zephirat Andre Tornado

Um dia de mudanças, de novos caminhos – mas será que existem novos caminhos por percorrer? E valerão a pena? Tantos anos depois, a certeza de que já se experimentou o melhor momento da vida é cada vez mais funda. Mas existirão dias diferentes, mais dias, outras maravilhas. O amor é intemporal, eterno e não conhece dimensões.


Fanfiction Anime/Manga For over 18 only. © Dragon Ball não me pertence. História escrita de fã para fã.

#épico #Daylight #Maroon5 #Anunks #amor #fim #O-Medalhão-de-Mu #A-Dimensão-Z #O-Livro-de-Magia #continuação #dragon-ball #saga #A-Ultima-Viagem #O-Feiticeiro
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Capítulo único


Entrada no meu diário, data: novembro 2017


Hoje foi um dia de perdas e pus-me a pensar.


A pensar se alguma vez teria agido sem refletir e sorri. Muitas vezes! Tantas e tão maravilhosas vezes!


Limpei a cara com as mãos, passagens rápidas que me molharam os dedos de lágrimas. Ora bolas!, estava a chorar… Senti-me fraca, cobarde, vazia. Entrei rapidamente dentro do carro, sentei-me ao volante, fechei a porta – mais devagar do que esperaria. Foi mesmo muito lentamente, como se aquilo pesasse uma tonelada e o meu braço se esforçasse por fazer aquele movimento. A porta do automóvel fechou-se com aquele estalido no limite. Se utilizasse menos energia, o trinco nem sequer entraria na respetiva ranhura e a porta ficaria mal fechada, ou meio aberta, a trepidar se arrancasse e me fizesse à estrada. Mas consegui fechar a porta e fiquei protegida do exterior, dentro da carroçaria do carro.


Eram pensamentos incoerentes e completamente estapafúrdios, porque eu simplesmente queria afastar o mundo de mim. Mais prosaicamente, a realidade. Não queria estar ali, naquele momento, a experimentar o buraco que se abrira em meu redor.


Enfiei a chave na ignição, coloquei as mudanças em ponto-morto para ligar o motor, para carregar no pedal da embraiagem, meter a primeira, carregar no pedal do acelerador e sair do estacionamento, mas não conseguia mexer-me para que essa sucessão de gestos me levasse dali, onde me sentia mal.


Aliás, eu sentir-me-ia mal em qualquer sítio.


Para com essa autocomiseração, Ana!”, exigi zangada. “Tu já salvaste o universo!


E sorri.


E quem me visse sorrir, acharia que eu parecia louca.


Esse tempo de ser doida varrida já tinha passado. Como todo o tempo se tinha escoado através de um funil para um contentor estreito, semelhante a uma garrafa magra onde mal caberia qualquer líquido, quando mais a vida de alguém composta por todo o seu tempo. Tudo fechadinho nesse recipiente que, apreciado por olhos alheios, haveria de ser miseravelmente insignificante. Será só isto? Sim, é mesmo só isso que nós somos gota ínfima num imenso oceano. Uma luzinha pequenina num céu cheio de estrelas.


Lembrei-me do vocalista dos Linkin Park e fiquei ainda pior…


Encostei a cabeça no descanso do assento e fechei os olhos.


Ouvir música seria uma boa ideia e, de pálpebras cerradas, como conhecia bem o espaço onde me encontrava, levei a mão à chave e rodei apenas uma vez. O autorrádio acendeu-se. Estava no canal habitual que eu escutava quando ia e vinha do meu emprego e deixei ficar. Passava boa música naquela estação, canções modernas mas também algumas mais antigas, sucessos de que toda a gente se lembrava e ainda gostava.


Era o peso de todos os acontecimentos, refleti amargurada. Talvez o dia tivesse sido mal escolhido, mas já estava escolhido havia mais de um mês e ninguém adivinharia que aquilo iria acontecer.


De manhã, nas notícias que recebia no meu telemóvel, li que a atriz de dobragem japonesa Hiromi Tsuru, que fazia a voz de Bulma de “Dragon Ball”, tinha sido encontrada morta no seu carro na noite anterior. A polícia ainda a levara ao hospital, mas não havia nada a fazer.


