Sem erros, sem mortes, sem derrotas! (2016) Seguir historia

alicealamo Alice Alamo

Anos antes da guerra estourar, quando nem sonhávamos com essa possibilidade, Naruto e eu éramos apenas amigos. Crescemos juntos, estudamos juntos, nos apaixonamos juntos... Contudo, reagimos de formas diferentes a isso. Enquanto fiquei com medo de meus pais, de minha família, Naruto entrou em pânico e mergulhou em culpa, alistou-se no exército e me deixou para trás... Mas isso havia sido em uma época de paz. Agora, com a guerra e com a convocação de reforços, ele teria que me encarar novamente...


Fanfiction Anime/Manga Sólo para mayores de 18. © Todos os direitos reservados

#drama #guerra #yaoi #lemon #naruto #sasuke #sasunaru #ua #naruto-sasuke
Cuento corto
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Capítulo Único


Ele havia caído e permanecia assim a alguns poucos metros de distância. O som das explosões de granadas me irritava; para ser sincero, dava-me medo, como se a morte estivesse cada vez mais próxima. Os gritos de fúria e de dor, o barulho repetitivo dos tiros, tudo isso contribuía para aumentar minha angústia. Engoli em seco, confuso enquanto meu chão sumia aos poucos.

Naruto havia caído e não se levantava.

— Sasuke! — Ino me puxou.

Os tiros passaram perto de mim, traçando uma linha à frente de onde meus pés estavam antes. A mão de Ino apertava meu braço, puxando-me para trás de um tanque aliado abatido. Mas isso não importava. Meus olhos ainda estavam presos a Naruto, caído na areia, tendo só outros soldados feridos e os cavalos de frisa¹ como escudo.

O braço dele estava estendido na minha direção com a palma da mão para cima. Os dedos dele moviam-se e essa foi a minha primeira prova de que ele estava vivo. A outra mão repousava sobre o abdômen, apertando o local do tiro. O peito subia e descia rapidamente; era visível o esforço que Naruto fazia para o ar entrar em seus pulmões.

A equipe médica não conseguia se aproximar... Os inimigos avançavam mais e mais, dificultando o resgate, aumentando meu desespero. Ao redor, medo abatia mais soldados que armas. O reforço que havíamos solicitado pela manhã só chegaria no dia seguinte e, por isso, precisávamos resistir até lá.

— Ele está vivo? — Ino perguntou e me entregou uma arma carregada.

— Sim.

— Sakura e a equipe médica precisam chegar logo. Temos que abrir caminho para eles ou então arrastar Naruto para cá! Não podemos o abandonar!

Não respondi. Óbvio que não poderíamos abandoná-lo, não havia necessidade de Ino gritar aquilo no meu ouvido. Nunca o deixaria para trás, até porque ele estava no chão por me salvar.

O barulho das metralhadoras se aproximava. Um jipe se aproximava para nosso auxílio e vi meu irmão saltar dele, correndo em minha direção.

— Subam! Temos que recuar! — ele gritou enquanto atirava para poder chegar até mim.

Ino negou e me olhou, suplicante, temendo que eu atendesse ao pedido de Itachi.

Respirei fundo. Minha boca seca tinha gosto de sangue. Meu corpo doía, exausto. A demora para responder Itachi denunciou a ele que algo estava errado. Franziu o cenho e olhou de mim para Ino e, então, para onde nossa atenção estava voltada antes. Quando entendeu, voltou-se para mim, negando incrédulo antes de frisar:

— Não, não tem como. Precisamos recuar, Sasuke!

— Sem arriscar? Sem nem tentar? É minha culpa ele estar ali. Baixei a guarda, ele me protegeu. — resumi rapidamente. — Itachi, eu preciso tentar. Me deem cobertura.

Não esperei. Sempre agi por impulso, não seria diferente desta vez. Sabia que Ino e Itachi me protegeriam como pudessem e, se não fosse o suficiente... bem, simplesmente pagaria pelo meu próprio erro. Era uma guerra. Não havia espaço para distrações, para hesitações. Prova disso era que uma única hesitação minha havia custado a segurança de Naruto.

Os tiros passavam ao meu lado. Os gritos de Itachi e de Ino se misturavam com os dos feridos ao meu lado.

O capacete pesava, a farda então... só me era mais um empecilho na hora de correr.

Gritei quando um tiro acertou meu ombro esquerdo. Automaticamente, sem mirar corretamente, apenas direcionei a arma que levava e puxei o gatilho, torcendo para acertar alguém do lado inimigo.

