zackyuchiha Zacky U.

"Sakura Uzumaki deveria estar satisfeita por pertencer a uma família rica em uma época caótica de fome e miséria. Seu país acabara de perder a guerra, mas nada a amargurava mais do que a sensação fria de ter morrido lentamente ao longo dos últimos anos, usando aquele sobrenome arranjado e se arrastando sem sentido ou vontade de um lado para o outro. Algo havia se apagado dentro dela há muito tempo, entretanto, com a chegada do inimigo em sua casa, ela sentiria reconforto na escuridão, encontrando bem mais do que o calor incandescente no escuro dos olhos e cabelos Uchiha, encontrando um porto seguro." História inspirada livremente no filme "Suíte Francesa". [ ItaSaku. | UchihaSakuProject. | Inimigos. ]


Fanfiction Anime/Manga Sólo para mayores de 18. © Todos os direitos reservados

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𝑪𝒂𝒑𝒊́𝒕𝒖𝒍𝒐 01


– Um marechal? – Sakura engoliu em seco. – Por que um marechal Uchiha viria impor presença em um vilarejo como o nosso?

– Nós basicamente perdemos, mas ainda deve estar havendo batalhas de resistência nos países maiores – Ino ponderou, também receosa com a patente do líder estrangeiro. Antes achavam que apenas tenentes estariam vindo marcar território, aguardando os últimos marcos da guerra acabar de vez, o que já era ruim o suficiente pois, mesmo entre a hierarquia mais baixa ainda eram soldados inimigos. Quanto maior o nível do guerreiro, seus feitos e habilidades, maiores seriam os cargos conquistados, era por mérito, não por tempo de servidão. Ao longo da história, alguns sobrenomes e famílias se destacaram internacionalmente, os sanguinários Uchihas da Folha eram tão famosos quanto o clã Kazekage da Areia. – Estão se certificando de que não forneceremos mais apoio e que não usarão nossas estradas para algum ataque suicida até Konoha ou Suna.

O país da Grama era consideravelmente inferior se comparado as cinco grandes nações, entretanto, quando estavam em guerra, se tornava uma aliada indispensável pela riqueza em plantações e pela sua localização geográfica estratégica. Faziam fronteira com o país do Fogo, ficando entre esse e o país da Terra, que sempre eram inimigos, não importava a era. O líder da vila da Pedra havia fechado negócios com a Grama no início, garantindo alimentação para suas tropas e um caminho direto até Konoha, a capital e o coração da oposição.

– Kushina terá um infarto quando eu lhe contar – Sakura comentou, sabendo o temperamento amargo e prepotente da sogra.

– Pelo menos assim você teria alguns minutos de paz – Ino zombou, conseguindo tirar um sorriso da outra. – Bom, é a desvantagem de ter a melhor casa da cidade.

– E vocês não terão que hospedar ninguém – comentou. Estavam em frente ao mural que ficava na porta da igreja, conferindo as patentes e os nomes dos oficiais que cada família seria obrigada a receber.

– Bom, é a vantagem de ter a pior casa. – Ino brincou sem humor. – É melhor assim, pra não ter perigo do Sai ficar... – limpou a garganta – Estressado.

O peito de Sakura apertou com a colocação. Ino Yamanaka foi a primeira pessoa com quem havia feito amizade desde que se mudara da capital para o interior, e quase a única se não contasse com a governanta da mansão onde morava, Shizune. Tornaram-se confidentes e irmãs com o passar dos anos... e dos danos. As marcas roxas no pescoço da melhor amiga, agora que estavam desaparecendo. Infelizmente, tudo que a loira poderia fazer era manter o gênio do marido sobre controle. Sakura não via razão para tanto ciúme dele, mesmo diante de toda beleza áurea que Ino carregava em seus reluzentes olhos azuis turquesa e pele clara. Quando chegou na cidade, a Yamanaka esbanjava longos e sedosos cabelos dourados que dançavam ao redor de seus quadris, mas, em uma das crises de Sai, acabou tendo os fios cortados enquanto dormia. Atualmente, depois que cresceram um pouco desde o fatídico episódio, batiam em seus ombros.

