lara-one Lara One

Você vai encontrar um pouco de amor. Um pouco de vida familiar. Um pouco de mistério. Pois o que vem do céu sempre é desconhecido. Cinco crianças. O que elas têm em comum? Qual a profecia que o Homem Mariposa trouxe desta vez para Point Pleasant? Muitas vezes, através dos pequenos milagres, os grandes milagres acontecem.


Fanfiction Series/Doramas/Soap Operas For over 18 only.

#fanfic #mothman #mistério #scully #mulder #arquivo-x #x-files
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S07#02 - HEAVEN - PARTE III

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INTRODUÇÃO AO EPISÓDIO:

Fade in.

2007

Point Pleasant – West Virginia – Ponte Silver – 5:01 P.M.

Um raio risca o céu. Trovoadas, céu prestes a chover, carregado de nuvens pesadas.

Congestionamento na rodovia de acesso. Carros que buzinam. Pessoas que colocam os rostos e os corpos pra fora da janela, aos gritos, indignados com os outros motoristas.

A longa fila de carros até a ponte e sobre a ponte.


O carro dos WEST. O milionário casal da elite inglesa, Chandler West, a esposa April e os três filhos. Chad, o menino loiro de 6 anos, vestido numa camiseta com a bandeira inglesa. As duas irmãs adolescentes brigam com ele. O moleque ameaça jogar a bolsa de uma delas pela janela. A outra o puxa pela orelha.

APRIL WEST: - Chad quer parar com isso? Deixe suas irmãs em paz!!! Dê a bolsa da sua irmã agora!

CHANDLER WEST: - Rapazinho, vamos conversar quando chegarmos no hotel.

CHAD: - Eu não fiz nada! Elas que puxaram minha orelha!!!!

IRMÃ: - Tá vendo? Isso é o que dá ter filho pequeno, depois dos outros já criados! Esse pestinha fica irritando sempre!

APRIL WEST: - Mary Elizabeth e Mary Katherine, parem as duas! Chad se comporte, você precisa respeitar suas irmãs, elas são mais velhas que você!

Chad bota a língua pra elas, cruza os braços e vira o rosto pra janela.

CHAD: - Droga. Vocês prometeram me levar pra Los Angeles!

WEST: - Vamos ter tempo pra ir à Disney.

CHAD: - Eu não quero ir na Disney, isso é coisa de criança! Você disse que tem um amigo que conhece o Indiana Jones! Eu quero ver o Indiana Jones! Quero um chapéu igual o dele!

APRIL WEST: - Se comporte e seu pai cumprirá a promessa.


A limusine dos ROBINSON. O chofer observa apiedado pelo retrovisor. O milionário Robert Robinson bem vestido, olha nervoso para o relógio no pulso. Megan, uma menininha de 6 anos, de traços asiáticos, vestida como uma princesinha. Chora calada, ao lado da avó asiática, igualmente triste.

ROBINSON: - Megan, sei que sente falta da sua mãe, mas eu não tenho culpa se ela quis o divórcio e não quis levar você pro Japão. Acho melhor você ficar na América com sua avó, aqui terão mais recursos, você vai ter uma educação melhor e não estará sozinha. Pode ajudar sua avó, já que ela pouco entende o nosso idioma.

MEGAN: - (CHORANDO) ... Eu não quero ficar aqui! Quero ir pra Coréia com você!

ROBINSON: - Eu não tenho condições de ficar com você, papai tem negócios na Coréia. Eu tenho certeza de que vai ficar bem aqui com a vovó, afinal ela é mãe da sua mãe. Vocês terão tudo, mandarei dinheiro, os empregados cuidarão bem de vocês. Eu prometo que virei todas as semanas visitar você.

MEGAN: - Não vai não! Você vai ficar lá na Coréia e vai se esquecer de mim. Como a mamãe fez!

Ele retira um cartão de crédito e entrega para a filha.

ROBINSON: - Vai se sentir melhor com isto. O chofer vai levar vocês para o shopping e eu ficarei no aeroporto. Compre alguns brinquedos e roupas.

Megan abre a janela da limusine e atira o cartão para fora. Cruza os braços, num beiço.

MEGAN: - (REVOLTADA) Eu odeio você!!!


O carro dos MCCOY. O casal de negros e os dois filhos. Darius de 6 anos e o irmão adolescente que escuta música com fones nos ouvidos e batuca na cabeça do pequeno. Darius tenta se livrar dele aos tapas.

DARIUS: - Manhê!!! O Chris tá fazendo a minha cabeça de tambor!!!

ANGELA: - Chris, por favor! Deixe o seu irmão quieto! Já vamos chegar... Isaac, tem certeza que não estamos perdidos? Não é movimento demais, tanto carro...

ISAAC: - Não estamos não, Angela. O caminhão da mudança nem deve ter chegado ainda. Aqui as coisas são diferentes, vai ter que se acostumar.

CHRIS: - Pai, você já viu a casa? É legal?

ISAAC: - (SORRI) Já. E vocês vão adorar! Tem um quarto pra cada um, assim vão ter a individualidade de vocês. Tem uma piscina. Um pátio enorme. Uma cozinha com tudo pra sua mãe. É uma rua calma, num bairro calmo. É outro mundo, meus meninos. Sei que estão chateados porque deixaram seus amigos pra trás, mas tenho certeza que farão novos amigos.

CHRIS: - Tomara...

ANGELA: - Estou curiosa, Isaac. Mas também estou com medo. E se os vizinhos forem racistas? Americanos são racistas.

ISAAC: - Angela, não exagere, os tempos mudaram. Então garotos? Lanchonete?

Os dois meninos se entreolham. Olham para o pai num sorriso gritando "yes" em coro. Angela e Isaac riem.

Algumas pessoas passam correndo assustadas, gritando alguma coisa.

ANGELA: - Isaac, o que tá acontecendo? Isso não é normal! E se for aquela coisa de terroristas? Tem muito disso nesse país.

ISAAC: - Angela, vai assustar os meninos. Estou vendo policiais, deve ter acontecido algum acidente, ou prenderam algum procurado, por isso o trânsito está parado. Relaxa. País novo, mudança, não conhecemos ninguém aqui e temos duas crianças no banco de trás. Você vai ter que ser forte, eu preciso de você, tá bom? Com o tempo as coisas vão tomar seu rumo e vocês vão se acostumar. Era isso ou perder uma promoção. É a minha chance e a chance da minha família viver mais dignamente.

Os dois trocam um beijo.


Alguns carros tentam sair de ré, ninguém quer ficar sobre a ponte, mas o engarrafamento os prensa. Na ponte, a mulher grita com o policial. Aponta para o céu. O policial olha para o céu. Uma senhora de joelhos chora, coloca as mãos no rosto em prece, fazendo o sinal da cruz. Tumulto generalizado.

Os ADAMS na Kombi psicodélica e hippie, parada perto da ponte, prensada por outros carros. No volante, Ivan magrinho e barbudo, roupas hippies. Medalhão com uma cruz no pescoço. Ao lado Joan, a esposa gordinha, de tranças, num vestido hippie. Ela acende um incenso e espalha a fumaça pelo carro.

JOAN: - A canela é medicinal. Além de ser uma planta masculina que é associada com o Sol e o Elemento Fogo, a canela é relacionada com Vênus e Afrodite. Espiritualmente é usada para magias de Amor. Quando queimada, eleva vibrações espirituais altas, ajuda na cura, chama dinheiro, estimula poderes psíquicos e produz vibrações protetoras.

IVAN: - Então queime essa caixa inteira... Você viu aquilo. Aquelas luzes. Era uma nave. Será que abduziu alguém, por isso esse caos todo?

JOAN: - Claro que era uma nave... Kevin, você viu o disco voador?

Kevin, de 6 anos, no banco de trás. Folheia o gibi observando as figuras.

KEVIN: - Eu vi, Joan. Mas não sei se era um disco voador.

IVAN: - Que garoto cético! Joan, eu tive a nítida sensação que andávamos em círculos quando viemos pra cá. Eu contei as placas.

JOAN: - Como assim?

IVAN: - Passamos diversas vezes por aquele motel chamado Sonnerville, como se estivéssemos presos temporalmente. Até chegarmos aqui com esses carros. Eu estou pensando em descer e perguntar se alguém teve essa sensação, mas sinceramente tenho medo de me chamarem de louco.

JOAN: - Filho, tá com fome? Quer uma barra de cereais, uma fruta...

KEVIN: - Agora não, Joan.

IVAN: - Droga! Vamos perder o show com a cover da Janis Joplin! Por causa de uma nave alienígena! Essa gente nunca viu um disco voador?

JOAN: - Amor, nem todas as pessoas estão acostumadas com discos voadores e nem tem a mente tão iluminada para compreender a magnitude de tal evento. E não perdendo o cover do Hendrix, eu fico feliz... Kevin, o que está fazendo?

KEVIN: - Vendo o gibi do Batman, Joan.

Joan sorri. Kevin mantém os olhos grudados no gibi. O policial passa pelo carro deles levando a velha senhora para a ambulância.

SENHORA: - (HISTÉRICA) Ele voltou!!! Deus nos ajude, meu Senhor!!! Tem que tirar todos da ponte!!! Tem que me escutar, precisa tirar todos da ponte!!!!!!! A ponte vai cair!!!!!!!!!

Ivan coça a cabeça.

IVAN: - ... Qual a previsão de eventos estranhos hoje, já que você é a astróloga por aqui?

JOAN: - O sol está em conjunção com Marte sobre o signo de touro e isso significa que...

Gritaria histérica. Pessoas que passam correndo pelos carros, ao lado deles e sobre eles, se atropelando. Kevin ajoelha-se no banco, colocando as mãozinhas na janela e olhando pra fora.

IVAN: - O que está havendo com essas pessoas?

KEVIN: - Eu acho que elas tão fugindo do Batman, Ivan.

Joan e Ivan se entreolham.

IVAN: - Batman?

Os dois olham pra frente. A criatura negra com asas passa voando rapidamente sobre o carro. Joan olha pra Ivan. Os dois catatônicos. Ivan começa a tremer.

IVAN: - Joan... Acha que a quantidade de LSD que usamos nos anos 70 ainda pode causar alucinações?

VINHETA DE ABERTURA: A VERDADE SEMPRE ESTARÁ LÁ FORA...



BLOCO 1:

Dois dias antes...

Residência dos Mulder – 11:07 P.M.

[Som: Nat King Cole – Unforgettable]

Abre o foco nas pernas de Mulder e Scully. Na sala, os dois dançam lenta e apaixonadamente, em roupas sociais. Mulder segura a mão dela, Scully dá um giro num sorriso. Ele sorri. Se abraçam, dançando coladinhos.

Nas escadas, Victoria sentada de pijamas e pantufas, cotovelos nos joelhos, cabeça apoiada nas mãos, observando os dois, tristemente. Eles não percebem, continuam dançando, trocando um beijo. Recostam suas testas, ao som da música. Scully vai puxando Mulder em direção ao sofá. Mulder cai por cima dela. Olham-se nos olhos.

SCULLY: - Adorei jantar fora... Gostei do vinho.

MULDER: - Pensei que tivesse gostado da companhia.

Scully sorri apaixonada. Leva as mãos ao rosto dele. Mulder aproxima seus lábios dos dela. Então percebe Victoria na escada.

MULDER: - Pinguinho, o que faz acordada?

Scully senta-se no sofá. Victoria desce as escadas.

SCULLY: - Docinho, pensei que já estivesse dormindo.

VICTORIA: - Vocês vão se divorciar?

Mulder e Scully se entreolham, sem entenderem a pergunta.

SCULLY: - De onde tirou essa ideia?

Victoria senta-se no colo de Scully se abraçando nela.

VICTORIA: - Eu não quero que vocês se divorciem.

MULDER: - Mas nós não vamos nos divorciar.

VICTORIA: - Eu vi na televisão que os casais se divorciam. Eu não quero que um de vocês vá embora... Sempre termina assim, todo mundo se separa.

Mulder a puxa pra seu colo.

MULDER: - Vem aqui... Olha pra mim. Alguns casais se divorciam porque não se amam mais e resolvem viver com outras pessoas. Mas isso não significa que todos os casais fazem isso.

VICTORIA: - E você ama outra mulher?

MULDER: - Eu amo duas mulheres que eu não troco por nada no mundo. (PUXA O NARIZ DELA) Uma é você e a outra é tão baixinha quanto você.

Victoria sorri.

MULDER: - Eu amo a sua mãe. (PUXA SCULLY COM O BRAÇO) Eu sou doidinho pela sua mãe, eu respiro a sua mãe. (DÁ UM BEIJO ESTALADO EM SCULLY)

SCULLY: - E eu sou doente pelo seu pai. Doente por esse narizinho pequeno dele...

Victoria dá uma gargalhada. Mulder olha pra Scully com deboche.

VICTORIA: - Prometem que não vão se divorciar?

MULDER: - Onde eu encontraria alguém como a sua mãe? Mais baixinha que ela só se me apaixonasse pelo rodapé da sala!

Victoria dá uma risada. Scully dá um tapinha nele.

SCULLY: - Eu digo que jamais encontraria outro como você, Mulder. Quem espalharia migalhas pela casa, deixaria tudo fora de lugar, roncaria...

MULDER: - Eu não ronco!

SCULLY: - Ronca sim!

MULDER: - Não. Eu não ronco... (CHEIRANDO O PESCOÇO DE SCULLY/ FALANDO MANSO) Eu ronrono feito um gatinho, hum?

SCULLY: - Sei... Um gatinho bem crescido, tipo um leão.

Mulder se levanta com Victoria no colo. Victoria rindo.

MULDER: - O leão vai colocar a Dorothy na cama que já está tarde.

VICTORIA: - E onde está o Homem de Lata?

MULDER: - Não sei, mas o Espantalho está sentado no sofá, me acusando de roncar.

Scully atira uma almofada nele. Mulder sobe as escadas.

VICTORIA: - Mamãe, me põe pra dormir também? Canta uma música pra mim!

MULDER: - (DEBOCHADO) Você é a única pessoa que conheço que tem coragem suficiente pra ouvir Dana Scully cantar...

SCULLY: - Mulder!


2:23 A.M.

Mulder sentado na cama, apoiado no travesseiro. Scully recostada no peito dele. Os dois assistem TV.

MULDER: - Estou angustiado com o início da próxima semana.

SCULLY: - Pois trate de se livrar dessa angústia. Victoria está bem.

MULDER: - Hum, tem uma coisa que tira a minha angústia rapidinho...

Scully puxa o lençol pra cima deles. Mulder resvala pelo colchão. Os dois ficam de risadinhas debaixo do lençol.

SCULLY: - (RINDO) Sai daí, Mulder!!!!!!

MULDER: - (RINDO) Ah não, eu gosto daqui...

SCULLY: - (RINDO) Para! Tira essa mão daí, Mulder! (GRITA) Não!!!!!! A língua não!!!!!!!!

Scully sai pra fora do lençol, colocando as mãos na boca. Mulder olha pra porta em pânico. Silêncio de segundos. Os dois soltam a respiração.

SCULLY: -(COCHICHA) Para de me fazer gritar ou vou acordar nossa filha! Mulder, a gente precisa ser mais cuidadoso! Ela já tá com quase seis anos e esperta demais pra idade!

MULDER: - (RINDO) Grita baixinho, vem...

Mulder a puxa pra baixo do lençol.

SCULLY: - (RINDO) Mulder, você colocou isso de molho no fermento? Tem que haver uma explicação científica...

MULDER: - Au! Isso doeu! O que é, nunca reclamou, agora vai reclamar?

SCULLY: - Não, eu já me acostumei, mas é grande... (RINDO) Nossa! Mulder, tem algo errado aqui... Tá ficando maior ainda...

MULDER: - (RINDO) Scully, para de me provocar...

SCULLY: - Minha nossa... Ainda bem que não é mais grosso. Porque o comprimento disso aqui chega a cutucar até o meu estômago!

MULDER: - (RINDO) Scully para com isso!

SCULLY: - Vou me suicidar, Mulder. Quanto aposta que coloco tudo até a garganta?

MULDER: - Uh!

SCULLY: - (RINDO) Se eu me asfixiar, já sabe.

MULDER: - (DEBOCHADO) Eu quero ver é se você se engasgar como daquela vez. Prometo que não vou rir.

SCULLY: - Se rir, dessa vez eu mordo.

MULDER: - Au! Quanta maldade num corpinho desse tamanho!


Residência de Barbara Wallace - 6:03 A.M.

Krycek entra pela porta dos fundos carregando um vaso com uma orquídea. Aciona os alarmes.

KRYCEK: - Barbara?

Nenhuma resposta. Ele coloca a orquídea sobre a mesa. Tira a jaqueta e pendura no cabide. Tira a arma do coldre e coloca no alto da prateleira. Quando se vira, Barbara salta em cima dele, ele quase cai. Ela se agarra nele com os braços e as pernas.

BARBARA: - Bom dia, Ratoncito!

KRYCEK: - Como boa gata caçadora, sempre tentando pegar o rato de surpresa.

Os dois trocam um beijo.

BARBARA: - Como foi sua noite?

KRYCEK: - Bem calma, fiquei mais na delegacia que na rua, consegui colocar muito trabalho em dia. E a sua?

BARBARA: - Terminei o trabalho tão rápido que limpei a casa, lavei roupa e ainda deixei nosso almoço pronto. Com fome?

KRYCEK: - Não. Eu nunca tenho fome a essa hora. Eu chego é com vontade de tomar banho, me atirar na cama e agarrar você.

BARBARA: - (SORRI) Gostei da orquídea. Era a que eu queria. E gostei do "agarrar você".

KRYCEK: - Apenas uma lembrancinha.

BARBARA: - (SORRI) É? Certeza?

KRYCEK: - (SORRI) Feliz aniversário, Malyshka!

BARBARA: - (SORRI) Feliz aniversário, Ratoncito!

Os dois trocam um beijo apaixonado. Barbara o solta. Krycek vai até a jaqueta e tira do bolso uma caixinha achatada.

KRYCEK: - O verdadeiro presente está aqui... Aquele palhaço do seu ex encheu você de joias que você nem tem aonde usar. Acho que essa você pode usar no seu dia a dia.

Ela pega a caixinha empolgada. Tira uma correntinha de ouro com um ratinho e uma gatinha no pingente. Barbara dá um sorriso, empolgada.

BARBARA: - Amei!!!

KRYCEK: - Quatro anos me aturando, você merecia ser canonizada em vida.

Barbara o abraça e enche de beijo. Vira-se de costas e ergue os cabelos.

BARBARA: - Coloca pra mim?

Ele pega a correntinha e coloca nela. Ela solta os cabelos, virando pra ele.

BARBARA: - Então?

KRYCEK: - Linda como sempre.

Barbara sorri e vai até o balcão da cozinha. Volta com uma sacola.

BARBARA: - Isso é pra você. O novo Krycek merece coisas novas. Quatro anos me aturando, Ratoncito, você tá de parabéns!

Ele abre a sacola. Tira uma jaqueta de couro. Sorri. Abre a jaqueta, empolgado.

KRYCEK: - Uau! Vou ter que usar bastante pra ficar bem surrada.

BARBARA: - Veste, quero ver se é o tamanho certo.

Ele veste a jaqueta. Ela o analisa.

BARBARA: - Dá uma voltinha, meu canalha.

Ele dá uma voltinha, rindo.

BARBARA: - Vai ser gostoso assim lá na minha cama! Já levei o vinho, hum?

Ela pula nele, se agarrando. Krycek rindo, vai andando e segurando ela que não desgruda dele. Sobe as escadas, entra no quarto. A coloca na cama. Começa a tirar a roupa.

KRYCEK: - Vou pro banho.

BARBARA: - Tenho outro presente.

Barbara abre o criado mudo e tira um livro ainda plastificado.

BARBARA: - Sabe o que é isso?

KRYCEK: - (EMOCIONADO) ... É o que eu penso?

BARBARA: - Primeiro exemplar da coletânea inédita de poemas e pensamentos "Noites Escuras de Moscou", escrito por Mikhail Yuri Krycek. Hoje já vai estar em todas as livrarias.

Krycek sorri. Pega o livro e observa.

BARBARA: - Com certeza ele está orgulhoso de ter seus poemas e pensamentos publicados. O filho dele salvou seus rascunhos e sua história. Seu pai é imortal, Ratoncito. Eis a prova.

Krycek enche os olhos de lágrimas, olhando incrédulo para o livro.

KRYCEK: - Esse é meu?

BARBARA: - Lógico, quem mais merecia o primeiro exemplar? Agora falta apenas conseguir os direitos autorais dos outros que foram publicados na Rússia. Mas vamos conseguir, você é filho, tem direitos. Vamos vencer a batalha e republicar tudinho.

Krycek se aproxima da cama e inclina-se, trocando um beijo com ela.

KRYCEK: - Obrigado por esse presente, sem você seria impossível concretizar essa promessa. Não imagina o quanto isso significa pra mim.

BARBARA: - Imagino sim.

Ele sorri e coloca o livro no seu lado da cama. Vai pro banheiro. Barbara sorri, olhando pra ele.

KRYCEK: - Você encheu a banheira? Eu só ia tomar uma ducha!

BARBARA: - Precisa de ajuda?

KRYCEK: - (RINDO) Não.

BARBARA: - Certeza?

KRYCEK: - É só um banho, acho que sei tomar banho, Malyshka.

BARBARA: - Sabe nada! Russos não entendem nada de banho. Cubanas entendem.

Ela pega a garrafa de vinho, as duas taças e corre pro banheiro e fecha a porta.


7:00 A.M.

O jornaleiro passa de bicicleta atirando o jornal na grama.

Corta para a cozinha. Cookie passa pela entrada da porta dos fundos. Senta-se no ladrilho da cozinha, abanando o rabo e olhando pra cima.

A torrada completamente queimada cai ao chão. Cookie lambe a manteiga que caiu no chão e sobre a torrada. Pega a torrada com a boca e vai pra sua cestinha.

Foco nos pequenos pés com pantufas de ursinho. O pijama cor-de-rosa. Mal caminha direito, saindo da cozinha. Suco de laranja que cai ao chão em gotas grandes.

Corte.


Mulder dorme de bruços na cama, só com as calças do pijama e com o lençol todo torto por cima dele. Scully, de camisola, jogada pro outro lado, igualmente de bruços.

Victoria entra no quarto, carregando com dificuldades a bandeja com café da manhã. Vem tropicando e espalhando suco pelo chão. Coloca a bandeja no criado mudo, empurrando o porta-retratos (uma foto dos três) que cai ao chão.

Scully respira fundo e vira-se de lado, ainda dormindo. O relógio no criado-mudo ao lado de Mulder marca 7:11 A.M.

Victoria vai até a janela, abrindo as cortinas. O sol penetra no quarto, na cara de Mulder que vira-se pro lado de Scully, fugindo da claridade.

Victoria olha pra rua. Sorri. Abre os braços, respirando fundo. Junta as mãozinhas, se embalando, olhando pra fora. Vira-se pra cama. Os pais dormindo. Ela faz beiço de frustrada. Corre e pula no meio deles, sacudindo o colchão. Mulder ergue a cabeça, meio fora de sintonia, olhos grudados. Cai com o rosto no travesseiro. Scully vira-se de lado, empurrando Victoria e murmurando um "Mulder, não". Victoria se abraça nela, fazendo carinhos nos cabelos dela. Scully abre os olhos.

VICTORIA: - Mamãe bonitinha... Acorda, mamãezinha! O sol já nasceu!!!

Scully sorri. Vira-se pra Victoria, que continua lhe afagando os cabelos.

SCULLY: - Que presente melhor do que acordar desse jeito, hum?

Victoria a beija. Scully senta-se na cama, olhando pra Mulder que ainda dorme. Pisca o olho pra Victoria. Victoria sorri. Vira-se pra Mulder cheirando a nuca dele. Mulder dá um sorriso.

VICTORIA: - Acorda papai.

MULDER: - Que corda? Não serve um barbante?

Victoria sobe nas costas dele. Começa a pular. Scully ri.

VICTORIA: - Upa cavalinho! Upa!

Mulder se vira, a segurando. Faz cara de mau.

MULDER: - Ah quer brincar de cavalinho é? Pois eu vou é devorar essa menina a dentadas!

Mulder deita Victoria no colchão e começa a fazer cócegas nela. Victoria dá risadas altas. Mulder funga no pescoço dela e finge lhe morder.

VICTORIA: - Nahhhhhhh!!!!!!!! Para!!!!!! (RINDO) Faz cócegas!!!!!!!!!!!

MULDER: - Só paro se me der um beijo.

VICTORIA: - Nah!

Mulder ergue a mão e move os dedos, olhando com cara de maluco.

MULDER: - Olha a aranha assassina... hahahahaha!!!!

Mulder faz mais cócegas nela. Victoria se rola na cama, aos risos, fugindo pra perto de Scully. Mulder senta-se na cama. Scully olha para o criado-mudo. Abre um sorriso.

SCULLY: - Hum... Café da manhã na cama?

VICTORIA: - Fui eu quem fiz.

Scully segura o riso. Coloca a bandeja sobre a cama. Mulder pega uma torrada, completamente queimada. A analisa.

MULDER: - (DEBOCHADO) Hum... É de chocolate?

VICTORIA: - ... Eu acho que... Queimou só um "pouquinhozinho"...

MULDER: - Scully, hoje temos torrada à Michael Jackson anos 80.

SCULLY: - Hum... Suco de laranja... O que é isso?

VICTORIA: - Creme de amendoim com catchup e mostarda. Acho que fica bom...

MULDER: - Perdi meu posto do café da manhã por aqui é? Não admito concorrência, baixinha!

VICTORIA: - (SORRI) Gostaram? Tá gostoso?

Os dois consentem, disfarçando que estão comendo. Ela pula pra fora da cama. Põe as mãos na cintura, bem séria.

VICTORIA: - Mamãe, faz aquelas panquecas gostosas? Porque ao contrário de vocês, eu não gostei dessa porcaria aí que eu fiz não!

Ela sai correndo do quarto. Mulder larga a torrada, fazendo careta. Scully começa a rir.

MULDER: - Pelo menos ela é honesta consigo mesma.

SCULLY: - E puxou ao pai na cozinha...

MULDER: - (DEBOCHADO) Ah, é? E no que mais ela puxou ao pai?

SCULLY: - Adora me tirar da cama pra me levar pra lugares inóspitos.

Os dois trocam um beijo. Scully se levanta. Veste o robe. Pega a bandeja.

SCULLY: - Tem dez minutos pra descer ou vai ficar sem panquecas.

MULDER: - (SE ESPREGUIÇANDO) Não me deixaria sem panquecas.

SCULLY: - Hum... Talvez sem cuecas.

MULDER: - (MAQUIAVÉLICO) Você me paga por ontem.

SCULLY: - Nossa! Morri de medinho agora!

Scully sai do quarto. Mulder vai se arrastando pro banheiro. Apoia-se no balcão da pia. Olha-se no espelho. Olha com desânimo pro creme de barbear.

MULDER: - E elas ainda reclamam de se depilar uma vez na semana...


8:31 A.M.

Scully de luvas, agachada no jardim, plantando mudas de flores que Victoria vai lhe entregando da caixa.

VICTORIA: - Essa aqui é bonita.

SCULLY: - Chama-se amor-perfeito.

VICTORIA: - (SORRI) Amor-perfeito... E essa?

SCULLY: - Todas são amor-perfeito. Só as cores que mudam.

VICTORIA: - Mamãe, como as flores nascem?

SCULLY: - (SORRI) Elas germinam de sementinhas. Você coloca uma sementinha na terra, rega com água e deixa que o sol e a vida façam o resto... Depois vamos fazer uma experiência juntas, pra você ver como funciona.

VICTORIA: - Tá.

Mulder sai da casa, vestido num moletom e tênis.

MULDER: - ... Perdi a parceira de exercícios matinais?

SCULLY: - Lamento. Hoje não estou com vontade de caminhar.

VICTORIA: - Papai, você esqueceu?

MULDER: - Do que eu esqueci?

VICTORIA: - Vai me levar no show do Michael Jackson, né?

MULDER: - Você não está muito pequena pra lugares tão grandes?

VICTORIA: - (BEIÇO) Queria ver o Michael Jackson dançando.

MULDER: - Era o que me faltava! Minha filha que saiu das minhas entranhas quer assistir um show do Michael Jackson. Quem sabe vamos assistir alguma coisa menos pedófila?

SCULLY: - Mulder!

VICTORIA: - O que é essa coisa que você falou? Pedo...

