito cuidado, logo recebendo uma lufada de ar com poeira. Cobri meu nariz e boca com a manga do meu casaco, sentindo-os arderem, assim como meus olhos.

- Bom, era de se esperar algum pó. – Disse a mulher tossindo. – Mas eu acreditava que ela já estivesse reformada.

A fim de não sujar as bagagens as deixamos na calçada, que por sinal estava mais limpa que o jardim e a varanda, já a casa nem se fala. Adentramos nosso “doce lar” com panos improvisados cobrindo a parte inferior do rosto buscando as janelas. Depois pedimos aos vizinhos algumas vassouras e espanadores, além de outros materiais para limpeza. Percebi que maioria das pessoas num raio de 50 metros era idosa.

Para ter uma pequena ideia, pelo que tinha lido, os fundadores não sentiram necessidade de construir mais do que uma escola, já que a maioria dos moradores eram velhinhos e senhores donos de fazendas que tinham se mudado para ter um pouco de paz no final da vida, por isso investiram mais em hospitais e clinicas psiquiátricas. No começo, perguntei o que meus pais iriam querer num lugar com população tão reduzida e tão “antiga”. Logo eles começaram a divagar sobre o segredo da longevidade dos habitantes, dos motivos do clima ser tão chuvoso e da biodiversidade da floresta, que (graças a Deus) ficava do outro lado da cidade, bem longe de nós. Rapidamente me arrependi de ter perguntado.

Meus pais são cientistas pesquisadores, se envolvem com as forças da natureza e as estudam com muito afinco. E o melhor de tudo: estão sempre viajando, o que me possibilita uma liberdade incrível. Isso também me permite começar a pensar sobre como é morar sozinho. Sabia que em breve meus pais iriam explorar as curiosidades cientificas do local e da cidade vizinha, que é moderna e juvenil, diferente dessa. Mas eu estava mais interessado em conhecer a casa nova gigantesca.

Depois de estudar brevemente a planta da casa, estava localizado. Logo que entravamos víamos um hall com paredes de tinta descascada aparecendo um pouco da estrutura, a escada que levava ao segundo andar com um tapete empoeirado que nos recusamos a arrancar por enquanto, e um armarinho debaixo da sustentação da escada, onde havia um espaço livre e uma escada para o porão, o qual deixaríamos a limpeza por último.

A direta havia um arco que dava na sala de jantar onde havia uma mesa grande, de madeira boa, empoeirada, com alguns riscos, mas muito bonita, que com uma pequena manutenção podia ser usada, e ao lado dessa sala havia uma porta que dava na cozinha, sem armários, sem eletrodoméstico, com os azulejos quebrados, apenas um fogão a lenha e uma pia antiga.

- Tem certeza que esse lugar era habitado há um ano? – Perguntei a mamãe.

- Existem pessoas que gostam de viver assim... – Disse incerta.

- Não me parece muito pratico...

- Pelo menos conseguiremos um dinheiro com elas! Talvez...

Do lado esquerdo do hall havia uma sala de estar. Com algumas cortinas vinho pesadas de tanto pó, rasgadas, puídas e com buracos de traça, iriam para o lixo, com certeza. Nas paredes sem tinta havia uma passagem para uma biblioteca, apenas estantes solitárias, empoeiradas, mas inteiras, diferente do resto da casa, sem nenhum livro (infelizmente), mas papai jurou preenche-las, arrancando um grande sorriso meu. Do lado da passagem da sala de leitura havia uma porta, caindo de suas dobradiças, que levava ao banheiro, nem adentrei o local pelo nojo que tive do cheiro e por observar que a tampa do que restou do vaso ficou levantada por um ano com restos mortais do que parecia ser um rato.

- Ugh! – Exclamei tampando o nariz. – Recomento que ninguém entre nesse projeto de banheiro e chame logo uma dedetizadora!

Capturei atenção do homem que rapidamente foi checar o banheiro. Eu saí de lá o mais rápido que pude. Não sabia o que ele ia fazer com o cadáver, mas não queria estar por perto para ver, até preferia que deixasse lá e chamasse um profissional para tratar do caso. No entanto, pude escutar meu pai falar preocupado com minha mãe, mas não entendi o que disse, minha curiosidade pelo andar de cima era maior.