– Eu preciso ir! – Abraçou a outra, tristonha, colocando discretamente algumas moedas em seu bolso. Da última vez que Kushina soube que Sakura estava ajudando Ino com roupas, dinheiro e comida, ficou trancada em casa por semanas de castigo. A fofoca naquela cidade era de um nível absurdo, como se até os pássaros falassem mal uns dos outros. Enfim, Sakura quase enlouqueceu no isolamento.

Ino tinha um filho pequeno, inclusive por uma gravidez na tenra idade que foi obrigada a se casar com Sai, para que nem ela ou a criança morressem na sarjeta, fugir não era uma opção viável para elas, sem contar que estavam em guerra, seriam mortas facilmente no lugar errado e na hora errada. A capital havia sido reduzida a cinzas na última semana graças aos ataques aéreos, os sobreviventes correram para o campo e agora a cidade de Sakura sofria com superlotação. Ninguém do país tinha pra onde ir.

Após se despedir foi correndo até o carro, com a capa de chuva cobrindo o rosto jovem, pronta para voltar até o sítio com a carteira cheia; seu dia de cobranças até que havia sido produtivo, esperava muito que esse fato deixasse certa ruiva com o humor tolerável. Kushina Uzumaki, sua sogra e, na ausência do filho, a líder das linhas de produções da região, não possuía uma fama amigável, as pessoas não lhe olhavam com simpatia e com certeza não rezavam para que tivesse muitos anos de vida. Isso porque, mesmo em tempos sombrios como aqueles, a matriarca não abaixava o preço dos alimentos, ela poderia até vender fiado, todavia, tomaria sua casa, suas roupas, tudo que fosse preciso para que a dívida fosse quitada dentro do prazo combinado; era coisa rara ela estender o tempo de pagamento, alguns usavam a expressão “milagre” caso acontecesse. O prefeito a apoiava em tudo, com certeza recebia por fora para isso, de forma que o ódio a sua sogra acabava reverberando em Sakura de um jeito ou de outro. Era obrigada a fazer aquelas cobranças, pois segundo as palavras de Kushina, quando Naruto retornasse precisava encontrar uma esposa a sua altura, pulso firme, digna de assumir o império da família se um dia fosse preciso.

Na estrada para casa, Sakura deixou o motor apagar, travou no volante ao escutar os aviões chegando, no dia quase escuro, e indo em direção a cidade; a família Uzumaki morava um pouco afastada do centro. Era inevitável para alguém que viveu sob ataque se desesperar ao ouvir as turbinas sobrevoando acima de sua cabeça, eram sempre pilotos do lado deles, sempre deles. Morte e desespero usualmente acompanhavam aquele som, gritos por clemência, não eram memórias agradáveis. A adrenalina pelo medo de um jeito ruim a fazia se sentir viva, obrigava-a a constatar sua fria realidade, de como havia ido parar ali, de como sentia-se miseravelmente sozinha. Respirou fundo, tentando se concentrar no barulho da chuva fraca batendo sob o para-brisa, Sakura encarava seus próprios sapatos, sujos de lama. Talvez pela proximidade com o país da Chuva, o céu de seu vilarejo estava sempre chorando, exatamente como Sakura fazia agora, como fazia quase todas as noites antes de dormir. Inspirava e expirava com calma, buscando controlar a ansiedade e não pensar demais em como odiava sua vida.

Naruto parecia ser uma boa pessoa, não negava isso, entretanto, quando seu pai, Kizashi Haruno, a deu em casamento, foi unicamente pensando em sua sobrevivência. Moravam na capital e o clã Uzumaki, do interior, era um dos principais fornecedores de matéria prima, os conheciam de longa data. Muitos preferiram se manter céticos sobre as notícias de que uma guerra mundial se aproximava, e pagaram um alto preço por isso, mas Kizashi não estava disposto a arriscar a sua Sakura, ele agiria com antecedência e com prudência.

Não possuía filhos, ela era filha única, as propriedades da família passariam para o parente mais próximo já que não havia se casado; sua garotinha tinha apenas dezessete anos na época, estudava música, Kizashi gostava de pensar que tinham todo o tempo do mundo, queria vê-la brilhando e vivendo para si mesma até se apaixonar por alguém de verdade, e não apenas por negócios e alianças políticas como era de costume. Por ele ter sido escolhido como o tutor dos negócios pelo falecido pai, o clã Haruno estava sempre em contendas, seja na justiça, seja na contratação de bandidos para fazer o trabalho sujo por baixo dos panos, esse era o perigo de ocupar o tal almejado trono da empresa. O poder era uma maldição, na mesma proporção que poderia ser uma benção.