Bulma…


Pus-me a pensar enquanto lia a notícia se o desaparecimento de Hiromi Tsuru implicaria alguma coisa na Bulma “verdadeira” que eu tinha conhecido quando estivera na Dimensão Z, havia mais de vinte anos.


Ah, vinte anos… Outro lastro no meu cérebro. Já se tinha passado tanto tempo, Ana? Sim, já se tinha passado esse tempo todo, mas metido na garrafinha não era mais do que um pequeno sopro. Um novelo de fumo. Seria assim o tempo? Uma matéria gasosa, esbranquiçada, com que se podia encher uma garrafinha?


A Bulma teria sentido o fim da sua “voz”? Teria colocado as mãos no pescoço, aflita, a sacudir a cabeça, incapaz de falar? E depois nunca mais falaria em japonês. Noutra língua qualquer, mas nunca mais nesse idioma… Na verdade, isso não importava, pois na Dimensão Z não havia japonês, nem inglês, nem português, nem francês. Só existia a língua de lá. Então, Bulma não devia ter sentido nada. Nadinha de nada. Prosseguiu com a sua vida nessa dimensão longínqua como se nada fosse, porque realmente, nada foi.


Por isso, não valia a pena que me estivesse a afligir dessa maneira.


Respirei fundo. Continuava de olhos fechados.


Hoje tinha assinado o meu divórcio. Finalmente o meu casamento com o Luís foi dissolvido. Os filhos estavam crescidos, nesse departamento não aconteceu qualquer confusão. O Tiago estava com vinte anos e a Isabel, com dezassete. Na verdade, os miúdos acabaram por ter voz ativa nas visitas a fazer e com quem queriam morar. Os dois escolheram-me a mim, a mãe, obviamente, mas avisaram-se que queriam ir ver o pai todos os dias da semana e quando eles quisessem, não coloquei objeções e o Luís adorou essa decisão, desde que não afetasse a minha rotina diária. Não afetaria. As partilhas também foram feitas amigavelmente e ficou tudo arranjado antes da parte burocrática da coisa, o que também foi um alívio. Não suportaria que o divórcio tivesse sido litigioso, não teria paciência para lutar por o que quer que fosse. Não me apetecia remexer numa situação que já se tinha esgotado havia algum tempo.


Estava a sair do tribunal onde acontecera a sessão que me devolvia à vida de mulher independente, sozinha e disponível e estava agora dentro do carro.


Tinha ido ali apenas para assinar os papéis. Coisa simples. O encerrar natural do que eu, o Luís e os nossos filhos, o Tiago e a Isabel – bem, o Tiago não era filho do Luís, mas esse pormenor nunca foi chamado para o caso, nem sequer invocado por ninguém – tínhamos vindo a preparar nos últimos três meses. A derradeira tarefa daquela família.


Mas subitamente senti-me pesada e culpada.


Não soube definir se fora por causa do desaparecimento prematuro de Hiromi Tsuru, se por causa do dia que estava bonito e radioso, se por causa de todo o silêncio que me envolveu.


Havia ali algo de profundamente errado.


Respirava devagar, na escuridão.


Nisto, uma canção…



Here I am waiting, I’ll have to leave soon

Why I am holding on?

We knew this day would come, we knew it all along

How did it come so fast?


Aqui estou eu à espera, terei de me ir embora em breve

Por que estou a aguentar-me?

Sabíamos que este dia chegaria, sempre o soubemos

Como foi que chegou tão depressa?


This is our last night but it’s late

And I’m trying no to sleep

Cause I know, when I wake, I will have to slip away.


Esta é a nossa última noite mas é tarde

E estou a tentar não adormecer

Pois sei, que quando acordar, terei de desaparecer.


And when the daylight comes I’ll have to go

But tonight I’m gonna hold you so close

Cause in the daylight we’ll be on our own

But tonight I need to hold you so close.


E quando a luz do dia chegar eu terei de ir

Mas esta noite vou abraçar-te perto de mim

Pois com a luz do dia vai cada um para o seu lado

Mas esta noite preciso de abraçar-te perto de mim.