SCULLY: - Não é nada. Seu pai é mais um dos que acreditam em qualquer besteira da imprensa sensacionalista. Mulder, antenas parabólicas estão sempre ligadas, ok? Tome cuidado com o que fala.

Mulder pega o jornal da grama e sai andando pela calçada. Scully e Victoria continuam plantando flores.

SCULLY: - Por que gosta tanto do Michael Jackson?

VICTORIA: - Porque é legal ver ele dançando.

SCULLY: - Hum... Eu adoro o Michael Jackson. Ele tem algum atrativo pras crianças mesmo, aquelas roupas doidas, a dança...

Um caminhão de mudança estaciona na casa ao lado. Victoria dirige a atenção para o motorista negro que desce.

SCULLY: - Vizinhos novos... Que bom! Espero que sejam pessoas legais.

VICTORIA: - Mamãe, por que algumas pessoas tem cor diferente? Ele tem a cor da Baba.

SCULLY: - Porque Deus gosta de tudo colorido.

VICTORIA: - Que nem as flores?

SCULLY: - Como as flores, os bichinhos... As pessoas também são coloridas... (SORRI) Bendita idade dos porquês!

VICTORIA: - A gente pode ir na casa da tia Barbie?

SCULLY: - Agora não. Tia Barbie e tio Tchek trabalham de noite e dormem de dia.

VICTORIA: - Que nem corujas?

SCULLY: - (RINDO) É, como as corujas.

VICTORIA: - Então por que o papai chama ele de rato? Não devia chamar de coruja?

SCULLY: - Porque o sobrenome dele significa rato em russo.

VICTORIA: - E o que significa Mulder?

SCULLY: - Agora você me pegou. Pergunte pro seu pai, o sobrenome é dele!

VICTORIA: - E o que significa Scully?

SCULLY: - É um sobrenome, não significa nada. Que eu saiba.

VICTORIA: - E por que todo mundo se chama pelo nome e você e o papai se chamam pelo sobrenome?

SCULLY: - Porque quando a gente se conheceu, a gente se chamava pelos sobrenomes. Por educação, sempre nos referimos às pessoas pelo sobrenome e não pelo nome, isso é muito íntimo.

VICTORIA: - Mas por que agora que são casados continuam se chamando pelo sobrenome?

SCULLY: - (RINDO) Eu não sei, é costume, não consigo chamar seu pai de Fox e nem ele consegue me chamar de Dana. É esquisito, parece que não é íntimo. Já estamos acostumados há tanto tempo com os sobrenomes... Filha, é muita pergunta pras nove da manhã, hum? Deixa sua mãe acordar primeiro?


2:14 P.M.

Scully retira um pires do armário e coloca sobre a pia. Abre a caixinha de algodão. Mulder ao lado dela, escorado na pia.

MULDER: - ... Queria que você visse a minha cara dizendo ao Carter que eles podem nos chamar pra agentes mortos quando estivermos no caixão.

SCULLY: - Não quero mais nenhuma ligação com o FBI. Fez muito bem de ter ido até lá sozinho e negado isso. Não estou pra nos meterem em missões suicidas.

MULDER: - ...

SCULLY: - Conheço você. O que está matutando?

MULDER: - Nada. Fiquei meio... Sei lá... Balançou. Mas pensei no quanto essas missões são perigosas, eu não trabalho sem você do meu lado e não poderia arriscar a vida da mãe da minha filha.

SCULLY: - (SORRI) Hum, mãe da sua filha? Finalmente, estou ganhando reconhecimento por aqui... Por falar na sua filha, ela está me cobrando o passeio de hoje.

MULDER: - Já estou com os ingressos do circo.

SCULLY: - E sua mulher está cobrando outro jantar gostoso num lugar cheio de gente, muita agitação e animação...

MULDER: - (DEBOCHADO) Também já estou com os tickets de cachorro-quente e os ingressos do jogo de basquete. Jantar e animação no estádio. Você vai adorar!

SCULLY: - Sabe o que fazer com esses ingressos. Leve o Krycek com você. Um monte de homem bobo, olhando pra uma dúzia de outros homens bobos brigando por uma bola, enquanto comem salsichas...

Victoria entra na cozinha correndo.

SCULLY: - Vamos fazer a experiência?

Victoria empurra a cadeira pra perto da pia. Observa. Scully lhe entrega um bolo de algodão.

SCULLY: - Faz assim com o algodão... Como se fosse uma cama pro feijãozinho dormir e acordar um brotinho.

MULDER: - Uau! Aproveita e faz uma cama de algodão pra sua mãe dormir. Quem sabe ela acorda brotinho também?

SCULLY: - Filha, me dá um pedaço de algodão pra eu colocar na boca do seu pai.

MULDER: - (PÕE A LÍNGUA PRA FORA) Chata!

Victoria começa a rir. Amassa o algodão.

VICTORIA: - Assim mamãe?

SCULLY: - Isso. Agora põe no pires... Vamos colocar um pouquinho de água pra umedecer... Pegue uns grãozinhos de feijão.

Victoria pega a mão cheia.

VICTORIA: - Chega?

SCULLY: - (RINDO) Não, Docinho! Apenas alguns grãos, senão eles nem vão nascer, disputando espaço... Isso... Quantos tem aqui?

Victoria aponta o dedo indicador em cada feijão sobre o algodão.

VICTORIA: - ... Um... Dois... Três... Tem três.

MULDER: - Uau! Pinguinho é crânio em matemática! Quantos anos você tem?

Ela sorri boba. Mostra a mão.

MULDER: - E quanto é isso?

VICTORIA: - Papai como você é tonto! Aqui tem um, dois, três, quatro e cinco dedinhos. Quer que eu conte sua idade nos meus dedinhos?

MULDER: - Não, porque eu tenho 22 anos e você só tem 20 dedinhos. Vão faltar dedos.

VICTORIA: - ... (CALCULANDO) Acho que se juntar meus dedos com os da mamãe e mais os seus a gente conta toda a sua idade.

Mulder olha incrédulo pra Victoria. Scully segura o riso.

MULDER: - Até tu Brutus? Tá bom, deixa... Vocês são em maior número aqui dentro... Veja se esses feijões crescem e acabam virando um pé de feijão gigante. Aí eu subo nele e vou morar com o gigante! Meninas não entram.

VICTORIA: - Eu não quero mesmo. Os meninos são bobos.

SCULLY: - Isso minha filha, meninos só servem pra fazer bagunça... Agora é só deixar em algum lugar onde pegue um pouco de sol todos os dias e você vai ver os feijões brotando.

VICTORIA: - Mamãe, mas por que você só botou água pra eles e não botou comida?

SCULLY: - Porque a comida deles é a água. Eles não comem mais nada.

VICTORIA: - ... Nossa! Devem fazer pipi aos montes!

Mulder começa a rir. Scully ri com ele. Victoria põe as mãos na boca.

VICTORIA: - Tá bom. Já vi que falei besteira...

MULDER: - Ok, garotas. Papai vai pra agência agora, ver se tudo está ok e volto logo.

Mulder beija as duas. Pega a chave do carro e abre a porta.

SCULLY: - Mulder, traz leite quando voltar, não esquece!


10:28 P.M.

Mulder sentado na sala. Assiste um jogo. Victoria dorme com a cabeça no colo dele, ainda vestida, abraçada num urso enorme de pelúcia. Rosto sujo de algodão doce. Balões pelo sofá. Scully sai da cozinha com duas cervejas e uma bacia de pipocas. Senta-se ao lado de Mulder. Mulder envolve o braço nela.

SCULLY: - A fera cansou. Nem deu tempo de tomar banho.

MULDER: - (SORRI) Foi emoção demais pra ela.

SCULLY: - Ganhei meu dia. Só de ver a felicidade dela naquele circo... Os olhos brilhando, rindo dos palhaços, assustada com o homem-macaco... Mulder... Foi truque sujo.

MULDER: - O quê? O urso? (RINDO) Não foi não. Scully, esses caras sempre fazem sacanagem com as pessoas. Agora alguém fez com eles. Você nunca tira prêmios bons.

SCULLY: - Deveria ter dito ao homem que você era ex-agente do FBI e conseguiria acertar um tiro naquele pato até de olhos fechados.

MULDER: -... Então, vamos mesmo acampar no fim de semana? Ou desistiu? Já coloquei a barraca no carro, sacos de dormir e aquela tralha toda de camping.

SCULLY: - Claro que vamos! Já fiz até bolo de chocolate e arrumei nossas coisas. Vamos fazer piquenique, trilha, jogar bola, brincar, nadar e respirar ar puro... Vai pescar?

MULDER: - Até coloquei minha carretilha no carro, mas não sei. Acho que prefiro brincar com a minha filha.

SCULLY: - Victoria vai adorar. Tadinha, Mulder, só dentro de casa. E na segunda...

MULDER: -Não me fale na segunda, nem quero pensar! ... Sinto falta da Baba nessa casa, Scully.

SCULLY: - Eu também, Mulder. Baba virou da família. Victoria estranhou, mas agora se acostumou. Tive que explicar pra ela, Baba explicou também. Nossa filha entende as coisas. Ela não é egoísta.

MULDER: - Eu disse pra ela ficar, mas... Baba se empolgou com a coisa da agência. A gente não pode ser egoísta mesmo. Eu fico feliz que ela conseguiu um cantinho só dela, que tá adorando usar seus dons nas investigações, que agora precisa viajar pra resolver casos... Ela merece ser feliz. Baba foi um anjo na minha vida. Ela chegou na hora certa, fez a gente se apaixonar por ela e vai continuar com a gente, só que no apartamento dela.

SCULLY: - Sinto falta da Baba, mas realmente, Mulder, não seria justo mantê-la aqui. Ela merece mais, pelo tanto que nos ajudou. Chegou aqui sem nada, pelo menos agora ela está erguendo a sua vida. E vamos vê-la na agência todos os dias.

MULDER: - (SORRI) Vou colocar esse pingo de gente na cama. Já volto.

Mulder pega Victoria nos braços e sobe as escadas. Scully pega o controle remoto e muda de canal rapidamente. Leva as pipocas à boca.

SCULLY: - (GRITA) Mulder, traz um cobertor pra nós!!!

Cookie vem pra sala. Deita-se na poltrona. Scully faz carinho nele. Mulder desce as escadas com um cobertor. Aconchega-se no sofá, ao lado dela. Scully coloca o cobertor sobre os dois. Mulder envolve o braço nela. Pega a cerveja.

MULDER: - Cadê meu jogo?

SCULLY: - Só fui espiar se não tinha alguma alternativa.

MULDER: - Depois do jogo eu prometo assistir algum filme.

SCULLY: - Vai ter um drama fantástico sobre a luta de uma mulher divorciada que descobre ter sido envenenada durante 14 anos pelo ex-marido.

MULDER: - (OLHA EM PÂNICO PRA ELA) Ah, imagino! Deve ser muito interessante... Se eu dormir apanho?

SCULLY: - Sem dó algum.

MULDER: - E se eu ficar bem acordado, mas interessado em outra coisa? Hum?

SCULLY: - Tipo...

MULDER: - (SÉRIO) Tipo você.

Scully se aninha contra Mulder, passando as mãos nele. Mulder pega o controle remoto e desliga a TV.

MULDER: - Quem sabe a gente discute isso nesse sofá?

SCULLY: - (DEBOCHADA) Mas e o jogo?

MULDER: - Quem é bobo de ficar olhando uma dúzia de homens bobos disputando uma bola?

Mulder cai por cima dela, beijando-lhe o corpo.

SCULLY: - Ai, isso não vai dar boa coisa...

MULDER: - Isso sempre termina em coisa boa...

Scully se agarra nele, puxando a roupa de Mulder. Mulder a devora em beijos, deixando que ela lhe tire a camiseta.

MULDER: - Você me deixa tarado...

SCULLY: - Sabia que a média normal de sexo entre os casais americanos é de 2 a 3 vezes por semana?

MULDER: - Precisamos nos tratar... Estamos ganhando dos coelhos.

SCULLY: - (RINDO) ...

MULDER: - (DEBOCHADO) Eu só queria saber o que você passa no meio das pernas... Melzinho?

SCULLY: - Melzinho não. Melzinho espantaria você, Mulder... Nada de abelhas!


Sábado

Delegacia de Polícia – Precinto 11 – Virgínia - 5:44 P.M.

Krycek sentado, com os pés sobre a mesa, puxando o pedacinho de papel colocado na borrachinha, entre seus dedos, como uma funda, mirando na lixeira pacientemente. Norris falando ao telefone.

NORRIS: - (AO TELEFONE) Manda castrar!

Krycek olha assustado pra Norris.

NORRIS: - (AO TELEFONE) Corta os testículos desse advogado imbecil! Ninguém aqui agiu com violência no interrogatório! (GRITA) Estressado e violento é a mãe dele! (ESMURRA A MESA) Nenhum policial do meu distrito é estressado e violento!

Krycek olha pra ele debochado. Volta a prestar atenção no papelzinho, mirando a lixeira.

NORRIS: - (AO TELEFONE) Eu não vou admitir que um engravatadinho, só porque estudou em Yale ou na puta que o pariu venha me ensinar como eu devo interrogar um maldito vendedor de drogas!

Krycek acerta o papel na lixeira. Norris bate o telefone.

NORRIS: - Querem nos processar, acredita? Direitos humanos! Pro inferno com esses direitos humanos! Cadê os direitos humanos dos pais que tiveram seus filhos envolvidos com drogas por causa desse filho da mãe? Vou servir os testículos desse cara no jantar!

Krycek mira outro papel na lixeira. Atira e acerta de novo.

NORRIS: - Olha pra esse lugar? Eu tenho saudades da nossa antiga delegacia. Isso aqui é moderno demais pro meu gosto!

KRYCEK: - Qual a diversão do plantão de hoje?

NORRIS: - Arrume algo pra se divertir, Checov. Mexa seu traseiro dessa cadeira. Pegue uma viatura e vá caçar bêbados.

KRYCEK: - Isso é furada. Eu acabo bebendo com eles. O pior de tudo é que eu ainda termino pagando a conta!

NORRIS: - (PEGA O CASACO) Vou descontar esses papéis do seu salário! ... Estou indo pra casa. E se esse promotor filho da mãe ligar de novo, diga que eu fui pra Guadalajara trepar com a mãe dele. E apronte a droga daquele relatório. Não me tire do sério, Checov, estou com você pelo meu pescoço!

O delegado sai porta à fora, bufando de raiva. Krycek continua acertando papéis na lixeira, calmamente. Desvia a atenção da lixeira para as pernas femininas e bem torneadas que entram na sala. Olha pra cima. Barbara, de vestido, entra com um pacote nas mãos. Senta-se de frente pra ele. Coloca o pacote sobre a mesa.

BARBARA: - Imagina você, que estou cansadíssima hoje. Mas lá estava eu, em casa, trabalhando horrores num artigo, quando de repente... Me deu fome de comer bolinhos russos. Então eu fiz os bolinhos e... Aí pensei: que mal teria se eu fosse até a delegacia levar alguns bolinhos para o meu Ratoncito, afinal hoje é o dia que o pobrezinho fica 12 horas de plantão...

Krycek abre o pacote. Pega um bolinho. Analisa o bolinho. Analisa Barbara.

KRYCEK: - Você não estava com fome de comer bolinhos. (BOCA CHEIA) Você fez esses bolinhos pra mim.

BARBARA: - ... Tá tão na cara assim?

KRYCEK: - (RINDO) Eu conheço um culpado quando ele senta-se na minha frente. É hábito da função... Está uma delícia, acertou a receita.

BARBARA: - (SORRI) Ufa! Já tava ficando com vergonha de ver você fazendo lanche cubano pra mim e eu nada de acertar esses bolinhos!

Krycek se levanta, dá um beijo nela. Depois se aproxima da janela. Olha pra fora. Coloca as mãos nos bolsos traseiros do jeans.

KRYCEK: - Barbara, precisamos conversar. Não estou mais achando legal você trocar o dia pela noite, só porque eu trabalho à noite. Eu sei que se não for assim, a gente mal vai se ver pela casa. Mas é justo com você?

BARBARA: - Eu adoro trabalhar a noite, Ratoncito! Sempre fui noturna. Não tá bom pra nós? Até nisso a gente combina!

KRYCEK: - Sei lá, fico preocupado que você não esteja dormindo direito...

Barbara se levanta e vai até ele.

BARBARA: - Nunca dormi melhor na minha vida. Você chega de manhã, a gente vai dormir juntos, acorda juntos, almoça juntos... Minha madrugada rende pra escrever, ainda limpo a casa, lavo a roupa e deixo nosso almoço pronto. De noite tudo rende mais, não tem o barulho das pessoas durante o dia. O silêncio é tudo.

Krycek a abraça.

KRYCEK: - Fico contando as horas pra chegar em casa, Malyshka... Hoje o turno é doze horas pra compensar a folga... Minha tortura então é maior. Daí fico pensando que terei folga, e então teremos mais tempo juntos e assim consigo levar adiante.

BARBARA: - Pensa que não conto as horas também? Como eu poderia dormir sem você do meu lado?

O telefone toca. Krycek atende.

KRYCEK: - (AO TELEFONE) Detetive Krycek, homicídios... Sim... Point Pleasant? Sei... Pode falar, estou ouvindo... (INCRÉDULO) Um morcego gigante? Reforços???

BARBARA: - (EMPOLGADA) Onde, onde?

Barbara pega um bloco e um lápis.

KRYCEK: - (AO TELEFONE) Ok... Eu sei da história, colega, concordo. Estou sozinho no momento, mas vou chamar o nosso pessoal pelo rádio... Vou mandar viaturas pra Point Pleasant. Melhor conter o tumulto.

BARBARA: - (DESESPERADA) Onde, Alex???? Onde!!!!!!

KRYCEK: - (AO TELEFONE) Onde viram a criatura? Ah, na ponte Silver...

Barbara beija Krycek no rosto e sai correndo da sala. Krycek acena negativamente com a cabeça.

KRYCEK: - (AO TELEFONE) Vou mandar reforços, mas acredite, a imprensa vai chegar antes!


6:37 P.M.

Norris entra na delegacia, assustado com tanta gente lá dentro. Pessoas nervosas, dando depoimento, policiais num corre-corre. Norris entra na sala da homicídios. Mais gente. Krycek tomando depoimento.

NORRIS: - Foi reclamar que não tinha nada pra fazer, espero que esteja satisfeito, Checov. Morcego gigante... Vai ver algum cineasta maluco por uma divulgação gratuita resolveu causar pânico e filmar na ponte Silver! Eu gosto do Batman. Se tivesse um nessa cidade, meus problemas seriam apenas comprar um holofote e atender a linha direta com a batcaverna.

Krycek pede licença e pega o celular. Aperta uma tecla.

KRYCEK: - Droga, Mulder, atende! Atende!


Segunda-feira – 7:49 A.M.

Mulder escorado na pia da cozinha, acena incrédulo com a cabeça.

MULDER: - Não tá certo... Não pode ser verdade. Estou angustiado com isso há semanas!

Scully termina de arrumar um lanche. Coloca no pacote de papel.

SCULLY: - Mulder...

MULDER: - Não. Eu me recuso a aceitar. Isso é um pesadelo!

SCULLY: - (SORRI) Mulder, eles crescem rápido.

Victoria entra na cozinha, num uniforme escolar. Scully ajeita as chuquinhas dela. Agacha-se, entregando o pacote para Victoria.

SCULLY: - Seu primeiro dia de escola. Você vai aprender tanta coisa legal.

VICTORIA: - Eu tô com medo, mamãe...

SCULLY: - Medo? Mas você vai conhecer tantas crianças, vai fazer desenhos bem coloridos e aprender coisas...

MULDER: - (BEIÇO) O meu Pinguinho tá virando gota d'água.

Victoria corre e se abraça na perna dele.

VICTORIA: - E você tá ficando velhinho.

MULDER: - Velho é o seu padrinho Skinner que até perdeu todos os cabelos de tão velho!

Mulder a ergue nos braços.

MULDER: - Vamos lá, você vai se atrasar.

VICTORIA: - Vocês dois vão me levar?

SCULLY: - Não perderíamos esse momento por nada do mundo.

Scully pega a máquina fotográfica. Tira uma foto de Victoria e Mulder.

VICTORIA: - Ah não mamãe! Vai todo mundo ficar rindo de mim! Não vai fotografar isso!

SCULLY: - Vou sim! Você é minha única filhinha. Eu quero ter todos os momentos da sua vida registrados.

MULDER: - Pegou sua mochila? Ahn?

VICTORIA: -(RINDO) Esqueci!!!


8:27 A.M.

Mulder e Scully sentados dentro do carro, na frente da escola. Mulder não tira os olhos do prédio.

SCULLY: - Mulder, por favor! Vamos embora!

MULDER: - Falei com a diretora. Eles garantem segurança total. Mas eu tenho medo de alguém pegar nossa filha.

SCULLY: - Mulder... Ninguém vai pegar Victoria. Acalme-se.

MULDER: - E eu devo realmente me acalmar? Minha filha está solta na sociedade! Nesse mundo de loucos, doentes, insanos...

Mulder liga o carro. Olha mais uma vez pra escola.

MULDER: - Estou acostumado com ela o dia todo do meu lado. Vou sentir falta.

SCULLY: -Eu também vou, mas Mulder, são apenas seis horas por dia!

MULDER: -Seis horas é um tempo infinito pra ficar longe dela.

SCULLY: - Mulder, nossa filha precisa viver. Estudar, crescer, conhecer outras crianças. Não pode querer mantê-la numa redoma de vidro só pra você. Isso é egoísmo.

MULDER: - Preferia mantê-la numa redoma de vidro longe de todas as perturbações e problemas do mundo.

SCULLY: - Mulder, deve sim se preocupar com ela, mas deve ensiná-la a ser uma pessoa forte. Não vamos viver pra sempre. Ela precisa saber sobreviver nessa selva. Se continuar com essa atitude, ela vai ser uma pessoa eternamente insegura. Sei que não faz por mal, mas precisa deixá-la andar com suas próprias pernas.


X-Files Investigations - 9:05 A.M.

Mulder abre a porta da agência rapidamente. O telefone tocando. Mulder abre a porta do escritório correndo. Scully entra.

MULDER: - Começamos cedo hoje, ainda nem tive tempo de ligar pro Rato, ele passou o fim de semana me ligando... (ATENDE) X-Files Investigations, bom dia... Com Mulder... Sim...

Scully ajeita sua mesa, olhando pra Mulder. Mulder olhando pra ela. Respira fundo.

MULDER: -(AO TELEFONE) Senhora, o termo correto é fenômenos paranormais... Sim... Sim... E-eu... (SUSPIRA) Senhora, eu posso ouvir sua história toda, do princípio ao fim, mas eu preciso realmente que venha até aqui ou que eu vá até sua casa, se for mais conveniente... Não posso iniciar uma investigação sem que o cliente queira se identificar... Não... Não, senhora... Vampiro? Um vampiro?

Scully ergue as sobrancelhas.

MULDER: -(AO TELEFONE) Não... Senhora... Se constatarmos que o fenômeno envolve a comunidade inteira, não vamos cobrar nada da senhora... Não... (PERDENDO A PACIÊNCIA) Senhora, nós custeamos toda a investigação se isso for comprovado... Senhora, por favor me escute. Nossos serviços incluem sigilo absoluto do seu nome, da sua imagem, não vai se envolver com nada, sua posição social não será comprometida... Não, minha senhora... Eu...

Mulder olha pro telefone. Desliga.

SCULLY: - O que houve?

MULDER: - Desligou na minha cara! Uma socialite. Quer relatar um incidente com um vampiro, mas não quer se identificar. Disse que mais pessoas estão envolvidas, West Virgínia inteira. Uma louca que enjoou dos chás beneficentes e resolveu encher o meu saco!

SCULLY: - Só ontem recebi três trotes... Um bem criativo: Vocês investigam fantasmas? Então descubram aonde anda o meu salário.

MULDER: - (RINDO/ ABRINDO A GAVETA) Acham que somos palhaços pelo ramo de negócio que temos... Me lembrei do FBI e dos trotes telefônicos dos agentes.

O telefone toca. Mulder olha indignado para o telefone. Atende.

MULDER: - (AO TELEFONE) X-Files Investigat... Com Mulder. Sim, sou detetive... Sim, senhor, sou competente no que eu faço... Sim, senhor. Tenho licença para investigar e estou filiado no sindicato de detetives particulares e demais organizações do ramo... Tenho, senhor. Tenho alvará de funcionamento, eu posso garantir que o serviço é legítimo.

Scully segura o riso.

SCULLY: - É hoje... Segunda-feira, dia dos clientes chatos...

MULDER: - (AO TELEFONE) Meu senhor, sou ex-agente do FBI, trabalhei pra eles durante 20 anos, cursei a academia de Quântico, sou formado em Psicologia por Oxford e tenho pós-graduação!!! (INCRÉDULO) Claro que eu tenho porte de arma também... Como assim matar?

Scully olha incrédula pra Mulder.

MULDER: - (AO TELEFONE/ ASSUSTADO) Não, não matamos nada e nem ninguém, senhor... (OLHA PRA SCULLY, DESCONFIADO) ... Sim... Pode me dizer seu nome? ... Ok, o senhor tem um nome a zelar, é artista... Sim, estou ouvindo...

Mulder se ajeita na cadeira. Scully acena negativamente com a cabeça. Liga o computador.

MULDER: - (AO TELEFONE) E como era essa coisa? ... (INCRÉDULO) Um o quê?

Scully pega uma pasta da pilha de pastas sobre a mesa. Começa a digitar.

MULDER: - (AO TELEFONE) Como assim "uma borboleta gigante"?

Scully para. Olha pra Mulder, nervosa.

MULDER: - (AO TELEFONE) Me descreva mais precisamente, senhor... Uma borboleta negra... Maior que um homem... Certo, estava voando no quintal da sua casa...

Mulder levanta-se, fisionomia de intriga. Scully continua digitando.

MULDER: - (AO TELEFONE) Senhor, agradeço que tenha ligado, mas preciso que venha até o nosso escritório ou eu vá até sua casa. Não posso abrir uma investigação sobre uma borboleta gigante, baseado num telefonema anônimo e...

Mulder desliga.

MULDER: -Desligou na minha cara. Ele não quer vir até aqui falar nada. Não quer se expor. Borboleta gigante? Agora somos entomologistas? Acha que o sindicato voltou e está colocando LSD na água das pessoas?

SCULLY: - Mulder, é normal que pessoas famosas ou com certo grau social não queiram se identificar ou que temam a garantia de um serviço sigiloso. Trabalhamos com fenômenos paranormais, considerados uma loucura pela sociedade. Vir até aqui é um sinal de suicídio social!

MULDER: - É. E eu preciso arrumar um jeito dessa gente rica vir até aqui, porque são esses que colocam o dinheiro na nossa porta. É deles que tiramos pra compensar os que não tem condições de pagar. Se é justo não sei. Mas eu tenho uma contabilidade pra fazer, folha de pagamento e manter os equipamentos que usamos custa muito dinheiro.

SCULLY: - O caixa está bem, Mulder. Se ele ligar de novo, aceite qualquer coisa. Vá até a casa dele se ele não quiser vir.

MULDER: - Tô ferrado! Deixar a mulher no caixa de uma empresa é querer ir à falência. Você não sabe negociar.

SCULLY: - Não? Então como eu consegui 30 dólares seus, apenas dizendo que os serviços sexuais não estão especificados no contrato matrimonial?

MULDER: - (DEBOCHADO) Dana Scully... Hoje eu só vou lavar os pés... Se quiser outra coisa, são 50 dólares.

SCULLY: - Muito caro. Encontro melhor e mais barato.

MULDER: - É? Onde?

SCULLY: - Não vou revelar minhas fontes, Dick Tracy. Sirva um café pra sua esposa enquanto ela termina de digitar as últimas pastas de Arquivos X surrupiadas pelo seu pai.

MULDER: - Não tem "por favor"?

SCULLY: - Não. Você não faz nada além da sua obrigação de marido.

MULDER: - Chata! De noite vou cobrar suas "obrigações" de esposa.

Scully arremessa uma borracha na testa dele.

MULDER: - Au!


11:19 A.M.

Mulder analisa algumas fotos no computador de uma mulher toda arranhada, enquanto fala ao telefone.