Em seu leito de morte, Kizashi sentia-se culpado, como se Sakura estivesse sendo obrigada a pagar por seus erros, ficando desamparada e à mercê de cobras. Se a deixasse nas mãos de seu próprio sangue, não saberia o que de pior poderia lhe acontecer. Quando a casou às pressas, sabia que o testamento não mudaria, pois, ironicamente, é considerado fraude um matrimônio arranjado de última hora apenas para atrapalhar a linha de sucessão na herança de uma família, entretanto, os filhos de Sakura seriam os próximos, e isso já recompensava um pouco o coração de Kizashi. Kushina era louca para ter netos e não perdeu a chance de garantir um aumento nas riquezas da família. Sakura lembrava-se amargamente da última vez que ela e seu coroa conversaram, foi como se o além estivesse lhe cobrando com juros todos os anos de alegria que desfrutou ingenuamente ao lado dele.

"Não chore, minha flor de cerejeira". Segurava a mão do pai, implorando para que não morresse daquele jeito.

"Não quero que vá com este sentimento pesando em seu peito, você não falhou comigo, me deu a melhor vida que consigo imaginar ter vivido até aqui. Por favor, descanse em paz!" Tentou convencê-lo de todas as formas.

"Você é a menina dos meus olhos... Eu prometo isso a você, pela minha alma, vou te procurar um lar, para que sejas feliz! Um porto seguro..." Sakura soluçou, sozinha em suas memórias, ainda com a cabeça escorada no volante do carro, remoendo as últimas palavras de seu pai: "Quero te ver sorrindo todos os dias, você foi como a estrela que iluminou a minha vida, obrigado por isso."

Gritou, sabendo que os vidros fechados iriam abafar o som do seu desespero. Vivia há cinco anos em um lugar onde era detestada, literalmente, as pessoas cuspiam no chão por onde passava, sinal constante de que não era bem-vinda. Viu o marido duas vezes, quando foram apresentados e assinaram a documentação na capital, teve que ficar ainda uns dias resolvendo as questões do funeral de seu pai; e quando chegou na mansão Uzumaki, ajudando Naruto a fazer as malas e a vestir sua farda, havia sido convocado pelo exército, a guerra já batia em sua porta.

Imaginava o sofrimento de Kushina, que perdera Minato, o amado esposo, na última guerra e agora era obrigada a entregar o único filho também, doando-o a um futuro incerto. Entretanto, sua gentileza não se estendia ao ponto de justificar como era maltratada pela sogra. Odiava-a. As décadas deixaram seu espírito apodrecido, e Sakura tinha medo de que a cada dia que vivia debaixo daquelas nuvens carregadas e angustiantes, também estivesse se decompondo por dentro, tornando-se tão escura e pegajosa quanto a lama que sempre sujava seus sapatos.

Talvez fosse a sina daquele lugar. Assim como o clima, talvez houvesse alguma força oculta refletindo no interior de cada morador da região, deixando-os amargurados... gélidos. O céu estava sempre desmanchando-se em chuva, em ressonância, o coração de Sakura estava sempre chorando.


[...]


– Não seja sonsa, Sakura! – Kushina esbravejou, fazendo Sakura bater o dedinho na quina da escada, mordendo a própria boca para aguentar a dor e não deixar a pesada bagagem sob seus braços caírem. Seria um problema seríssimo se quebrasse a lousa de porcelana passada há décadas de geração em geração dentro do clã. – Aí estou guardando os alumínios, não se mistura joio e trigo! – Revirou os olhos. Ah, claro, que grande catástrofe seria colocar os utensílios de porcelanato do lado das panelas de alumínio, onde serão guardadas e esquecidas sabe-se lá por quanto tempo o inimigo hospedado ficaria com elas. – Seu pai deveria ter investido seus dias com etiqueta e boas governantas, não gastando tempo e dinheiro tornando-a uma inútil dona de casa!

