lara-one Lara One

Mulder e Scully estão em lua de mel, bem longe dos problemas e de casa, mas o Sindicato das Sombras não dorme. Coin decide que homens mortos não contam a verdade. Com uma lista de alvos a serem eliminados e a filha de Mulder e Scully para sequestrar, nove ex-agentes da CIA, mercenários perigosos e assassinos de aluguel vão fazer a limpeza. E agora, quem protegerá esses alvos inocentes? Talvez quem já tem licença para matar... Se alguém ainda duvidava de Alex Krycek... O Rato não tá a fim de brincadeira. Ele quer derrubar o Sindicato e descobrir quem está no topo da pirâmide da conspiração. A vingança apenas começou... O que ele não sabe é com que tipo de gente e forças ocultas está lidando.


Fanfiction Series/Doramas/Soap Operas For over 18 only.

#fanfics #romance #policial #depp #scully #mulder #krycek #x-files
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S06#26 - HOMENS MORTOS NÃO CONTAM A VERDADE


INTRODUÇÃO AO EPISÓDIO:


[Som: Nox Arcana - Night of the Wolf]

Rua Morgan, 322 – West Virgínia - 3:15 A.M.

Um salão enorme, paredes com detalhes de madeira nobre, iluminado por velas negras.

Dois homens vestidos em mantos com capuz e um pentagrama invertido no pescoço. (No centro do pentagrama um olho, os numerais romanos XIII e as letras NWO). Eles carregam a jovem loura, amordaçada e seminua. Ela tenta se soltar, resiste, mas eles a empurram sobre o altar de mármore e a amarram pelas mãos e pés. Percebemos a tatuagem de uma rosa em seu tornozelo.

Vários outros ali vestidos com mantos e capuzes e com o mesmo pentagrama ao pescoço. Entre eles, um que tem o anel de rubi.

O Sacerdote ergue o punhal de prata (decorado de caveiras e pedras preciosas) sobre a jovem.

SACERDOTE: - Proclamem que somos os prediletos de Satã! Nós acreditamos em sua existência nesse planeta como um ser exilado! Sabemos de toda a injustiça do criador contra você, nosso mestre e senhor! Que mensagens de dor, prejuízo e desespero sejam disseminadas por todo o mundo e nos deixem permanecer no topo do poder e em sua poderosa virtude, sob sua proteção, senhor do caos e da Nova Ordem! Que nos concedas permutar entre nós os altíssimos bens, riquezas e domínio dos povos, que somente Satã nos pode trazer! Defende-nos dos nossos inimigos visíveis e invisíveis! Livra-nos dos homens que são contrários ao teu domínio na Terra e em outros lugares! Pois nós te servimos e chegaremos a vitória com você!

TODOS: - Sheramphorash!

SACERDOTE: - Recebe esse sacrifício de sangue, oh senhor das trevas. Entregue em nossas mãos todos os que são contrários a nós. Que nossos planos sejam bem sucedidos e todos eles padeçam da morte cruel, debaixo da tua ira!

O Sacerdote crava o punhal no coração da jovem. Ela arregala os olhos.

SACERDOTE: - Fox Mulder.

O Sacerdote ergue novamente o punhal e crava na barriga da garota.

SACERDOTE: - Dana Scully.

A garota agoniza vendo sua morte iminente. O Sacerdote repete o gesto cravando e tirando o punhal, a cada nome recitado, formando um círculo no ventre da moça.

SACERDOTE: - Alexander Krycek... Barbara Wallace... Melvin Frohike... Richard Langly... John Byers... Susanne Modesky... Walter Skinner... Ellen Skinner...Mary Wolf Valentine...

A garota morta. O sangue escorrendo de seu corpo para o altar. O Sacerdote recolhe um pouco do sangue numa taça de prata, bebendo um gole. Ergue a taça e o punhal sujo de sangue.

SACERDOTE: - Que nenhuma força contrária atrapalhe o Sindicato das Sombras, o braço da Ordem dos Treze, que fará a ti e a nós a justiça. Conceda-nos a menina de Sião. Sheramphorash!

TODOS: - Sheramphorash!

VINHETA DE ABERTURA: A ORDEM DOS TREZE


📷



BLOCO 1:

4:23 A.M.

Som de sirenes de polícia. Krycek gira o volante da viatura. Sanders segura-se. Krycek acelera. Os dois usando coletes à prova de balas.

RADIO (OFF): - Suspeitos seguindo para leste pela Avenida Cedars...

KRYCEK: - Tô vendo o filho da mãe!!!

Krycek acelera mais. Quase encosta a viatura no carro da frente. Um homem mal encarado coloca metade do corpo pra fora da janela dando tiros com um revólver. Sanders se abaixa.

SANDERS: - O filho da puta tá atirando na gente! Dá pra acreditar?

KRYCEK: - Revida!!! Ele pediu!!!

Sanders coloca o braço pra fora e começa a atirar no carro da frente. Uma bala passa pelo vidro traseiro do carro dos bandidos. Krycek pega o rádio.

KRYCEK: - (AO RÁDIO) Central, viatura 132 solicitando reforços na Cedars. Estão atirando na gente!!!

Krycek se agacha, evitando levar uma bala e tentando encostar a viatura na traseira do carro. Sanders recarrega a arma 9 mm com um pente.

KRYCEK: - Se eu tivesse na minha picape já tinha pego esses imbecis!!! Segura o volante!!! Troca de lugar comigo!!!

Sanders segura o volante, Krycek passa por cima dele, os dois se embolam, a viatura dá uma guinada. Sanders apavorado segurando o volante, consegue trocar de lugar e senta-se rapidamente no banco do motorista.

SANDERS: - (ASSUSTADO) Tá maluco Checov??? Quer nos matar???

KRYCEK: - Odeio que atirem em mim!

Krycek puxa um rifle M16 de trás do banco. Coloca os braços na janela, mirando o rifle no carro da frente.

KRYCEK: - Tenta deixar a viatura estabilizada. Odeio esses M16 americanos, eu prefiro um bom AK russo!

Krycek começa a disparar. Sanders arregala os olhos. O carro à frente perde o controle, bate em outro carro no cruzamento e capota. Sanders para a viatura. Krycek desce com o rifle em punho, furioso, apontando para o carro. Sanders sai atrás dele, com a arma em punho. O motorista continua preso ao cinto de segurança, de cabeça pra baixo. Sanders mira a arma nele. O sujeito mal encarado sai pela janela, ferido, se arrastando pelo asfalto. Krycek mira o rifle nele.

KRYCEK: - (TENSO/ AOS GRITOS) Mãos nas costas, imbecil, ou eu estouro a porra da sua cabeça!!!

O sujeito mal encarado leva as mãos às costas. Krycek o revista. Depois o algema. Duas outras viaturas estacionam. Os policiais descem.

POLICIAL #1: - Ok, detetives, bom trabalho. Agora deixem com a gente.

Krycek abaixa o rifle. Sanders se aproxima, guardando a arma. Os dois vão para a viatura.

SANDERS: - Que noite! Tiroteio, briga doméstica, corpo boiando numa caixa d'água, confusão de prostituta com travesti e agora assalto e perseguição!

KRYCEK: - Com uma pilha de casos de assassinatos esperando pela gente e temos que dar apoio na rua... Droga! Vamos tomar um café, parceiro. Merecemos.

SANDERS: - Você é o parceiro mais maluco que eu já tive! Pensa que tá no cinema, Checov? Vai encarnar o Mel Gibson? Não quero ver baixar o Chuck Norris em você!

KRYCEK: - Sanders, o Chuck Norris não baixa, ele transcende. O Triângulo das Bermudas era um quadrado até Chuck Norris dar um roundhouse kick em um dos cantos.

Os dois entram rindo na viatura. Krycek senta no banco do motorista.

SANDERS: - (RINDO) Acha que o delegado Norris é irmão do Chuck Norris?

KRYCEK: - (RINDO) Tirando a barba, porque nosso Norris tem bigode... Provavelmente, porque o respeito é igual ou maior! O delegado não abre o chuveiro pra tomar banho. Ele encara o chuveiro até ele chorar.

Os dois riem.

RADIO (OFF): - Viatura 132, na escuta?

Os dois suspiram. Krycek atende o rádio.

KRYCEK: - (AO RÁDIO) Viatura 132 na escuta, prossiga.

RADIO (OFF): - Morador de rua relatou ter encontrado o corpo de uma jovem no Parque Greenstone.

KRYCEK: - (AO RÁDIO) Positivo. Estamos a caminho.

Krycek dá ré na viatura e entra em outra rua. Sanders pega um biscoito de um pote plástico.

SANDERS: - E lá se foi nosso café... Da próxima vez, pede pra sua garota mandar mais biscoitinhos amanteigados, vou acabar com o último.

KRYCEK: - Acho que vou trazer uma garrafa de café também.

SANDERS: - Amanhã vou trazer bolo pra gente. A Amanda vai fazer um só pra nós.

KRYCEK: - Sanders, eu tô morrendo de fome, não me fala em bolo a essa hora!


5:03 A.M.

A viatura com os faróis ligados. Sanders e Krycek se aproximam do Mendigo segurando uma garrafa dentro de um pacote de papel.

SANDERS: - Detetives Sanders e Krycek. Foi você quem nos ligou?

MENDIGO: - Eu tava dormindo naquele banco ali. Ouvi um barulho, pensei que alguém queria roubar minhas coisas. Aí vi dois caras, vestidos de preto, carregando alguma coisa muito grande. Eu me escondi porque não sou bobo... Então quando eles foram embora, eu fui ver o que tinham deixado lá. Não é uma boa cena pra se ver não.

Krycek puxa a lanterna da cintura e segue em frente. Sanders vai atrás dele. O Mendigo fica olhando de longe. Krycek se aproxima entre as árvores, passando entre arbustos. Mira a lanterna. Para.

KRYCEK: - Que merda, Sanders!

Krycek se agacha ao lado do corpo da jovem loura e nua, com facadas que formam um círculo no ventre. Sanders se agacha. Os dois com as lanternas observam o corpo.

KRYCEK: - Deve ter entre 18 e 25 anos... Quem faria uma coisa dessas com uma garota tão jovem e bonita?

Sanders veste as luvas.

SANDERS: - A testemunha não ouviu gritos. Eles só descartaram o corpo. Como está nua, devem ter abusado sexualmente dela e a mataram a facadas em outro local.

KRYCEK: - Muitas facadas pra matar alguém. Crime passional? Veja, uma no coração e as outras parecem formar um círculo. Alguma fraternidade maluca da universidade?

SANDERS: - Checov, se a garotada começar a exigir assassinato pra entrar em fraternidade, nós vamos ter muitos problemas...

KRYCEK: - Nunca ouviu falar dessas ordens secretas que começam em universidades? A mais famosa delas é a Caveira e Ossos, da Universidade de Yale. Dizem as más línguas que os Bush fazem parte dela.

SANDERS: - Bom, eu sou democrata, não tenho elogios aos Bush realmente. Mas estamos bem longe de Yale, espero que não "importem" a ideia... Talvez alguns malucos novos na área... Uma dupla de serial killers deixando sua marca... Acho que ela foi amordaçada. Tem marcas, tá vendo?

Sanders toca o corpo, cutucando com os dedos.

SANDERS: - Não morreu há muito tempo. Não tem rigidez cadavérica ainda. Existe água aqui perto?

KRYCEK: - Um lago, mas estamos longe dele. Por que os cabelos dela estão molhados?

SANDERS: - Afogamento? O corpo seca mais rápido que o cabelo. Será que tentaram afogar a garota antes e como não conseguiram, resolveram matar a facadas?

Krycek aproxima o nariz do rosto do cadáver, sem encostar.

KRYCEK: - Sanders, ela cheira a sabão... Parece cheiro de sabão de lavar roupa.

SANDERS: - Nunca vi um cadáver tomar banho. Acha que lavaram a vítima para retirar qualquer evidência? Jesus Cristo, Checov! Que malucos doentes fazem isso?

KRYCEK: - Doentes não. Malucos espertos, não querem deixar pistas... Ela também foi amarrada pelas mãos e pés, tem marcas de ligaduras... Eles deixaram pegadas por aqui, tá vendo? Espero que encontrem alguma coisa além disso... (OLHA PRA GAROTA) Quem é você, garota? Quem fez isso com você? E por quê?

SANDERS: - Vamos chamá-la de Rose. Tem uma rosa tatuada no tornozelo, isso pode facilitar a identificação. E vamos torcer pra Rose nos contar sua história. Vou chamar a perícia. Espero que encontrem algum DNA dos cretinos.


6:11 A.M.

The Gold Coin, bem vestido e elegante sai da mansão. Ao lado dele Rockfell, em roupas casuais, tirando a corrente com o pentagrama. Robinson, também meia idade, sai atrás deles apressado, ajeitando a gravata. O motorista da limusine abre a porta para Robinson.

ROBINSON: - Preciso pegar meu jatinho e ir pra Coreia do Sul agora. Mantenham-me informado da situação. E eu quero um "pedaço" dessa criança, sabe-se lá o que eu posso descobrir de curas para doenças e novos medicamentos para os meus laboratórios.

ROCKFELL: - Manteremos você informado, Robinson. Nos vemos em Davos. Boa viagem!

Robinson entra na limusine. A limusine parte.

ROCKFELL: - Então, Alberthi? A Ordem decidiu pela eliminação dos problemas. O ritual a Satã já foi concretizado.

THE GOLD COIN: - Isso inclui Barbara Wallace, a repórter tagarela.

ROCKFELL: - Não tenho mais nada a ver com aquela mulher. Eu votei a favor.

Coin tira o celular do bolso. Rockfell o observa. Coin aperta uma tecla.

THE GOLD COIN: - (AO CELULAR) Sou eu. A decisão do topo é: matem todos e peguem a menina... Todos inclui todos, me entendeu? Toda a turminha do Mulder. Acabe com os amiguinhos dele, deixem ele desatinado e depois acabem com ele. Não deixem ninguém para trás. Homens mortos não contam a verdade... Como farão é problema de vocês. O velho Spender é assunto meu, já ganhou a minha moeda. Mantenham os olhos nele.

Coin desliga e guarda o celular.

ROCKFELL: - Acha que Spender vai ser empecilho?

THE GOLD COIN: - Esse será o teste de confiança. Vamos ver até onde vai a fidelidade dele ao Sindicato quando o assunto é Mulder e família.

ROCKFELL: - E será que o Sindicato vai conseguir? Eles andam bem atrapalhados nos últimos tempos, desde que Mulder desmantelou os negócios deles.

THE GOLD COIN: - Se não conseguirem, vão se entender com a Ordem. Eu não aguento mais ficar de babá daqueles imbecis. Até os novatos aprenderem o esquema, eu vou ter que ficar aguentando velhos incompetentes deixando rastros.

ROCKFELL: - Quer almoçar comigo no hotel?

THE GOLD COIN: - Aceito. Encontrarei você no restaurante. Estou ficando enjoado de Washington. Muita politicagem. Mas ainda preciso ficar aqui até essa situação se resolver. Por mim, eu matava todos eles e extinguiria de vez esse braço. Eles estão se expondo demais.

Outra limusine estaciona.

ROCKFELL: - Nenhuma festinha interessante em Hollywood?

THE GOLD COIN: - Muitas, Rockfell, muitas... E nós dois aqui, perdendo nosso tempo precioso com idiotas que brincam de conspiração. Aqueles imbecis nem sabem o significado da palavra, não sabem nem quem dá as cartas nesse jogo e nem a quem servimos. São crianças cegas num jardim de infância! Para alguns, a idade não traz sabedoria, traz lentidão.

Coin acende um cigarro, mostrando a mão com o anel de rubi. O motorista abre a porta.

THE GOLD COIN: -(IRÔNICO) Aposto que o diabo está muito feliz hoje.

ROCKFELL: - É, ele deve estar, Alberthi. Fizemos um sacrifício para provar nossa lealdade e pedir a morte daquela gente. A situação exigia. Lúcifer está presente em todos os lugares, ele habita na Terra, como um alienígena. Certamente nos escuta e nos ajudará como sempre faz.

THE GOLD COIN: -Certamente...

Coin sorri com o canto da boca e entra na limusine.


Residência de Barbara Wallace - 11:35 A.M.

Barbara de sutiã e minissaia observa a sala de jantar e a cozinha. Olha para o espaço que sobra perto da porta de vidro que dá para o jardim. Coloca as mãos na cintura. Abre a porta da varanda. Começa a tentar inutilmente arrastar um sofá pra dentro. Krycek entra na cozinha usando o coldre com a arma e abotoando a camisa.

KRYCEK: - O que quer fazer?

BARBARA: - Quero colocar esse sofá e aquela poltrona nesse cantinho morto e sem vida. Pensei em fazer um estar íntimo. Lá fora já tem um jogo de sofás de vime que veio com a casa. Depois coloco um tapete bonito e vai ficar um espaço legal pra quando a gente receber visitas.

KRYCEK: - (SEGURA O RISO) A gente?

BARBARA: - (SE CORRIGE) Eu, quando eu receber visitas.

Krycek morde os lábios pra não rir. Empurra o sofá e coloca no lugar. Faz o mesmo com a poltrona.Barbara se escora na mesa de jantar, olhando pra ele.

BARBARA: -(SENSUAL) Nada como ter um homem forte e grandão pra fazer o serviço pesado...

KRYCEK: -Lá vem o golpe... O pior é que me deixo enrolar e ainda gosto disso! Espero que não tenha que cavar mais buracos.

BARBARA: - (RINDO) Chega de buracos, Ratoncito. O jardim ficou lindo... Olha, não ficou melhor? Quem não estiver cozinhando pode ficar deitado aqui olhando pro outro. Não quer mesmo fazer um programa de culinária russa na minha cozinha? Eu coloco as câmeras, filmo e dirijo você, o canal local pode exibir seu programa...

KRYCEK: -Não. Eu não sou chef de cozinha e nem gosto de câmeras. Meu negócio é anonimato. Acho que ficaria melhor com uma mesinha entre o sofá e a poltrona. Pode colocar uma TV em cima pra assistir suas notícias enquanto estiver na cozinha. Dá pra assistir da cozinha, da mesa de jantar... Você tem um escritório lá embaixo, mas sempre acaba trabalhando na sala de jantar.

BARBARA: -Droga, Ratoncito! A gente quando compra uma casa não percebe tudo. Essa casa me ganhou por essas portas enormes de vidro, varandas, jardins e o porão. Agora que percebo que essa cozinha é minúscula. Fica tudo socado do outro lado do balcão. Vem aqui.

Barbara puxa Krycek pela mão, atravessando a sala de jantar, outro espaço vazio e ficando em frente a outra porta enorme de vidro que dá para a piscina. Ao lado da porta uma escada de madeira nobre que desce para o porão.

BARBARA: - Olha pra você ver. Lá no fundo aquela coisinha de cozinha, ali sala de jantar, agora o estar íntimo ao lado e aqui espaço vazio. O que faço nesse espaço vazio? Bom, se você trouxesse seus aparelhos de ginástica, eles ficariam legal aqui. A gente podia fazer ginástica e depois ir pra piscina. Colocava um biombo pra separar o ambiente...

Krycek ergue a sobrancelha olhando pra ela, sacando a intenção.

KRYCEK: - Sei... Se eu morasse aqui, mas eu não moro aqui. Se eu morasse aqui faria uma sala.

BARBARA: - Mas já temos a sala lá na frente! O que será que eles tinham aqui?

KRYCEK: - Malyshka, provavelmente eles tinham um estar íntimo maior. Tá vendo a lareira?

BARBARA: - Ah! Verdade!

KRYCEK: - Deviam receber muitas visitas e logicamente vinham todos pra cá. Aquela sala lá na frente é mais... Digamos... Para receber pessoas que não são do convívio social. A bagunça com os amigos fica aqui atrás: cozinha, sala de jantar, estar íntimo... Jardim, piscina...

BARBARA: - Droga! Eu não tenho mais móveis, eu migrei de um apartamento! Vou comprar um jogo de estofados. Fazer um barzinho... Uma mesa de sinuca! Ai, vai ficar muito legal!!! Vamos receber nossos amigos no maior estilo! Já vejo você e os rapazes jogando sinuca, eu e as garotas na cozinha, as crianças pela sala brincando...

KRYCEK: -Mesa de sinuca? Oh, estou começando a gostar da ideia. Eu compro a mesa pra você. (TENSO) Que crianças?

BARBARA: - Victoria e a filha do Byers... Ratoncito, aquelas paredes me incomodam.

Krycek vira-se pra cozinha.

BARBARA: - Não entendo a função daquelas paredes. Elas diminuem a cozinha. É um quadrado construído! De um lado ficam os móveis da cozinha, do outro uma parede decorada que fica de frente pro meu estar íntimo. Atrás é a minha biblioteca, que não tem recuo na parede. E já olhei do lado de fora e a casa também é reta, a parede pega na varanda. É um quadrado! Então qual a do engenheiro disso? Construir um quadrado dentro de uma casa? Se houvesse recuo de alguma das paredes eu entenderia que faz parte do design. Mas não tem.

Krycek sai para a varanda.

KRYCEK: - Você tem razão, eu não tinha notado isso. E lá embaixo?

BARBARA: - A mesma coisa no porão. E o quadrado vem aqui pra cima. Mas lá em cima ficam os quartos e esse quadrado não vai pra lá.

KRYCEK: - Malyshka pode ser uma caixa d'água. Geralmente fazem esse tipo de estrutura... (CURIOSO) Pois é, mas deveria ir pra cima também... Sei lá, se você quiser ampliar a cozinha, dá pra tirar essas duas paredes e aumentar bastante o espaço. Eu faço pra você na minha próxima folga.

BARBARA: - Aumentava mesmo! Nem terminei de me mudar e já tô pensando em reforma...

KRYCEK: - Eu adoraria ficar falando de reforma e decoração, mas eu tenho que trabalhar.

BARBARA: - Tá maluco? Você dormiu apenas quatro horas!!! Nem era pra estar acordado!