MULDER: - (AO TELEFONE) Langly, assim que Frohike chegar, vocês colocam as câmeras e os microfones e deem o fora dessa casa o mais rápido que puderem... Sim, tô vendo as fotos da cliente, parece mesmo um ataque demoníaco... Que padre? Não temos um padre na equipe, a Baba vai lá e bota o demônio pra correr... Não tem garantias que o demônio não vá voltar, diz pra ela. Isso ainda não é uma ciência, quanto mais exata! ... Se ela reclamar, pode dizer que nosso serviço é investigar, resolver é um bônus que nós damos. Se ela não quiser o bônus, pode chamar outra pessoa pra expulsar... Sim, pode dizer que após as gravações eu mesmo vou pessoalmente na casa investigar, acha que vou perder o doce e deixar na mão de vocês que não entendem do assunto? ... Apenas coloque as câmeras e os microfones, essa é a parte de vocês, o resto é comigo e com a Scully.

Mulder desliga.

MULDER: -(RESMUNGANDO) Droga, será que o Rato já acordou? O que ele quer comigo? Quando não era meu vizinho, a gente se via mais vezes!

Mulder olha pra foto de Victoria em sua mesa. Nervoso, angustiado. Batidas na porta. Mulder levanta-se. Abre a porta. Ivan parado ali, com uma pasta de papéis, ajeitando os óculos "John Lennon".

IVAN: - ... Estou procurando uma agência de detetives particulares.

MULDER: - É aqui mesmo. Entre.

Os dois ficam se olhando como quem já se conhece.



BLOCO 2:

Ivan entra. Observa Mulder.

IVAN: - Eu conheço você de algum lugar.

MULDER: - É, eu sou muito popular nos hospícios...

IVAN: -(RINDO) Mulder. É isso! Alguns anos atrás, Wilmington, na Carolina do Norte. Você queria socar um tal de Douglas enquanto babava pela minha Kombi!

Mulder sorri. Os dois trocam um aperto de mão.

MULDER: -Esqueci seu nome...

IVAN: - Ivan.

MULDER: - Isso mesmo. Então, Ivan, espero que não tenha vendido a Kombi.

IVAN: - Não. Pra dizer a verdade ela está lá embaixo. E você não devia estar no FBI?

MULDER: - As coisas mudaram. Me acompanha num café?

IVAN: - Não, muito obrigado. Saiu do FBI?

MULDER: - Cansei do FBI. Cansei da minha vida, resolvi parar tudo e começar do zero. Me sinto bem melhor. Até meus cabelos brancos deram um tempo pra nascer.

Mulder serve um café.

IVAN: - Fiz o mesmo há cinco anos. Lembra-se que minha mulher estava grávida? Um filho requer mais cuidados. Precisei sair da estrada e fixar residência em algo que não tivesse rodas. Estou morando em uma pequena fazendo em Ohio. Pelo menos tem natureza, um lago e leite puro. Lembro que sua esposa também estava grávida.

MULDER: -Tivemos uma menina, chama-se Victoria. E vocês?

IVAN: - Um menino, o Kevin.

MULDER: - E o que faz perdido por aqui, Ivan?

Mulder leva a caneca à boca.

IVAN: - Mulder, o negócio é o seguinte: Estou aqui representando 89 pessoas que não querem expor suas caras. Há mais pessoas envolvidas, mas não quiseram participar disso. (RETIRA UMA LISTA DA PASTA) Aqui estão os nomes, e nem é preciso que eu peça total sigilo. Entramos num acordo de que eu me exporia e dividiríamos o custo das investigações.

MULDER: - Com certeza terão toda a privacidade. É ética da profissão.

IVAN: - Sábado passado, Joan e eu estávamos vindo de Ohio pra um show em West Virgínia, quando aconteceu uma coisa estranha. O primeiro incidente me inclui e mais algumas pessoas. Não posso afirmar por todas as outras, pois elas não prestaram atenção. Mas tivemos a nítida sensação de termos entrado num vórtice temporal... Demos voltas pela estrada passando sempre no mesmo caminho. Entende?

MULDER: - Perfeitamente.

IVAN: - Segundo incidente. Chegamos na Ponte Silver. Então avistamos uma nave sobrevoando a ponte. O trânsito todo na rodovia ficou parado. Maior caos. A nave sumiu. Minutos depois, as pessoas começaram a correr pra fora dos carros. Havia alguma coisa voando sobre nossas cabeças.

MULDER: - Voando? Não vai me falar sobre borboletas negras.

IVAN: - Não sei se aquilo se parecia com uma borboleta, mariposa ou morcego gigante. Mas voou por cima dos carros, mais de cem pessoas viram o fato.

MULDER: - Só nesta manhã recebi mais de dez telefonemas anônimos falando sobre um vampiro na Virgínia, borboletas assassinas... Agora estou ligando os fatos.

Ivan coloca os papéis sobre a mesa.

IVAN: - Eu sempre tomo a frente nas causas humanas... Infelizmente, quando tentei fotografar a criatura, ela estava longe demais e de costas pra câmera. Nem sei se vai conseguir ver algo além das luzes dos carros. Estava nublado.

Ivan tira uma foto da pasta e entrega. Mulder toma a foto nas mãos.

IVAN: - Mulder, o problema maior é que Joan viu essa coisa ontem, pousada numa árvore, perto da janela do hotel em que estamos. A criatura ficou olhando pra ela. Joan acenou e ele voou. E depois disso, começamos a receber telefonemas estranhos.

MULDER: - ... Não dá pra ver nada muito nítido.

Mulder pega uma lupa, analisando a foto.

MULDER: - (SORRI/ EMPOLGADO) Uau! Parece um humanoide com asas enormes! Vou ter que ampliar isso... Que telefonemas estranhos?

IVAN: - Barulhos estridentes. A voz é de um homem, mas não é humana. Ele diz algo como uma charada profética. Hoje cedo, ele falou pra mim, por telefone, umas coisas que quando vim pra cá associei com um acidente enorme de trânsito que ocorreu há poucas horas perto do Pentágono.

Mulder arregala os olhos. Larga a xícara na mesa e senta-se, procurando algo no computador. Ivan observa o ambiente. Mulder vira o monitor pra Ivan.

MULDER: - (EMPOLGADO) Pela sua foto e o que você disse, é ele! Ivan, esse é um caso que eu sempre desejei investigar, mas achei que nunca teria a oportunidade. De 1966 à 1967, em Point Pleasant, West Virgínia, mais de cem testemunhas viram uma criatura que denominaram de Mothman, o Homem Mariposa. Sua aparição estava ligada a catástrofes, como acidentes de avião e até o desabamento da ponte Silver que matou 38 pessoas, possivelmente 46, no dia 15 de novembro de 1967, pouco depois das cinco da tarde...

Ivan arregala os olhos.

MULDER: - Foi descrito como tendo entre dois metros ou dois e meio de altura, com grandes asas como morcego e enormes olhos vermelhos, sem qualquer cabeça detectada. Os olhos poderiam ser visto de entre seus ombros. O único som que emitia era um grito estridente, penetrante. O Homem Mariposa, depois da queda da ponte, nunca mais foi visto por aqui, masPoint Pleasant virou cidade turística, tem até uma estátua do Homem Mariposa, souvenires e museu, atraindo curiosos de toda a parte. Há alguns relatos esparsos de avistamentos dele em outras partes do mundo, incluindo antes da explosão de Chernobyl. Aonde você estava que não conhece essa história? Todos os americanos conhecem!

IVAN: - Mulder, eu não sou americano. Sou brasileiro. Minha mulher que é americana, e como sempre teve dificuldades em falar o meu nome, decidi usá-lo com a pronúncia inglesa, "Aivan". Quando nos casamos, eu coloquei o sobrenome dela, Adams. Coisa de casal alternativo. Acha que é a mesma criatura?

MULDER: - Só não entendo por que ele voltou. O fato é que aonde o Homem Mariposa aparece, é um presságio de desgraça coletiva. Eu precisaria conversar com as pessoas contatadas por ele. Você, como o procurador das vítimas, poderia negociar isto com elas...

O telefone toca.

MULDER: - Só um minutinho... (ATENDE) X-Files Investigations, bom dia... (PÂNICO) Da escola? O que aconteceu? ... Estou indo pra aí. (DESLIGA/ NERVOSO) Ivan, podemos conversar sobre isso, quero pegar esse caso. Mas preciso sair, minha filha está com problemas.

IVAN: - Espero que não seja nada grave...

MULDER: - Eu estava pressentindo que alguma coisa ia acontecer. Eu ligo depois, me deixa seu número. O caso é meu, ok? Não mostre isso pra ninguém!

Mulder pega o casaco e sai da sala. Ivan pega uma caneta e um papel escrevendo o número do celular.


Escola Abraham Lincoln – Virgínia - 12:15 P.M.

Sala da direção. A diretora sentada à escrivaninha. Mulder sentado à frente dela.

DIRETORA: - Tenho certeza de que concordará comigo. Posso enviar uma carta de recomendação. Existem escolas especiais para crianças com necessidades especiais.

MULDER: - (IRRITADO) Está chamando minha filha de retardada?

DIRETORA: - Senhor Mulder, não chamei sua filha de retardada. Mas esta escola não tem a qualificação que uma criança como a sua filha necessita. Ela não acompanha a aula, torna-se lenta, atrapalha a aula com comentários nada condizentes pra sua idade, recusa-se a aprender o alfabeto porque já sabe, e está assustando os professores e os coleguinhas. Eu lamento muito.

MULDER: - Minha filha é normal, não tem nenhum problema. O único problema é que ela é filha única, não temos outros filhos, o que a faz conviver num mundo de adultos.

DIRETORA: - Senhor Mulder, sua filha não é normal. Hoje pela manhã a professora veio até aqui nervosa. Sua filha, simplesmente se levantou interrompendo a aula e falou que era pra ela não voltar pra casa hoje porque ia sofrer um acidente de carro. No início da tarde, ligaram do hospital. Todos aqui estão assustados.

MULDER: - (FECHA OS OLHOS) ...

DIRETORA: - Não vou lidar com esse tipo de coisa na minha escola. Os professores estão com medo, as crianças também... Como educa sua filha? Dentro de feitiçaria e adivinhação? Ela fala coisas estranhas sobre as pessoas! Fomos obrigados a buscar informações sobre o senhor e... Elas não foram muito condizentes com o tipo de pai que uma criança precisa. Nem seu histórico escolar ou profissional foi a seu favor. Lamento, mas esta escola tem um nome a zelar e por aqui só passam pessoas com um certo nível...

MULDER: - (INDIGNADO) Ah! Certo nível. Pois eu vou descer o nível com a senhora. Quer dizer que agora o problema sou eu? Eu não sei educar minha filha? O que faz aqui? Ahn? É agente do FBI pra fuxicar a vida dos outros? O meu trabalho afeta a sanidade de Victoria, é isso? Que tipo de pedagogia vocês aplicam aqui? A pedagogia da censura e da discriminação?

DIRETORA: - Estou pensando em chamar uma assistente social. Você e sua esposa não têm condições de criar uma criança, estão transformando a menina numa pessoa bizarra.

MULDER: - (IRRITADO) Sabe de um coisa? Vá se danar, você e a sua maldita escola! Minha filha não precisa passar por isso!

Mulder sai da sala, batendo a porta.

Corte.


Mulder caminha pelo corredor. Aproxima-se da porta da sala. Olha pelo vidro. A turma cheia de crianças. O desenho da letra A no quadro negro. As crianças copiam atrapalhadas. Victoria isolada ao fundo. Ninguém sentado ao lado dela.

PROFESSORA: - Portanto essa é a primeira letrinha que vamos aprender. A letra A, de Amor. Quero que desenhem a letra A agora.

VICTORIA: - Ah professora, isso é chato. Não dá pra desenhar outra coisa? Posso desenhar a escola?

PROFESSORA: - Não. Eu quero a letra A! Quando chegar no E, você desenha a escola.

VICTORIA: - E quando chegar no Z posso desenhar uma zebra? Que coisa mais óbvia! Quando vamos fazer uma redação?

PROFESSORA: - Victoria, fique quieta ou vou colocar você de castigo!

Victoria faz beiço. Pega os lápis de cor.

PROFESSORA: - O que é o amor? Alguém sabe dizer o que é o amor?

Victoria levanta a mãozinha.

PROFESSORA: - Você não Victoria. Você já sabe a resposta. Alguém mais?

MENINO: - O amor é o amor.

MENINA: - Ele vem do coração.

Ninguém mais levanta a mão. Victoria abaixa a cabeça, triste. Mulder segura as lágrimas.

PROFESSORA: - Ok. Diga pra turma o que é o amor, Victoria.

VICTORIA: - Professora, mas como alguém pode explicar o que é o amor? O amor é uma coisa que as pessoas sentem, mas cada uma sente de um jeito.

PROFESSORA: - (IRRITADA) Victoria, poderia ser mais objetiva e dizer que o amor é um sentimento humano?

VICTORIA: - ... Não é não... Os animais também amam.

PROFESSORA: - Como pode dizer isso?

VICTORIA: - Eu sei que eles amam, professora.

PROFESSORA: - Ok, Victoria. Você se julga esperta. Me prove então que os animais amam.

As crianças riem.

VICTORIA: - Quando você estava doente na casa da sua mãe, ano passado, lembra que o cachorrinho da sua mãe deitava aos pés da cama para fazer companhia pra você?

A professora fica em choque. Mulder fecha os olhos.

VICTORIA: - Era porque ele te amava e estava triste em saber que você estava com câncer.

A professora sai porta à fora da sala, aos prantos. Todos olham pra Victoria com repulsa.


Residência dos Mulder – 1:23 P.M.

Mulder entra em casa. Victoria entra atrás dele e sobe as escadas, triste. Scully sai da cozinha e olha pra Mulder.

SCULLY: - Onde estava? Por que ela chegou cedo?

MULDER: - Precisamos conversar. Eu e você precisamos conversar e depois ter uma conversinha com Victoria.

SCULLY: - Primeiro dia de aula e ela já aprontou?

MULDER: - Não, ela não aprontou. Mas precisamos instruí-la em algumas coisas porque a inocência dela não a faz ver que magoa e assusta as pessoas. A diretora acha que nossa filha não é suficientemente boa pra estar naquela escola. Que ela é uma retardada.

Scully senta-se no sofá. Perde os olhos no nada. Mulder respira fundo, senta-se ao lado dela. Olha pra Scully, preocupado com ela.

MULDER: - ... Eu já vi essa sua fisionomia antes e começo a me preocupar. Se acha que é demais pra sua cabeça, e-eu... Eu tomo conta disso sozinho... Deixa que eu resolvo, não se envolva e...

Scully se levanta, revoltada. Mulder desce as mãos pelo rosto, respirando fundo.

SCULLY: - Você passa nove meses tomando leite condensado escondida do marido, grita feito louca durante o parto, acorda várias vezes na noite para colocar seus peitos pra fora, limpa caquinhas, ensina a caminhar e uma vaca qualquer pensa que sabe sobre a sua filha? Não, ela não sabe! Eu sei quem é a minha filha!

Scully pega a bolsa.

SCULLY: - Não mesmo! Não vou tolerar esse desaforo! Eu vou encontrar uma escola digna pra Victoria! Mas antes aquela mulher vai ouvir muito! Retardada é a mãe dela! A minha filha não é retardada!

Scully sai porta à fora. Mulder põe as mãos no rosto.

Corte.


[Som: Michael Jackson – I'll be There]

Mulder empurra a porta do sótão lentamente. Victoria sentada na cama, cabisbaixa. Mulder entra. Aproxima-se do toca-discos e diminui o volume.

MULDER: - Eu sabia que devia guardar os discos do Jackson Five... Esse eu ganhei da minha mãe.

Victoria continua cabisbaixa. Mulder senta-se ao lado dela. Estende a mão pra ela.

MULDER: - (CANTANDO) I'll reach out my hand to you... I'll have faith in all you do... Just call my name and I'll be there...

(Eu estenderei minha mão a você... Eu terei fé em tudo o que você faz... Apenas chame meu nome e eu estarei lá.)

Victoria segura a mão do pai.

VICTORIA: - (CANTANDO/ SORRI) I'll be there...

Mulder envolve o braço nela. Victoria olha pra ele.

MULDER: - Sempre, pra te proteger, pra te ouvir, pra te ajudar, pra te amar... Eu estarei lá. Eu sou o seu pai, o seu melhor confidente, seu maior amigo.

Victoria suspira e se abraça nele.

MULDER: - Quer conversar sobre isso?

VICTORIA: -Papai, eu não quero mais ir pra escola. Não gostei da escola. É um lugar chato, as pessoas brigam com você.

MULDER: - Você não vai mais pra aquela escola. Eu prometo. Sua mãe e eu conversamos. Vamos encontrar outra escola pra você. Mas você precisa ir pra escola, pra aprender coisas...

VICTORIA: - Mas eles ensinam tudo errado e falam de coisas bobas!

MULDER: - Não, Pinguinho... Acontece que você vive comigo e sua mãe. Nós somos adultos, você sempre teve contato com coisas de adultos, livros de adultos, teorias de adultos... Não há outras crianças aqui e isso dificulta um pouco as coisas pra você.

VICTORIA: - Então eu quero um irmãozinho.

MULDER: - (DISFARÇA) Quando eu tinha sua idade, também não era popular...

VICTORIA: - (SORRI) Você fazia coisas estranhas?

MULDER: - Não. Eu era todo estranho. Quieto, isolado... Várias professoras chamaram meus pais pra me levarem ao psicólogo, elas acreditavam que eu tinha problemas mentais.

VICTORIA: -Gente boba! E papai, ninguém quer ser meu amigo. Todo mundo tem amigos na escola, mas eu não tenho. Ninguém quer sentar comigo!

MULDER: - Filhinha... (SEGURA A MÃO DELA) Existe uma coisa no mundo chamada preconceito. Preconceito é discriminação. O que você sofre é uma discriminação por ser diferente. As pessoas discriminam o que não se encaixa no mundinho delas. Existe preconceito pela sua roupa, pela sua religião, pela cor da sua pele...

VICTORIA: - Por que as pessoas fazem isso, papai?

MULDER: - Eu não sei, Pinguinho. Também não entendo. Mas se você é diferente, tente entender as pessoas que não aceitam a diferença. Seja você, mas certas coisas você não pode sair fazendo por aí. Sei que não faz por maldade. Mas esses talentos especiais que você tem devem ser menos expostos, entende? Não deveria falar presságios, as pessoas se assustam com isso. Sei que é difícil ver a desgraça dos outros e não poder dizer nada, mas é assim que a vida funciona. É o destino dos outros. Não deve intervir.

VICTORIA: - Como a lei da Federação que o Sr. Spock fala?

MULDER: - (SORRI) Sim. Como a Lei da não interferência de Jornada nas Estrelas.

VICTORIA: - Ok. Mas eu só queria ter um amigo.

MULDER: - Vem cá... (A ABRAÇA) Você vai ter amigos. Até eu que sou doidão tenho amigos. O Frohike, o Langly, o Byers... Até o Krycek virou meu amigo.

VICTORIA: - Eles iam na escola com você?

MULDER: - Não. Eu os conheci quando já eram adultos. Eles também são doidões, por saberem o que é ser discriminado, eles são amigos de outro doidão discriminado como eles. Entende?

VICTORIA: - (AFIRMA COM A CABEÇA) ...

MULDER: - Existem muitas crianças por aí que também sentem o que você sente... Não fique triste não, Pinguinho. Isso passa.

VICTORIA: - ... (SECA AS LÁGRIMAS) Eu acredito em você, papai.

MULDER: - Você só quer ter um amigo. Eu conheço alguém que dizia isso. Acho que vou apresentar ele pra você.

Mulder se levanta. Victoria o observa curiosa. Mulder puxa uma fita de vídeo da estante. Olha maquiavélico pra Victoria. Ela começa a rir. Mulder faz suspense com o corpo.

MULDER: - O que temos aqui? Ahn?

VICTORIA: - Não sei.

MULDER: - Hum... Vou te apresentar esse sujeito.

VICTORIA: - Ele fazia coisas estranhas?

MULDER: - Hum... Ele era um bom menino. Ele ajudava as pessoas. Salvava as pessoas de muitas encrencas. Mas as crianças e os adultos fugiam dele. Quando ele aparecia, todos fugiam com medo, nem deixavam o coitado se defender.

VICTORIA: - Tadinho. Mas por que faziam isso com ele? Preconceito?

MULDER: -É. Preconceito porque ele estava morto.

Victoria se encolhe na cama apavorada. Mulder sorri maquiavélico, colocando a fita no vídeo.

MULDER: - Tá vendo? Agora você discriminou.

VICTORIA: - Não vai vir com aquilo de o que aprendemos com isso, né?

MULDER: - Detesto essa frase! Eu nunca aprendi nada com ela. Não vamos usar esse tipo de frase aqui dentro de casa. Ela está proibida.

VICTORIA: - (SORRI) Sabia que eu te amo, pedaço de mim?

Mulder pula na cama. Victoria ri. Mulder se deita, batendo no colchão. Ela se deita ao lado dele, se recostando no ombro do pai.


4:39 P.M.

Scully entra no sótão. Mulder e Victoria deitados na cama, rindo, assistindo a fita. Scully olha curiosa pra TV.

SCULLY: - (SORRI) Ah!!!!!! Eu adoro o Gasparzinho!

VICTORIA: - Tadinho, mamãe, ele só queria ter um amigo. Ninguém entendia ele.

Mulder se levanta. Beija a testa da filha.

MULDER: - Termina de assistir por mim. Mamãe e papai precisam conversar.

Corte.


No quarto, Mulder sentado na cama, morde o polegar, preocupado. Scully dobra algumas roupas dele colocando na mala.

SCULLY: - Mulder, acho muito interessante que vá pra Point Pleasant pegar esse caso. Podemos assim enriquecer a informação que as pessoas têm sobre o Homem Mariposa. Vou fechar o nosso livro com esse assunto. Não queríamos mais algum assunto pra abordar no nosso primeiro livro? Então?

MULDER: - ... Não posso ir pra lá com essas coisas acontecendo aqui em casa.

SCULLY: - Mulder, me deixe ser responsável? Pode ser? Eu sou a mãe dela. Eu vou tratar de escolher a dedo uma escola, vou conversar com Victoria de mãe pra filha e quando você voltar tudo estará resolvido. Isso é assunto de mulher pra mulher. Menino não entra.

MULDER: - ... Pobrezinha da minha filha. Não gosto de vê-la triste, sendo discriminada. Isso dói dentro de mim porque eu senti isso na carne. Me culpo por ela ser assim.

SCULLY: - Não se culpe, sua filha não é nenhuma coitadinha, ela é esperta, tem saúde e é muito, mas muito especial. Não sinta pena dela, Mulder. Sinta orgulho. Eu não a trocaria por nenhuma criança nesse mundo!

MULDER: - (SORRI) Nem eu... Vamos fazer assim. Point Pleasant é aqui do lado. Eu venho em dias alternados.

SCULLY: - Ok, Mulder, se isso vai deixar você mais tranquilo...

MULDER: - Vou tomar um banho.

Mulder vai pro banheiro. Scully fecha a mala. O celular de Mulder toca.

SCULLY: - Mulder, o Krycek tá ligando!

MULDER: - Atende pra mim!


Residência de Barbara Wallace - 5:23 P.M.

Krycek entra na cozinha, fechando a camisa. Mulder sentado ao balcão da cozinha, comendo biscoitos. Barbara serve cafés.

KRYCEK: - Procurei você o final de semana inteiro! Não sabia que ficou tão importante e que agora preciso marcar hora na sua agenda ocupadíssima.

MULDER: - (DEBOCHADO)Nossa "amorzinho", isso tudo é ciúme? Eu fui acampar com mulher e filha, não dava pra levar você, amante a gente não leva com a família. Prometo que vou dar mais atenção pra você...

Barbara ri, enquanto coloca biscoitos num pote plástico. Krycek faz careta pra Mulder.

KRYCEK: - Vai dar atenção pro Skinner lá em Brokeback Mountain!

MULDER: - (DEBOCHADO) É Barbara, ele ficou com ciúmes mesmo. Eu levo a fama no bairro, mas é ele quem assisteBrokeback Mountain!

Barbara tem um acesso de riso.

KRYCEK: - Assisti porque a Barbara queria rever!

MULDER: - (DEBOCHADO)Tá, não precisa se justificar pra mim, "Ratoncito". Eu entendo...

Krycek pega a caneca de café.

KRYCEK: - Eu sei que entende. Você é bem "entendido", Mulder.

MULDER: - (RINDO) Tá sabendo do Homem Mariposa?

KRYCEK: - Era o que eu ia falar pra você, quando a coisa estourou. Se você tivesse atendido o celular.

BARBARA: - Já contei pra ele. Mulder, que loucura! Peguei meu cinegrafista e entrevistamos as pessoas...

MULDER: - Tem cópia? Quero a gravação.

KRYCEK: - Loucura foi na delegacia! Os policiais começaram a orientar as pessoas a darem queixa e aquilo virou um caos! Nem era problema do nosso distrito, mas o distrito de Point Pleasant ficou abarrotado de gente, tivemos que mandar policiais e viaturas pra ocorrência.

Krycek veste o coldre. Coloca a arma.

MULDER: - Vai sair quando eu chego? Quanta falta de educação!

KRYCEK: - Eu entro às seis hoje. Por causa desse Homem Mariposa, vou trabalhar mais horas.

Krycek pega um biscoito.

MULDER: -Scully e eu estamos tendo problemas, então estou encarando o serviço sozinho porque Scully precisa encontrar uma escola pra Victoria. Com urgência, pra ela não perder o ano letivo. Já foi difícil encaixá-la com seis anos incompletos, e agora está mais difícil encontrar uma escola.

BARBARA: - Mas vocês não tinham encontrado uma?

MULDER: - Sim, mas precisei tirá-la de lá. Victoria é criança, juro que tentamos orientá-la a não fazer as coisas que faz, mas... A diretora a chamou de retardada na minha frente.

KRYCEK: - Quê? E você levou desaforo pra casa?

MULDER: - Não. E nem a Scully. E certamente isso corre por entre escolas, entendem? Ela ameaçou chamar o serviço social, acha que Scully e eu não somos pais decentes, ensinamos "bruxaria" pra nossa filha.

BARBARA: - Mas que absurdo! Eu enchia essa idiota de desaforos e metia meu guarda-chuva na cabeça dela!

MULDER: - Peguei o caso do Homem Mariposa. Um conhecido meu chegou lá com 89 assinaturas. O problema é que existem mais testemunhas que não querem se envolver e eu nem faço ideia de quem sejam. E estou sem Scully pra ajudar, uma detetive a menos, estou sozinho. Rato, você vai casar comigo ou vai só ficar no flerte? Hum? Ou dá ou desce.

Krycek olha sério pra Mulder. Mulder olha pra ele piscando os olhos e com carinha de pidão.

KRYCEK: - Admite, Mulder, você gosta de trabalhar comigo. Nossa parceria funciona bem. Passa mais tarde na delegacia. Eu entrego pra você os relatórios, os nomes de quem estava no incidente e você lê, tira cópia e nega tudo. Barbara, posso casar com o Mulder?

BARBARA: - (DEBOCHADA)Impressionante! Tá me enrolando pra casar há quatro anos e aí o Mulder chega e você casa com ele, assim, de primeira?

Mulder começa a rir.

BARBARA: - Quando não é o Norris é o Mulder tirando o meu homem de dentro de casa. Mulder, você está atrapalhando a minha vida sexual, sabia? E vou fazer o quê? Mas os dois prestem atenção: exclusividade minha, ok? Eu quero informações que as outras emissoras não têm.

KRYCEK: - Sem nomes dos envolvidos.

BARBARA: - Ok, sem nomes, mas qualquer assunto pertinente vocês dois vão me dizer.

MULDER: - É justo se sair o nome da minha agência.

BARBARA: - Propaganda gratuita é?

MULDER: - Claro. Vivemos num país capitalista! Vamos negociar.

Krycek começa a rir.

BARBARA: - Seu nome e o nome da agência na matéria. Informação só pra mim. Fechado?

MULDER: - Fechado.

BARBARA: - Tem um filme com o Richard Gere sobre o Homem Mariposa, chamado "A Última Profecia". Acho que vou rever hoje.

KRYCEK: - Quando eu digo que você é maluquinha...

Krycek pega a jaqueta nova de couro e o pote plástico com biscoitos. Troca um beijo com Barbara.

BARBARA: - Hum... Meu beijinho doce...

KRYCEK: - Até amanhã de manhã, Malyshka. E não tenha pesadelos com o filme.

MULDER: - E eu? Não ganho beijinho doce?

Krycek pega um biscoito e enfia na boca de Mulder. Sai rindo alto e fechando a porta.