Avistei Sakura. Ela corria, recuando. Parava de vez em quando, virando-se para trás e atirando enquanto gritava insultos. A faixa da equipe médica em seu braço a destacava no meio de todos, e nunca antes eu gritei o nome dela como naquele dia.

Os olhos verdes me fitaram de imediato e só Deus sabe o quanto agradeci por ela, como sempre, perceber o desespero em minha voz. Sakura mudou de direção, fazendo o sinal para o soldado que a acompanhava. Os dois vinham até mim, que me abaixava, escondendo-me dos tiros e me arrastando até Naruto.

Cheguei nele antes de Sakura. Apertei sua mão, debruçando-me parcialmente sobre ele e livrando-o do capacete como se aquilo pudesse fazê-lo respirar melhor. Os olhos azuis me fitavam, arregalados, surpresos antes de se tornarem reprovadores.

— O que...? Teme, seu maldito! Deram ordem de recuar! — cuspiu, junto com o sangue.

Ignorei-o, fingindo que sua voz não saiu rouca e fraca, engolindo em seco ao perceber que a bala atingira o lado direito de seu abdômen e que Naruto já não tinha forças para pressionar o local. Estapeei a mão dele, colocando as minhas no local, apertando, sentindo o sangue manchá-las.

— Sakura!!

— Já estou aqui, Sasuke! — ela respondeu, irritada.

O soldado que a acompanhava era Kakashi, um dos nossos, e ele a puxou para baixo rapidamente e a cobriu com o corpo quando ouvimos o alerta de granada. Felizmente, não havia sido tão perto, mas o suficiente para que eu e Sakura nos olhássemos e concordássemos em silêncio.

— No três, corra — ela ordenou. — Um, dois, três!

Puxamos Naruto e o erguemos. Eu e Sakura o ajudávamos a correr na direção que Itachi e Ino estavam e Kakashi cobria nossa retaguarda, xingando os inimigos que matava, contando em voz alta cada nova morte que sua tão famosa arma conquistava.

Meu irmão não precisou falar nada para que eu soubesse o que se passava na cabeça dele: ele me repreendia, discordava, julgava. Mas, apesar de tudo, Itachi era meu irmão e, só por isso, veio até Naruto e o ajudou a subir no jipe conosco.

— Deitem-no! — Sakura mandou.

Os soldados abriram espaço como podiam. Na parte mais interna, ficamos eu, Sakura, Naruto e mais dois soldados da equipe médica enquanto os outros postavam-se próximos à parte traseira, prontos para atirar quando o jipe manobrasse para partir de volta ao acampamento.

O som dos disparos não demorou a vir. Tiros atravessavam o tecido, a lona que cobria o jipe, e atingiam alguns dos nossos. Automaticamente, meu corpo se moveu, servindo de escudo para Naruto enquanto Sakura abria-lhe a farda para examinar a ferida.

— Ele perdeu muito sangue... — ela sussurrou.

— Foi só de raspão. — Naruto sorriu, fraco.

Ela me olhou, baixando os olhos rapidamente.

— Kakashi, cuide da ferida do Sasuke — ordenou, abrindo uma maleta que estava encostada no fundo do jipe. — Vai logo! Tá esperando o quê?

Tentei negar, sem soltar a mão de Naruto ou me mover, quando Kakashi tocou meu ombro pedindo que eu o acompanhasse, contudo, Itachi apareceu de repente.

— Sem discussão, Sasuke. Como seu superior, estou mandando que acompanhe Kakashi. Agora! — ele não gritou ou algo parecido, mas conhecia aquele tom... Itachi falara sério, usando-se de sua posição para me fazer obedecer enquanto cerrava os punhos, contendo-se para não me surrar ali na frente de todos.

Inclinei-me sobre Naruto, apertando sua mão para sussurrar em seu ouvido:

— Não ouse morrer antes de mim, Dobe.

Ele riu, anasalado, piscando-me um olho.

Levantei-me, deixando Kakashi e Itachi me afastarem. E, já que mencionaram meu ombro, devo dizer que, sim, doía muito. Toda vez que Kakashi mexia em meu braço para poder analisar o ferimento e limpar a área, eu respirava fundo, fechando os olhos e engolindo a voz para não fazer cena.

Itachi estava do meu lado, analisando a ferida junto de Kakashi e meneando a cabeça.

— Você tem noção do quão irracional foi? — sussurrou, irritado, entredentes.

— Não podia deixá-lo lá, Itachi.

Ele fechou os olhos, estalando a língua no céu da boca enquanto discordava de mim em silêncio.

— Prometi a nossos pais que você sairia daqui vivo! O que diria a eles se você morresse porque decidiu se matar para salvar... para salvar... Merda, Sasuke! — ele se exaltou quando jipe parou.