No segundo piso havia seis quartos no total, dois a esquerda, um perto da escada e os outros a direita. Todo o andar cheirava a mofo e mesmo com o pano no rosto sentia meu nariz arder. O único indício que alguém havia estado ali no ultimo ano eram as pegadas recentes na poeira e as portas abertas, já que suas trancas eram de algum metal muito bom para ainda estarem lá. Caminhei brincado por cima das marcas, rindo da sensação de estar sendo observado que as casas antigas davam.

Continuei, olhando a suíte no final do corredor que tinha o que restou de uma cama de casal, um banheiro que cheirava mal, mas não tanto quanto o do andar de baixo, e um armário embutido, que não combinava com o clima de casa antiga. Com certeza meus pais se apropriariam dele. Os outros quartos estavam igualmente destruídos pelo tempo, no entanto sem moveis algum. Poderiam servir de escritório, laboratório, sala de jogos, brinquedoteca (embora não tenhamos crianças em casa), eu não dava a mínima, mas o quarto de frente a escada era meu. Ele era o único das salas restantes que tinha armário embutido e uma janela maior do que a dos outros, dando vista para o extenso jardim dos fundos onde havia uma garagem. Com algum trato poderia colocar belas flores e fazer a vista mais bonita, já que amo cuidar de plantas. No corredor à esquerda também tinha um banheiro que nem ousei reparar.

- TRISTAN! TRISTAN! DESCE AQUI! RÁPIDO! – Escutei os gritos exasperados dos meus pais e, assustado, desci correndo.

- O que foi?! - Meu pai me pegou pelo braço e junto com minha mãe fomos para fora da propriedade apressados. Os olhei assustado.

- Ninguém fez a dedetização da casa. – Disse o homem, como se isso fosse algo para se ter medo. – Ela esteve fechada por um ano, os homens que contratamos não puderam vir, ligamos para eles a pouco.

- E daí? Eu não sou muito fã de insetos, mas posso lidar com alguns durante um pequeno tempo...

- Tristan, pense, se as pegadas na poeira não eram minhas, nem suas e sua mãe estava usando saltos, de quem eram? – Nisso senti um calafrio percorrer a espinha.

- Você foi para o segundo andar, né? – Perguntei e recebi um olhar confuso. – Tem muitas pegadas por lá.

Os dois ficaram calados, a resposta era um claro “não”.

- Soube que existem mendigos e drogados que arrombam casas abandonadas para roubar. – Disse mamãe – Embora não tenha sinais de arrombamento.

- Talvez um buraco na estrutura da casa, acha melhor chamarmos a policia, querida?

- Não, se alguém estivesse na casa teria se espantado por seu grito. – Bufou ela. – Sério, Tristan corria perigo se houvesse um maluco no andar de cima, você praticamente anunciou a presença dele!

Comecei a rir da cara envergonhada de meu pai, enquanto minha mãe brigava com ele. Caso encerrado, nenhum ferido.

Como a casa claramente precisava de limpeza, algumas reformas e dedetização, além de uma inspeção policial antes de ser de fato usada, fomos para a garagem anexada atrás da propriedade, que estava igualmente empoeirada, suja e vazia. Decidimos deixar os móveis ali e ir dormir no hotel, mas antes precisávamos deixa-la usável.

Tínhamos de nos apressar em limpar tudo, meu tio logo chegaria com os moveis, guiando a equipe de mudanças contratada. Separamos os materiais de limpeza e com um esforço coletivo foi fácil cuidar até das pequenas brechinhas. Meus pais aproveitaram para recolher algumas aranhas, a fim de estudar as espécies, puderam até fazer uma pilha com os bichinhos feiosos. Em pouco tempo já tinham preenchido todos os potes que trouxeram na viagem.

Como se tivesse sido sincronizado o caminhão parou na frente da casa, e logo alguém começou a chamar meu pai. Meu tio comandou os homens a descarregar os moveis e ajeitá-los com cuidado na garagem. Ele também achou tudo uma grande confusão de falta de planejamento e deu um sermão em seu irmão mais novo, que assentiu envergonhado, mas ambos levaram como uma brincadeira.

No fim da descarga, decidimos procurar o único e vazio hotel da cidade e pedir uma pizza para comemorarmos a nova vida e rirmos mais um pouco sobre a atrapalhação dessa “mudança”. Meu tio Samuel é um homem muito divertido, assunto não faltaria. Recolocamos as malas no nosso veiculo, de onde nem deveriam ter saído no inicio, mas a ansiedade de mamãe acabou nos obrigando a retirá-las.

