brunadonde Bruna Dondé

Conversava com objetos inanimados e com vultos, que eram seus fantasmas insistindo em permanecer ali. Precisava de companhia, pois a própria já não era suficiente.


Drama No para niños menores de 13.

#conto #flashfiction
Cuento corto
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Lapso

Conversava com objetos inanimados e com vultos, que eram seus fantasmas insistindo em permanecer ali. Precisava de companhia, pois a própria já não era suficiente. Era quase impossível ficar parado em um único lugar. O apartamento 504 já conhecia todos os seus movimentos, o chão conhecia cada detalhe de seus pés sempre inquietos. Sentava no sofá. Deitava na cama. Abria ou fechava a janela. Acendia ou apagava as luzes. Seguia para o banheiro e olhava-se no espelho, o que via não era agradável. Fechava os olhos e cobria-os com as mãos, se pudesse arrancá-los naquele instante, o faria. Ouvia barulhos estranhos e acreditava estar sendo observado por algo ou alguém. Suas paranoias cresciam um pouco por vez. Não sabia mais o que fazer para encontrar a paz. Pensava diariamente em desistir. Nada mais lhe fazia sorrir, até reencontrar ela, que há tempos não via.

Não eram próximos, nunca foram, mas sabia que ao lado dela poderia ser ele mesmo. Mandou um áudio dizendo que precisava de ajuda para enfrentar o resto do dia. Pelo tom de voz dele, ela sabia que não poderia deixá-lo sozinho. Ele chamou, ela foi. Passaram duas noites inteiras juntos, sem dormir. Conversaram, ouviram músicas, jogaram, beberam, caminharam pelas ruas da cidade, tornaram-se cúmplices do que viveram e não esqueceriam. Depois de tudo, o sorriso dela ainda se abria quando ele sorria ao compartilhar tanto conhecimento reprimido. Naquele instante, falar e ser ouvido era a maior necessidade dele.

As horas passavam sem que notassem, foram felizes na maior parte do tempo, entre um desentendimento bobo e outro que logo resolviam. Ela se preocupava, mas ele insistia em mentir, dizendo que estava tudo bem. Era difícil compreender o que se passava na cabeça dele. Ela aceitava suas respostas vazias, mas queria ajudar de alguma forma. Queria puxar ele pra fora daquele ciclo de tristeza, solidão e fuga da realidade. Não sabia como. De repente, ele parecia grato pela presença dela, falava que ela estava vendo-o como ninguém nunca via. Ela ficava contente por saber que ele sentia segurança em se mostrar desse jeito... Sem roupas, sem máscaras. Ambos cobertos de confiança.

21 de Junio de 2021 a las 12:24 6 Reporte Insertar Seguir historia
6
Fin

Conoce al autor

Bruna Dondé Bebedora de café, escritora de histórias incompletas, fotógrafa, gateira, leitora (aceito livros de presente, sempre).

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Daniel Trindade Daniel Trindade
Adoro seus contos! Queria destacar a frase: "[...] falar e ser ouvido era a maior necessidade dele". Muitas vezes, é somente disso que precisamos.
July 11, 2021, 12:02

  • Bruna Dondé Bruna Dondé
    Obrigada pelo comentário, Daniel! Realmente, de vez em quando só precisamos disso, falar e ser ouvido. July 11, 2021, 12:46
Gustavo Machado Gustavo Machado
Então, conta para nós o problema dele hehe ou é segredo?
June 21, 2021, 20:09

  • Bruna Dondé Bruna Dondé
    Pode imaginar o problema que tu preferir. June 21, 2021, 20:14
Arnaldo Zampieri Arnaldo Zampieri
Gosto muito do detalhamento da tua escrita. Os detalhes são ricos e sempre é muito fácil entrar no ambiente das histórias e entender as emoções.
June 21, 2021, 12:56

  • Bruna Dondé Bruna Dondé
    Obrigada, Arnaldo! Teus comentários são sempre importantes e me deixam bem feliz, obrigada mais uma vez. 🙃 June 21, 2021, 14:11
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