— Diria que morri em combate.

Os soldados começaram a descer. Kakashi disse-me para fazer o mesmo e, quando se prontificava a me acompanhar, Itachi passou o braço pelos meus ombros e o dispensou.

— Senhor, ele precisa de cuidados.

— Eu sei cuidar do meu próprio irmão, Kakashi — rebateu, ignorando a atenção que chamava ao ser tão ríspido. — Também sei cuidar de um ferimento simples como este. Ou acha que cheguei onde estou sem levar nenhum tiro? Vá ajudar a Haruno. Ela deve estar tentando salvar o Uzumaki.

— Sim, senhor.

Sem me perguntar, sem falar comigo, Itachi me obrigou a acompanhá-lo até a instalação que haviam erguido para ele. Assim que entramos, soltou-me, dirigindo-se até uma bacia com água e lavando o rosto e a mão repetidas vezes. Cansado, suspirou, apoiando-se na mesa de madeira. Ele retirou a parte superior da farda e massageou o pescoço, tomando fôlego para então se abaixar e pegar uma maleta branca.

— Sente-se e tire a blusa.

Fiz o que ele mandou, não só por ter uma bala presa ao meu ombro ainda, mas também porque sabia que, se negasse, levaria, com toda certeza, uma surra de Itachi como nunca antes.

Ele arrastou uma cadeira até mim, sentando-se à minha frente com uma garrafa de vodka e uma maleta de primeiros socorros.

— Segure. — Estendeu a garrafa.

Depois, abriu a maleta e retirou uma pinça, uma agulha e linha cirúrgica.

— Eu tomaria se fosse você. — Riu, sem humor.

Quatro goles e minha garganta ardeu, queimando tanto que quase me arrependi. Ao mesmo tempo, as mãos de Itachi tocaram meu ombro, senti a pinça entrar para buscar o projétil. Mais dois goles garganta abaixo.

— Prometi à sua noiva que te levaria de volta vivo — ele, enfim, voltou a falar, mostrando-me a bala ensanguentada.

— Não deveria prometer tantas coisas, nii-san.

— Prometi à sua noiva que te levaria de volta vivo para o casamento de vocês — enfatizou, retirando a garrafa de vodka das minhas mãos e virando-a contra minha ferida. — Em vez disso, quase levo o seu caixão porque você quis se sacrificar pelo seu amante?

— Naruto não é...

— O caralho que não é! — gritou, segurando-me pela nuca. — Ou acha que nunca percebi? Que nunca vi nada? Que não sei aonde vocês vão quando se afastam sozinhos? Acha que sou idiota? Por Deus, Sasuke, vocês são homens!

Prendi a respiração ao passo que meu coração acelerava. Itachi me soltou, voltando a despejar mais da vodka na ferida para esterilizá-la. A dor física não era tão digna de minha atenção quanto a revelação de Itachi.

Ele ficou em silêncio por alguns instantes, deixando-me com meus pensamentos e medos.

Anos antes da guerra estourar, quando nem sonhávamos com essa possibilidade, Naruto e eu éramos apenas amigos. Crescemos juntos, estudamos juntos. Corríamos na rua, fugindo dos garotos mais velhos que arremessavam pedras por termos roubado uma coisa qualquer deles ou por termos contado a seus pais que eles invadiram a doceria do bairro. Ele sempre ria, ficando na minha frente enquanto nos escondíamos, fazendo careta ao sentir as pedras atingi-lo. Naruto me protegia até mesmo da minha própria sombra. Não foi difícil me apaixonar, ainda mais quando tinha certeza que era recíproco. Contudo, reagimos de formas diferentes a isso. Enquanto fiquei com medo de meus pais, de minha família, Naruto entrou em pânico e mergulhou em culpa. Não havia como culpá-lo, é claro. Com dezessete, dezoito anos, não é de se estranhar que o tão bom garoto, aquele que para a fim de ajudar uma velhinha a atravessar a rua, que vai à igreja todo domingo, que trabalha desde cedo para sustentar a família, surtasse ao perceber que de nada valeria tudo aquilo se descobrissem que havia me beijado por livre e espontânea vontade. Assim, ele fugiu. Alistou-se no exército, mentindo na minha cara o motivo, dizendo que era pelo salário, para pagar os estudos do irmão mais novo, enquanto eu via, atrás daqueles olhos azuis, que era por pura covardia.

Orgulhoso, não contestei. Ri na época, com escárnio, socando-o com força a ponto de nossos amigos terem que nos separar e salvar-lhe a vida.

