alexlorenzo Alex Lorenzo

A princesa Raven é a prometida do cavaleiro Luvith, favorito e sobrinho do rei. Num baile do castelo, o cavaleiro revela sua verdadeira face. O chacal é um conto de trama medieval que mostra o quanto é possível se enganar com as pessoas.


Cuento Sólo para mayores de 18.

#medieval #princesa #baile #violência #luta #conto #lenda #mito #cavaleiro
Cuento corto
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Raven e Luvith

No vale Drumphi, próximo ao castelo Garandir, existiam chacais. Peregrinos e grupamentos de soldados evitavam atravessá-lo. Muitos acreditavam que os chacais eram criaturas amaldiçoadas, pois são ladinos, astutos e certeiros. Então, quando a prometida de um homem o rejeitava, dizia-se que o ódio da rejeição o transformava em um chacal, e um dia, um dia, ele voltaria...


***


As comemorações do início da primavera eram inauguradas com um grande baile, com toda a nobreza presente. Todos participavam desse evento de classe, no entanto, as comemorações extrapolavam. No decorrer do baile, os jovens tornavam-se mais barulhentos, depois que os convidados mais velhos e as crianças saíam. A bebedeira aumentava. As brincadeiras envolviam beijos ousados e as danças ficavam estonteantes. Com a chegada da madrugada, casais fugiam para lugares ermos do castelo, galerias ou lugares fora do alcance das luzes das lamparinas.

Em certo momento, Luvith e Raven, ao passarem dançando por um corredor longo, depararam-se com um casal abraçadinho, de modo tão íntimo, que Raven apressadamente desviou seu olhar, porém Luvith levou-a para uma das galerias.

— Raven, você já me está prometida. Puxou-a para seus braços, apertando-a de encontro ao seu corpo. — Sabe o que desejo de você minha prometida esposa? — A boca do rapaz comprimiu a da moça. Quando ela se virou para respirar, retrucou baixinho:

— Não, Luvith, não e não.

Ele pôde perceber o pânico crescendo através das expressões do belo e simétrico rosto. Tentando manter-se calma acrescentou:

— Conformei-me com esse casamento, Luvith. Honrarei a vontade de meu pai, prometo-lhe. Mas não agora, não nesse lugar!

Luvith sentiu-se rejeitado, magoado. Nenhuma mulher o houvera recusado de modo tão veemente, pelo contrário, ardiam de desejo por ele. Ele já havia possuído muitas criadas, filhas de nobres conterrâneos e de esposas de estrangeiros que se hospedavam no castelo. Além disso, era o cavaleiro favorito do rei e agora a própria filha do monarca o rejeitava?

— Dê-me um tempo. Esta noite não. Não estou preparada.

— Você é minha prometida esposa, por que foges de mim como se eu pretendesse violá-la?

— Sempre me disseste que jamais me machucaria ou magoaria, mas isto só é válido quando concordo com tudo aquilo que pretende de mim?

— Quero antecipar nosso casamento.

— Não, de forma alguma. Preciso estar preparada e durante este período vou conseguir.

— E se seu pai mudar de ideia? Seu irmão pode envenenar a mente dele contra mim e o rei pode mudar de opinião e entregar-te para o favorito de seu irmão. Arzur nutre paixão doentia por ti, bem sabes disso.

— Como ousas dizer algo assim de meu irmão! O príncipe Justin, e seu protegido Arzur jamais tramariam contra mim? — A ruiva de olhos verdes indagou furiosa, percebendo que o último nome que pronunciou ativou as reservas de raiva do moreno de olhos castanhos.

— Veja só como se preocupas com a dignidade dele, daquele falso e covarde!

— Não se refiras dessa maneira ao gentil cavaleiro de Garandir! A polidez e a inteligência dele sempre te incomodou! Seu ciúme é incabível! — Protestou com veemência.

— Falarei como bem entender e não será uma mulher que me proibirá de fazê-lo!

— Luvith, você está bêbado. Quem fala é o vinho. Por favor, retire-se.

— Não pode falar assim comigo!Sou o sobrinho do rei, cavaleiro condecorado, futuro general de seus exércitos.

Um breve silêncio seguiu-se, parecia que Luvith recobrava sua compostura, mas seus pensamentos o entorpeciam: “Como ousa ela recusar-me?” Não seria rejeitado como fora pela sua mãe ao nascer, aliás, mulher nenhuma o ignoraria. Ele não cederia aos caprichos de uma jovem que fora mimada por toda a vida. Luvith a teria nem que fosse à força. Num movimento brusco, arrastou a delicada e esbelta princesa para uma galeria mais isolada e iluminada por poucas lamparinas. Novamente, comprimiu seus lábios com o dela, ignorando sua luta. Uma mistura de raiva e desejo dominava cada parte de seu corpo. Ela debatia-se em seus braços, num pânico crescente, excitando-o cada vez mais.

— Luvith, não... Oh, por favor, por favor...