– Não abre a boca pra falar do meu otousan. – Sakura fez questão de fazer um certo barulho quando depositou a caixa valiosa sobre o chão, fazendo Kushina se virar imediatamente, levando a mão até o peito com os olhos arregalados. A HERANÇA DA FAMÍLIA! Sakura apenas arqueou a sobrancelha, séria. Suportava muita coisa, estava acorrentada e entrelaçada naquela situação de merda em vários níveis, mas sabia pisar firme quando sua sogra tentava ultrapassar o seu limite do inaceitável. Falar de seu pai era um desses limites, e não haveria moral ou religião que fizesse Sakura se calar ou recuar quando se tratava daquele assunto. Engolindo orgulho, não queria testar a inconsequência da nora, Kushina apenas fingiu não perceber sua rebeldia.

– Vá pentear esses cabelos bagunçados e se arrumar, você está horrorosa!

Música era perda de tempo. Não auxiliavam a mulher a ser uma boa esposa, uma boa mãe, e Sakura foi flagrada tocando escondida naquela tarde, era por essa razão que Kushina mostrava-se mais irritadiça com ela do que o normal, procurando bobagens para lhe chamar a atenção. A sogra escondia a chaves do piano toda semana, era uma afronta uma melodia bonita reverberando alegre pela casa enquanto seu filho ainda estava na pior, em guerra, era como se Sakura estivesse comemorando, zombando dela e do seu sofrimento.

Entretanto, do outro lado, as partituras e as notas eram o que mantinham Sakura sã e salva, evitando que sua mente sucumbisse a loucura. Ganhou aquele piano de presente quando era criança, ele era a ponte maciça e real que a ligava com seu passado, com suas melhores lembranças, com seu pai, era a prova viva de que um dia foi feliz, e era sua esperança de que um dia, talvez, voltasse a ser. A música era seu doce oásis, que a retirava, pelo menos por alguns instantes, daquela existência patética e a colocava em um mundo de sonhos.

Marchou em direção ao quarto, tentando não resmungar, indo trançar seu cabelo, pensando onde Kushina esconderia as chaves daquela vez. Com os anos a criatividade das duas tornou-se algo memorável, com a ajuda de Shizune, porém, Sakura sempre conseguia eliminar alguns cômodos da casa e perder menos tempo na caça ao tesouro. Resolveu trocar de roupas também, acabou sujando a blusa que estava vestida durante o empacotamento das coisas valiosas, isso porque a sogra preferia ver a casa inteira pegando fogo antes que um Uchiha colocasse as mãos ou a boca em um mísero dos seus estimados talheres de prata. Escolheu um vestido de alça simples, branco e estampado com flores vermelhas. Desceu com Shizune lhe gritando, o carro carregando o estrangeiro já podia ser visto cortando o horizonte.

– Não importa o que aconteça, você não olha pra ele, você não fala com ele! Até esse velho asqueroso ir embora, é inadmissível que ele se sinta sequer um segundo bem-vindo na minha casa. Você entendeu? – Respirando fundo, Sakura assentiu com a cabeça, estavam de costas na sala, aguardando a campainha tocar para Shizune então ir recepcionar o intruso. Sakura se perguntou se seria tão diferente assim o tratamento que o inimigo receberia para o que ela que, tecnicamente convidada a morar ali, recebia diariamente.

– Boa tarde, senhorita. – Escutou a voz grave do estranho ainda do lado de fora, ficando tentada a virar-se e encarar a novidade, mas sabendo que levaria um beliscão ou tabefe da sogra. Manteve-se quieta, sentindo uma certa adrenalina por todo aquele show que Kushina estava montando, era inevitável não se sentir nervosa, teriam que dividir o mesmo teto que o comandante das tropas que havia dizimado seu exército e matado seus homens. Parecia cruel terem que fazer aquilo, mas, bom, perder algo nunca foi sinônimo de coisa boa, e haviam perdido a guerra, agora era aguentar a humilhação. – Acredito que foram avisadas da minha chegada. Posso entrar?

Shizune não sabia bem o que esperar, mas educação e cordialidade não estava entre elas, até porque a situação de derrota era muito delicada, Konoha poderia até enxotar os moradores de suas casas para abrigar seus homens, exigir apenas hospitalidade era como se estivessem mostrando misericórdia. Abriu espaço, o convidando com a mão para adentrar na residência.

– Senhora Uzumaki, o marechal. – Kushina nesse ponto virou-se, seu semblante era duro e Sakura, de lado e ainda de costas, conseguia sentir toda a mágoa contida nos belos olhos acinzentados. Mesmo sendo uma bruxa, a sogra era uma ruiva, já de idade, muito bonita.