Mas antes de ver a paisagem se movimentar pelo lado de fora da janela do carro, antes de poder comemorar alguma coisa, meus olhos foram guiados até a janelinha do sótão trancado. O corretor havia dito que a chave havia sido perdida pelo antigo morador. Mas eu estava muito mais curioso em saber o que tinha lá, talvez coisas que podíamos descobrir do antigo morador.

- Mãe, você sabe sobre a chave do sótão?

- Soube que foi perdida, Tristan, já te contei isso... Mas eu e seu pai vamos dar um jeito de arromba-lo e trocar a fechadura, podemos colocar um telescópio lá... se bem que devem ter vários insetos a serem estudados!... Ah! Querido, que tal virmos amanhã e coletarmos alguns insetos da casa! Ainda não fomos ao porão lá deve ter bastante!

- É uma ótima ideia, querida!

E os dois começaram a divagar sobre ciência e espécies. Tomando uma pequena nota: eu e meu tio dividíamos espaço no banco traseiro com vários potinhos onde os dois deixaram as aranhas. Com o tempo se aprende a lidar com isso.

Foi quando vi algo se mexer no porão. Uma sombra na janela era o que eu via. Como uma mão gigante desembaçando o vidro cheio de pó. E parou. Apertei minha vista em direção ao lugar pensando no que estava acontecendo ali. Fiquei alguns minutos em silencio como se a terra tivesse parado, quase como se estivesse hipnotizado pelo movimento.

E depois um olho. Grande e vermelho. O ar a minha volta parecia estar mais gelado. Sentia alguém pressionar minha cabeça. Medo, muito medo, como se tudo a estivesse ficando mais pesado, como se “aquilo” no sótão estivesse me caçando. Na verdade, eu parecia parado no espaço. Com aquele monstro sorrindo para mim com seus dentes podre, rindo do meu medo, sendo que nem o via bem.

- Tristan! – Chamou meu tio.

Soltei a respiração que nem sabia que estava prendendo. Todos do carro olhavam para mim. Até as aranhas pareciam ter grudado em seus vidros para ver se estava tudo bem comigo. O que diabos foi isso? Olhei para fora e vi a janela como tínhamos visto na fachada da casa: embaçada pelo pó, sem mãos, sem olhos, sem uma entidade maligna sorrindo para mim, apenas um sótão trancado há um ano. Apenas minha imaginação pregando-me uma peça, embora essa tenha sido muito real.

- Tudo bem, Tristan? – Perguntou papai. – Você está pálido...

Afirmei com a cabeça, ainda olhando para a janelinha, sem acreditar que meu rosto tinha ficado sem cor.

- Mamãe. – Chamei. – Você não acha melhor chamarmos um padre? O antigo dono se suicidou na casa, né? E se sua alma ainda estiver lá?

- Você sentiu alguma presença?

- Não exatamente...

- Podemos tentar. – Sorriu para mim. – Não quero te assustar, mas essa casa não tem um bom histórico com seus antigos moradores...

Minha família toda acredita e segue a Deus. Mas não o que nenhuma religião prega, e sim o que ajuda e ama a todos independente de quem elas sejam, e pune quem é ruim e faz justiças aos mais fracos. O que não é movido por nenhuma oração especifica ou local sagrado. Acreditamos também em espíritos e seres do além, na possessão de objetos e lugares por almas. É engraçado imaginar dois cientistas acreditando no que não pode provar e o que conseguem, atribuindo a criação divina. Desde pequeno eles me dizem que sou sensível a coisas do além. Como passar mal e escutar vozes quando estou em um lugar onde houve uma tragédia. Pessoalmente não acreditava nisso, até agora.

- Acho que vou abrir os presentes dos meus amigos agora... – Pensei alto, tentando espantar o pavor.

- Então abra... já chegamos a nova cidade mesmo. – Respondeu papai acelerando como o carro.