O moreno a manteve presa espremendo-a de encontro à parede, sabendo que a força que exercia em seus pulsos dominados a estava machucando.

— Então, vamos para o meu quarto! Não me obrigues a forçá-la!

Ele queria que ela o desejasse ardentemente do mesmo modo que ele a almejava, porém a princesa estava ali, brigando e debatendo-se. Já que ela não cooperava, ele começou a rasgar seu vestido de gala sob os gritos da princesa.

Uma mão pousou sobre o ombro do rapaz e afastou-se em seguida.

— Luvith, você está embriagado, completamente fora de si. — Arzur fitou-o consternado.

— Vá para o inferno, seu tolo!

— Fui criado com Raven desde os oito anos e não admito que faças isso com ela, sequer tem seus direitos como marido, pois ainda não estão casados. Não permitirei que ela seja violada.

— Pensas que não sei sobre você e meu primo? O que acha do rei saber que seu filhinho Justin não dará a ele um herdeiro legítimo por não se importar com as mulheres. Ao contrário dele, me importo muito, minha virilidade é conhecida em todo o reino. Eu deveria ser filho do rei George, não aquele fraco!

— Suas palavras refletem loucura. Pensei que todos nós fôssemos unidos pelos laços do amor fraterno, mas pelo jeito, enganei-me ao seu respeito. A bebida é às vezes reveladora...

— Vá para o inferno! — Luvith atirou-se com violência contra Arzur de punhos fechados, derrubando-o e sentado em seu tórax, socava-o no rosto.

Atraído pela gritaria da irmã, o príncipe Justin localizou-os e agarrou o agressor por trás, fazendo um movimento para cima.

— Não, você não fará isto, Luvith! — Ele conseguiu imobilizar, por instantes, o agressor.

— Ela é minha prometida esposa... não tem o direito de me rejeitar. Acho até que ela estava gostando, antes de vocês chegarem e atrapalhar nosso romance. — Luvith riu, bêbado e fora de si, instigado pelos seus impulsos mais primitivos.

Justin não conseguiu mantê-lo imobilizado e acabou liberando-o, mas falou com toda força: — Seu bastardo desgraçado!Tentando conseguir pela força aquilo que não consegue com sedução e consentimento!

Luvith enfureceu-se ao ouvir ser chamado de bastardo. A verdade é que seu falecido pai, irmão do rei, teve um caso de paixão com uma criada e Luvith foi fruto dessa aventura. Nada o fazia sentir-se mais humilhado do que ser chamado de bastardo, principalmente quando a palavra saía da boca de seu primo Justin. Luvith arrancou o punhal da bainha.

— Você, seu sodomita maldito, não se atreva a proferir essa palavra.

— Não! — Arzur,que se recobrava dos socos que levou no rosto, agarrou o pulso de Luvith. — Estás ficando louco? Desembainhando um punhal diante do príncipe e ameaçando-o? Perdeu completamente o juízo!

— Solte-me, seu nojento, amante de rapazes! Vão se arrepender! — Luvith arremeteu um golpe em Arzur que conseguiu esquivar-se e atracou-se com ele. Ambos caíram no chão, rolando; o moreno tentou feri-lo, enquanto o jovem ruivo esforçou-se para imobilizá-lo. Arzur deu um golpe, procurando jogar o punhal para o lado, na intenção de meter o joelho entre ele e a lâmina da arma de Luvith que já descia. O protegido do príncipe apostou toda sua força contra a mão que segurava o punhal e conseguiu rasgar a carne do braço de Luvith. Aproveitando a direção do próprio golpe, o protegido do rei pode redirecionar o punhal até cravar fundo na coxa de Arzur, bem próximo à virilha. Ele gritou de modo estridente, sentindo a perna amortecida. O príncipe Justin, que inicialmente teve forças para imobilizar Luvith, sentiu-se impossibilitado e temeroso de confrontar-se com ele depois que viu o punhal.

Diante do estardalhaço, doze guardas do rei chegaram e separaram os confrontantes. O olhar da donzela não era só de pavor, mas também de nojo. Raven tinha reservas quanto ao seu primo, a verdade é que Luvith tratava as mulheres com certo desprezo, escárnio e superioridade, embora fosse considerado por elas o rapaz mais atraente do reino. Os guardas imobilizaram Luvith que foi trancafiado em seus aposentos até que o evento chegasse aos ouvidos do rei e ele julgasse o desastroso ocorrido.

Poucos dias se passaram, uma decisão urgente deveria ser tomada dada a repercussão do malfadado baile. O dia chegou em que ele estava no salão principal diante do monarca.

— Muito bem, Luvith Von Dharrimel, o que tens a dizer em sua defesa? — Perguntou o rei George com uma expressão de decepção e indignação.

— Meu rei e senhor, Vossa Majestade me promoveu no exército como oficial superior pelas minhas qualidades como soldado. Lutei ao seu lado e o livrei de uma possível morte quando coloquei meu corpo entre uma flecha encomendada para o senhor. Trago em meu corpo a cicatriz dessa façanha depois de agonizar por meses, ardendo em febre, entre a vida e a morte.