Here I am staring at your perfection

In my arms, so beautiful

The sky is getting bright, the stars are burning out

Somebody slow it down


Aqui estou a contemplar a tua perfeição

Nos meus braços, tão linda

O céu está a clarear, as estrelas estão a desaparecer

Alguém que abrande isto.


This is way too hard, cause I know

When the sun comes up, I will leave

This is my last glance

That will soon be memory.


Isto é demasiado duro, pois eu sei

Que quando o sol nascer, eu irei embora

Este é o meu último vislumbre

Que em breve será recordação.


And when the daylight comes I’ll have to go

But tonight I’m gonna hold you so close

Cause in the daylight we’ll be on our own

But tonight I need to hold you so close.


E quando a luz do dia chegar eu terei de ir

Mas esta noite vou abraçar-te perto de mim

Pois com a luz do dia vai cada um para o seu lado

Mas esta noite preciso de abraçar-te perto de mim.


I never want it to stop

Because I don’t wanna start all over

I was afraid of the dark

But now it’s all I want.


Nunca quis que terminasse

Porque não quero recomeçar

Tinha medo do escuro

Mas agora é tudo o que quero.


And when the daylight comes I’ll have to go

But tonight I’m gonna hold you so close

Cause in the daylight we’ll be on our own

But tonight I need to hold you so close.


E quando a luz do dia chegar eu terei de ir

Mas esta noite vou abraçar-te perto de mim

Pois com a luz do dia vai cada um para o seu lado

Mas esta noite preciso de abraçar-te perto de mim.



Como era possível? Uma canção... Uma simples canção conhecer o que o meu coração escondia?


Uma canção que cantava a nossa despedida. Minha e de Trunks. Trunks e eu. Lindo, amargo, sublime mas terrivelmente penoso.


Vinte anos. Só que eu lembrava-me. A cena tão nítida… Como se tivesse sido ontem. Como se fosse um filme na minha cabeça que eu nunca quisera rebobinar na sua extensão total.


E a canção fizera-me lembrar. Os detalhes, vívidos. As palavras, exatas. O toque… Havia o mesmo toque na minha pele. Pedaços dispersos que me assombravam e eu torcia-me, enquanto me lembrava.


Encostada ao parapeito, contemplava a noite de um mundo que iria abandonar em breve através da janela fechada do quarto e mergulhava num mar de silêncio que me isolava do exterior.


A porta do quarto abriu-se. Não me voltei. Sabia que era ele.


Abraçou-me por trás, passando os braços pela minha cintura, apertando-me contra ele. Encaixou o corpo dele no meu e começou a beijar-me o pescoço e a nuca. Perguntou-me num murmúrio ofegante:


- O que é que estás a fazer aí?


Respondi, sentindo-me encher com aquele desejo louco que sentia por ele:


- Estou a ver as estrelas.


- Daqui? A cidade tem demasiada luz, não se consegue ver as estrelas…


- Mas eu sei… que estão lá… todas – expliquei com a voz entrecortada.


- O que é que estás a dizer a essas estrelas invisíveis?


- Adeus.


Despiu-me a blusa, beijando-me cada vez mais aflito, afirmando que me desejava perdidamente.


- Trunks… Oh, não pares. Dá-me as estrelas, Trunks. Dá-me as estrelas do teu mundo.


- Dou-te tudo o que tenho, tudo o que sou…


- Não pares!


Amou-me primeiro na cómoda. Depois, no chão e, por fim, na cama. Imparável e esfomeado, desesperado, mas também triste, tentando reter o momento, entesourá-lo e cristalizá-lo, com a mesma angústia que eu sentia, que o segurava com medo que ele se desfizesse em moléculas de ar, ele apertando-me com receio que eu me esfumasse em nada.


Éramos dois seres de mundos distantes que se tinham entregado a uma paixão proibida que ameaçara o Universo com o caos e a ulterior destruição. Dois seres que procuravam ansiosamente completar-se, porque se sabiam dissonantes, fabricados por criadores diferentes, que não se deviam nunca ter tocado. Um sonho louco, afinal o meu sonho louco.