KRYCEK: -Um colega da delegacia ligou, pedindo pra trocar de turno comigo, o filho dele quebrou a perna e ele ainda tá preso no hospital sem hora pra sair. Não posso deixar o Chambers sozinho.

BARBARA: - Não vai almoçar? Eu preparo algo rápido, você não pode sair sem comer nada.

KRYCEK: -Eu faço um lanche depois, comida é o que não falta numa delegacia.

BARBARA: - Comida? Você quer dizer café, rosquinhas, salgadinhos, chocolates e sanduíches. Isso não é comida. E vai emendar com o seu turno da noite?

KRYCEK: - Não. Ele vai fazer o meu turno hoje à noite.

Krycek pega a jaqueta de couro do cabide e as chaves do carro. Dá um beijo nela. Abre a porta. Barbara vai atrás dele. Krycek abre a porta da picape e veste a jaqueta.

BARBARA: - Espera! Então posso fazer um jantar pra nós dois?

KRYCEK: - Malyshka, eu preciso passar na minha casa. Estou sem roupas.

BARBARA: - Ai, não... Você não precisa de roupas! Pode andar peladão pela casa! Eu não me importo!

Krycek começa a rir.

KRYCEK: - Barbara, é sério. Você tá me mantendo em cárcere privado, sabia? Eu tenho que ir pra minha casa, ver se tudo está ok e pegar mais roupas. Como vou ir trabalhar?

BARBARA: - Eu lavo as roupas sujas pra você trabalhar amanhã e você anda peladão em casa. Pronto! Ai Ratoncito, você tá mentindo, vai ficar na sua casa e me deixar sozinha aqui nessa casa enorme, com medinho, abandonada, triste, solitária, deprimida...

KRYCEK: - Eu juro que só vou pegar umas roupas e volto, não precisa fazer drama. E pode fazer o jantar.

BARBARA: - E o que você quer pra jantar? Dependendo, eu tenho que buscar algum ingrediente...

KRYCEK: - (SACANA) O que eu quero comer, você tem de sobra pra me dar.

BARBARA: -(SORRI) Ratoncito canalha! Dá outro beijinho, já tô com saudade!

Barbara pula em cima dele, Krycek a segura. Ela envolve as pernas e os braços nele. Os dois trocam um beijo.

KRYCEK: - Conhece sanguessuga? Você gruda como uma.

BARBARA: - Não gosta que eu fique assim, grudadinha em você, hermoso?

KRYCEK: - Se eu não gostasse já tinha fugido pra bem longe. Que ratoeira você me armou, hein, garota? Pegou o rato em cheio! Também, com a qualidade toda dessa isca...

BARBARA: - (RINDO) Gosta dessa isca? Hum?

KRYCEK: - Só digo que é uma droga ter que ir trabalhar numa hora dessas e deixar meu queijo sozinho e carente nessa casa...

Barbara segura o rosto dele e o chama pra um beijo de língua. Nancy, do outro lado da rua, disfarça que molha a grama, mas observa os dois, acenando negativamente com a cabeça.

NANCY: - Que mulherzinha vulgar, isso é roupa de sair na rua? Até o amante do pervertido ao lado não escapou das garras da piranha!

Krycek solta Barbara e entra na picape. Barbara acena pra ele. Krycek sai tomando a rua. Barbara então percebe Nancy. Cerra a fisionomia, faz um beiço de irritada e vai pra frente do jardim. Vira o traseiro pra Nancy e se agacha pegando o jornal, mostrando as calcinhas. Nancy arregala os olhos e vira o rosto fazendo o sinal da cruz.

NANCY: - Mudei minha teoria. Ela deve ser irmã da ruiva pervertida aqui do lado!


12:33 P.M.

A mulher com o rosto surrado e inchado, sangue escorrendo da cabeça, sentada dentro da ambulância. Os paramédicos fecham a porta. A ambulância parte. Krycek sai do prédio levando o homem algemado. O detetive Chambers sai atrás, acendendo um cigarro, nervoso.

BILLY: - Aquela vadia!!! Ela faz por merecer as surras que eu dou nela!!!

Krycek acerta um tapão na cabeça de Billy, que ele chega a ir pra frente, quase perdendo o equilíbrio.

BILLY: -Isso é violência, cara!!! Porra de polícia violenta!!!

CHAMBERS: - E o rosto inchado da sua mulher é o quê? Legítima defesa? Checov, tira esse filho da puta da minha frente, antes que eu perca a cabeça e o distintivo!

BILLY: -Vou denunciar vocês por abuso de autoridade!!! Eu tenho os meus direitos!!!

Krycek mete outro tapão na cabeça dele. Billy quase cai. Krycek o puxa pela camisa e o encara com raiva.

KRYCEK: - É? E vai dizer o quê? Pensa bem no que vai dizer, porque você vai pra uma cela e somos nós quem faremos companhia pra você até o juiz chamá-lo.

BILLY: - Vocês não podem me tocar! Eu tenho direitos!

KRYCEK: - Tem, e começa por "você pode ficar calado". E eu sugiro que cale a sua boca mesmo, porque agora foi flagrante. Você violou uma medida protetiva.

CHAMBERS: - Billy, não é melhor deixar a sua ex-esposa em paz? Ou quem sabe eu apago meu cigarro acidentalmente no seu rabo? Você é bêbado e descuidado, sentou numa bituca acesa...

KRYCEK: - Chambers, eu adoro machões que batem em mulher, porque eles ficam umas flores quando a polícia chega. Espancador de mulher tem que gostar de apanhar de macho.

Krycek acerta outro tapão na cabeça de Billy e o empurra com o pé pra dentro da viatura.

BILLY: - Eu juro que foi a última vez!!! Eu prometo!!!

KRYCEK: - É, eu sei, da última vez também era a última vez. Cala a boca ou vou socar você aí dentro. Quero ver se o advogado vai safar seu rabo! E se safar, já sabe, além do serviço social, nós vamos fazer umas visitinhas incertas pra sua ex pra ver se você anda perturbando.

Krycek bate a porta. Chambers se recosta na viatura, tragando o cigarro. Krycek se recosta ao lado dele, olhando para as lojas e as pessoas que passam.

CHAMBERS: - Deixa eu me acalmar, porque eu não tenho a sua tática, Checov. Não sei aonde aprendeu a lidar com vagabundos, mas eu queria saber como machucar sem deixar vestígios, porque eu adoraria esfolar esse otário. Viu a cara dos filhos aos prantos? Já atendi quatro ocorrências nesse endereço. Duas no último mês. Arrombamento, invasão e lesão corporal.

KRYCEK: - Três no meu turno. Agora ele não escapa. Foi além do soco e do arrombamento. Violação de medida protetiva e ainda podemos enquadrar como tentativa de homicídio... Chambers, enquanto você fuma, eu vou fazer uma coisa.

Krycek se afasta e entra na loja. Billy reclama alguma coisa. Chambers mete um tapa no vidro da viatura e ele cala a boca. Um carro para. A assistente-social desce.

SHEILA: - O Billy novamente?

CHAMBERS: - É. Nem medida judicial mantém ele longe.

SHEILA: - As crianças estão lá em cima?

CHAMBERS: - A vizinha ao lado está com elas.

SHEILA: - Então? A polícia vai me ajudar ou não?

CHAMBERS: - Sheila, não depende da gente querer ajudar você. Mas agora dá pra enquadrar em tentativa de homicídio. Ela foi espancada, as crianças são testemunhas e a vizinha também.

SHEILA: - Desgraçado... Ela tá muito mal? Pra onde a levaram?

CHAMBERS: - Pro San Andreas, com a cabeça e o rosto sangrando. Acha que não quero tirar esse filho da mãe das ruas? É claro que eu quero. Depende do juiz.

SHEILA: - Era o que eu precisava. Notícia pra você. Dessa vez vai ser uma juíza.

Chambers sorri. Sheila entra no prédio. Krycek sai da loja com duas latas de refrigerante e uma sacola de presente. Entrega um refrigerante pra Chambers.

CHAMBERS: - Presentinho pra namorada?

KRYCEK: - Ela gosta de coisas diferentes. Quando vejo uma...

Os dois entram na viatura. Krycek entra no carona.

RÁDIO (OFF): - Unidades disponíveis, assalto na rua 33 com a Plummers. Dois indivíduos armados dentro de uma mercearia.

Chambers e Krycek se entreolham.

CHAMBERS: - Tem lugar aí atrás pra mais dois.

BILLY: - (ASSUSTADO) Vocês são malucos? Não vão me deixar aqui com dois assaltantes perigosos!!! Me levem pra delegacia primeiro!!! Eu tenho os meus direitos!!!

CHAMBERS: - Ah, pobrezinho, ele sabe dos direitos dele... Mas não sabe dos deveres! Cala a sua boca ou vou aí atrás calar pra você!!!

Krycek pega o rádio.

KRYCEK: -Central, viatura 132 se dirigindo ao local... Sabe, Chambers, eu amo esse trabalho. Adrenalina o tempo inteiro!

CHAMBERS: - Eu também. A parte chata é ficar sentado fazendo relatórios e aguentando o mal humor do Norris.


Residência dos Mulder - 4:23 P.M.

Victoria sentada dentro da piscina de plástico no quintal, fazendo algazarra e atirando água no cachorro. Cookie dispara pra dentro da garagem. Baba de maiô e canga ajeita o guarda-sol em cima de Victoria.

VICTORIA: - (BEIÇO) Baba... Okie num qué banho!

BABA: - Cookie é um cãozinho relaxado. Ele não gosta de água.

VICTORIA: - Nah?

BABA: - Não. Cookie detesta banho.

VITORIA: -A Nana?

BABA: - Coelhos não tomam banho.

VICTORIA: -O Ikito?

BABA: - Ele também não é fã de água. A única que gosta de água é a Molly, mas ela tem que ficar no aquário dela. A água dela é diferente. Tem que colocar uns produtos pra ficar boa pra ela.

VICTORIA: - A Baba "gota"?

BABA: - (SORRI) A Baba adora, mas a sua piscina é pequena demais pra mim.

Victoria ri. Baba entrega uma bola de plástico pra Victoria se entreter. Depois pega uma cadeira do jardim e senta-se ao lado dela. Victoria começa a brincar com a bola que flutua na água, empurrando e puxando de volta. O celular toca.

BABA: - Aposta quanto que é seu pai preocupado com você? Ele deve achar que sou lesada da cabeça!

VICTORIA: - Ox... Ox ôbo... Neném tá boa!

BABA: - Neném tá bem.

Baba olha pro visor e dá um sorriso debochado. Atende o celular.

BABA: - (AO CELULAR) Aqui é a babá incompetente que precisa ser lembrada todo o dia que tem uma criança pra cuidar... Você é chato, fala sério! Não tem nada pra fazer com a Scully aí em Roma? ... Ahn, estão no Vaticano... Você deve estar muito feliz visitando igrejas... Ah! (RINDO) Vai ver o Papa... (DEBOCHADA) É... Eu não vou parar de rir da sua cara não! Muito pelo contrário, eu vou ter piada pro ano todo!!! E quero uma cópia da sua foto com o Papa ao fundo! ... Concordo, não custa, Scully tá louca pra ver o Papa... Sério? Museus? Hum, parece interessante... Imagino, você na Capela Sistina deve ter enlouquecido procurando alienígenas nas pinturas do Michelangelo...

Victoria bate na água, molhando Baba.

BABA: - (DEBOCHADA) Ei, mocinha, joga água pra lá, eu quero me bronzear, não estou negra o suficiente! (AO CELULAR) Não mesmo. Não chorou. Mulder, ela está acostumada comigo! Para de incomodar e vai fazer o que tem que fazer quando se está em lua de mel! E se não consegue, compra os comprimidinhos azuis... Não, Victoria não está bem, eu acabei de afoga-la na piscina.

Victoria ri alto.

BABA: - (AO CELULAR) Ah, ouviu ela? ... Claro que passei protetor solar e coloquei um guarda-sol, tá me chamando de retardada? ... Não, Mulder. Tudo tranquilo... Sim, Mulder. Krycek vem aqui todo o dia, Skinner liga todo o dia... Não, Mulder... Sim, Mulder... Mulder, eu vou desligar agora. (DEBOCHADA) O Canceroso chegou pra tomar um cafezinho. Bye!

Baba desliga e põe o celular no bolso. Coloca os óculos escuros.

BABA: - Que silêncio nessa casa! Só nós duas, as crianças barulhentas e encrenqueiras estão em lua de mel... Vamos aproveitar as nossas merecidas férias! Depois vou fazer aquele shake de banana que você adora.

VICTORIA: - Oba!!!!

Victoria estende a mão para a bola que começa a levitar. Ri alto.

VICTORIA: - Oh a bola, Baba!!! Voa bola, voa!!!

A bola sai voando e cai no pátio de Nancy. Victoria cerra o cenho.

BABA: - Tá vendo por que não pode fazer mágica? Você não sabe usar ainda. Mandou a bola voar, ela voou. E agora?

VICTORIA: - (BEIÇO) Pega pá neném?

BABA: - Eu não!

Victoria olha triste pra ela.

BABA: - Por que você não pega de volta? Manda a bola voltar pra você.

VICTORIA: - Olta, bola, olta!!!

A bola vem voando e cai na frente dela. Victoria acha graça e começa a rir.

BABA: - Viu? Tem que saber usar a mágica que Papai do Céu te deu. Mas não pode fazer muita mágica porque as pessoas podem ver. E as pessoas não entendem mágica. Ficam assustadas, com medo. Já pensou se a Nancy vê? Ela vai ficar assustada.

Victoria presta atenção nela.

BABA: - Eu sei que é divertido, mas querer não é poder e você precisa aprender isso desde pequena. Um dia você vai crescer e vai ver que nem tudo o que a gente quer, a gente pode ter. Precisamos lidar com essa frustração na vida. Então brinque sem mágica.

VICTORIA: - Tá. Queler não é poder.

BABA: - Isso aí, minha bruxinha fofa e inteligente. Sabia que eu te amo?

VICTORIA: - (SORRI) Amo a Baba!!!

Baba sorri pra ela.

BABA: - E quem mais você ama? Hum? Além dos seus animaizinhos de estimação?

VICTORIA: - Papai... Mamãe... Vovó... Fafanhoto...

BABA: - (RINDO) Gafanhoto!

VICTORIA: - Tio Chalis...

BABA: - Vamos, vamos treinar essa memória.

VICTORIA: - Tio Tchek.

BABA: - Olha, acho que o tio "Tchek" nem sabe disso!

VICTORIA: -Tio Tchek canta "tusha" pa neném... Tia Babie faz biscoito... Hero... Angui... O oto...

BABA: - Frohike? Você ama o Frohike? O tio Langly? O outro é o tio John Byers.

VICTORIA: - Angui tem mones...

BABA: - Ramones? Você curte Ramones também?

VICTORIA: - Sim!!! Neném tem ropa mones.

BABA: - Ah sim, tio Langly deu uma jaqueta dos Ramones pra você. Quem mais você ama?

VICTORIA: - Tio Kinner!!!

BABA: - (RINDO) Ah, seu dindo Skinner... E sua dinda Ellen?

VICTORIA: - Também! ... Tia Sam... Donny...

BABA: - Johnny, seu primo Johnny.

VICTORIA: - É... Tio Bill.

BABA: - Você ama o tio Bill? Tio Bill chato?

VICTORIA: - (RINDO) Amo todos!!!

BABA: - (RINDO) Mas cabe gente nesse coraçãozinho aí, né?


Supermercado Brooks - 4:58 P.M.

Barbara empurra o carrinho até o caixa. O celular dela toca. Barbara atende.

BARBARA: - (AO CELULAR) Barbara Wallace... Oi, senhora Nielsen! Sim, tudo bem, graças à Deus! Só sinto saudades da minha vizinha de porta... Imagino... Sim, a casa é maravilhosa, a senhora tem que vir me fazer uma visita... Um homem atrás de mim? Sabe o nome dele? ... (SORRI) Ah, sei quem é. É um grande amigo, pode dar meu endereço pra ele e meu telefone, sem problemas... Ok. Um abraço! Obrigada!

Barbara desliga, George se aproxima dela.

GEORGE: - Você é a Barbara Wallace, a jornalista das oito do RBN Channel?

BARBARA: - Sim e não. Sou a Barbara Wallace, mas não estou mais na RBN.

GEORGE: - É, eu sei. Procurei você em todos os canais. Está aonde?

BARBARA: -Faço apenas um programa semanal no canal comunitário local, mas você não vai querer assistir aquilo. Iria odiar aprender artesanato, dicas de limpeza e organização, como fazer bolo pra segurar marido e ouvir dondocas da sociedade falando sobre suas caras viagens na Europa. Eu mesma não aguento! Ah! Mas você pode ler minha coluna mensal na Sexy for Man, onde eu falo sobre economia e política depois da página da gostosona nua do mês.

GEORGE: -(SORRI) Você é tão simpática e divertida como na TV. E mais bonita pessoalmente. Desculpe a ousadia, mas é que eu sou seu fã. Você pode me dar um autógrafo?

BARBARA: - Claro!

George tira a caneta e um bloco do bolso, entregando pra ela.

BARBARA: - Qual o seu nome?

GEORGE: - Ah, me desculpe. George Brooks. Eu sou seu vizinho, o marido da Nancy.

BARBARA: - (SORRI SACANA) Sério? O marido da Nancy? Muito prazer, vizinho!

Os dois se cumprimentam.

GEORGE: - O prazer é todo meu.

Barbara assina e escreve alguma coisa e devolve o bloco pra ele.

GEORGE: - (SORRI BOBO/ LENDO) Para meu amigo, fã e vizinho, com amor e um beijo enorme, Barbara Wallace... (OLHA PRA ELA) Nem acredito que você esteja fazendo compras no meu mercado e morando na frente da minha casa!

BARBARA: -(SURPRESA) Sério que você é o dono, George? É a primeira vez que venho aqui, a Baba quem me recomendou, mas não disse que era seu. Adorei seu supermercado! Tudo organizado, de bom gosto, as frutas e verduras fresquinhas e encontrei até o vinho que eu não achava mais em lugar algum. Aproveitei sua oferta de berinjelas e tomates!

GEORGE: - Obrigado, aqui é a minha primeira casa. Faço tudo pra agradar os meus clientes, são como visitas pra mim.

George se aproxima da moça do caixa.

GEORGE: - Registre as compras da senhorita Wallace, mas não cobre nada.

Barbara arregala os olhos.

BARBARA: - George, não. Isso não está certo. Desse jeito vou deixar de vir aqui, porque você não vai querer cobrar as minhas compras por ser meu fã.

GEORGE: - Não, é sério. Juro. Hoje é meu presente pra você. Um presente de boas vindas à vizinhança. É por minha conta, por favor, aceite.

BARBARA: - Jura mesmo? Olha que se fizer isso de novo...

GEORGE: - Juro. Seja bem-vinda ao nosso bairro. É uma honra ter você na minha rua.

George vai tirando as compras e colocando no caixa.

BARBARA: - George, estou com um problema, talvez você possa me ajudar. Sabe quem construiu a casa em que estou morando?

GEORGE: - (SORRI) Sei. Eu fui o primeiro morador daquela rua. Vi todas as outras casas se erguendo aos poucos. Só quero lembrar o nome dele... Era meu vizinho. Ele construiu a casa do Mulder também...

BARBARA: - Sério?

GEORGE: - Sim, ele construiu a casa para morar com a noiva dele, mas parece que ela desistiu de casar, por causa de outro homem. Ele ficou tão deprimido que colocou a casa pra vender. Aí o Mulder comprou. E a sua casa, ele construiu pra mãe da noiva. Por isso uma casa na frente da outra. Então os Turner compraram a sua, antes do Mulder comprar a dele. Algum problema com a casa? Se precisar, eu conheço profissionais competentes.

BARBARA: - Não, é que eu quero fazer umas reformas nela e estou com medo de mexer na estrutura. Acho que vou ter mesmo que ir na prefeitura pegar a planta. Você não teria o endereço dele?

GEORGE: - Nem telefone. O pobre homem foi embora, virado num caco. Nem olhou mais pra trás. Muito triste você fazer planos com que ama e depois ver que nada do que planejou aconteceu.

BARBARA: - É... Imagino como ele ficou. Eu também iria embora sem olhar pra trás. Obrigada pelas compras, George. Se precisar de alguma coisa, sabe onde moro.

GEORGE: - Você também. E bem vinda novamente.


Hotel Ritz - 5:03 P.M.

A limusine estaciona. O porteiro abre a porta num sorriso. Coin desce, ajeitando a gravata. Chambers passa com a viatura.

KRYCEK: - (VÊ COIN) Para o carro!!!!

Chambers freia bruscamente. Krycek desce do carro.

CHAMBERS: - Checov, o que foi?

KRYCEK: - Eu vou checar uma coisa.

CHAMBERS: - Precisa de apoio?

KRYCEK: - Não. Vá tomar um café.

Corte.


Coin atravessa o saguão do hotel. O recepcionista ao vê-lo, abre um sorriso.

THE GOLD COIN: - Algum recado, Charles?

O recepcionista entrega alguns bilhetes.

RECEPCIONISTA: - Aqui estão, senhor Alberthi. Está tudo do seu agrado?

THE GOLD COIN: - Perfeitamente, Charles, como sempre.

RECEPCIONISTA: - Ficamos felizes, senhor Alberthi. Posso ajudá-lo em alguma coisa?

Krycek pega um jornal e senta-se, colocando o jornal no rosto e observando Coin.

THE GOLD COIN: - Charles, eu gostaria de não ser incomodado pelo resto da tarde.

RECEPCIONISTA: - Perfeitamente, senhor Alberthi. Pegarei seus recados.

Coin vai para o elevador. Krycek se levanta e caminha até a recepção. Mostra o distintivo.

KRYCEK: - Detetive Alex Krycek. Preciso de informações.

RECEPCIONISTA: - Como posso ajudá-lo, detetive?