O rei George abaixou a cabeça. A verdade é que seu sobrinho era capaz de dar a própria vida pela do rei. O tio o educara como a um filho.

— Jamais agrediria meu primo e herdeiro do trono e o protegido dele se não estivesse sob o efeito do vinho forte.

— Estás mentindo. Sempre quis tomar meu lugar. Suas palavras foram claras, o vinho a revelou. — Interrompeu o príncipe Justin.

— Diga-me! Retirou seu punhal em direção ao meu filho?

— Sim, meu senhor, eu o fiz movido pelo ímpeto.

— Então, Arzur interveio.

— Sim, meu rei. Nós nos atracamos e eu o feri.

Com um gesto o rei mandou trazer o cavaleiro.

— Veja, Luvith.

Arzur entrava amparado por um cajado prateado.

Fez-se um grande silêncio no salão principal.

— Eis, a consequência de sua bebedeira. Além de tentar violar minha filha. O jovem cavaleiro a sua frente jamais poderá andar novamente sem amparo. Sua perna está dura como pedra.

Luvith ainda não sabia disso e ficou penalizado com a situação daquele em que outrora chamava de amigo e com quem cresceu junto.

— Lamento. Sinceramente lamento. — Luvith evitou encarar Arzur.

— Ter salvo minha vida — o rei começou a pronunciar a sentença — não lhe dá o direito de querer possuir minha filha à força.

— Ela é minha prometida. Não tinha o direito de recusar deitar-se comigo.

— Ela era sua prometida, não é mais.

— Como rei, sabes que não podes voltar atrás em sua promessa, empenhou a sua palavra tem que cumpri-la.

— Basta! Sua presunção me impressiona! Ajoelhe-se para ouvir minhas razões e minha sentença!

Luvith ajoelhou-se diante do rei.

— Um noivado não é um casamento e por isso não podes obrigá-la a deitar-se com a noiva. Sua atitude foi de transgressão ao querer forçá-la, ao ameaçar o príncipe herdeiro e lesar definitivamente um honrado cavaleiro do reino. Então, eu o sentencio ao exílio por sete anos. Viverás de sua espada. Como o chacal, a solidão será sua companheira. Viverás escondido durante o dia e à noite terá que buscar alimentos fora das terras desse reino.

— A sentença é pesada demais! Isto é injusto, meu senhor! — Luvith sentiu-se ultrajado, esperava perder sua posição na corte, mas ser banido e ser comparado a viver como chacal para as pessoas daquele reino, soava como uma maldição.

— Se você tem idade suficiente para se comportar como homem e, acrescente-se, homem depravado; pode muito bem suportar a sentença. Estimei-lhe como filho e quando cresces vejo que não passa de um chacal mordendo meus calcanhares! Dou-lhe três dias para partir para o exílio e se for visto vagando em nossas terras, terás a sentença de morte!

O silêncio absoluto do salão parecia palpável. Luvith ergueu-se com o rosto ardendo de raiva.

— Não me verás nem daqui sete anos, ou sete vezes sete! Que os deuses nos permitam que nos encontremos frente a frente numa batalha quando estiver protegido por apenas esse seu filho fraco!

Luvith olhou pela última vez para Raven que desviou o olhar. Jamais imaginaria ser rejeitado daquela forma. Seu orgulho fora completamente destroçado e em seu coração nasceu o ódio.

— Partirei, pois não tenho alternativa. O senhor comparou-me ao chacal, pois então serei um. Durante todos os dias, no decorrer de sete anos, esse castelo sempre ouvirá o uivo do chacal, um grito longo e estridente como se fosse de um homem que sente uma dor inimaginável. Então, os olhos de Luvith procuraram os de Raven que sentiu um tremor por todo o corpo — voltarei e a terei, quer ela queira ou não.

Girou sobre os calcanhares, abandonou o salão e as portas fecharam-se atrás dele.


***


Durante as noites de primavera, no castelo Garandir, por todo vale de Drumphi, ouvia-se o som abismal de um coro de chacais. Para as crianças, nos aposentos ou em volta das fogueiras, era contada a história do sobrinho do rei que se transformou num chacal e que um dia retornaria para assenhorar-se da princesa Raven...

20 de Mayo de 2020 a las 23:40 0 Reporte Insertar Seguir historia
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Fin

Conoce al autor

Alex Lorenzo Olá, sou o Alex. Carioca. Amante de literaturas, com desvios de predileção por fantasia medieval. Curto novelas de ficção científica, com distopia, melhor ainda. Viajo por contos de quaisquer modalidades, seja estilo Stephen King, seja Machado de Assis. Escrevo por terapia, por amar. Nas horas vagas, desenho. Meu sonho é desenhar meus próprios personagens. Bom, se quiser conversar, sugiro uma xícara de café com biscoitos amanteigados. Abraços!

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