amauri08 Amauri Matheus Abreu Malheiros

Assassinato. Medo. Pontos de vista. Uma investigação acerca de diversos homicídios sem respostas no Alaska, ganha um nova reviravolta que pode determinar o futuro de todos os envolvidos, principalmente de Susan, a investigadora. Diante dos sucessivos acontecimentos ficam os seguintes questionamentos: Qual é o limite para a confiança depositada em si mesmo? O branco da neve será capaz de esconder o vermelho do sangue?


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A neve caia

Já parou para pensar que, neste exato momento, alguém está preso num porão escuro, talvez acorrentado, com uma vasilha de água, um punhado de pão com as portas do mundo trancadas? Existiria algo tão horrível quanto isso?

A neve em fevereiro costuma cair a rodo no hemisfério norte do mundo, mas nada comparado à que caí no alvo estado do Alaska. Mais além dos subúrbios de Anchorage, aos pés das montanhas, onde existem grandes residências distantes duzentos metros umas das outras, a camionete seguia na noite escura. Um caminhão removedor de neve havia passado ali há duas horas, mas a estrada estava nua, como se ninguém a houvesse limpado. O tempo fatigava.

Num canto da estrada uma figura caminhava em meio à nevasca, encolhida e lenta, prestes a tombar com o menor dos ventos. Seu destino ainda parecia longe. A camionete parou e acenou para uma jovem mulher, ou é o que parecia ser. Suas bochechas vermelhas não recusaram a gentil carona, e o congelante vazio do percurso fora substituído pelo doce e quente banco da camionete. Os sorrisos eram imensos. De dentes brancos e amarelos a olhares inocentes e ansiosos.

O corpo da jovem mulher foi encontrado, se não me engano, oito meses depois. Enrolado num lençol; estava superficialmente enterrado à beira de um lago onde a neve e o gelo haviam derretido. A perícia mostrou que a moça não havia morrido há exatos oito meses, mas, sim, há dois, o que levantou a suspeita de que um maníaco a havia sequestrado por seis meses antes de matá-la.

O Alaska simplesmente parou. Era o terceiro caso de sequestro e morte nos últimos três anos. Todos sem solução e muito menos pistas de quem havia cometido tais atrocidades. Eram os crimes perfeitos e os jornais se gabavam disso.

O sinal abriu num cruzamento suburbano de Anchorage e os carros começaram a fazer seus trajetos corriqueiros. A neve do início de um novo inverno já caía nos telhados e nos casacos dos sempre apressados cidadãos. Ninguém se olhava ou cumprimentava. De puro e inocente só a neve que caía. À porta de uma residência, a investigadora Susan ouvia pacientemente e anotava com rigor em seu bloquinho tudo o que um homem dizia. Ao final, ela tocou o ombro dele como num abraço e entrou em sua viatura. Designada para uma missão que todos relutavam em aceitar, Susan parecia mais cansada a cada dia que passava. Seus horários no departamento de polícia foram se estendendo, as discussões em casa aumentavam e até sua lixeira parecia conter quantidades maiores de papéis amassados e copos de café amargo.

Houve um dia em que ela discutiu vorazmente com seu chefe, indo do ódio às lágrimas em instantes recordes. Aconteceu num parque onde diversas famílias brincavam na neve, deitavam, rolavam ou apenas se sentavam e apreciavam o espetáculo branco. Susan dizia que não aguentava mais, que não era para ela e que aquilo estava acabando com sua vida e com sua família. Até uma transferência ela cogitou. Parecia estar cansada do frio do norte e da incerteza rente à morte.

- Tire umas férias, Susan. Curta sua família e sua casa. Pare, olhe a neve cair e tenho certeza que voltará melhor e mais forte.

- E quanto aos casos, Philip? As vítimas sem paradeiro? O maníaco a solta?

- Nem tudo está ao nosso alcance, Susan, muito menos esse psicopata. Sinto em dizer que o desgraçado não comete um erro, nem deixa sequer um vestígio. Mas o homem não é perfeito, minha cara amiga, um dia haverá de pisar em falso, e, neste dia, estaremos lá. Por hora, fica a seu encargo o descanso. Deixe o trabalho com o departamento.

E se abraçaram amigavelmente enquanto começavam a falar de peripécias familiares. A fala de Philip não poderia ser mais verdadeira. Eram os crimes perfeitos e resolvê-los tornava-se cada dia mais difícil, beirando a impossibilidade. Os jornais, quando noticiavam, não deixavam de elogiar a mente por trás dos prodígios, bem como toda a inteligência e estratégia que envolveram a ação. A imprensa alasquiana sabia muito bem separar o joio do trigo. Susan, como uma boa ouvinte, acatou o paternal conselho e tirou alguns dias para si, na esperança de que o descanso trouxesse de novo o sorriso e a alegria a sua face.

O tempo na cidade não poderia estar melhor do que naqueles dias. A neve ainda caía, às vezes castigando os telhados e os secos campos, mas nada parecia tão confortável e seguro como aquela época. Susan havia viajado com sua família por três longas semanas e a paz pairava sobre Anchorage, do centro ao subúrbio. Se antes as investigações já eram atrasadas pela genialidade do crime, agora ela fora deixada completamente de lado pelo departamento.