MULDER: - (COM A BOCA CHEIA) É, o boca de glicose não me ama mais. Tem mais café? Depois me empresta o filme?

BARBARA: - (DEBOCHADA) Qual deles? Brokeback Mountain?


Residência dos Mulder - 9:42 P.M.

Mulder entra no quarto de Victoria. Ajeita o edredom sobre ela.

VICTORIA: - Você vai viajar?

MULDER: - Pra bem pertinho. Se precisar do seu pai, pega o telefone e liga pra ele. Chego em menos de meia hora. É que preciso ficar lá pra investigar um caso.

VICTORIA: - (SORRI) Quero um celular.

MULDER: - Ah, que espertinha! Você tá muito nova pra ter celular... (PENSATIVO/ PARANOICO)... Embora, eu acho que você devia ter algum meio de se comunicar comigo pra dizer se está em perigo...

VICTORIA: - Seu bobão. Eu me comunico com você pelo meu coração.

MULDER: - (SORRI) É. Pelo menos não tem tarifa e nem aviso de fora da área de cobertura.

Mulder ajeita a raposa ao lado dela. Beija-a. Sai do quarto. Scully entra. Senta-se na poltrona.

VICTORIA: - Hoje é dia de historinha da mamãe. Me conta uma historinha bem legal. Pode ser de terror.

SCULLY: - Terror é gênero exclusivo do seu pai. Eu não sei quem escreveu esta historinha, mas foi a sua madrinha quem me contou. Ela fala sobre a amizade. Sobre um cavalinho e uma borboleta que moravam na floresta.

Victoria se ajeita, fechando os olhos. Scully afaga o cabelo dela.

SCULLY: - Mesmo não tendo nada em comum, num certo momento de suas vidas, os dois se aproximaram e ficaram amigos. A borboleta era livre, voava por todos os cantos da floresta enfeitando a paisagem. Já o cavalinho não era um bicho que pudesse viver entregue à natureza, ele tinha limitações. Uma vez colocaram nele um cabresto e a partir daí sua liberdade acabou.

VICTORIA: - O que é isso aí, mamãe?

SCULLY: - Cabresto?

VICTORIA: - Humhum.

SCULLY: - É aquela coisa que colocam na boca dos cavalos para montar, para amarrá-los...

VICTORIA: - Entendi. Tiraram a liberdade do cavalinho... Continua.

SCULLY: - Já a borboleta, mesmo com muitos outros amigos e com a liberdade de voar por toda a floresta, gostava de fazer companhia ao cavalinho, porque lhe agradava ficar ao lado dele e não era por pena, era mesmo por companheirismo, por afeição, por dedicação e carinho.

VICTORIA: - (SORRI) ...

SCULLY: - Assim, todos os dias, a borboleta ia visitar o cavalinho. Quando chegava, sempre levava um coice, depois então um sorriso. Entre um e outro, a borboleta optava por esquecer o coice e guardar dentro do seu coração o sorriso. O cavalinho sempre insistia com a borboleta que lhe ajudasse a carregar o seu cabresto por causa do seu enorme peso. Ela, muito carinhosamente, tentava de todas as formas ajudá-lo, mas isso nem sempre era possível, por ser ela uma borboleta, uma criaturinha tão frágil.

VICTORIA: - Se ela pudesse ela carregava, né mamãe?

SCULLY: - Com toda a certeza. Então os anos se passaram e numa manhã de verão a borboleta não apareceu para visitar o cavalinho. O cavalinho nem percebeu, preocupado que ainda estava em se livrar do cabresto. E vieram outras manhãs e mais outras e milhares de outras, até que chegou o inverno e o cavalinho sentiu-se só e finalmente percebeu a ausência da borboleta. Resolveu então sair do seu canto e procurar por ela.

VICTORIA: - ... (TRISTE)

SCULLY: - Ele caminhou por toda a floresta a observar cada cantinho onde a borboletinha poderia ter se escondido e não a encontrava. Cansado, ele se deitou embaixo de uma árvore. Logo em seguida um elefante se aproximou e lhe perguntou quem era ele e o que fazia por ali. (MUDA A VOZ) "Eu sou o cavalinho do cabresto e estou a procura de uma borboleta que sumiu."

VICTORIA: - (SORRI)

SCULLY: - (MUDA A VOZ) "Ah, é você então o famoso cavalinho?" (MUDA A VOZ) "Famoso, eu?" (MUDA A VOZ) "É que eu tive uma grande amiga que me disse que também era sua amiga e falava muito bem de você. Mas afinal, qual borboleta que você está procurando?" (MUDA A VOZ) É uma borboleta colorida, alegre, que sobrevoa a floresta todos os dias visitando todos os animais amigos." (MUDA A VOZ) "Nossa, mas era justamente dela que eu estava falando. Não ficou sabendo? Ela morreu e já faz muito tempo."

Victoria olha com tristeza pra Scully.

SCULLY: - (MUDA A VOZ) "Morreu? Como foi isso?" (MUDA A VOZ) "Dizem que ela conhecia, aqui na floresta, um cavalinho, assim como você e todos os dias quando ela ia visitá-lo, ele dava-lhe um coice. Ela sempre voltava com marcas horríveis e todos perguntavam a ela quem havia feito aquilo, mas ela jamais contou a ninguém. Insistíamos muito para saber quem era o autor daquela malvadeza e ela respondia que só ia falar das visitasboas que tinha feito naquela manhã e era aí que ela falava com a maior alegria de você."

Victoria enche os olhos de lágrimas.

SCULLY: - Então, nesse momento, o cavalinho já estava derramando muitas lágrimas de tristeza e de arrependimento. (MUDA A VOZ) "Não chore, meu amigo, sei o quanto você deve estar sofrendo. Ela sempre me disse que você era um grande amigo, mas entenda, foram tantos os coices que ela recebeu desse outro cavalinho, que ela acabou perdendo as asinhas, depois ficou muito doente, triste, sucumbiu e morreu." (MUDA A VOZ) "E ela não mandou me chamar nos seus últimos dias?" (MUDA A VOZ) "Não, todos os animais da floresta quiseram lhe avisar, mas ela disse o seguinte: "Não perturbem meu amigo com coisas pequenas, ele tem um grande problema que eu nunca pude ajudá-lo a resolver. Carrega no seu dorso um cabresto, então será cansativo demais pra ele vir até aqui."

VICTORIA: - ... (SECA AS LÁGRIMAS) Entendi.

SCULLY: - (SORRI/ AFAGANDO O CABELO DA FILHA) Portanto, Docinho, você pode aceitar os coices que lhe derem quando eles vierem acompanhados de beijos, mas em algum momento da sua vida, as feridas que eles vão lhe causar, não serão mais possíveis de serem cicatrizadas. Mas assim é a vida, assim são as pessoas e precisamos sempre dar o melhor de nós pra elas, mesmo que elas sejam como o cavalinho, pois todos nós temos um cavalinho e uma borboleta dentro da gente. Quanto ao cabresto que você tiver que carregar durante a sua vida, não culpe ninguém por isso, afinal muitas vezes, foi você mesma que o colocou.

Scully beija Victoria. Victoria olha pra ela.

VICTORIA: - Mamãe.

SCULLY: - Sim.

VICTORIA: - Eu te amo.

Scully sorri. Beija-a novamente, ajeitando o edredom.

SCULLY: - Também amo você, minha borboletinha.

Scully sai, deixando o abajur aceso. Deixa a porta entreaberta. Victoria vira-se pra janela, olhando pras estrelas.

VICTORIA: - Borboleta e cavalinho... Entendi.

Victoria fecha os olhos, abraçando a raposa de pelúcia.


Delegacia de Polícia - 10:41 P.M.

Mulder sentado numa cadeira, tomando café e lendo os relatórios. Norris entra. Mulder fecha a pasta rapidamente e disfarça. Se levanta.

NORRIS: - Quem é você?

MULDER: - Mulder, detetive particular. Amigo do Krycek.

Mulder estende a mão. Norris o cumprimenta.

NORRIS: - Entende de homicídios?

MULDER: - Fui agente do FBI por mais de vinte anos, trabalhei na crimes violentos. Cansei do FBI.

NORRIS: - Quem não cansa do FBI? Muita politicagem! Está aqui atrás de emprego? Contratado. Arrumo outra mesa, mas aquela lá é do Sanders e vai continuar sendo dele. Checov precisa de um parceiro mesmo.

MULDER: - (SORRI) Agradeço, mas isso não é mais pra mim. Eu só estou esperando o "Checov" voltar.

NORRIS: - Droga... Pensei que tinha resolvido um problema. Tem certeza?

MULDER: - Absoluta.

NORRIS: - Meio turno?

MULDER: - Não.

NORRIS: - Assessoria?

MULDER: - Tipo?

NORRIS: - Tipo se o bicho pegar e eu precisar de alguém por fora. Pago, logicamente.

MULDER: - Não se preocupe. Se meu amigo precisar quando o bicho pegar, eu certamente estarei aqui e de graça, por ele.

NORRIS: - Gostei de você. Pensa no assunto do emprego.

Norris entra na sala dele e bate a porta. Mulder senta-se novamente. Krycek entra, dois policiais entram com ele, levando um homem algemado.

KRYCEK: - Levem esse merda daqui, joguem na cela! De manhã eu interrogo.

HOMEM: - Eu só vou falar na presença do meu advogado, vocês não têm provas contra mim!

KRYCEK: - Tirem esse lixo daqui, antes que eu acerte um soco nesse desgraçado!!! Vamos ver se não tenho mesmo provas contra você!!! Foi flagrante, entendeu? Tem sangue nas suas roupas e pode apostar que eu vou mandar até suas cuecas pra criminalística e depois vamos falar sobre provas.

Eles levam o sujeito. Krycek senta-se, cansado e irritado.

MULDER: - O que ele fez?

KRYCEK: -Me fez correr duas quadras atrás dele. Estuprou uma garota na saída da boate, depois esfaqueou a menina até a morte. Tenho três testemunhas chegando pra interrogar... Conseguiu ler?

MULDER: - Sim e quase consegui um emprego com o seu chefe, ele tá aí. Vai me dar cópias disso?

KRYCEK: - Vou. Agora continua me contando o que preciso saber.

MULDER: - Os primeiros a avistarem o Homem Mariposa foram dois casais em novembro de 1966. Eles viajavam de carro, perto da fábrica de dinamite desativada, em Point Pleasant, quando viram duas luzes vermelhas. Pensaram que eram um pássaro, mas quando viram o que era, quase morreram de susto. As supostas luzes vermelhas eram os olhos da criatura. Na mesma noite ocorreram outros avistamentos, em locais diferentes. Quatro pessoas o avistaram três vezes na mesma noite e um homem de Salem relatou que estava vendo televisão, quando a tela escureceu e um ruído estranho começou a sair do aparelho. O cachorro dele começou a latir, ele saiu pra fora e viu a mesma criatura, que antes estava em Point Pleasant. Até o cachorro que era bravo, quando viu a criatura, fugiu correndo.

Norris sai da sala. Serve um café. Mulder para de falar.

KRYCEK: - Sem problemas. Continue.

MULDER: - No outro dia, sabendo do ocorrido, uma família bem curiosa foi até a fábrica abandonada em busca do Homem Mariposa e nada encontraram. Quando voltavam pro carro, um deles disse que a criatura parecia estar deitada atrás do veículo, e quando se levantou, era grande, cinzenta e com horrendos olhos vermelhos. Enquanto eles fugiam, ela se afastou do carro e entrou na fábrica. Outros avistamentos semelhantes ocorreram em novembro, por pessoas que passavam próximas aos arredores da fábrica de dinamite. Mas nada de muito diferente dos anteriores e, sem provas concretas, a polícia não levou tão à sério.

NORRIS: - Lembro disso. Eu estava na academia de polícia na época.

MULDER: - Presenciou o fato, delegado?

NORRIS: - Não, mas lembro que foi uma confusão dos diabos.

MULDER: -Ainda em novembro, uma mulher em Charleston o viu em seu quintal. Na manhã seguinte, a criatura apareceu para uma mulher na cidade de Mason e na mesma noite duas crianças a avistaram em Saint Albans. Depois de prenunciar a queda da ponte Silver, o que ocorreu, a criatura nunca mais foi vista por aqui.

KRYCEK: - Então essa coisa se locomove entre cidades, supostamente voando... Norris, estou no caso, como Mulder está investigando particularmente para algumas pessoas envolvidas no incidente da ponte, eu pensei em...

NORRIS: - Tem minha bênção. Quero respostas. Não vou ficar em cima de você, já é crescido pra saber prioridades e dar conta do serviço.

MULDER: - Parceiros?

KRYCEK: -Sempre. Mulder, tenho depoimentos de mais de cem pessoas. Vou cruzar com o nome dos seus clientes e eliminaremos os que já depuseram, diminuindo assim o trabalho. Vamos interrogar juntos os que tenho o nome, não são seus clientes e ainda não depuseram.

MULDER: - Faz isso, eu vou pra Point Pleasant amanhã porque um cliente tem recebido telefonemas e a esposa dele avistou a criatura nas imediações do hotel. E vou checar a fábrica de dinamite, por via das dúvidas.

O celular de Mulder toca.

MULDER: - É o meu cliente, o Ivan...

Mulder se levanta e vai pra porta, atende o celular. O telefone da delegacia toca. Krycek atende.

KRYCEK: -(AO TELEFONE) Homicídios, detetive Krycek... Pois não, senhora? ... Sim, sou o responsável pela investigação... (FAZ SINAL PRA MULDER) Pode descrever o suspeito em seu quintal? ... Não, não está sendo ridícula, senhora. Me dê seu endereço, estou indo agora...Certo, estou a caminho. Fique em casa com sua família, não saia.

Krycek desliga, Norris olha pra ele. Krycek pega a jaqueta.

KRYCEK: - Pasme, alguém da minha rua avistou a criatura.

NORRIS: - Sabia que ia começar o inferno como em 1966!

Mulder desliga.

MULDER: -Quem avistou a criatura?

KRYCEK: -Angela McCoy, não conheço, mas pelo número da casa, é a nossa vizinha nova.

MULDER: -(NERVOSO) Vou ligar pra Scully não sair!

KRYCEK: - E eu pra Barbara. Não, melhor não ligar, porque aí sim a louca vai sair pra arrumar matéria jornalística! Vamos embora, Mulder... Norris, tem um pote de biscoitos na minha gaveta.

NORRIS: - Se são da sua namorada... Perdeu, Checov!


Residência dos McCoy - 11:56 P.M.

[Som: Low & Tomandandy - Half Light - Trilha sonora do filme "A Última Profecia"]

Krycek estaciona a picape. Mulder estaciona atrás dele. Os dois descem, puxando as armas. Angela observa assustada pela janela. Krycek mostra o distintivo e sinaliza pra ela se acalmar. Angela sinaliza pra trás da casa. Os dois vão para o quintal.

As luzes piscam e ficam mais fracas. Mulder e Krycek com as armas em punho, entrando pelo quintal parcialmente iluminado. Mulder olha pra sua casa e vê Scully na sacada do sótão, segurando a arma. Mulder sinaliza pra ela tentar visualizar algo. Scully afirma com a cabeça.

Os dois avançam lentamente na penumbra, por entre plantas e árvores, atentos e nervosos. As luzes do quintal continuam piscando e diminuindo. Krycek ergue a cabeça e percebe os dois pontos de luz vermelha entre as árvores. Sinaliza pra Mulder. Mulder se aproxima. Os dois ficam observando, curiosos, tentando ver algo. Os olhos vermelhos brilham, projetando uma luz vermelha sobre eles.

Um som estridente. Os dois colocam as mãos nas orelhas, o ruído é insuportável. A criatura negra, maior que um homem, com asas enormes, alça voo da árvore voando para o quintal de Mulder. Mulder arregala os olhos, perplexo. Krycek assustado.

Scully, com as mãos nas orelhas, agora leva a mão aos olhos, quase cega pela luz vermelha dos olhos da criatura, que em pleno voo, a encara, sorri e depois aterrissa no quintal de Nancy.

Mulder e Krycek correm, pulam os arbustos baixos que dividem os quintais e atravessam o quintal de Mulder. Mulder olha pra Scully, ela, completamente apavorada, sinaliza pro quintal de Nancy. Mulder tenta pular a cerca, Krycek o ajuda. Mulder pula e cai agachado, visualizando a silhueta do outro lado, que recolhe as asas, transformando-se num homem.

MULDER: - Não quero machucá-lo! Só quero respostas!

Krycek salta e cai ao lado de Mulder. Olha boquiaberto, sem acreditar no que vê.

MULDER: - O que você quer? Quem é você?

A criatura abre as asas num estampido, pula pra cima da cerca e alça voo tomando o céu escuro.

Krycek senta-se no chão, atordoado. Leva a mão à cabeça.

KRYCEK: - Me acorda do pesadelo, Mulder. Eu não vi isso.


Residência dos Mulder - 12:41 A.M.

Scully, com as mãos trêmulas, coloca a caneca de chá na frente de Krycek, que ainda está atordoado. Scully senta-se, leva a caneca de chá aos lábios, com dificuldades.

KRYCEK: - Já vi coisas que não são desse mundo... Mas aquilo...

SCULLY: - ... Olhou nos meus olhos. Senti um frio percorrendo a minha coluna.

Krycek olha pra ela.

KRYCEK: - Será parente do Moedinha?

SCULLY: - Um anjo? E-eu não sei, Alex. Não tenho nenhuma teoria.

Barbara entra na cozinha.

BARBARA: -(IRRITADA) Ratoncito, eu quero matar você! Como me fez perder uma coisa dessas, seu idiota? Ahm? Eu poderia ter filmado!!! Teríamos provas agora!

Scully abaixa a cabeça.

SCULLY: - Pronto. O Mulder de saias começou.

BARBARA: - Vocês não veem a chance que perdemos?

KRYCEK: - Chance? Eu tô apavorado até agora, me acredite, você não ia querer ver aquela coisa de perto!

Mulder entra.

MULDER: - Chance sim. Eu disse pra avisá-la, ela poderia ter filmado e teríamos imagens pra analisar!

BARBARA: - Acabei de dizer isso.

SCULLY: - (SUSPIRA) Eu desisto! Um já é demais! Dois então...

MULDER: - Vamos falar com a vizinha, Krycek.

Krycek se levanta. Olha sério pra Barbara e aponta pra ela.

KRYCEK: - Volta pra casa agora e fique trancada lá.

Scully olha incrédula pra Krycek. Barbara coloca as mãos na cintura.

BARBARA: - (INDIGNADA) Quê? Acha que sou uma dondoca com medo de coisas estranhas? Quem pensa que é pra me mandar ficar em casa? Aliás, desde quando começou a pensar que por eu ser sua mulher você pode mandar em mim? Ahn?

Mulder segura o riso. Krycek suspira. Scully morde os lábios.

BARBARA: - Fique sabendo que eu tenho medo, muito medo é de gente! Gente viva e gente morta, porque o ser humano não presta! Mas de coisas que não são humanas, eu não tenho medo! Volta você pra sua delegacia! Você não manda em mim!

KRYCEK: - Mulder, vamos embora, antes que eu perca a paciência com tanta teimosia!

Krycek sai, Mulder vai atrás dele. Barbara senta-se.

SCULLY: - Só muda o endereço, a cara e o nome. De resto, igual, todos são iguais mesmo. Proteção não significa nos manter em redomas de vidro.

BARBARA: - Eu ando dando muita folga, isso sim, fazendo as vontades dele e mimando demais. Vou ter que puxar as rédeas ou vai querer bancar o machão! Era o que me faltava! Homem mandando em mim? Ahm! Ele perdeu a noção do perigo... Você tá bem, Scully? Tá mais branca que cera!

SCULLY: - Angustiada... E-eu não sei. Senti uma coisa estranha. Ruim. Medo...

BARBARA: - Da criatura? Viu como ela era?

SCULLY: - Vi, mas não é medo da criatura. É medo do que senti. É como se eu sentisse o medo que ele sente, a angústia... E-eu não sei explicar, Barbara. Eu não acho que o Homem Mariposa seja um perigo. Acho que ele quer nos avisar do perigo.


Residência de Barbara Wallace - 6:04 A.M.

Krycek entra. Aciona os alarmes. Tira a arma da cintura, colocando na prateleira, enquanto observa, com o rabo dos olhos, Barbara tomando um café. Ela, sentada à mesa, vestida num robe, nem olha pra ele.

KRYCEK: -Bom dia, Malyshka! ... Ainda tá furiosa?

BARBARA: - (BEIÇO) ...

KRYCEK: - Ok, me desculpe por estar apaixonado e querer proteger você.

Krycek se aproxima por trás. Envolve os braços nela, dando-lhe um beijo no rosto.

KRYCEK: - Vai ficar de beiço o resto da vida com o seu Ratoncito?

BARBARA: - Só até você parar de bancar o machão.

KRYCEK: - Não estou bancando o machão. Estou sendo o cara apaixonado que morre de medo de perder a mulher que ama, hum?

BARBARA: - Nem vem com essa voz mansa, Alexander Krycek! Sou mulher, conheço o golpe. Todos são iguais mesmo! Falam merda e depois chegam com jeitinho de conquistador, falando manso e nos deixando culpadas. Prova: Você chegou e nem tirou essa jaqueta de couro, porque sabe que me deixa louca quando a usa!

Krycek sorri sacana e faz carinhos com o nariz na nuca e pescoço de Barbara. Ela se arrepia, mas continua de beiço.

BARBARA: - Sai, seu rato canalha e asqueroso!

KRYCEK: - Adoro mulher brava... Me deixa excitado.

BARBARA: - Não tem nada pra você hoje. Nem depois e ainda irei pensar quando!

Barbara se levanta, ainda de costas pra ele. Krycek a agarra. Se encosta nela, desce a mão pra dentro do robe, massageando-lhe um dos seios. Leva a outra mão entre as pernas dela, a massageando, enquanto passa os lábios pelo pescoço de Barbara. Esfrega o corpo contra o dela.

KRYCEK: - (SUSSURRA/ OFEGANTE) Sente como você me deixa? Não me quer hoje como eu quero você? Que desperdício, krasivaya devushka*...(*garota bonita) Poderia ser uma manhã tão intensa...

Ela revira os olhos. Leva as mãos pelos braços dele, por sobre a jaqueta de couro, até as mãos dele, as pressionando contra seu corpo e se esfregando nele. Krycek a empurra de bruços sobre a mesa, erguendo a perna dela, e se coloca nela. Barbara tenta se agarrar na mesa, sem sucesso, aos gemidos altos.

BARBARA: -Eres un niño malo, Alex Krycek!Deja de hablary fóllame!!! Así, así... Fuerte! Más fuerte, cabrón, más fuerte, te quiero completo, muy duro y salvaje dentro de mí!!!

Krycek agarra os cabelos dela, puxando pra trás, ela ergue a cabeça, soltando um gemido. Ele se move mais forte contra ela, enlouquecido, selvagem, quase sem ar. A mesa balançando. Barbara ao gritos extasiados.


Residência dos Mulder - 7:33 A.M.

Victoria, Mulder e Scully sentados à mesa, tomando café. Mulder lê o jornal, enquanto leva a caneca de café à boca. Scully come uma torrada.

MULDER: - Krycek esteve cedo aqui. Precisava de um martelo. Parece que quebrou a mesa da Barbara... Não entendi como ele conseguiu isso.

Scully busca ar, tentando não rir, mas dá uma gargalhada alta. Mulder abaixa o jornal e olha pra ela.

MULDER: - (CURIOSO) O que foi?

SCULLY: - Nada... (SEGURANDO O RISO) Só achei engraçado... Imagino...

MULDER: - Você e Barbara andam muito amiguinhas, trocando figurinhas... O que conversam?

SCULLY: -(ERGUE A SOBRANCELHA) Nada demais. Coisas de mulheres. Receitas, decoração, jardinagem... Assuntos bobos para os homens.

Mulder olha desconfiado pra ela. Volta a atenção para o jornal.

MULDER: - Ivan disse que a coisa falou a ele sobre 107 notas tocadas em dez acordes iguais. Olhe o jornal de hoje.

Mulder mostra o jornal. Scully olha a manchete: "Terremoto destrói dez blocos habitacionais e mata 107 pessoas no Novo México".

Scully fecha os olhos. Victoria revira o prato de cereais com a colher, olhando pra eles. Eles estão distraídos. Ela larga a colher no prato. Olha séria para os dois.

VICTORIA: - Como é que eu nasci?

Mulder deixa o jornal cair. Scully se engasga com a torrada, empurrando café pela boca. Victoria olha pra eles esperando uma resposta.

VICTORIA: - E então? Como é que eu nasci?

Mulder olha pra Scully.

MULDER: - Eu falo?

SCULLY: - Não!

MULDER: - Mas ela já tem quase seis anos...

SCULLY: - Não!

MULDER: - Tá bom. Fala você.

Victoria observa os dois discutirem.

VICTORIA: - (SUSPIRA) Foi tão ruim assim?

Scully vira-se pra ela.

SCULLY: - Filhinha, a cegonha trouxe você.

Victoria olha pra Scully.

VICTORIA: - Uma cegonha? Como?

SCULLY: - Enroladinha numa trouxinha pendurada no biquinho. A cegonha deixou você na porta da nossa casa.

Victoria faz que não com a cabeça, indignada. Mulder segura o riso.

VICTORIA: - Mamãe, cegonhas não podem carregar crianças. Não podem suportar tanto peso. É improvável, não é lógico! Enganaram você!

Mulder dá uma gargalhada alta. Scully o cutuca.

MULDER: - Au!

SCULLY: - Tá bem... É que é uma cegonha diferente. Grandona. Bem grandona.

VICTORIA: - Como é que eu nunca vi nenhuma cegonha voando por aí? E a Julie? Não vimos nenhuma cegonha chegar. A Susanne veio do hospital e não tinha cegonha lá. Tio Byers é testemunha!

MULDER: - Sai dessa agora...

SCULLY: - Mulder!

MULDER: - (RINDO) ...

SCULLY: - (AFLITA/ MORDE OS LÁBIOS) Filha, e se eu disser que você nasceu de uma abóbora? Hum?

VICTORIA: - De uma abóbora? Mas como? E no Halloween??? Vocês matam criancinhas para colocar velas nas abóboras? Isso não tem lógica alguma!

Mulder solta uma gargalhada debochada. Scully o fulmina com os olhos.

MULDER: - Sofre! Sofre agora tudo o que você fazia pra mim! Beba seu veneno, Dana Scully!!! "Isso não tem lógica"!!! Toma!!!!

SCULLY: - Então explique, psicólogo, pra uma menina de cinco anos como nascem os bebês.

Mulder olha pra Victoria.

MULDER: - Pinguinho, esqueça a coisa da cegonha e da abóbora. Quando um homem e uma mulher se amam e estão preparados pra serem pais, eles fazem uma coisa que é algo particular do comportamento adulto: sexo. E assim, as criancinhas nascem. Entendeu?

VICTORIA: - Entendi. Mas o que é sexo?

Scully ri da cara de Mulder.

SCULLY: - Vai lá, espertalhão. Tenta.

MULDER: - Pinguinho, sexo é... (PÂNICO) Fala você Scully, ela é menina. As mães são mais indicadas pra falar disso com as filhas...

SCULLY: - Mulder, não saberia explicar isso pra ela agora.

VICTORIA: - (INCRÉDULA) Puxa vida, vocês se amam, estavam preparados pra serem pais, fizeram sexo e nem sabem o que é?

Os dois começam a rir. Victoria olha pra eles, curiosa.

MULDER: - Pinguinho, você não vai entender ainda o que é sexo. É uma coisa um pouco complicada pra você agora.

VICTORIA: - Assim como aquele livro de historinha do Einstein?

MULDER: - É. Vamos dizer que sim. O que tem que entender é que o homem e a mulher têm, digamos, cada um, uma sementinha diferente. Quando elas se juntam, formam um bebezinho.

VICTORIA: - (EMPOLGADA) Sementinha?? Uau! Mas... Mas como eu fui parar na barriga da minha mãe?

Scully levanta-se e sai da cozinha, derrubando lágrimas. Mulder a acompanha com os olhos, entristecido.

VICTORIA: - (PÕE AS MÃOS NA BOCA) Ih, falei besteira...

MULDER: - Não falou não, Pinguinho. É que as crianças geralmente vão parar na barriga da mamãe porque ela e papai fazem sexo. Mas você foi diferente. Mamãe não podia ter você do jeito normal. Nem o papai. Então nós tiramos nossas sementinhas e fizemos você.