Mas, tal como qualquer sonho, não passávamos de uma doce ilusão, uma deliciosa fantasia intangível.


A brisa noturna carregou-nos pelos céus. Sobrevoámos West City, vi o jardim onde tinha estado com Son Goku naquela tarde, entrevi a cúpula da Capsule Corporation, apreciei deliciada o meu último voo. Pois com quem iria eu voar na Dimensão Real, por cima das cidades e dos montes?


Por cima de nós tínhamos o esplendor da abóbada celeste e ele abriu os braços, exibindo todas as estrelas que me conseguia ofertar naquele instante.


- Oh, Trunks! Tão… bonito!


Ficámos a contemplar aquele espetáculo, estendidos no chão, num silêncio reverencial. As estrelas moviam-se devagar no céu violeta e acho que adormeci embalada nesse movimento lânguido. Sei disso porque despertei estremunhada com um beijo que me inundou a boca de calor.


- Eu disse-te que não podias adormecer.


- Minha doce Ana. Jamais te esquecerei.


- Perdoa-me se te dececionei.


- Tu não…


Calou-me com um beijo.


Continuava a parecer-me que me sorria ao de leve, a mágoa vestindo-o de cima a baixo.


Foi-se embora.


Deixou-me sozinha e foi o princípio do meu mundo sem ele.


Sacudi a cabeça, obrigando-me a parar com aquilo.


Não havia arrependimentos. Nunca os houvera. As decisões tinham sempre sido tomadas com consciência, com coragem, com responsabilidade.


Se eu me tinha ido embora da Dimensão Z, se tinha abandonado Trunks, não havia nada que alguém pudesse ter feito para alterar essa situação. Porque tinha sido eu que assim quisera e fizera.


Se eu me tinha casado com o Luís foi porque me tinha apaixonado por ele e não lamentava os dias mágicos que passámos juntos, apesar de tudo ter amargado nos últimos anos, e já acontecia uma certa animosidade e desgaste quando Goku apareceu para, novamente, salvar o Universo e ensinou ao meu filho o que era ser um saiyajin.


Se eu me tinha divorciado do Luís foi porque não valia a pena insistir numa união que, de facto, já não existia, cada vez estávamos mais separados e a fazer coisas independentes.


Se eu tinha escolhido amar alguém impossível, só a mim me dizia respeito. Tivera as alegrias e suportaria as dores, com igual resolução e teimosia.


O amor, porém, esse nunca tinha mudado e não iria mudar.


O amor estaria no tempo que eu vertia para a garrafinha?


Não, nunca.


O amor não podia ser encerrado, contido, controlado, manobrado. O amor era o que tinha existido e que iria existir sempre, mesmo sem mim e sem ele.


Dei por mim a sorrir.


O que ganhei e o que perdi, soube-o há vinte anos, depois de ter destruído o feiticeiro. A distância fazia-me olhar para esse instante, em que regressei à minha dimensão na máquina interdimensional construída por Bulma, com alguma condescendência, nostalgia claro, mas também com uma certeza de que a minha vida não fora totalmente má depois desse dia em que desejei um segundo para tornar a experimentar a eternidade.


Por isso…


Abri os olhos.


Coloquei o cinto de segurança, rodei a chave, liguei o motor do carro.


Por isso, agora começava uma nova etapa.


A luz do dia inundou-me de esperança.


Espero por ti, Trunks… No dia em que partir deste mundo, velhinha e com a minha existência completa. Vais estar lá para colher a minha alma. Eu sei que vais. Prometeste-me isso há seis anos, na varanda da minha antiga casa. E vais cumprir essa promessa. Os deuses vão ajudar-te a cumpri-la!


Porque no fim de contas, eu, a Ana-san, tal como Son Goku, Vegeta, os guerreiros Z, também, um dia, salvei o universo.


Fim de entrada.

April 28, 2020, 1:16 p.m. 0 Report Embed Follow story
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The End

Meet the author

Andre Tornado Gosto de escrever, gosto de ler e com uma boa história viajo por mil mundos.

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