– Boa tarde, milady, me chamo Itachi Uchiha. Preciso apenas de um quarto e um escritório para trabalhar, prometo tentar ser o menos incômodo possível. – Qual seria a expressão dele em uma fala tão amigável? Estaria zombando ao fingir que não era ele quem mandava na cidade enquanto estivesse ali? Sakura não aguentou de curiosidade, e acabou virando-se para encará-lo, sendo prontamente cumprimentada quando o fez. – Senhorita. – O Uchiha abaixou levemente a cabeça, em reverência, entretanto, os olhos escuros se mantiveram fixos nos seus. Era verdade que os cargos no exército são conquistados por força, e não por tempo de serviço, mas para um marechal? Sakura, assim como Kushina, não esperava alguém tão novo, realmente se deixaram levar pela ideia de um líder mais velho, e agora o choque era evidente.

– Shizune irá lhe acompanhar até seus aposentos – Kushina respondeu, visivelmente desgostosa, e não era como se quisesse disfarçar mesmo. Para sua surpresa, a atenção do jovem havia sido totalmente capturada pela nora, que mirava distraída os próprios pés. Todavia, suas bochechas coradas revelavam que ela também tinha ciência em estar sendo constantemente fitada pelo inimigo.

Sakura sentia as mãos suando. O que ele estava fazendo? Não sabia que eram de lados opostos naquela guerra? E ela era casada! Sentiu o rosto esquentando. Por mais que só estivesse acostumada com os olhares de repulsa da vila, de desprezo da sogra, e por não se lembrar de como Naruto exatamente lhe encarava, não precisava de experiência para detectar malícia brilhando naquela íris sombria.

– Agradeço desde já. – Mesmo com o corpo paralelo ao de Kushina, respondendo-a diretamente, o olhar de Itachi ainda não havia abandonado a figura de Sakura, era como se estivesse medindo-a, anotando mentalmente os inúmeros detalhes que sua proximidade conseguia captar.

Kushina passou a fumaçar de ódio, era só o que lhe faltava! Tomou Sakura pelo braço e saiu arrastando-a até a cozinha, saindo da presença do estrangeiro sem cerimônias ou modos. Tinha noção de que era uma pessoa difícil, mas não sabia que pecado poderia ter cometido para Deus estar lhe castigando daquela maneira.


[...]


Alguns meses atrás...


– Tem certeza que não nos colocará em problemas? – Ino tentava rir o mais baixo possível, para não acordar o neném. Deixou a janela do quarto e a porta aberta para escutá-lo chorando caso acordasse, o chão sempre estava molhado mesmo, Sai não desconfiaria de nada. Sakura fugir do culto e aparecer na sua porta, encharcada pela chuva constante, com uma garrafa de vinho roubada da adega da sogra, chamando Ino para beber escondido era, no mínimo, cômico.

– Quando o padre tiver na última reza os sinos vão tocar, você sabe! Sairei correndo para o carro, a cobra fará seu sermão sobre como eu devo ficar na portaria por mais tempo para cumprimentar as pessoas e mostrar as joias da família; e seu marido voltará mancando a pé lentamente, dará tempo de você ir para o quarto e dormir de verdade ao invés de fingir! – Zombar da condição de Sai pelas costas dele poderia soar cruel, mas era a única vingança que o orgulho ferido de Ino poderia desfrutar, já que morria de medo de enfrentá-lo pessoalmente; sem contar que inúmeras vezes, não era apenas seu orgulho que saía machucado.

Se esgueiravam de mãos dadas para trás da casa, pisando em conhecidas poças de lama até encontrarem uma árvore alta, mas nem tanto, fácil de escalar, para conversarem em segredo e assistirem o espetáculo que era o céu noturno em uma cidade do interior, ainda mais no bairro de Ino, onde a iluminação era basicamente nula.

– Como foi essa semana? Ele te bateu de novo? – Sakura deu longos goles na boca da garrafa antes de passá-la para a amiga. Quando Ino deu à luz pela primeira vez, o neném nasceu morto, suspeitava que Sai a culpava por isso, e com certeza sofria de alguma negação estúpida já que era bem estranho dar o mesmo nome do primeiro filho para o segundo, como se o primogênito não tivesse existido. Isso com certeza doía na Yamanaka.