VICTORIA: - (EMPOLGADA) Como fizeram isso?

MULDER: - Num laboratório. Mamãe que fez.

VICTORIA: - Como ela fez com os feijõezinhos? Puxa, que coisa legal! E tem mais crianças que nascem assim?

MULDER: - Tem sim. Muitas crianças. Tem muitas mamães e papais que também não podem ter filhos de maneira normal. Então eles têm que fazer assim, tirando as sementinhas, germinando-as e depois colocando de volta na barriga da mulher.

VICTORIA: - Então depois que vocês juntaram as sementinhas, que virou eu, mamãe me colocou em sua barriga?

MULDER: - Sim. Aí você cresceu, levou 9 meses escondidinha lá...

VICTORIA: - Nove meses?

MULDER: - Sim. É o tempo normal pra uma sementinha se tornar um bebê. Tem bebês que por alguma complicação nascem antes desse tempo.

VICTORIA: - E por que mamãe tá chorando?

MULDER: - Porque ela queria que tudo tivesse sido normal.

VICTORIA: - Foram aqueles homens maus, né papai?

MULDER: - Sim, Pinguinho.

Victoria desce da cadeira.

VICTORIA: - Mamãe me ama menos por eu não ser normal?

MULDER: - Você é normal, Pinguinho. Como todas as crianças, não há diferença. É que a mamãe sofre, porque isso significa que ela e papai nunca mais poderão ter outros bebês.

VICTORIA: -(TRISTE) Nunca mais?

MULDER: - Nunca mais.

VICTORIA: - Mas vocês não têm mais sementinhas pra tirarem e fazerem outro bebezinho?

MULDER: - Não, Pinguinho. As mulheres já nascem com um número limitado de sementinhas, como num pacotinho. E aqueles homens maus tiraram todas as sementinhas da mamãe. Só sobrou você.

VICTORIA: - (FRUSTRADA) Então eu nunca vou ter um irmãozinho?

Mulder enche os olhos de lágrimas. Victoria faz um beicinho de tristeza. Sai da cozinha. Scully está sentada no sofá, derrubando lágrimas, olhando para o nada. Victoria se aproxima. Scully seca as lágrimas depressa. Victoria olha pra ela.

VICTORIA: - Mamãe, você tá chorando por que não tem mais sementinhas?

Scully olha pra filha e derruba lágrimas. Victoria se abraça nela, afagando seus cabelos.

VICTORIA: - Não chora não, mamãe. A gente pode arranjar outras sementinhas... (EMPOLGADA) Tem um monte na garagem! Dá pra gente ir comprar na loja de flores!

Scully sorri da inocência da filha. Passa as mãos no rostinho dela.

SCULLY: - Eu não preciso mais de sementinhas. Eu tenho você, meu amor.

VICTORIA: - Mas eu queria um maninho...

SCULLY: - Mas mamãe não pode dar um maninho pra você.

VICTORIA: - Mas e as sementinhas?

SCULLY: - Aquelas não servem, meu amor. São sementinhas diferentes. São sementinhas de flores, não de pessoas. Tem sementinhas de gatinhos, de cachorrinhos... Cada um tem sua sementinha própria.

Victoria respira fundo.

VICTORIA: - Onde ficavam as suas sementinhas?

SCULLY: - Aqui. As sementinhas das mulheres ficam aqui, tá vendo?

VICTORIA: - Que malvados! Não chora não, mamãe... Obrigada por deixar sua única sementinha viver.

Scully sorri emocionada.

SCULLY: - Vem cá, minha sementinha, me dá um abraço gostoso pra eu não ficar mais triste. Ahn?

VICTORIA: - Tá bom...

As duas se abraçam.

SCULLY: - Agora entende porque você é o meu tudo?

VICTORIA: - Sim! Porque eu tive a sorte de ser a única sementinha que eles não tiraram.

SCULLY: - ... Acho que você deve saber de uma coisa. Tiraram você com as outras sementinhas.

VICTORIA: - Mas como você me pegou de volta?

SCULLY: - Seu pai roubou você.

VICTORIA: - (SORRI) Papai me roubou dos homens maus?

SCULLY: - E me deu você de presente. O maior presente que eu tive na vida.

VICTORIA: - Puxa mamãe, acho que foi o maior presente que ele deu pra mim também. Se não fosse ele, eu não teria nascido.

SCULLY: - (SORRI) Não, Docinho. Por isso e por tantas, amo o seu pai com todo o meu coração.

VICTORIA: - E o que os homens maus fizeram com as outras sementinhas?

SCULLY: - ... Coisas ruins.

VICTORIA: - Crianças malvadas?

SCULLY: - Não, meu amor. Eles tentaram fazer crianças diferentes.

VICTORIA: - Como eu?

SCULLY: - Não como você. Um dia mamãe explica, é muito confuso pra você entender agora.

VICTORIA: - Já sei. Como as historinhas do Einstein...

Victoria se abraça em Scully.

VICTORIA: - Eu amo você mamãe. Ainda bem que sou sementinha de vocês dois.

Scully a abraça derrubando lágrimas.

SCULLY: - Você é o meu tudo, filhinha... Eu amo você tanto, tanto!

VICTORIA: - Mamãe, vamos plantar aquelas sementinhas que estão no jardim? Não é nada justo deixar elas lá sozinhas... Elas têm que nascer né?

Mulder observa as duas, parado na porta, derrubando lágrimas, num sorriso.



BLOCO 3:

10:19 A.M.

Mulder ao lado do carro, olha pra Scully e Victoria.

MULDER: - Eu amo vocês duas. Se cuidem. Me liguem se precisarem de alguma coisa. Eu venho voando.

VICTORIA: - Ele virou borboleta?

SCULLY: - É, mas já teve seus dias de cavalinho, pode acreditar...

Mulder beija Victoria. Ela se abraça nele. Mulder a abraça forte.

MULDER: - Obedeça sua mãe. Não quero ouvir queixas.

VICTORIA: - Mas papai, eu sou um anjinho!

Mulder olha debochado pra ela. Victoria sorri marota. Mulder beija Scully nos lábios.

MULDER: - Eu ligo quando chegar. E você, "anjinho", fique longe das minhas ferramentas na garagem. Algum "anjinho" andou grudando goma de mascar no meu martelo.

Victoria disfarça. Mulder ameaça entrar no carro. Não consegue. Volta-se pra elas.

MULDER: - Por que a cada dia que passa, isso se torna mais difícil?

SCULLY: - (SORRI) Anda logo, Mulder. Vamos, chispe pra Point Pleasant.

Mulder entra no carro. Liga o carro e dá a ré. Olha pras duas de mãos dadas. Sorri. Acena com o coração apertado. Parte.

SCULLY: - Já tô com saudades dele.

VICTORIA: - Eu também. Quando eu crescer, vou casar com ele.

SCULLY: - (RINDO) Mas ele é casado comigo. Vai tirar o marido da sua mãe?

VICTORIA: - Puxa, mamãe... Não dá né? Tá bom, fica com ele pra você. Eu deixo.

Scully começa a rir. As duas entram em casa, de mãos dadas, fechando a porta.


2:46 P.M.

Scully e Victoria caminham na calçada. Scully segura um bolo. As duas entram no quintal dos McCoy. Scully toca a campainha.

VICTORIA: - Mamãe, por que se traz bolo pra quem não se conhece?

SCULLY: - Como forma de amizade. Lembra da borboleta?

Victoria sorri. Angela McCoy abre a porta.

SCULLY: - Oi, eu sou Dana Scully. Moro na casa ao lado.

ANGELA: - Ah! Na casa amarelinha... (SORRI) Adoro o seu jardim! Eu sou Angela McCoy.

VICTORIA: - (CURIOSA) Você é parente do Dr. McCoy?

ANGELA: - ???

SCULLY: - (SORRI SEM GRAÇA) Fã de Star Trek, como pai dela.

ANGELA: - Ah! (SORRI) É, o Dr. McCoy é um tio meio que distante...

VICTORIA: - Mas por que ele é branco e você preta como a Uhura?

Scully fica corada. Angela sorri.

ANGELA: - Porque Deus me pintou quando eu nasci.

VICTORIA: - (SORRI) Que legal! Pena que ele se esqueceu de me pintar...

Scully embaraçada. Angela começa a rir.

SCULLY: - Desculpe...

ANGELA: - Sua filha é um amor. Curiosidade de criança. Entre. Não repare a bagunça, Dana.

SCULLY: - Sei bem como é isso. Levei semanas até organizar tudo. Mudanças nunca são fáceis.

Scully entra. Angela pega o bolo. A sala cheia de caixas. Vários brinquedos espalhados.

ANGELA: - Muito obrigado. Quer tomar um chá?

SCULLY: - Não se incomode. Só vim lhe dar as boas vindas.

ANGELA: - Não é incômodo, estava preparando um chá. Vem pra cozinha comigo. Fique à vontade.

Victoria corre e pega um dos brinquedos.

SCULLY: - Filha, isso não é educado.

ANGELA: - Deixe-a. Pena meu filho não estar em casa...

Victoria fica brincando. As duas vão pra cozinha. Angela desliga a chaleira. Scully senta-se.

SCULLY: - Seu inglês tem sotaque. De onde você é?

ANGELA: - Viemos da África do Sul. Meu marido ganhou transferência pra Washington.

SCULLY: - E está gostando daqui?

ANGELA: - Estou, mas até me adaptar aos costumes, é tudo muito diferente. Não conheço ninguém aqui... Quer dizer, agora conheço você. Você trabalha, Dana, ou é só dona de casa como eu?

SCULLY: - (SORRI) Só dona de casa? Acho que dona de casa já é muito. Eu trabalho com meu marido, nós temos uma agência de detetives. E quando ele não precisa da minha presença por lá, eu fico em casa.

Angela sorri e serve o chá. Senta-se com Scully.

ANGELA: - Mulher, em qualquer parte do mundo, trabalho dobrado sempre. Em tempo integral.

SCULLY: - Verdade.

ANGELA: - Isaac, meu marido é publicitário. Temos dois meninos.Um adolescente de 14 chamado Christopher e um de 6, chamado Darius. O xodó do pai dele. Onde Isaac vai, Darius corre atrás.

SCULLY: -Ele tem quase a mesma idade da Victoria... Você já providenciou escola pro Darius?

ANGELA: -Estive na Abraham Lincoln, que é mais perto, mas eu não gostei da diretora. Nos olhou de cima a baixo por sermos negros. Eu sei que foi por isso. Sou africana, tem vezes que me visto como africana típica, toda colorida e isso causa medo ou repulsa nas pessoas. Devem achar que eu morava numa tribo, no meio da savana, cercada de hipopótamos, zebras, elefantes e leões. Caçando e procurando água, fazendo fogo e dormindo em casa de palha!

Scully começa a rir. Leva a mão aos lábios.

SCULLY: - Desculpe, Angela, mas isso foi engraçado.

ANGELA: - (RINDO)Mas é pra rir mesmo, Dana. Desculpe dizer isso, mas geralmente as pessoas de países mais ricos acham que os africanos são selvagens, que ninguém conhece tecnologia e progresso, que moramos em cabanas e vivemos na savana com animais selvagens no quintal.

SCULLY: -Angela, não coloque seu filho naquele lugar inóspito. Tirei minha filha de lá. Você é mãe, sabe que suporta qualquer coisa, menos que ofendam sua prole.

ANGELA: - Com certeza. Sabe, Dana... Somos estrangeiros, mas ouço tanto falar do preconceito contra negros neste país que tenho muito medo. Eu era criança na época do Apartheid. Vi meu pai ser espancado por brancos, vi coisas horríveis e isso ficou na minha cabeça. Não quero ver meus filhos passando o que passei apenas porque tem a cor da pele diferente. Estamos em pleno século 21 e algumas pessoas ainda agem como neandertais.

SCULLY: -Infelizmente. Mas não terá incomodação por aqui. É uma cidade grande...

ANGELA: - Não sei. Aquela mulher que mora ao lado da sua casa... Nancy...

SCULLY: - Ignore-a. Pra Nancy, brancos ainda são inimigos de índios e Custer foi um herói nacional. Tem a Barbara, na frente da minha casa. Você ainda vai conhecê-la. Ela veio de Cuba. O noivo dela é russo. São um casal de amigos. Você já o conheceu. Ele é o policial que esteve aqui ontem, junto com o meu marido...

ANGELA: - (ENVERGONHADA) Espera... Você viu a confusão, Dana? Desculpe se incomodou vocês, eu estava sozinha com as crianças, saí pro quintal e vi... Nem sei o que era aquilo, mas foi a mesma coisa que vi com meu marido, quando estávamos chegando na Virgínia e a ponte estava completamente congestionada. Tremi dos pés à cabeça e liguei pra polícia. Acho que foi seu marido quem o chamou de Homem Mariposa... Não pense que sou maluca...

SCULLY: - Fique tranquila, Angela. Também vi a criatura. Você não é maluca. Meu marido e eu investigamos essas coisas sem explicação. Esse é o nosso trabalho.

ANGELA: - (SORRI) Sério? Nossa, realmente aqui é outro mundo. As pessoas levam essas coisas a sério, se fosse em Pretória, iriam achar que era piada!

SCULLY: - Nem sempre levam a sério. É que essa criatura já apareceu há 41 anos atrás e agora voltou...

Victoria entra com um livro.

VICTORIA: - O que é isso?

ANGELA: - Deixe-me ver.

SCULLY: - Victoria! Me perdoe, mas ela está na fase dos porquês, do "o que é isso", "por que é assim"... Tem horas que fico zonza com tanta pergunta.

ANGELA: - (SORRI) Darius ontem ficou horas me perguntando por que a lua não caía do céu. Vá explicar pra uma criança de seis anos o que é gravidade.

VICTORIA: - Gravidade é a força de atração que a Terra exerce sobre um corpo material colocado sobre sua superfície, em seu interior ou em sua vizinhança.

Scully sorri sem graça. Angela arregala os olhos.

ANGELA: - Você têm um gênio dentro de casa?

SCULLY: - Não, o pai dela que não sabe o que é literatura infantil...

ANGELA: -Victoria, isso aqui... Bem, isso é um livro sobre geologia.

SCULLY: - É geóloga?

ANGELA: - Não. Meu pai era. Deu isso ao Darius. Meu filho é fascinado pela terra. Vire as costas por dois segundos e ele deu um jeito de escavar buracos pelo jardim. Tem uma coleção de vidros com amostras de solos de todas as cores, todos os tipos, pedras...

VICTORIA: - O que é geologia?

ANGELA: - Geologia é a ciência que estuda a terra, os solos...

VICTORIA: - Legal! Ele também curte minhoquinhas? Eu crio minhoquinhas nos vidrinhos...

Angela ri. Scully passa a mão no rosto.

SCULLY: - Ela cria minhocas, feijões e faz um café da manhã excêntrico... Além de que fala pelos cotovelos!

As duas começam a rir. O celular de Scully toca.

SCULLY: -Me desculpe, marido chamando... (ATENDE) Fala, Mulder.

MULDER (OFF): - Scully, preciso de um favor seu.

SCULLY: - (AO CELULAR) Diga, Mulder.

MULDER (OFF): -O hotel está cheio e não acho interessante que a esposa de Ivan e o menino fiquem acordados à noite, enquanto Ivan e eu esperamos outra ligação do Homem Mariposa.

SCULLY: - (AO CELULAR) O que quer que eu faça?

MULDER (OFF): -Pode providenciar um quarto na nossa casa por uma noite? Já que a Baba se mudou mesmo...

SCULLY: - (AO CELULAR) Sem problemas.

Scully desliga. Olha pra Angela.

SCULLY: - Desculpe, Angela. Meu marido arrumou visita pra mim.

ANGELA: - Quer sair comigo amanhã? Vamos dar uma volta por toda a Virgínia e listar as escolas mais interessantes? É que eu não conheço nada por aqui ainda...

SCULLY: - Vamos sim, combinado. Eu até tenho uma lista com as escolas mais próximas daqui. Podemos checar juntas.

ANGELA: - Ótimo!


Residência dos Mulder - 6:22 P.M.

Scully descasca cenouras. A coelha com olhos pidões observa aos pés dela. Scully dá uma lasca de cenoura pra ela.

SCULLY: - Pelo menos tenho uma parceira pra saladas...

Scully olha pela janela. As nuvens negras se movimentam rapidamente, alguns relâmpagos. Som de um trovão forte. Som da campainha. Scully leva a mão ao peito.

SCULLY: - Victoria, abre pra mamãe??? Veja quem é primeiro!

Victoria se levanta do sofá. Olha pela janela. Corre pra porta. Abre.

JOAN: - Sua mãe está?

Kevin olha pra Victoria. Victoria olha pra Kevin. Fica vermelha. Kevin sorri. Scully entra na sala.

SCULLY: - Joan!

JOAN: - Dana!

As duas se abraçam. As crianças ficam se olhando.

JOAN: - Obrigado por nos dar pousada hoje. Aquela Kombi está podre, cheia de buracos e pelo jeito vem chuva...

SCULLY: - Não agradeça. (OLHA PRA KEVIN)... Essa gracinha é...

JOAN: - Sim. É ele mesmo. O Kevin, único e produção encerrada.

SCULLY: - Ele é lindo, Joan!

Kevin ao ver o agapórnis na gaiola corre pra perto, abrindo um sorriso.

KEVIN: - Olha Joan, um passarinho!

JOAN: - Não ouse, Kevin. Ele tem mania de soltar os bichos todos.

SCULLY: - Sem problemas. Esse aí está acostumado a zanzar pela casa. Nunca fugiu.

JOAN: - E essa é a sua filha? Nossa, Dana, já faz seis anos que não nos vimos... Eu me lembro de nossas barrigas explodindo. Meu filho mexia feito doido quando chegou perto de você.

SCULLY: - (SORRI) Esta é Victoria. E também mexeu feito doida aquele dia...

JOAN: - Tenho uma teoria sobre isso. Quer ouvir?

SCULLY: - Claro, venha. Vamos colocar suas coisas lá em cima.

JOAN: - Acredito que eles possam ser almas gêmeas. Encarnaram juntos para viver um grande amor. Não é lindo?

As duas sobem as escadas. Kevin admira o agapórnis.

VICTORIA: - O nome dele é Ikito. A gente pensava que ele era um periquito.

Kevin percebe a coelha na cozinha.

KEVIN: - Uau! Você tem um coelho também?

VICTORIA: - É uma coelha, ela se chama Nine. E tenho um cão que se chama Cookie e um peixinho que se chama Molly. Gosta de animais?

Kevin afirma com a cabeça.

VICTORIA: - Quer ver minha coleção de minhocas?

KEVIN: - (EMPOLGADO) Você tem uma coleção de minhocas?

VICTORIA: - Sim. E tenho feijões.

KEVIN: - Me chamo Kevin.

VICTORIA: - Eu me chamo Victoria... Quer ser meu amigo?

KEVIN: - Quero!

VICTORIA: - Venha, vou te mostrar umas coisas legais, meu amigo.

Os dois saem correndo pra cozinha.


9:09 P.M.

Risadas altas e gritaria de crianças. Scully sentada no sofá com Joan. Victoria passa correndo, Kevin atrás dela.

JOAN: - Kevin, quer parar?

SCULLY: - Deixe-o. Victoria não é nenhuma santinha. Ela vive muito só, nunca tem crianças pra brincar.

JOAN: - Sabe, Dana... Kevin me preocupa. Talvez você, como mãe de uma criança da mesma idade...

SCULLY: - Algum problema?

JOAN: - Ele é curioso demais. Nunca o vejo brincar por brincar, sabe? Suas brincadeiras sempre envolvem aprendizado de alguma coisa, vive observando tudo...

SCULLY: - A curiosidade é da idade, Joan. Querem descobrir o mundo. Minha vizinha também tem um de seis anos. Ele é metido a geólogo. Acho que as crianças desta era são mais desenvolvidas.

JOAN: - Kevin fica horas de papo com Ivan falando sobre animais e suas espécies...

SCULLY: - Joan... Você viu o Homem Mariposa?

JOAN: - Sim. Assustador. Você sabe que é uma criatura que traz má agouro... Ele falou uma coisa pra mim, que não disse ao Ivan. Cheguei a anotar num bloco pra não esquecer a profecia...

Victoria passa correndo, Kevin atrás dela, Cookie atrás deles latindo.

SCULLY: - Victoria não suba as escadas. Nessa correria toda não quero acidentes!

VICTORIA: - Mas você é médica!

SCULLY: - Ah sim, e isso é pretexto pra se esfolar toda?

Eles correm pra cozinha. O barulho cessa.

SCULLY: - Como são sabidinhos pra idade. Ela tem uma força de argumento que muitas vezes eu, que sou teimosa, tenho que me calar.

JOAN: - (RINDO) Minha casa é um zoo. Pior que a sua. Como é área rural, temos até um pônei.

SCULLY: - Nem me fale, Mulder disse que ganhou um pônei de um índio e nunca foi buscar. Victoria ficou doida. Quer conhecer o tal índio pra ir pegar o pônei.

JOAN: - Galinhas, patos... Ele vê qualquer animal e traz pra casa. Tenho 10 cachorros, 5 gatos... Passarinhos não, porque ele solta todos. Eu fui dizer que os animais tem que ser livres e ele não pode ver animal preso que quer soltar. Soltou os passarinhos da vizinha, foi mordido por um cão porque foi abrir o canil pra soltá-lo... Berrou mais de duas horas no shopping até eu comprar um moletom do Greenpeace que tinha umas baleias.

SCULLY: - Não o acuse. Você e Ivan são pessoas diferentes, como Mulder e eu. Natural que seu filho queira ser um defensor ecológico, o pai dele o é. Natural que Victoria tenha curiosidade sobre o comportamento humano, Mulder tem isso. A fruta nunca cai longe do pé!

As duas se olham intrigadas. Se levantam ao mesmo tempo.

SCULLY: - Estão quietos. Isso não me cheira bem.

JOAN: - Sentido de mãe. Não estão fazendo coisa boa.

As duas vão pra cozinha. Kevin e Victoria sentados no chão, fazendo mais experiências com feijões. A cozinha alagada, feijões pelo chão e algodão espalhado.

SCULLY: - Victoria, eu não acredito!

VICTORIA: - Mas mamãe, eu estou ensinando o Kevin a plantar feijões mágicos.

SCULLY: - Mágicos? Quem disse que são mágicos?

VICTORIA: - O papai falou que eles crescem alto, bem alto e que depois lá em cima tem um gigante e uma harpa dourada...

SCULLY: - Vou matar o Mulder. Ou me matar, porque a ideia dos feijões foi minha!


11:12 P.M.

Scully deitada na cama. Victoria dorme ao lado dela, agarrada na mãe. Scully lê o livro de Mikhail Krycek enquanto faz carinhos na cabeça de Victoria. O celular toca. Ela atende.

SCULLY: -(AO CELULAR) Fala.

MULDER (OFF): - (CANTANDO "MY GIRL") I've got sunshine on a cloudy day...

SCULLY: - (AO CELULAR/ SORRI) Hum... Aprontou alguma coisa, Mulder?

MULDER(OFF): - Estou neste exato momento esperando o telefone do Ivan tocar. Aquela coisa vai ligar de novo. Como foi o seu dia?

SCULLY: - (AO CELULAR) Bom... Tive que plantar mais de 30 pacotes de sementes, porque Victoria as encontrou na garagem e disse que não era justo deixar as sementes sem irmãozinhos.

MULDER(OFF): - (COMEÇA A RIR) ...

SCULLY: -(AO CELULAR) Fiz um bolo, que a sua filha decorou com chantili, aliás, ela decorou mais as mãos, o rosto e a mesa. Levei o bolo pra Angela McCoy, conversamos, marcamos de sairmos juntas para visitar as escolas todas e estudar qual a melhor pra colocarmos nossos filhos.

MULDER(OFF): - Ótimo! É bom que você faça amizades, ela me pareceu uma pessoa legal, só está assustada com o Homem Mariposa. E Pinguinho?

SCULLY: - (AO CELULAR) Dormindo, Kevin e ela brincaram tanto até acabarem as pilhas e caírem no sono. Sua irmã ligou, vem no mês que vem, mas primeiro vai visitar os Pistoleiros.

MULDER(OFF): - Eu vou matar o Langly. Ele não me escapa!

SCULLY: -(AO CELULAR) Hum... Não acha que Samantha já está bem crescidinha, irmão ciumento? A Susanne esteve aqui, está procurando uma casa perto de nós, de preferência na nossa rua... Victoria passou a tarde toda envolvida com a Julie, cuidando dela feito uma boneca. Depois Baba chegou com Ellen e Barbara...

MULDER(OFF): - Impressão minha, ou toda vez que fico fora, o Clube das X-Women faz sessão extraordinária na nossa casa?

SCULLY: - (AO CELULAR/ SORRI) Apenas chá com bolo, Mulder.

MULDER(OFF): - Sei... Vocês não são mulheres de chá com bolo, vocês sozinhas são perigosas, juntas são o apocalipse! Aposto que a pauta da reunião foram os imprestáveis dos X-Men.

SCULLY: - (AO CELULAR/ RINDO) Imagina... Mais tarde Joan chegou com Kevin... Victoria gastou o resto de energia correndo pela casa e plantando feijões mágicos. Mulder, depois conversamos sobre a magia desses feijões de pertinho... Como está por aí?

MULDER(OFF): - Olha, o caso está amarrado, nenhuma aparição ou telefonema novamente... Mas quanto a mim estou triste, chateado e completamente perdido. Eu tô com saudades do seu pezinho frio... Eu tô sofrendo, Scully!

SCULLY: - (AO CELULAR/ RINDO) Para Mulder! Coloque meias nos pés!

MULDER(OFF): - Eu queria colocar outra coisa, mas é melhor eu desligar, antes que perca o sono pensando em lavar suas orelhinhas. Eu te amo, Scully.

SCULLY: - (AO CELULAR/ RINDO) Também te amo. Durma com os anjos.

MULDER(OFF): - (DEBOCHADO) Não dá. A cama é de solteiro.

Scully ri. Desliga.


Corta pra Mulder, desligando o celular. Ivan entra no quarto.

MULDER: - Joan e Kevin estão bem. Nossos filhos aprontaram alguma e acredito que com feijões.

IVAN: - (SORRI) Não deixe Kevin perto de plantas e animais. Ele tem instinto de biólogo.

MULDER: - E a minha filha tem instinto de bagunça.

Mulder observa pela janela. Ivan anda de um lado pra outro, olhando para o telefone.

MULDER: - Posso perguntar uma coisa? Não quero que pense que sou indiscreto, mas é algo a ver com o caso.

IVAN: - Pergunte.

MULDER: - Sua mulher viu a criatura e recebeu dela uma profecia que você não recebeu. Por "coincidência", minha vizinha, que também estava na ponte na mesma hora, viu a criatura no quintal ontem à noite e recebeu a mesma profecia. Me diga uma coisa. Joan está no período de ovulação?

IVAN: - Está. Isso significa algo?

MULDER: - Por incrível que pareça, era especialmente provável o Homem Mariposa se revelar a mulheres no período da menstruação.

IVAN: - Algum sentido nisso?

MULDER: - Teria que perguntar a Scully. Ela é a ciência e é a mulher, eu não faço ideia, mas fiquei curioso, porque assim como Joan, Angela McCoy também está no período.

IVAN: - Aposto que se ele soubesse disso, ficaria bem longe, porque mulher com TPM...

Os dois riem.

MULDER: -Minha mulher não tem mais óvulos e mesmo não menstruando mais, a TPM chega igual todo o mês...

IVAN: - Lamento, Mulder. Vocês queriam mais filhos?

MULDER: -Eu sei que ela gostaria de mais um filho, eu gostaria, mas evitamos esse assunto doloroso. Agora nossa filha quer um irmão e tive que explicar pra ela que isso é impossível. Quando esse caso terminar, vou sentar com Scully e vamos conversar sobre adoção.

IVAN: - É uma boa. Eu queria outro filho, mas Joan não quer. Entendo, ela tem problemas de pressão alta, a genética da família não ajuda muito quando se trata de obesidade, e Joan luta com isso a vida inteira. Na idade dela agora, seria um risco pra ela e o bebê. Só tenho pena do Kevin, acho tão triste não ter irmãos. Mas temos que agradecer por termos um filho saudável. Deus sabe das coisas, às vezes é melhor assim.

MULDER: -Eu nem posso ser ingrato, a vida já nos deu uma filha quando todas as possibilidades pareciam esgotadas. Foi um milagre.

Mulder senta-se na poltrona.