Passado um mês, tão rápido como um piscar de olhos, o carro da família voltou para seu aposento cotidiano e, com ele, a casa foi novamente habitada pelos recém-chegados de férias. Aquele mês parecia ter recuperado toda a alegria familiar, pois nunca se tinha visto sorrisos tão largos e risadas tão altas. O quintal passou a ser usado corriqueiramente, e não só pelos dois filhos, mas pelos pais, que brincavam junto deles, comiam no gramado nevado e guerreavam entre si com bolas de neve.

A casa permaneceu feliz nos dias que se sucederam. Numa tarde fria e seca, Philip estacionou seu SUV na frente da residência e a adentrou. Sua afeição parecia muito alegre e ansiosa e o cachecol não escondeu seu sorriso amarelo. Ao sair porta afora, cerca de duas horas depois, ele parecia mais contente do que antes. Susan ficara no batente da porta e o velho, quando encostara a mão no carro, virara-se e exclamara:

- Estou muito feliz, Susan. É um passo gigantesco. Meus parabéns mais uma vez. Não vejo a hora de contar aos investigadores do departamento.

Naquela mesma noite, a nevasca assolou as ruas da metrópole. A escuridão tomara conta do céu, mas o calor que irradiava daquela casa brilhava e ofuscava a visão de qualquer sujeito que passasse. Susan parecia ter feito algo extraordinário.

Na tarde seguinte quatro carros foram até a casa levando uma dúzia de trabalhadores do departamento. Todos entraram e saíram felicíssimos, parabenizando Susan pelo tal feito, e ansiosos pelos acontecimentos que se sucederiam. Nada, nem ninguém poderiam negar que a investigação enfim dera alguns passos. E, pelo visto, longos passos. Susan estava cada vez mais perto de descobrir os “porquês” dos crimes de uma forma assustadoramente rápida e eficaz. Parecia estar na cola do responsável. Até a lixeira da casa denunciava o êxito da investigadora, pois diversos papéis, anotações, planilhas e relatos foram ao lixo. Tudo era questão de tempo.

Numa costumeira manhã fria, Susan deixou sua casa sorridente, rumo à parte oeste da cidade. Os sinaleiros rareavam com o distanciamento do centro e não era difícil perder de vista o carro preto da mulher em meio à branca imensidão. As casas foram se distanciando umas das outras, mais árvores e campos podiam ser avistados e o número de carros era muito menor, quando Susan entrou numa rua que dividia os limites de um parque e de algumas residências. O parque era enorme e compreendia espaços de caminhada e de mata fechada, sendo pouco visitado na época, pois fora ali que o primeiro corpo fora achado há três anos.

O carro preto de Susan estacionou na frente do parque e ela saiu segurando algumas folhas impressas num envelope e uma máquina fotográfica. Aquela visão denunciava seu feito. Ela havia descoberto. Em suas mãos estavam possíveis provas impressas junto ao instrumento onde ela refaria os últimos passos do assassino, ou os primeiros. Estavam nas mãos e na mente dela o futuro de Anchorage e, principalmente, o meu futuro.

Quando os papéis caíram ao chão e a mulher se abaixou para pegar, me adiantei freneticamente em sua direção. Tirei o revólver do bolso e, com uma coronhada na nuca, olhei-a desmaiar na minha frente. Juntei os papéis e os coloquei no banco do passageiro. Peguei a mulher nos braços, a coloquei no banco de trás e amarrei seus braços e um pano à sua boca. A camionete cantou pneus e correu varando a neve densa da estrada.

Quando chegávamos à minha propriedade na montanha, os gritos abafados da mulher serviam como um incentivo para prosseguir naquele trabalho. Eu estava apenas fazendo meu simples ofício. Ela deveria pagar pelo seu intrometimento em minha vida e por me fazer deitar nos últimos dias, inseguro e atribulado. Eu poderia não fazer o melhor dos serviços, mas estava sendo justo. Sempre era.

No mesmo dia usando apenas uma bala eu a matei e, enquanto limpava o sangue e lavava minhas mãos, tive a ideia de voltar ao carro e ver as provas que ela tinha contra mim. Quando as li, senti o coração pesar como nunca antes. A primeira folha era uma carta de demissão endereçada a Philip, a segunda era um exame médico que confirmava que Susan estava grávida.

Enterrei-a no quintal da forma mais simpática e piedosa possível. Finquei uma cruz na terra e fui dormir tranquilo, seguro de que tinha dado o meu melhor. Livrei-a do porão escuro, pois nada poderia ser pior que ele e esperava ansiosamente as matérias nos jornais do dia seguinte. A imprensa Alasquiana é mesmo de primeira qualidade.

8 de Junio de 2021 a las 18:00 0 Reporte Insertar Seguir historia
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Fin

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Amauri Matheus Abreu Malheiros 19 anos, Mato-grossense e estudante de Direito da UFMT. Imaginador mais do que escritor. Arrisco algumas palavras, e quando termino, só outras novas para me fazer pensar em outra coisa.

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