Como vingança, firmei relacionamento com Hinata, a garota que ele dizia amar antes, sabendo que meu irmão, por ser também do exército, lhe contaria uma hora ou outra. A reação de Naruto, eu nunca soube qual foi, mas não me importava, só queria que ele sofresse, que visse que, diferente dele, eu tinha futuro, seguia com minha vida sem me lembrar dele.

Os anos passavam lentos, mas, ao mesmo tempo, era como se escorregassem por entre meus dedos. Sempre ali, mas sem que eu conseguisse segurá-los. Meus pais se animavam com a ideia de um noivado, Hinata também. Ela não era ruim... Hinata era a pessoa mais bondosa que eu já havia conhecido, e não era tola. Nunca me perguntou se eu a amava ou me questionou sobre isso porque sabia a resposta. Mesmo assim, ela me abraçava com carinho, cantando baixo e rindo ao dançar comigo, tornando meus dias na ausência de Naruto suportáveis. Ela era uma excelente amiga. E nunca duvidei de que soubesse de toda a verdade.

A guerra chegou uma semana depois de eu pedi-la em casamento. Itachi estava em casa e foi ele que deu a notícia durante o jantar. Estava quieto, mais sério e mais adulto do que me recordava. Sua aparência parecia abatida, olheiras decoravam sua face, e pesar, sua voz.

— Parto na segunda. — Limpou a boca no guardanapo. — Solicitaram reforços ao norte. Nossas tropas foram requisitadas.

Minha mãe chorou, meu pai emudeceu, eu empalideci.

Não era a primeira vez que ouvíamos que reforços estavam sendo solicitados, que tropas de regiões distantes precisavam ser convocadas, que a guerra se perdia a cada dia que vivíamos em paz seguros em nossas casas distantes.

Ninguém conseguiu reagir àquela notícia. Itachi se levantou calmamente, sorrindo-me de leve, já conformado com a situação.

À noite, em meu quarto, sozinho, deitei-me no chão, olhando o teto e seu vazio. Não era apenas Itachi indo à guerra, eram todos, inclusive Naruto. Já fazia quase dez anos que eu não o via... Dez anos com um sentimento tão trancado dentro de mim que, naquele momento, meu peito doía como se um animal selvagem tivesse o abrindo, arrebentando as grades de sua jaula.

O ar me pressionava. Cada nova inspiração trazia-me de novo minhas incertezas e medos, meus sentimentos e angústias. Não se esquece um amor do dia para noite e não se ignora um amor quando se vê prestes a perdê-lo para sempre.

No dia seguinte, fui à casa de Hinata. Andamos pela praça, sentamos em um dos bancos de frente ao jardim e ela me sorriu, arrumando meu cabelo como gostava de fazer.

— Você vai, não é? — perguntou-me. — Com os outros... Com seu irmão. É isso que veio me dizer, não é, Sasuke?

Os olhos perolados dela estavam úmidos apesar de ver o esforço dela em não chorar. Concordei em silêncio, segurando as mãos dela entre as minhas. Abracei-a, deixando a cabeça dela repousar em meu ombro enquanto ela chorava baixinho.

— Me perdoe... — pedi, sincero, mas não sei dizer realmente pelo que me desculpava.

Na despedida, no dia em que partiríamos, ela não me implorou para que ficasse ou se agarrou a mim como muitas outras mulheres faziam com seus companheiros. Hinata sempre seria perfeita para alguém como eu... Ela apenas veio em minha direção, acariciando meu rosto e me abraçando com carinho.

— Fique vivo. Por favor, só isso...

Soltei-a, sorrindo de canto e concordando. Inclinei-me, selando nossos lábios de leve e ouvindo-a rir.

— Nossa casa é onde está quem amamos — ela sussurrou, arrumando meu cabelo e beijando meu rosto. — Lute sempre pela sua. Seja ela qual for.

Toda vez que me lembro disso, pergunto-me se Hinata se referia à nação, a ela ou ao meu segredo que, se fosse isso, eu não escondia tão bem.

Na divisão das tropas, das equipes de reconhecimento, dos tanques, das equipes médicas, fiquei, obviamente, na de Itachi. Meu irmão não aceitava de modo algum que eu tivesse me voluntariado tão repentinamente, sem treinamento algum, para uma guerra que já parecia mais que perdida. Por isso, supervisionava-me sempre que possível. Toda vez que me mandavam para alguma área que sabia que não teríamos sucesso em conquistar ou reconquistar, Itachi dava seu jeito de me substituir. E, numa dessas substituições, fui para o tanque.