MULDER: - Sabe que as aparições de Point Pleasant sempre eram relatadas em momentos cuja alguma manifestação de ÓVNIS era constatada? Luzes foram observadas antes de seu aparecimento. Parecia frequentemente voar fora das luzes. Outra ligação de relatórios deste fenômeno é com os Homens de Preto. O nome 'Homem Mariposa' foi emprestado de um vilão dos gibis do Batman, mas se assemelha a algum tipo de pássaro mais de perto.

IVAN: - Exatamente. Kevin me disse que tinha visto o Batman.

MULDER: - Ninguém foi importunado, entretanto alguns dizem que comeu um cachorro. A aparição poderia perturbar a recepção de televisão de uma casa segundo contam, quando estava próximo. O contato geralmente era com pessoas enquanto eles estavam nos carros ou olhando na janelas das casas. Muitos informaram que ele possui habilidades telepáticas. Esses que tentaram escapar nos carros eram encontrados, inevitavelmente, até mesmo a 100 km/h.

IVAN: - Mulder, se essa coisa é tão veloz e traz presságios ruins, alguma ideia do que possa acontecer? Espero que nenhum tumulto como vimos algum tempo atrás, com meteoros caindo, gente enlouquecendo e afirmando ter visto gafanhotos gigantes...

MULDER: - Eu não sei, Ivan. Mas desconfio quem esteja por trás disto... O mal em pessoa.

Mulder pega o gibi do Batman.

MULDER: - Seu filho já sabe ler? Minha filha sabe algumas coisas.

IVAN: - Não. Ele apenas olha as figuras. É tarado por gibis. Uma boa maneira de fazer uma criança ter vontade de aprender a ler.

MULDER: - (SORRI) Eu adorava gibis quando era pequeno! Faz tanto tempo que não leio um...

IVAN: - Então aproveita a chance. É da D.C... Quero tentar fazer o Kevin se ligar na Marvel...

MULDER: - Eu curto D.C. e Marvel... Ok, a Marvel me puxa mais porque Stan Lee é o cara, fala sério!


Residência dos Mulder - 8:21 A.M.

Scully observa Joan indo embora com Kevin.

VICTORIA: - Ficamos amigos. Não queria que ele fosse. Gostei muito dele.

SCULLY: - Eu sei, Docinho. Mas eles vão voltar pra se despedir da gente.

VICTORIA: - Por que você tá triste?

SCULLY: - Eu? Eu não estou triste.

VICTORIA: - Está sim. Eu sinto que você está triste.

Ellen estaciona o carro. Desce com sacolas.

ELLEN: - Ei, alguém aqui pode me ajudar? Pode ser a mais baixinha das duas.

Victoria ri. Corre até Ellen que lhe entrega uma sacola.

ELLEN: - É pra você, mas só pode abrir no seu quarto.

Victoria corre pra dentro de casa. Ellen entra, Scully fecha a porta.

ELLEN: - Comprei algumas coisinhas básicas na liquidação. E camisas novas para o diretor-assistente porque ele merece. Dana, deixa eu falar! Nossa clientela do delivery é chique, viu? Chega de pobre, minha filha. As chiquérrimas de Washington estão encomendando festas inteiras!

SCULLY: - (SORRI) Sério?

ELLEN: - Seríssimo. O golpe da torta na Casa Branca funcionou. Foi indo de boca em boca e agora as madames todas fazem festas com a gente, porque a esposa do presidente adora nossos bolos. Vamos contratar pelo menos mais uma doceira. Mas não se aproveita um assunto daquelas mulheres. Pra elas peitos são seios, bunda é cóccix e papai e mamãe é decúbito ventral...

SCULLY: - (RINDO) Faça um favor pra sua vida social. Jamais diga que me conhece, nem que eu sou sua sócia!

ELLEN: - (RINDO) Comprei isso pra você.

Scully abre a sacola.

SCULLY: - Uma camisola de tigresa? Tamancos de pompons??? Ellen, quer me transformar numa perua? Isso combina mais com a Barbara!

ELLEN: - Que língua maldosa, Dana. Quer dizer que a Dona Rata é perua?

SCULLY: - Ela é perua mesmo, assumida, ela mesma diz isso! Queria ser perua... Tem dias que me sinto um traste. Tô pensando em pintar o cabelo. Acha que louro combina comigo?

ELLEN: - Vai ficar perua. E acho que vai ficar legal.

Scully senta-se. Ellen senta-se ao lado dela.

ELLEN: - Fala. Não recusou ir a uma liquidação no shopping à toa. Só pode estar doente. O que mordeu você?

SCULLY: - Uma coisa chamada esterilidade.

ELLEN: - ... Dana... Está pensando nisso novamente?

SCULLY: - ... Eu... Eu vejo minha filha com outras crianças... Me dá uma vontade enorme de ter outro filho... (ENCHE OS OLHOS DE LÁGRIMAS) Estou com saudade de sentir cheirinho de neném...

ELLEN: - (OLHA APIEDADA) ... Oh, amiga...

Scully se abraça em Ellen, derrubando lágrimas.

SCULLY: - Ellen, eu daria tudo para ter outro bebê...

ELLEN: - Quem sabe entra na lista de adoção? Pode pegar um bem novinho, recém-nascido...

SCULLY: - Eu sei, Ellen, mas... Não é a mesma coisa. Eu olho pro meu marido todos os dias. Vejo o quanto Mulder é apegado com Victoria. Mas também vejo o brilho dos olhos dele se esvaírem quando ele a convida pra jogar basquete, ver um jogo na TV... Ela é uma menina, não gosta disso. Ele fica frustrado, quieto... Mas a gente que é mulher e mãe sabe que tem algo errado, percebe quando o marido esconde algo dentro de si pra não magoar ninguém...

ELLEN: - Acha que Mulder gostaria de ter outro filho?

SCULLY: - Claro que ele gostaria.

ELLEN: - Nunca mais falaram sobre o assunto?

SCULLY: - Não. Não adianta falar nada, ele nada pode fazer. Pra que vou me queixar disso? Pra alimentar a culpa dele? A mágoa que ele carrega pelas coisas todas que sofremos? Deixa assim, Ellen. Certos fantasmas a gente tem que esconder bem no fundo da gente e fingir que não existem.

Victoria sentada na escada observa Scully. Victoria derruba lágrimas.

ELLEN: - Pense assim, você tem uma filha linda, cheia de vida. Ela é sua semente. Ela vai crescer e dar sementes a você e Mulder. Você vai cuidar dos seus netinhos com tanto zelo que não vai mais pensar nos filhos que não pode ter.

SCULLY: - (SORRI/ SECANDO AS LÁGRIMAS) Victoria é a minha dádiva, Ellen. Quando Mulder disse que ela seria o nosso tesouro, eu já sabia que seria. Ela foi uma benção em todos os sentidos. O nosso milagre.


4:16 P.M.

Scully arruma o closet. Victoria, sentada no tapete. Folhas e giz de cera espalhados. Ela rabisca numa folha de papel. Scully continua compenetrada, arrumando as roupas.

SCULLY: - Meu Deus, pobre do meu marido! Essas camisetas estão num trapo! Filha, precisamos comprar umas roupas pro seu pai.

VICTORIA: - Legal! Gosto de dar presente pro papai! Ele gosta de tudo o que a gente dá!

Scully seleciona e joga as camisetas velhas num cesto. Continua vasculhando as roupas. Então pega um par de sapatinhos de bebê. Scully os coloca contra o peito, num sorriso. Victoria desvia a atenção pra ela.

SCULLY: - (DEPRIMIDA) Isso era do seu irmão. Mamãe já falou que teve um outro bebê antes de você?

VICTORIA: - Isso é meu.

SCULLY: - (SORRI) Não. É do seu irmãozinho.

VICTORIA: - Que irmãozinho? Mamãe, você tá bem?

SCULLY: -Antes de você nascer, seu irmãozinho nasceu. Mas ele foi tirado de nós e morreu. Vou guardar isso. Era do seu maninho.

Victoria se levanta, indignada.

VICTORIA: - Bota essa droga fora! Baba diz que dá azar pensar em coisa triste e dá mesmo! Mamãe, isso é meu! Quando eles me tiraram da sua barriga e me roubaram, eu chorei muito. Quando Gabriel me levou, eu não podia mais esperar pra ver vocês novamente.

SCULLY: - ??? Victoria, do que está falando?

VICTORIA: - Puxa vida, mamãe! Você parece louca! Eu tô falando que eu voltei pra vocês dois. Aquele corpo não era pra mim. Não era minha hora.

SCULLY: - (ENCHE OS OLHOS DE LÁGRIMAS) Como assim voltou?

Ela senta-se indiferente. Continua rabiscando. Scully olha pra ela, incrédula.


6:11 P.M.

Mulder entra com um pacote de compras. Scully está nervosa, irrequieta, de um lado pra outro da sala.

MULDER: - Boa noi... O que aconteceu?

SCULLY: - Vem aqui.

Scully puxa Mulder pela mão. O leva até a cozinha. Victoria está sentada à mesa, brincando com a comida. Mulder coloca as compras na pia.

MULDER: - (SORRINDO) Onde está a Pinguinho do papai?

Victoria sorri. Mulder a beija. Senta-se ao lado dela.

MULDER: - Se comportou?

VICTORIA: - Sim. Ajudei a mamãe. Lavei até as xícaras, papai! Ficaram bem limpinhas!

SCULLY: - (NERVOSA) Victoria, fala pro seu pai o que falou pra mim hoje.

Victoria fica indiferente, como quem tenta se lembrar.

SCULLY: - Fala, Docinho. Conta pro papai o que você contou pra mamãe hoje.

MULDER: - Hum, já estou curioso. O que foi?

VICTORIA: - Eu só disse que mamãe é louca.

Mulder olha pra Scully e ri. Scully continua séria e nervosa.

MULDER: - Tá vendo, Scully? Até a sua filha sabe que você é louca.

SCULLY: - Você disse outra coisa. Sobre o seu irmão.

Mulder olha pra Scully sem entender nada.

SCULLY: - Fala pro papai o que sabe. Onde ele está, filha?

VICTORIA: - Eu sou ele, mamãe. Eu já não disse que voltei pra vocês? Foi passagem rápida. Papai lá em cima sabe porquê. Eu não sei.

Mulder levanta-se desatinado, encostando-se no balcão. Olha pra Victoria com medo. Olha pra Scully.

MULDER: - Precisamos conversar.

Mulder vai pra sala. Scully o segue.

MULDER: - Scully...

SCULLY: - Sei o que vai dizer, Mulder. Eu fiquei nesse estado de choque durante a tarde toda. Nem pude terminar o que estava fazendo. Como uma criança de 5 anos pode dizer isso? Eu... Eu estava arrumando as roupas e pensei em falar sobre ele e... E sem nunca termos tocado no assunto na frente dela, Victoria simplesmente me falou aquilo.

MULDER: - ... Scully... (SORRI) Ela só confirmou a verdade. Encontramos nosso filho de novo. Ou melhor, ele nos encontrou. O que é da gente sempre volta, não é mesmo?

Victoria entra na sala. Olha pros dois. Eles olham pra ela.

VICTORIA: - Papai, sabia que eu fiz um desenho pra você?

MULDER: - É?

Ela corre pra mesa de centro e pega o desenho. Mulder senta-se no sofá. Ela mostra o desenho, cheio de riscos.

MULDER: - Hum, isso tá muito bonito! Mas diz pro papai o que é, porque eu sou meio burro.

VICTORIA: - Você, mamãe e eu.

MULDER: - Nossa! Estamos os três juntinhos...

VICTORIA: - Essa é a nossa casa. Essa é a vovó.

Ela pega outra folha cheia de riscos.

MULDER: - E isso, o que é?

VICTORIA: - O lugar aonde eu fiquei até voltar pra vocês. Não era minha hora, nem meu corpo, mas alguém tinha que entrar nele, neh?

Mulder olha pra ela, impressionado. Scully, catatônica.

MULDER: - E esse lugar é colorido?

VICTORIA: - (RINDO) É. Mas eu não quero voltar pra lá. Quero ficar com vocês.

Mulder a pega no colo. Beija-a.

MULDER: - Te amo, minha filhinha.

Scully continua parada. Os olhos se enchem de lágrimas. Sobe as escadas, correndo para o quarto. Mulder suspira.

VICTORIA: - O que a mamãe tem, papai?

MULDER: - Ela tá nervosa. Vou falar com ela.

Corte.


Scully sentada na cama, segura um lenço nas mãos. Olhos vermelhos. Mulder sentado ao lado dela, lhe sorri.

SCULLY: - Quer dizer que ela podia escolher qualquer mulher no mundo, mas quis voltar pra minha barriga de novo?

Mulder afirma sorrindo.

SCULLY: - Ela... eu... (DERRUBA LÁGRIMAS) Por que ela me escolheu? E-eu... Eu não mereço tanto amor. E-eu tive coragem de abandoná-la... De chamá-la de monstro... (CHORANDO) E ela me dá tanto amor assim? Voltou pra minha barriga, podendo ter escolhido tantas mães melhores do que eu!!!

MULDER: - Quem sabe você enterra esse passado todo que ela mesmo enterrou e compreendeu? Hum? Porque ela ama essa mãe dela de uma maneira tão grande que cumpriu o que tinha de cumprir e voltou correndo pra onde ela sempre se sentiu segura e amada.

Scully levanta-se da cama. Desce as escadas correndo. Victoria sentada no sofá, olha pra ela assustada. Scully a pega no colo. Abraça-a com força. A enche de beijos.

SCULLY: - Eu te amo!

VICTORIA: - (RINDO) Nossa, mamãe! Eu também te amo. (PREOCUPADA) Mas não precisa descer correndo porque pode se machucar. Só porque é médica não é desculpa pra correr riscos!

SCULLY: - Docinho, vou pedir um favor pra você. Não fala mais essas coisas. Mamãe fica com medo. Tá? Mamãe não entende muito essas coisas e por isso fica assustada.

VICTORIA: - Tá.


9:49 A.M.

Scully termina de lavar a louça. Seca as mãos, olhar perdido pra janela. Os netos de Nancy correndo pelo pátio. Victoria sentada na cadeira faz um desenho com lápis espalhados pela mesa. Finge prestar atenção no desenho, mas dá algumas olhadas pra mãe, pressentindo sua tristeza. Scully vira-se.

SCULLY: - Docinho... Mamãe vai cochilar um pouquinho tá? Depois vou deixar você com a Baba no escritório porque vou procurar escolas com a senhora McCoy.

VICTORIA: - Você ainda está triste por causa das sementinhas, né?

SCULLY: - (DISFARÇA) Comporte-se. Não mexa em nada perigoso.

Scully sai da cozinha. Victoria olha triste pro desenho. No papel, em lápis de cor e giz de cera, o desenhos de bonecos. Mulder de mão dada com Scully. Victoria de mão dada com Mulder. A casa ao fundo. Um sol. Victoria põe o papel sobre a mesa e desenha um garotinho de mão dada com Scully. As lágrimas dela caem sobre o papel, molhando o desenho. Ela então solta o lápis e olha para o agapórnis sobre a mesa, mordendo um dos lápis de cor.

VICTORIA: - Ikito, sabia que é triste não ter um irmãozinho? É, eu sempre sonhei com meu irmãozinho. Sabe, ele tem os cabelos e os olhos da mamãe...

Corte.


Victoria empurra a porta do quarto. Entra furtivamente. Scully dorme de costas pro colchão. Segura contra o peito, o babador de Victoria quando neném. Victoria senta-se na cama, olhando pra ela triste. Deita-se ao lado de Scully, fazendo carinhos em sua cabeça.

Escola Irving Allen - 5:37 P.M.

Angela, óculos escuros na cabeça, ao lado de Scully. As duas observam a sala do diretor, andando de um lado para outro. Há peças arqueológicas e arte antiga. Quadros, esculturas, vasos. Um quadro de Einstein colocando a língua pra fora. Outro quadro de Tesla. Um quadro da Apolo 13 e Neil Armstrong pisando na lua, outro de missões da NASA. Uma miniatura de pirâmide maia, outra egípcia. Um verdadeiro museu. Troféus científicos e diplomas na parede.

Sobre a mesa, um exemplar de "A Bala Mágica", dos Pistoleiros Solitários. Scully ao ver, segura o riso. Vai para a estante e observa os livros de física e astronomia. Entre eles, Eram os Deuses Astronautas, de Erich Von Däniken. Angela aponta para a maquete da nave U.S.S. Enterprise na mesa do diretor. Scully respira aliviada. As duas riem.

O diretor da escola entra na sala. O Professor Serling (John Cusack), moreno, alto e bonitão, vestido com um jaleco branco, cabelos revirados, parecendo um cientista maluco. Ele as cumprimenta, agitado.

PROF. SERLING: - Boa tarde, senhoras! Sou o diretor John Serling, mas podem me chamar de Serling. Desculpem o atraso. Um guaxinim no porão da escola... Acabo de descobrir que não sou páreo para um guaxinim nervoso.

SCULLY: - Dana Scully, mãe de Victoria Mulder.

ANGELA: - Angela McCoy, mãe de Darius.

PROF. SERLING: - Sentem-se, senhoras, por favor. Querem um café, chá, suco...

Ele vai até a mesa e pega alguns papéis.

ANGELA: - Não, obrigada.

SCULLY: - Agradeço, mas não.

Elas sentam no sofá. Ele na poltrona, de frente pra elas, ajeitando o cabelo.

PROF. SERLING: - Recebi por e-mail algumas informações e um parecer da diretora da Abraham Lincoln sobre a sua filha, senhora Scully. Nada favoráveis. Aqui diz que sua filha não acompanha as aulas, tem curiosidade exagerada, fala coisas indevidas, tem comportamento estranho...

SCULLY: - Mulder. Senhora Mulder. Diretor, eu quero explicar que Victoria...

PROF. SERLING: - (LENDO O PAPEL/ COMEÇA A RIR) Engraçado, parece que estou lendo o relatório da senhora Lee que ela entregou pra minha mãe quando eu era criança... (IRRITADO) Ahhh!!! Malditos cérebros pedagógicos lesados que extinguem talentos pessoais na infância em detrimento de regrinhas pré-estabelecidas por burocratas da educação!

Serling rasga o papel. As duas olham pra ele, incrédulas.

PROF. SERLING: - Teremos o prazer de aceitar seus filhos. No caso de Victoria, faremos um teste de aptidão para sabermos em que série colocá-la. Nossa instituição tem um nome a zelar e não costumamos recusar crianças a não ser por mal comportamento. Embora minha visão diga que crianças não nascem más. Elas aprendem com adultos.

ANGELA: - (SORRI) É pedagogo, senhor Serling?

PROF. SERLING: - Não, mas tive três filhos. Na verdade sou astrônomo e formado em física, PHD em física Quântica. Nada a ver com escola e crianças. Minha esposa era pedagoga e dona dessa escola. Que Deus a tenha! O sonho dela continuará enquanto eu viver. O sonho de uma educação com respeito a individualidade de cada criança.

As duas se entreolham incrédulas.

PROF. SERLING: - Trabalhei na NASA durante alguns anos, mas eu nunca me afastei da universidade onde coordeno alguns projetos e nem desta escola que minha esposa construiu como um sonho pedagógico. Nossa paixão sempre foram os alunos. As crianças que farão deste, um mundo melhor. Não concordam?

Corte.


O carro estacionado em frente a escola. Scully no banco do motorista. Angela no carona. As duas caladas e pensativas. Depois começam a rir ao mesmo tempo.

SCULLY: -O que achou?

ANGELA: -Achei ele um gato, parecido com o John Cusack!

SCULLY: - Se eu não fosse casada, pegava. E ele é viúvo!

As duas riem.

ANGELA: - Não sei, mas eu gostei dele. Gostei das coisas que falou. Essa escola me pareceu a melhor. Vou primeiro falar com meu marido. Mas achei o diretor Serling muito agradável, educado, inteligente... Nossa, o homem é um cérebro ambulante!

SCULLY: - (RINDO) E bonitão, não esqueça disso!

ANGELA: - (RINDO) Não me importaria de vir todos os dias trazer Darius e Victoria pra escola.

SCULLY: - Ah é? Como você é egoísta, Angela! Dias alternados, porque eu também quero!

As duas riem. Scully liga o carro.

ANGELA: -Depois você conversa com seu marido e me diz o que decidiram. Eu tenho certeza que Isaac vai optar por esta escola.

SCULLY: - Vou falar com Mulder, nunca tomamos decisões sem consultar o outro... Também vou checar toda a ficha do professor e da escola. Quero ir pra casa mesmo, hoje não estou bem.

ANGELA: - Algo que eu possa fazer por você?

SCULLY: - Não. Estou triste. Mulder fica longe e eu fico assim, pensando em bobagem, sonhando coisas impossíveis... Preciso dele por perto pra ter um chão.

ANGELA: -Tomara que nossos maridos fiquem amigos. Que tal um churrasco na minha casa, quando vocês terminarem de investigar esse caso? Eu apresento o Isaac e você me apresenta o Mulder oficialmente.

SCULLY: - Adorei a ideia. Preciso distrair.

ANGELA: - Ótimo, assim Darius e Victoria vão se conhecer e espero que se deem bem. Meu filho anda magoado porque não fez amizades ainda.

SCULLY: - Nem me fala. Victoria arrumou o primeiro amigo dela e não para de falar nele. Quer fazer mais amigos.



BLOCO 4:

Motel Sonnerville – West Virgínia – 9:47 P.M.

Mulder sentado na cama, olhando pra Scully. Ela sentada na poltrona.

MULDER: - Mas você não pode dormir no carro!

SCULLY: - Eu não vou dormir. Vou ficar acordada aqui, com você.

Mulder estende os braços. Scully cerra o cenho pra chorar. Senta-se no colo dele. Mulder a envolve nos braços.

MULDER: - Não me convenceu vindo até aqui com a desculpa de querer investigar esse caso. Agora com todo esse choro, menos ainda.

SCULLY: - ...

MULDER: - Fala, baixinha... O que aconteceu? Quem te magoou? Diz o nome do infeliz, que eu esfolo ele na porrada.

SCULLY: - Nada... Eu só estou triste. E queria logo ver você pra escolhermos a escola de Victoria...

MULDER: - Não minta... Não foi por isso que veio até aqui. Se não quer falar, eu nada perguntarei. Mas não acha melhor voltar pra casa? Ahn?

SCULLY: - Não. Victoria está com Baba. E eu quero ficar com você.

Scully senta-se na cama. Mulder ajeita os cabelos dela que lhe caem do rabo de cavalo, pra trás das orelhas.

MULDER: - Vou buscar algo pra gente comer. Não demoro. Como Ivan não está, aquela coisa não vai ligar. E nem vai aparecer, porque Joan também não está.

SCULLY: - Eu sei me cuidar.

MULDER: - O que quer comer?

SCULLY: - Sua boca.

Mulder a beija. Afasta os lábios e sorri apaixonado pra ela. Scully toma o rosto dele nas mãos e o beija com vontade. Mulder arregala os olhos. Scully solta os lábios. Sorri.

MULDER: - Uh! Quer me deixar sem ar? Vou buscar um lanche pra nós dois.

Mulder levanta-se, pega a jaqueta e sai. Scully anda pelo quarto, secando as lágrimas, tentando se recompor. Vai até o banheiro. Lava o rosto. Olha-se no espelho. Leva a mão embaixo da saia, confusa. Scully retira a mão e olha pra seus dedos, avermelhados de sangue. Ela fica incrédula. O telefone toca. Scully lava as mãos, seca o rosto, olhando para o telefone com medo. Aproxima-se. Ergue o fone do gancho.

JOAN (OFF): - Ivan?

Scully solta o ar que prendia nos pulmões.

SCULLY: -(AO TELEFONE) Não, Ivan saiu. É você Joan?

JOAN (OFF): - Sim. É a Dana?

SCULLY: - (AO TELEFONE) Sim. Ivan foi jantar e Mulder foi buscar algo pra comer.

JOAN (OFF): - Só peça pro Ivan me ligar, Dana. Kevin não dorme sem o pai dele dar boa noite.

Scully desliga. Abre a janela, inclinando a cabeça pra trás, tomando ar fresco. Chuvisco lá fora. Scully olha para o estacionamento do motel. Asfalto molhado. A luz da placa do restaurante e do motel que piscam. Ela dirige a atenção para os carros estacionados. A Kombi de Ivan. Sorri. Olha para a árvore alta do outro lado. Inclina a cabeça, observando com olhos impressionados. Os pés negros agarrados ao galho. As folhas da copa da árvore escondem o corpo negro, apenas os olhos vermelhos ressaltam por entre elas. Scully fica imóvel observando. O Homem Mariposa também a observa. Até desaparecer entre as folhas e surgir no céu escuro, batendo as asas. Mulder entra no quarto com os lanches.

MULDER: - Trouxe um hambúrguer pra você. E trouxe saladinha.

SCULLY: - (CATATÔNICA/ OLHANDO PRA RUA)

MULDER: - Não vai acreditar. Tinha uma mulher no bar, que nos disse ter avistado a criatura ontem à noite nas imediações do motel. Bingo se ela não estava menstruada.

SCULLY: - ...

MULDER: - Sabia que essa coisa aparece mais pra mulheres que estão menstruadas? Pode me dar alguma teoria sobre isso?

Scully pega a bolsa. Sai porta à fora.

MULDER: - Scully?

Mulder sai atrás dela. Scully desce as escadas com pressa. Mulder a segura pelo braço.

MULDER: - Scully, você está bem?

SCULLY: - Você tem razão. Melhor ir pra casa.

Scully desce as escadas. Mulder a observa, sem entender nada.

Corte.


Scully chora com ódio dentro do carro, esmurrando o volante.

SCULLY: - (AOS PRANTOS) Desgraçados, o que fizeram comigo dessa vez? Não, meu Deus, de novo não!!!!Eles fizeram alguma coisa comigo!!!

Scully se debruça sobre o volante e chora inconsolada.


X-Files Investigations – 11:29 A.M.

Baba olha pra Scully que rabisca num papel à toa.

BABA: - Tem certeza de que quer trabalhar?

SCULLY: - Prefiro ficar aqui. Victoria na escola, Mulder em Point Pleasant, vou fazer o quê sozinha em casa? Pensar besteira? Vou terminar de digitar os últimos Arquivos X e colocar no sistema.

BABA: - Ok. Mas melhore essa cara... Tá acontecendo alguma coisa? Quer falar sobre isso? O narigudo anda incomodando você?

SCULLY: - Não... E-eu só estou confusa. Esse caso do Homem Mariposa me deixa nervosa. É um demônio, se assemelha a um e nada que venha deles me deixa calma depois de tudo o que passei. Parece que escuto aquela moeda tiritando nos meu ouvidos. Chego a perder o sono com medo. Eu odeio aquele desgraçado! Eu odeio o Fumacinha!

BABA: - Preciso ir comprar uma passagem. Vai ficar bem?

SCULLY: - Claro...

Baba pega a bolsa e sai. Scully respira fundo. O telefone toca. Scully atende.

SCULLY: -(AO TELEFONE) X-Files Investigations, bom dia...

Um ruído ensurdecedor. Scully afasta o telefone da orelha. O ruído cessa. Scully nervosa, de olhos fechados e mão trêmula leva o telefone ao ouvido.

HOMEM MARIPOSA (OFF): -Orion chora em desespero, pois é chegado o momento sobre a Terra em que o caçador de mundos, que é a caça do mundo, vai partir para a luta. Três estrelas têm em seu cinturão, duas são as pernas, dois os braços. Grandes braços jamais alcançarão a caça, pois o cão maior, que tem o nome do terror, os protegerá"...

Scully angustiada desliga o telefone. Mal consegue ver as coisas ao seu redor. O ambiente fica turvo e ela desmaia sobre a mesa.

Tela escura.

Vozes.

Abre a tela.

Scully se acorda deitada no sofá da agência, com a imagem de Mulder à sua frente, olhando-a com preocupação. Baba mais atrás.

MULDER: - O que houve com você?

Scully senta-se. Leva a mão à testa, tentando se localizar.

MULDER: - Quer ir ao médico?

SCULLY: - O que faz aqui?

Baba disfarça, assoviando. Scully a fulmina com os olhos.

BABA: - Ei! Não me olhe assim! Fiquei preocupada com você! Entrei na sala, você estava caída aí, branca feito cera. Queria que eu chamasse quem? Preferia ter chamado o Superman, mas na falta dele, foi esse judeu sovina, feio e narigudo mesmo!

Mulder olha pra Baba com deboche. Senta-se ao lado de Scully.