KRYCEK: - Era o senhor Alberthi. Em que quarto está hospedado?

RECEPCIONISTA: - Lamento, policial, mas não posso dar essa informação.

KRYCEK: - Conhece a palavra obstrução da justiça?

O recepcionista vai chamar o gerente. Krycek percebe alguém chegar ao balcão. Olha para o lado. É Rockfell. Krycek abre um sorriso sacana.

ROCKFELL: - (IMPACIENTE) Preciso fechar minha conta, não tem ninguém pra me atender?

Krycek o observa discretamente. O recepcionista se aproxima.

RECEPCIONISTA: - Desculpe, senhor Rockfell. Em que posso ajudar?

ROCKFELL: - Encerre minha conta. Estou voltando para Nova Iorque.

RECEPCIONISTA: - Perfeitamente, senhor.

Rockfell coloca o celular sobre o balcão. Tira a carteira e entrega o cartão de crédito. Krycek olha para o celular. Olha pra todos os lados. Uma madame se aproxima segurando o cachorro.

MADAME: - Charles, meu Victor Hugo precisa de um tosador, você pode conseguir?

Krycek discretamente puxa o rabo do cachorro. Esse se assusta e pula no balcão, latindo e fazendo confusão. Rockfell se afasta. A madame e o recepcionista tentam pegar o cachorro. Krycek finge ajudar, pega o celular e coloca rapidamente no bolso da jaqueta. O gerente se aproxima. O recepcionista pega o cachorro e entrega pra madame. Krycek faz sinal pro gerente ir atrás dele. O gerente sai do balcão.

GERENTE: - Como posso ajudá-lo, policial?

KRYCEK: - Já me ajudou. Tenha um bom dia.

Krycek dá as costas sem o gerente entender nada.


Residência de Barbara Wallace - 5:39 P.M.

[Som: Jennifer Lopez - If You Had my Love]

Barbara cantarolando em cima do banquinho, guardando as compras nos armários. Começa a conversar com "Jennifer Lopez".

BARBARA: - (SUSPIRA) Ai J-Lo! Você tá cantando o meu drama... O que esse homem quer da vida? Será que vou me machucar? Eu não preciso mais de mentiras e dor... Eu sei que todos dizem que ele era um mentiroso, sei do passado terrível dele... Será que também mente pra mim? Mas eu o amo tanto, não quero acreditar nisso... A Scully me diz pra ter paciência, eu sei que ela entende mais de relacionamentos do que eu, e o homem dela também tem um causa, mas eles demoraram sete anos pra ficarem juntos! Eu não quero demorar sete anos pra ficar junto com o Alex, eu não sou forte emocionalmente como a Scully, eu preciso de alguém do meu lado. Ai J-Lo, eu não era assim, devem ser os hormônios da meia-idade se antecipando e gritando! Eu quero ser mãe e esposa, tô mais que preparada pra isso! Pronto! Falei! Admito! Mas eu vejo a minha vida passando e tudo o que mais quero é o meu russo comigo, todos os dias, pro resto das nossas vidas. E ele? Ele parece que só quer namorar. O que eu faço?

Barbara desce do banquinho. Segura a garrafa de vinho contra o peito.

BARBARA: -Minha mãe tem razão, eu tenho o dedo podre pra homem, eu sempre me apaixonei pelos canalhas, até pelo moleque da rua, o bonitinho da gangue e aquele garoto da escola que depois descobriram que era traficante! Minha sorte é que eu nunca me declarava, morria de vergonha, coisa de adolescente mesmo... Mas eu chorava por eles de amor platônico. E aí depois de adulta, ainda fui trocar minha virgindade por um trabalho na televisão e por cidadania americana! Eu odeio o Rockfell, mas eu me apaixonei por ele na época, queria ele o tempo todo do meu lado. Ainda bem que acordei e o matei no meu coração antes dele me jogar fora... Mas eu sofri, confesso. Dói ser jogada fora depois de tudo o que você fez por um homem. E eu acho que não sou a pior das mulheres, eu tento fazer tudo pra agradá-los.

Barbara suspira. Guarda o vinho na geladeira.

BARBARA: - E agora me apaixonei pelo Alex... Ai, J-Lo, eu não quero mais sofrer. Eu não sei mais o que pensar do meu Ratoncito. Ele é um amor comigo, diz que me ama, me enche de presentinhos, a gente faz tanta coisa juntos, até aulas de dança! Mas se ele quer algo sério, porque não vem morar comigo? Será que ele tem dúvidas quanto a gostar de mim, por isso fica dizendo pra gente ir devagar? Eu sou uma idiota! Já me entreguei inteira pra ele, de coração, de alma e de corpo. Agora é esperar e torcer pra que os sentimentos dele sejam sinceros ou vou acabar despedaçada de novo. Esperar, esperar... Eu estou cansada de esperar! Eu só vou sossegar o dia em que as coisas dele estiverem nessa casa!

O telefone toca. Barbara desliga o som e atende a extensão na cozinha.

BARBARA: - (AO TELEFONE)Alô? ... Krycek? Sim, é o número de recados dele, quem fala? ... (DESCONFIADA) Irmã? ... Ahn... Não, eu sou a empregada dele. O que você quer com ele, "irmã" do Krycek... Hum... (ARREGALA OS OLHOS/ TRÊMULA) Filhos?

Barbara não escuta mais nada. Deixa o telefone contra o peito e faz uma fisionomia de "ele me paga". Barbara coloca o telefone de volta ao ouvido.

BARBARA: -(SEGURANDO A RAIVA) Por que não vem aqui pessoalmente dar notícia dos filhos dele? Ele adoraria! ... Claro, eu dou o endereço pra você, Sasha. Anote aí... Rua Um, 3113, West Virgínia... Ah, você está perto? Sim, venha agora, ele está em casa.

Barbara desliga o telefone, furiosa.

BARBARA: -(GRITA/ SURTADA) Filho de uma vaca comunista!!! Quando ele ia me dizer que tinha filhos? Irmã??? Irmã o cacete, ele não tem irmã!!! É a vadia da mãe dos filhos dele!!! Sasha... A desgraçada é russa ainda por cima!!! Arghhh eu mato o Alex, mas eu mato ele!!! Ele vai ter jantarzinho romântico!!! Mentiroso, desgraçado, nunca me falou nada sobre filhos!!! Cretino, abandonou os filhos dele na Rússia? Ah, mas hoje vai ter jantar chinês: rato frito e fatiado!!! Ele me paga!!! E essa piranha vai ter o dela, ah vai!!! Eu sabia! Sabia!!! Felicidade demais nunca dura!!! Homem solteiro, bonitão, de meia idade e sem rolo? Que idiota você é Barbara!!!!

Barbara coloca a chaleira no fogão, com raiva. Sai da cozinha. Batidas na porta dos fundos. Ela volta com um frasco de laxante. Abre a porta. Baba parada ali com Victoria e um bolo.

BABA: - Pensei em tomar café com você. Fiz um bolo.

BARBARA: - (BEIÇO) Entra aí, você chegou na hora certa!

Baba olha para o frasco de laxante.

BABA: - Problemas intestinais?

BARBARA: - Eu? Não. Mas alguém vai ter. (VINGATIVA) Vou usar laxante no sachê da Sasha. Que trava língua do inferno ficou essa frase!!! Mas a situação deles vai ficar pior, podes crer!!!

Baba solta Victoria no chão, que entra correndo. Baba coloca o bolo sobre o balcão, olhando desconfiada pra Barbara, que puxa o banquinho e revira o armário pegando uma caixinha de chá.

BABA: - Você tá tensa. O que tá pegando? Quem é a Sasha que vai tomar chá com laxante?

BARBARA: - (IRRITADA)Faz um café pra nós? Por que estou uma pilha!!! Eu quero matar o Alex!

Baba pega a cafeteira e coloca água.

BABA: - Ah, não... Ele está traindo você?

BARBARA: - (FURIOSA)Está mentindo pra mim, acredita? Uma mulher ligou pra cá, uma tal de Sasha, dizendo que era irmã e que estava nos Estados Unidos e queria dar notícia dos filhos dele!!!

BABA: - Você tem certeza? Ele nunca falou de filhos... Nem que tinha irmã, que eu saiba ele é filho único.

BARBARA: -(FURIOSA) Claro que ele é filho único! E eu disse que era a empregada pra fazer a vadia falar. Irmã... É a mãe da ninhada dele e pelo jeito é uma ninhada, ela falou no plural!!! Ah, mas esses dois me pagam! Ela vai chegar daqui à pouco pensando que ele está em casa. A cobra vai fumar hoje. E vai fumar charuto cubano!!! ¡Bastardo, va a ver a Fidel Castro por delante de él! ¡Voy a arrancarle las tripas!

BABA: -Acho melhor eu ir embora, você tá falando espanhol, citando Fidel Castro e com uma cara estranha de quem quer praticar circuncisão com faca cega.

BARBARA: - (IRRITADA) Não!!! Você fica aqui, Baba, porque eu me conheço, vou perder a cabeça e sou capaz de matar essa vadia russa!!! O café tá aí do lado da cafeteira. Faz bem forte, porque eu quero a adrenalina extrapolada!!!



BLOCO 2:

Delegacia de Polícia - Precinto 11 - Washington D.C. - 5:43 P.M.

Uma caixa de rosquinhas sobre a mesa. Sanders entrega o café pra Krycek, que está mexendo na agenda do celular de Rockfell. Sanders senta-se e pega uma pasta. Alguns policiais na volta tomando café e comendo rosquinhas. Chambers veste o paletó.

POLICIAL #2: - Aí o valentão tatuado de dois metros de altura se ajoelhou, colocou as mãos na cabeça, começou a chorar e gritou: Eu quero a minha mãe!!!!!

Eles riem. O delegado passa por eles e pega uma rosquinha.

NORRIS: - As garotas estão se divertindo? Vão arrumar o que fazer, isso aqui não é um salão de beleza, meninas!!! O lugar de vocês é patrulhando as ruas!!! Acabou a hora de fazer as unhas e fofocar dos namorados!!!

Os policiais saem às pressas. Norris serve café.

NORRIS: -Por que os policiais vem pra sala da Homicídios quando não tem nada pra fazer?

SANDERS: - Por que somos divertidos? O café daqui é melhor?

KRYCEK: -Por que a sala do delegado é um anexo da nossa e eles amam o bom humor do delegado?

Eles riem.

NORRIS: - É, vão fazendo piadinhas, mas vou acabar com o bom humor de vocês. Acabo de sair da reunião com o Comissário Landell e a Prefeita. Gostaria de ter boas notícias, mas... A desculpa é a falta de recursos financeiros no momento. Nenhuma promoção de policial pra detetive e nenhum detetive será enviado pra cá. A não ser que peça transferência de outras delegacias. Alguém tem amigos em outras delegacias? Podem persuadi-los.

Eles param o que fazem, desanimados. Chambers se joga na cadeira. Sanders joga a pasta sobre a mesa, colocando as mãos no rosto. Krycek solta o celular de Rockfell.

KRYCEK: - Está ficando humanamente impossível. Até meses atrás, éramos uma delegacia pequena que atendia um pedaço do distrito de Washington. O serviço corria tranquilo.

CHAMBERS: - É. E agora atendemos um pedaço do distrito e uma parte da Virgínia! Nem sabemos mais quem é que nos paga, se Washington ou a Virgínia.

SANDERS: - Aumento de salário nenhum, em compensação, o aumento de serviço... Nem chefe o nosso departamento tem mais, desde que o Bob pediu transferência. Dois se aposentaram, um caiu fora... Estamos em quatro num departamento de homicídios! Isso é coisa pra maluco! O filho do Peter teve um acidente, o que aconteceu? Peter teve que trocar de turno com o Checov. Não aconteceria se tivesse mais gente aqui. Todos temos família, imprevistos acontecem...

NORRIS: - Eu sei, eu sei e eulamento rapazes, mas vocês vão ter que continuar dobrando turno e trocando escalas por amor a camiseta. A Prefeita disse que a "novidade maravilhosa" é que vamos nos mudar, porque nosso prédio é antigo e pequeno. Aí veio um arquiteto boiola falando sobre preservação histórica da cidade e criação de um museu da polícia em nosso prédio e eu quase mandei ele tomar no orifício de onde sai a merda, mas fiquei na dúvida se não era a boca! Vamos nos mudar para o prédio da antiga 19. Quem vai se responsabilizar pela nossa folha de pagamento de agora em diante é o Estado da Virgínia. Washington chutou nossos traseiros pro outro lado do Rio Potomac.

SANDERS: -Ah, eu não acredito! Me mudei da Virgínia com mulher e dois filhos pra ficar mais perto do emprego! Amanda vai me matar quando eu disser que teremos que voltar pra Virgínia!

CHAMBERS: - Então por que fecharam a 19 na Virgínia se agora vão nos mudar pra lá? Por que transferiram os caras da 19 pra todos os lugares, menos pra gente? Eles são loucos? Não se decidem? Detesto políticos! Isso aí é coisa política.

KRYCEK: - No mínimo achavam que a gente tinha pouco serviço.

NORRIS: - Porque estamos num prédio histórico, porque vamos ficar mais centralizados e sabe lá a merda que esses políticos fazem trocando favores! Eu vivi minha vida toda nesse prédio... Eu odeio a ideia de ter que sair daqui tanto quanto vocês. (SUSPIRA) E odeio mais ainda ficar inventando desculpas pra famílias sem respostas porque não tenho detetives o suficiente pra resolver os casos... Chambers, você e Peter estão com o caso Lane. Algum fato novo? O pai do garoto me liga todo o dia e não sei mais o que dizer!

CHAMBERS: - Pobre homem, ele liga pra mim também, mas até agora nada.Fomos checar uma denúncia, mas era falsa. Norris, não dá. Somos em quatro aqui dentro, turnos de doze horas, Peter e eu temos trinta casos pra investigar e Checov e Sanders tem mais uns trinta! E a gente precisa sair toda hora porque tem gente morrendo nessa cidade todo o dia! O trabalho só acumula, é gente pra interrogar, é informação pra checar e no meio disso a gente tem que dar apoio às chamadas da central quando está na rua.

NORRIS: - Eu sei disso. Já fui da homicídios. Eu precisava de mais uns quatro aqui dentro pra coisa andar. A Homicídios, a Narcóticos e a Roubos e Furtos tem que ter gente sobrando sempre. Não dá pra trabalhar no limite, menos ainda fora do limite.

CHAMBERS: - A minha mulher ontem olhou pra minha cara e perguntou: Ei, quem é você que aparece de vez em quando na minha casa? Eu disse: Como assim, sou o seu marido! Ela disse: Que marido? Eu não transo há meses! Norris, eu vou acabar perdendo a mulher pra um Ricardão menos ocupado!

Eles riem.

SANDERS: - Checov, aquele seu amigo que saiu do FBI... Ele não tem vontade de voltar a ativa?

KRYCEK: - O Mulder? Não mesmo. Ele vai pro ramo da investigação privada.

NORRIS: -E o caso de vocês, da garota assassinada a facadas?

KRYCEK: -A Rose não bate com nenhuma desaparecida na região. Ninguém deu queixa do sumiço dela. Não é fichada, checamos as digitais. Coloquei fotos dela no sistema central, incluindo uma foto da tatuagem. Talvez ela seja de outro Estado. Aí sabe, tem que ficar torcendo pra alguém se importar com ela.

SANDERS: - Estamos esperando os resultados do DNA dela e do que coletaram sob as unhas. Nem os resultados da autópsia chegaram ainda. Nem o exame das pegadas.

CHAMBERS: - Fui! Até amanhã!

O telefone toca. Sanders atende.

SANDERS: -(AO TELEFONE) Homicídios, detetive Sanders... Ah, estávamos falando em você agora mesmo, Peter... Vai se atrasar?

Chambers olha pra ele.

SANDERS: - (AO TELEFONE) ... Sério? Tudo bem, a gente dá um jeito. Melhoras pro seu filho.

Sanders desliga. Norris fica apreensivo.

SANDERS: - Foi pior do que pensávamos. O filho do Peter está passando por uma cirurgia no braço e ele não vai poder cobrir o turno do Checov.

NORRIS: - Crianças e bicicletas, combinação perigosa. Quem vai ficar com o Sanders hoje?

KRYCEK: - É o meu turno mesmo. Só preciso avisar a namorada ou ela vai ficar nervosa.

Krycek guarda o celular de Rockfell na gaveta.

CHAMBERS: - Checov, vamos fazer o seguinte. Peter é meu parceiro. Eu preciso ir pra casa, tomar um banho, comer alguma coisa, fazer uns agradinhos na esposa antes que ela procure o Ricardão. Aguenta as pontas até umas nove da noite. Eu volto e você vai pra casa, antes que a sua namorada perceba que se casar com um policial vai ser muito solitário e arrume um Ricardão também.

KRYCEK: - Vamos ser mais justos, vocês já quebraram muitas pra mim. Até meia-noite, ainda dá tempo pra você tirar um cochilo e encarar a madrugada. Depois eu vou pra casa.

CHAMBERS: - Feito. Até mais!

Chambers sai. O telefone toca. Krycek atende.

KRYCEK: - (AO TELEFONE) Homicídios, detetive Krycek... Ok, estamos indo.

Krycek desliga.

KRYCEK: - Vamos, parceiro. Tiroteio entre gangues. Três mortos. Do jeito que a coisa anda, vamos acumular casos de homicídios nessa mesa! Mais três defuntos!

SANDERS: - Deviam chamar a narcóticos, seria mais justo. Aposto que tem droga no meio.

NORRIS: - Se tem defunto, pertence a vocês! E na volta me tragam um sanduíche natural de atum com maionese light, tomate, alface dupla e nada de queijo. E sem batatinhas fritas dessa vez. Vocês querem é que o meu colesterol exploda pra se livrarem de mim!

Norris entra em sua sala, batendo a porta. Krycek tira o celular do bolso e aperta uma tecla.

KRYCEK: - (AO CELULAR) Barbara, o filho do meu colega está passando por uma cirurgia, eu vou ter que ficar no trabalho até a meia noite... Lamento, Malyshka... (SORRI) Também te amo.

Krycek desliga.

SANDERS: - Ela ficou brava?

KRYCEK: - Ela ia fazer um jantar pra nós, mas não, ela não se aborrece quando é trabalho. Ela é jornalista, sabe que nossas profissões não tem horários. E depois, também não dorme cedo, ela é coruja como eu sou. Prefere trabalhar à noite.

SANDERS: - (SORRI) Case com ela, Checov. Casar com a mulher certa faz toda a diferença. Minha esposa também entende que não tem o marido a noite toda, mas o tem pelo resto do dia. Dá pra conciliar. Quando eu chego, beijo meus garotinhos e eles já estão saindo pra escola. Dou uma atenção pra ela, depois vou dormir um pouco, almoçamos mais tarde... Ainda sobra tempo para os afazeres domésticos, brincar com os garotos... Adaptação. Funciona. Vida de policial.

KRYCEK: - Ela fica preocupada exatamente por isso. Eu e o perigo somos amantes eternos.

SANDERS: - Minha esposa também fica. Mulher de policial nunca sabe se o marido volta pra casa. Quando eu chego de manhã, Amanda respira aliviada. Por falar nisso, ela anda me cobrando que você não apareceu mais pra tomar café da manhã. Eu disse que você arrumou uma namorada. Na próxima folga, vamos fazer um churrasco lá em casa e você leva sua garota.

KRYCEK: - Combinado.


Residência de Barbara Wallace -6:11 P.M.

Baba sentada na sala de estar. Chá, café e bolo sobre a mesinha de centro. Victoria brinca com as almofadas, tirando e colocando no sofá. Barbara, irritada, caminha de um lado pra outro, com as mãos na cintura.

BABA: - Acho melhor sentar. Vai ter um treco se continuar nervosa desse jeito. Vamos ouvir a mulher primeiro. Depois você a agride.

Victoria pega a xícara e aponta pro bule de chá.

VICTORIA: - Dá "sázinho"?

BABA E BARBARA: -(EM CORO/ ASSUSTADAS) Não!!!

Victoria se assusta. Solta a xícara.

BABA: - Não pode tomar chá. É chá de adulto, chá ruim, não tem açúcar. Tá estragado!

BARBARA: - Tia Barbie tem suco. Quer suquinho?

VICTORIA: - Nah!

BARBARA: -Baba, você será minha testemunha! Quero ver aquele russo ladino alegar qualquer coisa... Ele sabe que a vadia está no país, porque me ligou dizendo que vai se atrasar pro jantar! E eu acreditando que o filho do colega dele estava no hospital mesmo... Burra! Sou burra! Nunca aprendo! Fico confiando em homem!!! Mas eu me fiz de boba, que nada tava acontecendo. Deixa ele chegar. Ah, mas meu guarda-chuva vai descer a porrada naquela ratazana cínica!!!

A campainha toca. Barbara corre pra porta. Ajeita o cabelo. Abre a porta. A Freira idosa segurando uma pasta de papel olha pra ela.

IRMÃ SASHA: - Boa tarde! Alex Krycek está? Sou a irmã Sasha.

Barbara deixa o corpo pender, numa fisionomia visível de incredulidade. Baba põe a mão na boca escondendo o riso.

BARBARA: - Ahn... Hum... Você é a "irmã"? Dele?

IRMÃ SASHA: - Somos todos irmãos, não?

Baba sai da sala pra rir. Escuta-se a gargalhada dela ao longe.

BARBARA: - Entra...

A Freira entra. Victoria olha fascinada pras roupas dela.

BARBARA: - Sente-se por favor, irmã Sasha. Eu... Eu cometi um equívoco, o Alex não está...

IRMÃ SASHA: - Oh que pena! Gostaria tanto de vê-lo pessoalmente.

BARBARA: - Mas por favor, sente-se, tome um chá... Não!!! Tome um café. O chá não ficou bom... Acho que está estragado, velho...

A Freira senta-se. Baba volta pra sala e pega o bule.