Entrei, cumprimentando Gaara, o responsável por ele, sentando onde ele havia indicado. Eu ficaria responsável por uma das metralhadoras, e minhas mãos tremiam ao segurá-la. Pelo visor, devia, junto com um outro ao mesmo lado, identificar quando havia inimigos e abatê-los antes que fosse tarde.

— Hey! Treine o novato. Não quero morrer porque ele não sabe puxar o gatilho — Gaara mandou, referindo-se a mim, ao sair do tanque quando outra pessoa entrou.

Sentou-se ao meu lado... Sem me olhar, Naruto sentou-se ao meu lado de olhos fechados, com machucados pelo rosto.

Estava diferente do que me lembrava. A barba curta por fazer, a expressão abatida, o corpo mais definido pelos anos no exército. Ele respirou fundo, massageando os olhos para abri-los e me olhar.

A surpresa que encarei nele foi quase que palpável. A boca entreaberta buscava palavras, sem sucesso. Podia ver a confusão em sua mente, o choque de sentimentos no azul de seus olhos assim como tenho certeza de que ele viu a mágoa (e não só) nos meus.

— A munição fica aqui embaixo. — Balançou a cabeça, recuperando-se. — Quando precisar recarregar, você solta — Movimentou o pente. — E encaixa a nova. Só isso. Olhos sempre à frente e mate qualquer filho da puta inimigo que aparecer. Entendeu?

Imitei-o, refazendo os movimentos para recarregar a arma e vendo o ângulo de atuação que eu possuía para atirar.

— Sasuke...

— Ainda se lembra do meu nome — debochei, continuando a colocar e tirar o pente da arma.

— O que veio fazer aqui?

— Nosso país está perdendo, não é? Vim mostrar meu patriotismo — ironizei, vendo-o fazer uma careta com a resposta.

Naruto tamborilou os dedos na perna, umedecendo os lábios.

— Gaara é um bom líder. Não vamos morrer tão cedo enquanto ele estiver no comando do tanque. Suna — O nome do tanque. — é um veterano já.

— Alguém morreu para eu estar sentado aqui.

— Sim. Kankurou, irmão mais velho de Gaara. Ele... ele não suportou. Já estamos aqui há meses, Sasuke... Somos o último reforço que virá e ainda estamos perdendo. Ele se matou enquanto eu e Gaara comemorávamos após recuperarmos uma cidade ao sul.

Não falamos mais nada depois disso. O alarme soou, Gaara e mais um soldado entraram no tanque, gritando ordens, coordenadas.

— Invasão? — Naruto questionou enquanto o tanque se movia junto de outros três.

— Defender aliados à leste e, se possível, retomar a base que os filhos da puta pegaram ontem à noite — Gaara explicou. — Sem erros! Sem mortes! Sem derrotas! Quero cada um deles mortos!

Os demais vibraram, concordando, mas permaneci quieto, atento, sentindo minhas mãos tremerem e meu coração disparar. De repente, a mão de Naruto tocou a minha, retirando-a de sobre a arma e a apertando.

— Controle-se — sussurrou. — Sem dedos no gatilho. Um tiro desnecessário e entrega a todos nós de bandeja. Olhos no visor. Acalme-se. Sem erros, sem mortes, sem derrotas.

Aquele lema não podia ser mais verdadeiro. Gaara era uma pessoa direta, calculista e fria, um ótimo líder que fazia cada palavra de seu lema se tornar real. Assim que chegamos ao local, nós, os tanques, avançamos primeiro, protegendo os soldados atrás de nós. Pelo visor, puder ver uma criança correndo em minha direção com uma granada.

Atirei.

Era uma guerra. Estávamos perdendo. Mas ainda não tínhamos decaído ao nível de nossos inimigos para usar crianças em campo. Era uma aberração, uma crueldade sem tamanho e me doía cada tiro, cada vida delas que eu tirava, assistindo-as tombar e morrer sem nem ao menos ter vivido.

Assim que atirei, a atenção de todos voltou-se para onde eu olhava.

O confronto começara. Nem havíamos entrado na parte da cidade, e o canhão já disparava sob as ordens de Gaara. Naruto não piscava, atirando pouco, mas sempre certeiro. O barulho das explosões e dos gritos invadia minha cabeça, confundia minha mira e me deixava ansioso pelo fim daquilo tudo. Fim que não percebi quando chegou.

A mão de Naruto em meu ombro me despertou. Eu ainda mantinha a arma engatilhada, pronto para abater o próximo inimigo.

— Já acabou, Sasuke. — Ele tocou minhas mãos, desvencilhando meus dedos do gatilho. — Venha, vamos sair deste lugar. Recuperamos a base. Você precisa beber algo.