– Graças a Deus, não. – Ino suspirou realmente grata por ter aquela resposta e foi generosa na sua vez de beber. Apesar de sua crença ser real, amava o pretexto que o filho pequeno lhe dava para ficarem em casa. Entrar na igreja de mãos dadas com alguém que odiava, sorrindo e fingindo ser uma família feliz, que nada acontecia de errado entre eles, era a pior agressão que poderia suportar. Até porque toda a cidade sabia, o padre sabia, ela lhe contara no confessionário, só para escutar que deveria suportar tudo em paciência e amor até que o Senhor intervenha a favor dela. Os conselhos do reverendo para Sai entraram por um ouvido e escaparam pelo outro, além de lhe render um olho roxo por falar mais do que devia. Que grande vitória. – E a bruxa, alguma novidade essa semana?

– O de sempre: como sou uma inútil dona de casa, como minha educação foi perda de tempo e dinheiro, como eu deveria passar menos tempo tentando chegar ao piano e mais tempo tentando aprender com a governanta, como devo me preocupar em não desapontar meu marido quando ele retornar, blá, blá, blá...

– Que mulher ranzinza.

– Nem me fale. – Pegou a garrafa de volta, sentindo o álcool esquentando-a por dentro em contraste com a brisa gelada castigando sua pele. – Para onde vamos dessa vez?

Ino suspirou tristonha.

– Um cliente da floricultura comentou antes de ontem que o País do Arroz é o lugar mais lindo para quem gosta de flores.

– Lá é quente?

– A maior parte do ano, e o inverno, apesar de rigoroso, é curto.

– Então estamos saindo daqui no final do inverno, para quando chegarmos lá ter acabado e só precisemos nos preocupar com o frio no próximo ano.

– Eu vou fazer sucesso com minha estufa cultivando rosas nativas daqui, as casamenteiras me pagarão horrores pelo diferencial e pela novidade.

– Como teremos viajado em um caminhão que compramos quando vendemos a joias da família que roubei daquela naja... – começaram uma briguinha de tapas para quem deveria dar o próximo gole, Ino venceu. – Como eu ia dizendo, vou abrir um restaurante e tocar todos os finais de semana, será o melhor show da cidade, do país! Me colocarão nos cartões de turismo.

– Tudo certo com o roubo e o caminhão, sério, muito plausível, ninguém na vila suspeitaria ou te deduraria para a polícia, mas como você vai roubar sua casa depois voltar lá, tirar o piano, colocar na caçamba e fugir sem ser vista ou presa?

– Por acaso eu fiquei dando pitaco na sua estufa? As flores daqui murchariam no atraso da noiva e seu negócio seria o maior fiasco após a primeira venda.

Encararam-se por alguns segundos, sérias e fazendo bico de raiva, antes de caírem na gargalhada.

– Inferno! Mas eu ainda seria útil na área médica! Você sabe que meus conhecimentos são mais do que satisfatórios na produção de remédios caseiros. – Era verdade, foi a época em que ela e Sai mais tiveram dinheiro, mas aí a casa ou floricultura ficaram muito movimentadas e o ciúmes de Sai falou mais alto que sua barriguinha cheia e satisfeita todos os dias. Ele mal deixava Ino trabalhar na loja deles, só que aí passariam fome de vez.

– Sim! E... Bom... Eu poderia deixar o piano do papai para buscar depois... – Um aperto no coração de Sakura a fez ir baixando o volume da voz, a última palavra quase saiu num sussurro. Ino lhe estendeu o vinho, em solidariedade. – Mesmo com outros instrumentos, eu ainda seria uma estrela artística estrangeira. – Sorriu sem humor.

– Com certeza, e sua voz é linda! Não saberiam no que babar primeiro!

– A sua também! Tá afim de ganhar uns trocados aos finais de semana? Um extra no orçamento nunca é demais.

– Com certeza sim, pois precisarei pagar pelos melhores professores para Inojin, e suas roupas, sapatos, você sabe, meu filho viveria como um príncipe... – E não tendo sua vida ameaçada pela existência do próprio pai, ocultou essa última parte e então foi a sua vez de ganhar a garrafa.