BABA: - (DEBOCHADA) Acho melhor levar isso pra cozinha e jogar fora, antes que dê problema...

BARBARA: -(CONSTRANGIDA) Então... Ahn... A senhora está de passagem?

IRMÃ SASHA: - Sim, viemos de Moscou para um congresso. Que garotinha linda, é sua?

BARBARA: - Ah não, Victoria não é minha filha. É da minha vizinha. Mas é como se fosse.

A Freira se inclina pra Victoria, passando a mão na cabeça dela. Victoria sorri. Baba entra.

BABA: - Muito prazer, irmã. Sou a babá da garotinha.

Elas sentam. Victoria puxa o hábito da freira, curiosa.

BABA: - Ei, mocinha, não pode tocar nas pessoas sem a permissão delas.

IRMÃ SASHA: - Ah, ela só está curiosa.

BABA: - É, ela nunca viu uma freira.

IRMÃ SASHA: - Vocês são católicas?

BABA: - Eu não. Mas a mãe dela é.

BARBARA: - Eu sou também. Só não sabia que Alex era.

IRMÃ SASHA: - A mãe dele era, ele me contou. Alex é um bom homem, mas está perdido na fé. A última vez que conversamos sobre isso, há uns dois anos atrás, em Moscou, ele me disse que já havia visto tanta coisa que não podia mais acreditar em Deus. E que se Deus existisse, ele já fez tanta coisa ruim que Deus nunca o perdoaria. Você é a empregada dele?

BARBARA: - (CULPADA) Desculpe por mentir. Sou a namorada. É que... Deixa pra lá.

IRMÃ SASHA: - Fico feliz que Alex esteja namorando. Pensam em casar, constituir uma família?

BARBARA: - É...Irmã, estou curiosa. Qual sua relação com Alex? A senhora falou de crianças, filhos dele...

IRMÃ SASHA: - (SORRI) Não sabe? Não me surpreende. Fiquei uns bons três anos tentando agradecê-lo, até que ele resolveu me procurar. Ele prefere o anonimato, mas sempre os cheques são assinados. Eu quero que o agradeça por mim, novamente. Em meu nome e no nome das crianças do Orfanato de San Peter.

BARBARA: - (SURPRESA) Ele ajuda...

IRMÃ SASHA: - Sim, todos os anos ele nos envia ajuda financeira, faz mais de vinte anos. Graças a ele, nossas crianças podem ter uma vida mais confortável, enquanto esperam adoção, que sabemos, nunca é fácil. Alex é como um pai pra elas. Eu costumo dizer que ele tem duzentos filhos. Alex sabe o que é ser uma criança de rua. Ele nunca esqueceu disso, então ajuda o quanto pode. Entregue essa pasta pra ele. Cada uma delas fez questão de mandar um desenho, um recado, um poema...

Barbara pega a pasta e derruba lágrimas, com vergonha. Baba suspira.

BABA: - Ela pensou outra coisa, Irmã. Acho que entendeu.

BARBARA: - Desculpe, Irmã, eu não sabia mesmo que Alex fazia esse tipo de coisa. Nunca imaginei...

IRMÃ SASHA: - Não saiba a mão esquerda o que faz a direita. Ele é assim. Não sei com o que trabalha, mas agradeço que disponha dos recursos dele para ajudar as crianças. Não vou mais tomar o tempo de vocês. Preciso pegar o avião pra Moscou.

BARBARA: - Agradeço que tenha vindo.

IRMÃ SASHA: - Agradeço que ele tenha encontrado você. A mulher ergue o homem. Talvez ele encontre a sua fé novamente. Porque Deus olha pra quem faz caridade. Foi um prazer conhecê-las. Tchau garotinha!

Victoria acena pra ela. Barbara abre a porta e a Freira sai. Barbara fecha a porta e se escora nela.

BARBARA: - Nunca ia imaginar! Dei uma de Scully ciumenta, meti os pés pelas mãos! (PÕE AS MÃOS NO ROSTO) Meu Deus, eu ia servir chá com laxante pra uma freira!!! Eu sou doente!!!

BABA: -Bom, pelo menos agora, você sabe que ele tem duzentos filhos. É uma ninhada boa pra um rato!

As duas riem.


Hotel Ritz - 8:22 P.M.

Coin abre a porta. Parado ali outro igual a ele, mais casual de jeans e camiseta, num sorriso debochado.

THE GOLD COIN: -Sem tempo pra piadas, Almirante. Entre e feche a porta.

LEVIATHAN: - Ok, Johnny boy. Você manda!

Coin vai até o bar e pega uma garrafinha de uísque, servindo num copo.O louro alto entra e fecha a porta. Os cabelos compridos, usando brincos, barba, jeans e camiseta justos, tatuagens nos braços. Coloca as mãos na cintura. Coin acende um cigarro.

LEVIATHAN: - O que tá pegando, Lúcifer? Vou ter que comer a vadia da Diana Fowley novamente, me passando por você? Estou começando a gostar dessas missões, já que você não é chegado na coisa...

THE GOLD COIN: - Dessa vez não, Leviathan. Aqueles baba ovos da Ordem fizeram um ritual de sangue me invocando.

LEVIATHAN: -(DEBOCHADO) Com direito a pentagrama, cruz invertida, um bode ou quem sabe aquelas oferendas com charutos e galinhas? Boooo!!! E aí você apareceu no meio do fogo, todo vermelho, feio e assustador, com seus chifres enormes e bestiais, aquele rabinho com ponta de seta, batendo um tridente no chão e dizendo com voz grossa: (ENGROSSA A VOZ) Quem ousa perturbar as trevas e o descanso de Satanás?

Leviathan se revira de rir. Coin o encara sério, tragando o cigarro.

LEVIATHAN: - (RINDO)Ah, não esqueça da capa vermelha! A capa vermelha é fundamental, causa o maior impacto!

THE GOLD COIN: - (SOPRA A FUMAÇA/ SÉRIO) Quer parar de besteira, Almirante? O assunto é sério! E eu detesto que me chamem assim!

LEVIATHAN: - (RINDO) Ah, mas é engraçado, General, fala sério!

THE GOLD COIN: - Engraçado porque não é com você!Não acho nada engraçado. Acho de uma ignorância enorme e completamente surreal, medonho e de muito mal gosto. E feio é a mãe deles, eu sou lindo. Mas é melhor que essa macacada estúpida permaneça na ignorância. O medo do desconhecido é a melhor arma.

LEVIATHAN: -O que eles querem dessa vez? Mais poder e dinheiro?

Leviathan abre o frigobar e pega uma garrafa de cerveja. Atira-se na poltrona.

THE GOLD COIN: - Querem matar Mulder e amigos. E pegar a menina. (INCRÉDULO) Vai beber essa porcaria de Detroit? Tem uísque escocês aí dentro!

LEVIATHAN: - Prefiro cerveja. Está falando de Victoria Mulder? Aquela aberração que o Tirano protege?

THE GOLD COIN: - Exato. Se protegem, algum motivo tem. E enquanto não soubermos o motivo, o melhor é fingir que não estamos atentos. E esses idiotas vão chamar a atenção de Sião pra cima de nós quando a pegarem. Eu não quero sujar meu Valentino com sangue de Gabriel e companhia. A coisa pode feder e não nos interessa atrito com Sião neste momento, nem com o Tirano e as hostes Dele.

LEVIATHAN: - Ah vaidoso e orgulhoso Lúcifer! O que quer fazer, irmão? Vamos tirar o doce da boca dos satanistas?

THE GOLD COIN: - E desde quando eu me importo com fã-clube? Deixemos aqueles paspalhões venerarem o diabo em que acreditam! Servem aos nossos propósitos.

Coin senta-se na outra poltrona e cruza as pernas.

THE GOLD COIN: - Vamos ter que fazer algo que não fazemos. Bancar anjos da guarda. Vamos nos revezar ficando de olho na menina, nenhum deles pode pegá-la, seja a Ordem dos Treze ou o Sindicato das Sombras. Não enquanto não soubermos o que ela é. Não vamos arriscar que ela seja um parente distante e eles tenham acesso ao nosso DNA.

LEVIATHAN: - Nosso DNA não difere do deles, General. A diferença entre nós e eles é que os humanos tem genes adormecidos no DNA. Nisso tenho que admitir que o Tirano foi precavido.

THE GOLD COIN: - É, mas se eles tiverem acesso ao nosso DNA verão as diferenças e vão ficar bem curiosos pra acordar esses genes. Seria uma mácula com a nossa espécie! E um inferno de verdade com o que fariam tendo capacidades angelicais. Alguém tem que impor limites a criatividade dessa macacada. Não quero concorrência!

LEVIATHAN: - Lúcifer, pegue essa criança. Nós temos nossos geneticistas que podem descobrir!

THE GOLD COIN: - Como você é impulsivo, Almirante! Eu sei, mas você pensou na possibilidade de Sião descer em peso na hora em que fizermos isso? Miguel está lá em cima naquela nave doidinho pra descer aqui, fazendo contagem regressiva.

LEVIATHAN: - E eu estou doidinho pra chutar traseiros angelicais. Está com medinho deles, General?

THE GOLD COIN: - Eu não tenho medo deles! Eu os ensinei a lutarem, eu os vi crescerem, eu sou o irmão mais velho de todos vocês, mas aqueles irmãos traidores ficaram ao lado do nosso pai. A questão é que você acha que já estamos preparados para revidar. Estamos longe disso, isolados nesse maldito planeta sem recursos que nos interessam agora. A única alternativa é ter paciência e esperar que os ilegais entrem aqui e nos tragam o que precisamos. E as fronteiras desse planeta estão ficando terrivelmente vigiadas. E eu nem comecei a me divertir aqui ainda. A macacada agora é que começou a se ferrar com o conhecimento que lhes demos. Vou jogar todo o trabalho de milhões de anos fora?

LEVIATHAN: - Entendo seu ponto de vista. Mas e se ela não passa de uma macaquinha? Hum? Estaremos preocupados à toa! Lúcifer, pensa comigo, nenhum anjo nasce bebê, nós já nascemos adultos! E não existem "anjas", entendeu? Ela não pode ser um de nós!

THE GOLD COIN: - Eu sei que nascemos adultos, que não existem anjas, mas ela tem alguma coisa de nós, isso é muito óbvio. E quero saber até aonde vão as capacidades dela. Não sabemos a intenção deles em permitir o nascimento dessa coisinha. Eu prefiro me preocupar à toa que arriscar perder soldados e essa guerra. Esqueceu por que estamos aqui? Esqueceu da nossa causa? Quer arriscar tudo por uma fedelha? Seja paciente. A verdade virá à tona algum dia.

LEVIATHAN: - Você é o nosso líder, nosso velho general, você dá as ordens. Discordo dos seus métodos, embora eu seja o segundo em comando. E você sabe que paciência não é o meu nome. Meu nome é guerra e sangue. Por mim já tinha pego esse filhote e arrancado as penas rapidinho pra ver se pertence a família.

THE GOLD COIN: - Paciência e prudência, Leviathan. Somos eternos, temos o tempo a nosso favor. Impulsividade nunca ganhou guerras. Planejamento e tática sim.

LEVIATHAN: - Quer que eu agilize a matança promovida pela Ordem? Posso soprar ódio nos ouvidos dos matadores, manter as balas nas trajetórias corretas...

THE GOLD COIN: - Não. Fique fora disso. Não é assunto nosso. É do Sindicato. Temos coisas mais importantes para nos preocuparmos que com uma dúzia de macacos mortos e além disso não sabemos quantos queridinhos do Tirano existem entre eles, além de Mulder e Scully. Sabe que se tocarmos nos que não são nossos, perdemos a razão dessa guerra diante do multiverso! E aí sim, as civilizações que nos apoiam vão virar as costas, pararem de trazer nosso contrabando e tudo o que não queremos é dar razão ao Tirano. O que vamos fazer é: você vai se revezar comigo para cuidar da menina. E pode agir se eles a pegarem. Seja anjo, ok? Não apareça, permaneça invisível pra não chamar a atenção desnecessária. E não toque na menina, nem se revele pra ela. Não seja imprudente, entendeu?

LEVIATHAN: - Espero que a peguem. Ando maluco por um pouco de ação!

THE GOLD COIN: - Controle seus impulsos, Almirante. É uma ordem.


Penitenciária de Rockville - Maryland - 12:39 A.M.

A van da lavanderia sai rapidamente da prisão.

Dentro da van, nove homens sentados e cabisbaixos. Um deles tem a mão enfaixada. A janela que separa o motorista da parte de trás da van se abre. A mão se estende com um papel.

HOMEM DO SINDICATO: - Aqui está a lista dos alvos. Vamos deixá-los no hotel, troquem de roupa. Encontrarão armas e munição. Não machuquem a criança. Queremos a menina viva. Quando terminarem o serviço, terão o dinheiro e facilitaremos a fuga do país. O governo americano quer se redimir com vocês.


Residência de Barbara Wallace - 1:01 A.M.

Krycek entra pela porta dos fundos, carregando uma mochila e a sacola de presente. Pendura as chaves do carro.

KRYCEK: - Malyshka?

Nenhuma resposta. Krycek vai pra sala. Sobe as escadas. Abre a porta do quarto. O abajur ligado. Barbara dorme nua, de bruços na cama. Ele sorri. Larga a mochila e a sacola. Apaga a luz do abajur e vai pro banheiro.


Apartamento de Skinner - 1:20 A.M.

O telefone toca. Skinner, se acorda e acende o abajur. Ellen se acorda. Skinner atende, sonolento.

SKINNER: - (AO TELEFONE) Skinner... Sim, Kersh, o que houve?

Ellen senta-se na cama, preocupada.

SKINNER: - (AO TELEFONE/ NERVOSO) Aconteceu agora? ... Quantos caras? ... Como aconteceu isso? ... Tá, eu vou agora para o Bureau, vou mandar agentes e vou emitir um comunicado urgente pra imprensa e as delegacias da região... Ok, mantenha-me informado.

Skinner desliga e senta-se na cama.

ELLEN: - O que aconteceu, Walter?

SKINNER: - Uma fuga em massa da penitenciária de Rockville. Nove assassinos escaparam.

ELLEN: - A polícia local não pode resolver?

SKINNER: - Estão bloqueando as estradas, mas o problema é federal, Ellen. Os caras são mercenários, matadores profissionais, ex-agentes da CIA, fichas quilométricas... Como deixaram esses caras escaparem de uma prisão federal? Eles ficam separados dos demais, sabe como é, foram agentes um dia e agora vão cumprir pena perpétua... São perigosos demais pra estarem soltos.

Skinner se levanta.

SKINNER: - Vou pro FBI. Aproveite seu sono. Eu te ligo de manhã.

ELLEN: - Tadinho do meu Girafão... Nem pode dormir em paz.

SKINNER: - Vida de policial, Ellen. Eu sabia quando entrei nisso. Agora entende porque Scully e Mulder caíram fora...

ELLEN: - A vagabundagem não dá descanso mesmo! E de noite então, parece que os gatos todos resolvem aprontar! Se cuida, amor, por favor.

Os dois trocam um beijo. Skinner vai pro banheiro. Ellen se deita novamente.


Residência de Barbara Wallace - 1:21 A.M.

O quarto na penumbra. Krycek, cabelos molhados, sem roupas, enfia-se embaixo do lençol. Observa Barbara nua, dormindo de bruços. Vira-se, levando a mão entre os cabelos dela. Aproxima o rosto e acaricia os cabelos dela com o nariz, aspirando o perfume dos fios. Barbara sorri de olhos fechados.

BARBARA: - Hum... Ratoncito... Eu peguei no sono esperando você pra jantar...

Krycek desce a mão pelo corpo de Barbara, pressionando os dedos na pele macia. Escorrega o corpo pelo lençol. Percorre os lábios semiabertos pelas costas dela, beija-lhe a tatuagem na lombar, subindo até a nuca, mordiscando-a enquanto agarra-lhe o seio suavemente, esfregando seu corpo contra o dela.

KRYCEK: - (MURMURA)E se não fosse eu?

BARBARA: - (MURMURA) Quem mais seria? Conheço seus lábios e o seu toque até no escuro...

Barbara revida o jogo, esfregando o bumbum contra ele.

KRYCEK: - (MURMURA/ SORRI) Amor, não me tenta...

Ele desce a mão entre as pernas dela, olhando pra ela. Barbara olha pra ele, mordendo os lábios.

BARBARA: - (SUSSURRA) Hum... Gosto disso... Você não precisa de muito esforço pra me excitar... Sua voz já me arrepia...

KRYCEK: - (MURMURA NO OUVIDO DELA) Ya khochu tebya, Malyshka. (Eu quero você, Baby).

BARBARA: - (SORRI/ MURMURA/ OLHOS FECHADOS) ... Agora arrepiei mais ainda, Ratoncito... Tendi nada, mas eu me arrepio todinha quando você fala russo! Hummm... Gosto do seu toque...

Krycek vira-se sobre ela, olhando-a nos olhos. Barbara olha pra ele. Krycek leva os lábios aos lábios dela, roçando-os, ora ameaçando um beijo, ora levando a língua e recuando sem beijá-la e sem desviar o olhar dos olhos dela. O coração dela bate mais forte, olhar de expectativa no jogo que ele inicia. Krycek dá um sorriso meigo, apaixonado, exalando paz e felicidade que ela desconhecia. Barbara sorri, revira os olhos e os fecha.

BARBARA: - (MURMURA)Así me torturas encontrando felicidad que no conocía en tu sonrisa...

KRYCEK: - (MURMURA/ SORRINDO) Entendi nada também, mas acho que você está gostando...

Ele leva a mão empurrando a franja dela pra cima, olhando apaixonado e admirando a mulher diante dele. Então aproxima novamente os lábios, num beijo suave que a faz sentir desaparecer no colchão e entre os braços dele. Krycek leva a mão ao seio dela, brincando com o polegar no mamilo. Barbara roça as pernas nas pernas dele, já enlouquecendo de expectativa. Ele começa a brincar com os lábios e a língua nos seios dela. Barbara envolve as mãos entre os cabelos molhados dele, virando o rosto no travesseiro. Ele desce, envolvendo os braços nas coxas dela, a erguendo e levando os lábios entre as pernas de Barbara, que agarra o travesseiro e revira o corpo em prazer.

BARBARA: - (MURMURA/ OFEGANTE) ¡Dios mío! Sí! Me vuelves loca, Ratoncito!!!

Ele continua brincando com a língua e os lábios entre as pernas dela. Barbara se contorce em agonia e êxtase.

BARBARA: - (MURMURA/ OFEGANTE) Para! Para!No puedo soportarlo más!Te quiero ahora!!!

Krycek sobe os lábios pelo corpo dela. Barbara envolve os braços nele. Sente o coração dele disparado, a respiração tensa, o desejo incontido.

KRYCEK: - (SUSSURRA NO OUVIDO DELA) Ty svodish' menya s uma... (Você me deixa louco.)

Os dois trocam um beijo faminto. Krycek recosta o rosto entre o ombro e o pescoço dela, a respiração irregular e intensa. Barbara segura-se nos ombros dele.

BARBARA: - (OFEGANTE) Uououou!!! Ai, minha nossa... Hum... Isso é bom...

Krycek move-se contra ela. Dois corpos quentes, ritmados, corações em batimentos rápidos. Ambos inebriados, lábios abertos, ofegando um contra o rosto do outro. Ele se ergue, apoiando as mãos no colchão, movendo-se ora mais rápido, ora mais lento. Barbara segura-se nos pulsos dele, gemendo de prazer a cada movimento do corpo dele contra o dela.

BARBARA: - (OFEGANTE)No sé qué te pasó hoy... ¡Pero me encanta!

Barbara se contorce, revira os cabelos. Ele a ergue pelas pernas, mantendo as pernas dela contra seu peito suado, apoiadas em seus ombros. Ela geme mais alto, o sentido mais fundo e afoito dentro dela, percebendo o suor dele escorrer pelo rosto. Barbara agarra-se nos lençóis, mas seu corpo sobe e desce resvalando no tecido. Ela por fim solta um murmúrio de êxtase total. Ele, diminui o ritmo, visivelmente se segurando. Ela desce as pernas, empurrando ele para o lado. Ele cai no colchão, olhando pra ela em expectativa. Ela senta-se sobre ele e solta um gemido. Ele ergue as mãos, eles enlaçam os dedos. Ela mantém o corpo subindo e descendo, apoiada com as mãos nas mãos dele. Depois solta as mãos, revirando os cabelos, gemendo, mordendo os lábios e movendo os quadris pra frente e pra trás, olhando pra ele que está inebriado de prazer a observando, enquanto leva as mãos e segura-lhe os seios. Barbara passa as unhas suavemente sobre a barriga dele. Inclina-se, beijando e acariciando o peito de Krycek, mordiscando os músculos com desejo no olhar. Ele desce as mãos agarrando o bumbum dela, ajudando-a a se mexer em cima dele. Ela aumenta o ritmo.

Barbara reclina o corpo pra trás, soltando um "oh" incontido, apoiando as mãos nas pernas dele e agora movendo-se suavemente. Krycek se ergue, segura os cabelos dela. Narinas dilatadas, cheiros e suores misturados, ele mordisca o pescoço dela sentindo seu gosto, deixando-a enlouquecida, com sua língua macia e quente. Ela o sente cada vez mais profundo dentro de si, mais quente e mais forte, sedento, então arranha suas costas e geme seu nome.

É tudo que ela quer, é tudo que ele quer. É tudo o que eles precisam.



BLOCO 3:

2:44 A.M.

Na cama, Barbara faz carinhos nos cabelos de Krycek, que está com a cabeça recostada nos seios dela, passando a ponta dos dedos em carícias.

KRYCEK: - Já falei que você tem seios lindos?

BARBARA: -(SORRI BOBA) Acha mesmo, Ratoncito?

KRYCEK: -Sim. Você é toda linda, Malyshka... Perfeita... Cheirosa... Sensual...

BARBARA: - Russos gostam de peitos? Porque nesse país de peitões, eu já percebi que os americanos gostam mesmo é de bunda, assim como os homens latinos.