Ri, anasalado, batendo em sua mão para afastá-lo.

Beber? Ele achava que um copo de bebida iria me fazer me sentir melhor? Não. Haviam sido quinze crianças. Eu contara. Quinze crianças naquele inferno. Nenhuma bebida me faria esquecer daquilo.

Observei seus olhos, tristes, antes de sair do tanque e me afastar daqueles que festejavam tanto. Não, eu não precisava de festa. Um lugar isolado, o silêncio e o céu me bastavam, mas não era o que possuía à minha disposição. Em vez disso, uma casa abandonada, afastada de tudo, com móveis empoeirados e fotos de uma família que já não estava ali (talvez morta) foi o que me recebeu. A porta da frente estava arrombada, a sala, devastada. A cozinha era o que se encontrava em melhor estado e, assim, lavei meu rosto e mãos na pia para, então, arrastar uma cadeira, livrar-me da farda mais pesada e sentar-me.

Meu rosto, afundado em minhas mãos, deixava claro minha frustração, minha raiva, minha confusão. As mortes me atormentariam à noite, sabia que iriam. Suspirei, pesadamente, amaldiçoando-me por ter me voluntariado.

Por que o havia feito mesmo? Ah, sim, Naruto. Falando nele, não foi difícil saber que ele me seguia. Eu era tão tolo que sabia tudo sobre ele mesmo depois de tanto tempo e, assim, conseguia reconhecer o som de seus passos, o intervalo entre eles, o modo como ele respirava, baixo, tentando não chamar atenção.

— Você está bem? — perguntou e, pelo barulho da cadeira, soube que se sentava ao meu lado.

Não respondi. Mas meu coração acelerou. Quando dizem que ele é burro, não estão brincando. O maldito é estúpido, bombeando com maior velocidade, fazendo o sangue regar meu cérebro e as memórias que eu tinha de Naruto.

Minha boca secou quando a lembrança do nosso beijo surgiu. Os lábios dele eram macios e quentes, recebiam-me hesitantes e, contraditoriamente, calorosos. Meu corpo se arrepiou ao se lembrar como o dele parecia se encaixar tão bem nele, respondendo tudo em sincronia.

Ah, merda, Naruto...

— Gaara já comunicou à base principal de nosso sucesso e já deve ter avisado seu irmão de que está vivo.

Ele não parava de falar...

— Sasuke, você está bem? — Continuava a falar... — Precisa de algo? — Continuava a falar, mais e mais. — Sasuke, você....

— Cala a boca! — gritei, socando a mesa e o encarando ao meu lado. — Cala. A. Maldita. Boca. Inferno!!

Não sei o que se passou na cabeça dele, não tinha como saber. Ele bagunçou os cabelos loiros, trazendo a cadeira para mais perto de mim. Uma de suas mãos tocou a minha sobre a mesa de forma hesitante. Naruto me olhou de canto, tentando me fazer relaxar o punho cerrado para, surpreendentemente, entrelaçar os dedos aos meus. A outra mão foi até o pescoço, retirando o colar de dentro da regata preta.

Um colar barato, corda preta e pingente azul brilhante. Um colar barato que eu havia achado e roubado no quintal da casa do vizinho para presentear Naruto quando éramos adolescentes.

— Quer devolver? — debochei, soltando minha mão da sua e me levantando.

O ar pesou. Meu peito doía. Estava exausto, de corpo, de mente, de coração. Não era daquela forma tão patética e fraca que havia desejado reencontrar Naruto.

Ele correu, passando à minha frente e me impedindo de sair do cômodo.

— Sasuke, por favor, não... — pediu, suplicante.

— O que você quer, Naruto?

Por mais que queira dizer que fui ríspido, frio e orgulhoso, minha pergunta saiu quase como que rendição.

— Me desculpar. — Aproximou-se, tocando meu rosto. — Só isso. Me perdoe. Por favor, me perdoe.

As mãos dele tremiam, a voz vacilava, os olhos se enchiam de água, ele me ganhava. E, quando menos esperava, puxava-me para si, afundando os dedos em meu cabelo e a língua em minha boca.

Como eu esperava aquele beijo, como havia sonhado repetidas vezes com ele... E ali estava, tão de repente, tão sem explicação, tão ilógico, tão bom... Embora meu orgulho implorasse para que o afastasse, dando-lhe um mais que merecido soco, minhas mãos me desobedeceram. Elas agarraram o tecido da roupa dele, colando nossos corpos com urgência enquanto andávamos a esmo pela cozinha até um apoio qualquer. A geladeira antiga serviu. Minhas costas se chocaram contra ela enquanto a boca de Naruto explorava meu pescoço, chupando minha pele, marcando-a inconsequentemente.