Peguei na sacola que levava no braço o embrulho que mais me chamava atenção. Era rosa com um laço branco cheio de glitter, detalhadamente simétrico e bem feito, trabalho da uma única menina do grupo, Maggie. Abri com cuidado com dó de estragar. Como previsto pelo formato havia caixa com uma dedicatória grudada na tampa. “Para Tristan, a fim de que seus dias continuem doces e fofos sem a minha maravilhosa presença em sua vida, boa sorte na cidade nova, não arrase tantos corações, gato“. Ri, imaginado, sua voz doce falar para mim. Puxei da caixa um ursinho caramelo de quase 30 cm de altura, com um coração rosa no meio com meu nome bordado a mão no centro.

Puxei o celular e tirei uma foto da pelúcia em minhas mãos. Ativei a internet móvel e mandei para ela em uma rede social, com algumas sinceras palavras: “Sentirei falta da sua fofura e da sua maravilhosa presença, mas tenho certeza que Rafa vai te escutar em dobro como amigo e futuro namorado”. Já esperava que ela me mostrasse o dedo do meio. Somos amigos de infância desde a creche, sempre a vi como uma irmã, quando Rafael chegou na 3ª série vi ela se apaixonar e ele corresponder, mas, até hoje, no segundo ano do ensino médio, não tiveram nada. É até um alivio não ter que ficar no meio dessa enrolação dos dois. Mas, sentirei um pouco de saudade. Confuso, não?

Pensando em Rafael decidi abrir seus presentes. Ele havia especificado qual deles deveria ver primeiro. Com fita adesiva por toda a embalagem azul mal embrulhada e com um nome, provavelmente do ultimo que recebeu algo nesse papel. Essa desorganização irritava Maggie. O recado, escrito de mau jeito, mais pareciam rabiscos que palavras, mas já estava acostumado com a letra do rapaz. “Para sua diversão na nova cidade, boa sorte, cara”. A primeira coisa que tirei da embalagem foi um pano vermelho que renda, coberto por um plástico transparente. Encarei aquilo e me preguntei se meus olhos estavam com problemas. Na etiqueta a palavras “masculina” me causou um arrepio.

Esse filho da mãe me comprou uma calcinha. Uma calcinha! Não o tipo que as meninas costumam usar no dia a dia, e sim para as “noites quentes”. E as coisas só pioraram, pois não foi a única coisa que ele me deu. Eu só percebi que no pacote tinha mais coisas quando várias camisinhas de diferentes sabores caírem aos meus pés, chamando atenção de meu tio, que desatou a rir.

- Sério? – Perguntei extremante envergonhado, fuzilando Rafa na minha cabeça.

- Meu Deus! – Se assustou mamãe ao se virar. – Que tipo de amigo te dá uma coisa dessas?!

- O tipo do Rafael... – Disse ainda sentindo meu rosto queimar de vergonha e raiva.

- Eu faria isso. – Comentou meu tio, continuando a rir, engasgando logo depois.

Apressei-me em mandar uma mensagem irônica agradecendo o presente e ameaçando usá-lo em seu remetente. Ele gravou um áudio rindo, e deixando com mais raiva. Talvez pelo fato de que minha ex-namorada me largou depois de saber que eu mudaria, recolhi e guardei aquelas “coisas” deixando-as no fundo da sacola, ignorando minha vontade de jogá-las pela janela. Talvez eu tenha vontade de sair com metade da cidade para provar para que estou muito melhor sem ela e que tem alta demanda sobre minha pessoa, mas lembrei que mais do que a 70% daquele fim de mundo eram velhos com seus 80 anos, então repudiei meu próprio pensamento.

Mas, convenhamos, só havia uma pessoa que me procuraria (e eu aceitaria de bom grado usar qualquer uma daquelas coisas): Natanael. Meu vizinho estrangeiro de cabelos loiro quase branco e maravilhosos olhos verdes. Ele era “o anjo caído que queria me pegar”, como dizia Maggie. Quando ele surgiu em minha vida eu já estava namorando, e Andressa, minha namorada da época, não se importou em me deixar testar ficar com ele.

Vivíamos em um relacionamento aberto, ela ficava com quantos caras e garotas desejasse, e eu fazia o mesmo, desde que tivéssemos conhecimento de quem eram. Agora que paro para pensar nós não “namorávamos” nós “ficávamos com frequência”, não costumávamos fazer coisas como assistir filmes juntos, sair para algum lugar, trocar carinhos puros, tudo isso acabava em sexo e era nisso que se baseava nossa relação. Acho que ela nunca sentiu nada por mim, embora eu já tenha a amado, mas ultimamente só tinha uma pessoa em minha cabeça.