KRYCEK: - (RINDO) Homens russos gostam de peitos, que são uma exclusividade feminina. Americano já gosta de bunda, algo bem mais generalizado, acho que me entende...

BARBARA: -(RINDO) Entendi, russos são machos, americanos são boiolas! Ô briga eterna! ... Amor, eu tô começando a entender melhor sua cultura. E já notei que você sempre me dá flores em números ímpares. Isso é cultural também?

KRYCEK: - Russos adoram dar flores pras mulheres. Mas dar flores pra alguém em número par é apenas em funerais ou cemitérios, sempre devem ser dadas aos vivos em número ímpar. Russos são supersticiosos... E machistas, Malyshka. O único problema é que no fundo, todo russo se acha machão, mas quem manda numa casa russa é a mulher.

BARBARA: - (RINDO) Ah!Muito bom saber disso, Alex Krycek!

KRYCEK: - E também admito que a sua bundinha me fascina.

Barbara ri alto. Ele ri com ela.

KRYCEK: - Eu adoro suas tatuagens. Lugares estratégicos...

BARBARA: - (SORRI) Hum... Você ia ficar bem com tatuagem. Por que não faz uma? Se for escrever algo, ficaria legal em cirílico.

KRYCEK: - Nunca tive coragem, posso me arrepender depois. Uma vez fiz uma tribal de henna na parte interna do braço, só pra ver se ficava legal. Até ficou.

BARBARA: - Hum, tribal nesse braço... Eu morderia esses músculos todinhos... Já tô querendo morder...

Ela dá uma mordiscada no músculo do braço dele. Krycek ri. Ela se ajeita na cama e passa o dedo por sobre o nariz dele.

BARBARA: - Meu narizinho arrebitado... Como se diz eu te amo em russo?

KRYCEK: - Ya lyublyu tebya.

BARBARA: - Tento ou corro o risco de enrolar a língua e engasgar?

KRYCEK: - (RINDO) Ya...

BARBARA: - Ya...

KRYCEK: -Lyublyu...

BARBARA: -Lyublyu...

KRYCEK: - Tebya.

BARBARA: - Tebya... Ya liubli... Lubi...Jesus, não tô pronta pra falar russo ainda!

KRYCEK: - (RINDO)Lyublyu! Lyu... Blyu. Separa que fica mais fácil.

BARBARA: -Espera... Ya lyu...blyu tebya.

KRYCEK: -Pronto! Viu como é fácil?

BARBARA: - Ya lyublyu tebya, Alex Krycek... Nossa, como soa lindo!

KRYCEK: - E como fala eu te amo em espanhol?

BARBARA: - Yo te amo.

KRYCEK: - Esse "yo" parece meu "ya"... Yo... te amo... Yo te amo, Barbara Wallace.

BARBARA: - Viu como espanhol é bem mais fácil?

KRYCEK: - É, parece fácil, mas quando você fala com sua família pelo telefone eu juro que penso que está xingando todos eles. Vocês gritam mais que russos assistindo uma partida de futebol. Falam rápido demais. Consigo escutar até sua mãe do outro lado da linha.

BARBARA: - (RINDO) Somos um povo passional. Fala sério que você adora futebol, Ratoncito?

KRYCEK: - Claro. Não conheço russo que não pire com futebol. Aquele com o pé, né? Vocês latinos também curtem. Não essa guerra americana com um bando de machos sarados e suados, uns se atirando em cima dos outros. Olha, juro pra você que mesmo depois de tantos anos nesse país, eu ainda não entendo as regras desse jogo pra fresco!

Barbara ri alto.

BARBARA: - É amor, acho que você tem razão sobre os americanos... E o seu dia? Foi difícil? O filho do seu colega está bem?

KRYCEK: - Está em repouso, a cirurgia deu certo. Queda de bicicleta numa ladeira, o moleque podia ter batido a cabeça, nem estava usando capacete... O trabalho é que está demais, os caras inventam coisa e só ferram com a gente. Vamos continuar dobrando turno e ainda querem nos transferir pra uma delegacia aqui na Virgínia. Uma delegacia que já tinham fechado. Uma pilha de assassinatos pra resolver e não damos conta. E um assassinato que está me incomodando. O da Rose...Ah, deixa pra lá, não quero falar nisso. Tô aborrecido mesmo.

BARBARA: -Quem sabe eu faço uma matéria sobre o assunto, assim, como uma repórter xereta? Que sem querer descobriu que casos de homicídios não estão sendo resolvidos por falta de pessoal? Hum? Rapidinho a opinião pública cai em cima da prefeitura. Logicamente você, a minha fonte eterna de informações, vai ficar no anonimato.

KRYCEK: - (SORRI) Gosto da ideia... Gosto de ser sua fonte de informações.

BARBARA: - Aposto que só comeu porcaria.Deixei seu jantar no microondas.

KRYCEK: - Nem tô com fome, Malyshka. Vamos compensar no almoço, tá? Tem berinjelas? Eu faço aquele ratatouille que você adora.

BARBARA: - Por enquanto serve o Ratoncito mesmo...

Os dois se beijam. Ficam deitados um ao lado do outro.

BARBARA: - Alguém esteve aqui procurando você. A Irmã Sasha. Queria agradecer e seus filhos mandaram uma pasta com vários desenhos e mensagens. Eu estou curiosa pra ver!

KRYCEK: - O que ela faz aqui? Como descobriu você?

BARBARA: - Ah, ela veio pra um congresso e ligou pra deixar recado e... Eu a convidei pra um chá. Por que nunca me falou que ajudava crianças de um orfanato de Moscou?

KRYCEK: - Não acho que seja coisa pra falar...

BARBARA: - Ratoncito, entendo que não goste de falar, mas puxa vida, eu sou sua namorada, pelo menos eu preciso saber das coisas que você faz... Todas, de preferência.

KRYCEK: - (DESCONFIADO) Aposto que pensou que era alguma mulher reclamando de pensão! Não foi?

Barbara disfarça, erguendo o olhar, querendo sumir no travesseiro. Krycek começa a rir.

KRYCEK: - Malyshka... Sossega esse coração, garota. Você sabe tudo sobre mim, eu já contei toda a minha vida pra você, incluindo as partes mais terríveis, ok? Eu não escondo nada de você, nem meu pior lado e você sabe disso. (SORRI) Me dá essa mãozinha linda aqui.

Krycek vira-se pra ela. Barbara vira-se pra ele. Krycek pega a mão dela, beija e coloca sobre o coração. Aperta a mão dela contra seu peito.

KRYCEK: - Por sua causa, esse coração aqui voltou a bater novamente. Então é aqui dentro que eu guardo você. Onde ninguém vai poder tirar você de mim.

Ela faz uma fisionomia de quase choro. Ele dá um sorriso achando a reação dela engraçada.

BARBARA: - Ai Ratoncito, adoro quando diz coisas bonitas. Eu me derreto! Sou uma romântica incurável!

Krycek sorri, passando a mão no rosto dela. Ela segura a mão dele e beija.

BARBARA: - Senti tanto orgulho de você hoje, Alex. Você devolve ao universo aquilo que não recebeu. Isso é uma atitude nobre, sabia?

KRYCEK: -Não existe nobreza em doar dinheiro sujo. Só espero que nenhum deles cresça e tenha que ir pelo mesmo caminho que eu fui. Só isso que eu espero. Que sejam homens e mulheres decentes, estudem e tenham uma chance na vida, bem longe das ruas.

BARBARA: - (SORRI) É... Não é nobre... Sei... É o mesmo orfanato onde você e Karel viveram por um tempo?

KRYCEK: - É. Só que agora não pertence mais ao governo russo, as freiras tomaram conta. Agora é um lar, tudo limpo e organizado, eles estudam, brincam, se alimentam direito, existe alegria dentro daquelas paredes. Não é mais um lugar de fome, violência, trabalho forçado, abuso infantil e tristeza. Cadê a pasta? Estou curioso.

Ela pula da cama e pega a pasta. Os dois sentam-se na cama. Krycek abre a pasta.

BARBARA: - (SORRI) Uma foto! É a irmã Sacha no centro. São todos eles?

KRYCEK: - (SORRI) São. Em frente ao orfanato... Gostei da pintura. Parece uma escolinha, não um orfanato. Tem borboletas, flores... Elas fizeram quartos menores, pra acomodarem menos crianças juntas, assim elas têm uma sensação de família e irmãos, noções de organização, privacidade e podem ter suas próprias coisas e brinquedos... Olha a cara desse aqui, deve ser o pesadelo das freiras! Esse não me engana, ele tem cara de moleque. Vai dar o que fazer!

BARBARA: - (RINDO)Pena que não entendo russo. Mas pelo desenho de coração e amigos na volta, ele parece estar bem feliz...

KRYCEK: - É ela. Uma menina. Svetlana.

BARBARA: - (EMPOLGADA) Que nome lindo pra uma filha! Svetlana Kry... Esquece.

Krycek olha pra ela e segura o riso. Barbara assovia, disfarçando.

KRYCEK: - Svetlana diz aqui: Obrigada por existir, tio Krycek... Ok! Não quero ler, Malyshka, eu não tô a fim de chorar hoje, nem lembrar do passado. Só vou ver os desenhos... Olha, essa é criativa, acho que é a irmã Sasha que tentou tocar o sino, mas por ser leve e pequena acabou pendurada na corda gritando por socorro...

Os dois riem. Barbara pega a foto.

BARBARA: - São todas órfãs como você?

KRYCEK: - Algumas são crianças refugiadas, perderam os pais nesses conflitos que ainda existem em algumas partes da extinta União Soviética. Outros são filhos de quem não os quis.

BARBARA: -(ENCHE OS OLHOS DE LÁGRIMAS) Como alguém pode não querer um filho? Olha pra carinha deles! Coisinhas mais lindas, dá vontade de apertar e encher de beijo e de amor!

Krycek olha pra ela num sorriso. Barbara seca as lágrimas.

KRYCEK: - É... Você tem vocação pra ser mãe. Acho melhor olhar isso amanhã ou você vai chorar a noite toda e eu vou me lembrar de coisas tristes do passado que não quero mais lembrar.

Krycek fecha a pasta e coloca no criado mudo. Barbara se recosta nele. Krycek a abraça.

BARBARA: - Amor, quando ligo pra delegacia, seus colegas gritam por "Checov". Por que eles ainda chamam você assim? Eles não sabem seu nome verdadeiro?

KRYCEK: -Sabem, mas me conheceram como Checov, virou apelido... E como foi o seu dia? Você não falou do seu dia, além do chá com a Irmã e a dor de cabeça por achar que eu sou um irresponsável cheio de filhos perdidos por aí. (RINDO) Duzentos filhos? Da onde um cara poderia ter duzentos filhos? Olha a idade daquelas crianças, eu teria que passar quase um ano sem fazer nada, só fazendo filho, um por dia! Quer me matar? Malyshka, você é doida de pedra! Eu sou um homem, rato é apenas apelido, e não é por causa de ninhada não! Eu não tô com essa bola toda!

BARBARA: -Hum... Discordo veementemente que você não tá com essa bola toda, Alex Krycek. Você é um amante incrível e estou descobrindo isso aos poucos... Você esconde o jogo.

KRYCEK: - Eu não escondo nada... Você sabe como provocar um homem, garota. Você é linda e transpira sensualidade. Não dá pra ignorar, eu não sou de ferro!

BARBARA: - Você esconde o jogo sim, não me enrola, você é quente como o inferno, eu bem desconfiava disso. Aí me pega de surpresa e me deixa embasbacada, mas tudo bem, deixa pra lá, adoro surpresas desse tipo. Me surpreenda sempre. Bom, hoje eu falei com a J-Lo...

KRYCEK: - Conhece a Jennifer Lopez?

BARBARA: - Não, mas eu sou fã e converso com ela enquanto ela canta no rádio meus dramas emocionais...

Krycek começa a rir.

KRYCEK: - Você é maluca, Barbara! Completamente insana. E eu adoro isso!

BARBARA: - E comprei o sofá. Daqueles de canto, bem grande, cabe todos nossos amigos sentados... Achei um marceneiro que vai fazer um barzinho legal... Tá ficando a casa dos meus sonhos. Só falta você dentro dela.

KRYCEK: - Malyshka, eu trouxe algumas roupas. Vamos com calma. Não que eu esteja duvidando de nós dois. É apenas "vamos levando pra ver como fica". Estou aqui, não estou? Tenho ficado mais aqui que no meu buraco.

BARBARA: - Tá, não quero pressionar você. Somos namorados. Ainda não fomos para o próximo estágio... (SORRI) Você me faz feliz, Ratoncito. Quando eu te vi a primeira vez, sabia que era você. Eu ia tentar tudo pra chamar sua atenção. Não quero acordar desse sonho. Ele é lindo demais.

KRYCEK: - Esse sonho tem suas partes ruins, mas não deixa de ser um sonho. É meu também. Penso em você o tempo inteiro... Quero estar com você o tempo inteiro. Sou apenas um homem complicado.

BARBARA: - Vou descomplicar você, Alex Krycek.

Barbara se vira sobre ele. Mordisca o ombro dele.

KRYCEK: - Eu já fico feliz se você me transportar para fora desse mundo por alguns momentos. Você é a única pessoa que consegue fazer isso. Você me oferece uma vida melhor, você me faz querer ser melhor e me sinto importante pra alguém pela primeira vez na vida. Garota, eu consigo rir com você. Sabe o que é isso? Eu já havia me esquecido do que é sorrir, do que é amar, do que é ter alguém além de mim dentro de uma casa, do que é ter uma casa, um lar, fazer planos bobos, se divertir e sonhar, dividir uma refeição e uma cama pra dormir. A última vez que fiz todas essas coisas foi quando era apenas uma criança, antes do meu pai morrer. Eu só estou reagindo porque você me faz querer viver. Saiba que se não fosse você, eu já teria metido uma bala na cabeça pela culpa que sinto das merdas que eu fiz na vida. Me desculpe se tudo o que consigo dizer é "vamos com calma".

BARBARA: - A vida machucou você tanto, Alex, que você nem percebe que as palavras sinceras que diz são mais belas do que uma frase feita como "eu te amo".

Barbara coloca a mão sobre o coração dele.

BARBARA: - Eu moro aí, não é? Então eu vou curar você, meu amor. Eu vou curar esse coração. Você vai voltar a ser aquele menino cheio de sonhos, que morreu quando perdeu a família e foi jogado num orfanato e depois nas ruas. Não existe mais maldade. Não existe mais Sindicato. Nem comunismo. Não existe mais apenas o serviço sujo pra você. As portas se abriram para escolhas. Você quebrou o círculo quando se humilhou e pediu perdão ao Mulder e se juntou à causa dele, mesmo que por vingança contra aqueles homens. Você decidiu lutar do lado certo, a batalha certa. Você pode escolher a vida que quiser agora. Não precisa mais aceitar migalhas pra sobreviver. Apenas continue escolhendo.

KRYCEK: - Eu escolho você e esse lado da luta. Eu acredito em você, Barbara. Só não acredito em mim.

BARBARA: - Tem dúvidas se realmente me ama?

KRYCEK: - Eu amo você. Tenho dúvidas se você vai ter o Alex Krycek por muito tempo.

Ela percorre a mão em carícias pelo peito dele.

BARBARA: - Ele pensa em fugir? Em desistir?

KRYCEK: - Não. Ele pensa que é um homem que sabe demais e está marcado pra morrer. E sabe que pode acabar com o sonho dela e fazê-la sofrer a qualquer momento. E isso é tudo o que ele não quer.

BARBARA: - A vida é incerta, Alex Krycek. Posso sair amanhã e ser atropelada. Aí quem vai sofrer será você. Entende? Vale mais viver os momentos que temos do que pensar nos momentos que podemos não ter. Ninguém sabe quando vai morrer. Eu já disse pra você, hermoso. Quando achar que não consegue mais viver nesse país, eu pego as minhas coisas e vou embora com você, pra qualquer parte do mundo. Nem que tenha que viver às escondidas. Se você estiver lá, eu serei feliz. Volto até pra Cuba se você quiser ir comigo.

Barbara desce a mão entre as pernas dele.

KRYCEK: - O que uma mulher como você viu num cara como eu? Não entendo.

BARBARA: - Quando suas feridas cicatrizarem e você perceber quem de verdade você é... Vai compreender o que vejo em você. Hoje você me sorriu de uma forma que eu nunca tinha visto. Eu acho que a gente tá evoluindo nessa relação. E não tenho mais medo de apostar todas as fichas em nós dois... (SORRI) Empolgou de novo, Ratoncito? Tá vendo? Quente como o inferno!

KRYCEK: - Você me provoca o tempo todo... Eu fiquei completamente dependente de você.

Barbara aproxima os lábios. Os dois trocam um beijo lascivo. Ela vira-se de costas pra ele. Krycek se aninha contra ela. Ela roça o bumbum nele, o provocando. Krycek empurra a perna dela pra frente, se ajeitando contra ela. Ela abre os lábios soltando um gemido, inebriada, mantendo o braço por cima do braço dele, envolvendo seus dedos entre os dedos dele.

BARBARA: - (MURMURA) Ya lyublyu tebya, Alex Krycek...


Residência dos Mulder - 2:57 A.M.

Baba dormindo em sua cama. Coin senta-se ao lado dela. Aproxima os lábios do ouvido dela.

THE GOLD COIN: - Victoria está em perigo. Proteja-a do Sindicato.

Baba se revira na cama, como em pesadelos.

THE GOLD COIN: -Proteja Victoria. Você precisa protegê-la. Saia dessa casa agora.

Baba se acorda assustada, sentando-se na cama. Acende o abajur. Não vê nada. Coloca a mão no peito, nervosa.

BABA: - Ai Senhor! Que sonho esquisito! O que o Johnny Depp fazia na minha cama? Isso é sonho ou presságio? Ou fiquei tarada depois de velha? Bom, Johnny Depp é Johnny Depp... Eu só preciso disputá-lo com 90% das mulheres do mundo inteiro, de todas as idades! Ah! Chega de besteira, Mary Valentine!

Baba se levanta aflita e vai até o quarto de Victoria que dorme tranquila. Baba a pega no colo.

BABA: - Vem, minha bruxinha, acorda.

Victoria se acorda, esfregando os olhos. Baba a coloca em pé no berço. Abre o armário e tira uma sacola de viagem, socando as roupas da menina. Victoria agarrada nas grades do berço começa a pular.

VICTORIA: - (SORRI/ EMPOLGADA) Pá rua? Oba!!!! Passeá!!!! Oba! Oba!!!

BABA: - Oba nada, não vamos passear, vamos pra outro lugar. Não gosto desse tipo de aviso em sonho. Nunca se brinca com uma coisa assim. Alguma coisa me avisou e usou a aparência do Johnny Depp pra isso. E eu gosto do Johnny Depp. Se ele falou, tá falado!


Residência de Barbara Wallace - 3:27 A.M.

Krycek deitado na cama, os braços envolvendo Barbara. Ela agarrada nele, com a perna por cima dele. Krycek faz carinhos nela.

KRYCEK: - Eu nunca voltei tantas vezes pra cama de uma mulher. Não é seu corpo o que me faz voltar, apesar de você ser linda. É o carinho, a atenção, o amor que você me dá. Você acredita em mim como pessoa. Você apostou sua vida nisso. Você se preocupa comigo, se interessa por mim, pela minha vida... Você me conquistou, Malyshka. Você é como uma esperança de dias melhores.

BARBARA: - Nunca ninguém disse algo tão bonito assim pra mim. Você só tá me dizendo coisas lindas hoje. Quer me fazer chorar?

KRYCEK: -Não acredito que ninguém nunca tenha dito coisas bonitas pra uma mulher como você. Talvez você não queria ouvir. Você se magoou demais com o Rockfell, abaixou a cabeça e desistiu do coração, mergulhando no trabalho. Entendo isso. Eu tive decepções na minha vida, mas não foram decepções provocadas por relacionamento homem-mulher. Foram decepções interiores que me fizeram desistir dos meus sonhos e aceitar que eu estava fadado a ser uma pessoa ruim e sozinha.

BARBARA: - Gosto da sua experiência da vida, Alex. Isso me deixa mais calma, sei que tenho alguém do meu lado que vai me dizer quando eu meter os pés pelas mãos, porque já aprendeu muito e da pior maneira.

KRYCEK: - Ele... Ele ficava muito com você?

BARBARA: - Tipo um dia inteiro, uma noite inteira? No início, depois não mais. Eu servia pra acompanhante de festas, pra ele exibir uma mulher bonita. Acho que os amigos dele sabiam que eu era amante. Ou até pensavam que eu era um prostituta de luxo.

KRYCEK: - Esses caras ricos e poderosos pagam mulheres pra irem a festas com eles e depois pra cama. Gostam de exibir poder e garotas bonitas. Conheci prostitutas de luxo. No início achava que Marita era uma, até saber que ela trabalhava pra ONU, por isso estava ali entre eles, servindo aos propósitos deles. Marita dormiu com um dos velhos do Sindicato, o Homem das Unhas Bem-Feitas, que também era da ONU, e isso me deixou bem aborrecido. Percebi o que ela era capaz de fazer. Como fez com ele, podia estar fazendo comigo, me seduzindo pra arrancar informações. É, não tinha confiança, mas eu gostava dela, me sentia atraído... Sabia que o Sindicato queria usar a Marita pra seduzir o Mulder? Pobre do Mulder, do jeito que ele é carente, se não estivesse apaixonado pela Scully, teria sido a vítima perfeita.

BARBARA: - Isso é sério, Ratoncito? Céus, mas eles são muito baixos!