MULDER: - (SÉRIO) Lembra-se do que combinamos? Não deveria levar o mundo nas costas, como eu também não deveria. Scully, nosso casamento acabou uma vez por causa dessas coisas. O que está me escondendo? Não foi esse o combinado entre a gente naquela ilha. Nas horas boas e nas horas ruins, entende?

SCULLY: - Mulder, ele... O Homem Mariposa me ligou.

Mulder passa as mãos nos cabelos. Baba entrega um copo de água pra Scully.

MULDER: - Baba, chama o Krycek aqui. Preciso dele, temos que começar a interrogar pessoas que não querem se expor.

Baba sai da sala. Mulder está preocupado com Scully.

MULDER: - (NERVOSO) O que ele disse? Não entendo por que ligaria pra você.

SCULLY: - E-eu também não sei.

MULDER: - Tem certeza de que era ele? Pode ser um trote, tem muita gente fazendo isso com todo esse alvoroço e... Você não estava na ponte naquela noite. Você também não menstrua. Não vejo ligação.

SCULLY: - Falou algo em charadas. Uma profecia. "Orion chora em desespero, pois é chegado o momento sobre a Terra em que o caçador de mundos, que é a caça do mundo, vai partir para a luta. Três estrelas têm em seu cinturão, duas são as pernas, dois os braços. Grandes braços jamais alcançarão a caça, pois o cão maior, que tem o nome do terror, os protegerá". Mulder, estou com medo disso, aquele demônio deve estar por trás disso tudo!!!

MULDER: - Ele se refere a uma constelação. Há muitas especulações ao redor de Orion, principalmente por apresentar corpos celestes que tem órbita similar a planetas. A constelação de Orion tem a forma de um caçador. É muito cultuada nas civilizações antigas.

SCULLY: - Mas quantas estrelas conseguimos ver a olho nu daqui da Terra?

MULDER: - Três no cinturão, duas nos braços e duas nas pernas... Ele está se referindo as sete estrelas mais visíveis em Orion... Mas qual a relação? Orion é tido como o caçador na mitologia... Ele comanda os céus desde o fim do Outono até ao começo da Primavera, com o seu cão de caça, a estrela Sirius ou Cão Maior, que fica a seus pés. Sirius é uma estrela polêmica, ligada a suspeita de existência de algum tipo de vida. O que ele quis dizer com isso é que é o problema mesmo!


Residência dos Robinson - 2:21 P.M.

Mulder sentado no carona, boquiaberto. Krycek estaciona a picape na frente da mansão. Os dois descem. O mordomo já espera na porta.

KRYCEK: - Acho que não estamos vestidos pra ocasião. Ralé não entra num lugar desses.

MULDER: - Viu o tamanho daquele portão? Tem câmera e interfone, o cara tem que se identificar mesmo! Como estrangeiros conseguem fazer uma fortuna dessas nesse país?

KRYCEK: - Perguntou ao estrangeiro errado. Qual o nome da mulher, mesmo?

MULDER: - Lyn Chang. Chineses... Aposto que começou fortuna vendendo badulaque falsificado no eBay.

KRYCEK: - Fala sério, Mulder. Mas é muito badulaque pra vender até chegar a isso... Máfia Chinesa?

Os dois sobem as escadas. Krycek mostra o distintivo ao mordomo.

KRYCEK: - Sou o detetive Krycek e este é o detetive Mulder. Lyn Chang, por favor.

O mordomo sinaliza para eles entrarem. Os dois entram no saguão enorme da mansão. O mordomo se afasta. Eles ficam impressionados.

MULDER: - Isso aqui é mais luxuoso que a Casa Branca!

KRYCEK: - Deixa que eu interrogo. Tenho o método certo. Aprenda comigo, psicólogo.

Mulder olha debochado pra Krycek.

MULDER: - Fala sério, Rato. Você tá adorando exibir o distintivo por aí!

KRYCEK: - Eu acho que mereço. Eu fiz a maior parte do trabalho, cruzei depoimentos e descobri que apenas duas mulheres não depuseram ainda.

MULDER: - Ah, certo. E ficar esperando o Mariposa aparecer não é trabalho?

KRYCEK: - Você adora procrastinar, Fox Mulder. Americanos adoram isso! Vocês não sabem o que é trabalhar duro. Russos sabem!

MULDER: - Virou peão agora? Até parece que morre trabalhando!

KRYCEK: - Eu dou duro a noite toda!

MULDER: - Aí é problema seu, "amorzinho". Eu não tenho nada a ver com o que você dá a noite toda.

KRYCEK: - Não dá pra falar sério com você, Mulder. Desisto!

Mae, a senhora asiática, se aproxima, ao lado dela a menininha de seis anos, Megan, toda arrumadinha com passadores nos cabelos. Krycek mostra o distintivo da polícia.

KRYCEK: - Imigração dos Estados Unidos.

Mulder encara Krycek, num deboche. Mae, nervosa e com medo, olha para Megan.

MEGAN: - Minha avó não entende bem inglês. Meu pai não tá. O que vocês querem?

Krycek e Mulder se entreolham desanimados.

MULDER: - Conhece algum tradutor chinês?

MEGAN: - Ela não é chinesa, é coreana.

Megan fala algo em coreano com a avó, que responde. Mulder e Krycek ficam pasmos.

MEGAN: - Podem entrar, ela fala e eu traduzo pra vocês. Vamos pra sala.

KRYCEK: - Uau! Seu pai deve ganhar bem.

MEGAN: - Sim. Ele é dono daAlpha Pharmaceuticals.

Mulder e Krycek se entreolham, incrédulos.

MULDER: - Seu pai é... Robert Robinson?

MEGAN: - Sim. E eu sou Megan Robinson. Você o conhece, policial?

MULDER: - De nome. Eu sou o detetive Mulder e esse é o detetive Krycek. Sabe que tenho uma filha da sua idade?

MEGAN: - Legal!Será que ela quer ser minha amiga? Eu não tenho amigos por aqui.

MULDER: - Essa é uma queixa dela também. Você tem quantos anos?

MEGAN: - Seis.

MULDER: - Nossa, você é bem esperta pra sua idade.

MEGAN: - E a sua filha tem quantos anos?

MULDER: - Cinco, ela faz seis em dezembro.

MEGAN: - Vocês vão prender a minha avó por quê? Ela não fez nada!

Mulder e Krycek sorriem.

KRYCEK: - Não vamos prender sua vovó. Só queremos que ela nos conte sobre algo que viu. É pra ajudar a polícia.

MEGAN: - Ufa! Pensei que ia ter que ficar sozinha com os empregados nessa casa...

Eles entram na sala de estar, igualmente enorme e luxuosa. Krycek cochicha pra Mulder.

KRYCEK: - A vida dá voltas mesmo. Estamos na casa de um dos caras da Ordem dos Treze. Você interroga a mulher, afinal é um Arquivo X, enquanto isso, eu dou umas espiadas por aí.


Hotel Ritz - 4:47 P.M.

Krycek e Mulder entram no hotel luxuoso.

KRYCEK: - Fala você. O gerente conhece a minha cara.

MULDER: - Andou aprontando por aqui? Festinhas?

KRYCEK: - (SACANA)Nossa! Cada orgia que nem dá pra contar, você ficaria corado! Sexo, rock e tiroteio! (SÉRIO) Coin costuma se hospedar aqui. E o Rockfell também.

MULDER: - (RINDO) Ok. Eu vou até a recepção.

Krycek fica andando pelo saguão, olhando os quadros. Mulder aproxima-se do balcão. O Recepcionista lhe sorri.

RECEPCIONISTA: - Pois não, senhor?

MULDER: - Senhora West, por favor. Ela me espera. Fox Mulder.

O Recepcionista pega o telefone. Mulder coloca as mãos nos bolsos das calças.

RECEPCIONISTA: - Senhor, ela pediu que a aguarde no bar. Siga à esquerda, na primeira porta.

Mulder faz sinal pra Krycek. Os dois vão para o bar.

MULDER: - Ela quer que a esperemos no bar.

KRYCEK: - Ah, como eu fico triste com isso!

Os dois entram no bar.

KRYCEK: - Será que tem vodka russa?

MULDER: - Aposto que tem o que você estiver disposto a pagar.

KRYCEK: - Senta aí, Mulder. Hoje eu pago. Vamos beber no Ritz! Chega de pobreza!

Os dois sentam-se ao balcão. O Barman se aproxima.

MULDER: - Mas não me vem com vodka pura, "amorzinho". Isso é bebida de boiola.

KRYCEK: - Não sou eu quem tomava Martini com azeitona e uma sombrinha no copo, boiola.

O Barman segura o riso.

MULDER: - Um uísque sem gelo, cowboy, coisa pra americano macho. E uma vodka pro boiola russo aqui.

KRYCEK: - E coloca uma sombrinha no copo do machão aí que ele adora!

O Barman serve uma dose de vodka russa e entrega para Krycek, que olha pra garrafa.

KRYCEK: - Uau! Moskovskaya Osobaya? Faz tempo que não via uma garrafa dessas... (CHEIRA A VODKA NO COPO) Ah, até me deu saudades de casa... Spasiba, amigo. Aos amigos!

Krycek bebe num gole só. Mulder olha em pânico. O Barman serve outra dose. Krycek olha pra Mulder. O Barman entrega o uísque de Mulder com um guarda-chuva colorido. Krycek segura o riso. Mulder olha incrédulo pro Barman.

BARMAN: - Ya russkiy, kovboy. (Eu sou russo, cowboy).

Krycek leva a mão à boca, rindo. Mulder faz cara de pânico.

MULDER: - Acho que ele ofendeu a minha mãe.

KRYCEK: - Não, ele disse apenas "Eu sou russo, cowboy". Sorte sua que ele não é o dono desse bar... Se fosse, ele não teria colocado essa sombrinha no seu copo. Teria colocado em outro lugar! Vida longa e próspera!

Os dois brindam. Krycek bebe num gole só. Mulder arregala os olhos. A mulher de meia idade, inglesa, em um tailleur bem comportado e clássico, com colar e brincos de pérolas entra no bar. Aproxima-se do balcão.

APRIL: - Detetives?

Os dois se levantam, ficando comportados. April estende a mão, toda educada.

APRIL: - April West, muito prazer.

MULDER: - Fox Mulder.

KRYCEK: - Alex Krycek.

Ela senta-se. Mulder e Krycek também.

KRYCEK: - Desculpe senhora, West, sei que não se bebe em serviço...

APRIL: - É compreensível, esse assunto exige... (OLHA PRO BARMAN) Um Cosmopolitan, por favor... Então vocês vão investigar o que está acontecendo... Estou morrendo de medo, seja o que for, me ligou dizendo coisas sem sentido. Desculpem não recebê-los lá em cima. Mas quero manter esse assunto longe dos ouvidos do meu marido, temos alguns problemas particulares e sei que ele não concordaria com minha atitude. Chandler é um pouco... Digamos... Esquentado demais.

MULDER: - Tudo bem, tratarei com a senhora, esse assunto ficará entre nós. Me conte tudo desde o início, o que viu na ponte Silver, a ligação que recebeu...

Corte.


Ainda no bar do hotel. Close na dose de vodka que cai ao copo de Mulder, que já está pra lá de Bagdá. Krycek ergue o copo.

KRYCEK: - Aos bastardos filhos da mãe que nos ferraram pra que se ferrem agora!

Krycek e Mulder brindam. Soltam o ar dos pulmões. Esperam alguns segundos. Então bebem num gole só. Depois soltam o resto de ar dos pulmões.

KRYCEK: - É, você tá aprendendo a beber vodka como um russo.

Os dois viram seus copos com a boca pra baixo e colocam sobre o balcão, junto aos outros vinte.

KRYCEK: - Mais duas doses, camarada.

O Barman serve mais duas doses, quase rindo. Krycek pega o copo e encara Mulder, num deboche. Mulder pega seu copo, já rindo sozinho.

MULDER: - (BÊBADO/ ENROLANDO A LÍNGUA) Aos "filhosss" da puta do governo!

Os dois brindam e bebem num só gole. Viram os copos, se olhando em desafio. O Barman serve outra dose aos dois.

KRYCEK: - Às nossas lindas mulheres!

Os dois brindam. Viram os copos e colocam no balcão. Outras duas doses servidas.Mulder já olha pro copo com cara de nojo.

MULDER: - (BÊBADO/ ENROLANDO A LÍNGUA) Ao meu cachorro!

Os dois brindam, bebem num só gole, e viram os copos. O Barman serve mais duas doses. Krycek pega seu copo. Mulder revira os olhos e ergue o braço, fazendo um gesto de desisto.

KRYCEK: - Tem certeza?

MULDER: - (BÊBADO) Tenho. Perdi a aposta.

KRYCEK: - À aposta perdida!

Krycek bebe sua vodka num só gole. Mulder faz cara de nojo.

KRYCEK: - Não vamos desperdiçar uma vodka dessa qualidade. Ao meu amigo Mulder!

Krycek bebe o copo de Mulder. Mulder pra lá de enjoado. Se levanta, quase caindo. Krycek o segura. Mulder abre a carteira e paga. O Barman começa a rir.

BARMAN: - Ei, americano.Nunca desafie um russo a beber vodka.

MULDER: - (ENROLANDO A LÍNGUA) Acho... Que aprendi a lição!

Krycek sai levando Mulder do bar. Mulder coloca o braço em Krycek.

MULDER: -(BÊBADO) Pra onde vamos, amorzinho? Hum?

KRYCEK: -(PÂNICO) Me dei mal... Mulder, se você tentar me agarrar, eu soco a sua cara, entendeu? Vamos pra sua casa, "amorzinho". E torça pra Scully estar de bom humor!

MULDER: -(BÊBADO) Não! Vamos beber mais um pouco? Pode ser uísque? Sabia que eu te amo, Ratinho?

KRYCEK: - É, me dei mal mesmo!!!


Residência dos Mulder - 6:59 P.M.

Krycek estaciona a picape na frente da casa. Nancy varrendo o quintal, disfarça os observando. Krycek desce da picape. Abre a porta do carona, Mulder se abraça nele, caindo de bêbado.

MULDER: - (BÊBADO) Você é divertido. Eu admito! Eu já falei que amo você?

KRYCEK: - (RINDO) Mulder, você tá bêbado! Fala baixo ou vai queimar nosso filme!

MULDER: -(BÊBADO) Não, é sério... Eu amo você! Você é o cara que eu posso contar! Sempre!

Krycek leva Mulder pelo jardim. Mulder abraçado nele, dá um beijo no rosto de Krycek. Nancy arregala os olhos.

NANCY: -Vocês não tem vergonha não? Vão se agarrar dentro de casa e não na rua!

MULDER: -(BÊBADO) O que foi, jararaca peçonhenta? Sabia que eu amo esse cara? Ele é o meu irmão, o Ratinho! Ele é o cara!

KRYCEK: - (RINDO)Mulder, cala a boca!!!

NANCY: - Pouca vergonha! Não se dão ao respeito!

KRYCEK: - Ô titia linguaruda, vai cuidar da sua vida, vai!

NANCY: - Eu estava cuidando da minha vida até vocês estragarem o meu dia, seus efeminados!!!

Krycek solta Mulder, que quase cai. Mulder se segura nele.

KRYCEK: -(IRRITADO) Me solta, Mulder. Eu nunca bati em mulher, mas sempre tem uma primeira vez pra tudo!

MULDER: - (GRITA/ BÊBADO) Ô jararaca da língua grande, vamos fazer uma aposta? Vamos ver se a sua língua é maior que o meu...

Krycek tapa a boca de Mulder. Nancy arregala os olhos e corre pra dentro de casa.

MULDER: -Viu? Isso é frustração! Desejo reprimido! Freud explica!

KRYCEK: - Quero ver é eu explicar pra Scully o jeito que você tá. Isso sim eu quero ver!

Krycek leva Mulder até a porta dos fundos. Bate na porta. Scully abre. Olha incrédula.

MULDER: - (SORRI) Issscully!!! A ruiva mais linda do mundo!!! Rato, eu amo essa mulher!

SCULLY: - (INCRÉDULA) Mulder, você tá bêbado?

MULDER: - Acho que só um pouquinho.

SCULLY: - O que vocês dois aprontaram?

KRYCEK: - Scully, não briga com ele. Ele quis fazer uma aposta comigo e se deu mal. Briga comigo, eu que topei a aposta sabendo que ia ganhar. Nada que um café e um banho frio não resolvam.

Mulder olha debochado pra Krycek e beija o rosto dele. Scully ergue as sobrancelhas.

MULDER: - Costume russo. Esse é o cara. Meu amigo russo. (COMEÇA A CHORAR) Meu irmão...

Mulder se abraça em Krycek e chora. Scully suspira. Krycek abraça ele.

KRYCEK: - Mulder, somos irmãos sim. Não chora, tá bom?

MULDER: -(CHORANDO) Desculpe as coisas que eu fiz contra você.

Scully segura o riso.

KRYCEK: - Mulder, já nos desculpamos, tá certo? Eu também fiz coisas contra você... Você bebeu demais, agora precisa dormir um pouco.

MULDER: -(CHORANDO) Eu te amo.

KRYCEK: - (RINDO) Também te amo, Mulder. E nunca mais vou topar esse tipo de aposta, porque você bêbado é de lascar!


10:54 P.M.

Scully deitada na cama fala ao telefone. Mulder dormindo de boca aberta.

SCULLY: - (AO TELEFONE/ RINDO) Não acredito! Nunca tentei... Sério? Hum... Não, nós não somos pervertidas, nós somos mulheres excêntricas e apaixonadas que gostam de novidades... Claro! Ah, mas afinal, ele consertou a mesa? Hum... Vai comprar uma mesa mais reforçada?

Scully coloca a mão na boca, rindo. Mulder se acorda, zonzo, cerrando os olhos e levando a mão na cabeça.

SCULLY: - (AO TELEFONE) Vou desligar, Barbara. Mulder acordou. Depois nos falamos, tá? ... Não, não briga com o Alex, sabe o que acontece quando os dois moleques se juntam, eles pensam que são garotos e bancam os idiotas em disputas idiotas... (RINDO) Sim, os dois são especialistas mesmo! Um quebra camas, o outro quebra mesas.

Scully desliga, rindo sem parar. Encara Mulder.

SCULLY: - E aí, grande bebedor de vodka? Como está se sentindo?

MULDER: - Um idiota por desafiar um russo a beber vodka! E preocupado com o castigo...

SCULLY: - Na próxima, Mulder, desafie Krycek a comer cachorro quente. Ele vai perder com certeza!

Mulder sorri. Scully troca um selinho com ele.

MULDER: - Não tá brava comigo?

SCULLY: - Não. Acho que você estava precisando disso há muito tempo. Algumas vezes faz bem cometer tolices.

Scully se levanta da cama. Calça os chinelos. Mulder se levanta, se arrastando. Põe as mãos na cabeça.

MULDER: -Que ressaca! Vou tomar um banho e voltar pra cama. Amanhã cedo, Point Pleasant de novo.

Mulder entra no banheiro, vai tirando a roupa.

SCULLY: - Acha que aquela coisa quer derrubar outra ponte?

MULDER: - Eu nem sei mais o que acho. Tudo que eu acho é o caminho da cama.

Scully sorri. Vai até o banheiro. Mulder entra no box.

SCULLY: - A raposa está matutando algo.

MULDER: - Estou. Krycek e eu conseguimos que duas das pessoas que não quiseram falar resolvessem abrir a boca. A tal April West não falou antes por causa do marido, o cara é um banqueiro inglês, vão ficar um ano aqui e ele não quer a esposa envolvida em escândalos. Acredite, foi difícil perguntar para uma dama inglesa se ela está no período de ovulação. Mas ela disse que sim.

SCULLY: - É, eu deveria ter ido com você, uma mulher conseguiria mais fácil essa informação.

MULDER: - A outra, Lyn Chang, é uma senhora de 70 anos que nem fala a nossa língua, a neta dela que nos traduziu o depoimento. Mae também recebeu uma ligação do Homem Mariposa, mas assim como você, ela não se encaixa no perfil de testemunhas. Ou mulheres de 70 ainda menstruam? E de brinde, se quer saber, ela é sogra de um dos caras da Ordem dos Treze!

SCULLY: - Sério? Bom, então sua teoria está errada.

Mulder liga o chuveiro.

MULDER: - Yhaaaaaa!!!!! Que água mais fria! Brrrrrrrr....

SCULLY: - Abra aos poucos. O aquecedor está com problemas.

Mulder coloca a cabeça pra fora do box, tirando a água do rosto.

MULDER: -Conseguiu uma escola pra Pinguinho?

SCULLY: - Sim, vamos conversar Mulder, mas acho que o lugar de Victoria é na Irvin Allen.

MULDER: - (RINDO) Irvin Allen? Por acaso encontrou o Dr. Smith e o robô? As pessoas lá são pequenininhas? O caminho é um túnel do tempo?

SCULLY: - Mulder, é sério. Chequei tudo, até o histórico do diretor Serling.

MULDER: - (RINDO) Serling? (CANTAROLA O TEMA DE ALÉM DA IMAGINAÇÃO)

SCULLY: -(RINDO) Mulder!

MULDER: - Há uma quinta dimensão além daquelas conhecidas pelo Homem. É uma dimensão tão vasta quanto o espaço e tão desprovida de tempo quanto o infinito. É o espaço intermediário entre a luz e a sombra, entre a ciência e a superstição; e se encontra entre o abismo dos temores do homem e o cume dos seus conhecimentos. É a dimensão da fantasia. Uma região Além da Imaginação...

SCULLY: -Deus, eu lhe peço sabedoria para entender meu homem, amor para perdoá-lo e paciência pelos seus atos. Porque se eu pedir força, eu bato nele até matá-lo!

MULDER: - Uh! Tá bom, e o que esse tal de Serling tem de especial?

SCULLY: - Paciência e amor pelas crianças. Precisava ver como ficou interessado por elas. A senhora McCoy também vai colocar Darius na escola. Fica mais fácil, nos revezamos para levar e buscar as crianças... Vou descer e arrumar seu jantar.

MULDER: - Me dê o nome desse cara. Eu vou checar a vida dele. Por meios não oficiais. Não confie em ninguém.

Mulder puxa a toalha e se enrola. Sai do box. Aproxima-se do espelho.

MULDER: - Vou fazer a barba. Amanhã acordo e nem dá tempo... Scully, onde está o secador de cabelo?

Nenhuma resposta. Mulder abre as gavetas do balcão. Então para. Leva a mão e ergue a caixinha de absorventes aberta. Mulder fecha os olhos, angustiado.

Corte.


Scully entra no quarto. Mulder deitado na cama, apenas com as calças do pijama, assistindo TV.

SCULLY: - (SORRI) Não vai jantar? Ou quer que eu traga na cama, bwana?

Mulder leva a mão debaixo do travesseiro e coloca a caixinha de absorventes na cama. Scully tira o sorriso do rosto.

MULDER: - Quando ia me contar? É por isso que está nervosa?

Scully senta-se na cama, angustiada.

MULDER: - O que conversamos naquela ilha? Ahm? Dividir tudo, sem poupar o outro.

SCULLY: -Mulder, e-eu... Me desculpe. Eu só não quero reviver pesadelos que pensei terem acabado, eu não quero mais ver você se acabando por minha causa. Não queria entristecer você com lembranças do passado, num momento em que jogamos todo o passado para trás e estamos vivendo o que sempre desejamos viver.

Mulder senta-se ao lado dela e a abraça. Scully começa a chorar. Mulder a aperta mais contra si, beijando a cabeça de Scully.

MULDER: - Scully, não poupe seu marido, seu amigo, seu parceiro, seu porto seguro. Ancore seu navio e seus problemas nos meus braços, hum? Seus problemas são meus também. Eu gosto dessa responsabilidade. Gosto de cuidar da minha Scully... Quando isso começou?

SCULLY: - Durou apenas três dias.

MULDER: - Eu creio que não tem explicação científica, mas...

SCULLY: - Não tem, Mulder.A mulher nasce com todos os óvulos que terá em sua vida, ela não produz nenhum óvulo novo. A menstruação é a liberação da camada interna do útero que engrossou para se preparar para um óvulo fertilizado e que não foi fertilizado.

MULDER: - Então me explica como isso aconteceu. Você não tem óvulos. Seu útero sabe disso. De onde surgiu esse sangue?

SCULLY: - (MORDE OS LÁBIOS) Eu não sei.

MULDER: -Você foi ao médico?

SCULLY: - ... Não.

MULDER: - Ah sim, Dra. Scully. Receita pros outros é bom.

Mulder acaricia os cabelos dela. Ela abraçada nele, recosta o queixo no ombro dele.

SCULLY: - Estou bem, Mulder, juro.

MULDER: - Está preocupada e eu sei porquê. Não vamos fugir do assunto. Vamos racionalizar. O Krycek acabou com o Sindicato. Mas isso não significa que Coin não esteja tramando alguma coisa com o Strughold que não é mais o Strughold, não sabemos o que eles pretendem... Os Greys? Eu não sei, Scully, mas eu vou descobrir. E você não precisa ter medo. Se fizeram alguma coisa com você, eles vão ficar muito ferrados. As coisas mudaram, eu fiquei mais experto e agora tenho o Rato do meu lado. Se precisar, Krycek e eu explodimos tudo!

Scully olha pra ele e sorri, mais calma.

SCULLY: - Eu sei. Vocês explodem tudo, contanto que uma garrafa de vodka não atrapalhe.

Mulder sorri pra ela.

MULDER: - Eu te amo.

Mulder segura o rosto dela e a beija na testa, no nariz e nos lábios. A envolve nos braços.

MULDER: - Mas vou ter que admitir que a vodka é das boas. A ressaca passou rápido.

Os dois riem. Scully segura as mãos dele. Olha nos olhos dele. Ele olha nos olhos dela.

MULDER: - Não enjoou desse cara ainda?

SCULLY: - Nunca! E você? Não enjoou dessa cara aqui?

MULDER: - Nunca! Mas você tá diferente, Scully. É a minha Scully, mas desde que a gente saiu do FBI, você tá mais solta, mais alegre, mais humorada. Bem mais feliz. Ou foi o casamento?

SCULLY: -(SORRI) Talvez... Eu me sinto mais completa, Mulder. Tranquila. Sem pesos e obrigações. Eu posso cuidar da minha filha, do meu marido, investigar com ele ou não. Estou livre pra fazer o que quiser. Mas não sei se foi apenas o FBI... Eu aprendi a deixar muitas das responsabilidades pra você, me detive nas coisas que eu posso fazer melhor e deixei pra você fazer as que você faz melhor.

MULDER: - Ou seja, resolveu deixar o seu homem ser homem e resolveu ser a mulher dele. Você pode ser o que quiser, nada disso vai me tornar um carrasco machão na sua vida. E eu me sinto bem melhor tendo a responsabilidade de cuidar e manter a minha família. Eu cresci, Scully. Preciso disso. Me sinto mais útil pra você e Pinguinho do que me sentia naquele porão correndo atrás da verdade. Posso correr atrás de tudo, mas primeiro vem minha família. Meus dois Arquivos X favoritos.

Scully abaixa a cabeça rindo.

SCULLY: - Tem razão, Mulder. Acho que nós dois crescemos. E o nosso relacionamento se solidificou, amadureceu mais... Tenho tempo de sobra, estou até pensando em estudar!

MULDER: -Ótimo! Estude. Faça tudo o que quiser. Eu garanto as contas no final do mês. Até que a agência não vai tão mal... Achei que íamos empatar dinheiro e apertar o cinto, mas tem muito mais Arquivo X lá fora que no porão do FBI!

Os dois riem. Scully aproxima os lábios dos dele e o beija com amor. Vai empurrando Mulder sobre a cama e ficando em cima dele.

MULDER: - Não. Acho melhor não. Você não sabe porque teve esse sangramento. E eu começo a me preocupar que tenha machucado você.

SCULLY: - Mulder, deixa de ser paranoico! Se fosse isso eu sangraria o mês inteiro!

MULDER: - Acho melhor darmos um tempo.

SCULLY: - Mulder, o tempo passa rápido demais. E todo o tempo é pouco pra estar com você.

Os dois ficam se olhando. Mulder sorri, passando a mão no rosto dela. Scully fecha os olhos. Mulder vira-se sobre ela e a beija com amor. Desce os lábios pelo pescoço dela. Scully envolve os braços nele, suspirando.

SCULLY: - Eu te amo, Fox Mulder.

MULDER: - (DEBOCHADO) Ainda? Quanta paciência!