– Ele já é um príncipe porque é filho de uma rainha. – Conseguiu melhorar o humor de Ino com o comentário meloso e alcoolizado. – Qual será nossos nomes dessa vez?

Sim, porque duas mulheres solteiras e pobres fugindo ou seriam mortas por bandidos na estrada, ou roubadas, ou queimadas por bruxaria, ou deportadas de volta para suas famílias, o que seria horrível também.

– Acho que Mei, em homenagem a uma rainha de verdade. E você?

– Acho que Tsunade, em homenagem a primeira Hokage mulher. – Verdade que por divergências culturais e religiosas a Chuva não se dava com a Folha, mas as notícias ainda corriam soltas por aí, ainda mais quando se tratava de política. – Sei que por aqui crucificam muito a situação, mas com certeza ela deve ser uma mulher muito corajosa. Talvez seja disso que a gente precise, coragem. Eu me sinto uma covarde morrendo aos poucos a cada dia que se passa aqui.

– Ou só estamos sendo prudentes, aguardando o momento certo. Inojin ficará mais velho naturalmente, seria mais fácil viajar com ele sabendo andar sozinho pelo menos. – Esse era o menor dos contras que elas tinham, mas já era alguma coisa. – Morrer à toa num gesto inconsequente mascarado de coragem não adiantaria nada também, Kushina viverá cem anos, não seria justo. Mas se você tiver uma oportunidade de ouro, não se reprima por minha causa.

– Do que você tá falando? Eu não te deixaria para trás! – Ino a abraçou depois de jogarem a garrafa vazia no mato. Zero consciência ambiental, mas aquela era a evidência de um crime que precisava ser apagado.

– Obrigada por vir hoje, eu realmente precisava desestressar e relaxar um pouco, ser eu mesma. – Sakura retribuiu o gesto, era o único afeto familiar que recebia desde que enterrou Hizashi para sempre e, céus, só Deus sabia como se sentia sozinha naquela mansão, apesar de na maioria das vezes estar rodeada de gente.

– Obrigada por sonhar comigo, quem sabe um dia essas estrelas não nos escutam, hein?!

– Te amo, testa de marquise! – Ino soluçou, é, ela estava bem menos acostumada a beber do que Sakura.

– Te amo, porquinha! – O badalar dos sinos da igreja quase as derrubaram da árvore.

– Oh, merda! Espera aí que eu te ajudo! Aquele bebê precisa da sua mãe viva! – Demoraram um pouco naquela descida, então quando Kushina chegou no carro acabou flagrando Sakura correndo na tentativa de alcançar o veículo antes dela. Sua desculpa foi que correu para mijar no mato já que o banheiro da igreja estava ocupado e não achou um arbusto perto com pouca iluminação para que não lhe vissem a vergonha.

Ótimo. O sermão sobre ser uma mulher do pântano com costumes grosseiros que envergonhariam o clã Uzumaki se estenderam por bem mais que a volta para casa. Mas Sakura, em silêncio porque se refutasse aquela demônia não calaria a boca tão cedo, considerou que tudo valeu a pena. Tinha uma amiga de verdade que a amava e que a entendia, responsável por lhe trazer um pouco de felicidade naquela miserável rotina de vida vazia. Com certeza, por Ino, sempre valeria a pena.


***

Notas finais


E vamos aos avisos!


• Plot inspirado livremente no filme "Suíte Francesa" (2014). A obra "Naruto" e seus personagens não me pertencem, entretanto, a narrativa dessa história sim. Fanfiction feita de fã para fã sem fins lucrativos.


• Essa capa linda foi feita pela @XxAfrodite foi uma surpresa maravilhosa ter esbarrado nesse talento dando sopa haha ❤️ (mais uma vez obrigado, ficou perfeita!)


• @NathBee, a fada que ilumina meu caminho no dia mais claro, nas noites escuras, obrigado pela betagem impecável e por toda a ajuda. Obrigado por me aturar! Você é demais, mulher! Você é proparoxítona! 😍


• A história está finalizada, então não é necessário preocupação com hiatus ou coisa do gênero, se não houver imprevistos estarei postando um capítulo toda segunda-feira! Espero que gostem, comentem, indiquem para os amigos, enfim, o pacote completo! 🥰

29 de Junio de 2021 a las 01:41 0 Reporte Insertar Seguir historia
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