KRYCEK: -E ela topou a missão, na minha frente! Só não vingou porque o Mulder não mostrou interesse nela, então desistiram... Dá pra confiar numa mulher que transa com você e depois vai transar com outro "a trabalho"? Uma coisa é transar com o Mulder, até dá pra entender, ele é um cara bonito, é novo... Mas com aquele velho nojento? Ah não! Juro pra você que fiquei dias irritado, pensando no que ela deveria ter feito com aquele velho gagá e broxa! Use sua imaginação, porque você deve estar entendendo o que estou dizendo. Eu nem queria ver a cara dela. Eu fiquei com nojo de beijá-la. Levei semanas pra conseguir!

Barbara segura o riso.

KRYCEK: - É, você entendeu. Eu amei a Marita, porque ela era a única pessoa que eu tinha no mundo e sei que ela me amou porque também só tinha a mim. Mas nunca confiei nela. Um dia num desespero, sabe que isso acontece, a gente se descuidou e... Talvez, se nosso filho tivesse nascido, eu não estaria mais com ela ou estaria só pela criança. Eu não sei... É um sentimento diferente do que tenho por você. Nem dá pra comparar. Situações diferentes, mulheres diferentes, Kryceks diferentes. O que sei é que eu ainda estaria no Sindicato, fazendo as mesmas merdas e disso eu tenho certeza, porque ela estaria ali também. Pelo menos, o meu sentimento de perda foi tão grande, que me fez pedir ajuda ao Mulder. E quando eu fiz isso... Minha vida mudou. Então gosto de pensar que Marita me salvou. Foi o que ela fez por mim, mesmo que não tenha escolhido isso.

BARBARA: - Covarrubias é espanhol. Você gosta mesmo de espanhol, hein?

KRYCEK: - (RINDO) Ela era americana legítima... Lições da vida, Malyshka. Que lição você tirou com Rockfell?

BARBARA: -Rockfell me fez desistir dos homens... Joias, apartamento, roupas, emprego... Fique bonitinha pra mim. Fique pronta me esperando... Quando eu precisava dele vinha a resposta de que estava ocupado. Passava noites chorando por um abraço, um carinho, um conforto quando as coisas estavam ruins. Mas não podia contar com ele.

KRYCEK: - Eu sei o que é se sentir sozinho. É triste não ter alguém pra conversar.

BARBARA: - Eram os negócios dele e as outras amantes que eu desconhecia. Hoje sei que também os negócios escusos e as reuniões conspiradoras... Tinha medo de terminar e ele me tirar da emissora, então aguentava. Transava sem vontade. Sorria sem querer sorrir. E me olhava no espelho me achando a pior vadia do mundo! Então pensava que se não fosse isso eu estaria em Cuba, servindo mesas em um restaurante com um diploma na gaveta... Isso me consolava até a próxima noite em que ele aparecesse, me fodesse e caísse fora deixando uma joia no criado mudo pra se sentir menos culpado. Desculpe a palavra, mas era isso mesmo. Era o que eu tinha dele. Uma trepada e uma joia. Ele me tratava como uma prostituta e eu não conseguia ver isso, acredita? Eu achava que ele gostava de mim e me deixava presentes!

KRYCEK: - Acredito, Malyshka, porque você é bem esperta pra umas coisas, mas pra outras você é bem tontinha. Não tinha malícia, não foi criada nisso, nunca viu a maldade de perto. Tipo uma caipira no mundo da nobreza. Chegou a dizer pra ele que queria mais?

BARBARA: - Sim. Foi quando ele resolveu me transferir pra Washington. E me colocou pra fora da vida dele. Eu não o amava, até queria amar. Mas eu tinha uma paixão, um sentimento por ele... Rockfell era divertido, bonitão, charmoso... Pelo menos me deixou as joias, me deu aquele apartamento em Washington... As joias estão servindo agora nessa crise.São a minha caderneta de poupança em tempos ruins.

KRYCEK: - Está vendendo suas joias?

BARBARA: - Claro! O que vou querer com isso? Lembrar que foram dadas em troca de sexo? Ai como eu era inocente, meu Deus! Como não enxergava a verdade!!! Eu achava que seria a pobretona que encantaria o milionário? Acho que assisti Sabrina demais! Pensei que havia encontrado um Linus Larrabee!!!

Krycek começa a rir.

BARBARA: - Do que está rindo?

KRYCEK: - Nada. Só que eu também tenho a minha caderneta de poupança para os dias ruins.

BARBARA: -Você ainda tem dinheiro da época em que trabalhava pra eles? E eu pensando em devolver cada tostão que você me deu, pra ajudar a quitar essa casa. Tadinho do meu namorado policial, ganha pouco e ainda emprestando dinheiro pra uma namorada desempregada, que vive de bicos jornalísticos...

KRYCEK: -Nem pensa nisso. Eu não quero esse dinheiro de volta. O pior é que quero dar uma força pro Mulder com a agência, mas ele vai sacar da onde veio o dinheiro. Ele jamais aceitaria. Ficaria ofendido com certeza. Quis ajudar a Scully em tempos ruins, mas desisti, porque fiquei com medo dela deduzir a procedência do dinheiro e me acertar um soco na cara.

BARBARA: - Sempre quis fazer uma matéria sobre assassinos de aluguel. Óbvio que levava tempo, um conhecido conhece um amigo que conhece um primo de um amigo, que conhece um cara que talvez conheça um cara assim, sabe? E quando eu tava pertinho, já com a entrevista marcada, os caras nunca apareciam e sumiam de vez. Era mais fácil entrevistar alguém do cartel do Escobar! Ratoncito, curiosidade de jornalista. Quanto pagavam pra você, por exemplo, matar um homem? É por serviço? Tipo de serviço? Você põe o preço ou eles dão o preço?

KRYCEK: - Eu colocava o meu preço, dependendo do tipo de serviço. Despesas inclusas, como hotel, passagens, roupas se precisasse me disfarçar. Variava muito. Nem sempre o serviço é matar, algumas vezes é espionar, mentir, enganar, sequestrar... Você cobra por pessoa ou pacote de pessoas. O sujeito que mais me rendeu grana custou pra eles 100 mil dólares.

BARBARA: - ... Cem mil? Pra matar uma pessoa? E eu transando com o patrão pra manter um emprego de jornalista? Devia ter conhecido você antes! Sério, Ratoncito... Foi o pai do Mulder?

KRYCEK: - Não. Foi um senador que estava incomodando eles.

BARBARA: - Pode dizer o nome?

KRYCEK: - (RINDO)Isso é uma entrevista? Vai me expor, é?

BARBARA: - Ai, Ratoncito! Para de besteira! Nunca faria isso.

KRYCEK: - John Gilles.

BARBARA: - (INCRÉDULA) Mas Gilles morreu num assalto, eu mesma entrevistei as testemunhas, li os relatórios do FBI e escrevi a notícia... Oh, meu Deus... Eles apagavam os rastros!

KRYCEK: - É. Acidentes acontecem. Geralmente não deixamos rastros. Cuidado era imprescindível. As coisas precisavam ser "coincidências".

BARBARA: -Você tinha alguma regra pra matar? Acho que é assim que falam.

KRYCEK: - Eu não matava mulher e criança. Era minha única regra. Quando vieram me pedir pra matar a Scully, eu disse pra arrumarem outro. Então me pagaram pra eu ir junto, só pra certificar que o Cardinal faria o serviço... Eu acho que jamais vou poder encarar a Scully sem lembrar disso, por mais que ela seja legal comigo, eu não posso deixar de pensar que por minha culpa a irmã dela morreu. Eles podem ter me perdoado, mas eu nunca vou me perdoar pelas coisas que fiz contra eles.

BARBARA: - Uma hora vou fazer uma entrevista com você. Sem revelar a fonte. Algo tipo: "Uma tarde com um ex-assassino de aluguel". Posso? Posso contar como isso funciona e como afeta a pessoa que faz isso?

KRYCEK: - Pensaremos. Malyshka... Eu até entendo que tenha se apaixonado pelo Rockfell. Ele é bonito, bem apresentável, mas é um ricaço esnobe. Nunca daria certo entre vocês, humildade não faz parte do vocabulário do cara. Nem educação com os menos privilegiados. Eu o vi hoje. Me senti um pé-de-chinelo ao lado dele. Terno alinhado, gravata de seda, sapatos importados... O arrogante nem olhou pro lado, se tivesse olhado, teria me reconhecido. Ficou gritando com o recepcionista que estava me atendendo, porque tinha pressa de encerrar a conta e voltar pra Nova Iorque.

BARBARA: - Rockfell? Em Washington? Onde?

KRYCEK: - No Ritz. Ele e o Moedinha. Estavam no mesmo hotel, isso significa que estão aprontando alguma coisa juntos. Tenho uma diversão pra você. Preciso da sua ajuda, do seu faro investigativo de jornalista. Roubei o celular dele. Na verdade eu queria era dar uns socos naquele desgraçado, mas não ia ajudar a gente em nada.

BARBARA: - (RINDO) Você roubou o celular do Rockfell? Mas nem eu nunca consegui pegar aquela porcaria pra ver com quem ele andava! Ratoncito, seu mão leve...

KRYCEK: - Sério Malyshka, se puder pegar todos os contatos e descobrir nomes que possam nos levar ao topo da pirâmide, eu agradeceria. Quero descobrir quem mais está com eles. E você conhece melhor a vida do Rockfell. Pode saber quem é suspeito e quem não é.

BARBARA: - (DEITA A CABEÇA NO PEITO DELE) Claro que faço. Com o maior prazer. Você é detetive. Eu sou jornalista. Pode apostar que descubro mais rápido que você. Ah, eu conheci o George, marido da Nancy. Ele é uma gracinha de pessoa. E ele me disse que o arquiteto dessa casa é o mesmo que fez a casa do Mulder. Coincidência, né? Amanhã vou na prefeitura procurar as plantas da casa pra ver se podemos derrubar essas paredes.

KRYCEK: - Quando eu tiver folga, nós vamos brincar de derrubar paredes.

Ela se ajeita contra ele, fechando os olhos num sorriso. Krycek fecha os olhos.

Som da campainha.

Krycek e Barbara abrem os olhos.

Corte.


Baba entra com Victoria dormindo em seus braços. Krycek guarda a arma na cintura das calças. Barbara, vestida num robe, fecha a porta.

KRYCEK: - O que aconteceu?

BABA: - Pode rir, mas tive um sonho esquisito. Uma premonição. Pensei em ir pra casa da Meg, mas a essa hora da madrugada... Posso ficar aqui essa noite?

BARBARA: - Claro! Fez bem em vir, Baba. Vou arrumar uma cama pra vocês.

Barbara sobe as escadas. Baba senta-se no sofá, segurando Victoria.

BABA: - Foi estranho... Eu estava dormindo, mas não estava, sabe? Vi o Johnny Depp sentado na minha cama me dizendo que Victoria estava em perigo.

Krycek olha incrédulo pra ela.

KRYCEK: - Até você sonha com ele? O que esse cara tem que a mulherada enlouquece?

BABA: - Ei, não foi sonho erótico não! Bem que seria interessante, mas foi uma coisa tão estranha que acordei arrepiada! Foi premonição.

KRYCEK: - Ok, não entendo nada disso, mas acredito muito nessa coisa de premonição. Já contei pra você que a minha babushka (avó) era metida a bruxa? Lembro pouco dela, mas tinha solução pra tudo, desde chás até uns feitiços esquisitos... Ninguém ficava doente por muito tempo.

Barbara desce as escadas.

BARBARA: - Arrumei o quarto pra vocês.

Krycek pega Victoria nos braços. Sobe as escadas.

BABA: - Mas que foi um aviso foi!

4:32 A.M.

Os alarmes da casa de Mulder disparam. Dois homens em roupas pretas e toucas ninja fogem pelo quintal. Cookie sai atrás, latindo alto.

Do outro lado da rua, as luzes da casa de Barbara se acendem. Krycek sai pela porta da frente, segurando a arma. Atravessa a rua. Entra no pátio de Mulder. Cookie vem latindo e pulando, tentando mostrar pra onde os caras foram. Krycek vai para os fundos da casa.


6:49 A.M.

Barbara entra na cozinha, cabelos revirados, cara de sono, de camiseta e calcinha, pés descalços, puxando a calcinha do traseiro. Liga a cafeteira. Pega o controle remoto da TV sobre o balcão e aponta pra TV. Não liga. Dá uns tapas no controle e tenta novamente, ligando a TV. Pega uma chaleira, coloca água. Põe no fogão. Puxa um banco, sobe e abre o armário.

BARBARA: - Aonde está o chá do meu russo? ... Ah!

Barbara pega a latinha de chá e desce, empurrando o banco com o pé, pra baixo do balcão. Abre a gaveta.

BARBARA: - Droga! Aonde está aquela coisinha de colocar o chá dentro? Eu deixei aonde? ... Aposto que o "Martha Stewart" colocou na gaveta dos talheres...

Barbara abre a gaveta.

BARBARA: - Falei. Organizado feito moça!

TV (OFF): - Bom dia América! Começa agora o seu noticiário matutino aqui na RBN.

Barbara coloca o chá no infusor.

TV (OFF): - Muita informação, as principais notícias da América e do mundo, com comentários e opiniões especializadas...

Barbara pega duas xícaras e coloca o infusor numa delas. Fica olhando pra cafeteira.

TV (OFF): - Nove detentos escaparam de uma penitenciária em Maryland na noite passada...

BARBARA: - Ai café, andale, andale, andale! Preciso de cafeína urgente!

TV (OFF): - Vamos falar com nosso repórter Jimmy Sparks que está em frente a penitenciária...

BARBARA: - O Jimmy voltou pra RBN? Quem diria! Vivia reclamando do salário!

Barbara pega a cafeteira e serve uma caneca de café. Coloca açúcar e toma um gole. Desliga a chaleira e coloca água na xícara com o infusor. Abre a geladeira.

BARBARA: - Choques culturais na cama, na geladeira... Ainda vou aprender russo e tudo o que os russos comem no café da manhã. Vou virar especialista em soviéticos! Pena que europeus e americanos não sabem o valor de um bom café com leite e um pãozinho tostado com manteiga.

Barbara fecha a geladeira. Sai detrás do balcão da cozinha e caminha até a sala de jantar.

REPÓRTER (OFF): - São assassinos mercenários, condenados à perpétua. A polícia ainda não sabe como escaparam, provavelmente tiveram ajuda de alguém de dentro da penitenciária. A polícia bloqueou as estradas e o FBI pede para a população ficar atenta e denunciar se vir alguns desses homens...

Barbara vira-se pra TV, que está no cantinho do estar íntimo. Então olha pra porta de vidro da varanda. O Mercenário #1 parado ali, sujo de sangue, com as mãos contra o vidro, murmurando alguma coisa. Ele cai ao chão, aos poucos, deixando as marcas de sangue no vidro. Barbara dá um grito.


7:31 A.M.

Movimento de policiais pelo quintal. Um policial estende a fita de isolamento desde a varanda até um pedaço do jardim. O delegado Norris com as mãos na cintura conversa com Krycek. O detetive Sanders junto com eles.

NORRIS: - Sua namorada está mais calma? Que bela cena pra uma garota ver no café da manhã.

SANDERS: - Ele tinha uma arma com silenciador dentro do paletó. Três tiros nas costas, provavelmente foi pego de surpresa. Podemos pensar que ele não estava sozinho. Quem estava com ele o matou. Nenhuma mancha de sangue, exceto na varanda. Ele não chegou aqui ferido, ou teriam manchas de sangue pelo ladrilho, grama, calçada... Meu palpite é que o cara tenha sido atingido aqui.

KRYCEK: - Eu ouviria os tiros. A não ser que o assassino também usasse silenciador. E silenciador...

SANDERS: - Silenciador é coisa de profissional. E profissional não mata qualquer um. Dois caras com silenciadores nas armas...

KRYCEK: -É, mas um profissional não atira três vezes nas costas. Ele dá um tiro de execução na nuca ou na cabeça... Quem será esse cara? O que veio fazer aqui? Barbara não o conhece, eu não o conheço. Noite estranha. Alguém tentou entrar na casa do vizinho da frente, será que foi esse cara?

NORRIS: - Se ele for fichado, o que acredito que seja, as digitais vão nos dizer. O caso é seu e do Sanders.

SANDERS: - Chequei a rua, não há nenhum carro abandonado. Falei com os vizinhos, ninguém viu nada. Também não sumiu nenhum vizinho.

KRYCEK: - Eu conheço quem pode ter visto alguma coisa. Embora quando é preciso nunca vê nada.

SANDERS: -Encontro você na delegacia, parceiro. Vou checar as digitais e depois vamos ao necrotério.

Krycek olha pra Barbara cabisbaixa, sentada numa cadeira perto da piscina, segurando um lenço nas mãos, nervosa. Krycek se aproxima e agacha-se ao lado dela. Coloca o cabelo dela pra trás da orelha.

KRYCEK: - Está mais calma, Malyshka?

BARBARA: - Alguém morreu na porta da minha varanda, Alex! Como vou ficar calma? Será que estão tentando assaltar as casas do bairro? Amor, eu tô com medo!

Krycek olha pra trás. Dois homens levam o corpo coberto sobre uma maca.

BARBARA: - Tiraram o defunto da minha porta?

KRYCEK: - Estão tirando... Eu prometo que vou descobrir quem é o cara e quem fez isso, ok? Vou pra delegacia agora. Só estou preocupado com você. Vai pra casa do Mulder, fica com a Baba. Tranquem as portas, liguem os alarmes. Pelo menos até eu voltar.

BARBARA: - Tá... Alex... Depois que eles tirarem fotos e fazerem a perícia, quem vai limpar esse sangue todo? Me diz que não serei eu, não gosto de ver sangue...

KRYCEK: - Vou mandar alguém fazer isso, não se preocupe. Não precisa mais olhar pra lá. Vamos, eu levo você pra casa do Mulder.

Krycek se levanta, beija a testa dela.


Residência dos Mulder - 8:04 A.M.

Na cozinha, Baba serve um chá pra Barbara. Victoria sentada na cadeirinha brinca com a colher no prato de mingau já vazio.

BABA: - Por que essas coisas tem que acontecer justamente quando o narigudo está em lua de mel? É a Lei de Murphy? Aviso ele?

BARBARA: - Não precisa incomodar o Mulder e a Scully com isso. Alex vai resolver... (SORRI) Como conseguiram fazer os dois deixarem Victoria?

BABA: - Depois de uma batalha, empurrando porta à fora. Eles precisam de um tempo sozinhos. Não que ela incomode, mas sabe, criança precisa de atenção e aquelas duas crianças lá estão precisando dar atenção uma a outra. Victoria está melhor aqui comigo, não precisou ficar horas num avião, pobrezinha. E sei que tem você se eu precisar de alguma coisa e o Krycek pra qualquer problema de segurança.

BARBARA: - Essa casa tem alarmes, monitoramento... Mulder fez uma fortaleza aqui. Pra sorte dele, porque pelo jeito temos arrombadores atacando a vizinhança.

BABA: - Precisava ver a lista dele pro Krycek de recomendações de segurança. Quase brigaram. Desde "cuida da minha filha e da Baba" até "eu mato o Canceroso se algo acontecer".

BARBARA: - Juro pra você que por isso me mudei pra cá. Sei que assim podemos cuidar uns dos outros... E você, Tory? Tá cada dia mais linda e esperta e crescendo bastante. Comeu todo o mingau, foi? Tava gostoso?

VICTORIA: - Sim, tia Babie! Neném gota!!!

BABA: - É, vou aproveitar enquanto tenho um neném pra cuidar. Logo logo o neném cresce.

Baba olha pela janela e vê Krycek entrando no pátio de Nancy.

BABA: - Shiiii... Quer apostar quanto que a cobra peçonhenta não viu nada? Ela só vê o que quer. Lembra do sequestro do Krycek e do Mulder? Isso ela não viu pra chamar a polícia.

Barbara vai pra janela.

BARBARA: - E acha que ela chamaria? Eu vou dar na cara dessa mulher se ela maltratar meu Ratoncito. Descobri uma coisa que a deixa irritada.

BABA: - O quê?

BARBARA: - Eu usando roupas provocantes na frente de casa. A bruxa fica doida, vermelha de raiva, parece um galo de briga com as penas do pescoço ouriçadas.

BABA: - Meu Deus, você e o Mulder juntos vão acabar matando essa cascavel do coração!

Corte.


Nancy cruza os braços, encarando Krycek.

NANCY: - Não vi nada e não tenho câmeras de vigilância. E por que diria se visse alguma coisa? Eu não sou fofoqueira!

Krycek tira um cartão do bolso e estende pra ela.

KRYCEK: - Porque eu sou policial e estou perguntando.

Nancy pega o cartão, lê e arregala os olhos. George sai da casa.

NANCY: - Eu não sabia que você era policial.

GEORGE: - (SORRI) Policial? Puxa, me sinto mais seguro. Tem um agente do FBI, um policial...

NANCY: - Agora vou entrar que tenho mais o que fazer do que jogar conversa fora, "policial".

Nancy entra em casa.

KRYCEK: - Tem câmeras de vigilância, George?

GEORGE: - Amigo, me diz pra quê câmera de vigilância quando se é casado com a fofoqueira da rua?

Krycek segura o riso.

GEORGE: - Mulder tem.

KRYCEK: - É, vou checar as gravações.

GEORGE: -Devo me preocupar? Acha que alguma gangue está assaltando as casas?

KRYCEK: - Fique de olho e me chame se achar que corre perigo, se vir alguma coisa, algum estranho nas redondezas...

GEORGE: - Olha... É Alex né?

KRYCEK: - Sim, Alex Krycek.

Os dois trocam um cumprimento.

GEORGE: - Sou George Brooks. Isso é polonês?

KRYCEK: - Não, é russo.

GEORGE: - Alex, eu sei que a minha mulher é um pesadelo, mas vou dizer a você o que eu já disse ao Mulder: eu não tenho preconceito, tá? Não julgo as pessoas e nem as discrimino por nada. Meu melhor funcionário no mercado é gay. Você e Mulder são policiais... Se conheceram na academia de polícia?

Krycek arregala os olhos.

KRYCEK: - George... Acho que a gente precisa esclarecer umas coisas que a sua mulher anda inventando por aí...