SCULLY: - (SORRI) Pra sempre, pra sempre, pra sempre...

Mulder olha nos olhos dela.

MULDER: - Eu também te amo, Dana Scully.

Os dois se beijam. Scully rola pra cima dele. Mulder envolve os braços nela, acariciando suavemente o corpo dela. Scully desce as mãos pelo corpo dele em carinhos. Mulder vira-se por cima dela. Scully o abraça. Trocam carinhos. Scully vira o rosto num sorriso, mordendo os lábios. Mulder ergue-se, movendo-se delicadamente contra ela. Os dois enlaçam os dedos, perdendo os olhos no brilho do olhar do outro.


X-Files Investigations – 2:38 P.M.

Mulder, com os dedos entre a persiana, observa algo pela janela. Krycek entra na sala.

MULDER: - Estão lá fora.

KRYCEK: - (NERVOSO) Quem?

MULDER: - A Ordem dos 13. Vi três caras de preto numa limusine. Nem fazem questão de serem discretos. Eles devem saber que estamos investigando o Homem Mariposa, porque a sogra do Robinson está envolvida. Isso me diz que estão preocupados com alguma coisa.

KRYCEK: - Onde está o pessoal?

Baba sai da sala de reuniões segurando um papel.

BABA: - Ocupados, monitorando uma casa assombrada, que na verdade, achamos que não tem nada de assombração. O cara deve estar querendo aparecer na mídia. Então, estamos nós três para o Homem Mariposa? Dois detetives e uma paranormal?

MULDER: - Você tá adorando, né, "Oda Mae"? Agora está à solta com sua vassoura e a varinha de condão!

KRYCEK: - Tenho uma teoria. Querem ouvir?

MULDER: - Manda.

KRYCEK: - Pelas coisas que você me falou a respeito dessa criatura, pode ser muito bem um demônio alado. Nova Ordem?

MULDER: - Concordo em partes. Mas não creio que seja da Nova Ordem. Talvez seja um dissidente de Coin, tentando avisar algo que ele planeja. Porque me baseando na aparição dos anos 60, ele apenas fala profecias, geralmente catastróficas, que virão a ocorrer. É um mensageiro, como Gabriel. Assim, o que pode ocorrer não significa que seja uma desgraça. Mas um aviso para que a desgraça não ocorra.

BABA: - Tá legal. E 46 pessoas mortas em 1967 não foi desgraça? E todos os acidentes...

MULDER: - A vista dos olhos humanos sim, mas não a vista dos olhos de D.E.U.S. Faço agora uma pergunta: Por que então todas as vezes que há uma catástrofe, o Homem Mariposa não aparece? E catástrofes ocorrem todos os anos, de todas as maneiras, em todo o mundo.

KRYCEK: -A não ser que sua aparição esteja ligada a uma catástrofe que seja importante pra humanidade toda.

MULDER: - Exato. Eu acredito na hipótese de que sua aparição esteja ligada a alguma catástrofe importante, que seja algum marco na história de um povo.

BABA: - Certo. Agora eu quero atenção total. Chequei a lista com os nomes dos envolvidos que o Krycek trouxe.

Baba coloca o papel sobre a mesa. Krycek e Mulder se aproximam.

BABA: - Apenas 89 de todos os envolvidos são nossos clientes. Somem mais as duas ricaças que não denunciaram. Mais vocês dois e Scully. Mais a vizinha de vocês. Temos 95 pessoas no total... Aqui, circulei em vermelho. Dessas 95, apenas 15 viram ou tiveram contato com o Homem Mariposa após sua aparição na ponte. Dos 15 contatados, apenas cinco são mulheres. Das cinco, três no período de ovulação. E todas as cinco foram as únicas a receberem a mesma profecia, que chamo de Profecia de Orion.

MULDER: - Nomes.

BABA: - Angela McCoy. Lyn Chang. April West. Joan Adams. E se permite, Dana Scully.

Mulder fecha os olhos.

MULDER: -Lyn Chang é a avó de Megan Robinson...

BABA: - Exatamente. Ou seja...

MULDER: - Todas elas têm um filho na idade de seis anos. No caso de Lyn, ela cria a menina como se fosse mãe, pois os pais se separaram.

KRYCEK: - Acha que essa coisa quer as crianças? Mas por quê? Que eu saiba, Victoria é o único híbrido geneticamente interessante para Coin. Se houvesse outro, ele não teria aprontado tantas contra Scully e Mulder, para tomar a menina.

BABA: - E se essas crianças são especiais como Victoria é? O número 5 é o princípio universal da liberdade e das probabilidades de mudança, versatilidade, aventuras e viagens...

KRYCEK: - Mulder, se Victoria é o que conversamos naquele dia e você estava preocupado com a segurança dela... Vamos supor que Victoria seja mesmo uma guardiã do presídio Terra. E se essas crianças forem... O exército de apoio?

Mulder esmurra a parede, nervoso.

MULDER: - Agora entendi porquê a Ordem dos 13 anda inquieta. O futuro deles está ameaçado!

Mulder aproxima-se do mapa-múndi na parede. Pega alfinetes coloridos.

MULDER: - Alguém entende o básico de astronomia?

KRYCEK: - Fala aí.

MULDER: - O Homem Mariposa falou sobre Orion. Orion tem milhões de estrelas, mas apenas sete são mais visíveis. As pernas, os braços e o cinturão do caçador. Vejam aqui no mapa. Vou colocar em alfinetes os locais onde as crianças nasceram... Victoria. América do Norte. Kevin nasceu na América do Sul. Chad West nasceu na Inglaterra, Europa. Megan Robinson nasceu na Ásia. Darius McCoy nasceu na África... O que temos aqui?

BABA: - Duas crianças no lado direito do mapa e três no lado esquerdo.

MULDER: - Inverta o mapa. As três formam o cinturão de Orion: Chad, Megan e Darius. As outras duas formam as pernas: Victoria e Kevin. Ele está claramente falando das crianças como caçadores que serão caçados: "Orion chora em desespero pois é chegado o momento sobre a Terra em que o caçador de mundos, que é a caça do mundo, vai partir para a luta."

BABA: - Faz sentido.

MULDER: - Na verdade, elas são a caça da Nova Ordem. Acredito que estas cinco crianças tenham um destino juntas e o que essa coisa está nos dizendo, é que por isso, alguém ou algo vai matá-las: "Grandes braços"... Braços geralmente envolvem a simbologia de algo que agarra, uma organização, a Nova Ordem: "Três estrelas têm em seu cinturão, duas são as pernas, dois os braços. Grandes braços jamais alcançarão a caça, pois o cão maior, que tem o nome do terror, os protegerá...".

KRYCEK: - E quem é o cão maior, que tem o nome do terror?

MULDER: - Aí entra a ironia... Aonde essas crianças estudam?

Baba checa a lista.

BABA: - Com exceção de Kevin, todas estão matriculadas na Escola Irving Allen. O diretor é um tal de Serling... (ABRE UM SORRISO) Ele tem nome do "terror". Rod Serling, lembram? Além da Imaginação?

MULDER: - Chequei a ficha de Serling. Trabalhou como engenheiro de propulsão para a NASA, ao mesmo tempo que mantinha pesquisas sobre buracos de minhoca, tentando provar a existência de passagens temporais ou portais dimensionais. Serling saiu da NASA para trabalhar para o exército americano, na Área 51, também como engenheiro de propulsão. O arquivo sobre isso é tão sigiloso que nem Skinner teve acesso. Alguma coisa aconteceu lá que expurgaram Serling. Desde então, ele decaiu profissionalmente, passou a ser motivo de chacota na comunidade científica, e depois disso passaram a considerá-lo louco e excêntrico, por defender a teoria de que a gênese humana provém de culturas alienígenas. Em 1998, ele rascunhou o que chamou de Projeto Gênesis. A universidade em que ele lecionava o demitiu e jamais aprovou tal projeto. Serling terminou como diretor de escola primária pra sobreviver.

BABA: - E o que é o Projeto Gênesis?

MULDER: - Um projeto que visa estudar, através dos antepassados, a origem do homem. Até aí nenhuma novidade. A diferença é que Serling diz que pode estudar estes antepassados... Falando diretamente com eles.

KRYCEK: - Ele teria uma máquina pra viajar no tempo?

MULDER: - Eu não sei. Mas acredito que ele tem segredos que o governo adoraria colocar as mãos. O cara é um gênio. Um gênio bem perto de conseguir provar a verdade.

O telefone toca. Baba atende. Olha pra Mulder.

BABA: - É Ivan. Pra você.

MULDER: - (ATENDE) Mulder... Entendo... Sim, conheço, eu posso ir até aí... Certo, eu encontro vocês.

Mulder desliga.

MULDER: - Ivan precisa voltar pra Ohio, só está acertando uns negócios com um amigo, que mora na frente da escola Irvin A... (PÂNICO) A escola!

Mulder abre a porta em pânico.

KRYCEK: - O que tem a escola?

MULDER: - As crianças todas estão lá.

BABA: - Kevin não.

MULDER: - Mas estará lá em minutos. Vai acontecer alguma coisa...

Os três saem em disparada. Mulder pega o celular e disca.

MULDER: -(AO CELULAR) Scully sou eu, preciso que vá até a escola agora! Tire as crianças de lá, vai acontecer uma tragédia... Eu explico depois, mas tire as crianças de lá, evacue o local todo!


Escola Irvin Allen – 3:11 P.M.

Victoria caminha pelo corredor. Vê a porta da sala do diretor aberta. Olha pra dentro, curiosa. Entra em passos furtivos. Olha admirada para as obras de arte ali.

PROF. SERLING: - Gosta de arte antiga, senhorita Mulder?

Victoria vira-se pra Serling, que está ajeitando um quadro.

VICTORIA: - Eu gosto. Mas tenho medo de múmias.

PROF. SERLING: - (SORRI) Múmias não fazem mal a ninguém. São pessoas mortas. Na maioria faraós mortos.

VICTORIA: - É, mas alguns deles não são pessoas.

Serling olha pra ela, curioso.

PROF. SERLING: - São astronautas?

VICTORIA: - Sim. De bem longe, bem longe! Você também sabe?

A professora entra na sala.

PROFESSORA: - Ah, você está aí. Venha, Victoria, é hora do lanche. Despeça-se do diretor.

VICTORIA: - Até logo diretor. Ainda vamos conversar sobre isso.

A professora leva Victoria pela mão. Serling abre um sorriso e um olhar de questionamento.

PROF. SERLING: - Eu acredito que sim, pequenina. Vamos conversar muito sobre isso...

Corte.


Gritaria, risadas e barulho das crianças correndo pelo pátio da escola. Um grupo de meninas conversando, segurando bonecas. Alguns meninos passam correndo, roubando o lanche de uma delas, que sai atrás dele com a boneca em posição de ataque.

No banco debaixo da árvore, isolada de todos, Victoria. Balança as pernas, olhando pras crianças. Olhar de tristeza pela rejeição do grupo. As crianças continuam brincando. O menino negro, Darius McCoy, ao longe, sentado num balanço, brincando sozinho. Faz passos de dança com os pés. Algumas vezes observa Victoria. Victoria olha pra ele. Ele sorri.

As nuvens aumentam, o tempo se fecha.

Darius sai do balanço. Começa a dançar imitando o Michael Jackson. Victoria ri. Chad West e alguns meninos se aproximam de Darius.

Trovão forte.

Chad empurra Darius no chão. Victoria se levanta. Eles brigam. Victoria caminha avançando e erguendo o dedo. Chad voa, caindo numa poça de lama. Os outros fogem assustados. Victoria estende a mão pra Darius. O ajuda a se levantar.

VICTORIA: - Oi.

DARIUS: - Oi. Eu sou Darius, e você?

VICTORIA: - Sou Victoria.

Os dois sorriem.

VICTORIA: - Quer ser meu amigo?

DARIUS: - Quero sim.

VICTORIA: - Você dança igual ao Michael Jackson!!!

DARIUS: -Eu gosto de ver ele dançar. Posso ensinar você.

Os dois saem lado a lado caminhando. Passam por Megan Robinson, que está sentada e chorando. Os dois param.

As trovoadas aumentam.

DARIUS: - Você tá bem, garota?

MEGAN: -Ninguém aqui quer ser meu amigo, ficam me chamando de chinesa e rindo da minha cara. Odeio esse país!

VICTORIA: - Eu vou te contar uma história sobre a borboleta e o cavalinho, tá?

Os três ficam sentados. Megan seca as lágrimas.

DARIUS: - Qual é o seu nome?

MEGAN: - Megan Robinson.

DARIUS: - (SORRI/ ESTENDENDO A MÃO) Ela tem nome americano, mas é chinesa!

MEGAN: - Eu não sou chinesa, garoto. Eu sou coreana!

DARIUS: - Eu sou Darius e ninguém aqui me aceita porque eu sou negro.

VICTORIA: - E eu porque faço coisas estranhas.

Chad, todo sujo de lama se aproxima, olhando pra eles.

CHAD: - Como você fez aquilo?

Trovoada forte. A chuva despenca. Eles se protegem debaixo de um toldo.

CHAD: - Você é bruxa?

VICTORIA: - Não, eu não sou bruxa. Foi mágica.

CHAD: - (OLHA PRA DARIUS) Desculpe, foi mal... Eu... Eu só tava fazendo o que os outros mandaram.

Darius sorri. Estende a mão. Os dois se cumprimentam.

CHAD: - Eu sou Chandler West III. Mas me chamem de Chad.

MEGAN: - E por que faz o que os outros mandam, Chad?

CHAD: - Pra ser aceito no grupo. Posso ser amigo de vocês?

Victoria olha para o toldo. Olha para o prédio da escola.

VICTORIA: - Vamos brincar de pega-pega na chuva.

DARIUS: - Tá doida? Minha mãe me mata se eu tomar chuva!

VICTORIA: - (OLHANDO PRO CÉU) Vamos agora!!!!!!!!!!

Victoria pega Darius pela mão.

CHAD: - Ei, o que deu nela?

MEGAN: - Eu não sei, mas gostei da ideia. Quem sabe eu fico doente e meu pai volta. O último que chegar é um bobo!

Megan sai correndo aos risos, atrás de Victoria e Darius. Chad ergue os ombros, olha pra chuva e sai correndo atrás deles.

Corte.


Chuva forte. Trovoadas intensas.

Scully irrompe apressada pelo corredor das salas, ao lado do nervoso diretor Serling.

SCULLY: - Não posso explicar agora, mas precisa tirar as crianças do prédio.

Serling corre pra sala da direção. Som do alarme de incêndio. As crianças todas saem das salas, em filas, as professoras as ajudam. Scully, nervosa, procura por Victoria. Não a encontra. O desespero bate. Ela sai correndo para o pátio, debaixo da chuva. As crianças todas saem da escola. Nenhum sinal de Victoria. Scully começa a correr debaixo da chuva gritando pela filha.

Som de explosão. Scully cai ao chão. Estilhaços de tijolos e concretos voam. Scully olha para o prédio destruído. Começa a chorar.

SCULLY: - (HISTÉRICA) Victoria!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Scully deixa o rosto cair na lama. Chora convulsivamente.

VICTORIA: - Mamãe?

Scully ergue o rosto olhando pros sapatinhos pretos e as meias de babados. Começa a rir, nervosa. Victoria estende a mão pra ela. Scully senta-se no chão, abraçando a filha. Percebe as outras crianças ali, olhando assustadas para o que restou da escola. No estacionamento, Kevin Adams, ao lado do carro de Ivan, olha assustado para o céu.


X-Files Investigations – 6:39 P.M.

Dois agentes do FBI parados na recepção.

AGENTE #1: - Como sabia que havia uma bomba no prédio da escola, detetive Mulder?

AGENTE #2: - Recebeu alguma denúncia?

MULDER: - Sim. Por telefone.

AGENTE #1: - Alguma identificação positiva?

MULDER: - Procurem por um sujeito de asas e com olhos vermelhos. Ele avisou cinco mães de que seus filhos corriam perigo. Ele tem as respostas que eu não tenho. Agora, se me dão licença, tenho trabalho pra fazer.

Mulder abre a porta. Os agentes saem. Mulder sorri. Vai para o escritório. Victoria sentada à mesa dele, rabiscando papéis. Baba parada na janela.

MULDER: -A Ordem dos 13 soube da profecia e tentou eliminar as crianças.

BABA: - Mulder, mas uma delas não é filha de um deles? A menina Robinson...

MULDER: - Krycek tem razão quando diz que essa gente não tem escrúpulos. Eu não sou filho do Fumacinha? Olha o que ele já fez pra mim, inclusive tentou me matar.

BABA: - Ivan disse que vai voltar para o Brasil e com isso, Kevin vai ficar longe. April ligou e disse que vai voltar pra Londres e levar Chad com ela.

MULDER: - Acho que não vão conseguir separá-los. Mais cedo ou mais tarde, vão se encontrar de novo... É uma profecia. E aposto que não veremos mais o Homem Mariposa. Arquivo X encerrado. (OLHA PRA VICTORIA) Parabéns, Pinguinho! Bateu o recorde da sua mãe em aparições nos Arquivos X!

Victoria sorri.

MULDER: - Acho que depois dessa merecemos um descanso. (PEGA VICTORIA NO COLO) Vamos pra casa, encomendar aquela super-pizza e assistir o Gasparzinho?

VICTORIA: - Oba!!!!!!!!!

BABA: - Victoria... Por que se afastou do prédio com as outras crianças?

VICTORIA: - Acha que eu sou burra, Babinha? Eu sabia que ia explodir. Mas se eu falasse pra professora, eles iam me expulsar de novo... Viu papai? Tô aprendendo! Salvei meus amigos e não arrumei confusão com isso.

Mulder sorri e a beija.

MULDER: - Essa é a minha garotinha! Esperta como o pai dela!

BABA: - Só espero que não aprenda a ser sovina também.

Mulder bota a língua. Victoria puxa o nariz dele.


Dois meses depois...

Residência dos Mulder – 8:49 P.M.

A chuva caindo forte lá fora. Scully sai do banheiro, chorando, segurando o teste de gravidez. Senta-se na cama, trêmula. Põe as mãos no rosto. Victoria escorada na porta, olha triste pra ela. Scully não percebe a presença da filha.

SCULLY: -Por que esse fardo comigo? Por que eu vou ter que passar por toda essa dor de novo? Eu odeio aqueles desgraçados por isso!!!!!!

Scully se deita na cama, chorando. Pega o celular e liga.

SCULLY: -(AO CELULAR/ CHORANDO) Mulder... Sim, aconteceu algo... Mulder, eles fizeram de novo! (CHORA CONVULSIVAMENTE) Você tinha razão!!! Eles fizeram de novo!!!

Scully deixa o celular cair. Se encolhe na cama chorando. Victoria entra no quarto lentamente, derrubando lágrimas. Aproxima-se da cama.

VICTORIA: - Mamãezinha?

Scully seca as lágrimas, contendo o choro, mas o rosto e os olhos vermelhos a denunciam. Ela senta-se na cama. Respira fundo, dando um sorriso desanimado.

SCULLY: - O que foi, Docinho?

VICTORIA: - Você está chorando?

SCULLY: - Não, é que... A mamãe tá triste. Só isso.

VICTORIA: - (ABAIXA A CABEÇA) Eu não queria que você ficasse triste.

SCULLY: - Eu sei, meu bem... Mas algumas vezes, coisas ruins acontecem e os adultos choram.

VICTORIA: -(CULPADA/ COM LÁGRIMAS NOS OLHOS) Desculpe.

SCULLY: - Não é sua culpa, filhinha.

VICTORIA: - Se eu contar uma coisa que eu fiz, você vai me colocar de castigo?

SCULLY: - Claro que não, Docinho. O que foi que você fez?

VICTORIA: - Eu devolvi suas sementinhas.

Scully fica pálida. Em estado de choque.

VICTORIA: - É que você estava tão triste porque não podia mais ter bebezinhos, eu achei que podia... Desculpa. Eu pensei que você queria. Não quis deixar você triste.

Scully cerra o cenho e começa a chorar. Cai de joelhos abraçando Victoria. Victoria a abraça, fazendo carinho nela.

VICTORIA: - Desculpa, mamãe... Não vai me botar de castigo, né?

SCULLY: - Meu milagre... (CHORANDO/ ABRAÇANDO VICTORIA COM FORÇA) Meu milagre!!!!

Scully fica abraçada na filha, chorando.

Corte.


Mulder entra às pressas em casa, todo molhado de chuva.

MULDER: -Scully!!!!!!!

Mulder sobe as escadas em desespero. Entra no quarto. Scully sentada na cama afaga os cabelos de Victoria que dorme. Olha pra Mulder, em lágrimas. Mulder acena negativamente com a cabeça.

MULDER: - (DESANIMADO) É um câncer... (ENCHE OS OLHOS DE LÁGRIMAS) ... Não...

Scully levanta-se, sorrindo. Mulder a olha como quem não entende. Scully se aproxima dele. Pega a mão de Mulder e a beija. Coloca-a sobre sua barriga.

SCULLY: - Não é um câncer... É o seu filho, Mulder.

MULDER: - (ASSUSTADO) ... Eles... Eles fizeram de novo?

SCULLY: -(RINDO) Não! Nós fizemos! Mulder, eu... Eu estou grávida! Deus, eu... (COMEÇA A CHORAR DE EMOÇÃO) Eu achei que nunca poderia olhar nos seus olhos e dizer isso... Mas eu... Mulder, estou esperando um filho seu!

MULDER: - (RINDO/ ATORDOADO) O-o... O que...

SCULLY: - Aquele sangramento, Mulder... (OLHA PRA VICTORIA) Foi obra da nossa filha! Como você disse, ela traria muitas bênçãos na nossa vida. Ela foi nosso milagre, a nossa vitória... Como Ele nos prometeu... Eis a recompensa dentro de mim.

Mulder a abraça. Sorri, derrubando lágrimas. Começa a chorar, agarrando Scully com mais força. Os dois ficam abraçados, chorando juntos de emoção. Mulder se ajoelha, beijando a barriga de Scully, recostando sua testa.

Victoria abre os olhos e sorri. Fecha os olhos rapidamente.


X


📷


Quintal dos McCoy. Victoria e Darius escavando minhocas e as colocando num terrário de vidro. Chris, o irmão adolescente de Darius, os ajuda.

Scully, Barbara e Angela sentadas à mesa posta no quintal. Scully passando a mão na pequena barriga já pronunciada.

ANGELA: - Já sabe o que é?

SCULLY: - Ainda não sei se quero saber pra arrumar o enxoval ou se deixo na surpresa. Victoria diz que é um menino. Eu acho que é. Pelo menos na outra gravidez eu não me enganei.

ANGELA: - Tá com cara de menino. Barriga ficando pontudinha. Fiquei assim e veio dois meninos. E você, Barbara? Quando vai tomar coragem?

BARBARA: - Coragem eu tenho. Falta coragem pro Alex.

SCULLY: - Mulder está tão feliz... Agora ganhou o direito de fazer piadinhas machistas do tipo "acertei o alvo".

Elas riem.

SCULLY: - Tadinho do meu marido... Nem me importo com isso. Deixo ele fazer piadinhas que não pôde fazer antes.

BARBARA: - Deus se encarrega de fazer a justiça, Scully. Acredito nisso. Você merece ser mãe novamente. Você, mais que qualquer um, sabe das coisas que passou.

ANGELA: - Meninas, sinceramente, se eu não tivesse ouvido essa história da boca de vocês, eu nunca acreditaria. Essa criança também será uma bênção pra vocês dois.

Mulder senta-se ao lado de Scully, envolvendo o braço nela.

MULDER: - (DEBOCHADO) Pobrezinha da minha ruiva... Quem fez isso com você?

SCULLY: - (RINDO) Não falei, meninas? Pior que nem posso devolver a piada dizendo que foi o vizinho, porque aí vocês duas me matam!

As três riem. Mulder dá um beijo no rosto de Scully. Krycek senta-se ao lado de Barbara. Isaac se aproxima, usando um avental, com uma bandeja de carnes e servindo os pratos.

ISAAC: - Espero que vocês apreciem o churrasco africano, é a refeição mais comum e típica da África do Sul. Chamamos de "braai". Carne cortada em filés, coxas de frango, linguiça... Tudo assado na grelha e bem temperado.

SCULLY: - Hum... Já tô ficando com desejo.

MULDER: - Começou a parte complicada da coisa.

Scully corta um pedaço e come saboreando com vontade.

SCULLY: - Hum... Delícia! Melhor que churrasco americano, que na maior parte das vezes é hambúrguer e salsicha pra ser mais rápido. Mas o Mulder, sinceramente, pra fazer churrasco ele tem paciência. E faz uma costela de porco ao molho barbecue... Ele não divide o segredo do molho nem comigo.

Isaac senta-se.

ISAAC: -Ah, então o próximo churrasco vai ser na casa de vocês, quero provar a especialidade do Mulder. E tem um ritual, como todo churrasco? Lásó servimos com todos na mesa.

MULDER: - Tem um ritual sim, mas é a defumação. Precisa defumar a carne antes e ter muita paciência. Já comeu brisket? É a parte do peito do boi.

ISAAC: - E não é duro?

MULDER: - Não tem carne dura quando você defuma e assa lentamente. Desmancha na boca. Vou te mostrar a minha churrasqueira, tem defumador. O churrasco daqui pra ser bom, tem que ser feito lentamente em fogo baixo. Demora horas, mas é o verdadeiro churrasco americano, também bem temperado.

ISAAC: - Krycek, russos fazem churrasco?

KRYCEK: - Claro, e também com temperos. E usamos espetos, além da grelha. Mais tradicional são as asinhas de frango com molho de cerveja doce ou legumes recheados assados na grelha. Nos espetos as carnes, também marinadas. Precisam provar a carne de porco marinada com suco de romã e cebola.

ANGELA: - Ai meu Deus! Vamos ter que provar churrasco russo também!

SCULLY: - Pior que ficam falando essas coisas na frente de uma grávida!

MULDER: -Azar do Rato. Se a minha mulher quiser churrasco russo às três da manhã eu vou bater na sua porta! Se ela quiser churrasco africano, se prepara Isaac.

Eles riem.

ISAAC: - E em Cuba, Barbara? Tem churrasco bom?

BARBARA: - Sinceramente são filés na grelha e eu acho totalmente sem graça o churrasco cubano. Prefiro pegar as sobras dele e colocar no pão que vira um ótimo sanduíche.

ISAAC: - O churrasco é uma cultura mundial pra unir as famílias nos finais de semana. Varia o jeito, as carnes, o modo de preparo, mas o objetivo é o mesmo: união.

Isaac pega o copo e o ergue.

ISAAC: - Um brinde a nossa união, vizinhos unidos, permanecem unidos!

Eles brindam.

KRYCEK: - (DEBOCHADO) Ainda bem que é cerveja, se fosse vodka... Tem um cara aí fraco pra beber vodka.

Mulder faz careta pra ele. Scully e Barbara riem.

ISAAC: - Vodka? Ô Mulder, logo vodka? Angela, tem aquela cachaça brasileira ainda? Vou mostrar pro Mulder o que é bebida pra derrubar o mais macho dos machos.

KRYCEK: - Tô fora. Derruba mesmo.

SCULLY: - Não mesmo, vocês querem embebedar o meu marido! Isso é um complô! Vou servir as crianças, e Mulder, fique longe de bebidas destiladas!

Scully se levanta. Angela também. Mulder olha pra Barbara.

MULDER: - (DEBOCHADO) Não vai ajudar a servir as crianças?

BARBARA: - Já entendi! Eu vou, mas olha lá o que vai sair nessa mesa. Não vai aprontar pro meu Ratoncito!

Barbara se levanta e vai pra perto de Angela e Scully.

MULDER: - Ô Ratoncito. Vamos fazer uma aposta.

KRYCEK: - (SORRI) Não, você tá querendo revanche da vodka.

Isaac começa a rir.

ISAAC: - Foi tão feio assim?

KRYCEK: - Não. Só alimentou a imaginação da Nancy e sujou minha honra mais ainda, me abraçando e gritando que me amava... Até o George no mercado dele há duas quadras deve ter ouvido!

Isaac começa a rir.

MULDER: - (RINDO) Vai ter troco, Rato. Só espera... A nova temporada apenas começou...


03/05/2003

April 3, 2020, 4:31 p.m. 0 Report Embed 1
The End

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Lara One As fanfics da One são escritas em forma de roteiro adaptado, em episódios e dispostas por temporadas, como uma série de verdade. Uma alternativa shipper à mitologia da série de televisão Arquivo X. https://www.facebook.com/laraone1

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