As camisetas não demoraram a sair de nossos corpos. Minha ânsia por tocá-lo não deixaria que ele continuasse vestido por muito mais tempo. A pele bronzeada tinha cicatrizes, marcas de costuras e uma tatuagem ao redor do umbigo. Toquei-o, sem delicadeza, apertando a carne sob minhas mãos, suspirando com seu calor.

Ele suspirou, rente ao meu ouvido, esfregando o corpo ao meu. Beijava-o, tantas e tantas vezes que minha boca ardia pela falta de cuidado. Era quente como me lembrava, lábios macios que sugavam os meus antes de morder de leve. Suas mãos puxavam minha calça, colando nossas pélvis enquanto eu arranhava seus braços.

Não me segurei, não me censurei, beijei seus ombros, puxando seus cabelos enquanto o ouvia gemer baixo. Sorri, arfando ao toque de sua mão no cinto da calça. Sem me olhar, devorando minha boca, senti a calça sendo aberta e gemi quando meu membro foi tocado sem medo algum.

Empurrei seus ombros para baixo, indicando que se ajoelhasse a minha frente. Naruto entendeu de imediato, colocando minha ereção para fora da calça e da cueca e o manuseando. Endureci, a excitação e a adrenalina aumentando à medida que Naruto me chupava.

A língua cálida me envolvia, serpenteava pela glande. Os lábios contornaram a glande, chupando antes que eu resolvesse ditar o ritmo. Já havia perdido muito tempo, anos de minha vida à espera daquilo, não deixaria Naruto conduzir como bem quisesse.

Senti as mechas loiras entre meus dedos como tanto desejei, apertei-as, empurrando a cabeça de Naruto contra minha ereção, fazendo-o acelerar a sucção. Gemi, gemi com gosto, satisfeito por finalmente poder realizar aquilo.

Quantas vezes havia sonhado em fazer aquilo? Quantas noites perdi pensando em Naruto? Quantos banhos gelados tomei durante a noite? Quantas vezes mordi a língua para não gemer o nome dele enquanto me deitava com Hinata? Quanto me censurei por imaginá-lo no lugar dela?

Ele não merecia minha paciência ou meu cuidado, ele não podia me exigir nada! Não onde estávamos, não na situação que vivíamos...

Não me preocupei ao jogá-lo em cima da mesa e ele parecia esperar algo do tipo porque não reagiu quando abaixei sua calça. Ele me olhou, empinando o quadril e me puxando pelo pescoço para me beijar.

Doeu. Eu sei que sim. Sem lubrificação, sem preparo, sei que a penetração doeu. O arrependimento que senti não justificava a violência, mas me sentia vingado... E, por incrível que pareça, Naruto assentiu, como se entendesse que eu precisava feri-lo para compensar, erroneamente, a ferida com que ele havia me presenteado anos atrás.

As lágrimas de raiva escorreram pelo meu rosto, queimando a pele por onde passavam. Naruto se moveu, segurando minha mão, gemendo conforme o prazer assumia o lugar da dor.

Perdemo-nos naquele dia... Para sempre. Mergulhamos os dois tão fundo um no outro que nos afogamos, sem chance de volta. Os dias que se passaram depois desse episódio foram apenas a comprovação. Encontros escondidos, beijos furtados, sexo necessitado, urgente, desesperado, apaixonado.

Tomávamos cuidado, muito cuidado. Apenas uma pessoa sabia: Ino. Por algum motivo, ela foi nos procurar um dia e nos achou dentro do tanque, bem na hora em que eu rebolava sobre o membro de Naruto, gemendo com as estocadas e não deixando dúvidas sobre o que fazíamos. Surpreendentemente, Ino não foi contar ao meu irmão como achei que faria. Em vez disso, ela sussurrou:

— Uma dívida por outra, Sasuke — referiu-se ao início da guerra quando havia salvado a vida dela.

Ficamos mais cautelosos depois disso. A guerra avançava, havíamos perdido a maior parte dos territórios e, enfim, chegamos ao dia de hoje quando, finalmente, nossos inimigos decidiram atacar a última base perto da principal.

Os tanques já não existiam, todos destruídos. Gaara morreu com o dele na semana anterior. As tropas se dividiam para impedir a invasão, mas era impossível e, quando percebi isso, me desconcentrei. O tiro viria certeiro em mim se não fosse por Naruto se jogar na minha frente.

Sem erros. Sem mortes. Sem derrotas.