Eu sempre voltava para os braços de Natanael. Enquanto ela, ao saber da minha mudança, terminou comigo sem se importar, o loiro chorou ao saber da minha distancia e se dispôs a me visitar, como amigo. Mas nós dois sabíamos que isso não costumava acontecer quando ficávamos juntos sozinhos. Era tão intenso, tão irracional, que quando reparávamos já agimos como casal. Eu deveria ter investido nele, mas agora tudo que resta é saudade, três horas de distancia e um chat numa das tantas redes sociais que temos.

Começando a me sentir deprimido achei melhor deixar o presente dele por ultimo e desembrulhar o segundo presente de Rafael. A embalagem estava igualmente desleixada como a outra, mas essa estava só tentando esconder uma caixa, que até estranhei o peso. Abri-a e quase comecei a chorar. Era o box de uma coleção de livros que eu queria ler a muito tempo, mas tinha que guardar meu dinheiro para o futuro. Estava esperando meu próximo aniversario para pedi-la para meus pais. Mas, além disso, havia um álbum de foto. Logo que abri estava escrito “para o melhor amigo do mundo”, com mensagens bonitas de meus amigos e a foto de quando fomos num parque de diversões.

Na frente da montanha russa, num dia ensolarado, Maggie se abraçava a mim, Natanael se escorando enquanto Rafa tirava a selfie. A garota negra de cabelos encaracolados curtos usando regata rosa pink era a princesinha do grupo, seu futuro namorado (eu ainda tenho esperança), que segurava a câmera exibia seus cabelos castanhos desarrumados, usando uma camisa preta amassada. O loiro platinado me olhava de canto com um sorriso, seu braço apoiado no meu ombro enquanto minha mão entrelaçou sem querer a sua, ele realmente parecia um anjo de branco. Eu era o rapaz magro de cabelos loiro escuro curtos e bagunçados, e olhos castanho, com uma camisa com respingos coloridos, uns 10cm menor que Natanael, mas uns 15cm mais alto que Maggie. Essa foi a última vez que saímos juntos, a nossa despedida, a última ficada.

- Não se preocupe, Tris. – Disse mamãe. – Nós vamos convidá-los para vir.

Assenti deixando o álbum de lado. Se eu continuasse a olhar acabaria por cair no choro e não queria fazer isso na frente dos meus pais e do meu tio, as aranhas nem eram tão importantes. Mandei outra mensagem a Rafa agradecendo e o vangloriando. No áudio ele não conseguiu esconder sua voz orgulhosa de si mesmo.

Agora era a vez do presente de Natanael. Meu coração passou a acelerar. O que tinha dentro daquela embalagem vermelha, pequena e bem ajeitada? No bilhete dizia: “Para meu amado Tristan...”, senti minha respiração morrer com o “amado”, “contarei cada um dos dias até as férias de inverno para poder estar com você. Se lembra do meu colar da árvore da vida? Eu comprei outro para que se lembre que eu vou estar ao seu lado sempre que você chamar meu nome, como um anjo da guarda que lhe ajudará nessa jornada”. De imediato abri a caixinha e lá encontrei uma réplica exata do adereço que ele usava.

Mais do que um enfeite ele nos simbolizava a vida e o equilíbrio. Um círculo com uma árvore cheia de ramos no meio. A copa era o céu, o tronco era a vida terrena e as raízes era o submundo. Natanael também não tinha religião e se identificava com o que eu lhe dizia sobre o universo. Agora essa pequena imagem vazada em metal também significava nossa união, minha coragem e sorte. Mandei-lhe uma mensagem agradecendo e comentando que não via a hora de me encontrar com ele de novo.

Naquela época eu ainda não tinha libertado o mal. Mas depois de tudo o que aconteceu com aquele maldito boneco eu queria mais era distancia, para não machucar as pessoas que amava. Ainda não compreendia que no momento que espetei a chave na porta daquela casa amaldiçoada já estava preso às teias dele, já rastejava em suas mãos. Isso só pioraria quando o sótão fosse aberto. Assim selaria meu destino, sem retorno.

4 de Marzo de 2018 a las 20:27 0 Reporte Insertar 1
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