Delegacia de Polícia - 10:23 A.M.

Krycek e Sanders entram na sala. Sanders se atira na cadeira e já sai teclando alguma coisa no computador.

CHAMBERS: - Ô Checov, um cara ligou pra você umas quatro vezes.

KRYCEK: - Deixou recado?

CHAMBERS: - Não, mas você tá importante... Ligação internacional.

KRYCEK: - (SUSPIRA) Da Itália?

CHAMBERS: -É.

KRYCEK: - (SUSPIRA)Se ele ligar de novo, diz pra minha "mãe" que estou tomando conta da casa direitinho e não dei nenhuma festinha de arromba... E aí, Sanders, quem é o cara que morreu na varanda da minha garota?

SANDERS: - Pelas digitais é Phillip Louis Clarson. Ex-agente da CIA. Condenado a perpétua pelo assassinato da esposa em 2001. É só o que diz aqui. Tem um "confidencial" na ficha. Só podia, se o cara é da CIA...

KRYCEK: -A condenação certamente é falsa. E o cara é matador de aluguel. Um mercenário.

SANDERS: - Como sabe disso?

KRYCEK: - Parceiro, quando um assassino profissional começa a incomodar ou eles matam o cara ou matam alguém de quem ele gosta e jogam a culpa nele. É assim que funciona a coisa nesse ramo. E se tem um "confidencial" aí, no sistema da polícia, é porque esse cara é um mercenário, faz serviços sujos pro governo. Por que uma ficha de criminoso seria confidencial pra polícia? Mesmo que o cara tivesse sido da CIA? Entendeu? É porque ele ainda é da CIA.

SANDERS: -Nunca tinha visto isso em todos meus anos de polícia! Caramba!

KRYCEK: - Eles mandam silenciar ou jogam na prisão. Esse cara é um dos nove que fugiram da penitenciária de Rockville. Puxa as fotos que o FBI mandou e compara.

SANDERS: -... Tem razão, Checov. Ele é um dos foragidos... Quer dar isso aos federais?

KRYCEK: - Não confio no FBI. Não vamos dividir nosso doce com eles.

CHAMBERS: - Checov, ligação! Atende aí! Agora não é a sua "mãe" italiana! Acho que é o seu pai russo! Ô família complicada a sua! Ainda namora uma cubana...

Krycek atende o telefone.

KRYCEK: - (AO TELEFONE) Detetive Krycek, homicídios...


Corta para o escritório bonito e bem decorado. Górki, o líder da máfia russa, sentado numa poltrona confortável, ao celular, brincando com uma faca. Dois seguranças armados andam pela sala. O Mercenário #2 sentado numa cadeira, amordaçado, surrado e sangrando.

GÓRKI: - Dobroye utro (Bom dia), Alexander Krycek, meu compatriota... (SORRI) Por que a surpresa? Precisamos conversar... Alguém está jogando sua sujeira no meu quintal e eu realmente não gosto do lixo dos outros... Quem é Luis Cardinal?


Corta para Krycek na delegacia.

KRYCEK: - (FECHA OS OLHOS) Um defunto... Onde encontro você? ... Tá, eu conheço. Chego em dez minutos.

Krycek desliga.

KRYCEK: - Sanders, preciso resolver um problema.

SANDERS: -Checov, a ficha do cara, bem como a dos outros foragidos está inacessível no sistema da polícia. Acho que você tem razão, estão escondendo informações. Aqui só diz que eram da CIA.

KRYCEK: - Já esperava por isso. Deixa comigo, vou consultar umas fontes no governo. Depois vou checar as gravações das câmeras de vigilância do Mulder.

SANDERS: - Eu vou agora para o necrotério falar com a legista. Ei, podia me emprestar sua picape? Sabe que ando doidinho pra dirigir aquela belezura.

Os detetives riem.

CHAMBERS: -A "teteia" do Checov? Ele cuida mais daquela picape que da namorada! Aposto 50 que ele não empresta!

PETER: - Aposto mais 50!

Eles riem. Krycek, sacana, entrega as chaves pra Sanders.

KRYCEK: - Parceiro, esses dois aí devem cem dólares pra você.

Os detetives se entreolham puxando as carteiras. Krycek pega a jaqueta, a chave da viatura e sai rindo.


11:18 A.M.

Krycek bate na porta dos fundos da boate que dá para um beco. O russo alto abre a porta. Krycek mostra o distintivo, o sujeito deixa ele entrar. Outro russo o revista.

RUSSO: - Entregue sua arma.

KRYCEK: - Nem fodendo.

O russo alto olha para o outro e acena negativamente com a cabeça. Ele deixa Krycek passar.

Corte.

Krycek entra na sala de Górki, vê o Mercenário #2 amarrado e amordaçado. Os dois seguranças ficam atentos nele. Górki sai de sua mesa e sinaliza para Krycek sentar-se. Ele obedece.

GÓRKI: - Alexander Krycek... Pensei não ter mais que olhar para sua cara, mas a vida dá voltas estranhas.

KRYCEK: - Quem é o infeliz?

GÓRKI: - Um nada. Bebe alguma coisa? Tenho uma vodka da nossa terra. A verdadeira vodka!

Krycek aceita. Górki serve dois copos.

GÓRKI: - Acho que já sabe que nove porquinhos muito malvados escaparam da penitenciária de Rockville. Entre eles, esse porquinho traidor. Sabe que não gosto de traidores.

Górki entrega um copo e senta-se, cruzando as pernas. Krycek atento nele.

GÓRKI: -E sabe que tenho ouvidos por todas as prisões desse país. As notícias correm rápido, bem mais rápido que as pernas dos traidores. Meus homens pescaram essa traíra na madrugada, deram um bom trato, prepararam bem e vamos assá-la logo que você sair. Lamento, mas será uma festa restrita e não há comida para todos. Entretanto...

Górki se levanta. Tira a mordaça do sujeito.

GÓRKI: - Esse peixe tem língua grande. Conte ao detetive o que me contou.

MERCENÁRIO #2: - (GRITA)Vão se ferrar, vocês dois!!! Você vai me matar de qualquer jeito, Górki, seu mafioso filho da puta!!! E você vai morrer, Alex Krycek!!! A gente se vê no inferno!!!

Górki enfia a faca no pescoço do Mercenário #2. Krycek se aproxima.

GÓRKI: - Tenha respeito com seu anfitrião e os convidados dele!

KRYCEK: - Eu não conheço você. De onde me conhece? Por que vou morrer?

O Mercenário #2 começa a rir.

MERCENÁRIO #2: - Dois porcos russos vão se foder... Vão se foder... Vão se foder...

Górki coloca a mordaça no sujeito. Sinaliza pra Krycek sentar-se. Krycek e Górki sentam-se um de frente para o outro.

GÓRKI: - É um peixe muito mal educado.E não gosta dos nossos patrícios. (ERGUE O COPO) Vache zdoróvie! (À saúde!)

Os dois brindam.

KRYCEK: - O que quer de mim, Górki?

GÓRKI: - Nada. Apenas que limpe o lixo que estão jogando no meu quintal, afinal de contas, é seu trabalho como policial recolher o lixo dessa cidade. O nome desse peixe é Paolo Gimenez. Esteve infiltrado no meu time, brincando de mafioso, entregando meus homens e minhas operações enquanto dormia com o FBI.

KRYCEK: - Ele é um agente do FBI?

GÓRKI: - Ex-agente. Na verdade ele foi expulso do FBI algum tempo depois de trabalhar infiltrado na minha turma, devido a problemas de conduta. A CIA o adotou para fazer serviços sujos em países de terceiro mundo, como matar, sequestrar e fazer o que oficialmente a CIA nunca admitiria... E o peixe escapou do aquário de Maryland... Mas não vai escapar da máfia russa.

KRYCEK: - É um mercenário. Ele falou como escapou de Rockville?

GÓRKI: - Ele não é muito de falar. Acho que vou cortar a língua dele por falta de uso.

KRYCEK: - Por que me perguntou sobre Luis Cardinal?

GÓRKI: - Me diga você primeiro. Eu já dei muita informação para demonstrar confiança. Agora é a sua vez de abrir o coração, Alexander.

KRYCEK: - Luiz Cardinal trabalhou como mercenário pra CIA nos países sul americanos e foi meu parceiro de trabalho. Nossa ordem era matar uma agente do FBI, mas ele matou a irmã dela por engano. Cardinal enfiou o erro dele no meu rabo, mandaram ele me matar, eu escapei da armadilha e entreguei a cabeça dele. Ele acabou sendo preso, ia abrir a boca pro FBI e foi silenciado na prisão. Provavelmente pelos mesmos que nos contrataram.

GÓRKI: - Ah, tem a ver com seu passado sujo! É que a única coisa que esse peixe falou foi que trabalhou com o Cardinal pra me ferrar. Acho que agora, Alexander, vou acertar as contas com meu peixe e você vai tomar algumas aspirinas porque existem mercenários soltos por aí, talvez por alguém que ama muito você e esteja querendo calar a sua boca, já que você passou para o outro lado. Nunca é tarde para voltar. Preciso de homens como você para cobrar dívidas. Sabe que a hora em que quiser, tenho um emprego esperando.

Krycek empina o copo de vodka e se levanta.

KRYCEK: - Spasiba, Górki.

Krycek sai da sala. Górki sorri e olha para o Mercenário #2 amordaçado.

GÓRKI: - Conhece tortura russa, Gimenez? Faz parecer infantis os filmes do Tarantino... Levem esse traidor lá pra trás. Podem começar o tratamento VIP da máfia russa.

Górki se levanta segurando a faca com firmeza.


Delegacia de Polícia - 12:17 P.M.

Krycek sentado em sua mesa, ao telefone, anotando coisas num bloco.

KRYCEK: - (AO TELEFONE) Ok, ela não foi estuprada... Foram onze facadas ao todo... Provavelmente um punhal... Tem certeza? Nenhuma digital, nenhum DNA no corpo? ... Desconfiei disso. Então você confirma que depois de matarem a garota deram banho nela para removerem qualquer evidência... E as pegadas? (SUSPIRA) Não me facilita muito serem de dois tênis iguais dessa marca, até eu tenho um tênis dessa marca, mais da metade da cidade usa essa marca!

Krycek afasta o telefone.

KRYCEK: - Chambers tá chegando um fax pra mim?

CHAMBERS: - Resultado de autópsia? Tá chegando.

KRYCEK: - (AO TELEFONE) Se puder me mandar também o DNA dela... Ok. Se descobrirem mais alguma coisa sobre a Rose me liguem.

Krycek desliga. Se levanta, pega o fax, lendo-o. Jerome, um jovem negro magrela, roupas de basquete e tênis cano alto, entra na sala algemado e levado por um policial.

POLICIAL #3: -Detetive Chambers, ele foi pego fugindo de um assalto agora mesmo. É seu conhecido? Mandaram pra você interrogar.

CHAMBERS: -Ah Jerome! Fez merda de novo e veio parar aqui? Agora tô vendo que você não mentiu pra mim sobre "cara, eu não curto essas paradas não, tá ligado?". Já vamos conversar sobre o que você aprontou hoje e vamos novamente conversar sobre o garoto Lane. Levem ele pra sala 1. Já vou interrogá-lo.

JEROME: - (BEIÇO)Fiz nada não, eu já falei!!! Eu só tava dando uma banda, quando vi a parada, saí correndo e os policiais me pegaram! Detetive, pega leva, eu não tenho nada a ver com esse assalto e com a morte do garoto! Eu nem conheço esse tal Ricky Lane! Quero ficar branco se estiver mentindo!

Os policiais levam ele. Krycek volta pra sua mesa, segurando o fax. Pega o telefone e liga.

KRYCEK: -(AO TELEFONE) Boa tarde, por favor o Agente Donald Mallet. É o detetive Alex Krycek da polícia. Aguardo...

Chambers se levanta. Procura uma pasta no meio da pilha de pastas sobre a mesa.

CHAMBERS: - Vou dar um duro nesse garoto, ele sabe mais do que diz... Mas ele vai tomar chá de banco no interrogatório, eu estou esperando uma testemunha de outro caso.

KRYCEK: - Quer que eu tente? Me passa as informações... (AO TELEFONE) Oi, Donald... Seguinte, o Mulder tá vivendo de amor agora e você sabe disso... (RINDO) É, eu não tô a fim de atrapalhar e lembrei que você entende dessas coisas também. Tô com um caso estranho, morte a facadas, mas acho que pode ser algo ritualístico... Sério? Tá, vou mandar os resultados da autópsia pra você por fax. Valeu a ajuda!

Krycek desliga. Anota um número em cima do fax. Vai até Chambers.

KRYCEK: - Faz um favor? Passa esse fax pra esse número do FBI. O cara vai me quebrar um galho enorme!

CHAMBERS: - (OLHANDO O FAX) A tal Rose? É, realmente é esquisito. Por que um círculo de facadas no abdômen?

KRYCEK: - É o que um perito do FBI vai analisar e me dar uma direção.

CHAMBERS: - Preciso fazer amigos no FBI também... Aqui a pasta do caso. Esse espertinho aí é um dos suspeitos, acho que ele não matou o garoto, mas ele sabe mais do que fala. Dá uma apertada nele pra ver se chama a mamãe ou nos dá algum nome.

Uma senhora entra. Chambers se levanta.

CHAMBERS: - Quebra essa pra mim, Checov. A minha testemunha chegou. Com sorte, dois casos a menos na minha fila de espera.

Krycek sai com a pasta.

Corte.


Na sala de interrogatórios, Jerome cabisbaixo, com as mãos algemadas, mexendo freneticamente uma perna. Krycek entra na sala com uma pasta e duas latinhas de Coca. Jerome olha pra ele e abaixa a cabeça novamente. Krycek coloca a pasta sobre a mesa, as latinhas, puxa a cadeira e senta-se.

KRYCEK: - Sou o detetive Alex Krycek.

Krycek empurra uma latinha de refrigerante à frente do garoto.

JEROME: - Eu não fiz nada. Eu sou inocente. Mano, isso é perseguição porque eu sou negro e a minha mãe veio do Haiti.

KRYCEK: - E o seu pai é haitiano também?

JEROME: - (CRUZA OS BRAÇOS/ BEIÇO) Eu sei lá, nunca conheci!

Krycek abre a pasta, olhando para os papéis.

KRYCEK: - Jerome Smith, isso?

JEROME: - É...

KRYCEK: - Dezoito anos?

Jerome olha pra ele desconfiado. Continua mexendo a perna, nervoso e desconfortável.

KRYCEK: - Quando eu tinha 18 anos entrei à força no exército.

JEROME: - ...

KRYCEK: - Soviético. Era o que tinha pra um garoto russo criado nas ruas de Moscou, pego em flagrante delito com uma arma apontada para policiais e soldados russos, tentando escapar de um assalto mal sucedido.

JEROME: - (OLHOS ARREGALADOS) ... É piada, certo?

KRYCEK: - Gostaria que fosse.

Krycek disfarça lendo os papéis.

JEROME: - Pegavam os caras à força pra guerra?

KRYCEK: - Na verdade não era bem uma guerra, era o regime comunista. É como se os Estados Unidos hoje fechasse suas fronteiras, acabassem todos os seus direitos de cidadão e você só tivesse deveres para com o governo e o governo quase nenhum dever com você. Castigo de mãe seria fichinha perto disso.

JEROME: -Você foi criado nas ruas? Era ladrão? Como chegou aqui e virou tira?

KRYCEK: - Bom, eu já fui muitas coisas, já estive do lado da vida louca, sabe? Drogas, assalto, assassinato, bebedeira, farra com pessoas que eu pensava serem amigos...

JEROME: -Tô por dentro dessas paradas... Posso beber o refrigerante?

KRYCEK: -É seu. Você não sobrevive muito tempo numa vida dessas, sempre tem um querendo apagar você por alguma coisa.

JEROME: - É, tô ligado, é bem assim.

KRYCEK: -O exército foi a minha escola. Saí pior de lá do que entrei. Aprendi a mexer melhor numa arma, agora sabia matar, armar emboscada, torturar pessoas e sobreviver na Sibéria. Sabe quantos graus faz na Sibéria no inverno?

Jerome abre a latinha e toma um gole. Se inclina mais pra frente, interessado na história.

KRYCEK: - O inverno lá dura de seis a sete meses. Em alguns lugares o frio fica entre 15 e 20 graus negativos. Em outros, de 40 a 50 negativos.

JEROME: - Caraca! Por isso os russos usam aqueles gorros de pelo?

KRYCEK: - Acredite, não tem roupa que segure um frio desses. Já assistiu filmes de prisão, essas coisas?

JEROME: - Claro.

KRYCEK: - Sabe que a coisa pega dentro de uma cadeia. Só os fortes sobrevivem, é barra pesada e ninguém ali dentro vai safar o seu rabo. Mas no exército russo, uma prisão americana seria como o paraíso. Eles torturavam os soldados por prazer. Novatos então... Ah, os novatos tinham que sangrar.

JEROME: -(CURIOSO) Você sangrou muito? Os caras torturaram você?

KRYCEK: - Bastante, eu tenho marcas até hoje. Tá vendo aqui, debaixo do cabelo?

Jerome se levanta e olha curioso.

JEROME: - Caraca, mano! Tem uma marca aí! Racharam sua cabeça?

KRYCEK: - É. Racharam minha cabeça. Um dia me envolvi com mais pessoas erradas pra fugir de lá e finalmente conseguir chegar nesse país, a terra da liberdade. Sabe o que fiz?

JEROME: - Virou tira!

KRYCEK: - Não, eu ainda era burro. A primeira coisa que fiz foi comprar uma garrafa dessa bebida que você tá tomando. Eu queria muito saber que gosto tinha.

JEROME: - (INCRÉDULO) Não tinha Coca no seu país?

KRYCEK: - Naquela época não. Nem rock, nem shows, nem nada. Não tinha diversão para os jovens. Tudo que vinha de fora era proibido pelo governo. Na televisão só passava programa comunista. E um aparelho de TV era muito caro, eu nunca tive uma televisão, a primeira que tive foi aqui.

JEROME: - Caraca! Cinema então? Mas que merda de vida! Aí depois você virou tira?

KRYCEK: - Não. Continuei fazendo as mesmas merdas que todo garoto pobre e sem estudo faz, pensando que assim vai conseguir chegar a algum lugar na vida. Mas sabe o que aconteceu? Os caras sujos pra quem eu trabalhava acharam que eu sabia demais e começaram a tentar me matar. Eu passei anos dormindo com um olho aberto. Mataram minha garota. Meu filho. Um dia um amigo me mostrou que eu podia direcionar para o bem toda a raiva que eu tinha do abandono, do descaso das pessoas, da crueldade do que fizeram comigo, da pobreza, da fome que passei. Então decidi que eu seria policial pra ajudar as pessoas que precisam de ajuda. Que nem sempre são as vítimas. Entende o que eu quero dizer? De mano pra mano?

JEROME: - (SUSPIRA) Cara, se eu contar a verdade, os caras vão me matar, tá ligado? A vizinhança é barra pesada, ou você tá com eles ou tá morto, ligou? Você entende a minha língua.

KRYCEK: - É, liguei. Conheço bem isso. Se quiser conversar tudo bem, se não...

JEROME: - ... Eles vão me matar. E vão matar minha mãe e a minha irmã. Eu não posso falar nada. Você tá gravando isso?

KRYCEK: - É, tem uma câmera gravando isso. Tá vendo ali em cima? Mas ela só grava imagens, nenhum som. E atrás do espelho geralmente fica algum policial, mas estamos sozinhos. Ou eu também não ia contar tanta coisa pra você, mano. Sabe como é.

Do outro lado do vidro, Norris observa os dois e segura o riso, balançando a cabeça.

KRYCEK: - Posso te ajudar. Se eu souber no que está metido. Me dá os nomes, eu pego eles da maneira russa, acredite.

JEROME: - ... Cara... Eu não matei o garoto. Eu nem sei segurar uma arma, tá ligado? Eu já peguei uma e tentei atirar numas latas, mas acabei matando o gato da minha irmã. O bicho ficou ali agonizando, eu nunca tinha visto uma coisa daquelas! Vomitei na hora! Tive que mentir pra ela que alguém atirou no gato e saiu correndo... Como tive que mentir pro seu parceiro. Foi o Chris quem matou o garoto por causa de uma mochila. Ele levava o computador dele pra escola e a gente sempre via o garoto passar naquela rua. Eu tô sempre com esses caras, porque se eu não estiver com eles, estou contra eles, entende? Mas eu nunca roubei, nem matei. Dou minha palavra pra você. Pode perguntar até pra minha professora... Não, a professora só vai dizer que eu era um bom aluno e que sumi da escola. Mas é que o Chris não quer que os escolhidos dele continuem frequentando a escola, entende?

KRYCEK: - Me conta isso direito. Vou resolver essa parada com você. Quem é esse Chris?

JEROME: - Cara, ele manda no bairro, ele é o chefão da gangue do loteamento norte, sacou? O cara tá envolvido com drogas e assaltos, assassinatos... Se ele chegar em você e disser: vem comigo, ah ferrou, mano! Ele te escolheu, não tem como você pular fora. Se disser não, ele te mata ou pega alguém da sua família... Ele me escolheu há três meses, ok? Eu ainda sou novato, tô olhando pra aprender, mas cara... (DESANIMADO) Eu não quero essa vida! Eu sei que parecia legal, mas agora que estou dentro, eu não tô achando mais legal. Eu vou abrir pra você, mas se você não me ajudar eu tô morto! Tudo bem que eu morra, o problema é eles matarem minha mãe ou estuprarem a minha irmã pra se vingar de mim, tá ligado? Eles vão saber que eu sou dedo-duro! Não dá pra confiar na polícia.