Um erro. Uma morte. Uma derrota. Era isso que Gaara deveria querer dizer com aquele lema porque, quando vi Naruto tombar, foi somente nisso que pensei.

E, agora, estou aqui com Itachi me encarando como se esperasse alguma resposta. A aliança em minha mão pesou assim que a atenção dele caiu sobre ela. Incomodado, escondi uma mão na outra.

— Sasuke! Sasuke! — Ino entrou correndo, sem se importar com a hierarquia e ignorando Itachi. — Sakura disse que é melhor você ir até ela. Agora!

Levantei-me. Itachi também, negando com a cabeça enquanto me segurava. Vacilei, baixando o olhar e brincando com o anel em meu dedo. Retirei a aliança, com cuidado, analisando-a antes de segurar a mão de Itachi e depositar o objeto ali.

— Desculpe, aniki.

Corri, deixando os dois para trás. Minhas mãos suaram e o medo caiu sobre mim como um véu negro. O céu nublado, escuro enquanto anoitecia, deixava-me com um mau pressentimento. Os feridos gemiam, choravam, gritavam, mas nenhum deles era Naruto e era só ele que me interessava.

Kakashi me avistou e me acompanhou até onde Naruto estava. Sakura se levantou assim que apareci, tocando o ombro de Kakashi e saindo com ele da enfermaria particular improvisada.

— Sua cara está péssima, Teme — ele sussurrou, parecendo fazer muito esforço para que as palavras saíssem.

Engoli em seco, aproximando-me. Sentei-me ao lado da cama, observando-o se mover para me dar espaço. Entendi e deitei-me de lado ali, próximo a ele, contendo a respiração ao notar a palidez de sua face.

— Você devia ver a sua, Dobe — respondi.

— Ah, eu to bem. — Forçou uma risada. — Não vou sair de perto de você tão cedo de novo, Sasuke.

Minha mão agiu por impulso, acariciando o rosto dele. Inclinei-me, selando nossos lábios lentamente. Ele sorriu. Estava gelado, e isso me fez segurar o nó que se formava em minha garganta.

— Não chore, Teme — sussurrou. — Por favor, você ainda é orgulhoso, lembra?

Concordei em silêncio, balançando a cabeça enquanto tentava não pensar no veredito à minha frente.

— Você me perdoou? Por ter fugido...? — ele questionou, fechando os olhos conforme eu passava os dedos por sua face.

— Sim.

— Eu te amo, Sasuke. — Abriu os olhos, fitando-me com tanto carinho que encostei minha testa à sua, respirando fundo para responder.

— Eu também te amo, Naruto.

Sorriu, abertamente. Reclamou de como Sakura era bruta, dos palavrões que falava enquanto o atendia e ria com tudo isso. Beijou-me, apaixonadamente, ao notar a falta da aliança em minha mão e se aconchegou ao meu corpo.

Ele não morreu naquela hora. Demorou. Demorou horas. Naruto morreu durante a madrugada, duas horas antes dos aviões inimigos sobrevoarem nossa base e começarem a bombardear tudo. Os gritos, a derrota, nada me abalava. Eu já estava morto, minha guerra já havia sido perdida antes daquilo.

Abracei o corpo inerte, deixando as lágrimas e os soluços se manifestarem. Minha mão foi até a arma presa na minha cintura, destravando-a.

Hinata choraria. Meus pais também. Itachi morreria comigo naquele bombardeio. O país seria dominado, conquistado. Não havia esperança. E, por isso, olhei pela última vez para aquele que tanto amava, lamentando o tempo perdido, agradecendo pela oportunidade de revê-lo e amá-lo como tanto desejei.

É, Naruto, o mundo não estava a nosso favor desde o começo, não é mesmo? Algo que havia começado tão errado não podia terminar diferente.

Permita-me corrigi-lo, Gaara, seu lema devia ser: um erro, duas mortes, uma derrota.

Sorri, meneando a cabeça, fechando os olhos e disparando um único tiro contra minha têmpora.

26 de Febrero de 2018 a las 22:09 3 Reporte Insertar 6
Fin

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Alice Alamo 23 anos, escritora de tudo aquilo em que puder me arriscar <3

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Black Black
Que história maravilhosa, ele realmente me tocou no final. Adorei a sua escrita e os sentimentos nela.
Samira Ramos Samira Ramos
Lindo , lendo e chorando. Ficou mt bom parabéns.
18 de Mayo de 2018 a las 07:36

  • Alice Alamo Alice Alamo
    Oii! Fico muito contente por ter gostado! Muito obrigada pelo comentário! Beijoss 22 de Septiembre de 2018 a las 18:45
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