KRYCEK: - Jerome, eles não vão saber de nada, eu garanto isso pra você. Estamos aqui abrindo nossos corações e tentando resolver o seu problema. Mas pra ajudar você, eu preciso de sinceridade. Você foi testemunha de um assassinato, assaltos, você, assim como eu, sabe demais, entende? Eu sei o que é estar na sua pele, mas faça a coisa certa. Não seja um idiota como eu fui, tá ligado? É sua chance de se livrar desse problema e salvar sua mãe e sua irmã, afinal você é o homem da casa. Aja como um.


1:23 P.M.

Krycek coloca a pasta em cima da mesa de Chambers.

KRYCEK: - Pede um mandado de prisão para Chris Telles pelo assassinato de Ricky Lane. A arma está escondida no sofá da casa dele, bem como drogas e outras armas. Jerome deu os nomes. Tem uma gangue no loteamento norte, estão envolvidos com assaltos, tráfico e assassinatos.

CHAMBERS: - Gangue? No loteamento norte, perto de Alexandria? Desde quando?

KRYCEK: - Confirmei com o Lemann da Inteligência. Eles não repassaram a informação pra gente antes, por falta de pessoal. Essa delegacia tá falindo em todos os departamentos! O garoto é informante, ok? Vamos assegurar que nada aconteça a ele e a família. Caramba, o Sanders ainda não voltou do necrotério?

CHAMBERS: - Como arrancou isso desse garoto? Contando suas historinhas de novo? Checov, você tem uma imaginação fértil, não sei como a molecada acredita. Seu amigo do FBI tá esperando você aí fora.

Krycek abre a porta. Donald, com as mãos nos bolsos das calças, anda pela delegacia. Krycek sinaliza pra ele. Donald entra.

KRYCEK: - Quer um café?

DONALD: - Não, estou indo pra Ohio agora. Seguinte, Alex. Abre o fax pra eu te mostrar. Você tem razão na sua desconfiança. Isso é totalmente ritualístico.

Krycek abre o fax sobre a mesa. Chambers se aproxima, curioso. Donald mostra com o dedo.

DONALD: - Olha o desenho. Conforme a perícia, aqui foi a primeira facada, dada com mais violência, sobre o coração. O coração é o órgão principal do corpo, associado com a vida e o amor. Violência maior no coração, no centro, no âmago. Não acredito que seja na vítima, ela é um sacrifício, um corpo, um meio pra um fim. Seja o que for a intenção de quem fez isso, querem que algo ou alguém, mais importante que todos, seja atingido.

KRYCEK: - Entendi.

DONALD: - As facadas seguintes formam quase um círculo, não há como ter precisão para desenhar com facadas em um corpo, e pelo ângulo foram dadas em pé (GESTICULA) assim, o que significa que a vítima estava deitada, comprovando a teoria de sacrifício. O círculo representa o planeta Terra como reino de Satanás, para os satanistas. Eu digo que essas dez facadas em círculos representam dez coisas no mundo de alguém. Se é o mundo de alguém, a facada no coração significa o líder desse mundo.

CHAMBERS: - Satanistas? Era o que faltava! O Norris vai pirar agora!

Chambers senta-se em sua cadeira.

KRYCEK: - Então você acha que isso é obra de satanistas. A garota foi morta num ritual satânico para atingir alguém e dez coisas no mundo dessa pessoa. Por que dez coisas, pelo número de facadas? Ou eles só precisavam de dez facadas para fazerem o círculo?

DONALD: - Olha bem, podiam ter feito o círculo com menos facadas. Se fizeram com dez é porque dez é um número com significado pra eles.

KRYCEK: - (DESCONFIADO) E se for um cara e dez pessoas da vida dele?

DONALD: - ... Bem pensado. Pode ser. Faz bastante sentido. Tipo quero a desgraça do dono do mercadinho e de dez funcionários dele. Só um exemplo bobo, porque as pessoas que fizeram isso acreditam realmente nisso e o fizeram com intenções diabólicas e pra alguma coisa muito, mas muito importante a ponto de sacrificarem uma vida como oferta para obter os resultados. Não é como "trago de volta a mulher amada em três dias". Isso aqui é bem sério. E provavelmente, eles farão de novo. Nada da identidade da vítima?

KRYCEK: - Nada ainda.Donald, te devo essa.

DONALD: - Fiquei interessado no seu caso. Se precisar de mais informações me chama. E se descobrir que esses satanistas estão espalhados fora daqui... Me liga. Se você descobriu uma seita satânica, aí vai ter que dividir comigo e com o FBI.

Donald sai. Krycek senta-se na cadeira, pensativo.

KRYCEK: -Satanistas... Onze facadas...Moedinha...

O telefone toca. Chambers atende.

CHAMBERS: - Homicídios...

Krycek continua pensativo, sem perceber que o colega desliga o telefone num semblante de incredulidade misturada com tristeza. Chambers se levanta.

CHAMBERS: - (VOZ EMBARGADA)Checov.

KRYCEK: -Fala.

CHAMBERS: - (MORDE OS LÁBIOS/ VOZ EMBARGADA) Sanders morreu.

Krycek olha incrédulo pra ele.

CHAMBERS: - (SEGURA AS LÁGRIMAS) Atiraram nele na saída do necrotério.


2:09 P.M.

Krycek estaciona a viatura em frente ao necrotério. Várias viaturas paradas. Krycek se aproxima, passando por sua picape. Norris o segura pela camisa.

NORRIS: - Checov, não precisa ver isso...

Krycek se desvencilha de Norris.

KRYCEK: - (REVOLTADO) Ele era meu parceiro!!!

Krycek se aproxima de Sanders, deitado ao chão, ainda com os olhos abertos, morto com um tiro na cabeça. Krycek se agacha, levando a mão à boca, enchendo os olhos de lágrimas. Leva a mão sobre os olhos do parceiro e os fecha. Então se levanta, leva as mãos à cabeça, dá voltas, incrédulo e perturbado, tentando conter o choro.

NORRIS: - Está fora do caso!

KRYCEK: - (REVOLTADO) Norris não pode fazer isso comigo, Sanders era meu parceiro, meu amigo!!!

NORRIS: - Por isso mesmo.

KRYCEK: - (ÓDIO/ REVOLTADO)Eu vou pegar o desgraçado que fez isso com ele, com ou sem o seu consentimento! Entendeu? Eu já tenho pistas o suficiente pra saber que esse tiro não era pra ele! Era pra mim!!! Droga, por que fui emprestar meu carro pra ele?

NORRIS: - Se acalme, não está raciocinando direito!

KRYCEK: - Claro! Só pode ser, o atirador pensou que era eu... Merda!!! Aquele defunto na porta da minha namorada devia estar querendo me avisar disso e foi calado antes!!!

NORRIS : - Espera aí, Checov. O que está dizendo? Algum maluco resolveu matar policiais? Ou tem a ver com você ser ex-agente do FBI?

KRYCEK: - Tem a ver que eu sei muitas verdades pra me quererem calado, entendeu? Não é a primeira vez que tentam e nem será a última! Me deixa pegar esses filhos da puta, eles mataram um cara inocente!!!

NORRIS: - Deus... Sanders era um ótimo policial... Um sujeito divertido, honesto, amigo...

KRYCEK: - (REVOLTADO) Se fosse o seu parceiro, Norris? Você deixaria barato? Me diz você, delegado, que tem mais de 40 anos de polícia, que já viu merda o suficiente pra encher a cara, perder o sono e a mulher! Você não iria querer pegar o desgraçado que matou o seu parceiro?

NORRIS: - Com uma condição. Chambers ou Peter vão com você. Sozinho você não vai ir atrás do filho da puta, entendeu? Eu não quero perder outro detetive!!!

KRYCEK: - Eu posso dar conta sozinho! Não vou arriscar a vida de nenhum outro policial!!!

NORRIS: - (IRRITADO) Não! E tem mais uma coisa. Eu estou sendo muito, mas muito paciencioso com você, Checov! Mas eu quero saber se mais problemas chegarão por causa do seu passado no FBI! Eu não sei quem você incomodou quando estava lá, mas eu não quero ver novamente homens do meu distrito estirados num piso frio com uma bala na cabeça!!!

KRYCEK: - (ÓDIO) Nem vai querer saber, Norris. É bem melhor não saber. Você confia ou não em mim? Porque eles não viverão muito pra incomodarem novamente!!!

NORRIS: - Você é um maldito filho da mãe, Checov Krycek, como todo maldito federal!!! Cheio da petulância, achando que pode sair por aí fazendo justiça sozinho! Por que eu deveria confiar em você? Eu só não expulso você da corporação porque... Você lembra meu filho. E ele morreu num tiroteio por causa da maldita teimosia! Espero que você não morra! Que saiba quando deve pedir apoio aos seus colegas, porque um homem nem sempre pode resolver as coisas sozinho! Vá falar com a legista, ela foi testemunha. Eu vou até a casa do Sanders dar a péssima notícia pra mulher dele... Eu não sei se aguento mais esse trabalho!

Norris entra na viatura. Krycek o acompanha com os olhos.


Café Girassol & Canela - 2:36 P.M.

Krycek sentado, segurando a xícara de café. Skinner se aproxima e senta-se, nervoso.

SKINNER: - Quer me explicar que droga está acontecendo?

KRYCEK: - Meu parceiro foi morto.A legista não viu o atirador, foi tudo rápido e ela entrou em choque quando percebeu que ele estava caído no estacionamento do necrotério. Levou um único tiro certeiro na cabeça. Uma testemunha disse que só viu quando ele caiu morto. Por certo o cara estava em cima de algum prédio e com silenciador, porque ninguém viu ou ouviu nada.

SKINNER: - Ele foi executado? E sobre o cara morto na varanda da Barbara, o tal Clarson da CIA?

KRYCEK: - Era um dos que escaparam da penitenciária de Rockville. Levou três tiros nas costas. A causa da morte foi uma bala no coração. Três tiros para um profissional eliminar o alvo? Não. Nem ferrando, Skinner! Esse cara tem algum problema físico ou está muito enferrujado... A legista enviou as balas para a perícia, Sanders ainda comentou com ela que eram calibre 22.

SKINNER: - Uma arma mais leve. Igualmente letal à longa distância. Perfeita pra um aleijado ou enferrujado. Então Clarson também foi executado.

KRYCEK: - Já a bala que matou meu parceiro era calibre .338, provavelmente um rifle tipo os usados pelos snipers da marinha americana. Não foi o mesmo cara. Estilo, arma e pontaria diferentes. Esse está em forma.

SKINNER: - Um McMillan TAC-338? É uma arma para franco-atiradores! O atirador poderia estar há uns mil e seiscentos metros, até em cima de um prédio!

KRYCEK: -Exato, por isso ninguém viu nada. (CULPADO) Eu emprestei meu carro pro Sanders. Eles certamente pensaram que era eu...

SKINNER: - Não tinha como saber, Krycek. Merdas acontecem. É um dito americano muito popular e verdadeiro.

Ellen se aproxima trazendo café e os servindo. Afasta-se.

SKINNER: - São eles, não são? Soltaram esses caras pra calarem você. Você expôs muitas verdades sobre eles na mesa do Mulder e na minha. E agora joga ao nosso lado. Eles não gostaram disso.

KRYCEK: - Eu sabia que o Sindicato das Sombras estava muito quieto. Eu ainda avisei o Mulder que eles estavam tramando alguma coisa!

SKINNER: - ... Não vamos falar nada para o Mulder. Ele vai voltar correndo da lua de mel, preocupado com a situação e com a segurança da filha. E eles têm pendências a resolverem.

KRYCEK: -Com certeza. Mulder precisa desse tempo com a Scully e não vamos acabar com os planos deles. Eu tenho os nomes dos caras que fugiram. A única coisa que preciso é mais informações, aquelas que não constam no sistema da polícia. Entendeu?

SKINNER: - Eu consigo essas informações. Se você entregar esse caso oficialmente ao FBI, posso mandar agentes pra vigiar a casa da Barbara. Do contrário, é um caso da competência da sua delegacia e estou de mãos atadas porque "não sei de nada".

KRYCEK: - Não quero isso no FBI. Vai alardear os passarinhos fofoqueiros escondidos pelos corredores do Bureau. Me dê apenas as informações. Eu vou atrás e resolvo. Dois deles já estão mortos. Sobraram sete pra mim.

SKINNER: - Você deve estar maluco, Krycek! Acha que vai conseguir escapar de sete assassinos? Posso colocar você no programa de testemunhas e você desaparece. Soltaram nove caras para pegarem você!

KRYCEK: - Agora você chegou ao ponto, Skinner. Não. Eu acho que deram um jeito de soltar nove assassinos profissionais para pegar todos nós, mas Clarson pensou em me avisar e algum deles o eliminou. O outro, foi ex-agente do FBI infiltrado na máfia russa. A máfia já o mandou pro inferno como vingança. Como eu disse, restam sete.

Skinner se recosta na cadeira, apreensivo. Olha para Ellen que está distraída atendendo clientes.

SKINNER: -Como pode ter certeza disso?

KRYCEK: - Ontem tentaram entrar na casa do Mulder. Cortaram os fios, mas os alarmes dispararam porque a raposa colocou um segundo acionamento. Chequei o quintal, havia dois pares de pegadas. Hoje vi as fitas das câmeras do Mulder, apenas uma delas mostrou dois caras vestidos de preto, toucas ninja e luvas, com armas e silenciadores. São profissionais, Skinner. Só não contaram com a esperteza do Mulder. Cortaram os fios de todas as câmeras, menos aquela que ele deixou escondida entre as plantas da Scully na varanda do sótão.

SKINNER: - Droga! Baba e Victoria estão bem? Conseguiu chegar a tempo?

KRYCEK: - Estou ficando na casa da Barbara. As duas estão bem, Baba tinha tido uma premonição horas antes e passou a noite com a gente. Skinner, se você tentar me ajudar oficialmente, como já é um alvo, Carter, Kersh e Fowley vão diretamente ao Sindicato avisar que já estamos preparados, entendeu? Você não vai me ajudar, vai acabar me matando.

SKINNER: - Você tem razão... Melhor eu ficar de fora, se me envolver vou estragar o elemento surpresa. E por que Clarson avisaria você, se vocês não se conheciam?

KRYCEK: - É isso o que vou descobrir quando você me der as informações que não tenho. Mulder e Scully estão fora do país e o Sindicato não sabe disso. Mantenha sua mulher por perto e suas portas trancadas. Eu vou pegar Baba e Victoria e levá-las pra casa da Barbara. E vou avisar os Pistoleiros. Não durma, Skinner. Não até isso acabar. E não faça nenhuma besteira pra tirarem você do FBI. Porque aí sim estaremos ferrados e às cegas, precisamos de você lá dentro. Deixe que eu faça as besteiras, eu sou o que nada tem a perder. E tenho licença pra matar. Eu sei como lidar com colegas de profissão.

SKINNER: - E como vai lidar com eles? Na conversa?

KRYCEK: - Skinner, só há um tipo de conversa que esses caras entendem: matá-los antes que cumpram sua missão. De resto, não vão recuar. Tem muito dinheiro e favores no meio. Eu mesmo não recuaria se estivesse na pele deles. Não é inteligente voltar atrás depois de acordar algum trabalho com o Sindicato. Fui claro? Eu sei bem disso.

Skinner fica tenso, passa a mão na cabeça. Krycek se levanta.

SKINNER: - Se Mulder estivesse aqui...Você vai dar conta sozinho de sete mercenários?

KRYCEK: - Eu já matei mais do que isso. Agradeça a Ellen pelo café.

Krycek vai saindo, tirando o celular do bolso e apertando uma tecla.

KRYCEK: - (AO CELULAR) ... Frohike, é Alex Krycek. Alerta vermelho. Segurança máxima... Não, e Mulder não precisa saber, ele e Scully estão fora de perigo por estarem longe... Sim, eu cuido das duas. Mantenha contato.


Residência de Barbara Wallace - 3:09 P.M.

Krycek sentado à mesa de jantar. Olha para a varanda limpa. Passa as mãos no rosto, soltando o ar, num suspiro de preocupação. Abaixa a cabeça, brinca com os farelinhos na mesa, triste e desanimado. Barbara senta-se segurando uma caneca de café.

BARBARA: - Você mal tocou na comida, Ratoncito. Lamento pelo Sanders... Você tá legal?

KRYCEK: - (PREOCUPADO) Não, mas eu tenho que estar. Preciso arrumar coragem e visitar a mulher dele. Ela espera alguma palavra ou gesto de conforto da minha parte...

Barbara segura no braço dele, o acariciando.

BARBARA: - (PREOCUPADA) Hermoso... Eu tô aqui, tá?

KRYCEK: - Eu sei, Malyshka... E hoje a nossa aula de dança pelo jeito vai furar.

BARBARA: - Ah tudo bem. Nunca faltamos mesmo e hoje é rumba, essa eu sei e ensino pra você... Achei uma sacola no quarto. Tinha um sino de vento cheio de beija-flores coloridos... É pra mim?

KRYCEK: - (SORRI) É... Gostou?

BARBARA: - Amei! Vai ficar lindo na varanda! Equilibra a energia. Ai Ratoncito, não sei como você encontra essas coisinhas diferentes que eu adoro! Amo seus presentinhos!

KRYCEK: - Eu sei que você gosta dessas besteirinhas sem valor. Vem cá, vem. Preciso de você.

Krycek se afasta com a cadeira. Barbara senta-se no colo dele e o abraça. Krycek envolve os braços nela e a beija no rosto.

KRYCEK: - Homens maus também tem sentimentos e precisam de um abraço.

BARBARA: - Você não é um homem mau. Só andou perdido por aí até que eu te encontrei. E o valor dessas besteirinhas não está nelas. Está em você se lembrar de mim.

KRYCEK: -Lamento que você esteja querendo brincar de casinha e uma tempestade resolve chegar sem aviso. Mas fique brincando de casinha, por favor. Isso me acalma. Me faz pensar que você está longe dessa realidade e livre de preocupações.

BARBARA: - Eu não estou longe dessa realidade, Alex. Você disse que o nome do defunto na minha porta era Phillip Louis Clarson. Eu não o reconheci, estava sem barba. Então chequei meus arquivos.

Krycek olha pra ela.

BARBARA: - Há uns três anos atrás, estive fazendo uma reportagem na penitenciária Rockville, entrevistando homens condenados por homicídio. Clarson foi um deles. Disse que era meu fã, que falaria o que eu quisesse saber pra me ajudar. O tratei com respeito e educação, como se trata qualquer pessoa, dei até uma caixinha de chicletes autografada pra ele. Ao final da entrevista, ele me sorriu e disse que apreciava alguém que pudesse conversar com ele sem o julgar e agradeceu pelo mimo recebido.

Krycek respira fundo.

KRYCEK: - Agora realmente eu tenho certeza de que eles têm uma lista, não apenas o meu nome. Clarson viu seu nome na lista. Veio avisar você. Veio proteger você, Malyshka. E os colegas dele o mataram por isso.

BARBARA: - (PREOCUPADA) Que lista? Alex, do que está falando?

KRYCEK: - Depois eu explico. Malyshka, um dia Mulder brincou comigo dizendo que éramos uma resistência ao Sindicato.

BARBARA: - E acho que somos. Por quê?

KRYCEK: - Se somos uma resistência... Quantos somos?Mulder é como o líder, certo?

BARBARA: - Eu acho que sim, foi ele quem começou tudo! Deixa eu ver...

KRYCEK: - Scully, você, eu, Skinner, os Pistoleiros. Sete. Mais o Mulder, são oito...

BARBARA: - Susanne, nove.

KRYCEK: - Acho que tô ficando pirado com um caso... Vendo coisas.

BARBARA: - Ah, tem a Ellen neh? Acho que ela conta! E a Baba? Hum... Acho que somos em onze. É, somos dez e com o Mulder onze.

Krycek se levanta, nervoso. Ela sai rapidamente do colo dele.

BARBARA: - Amor, você tá branco! Mais do que é! O que tá acontecendo?

KRYCEK: - Pegue seu sininho de vento. Eu vou até lá falar com a esposa do Sanders e o Norris, depois venho pra casa. Tenho mais coisas pra pendurar na sua varanda. E traga a Baba e a Victoria pra cá. Não quero vocês longe de mim, entendeu? Mantenha as portas trancadas. Estamos em defasagem de dois em nosso grupo. Mulder e Scully fazem muita falta, mas não posso atrapalhar os planos deles. Vou ter que me virar sozinho.


Delegacia de Polícia - 3:56 P.M.

Krycek entra na sala de Norris, fechando a porta. Norris se inclina na cadeira.

KRYCEK: - Eu preciso ficar em casa essa noite. Posso trocar de turno com alguém, até pegarmos esses foragidos, mas as noites no momento são cruciais pra mim. É quando eles se sentem protegidos pela escuridão. Minha garota tá sozinha e vão tentar matá-la. Eu posso perder qualquer coisa nesse mundo, Norris, mas não aquela mulher. Eu não vou aguentar novamente perder alguém que eu amo pra esses caras. Eu nunca me perdoaria se ela morresse. Se não tiver outra maneira, entrego meu distintivo e minha arma agora.

NORRIS: - Senta aí, Checov. Chambers vai segurar a bronca com o Peter, dois caras da narcóticos vão fazer horas extras na homicídios e já avisei pra ficarem na delegacia, os policiais vão atender as chamadas e eles só vão sair daqui se no pacote da ocorrência constar algum defunto. As investigações do departamento de homicídios estão suspensas por hora, até resolvermos a falta de pessoal, assim eles aceleram as coisas. Um detetive a mais ou a menos, não vai fazer diferença. Você perdeu seu parceiro, está deprimido e precisa tirar licença por uns dias. É o que vou dizer.

KRYCEK: - Você banca o durão, mas não passa de um coração mole, sabia?

NORRIS: - Eu sei que você vai pra casa e vai ficar trabalhando. Você tá na cola desses foragidos. Então concentre-se nisso agora. Sabe a minha política, Checov. Eu não me importo em recolher cadáveres de vagabundos, eu não gosto é de recolher cadáveres de inocentes. Vagabundos já têm a Lei, a Justiça, os Direitos Humanos e os malditos advogados de defesa ao lado deles. Eu só tenho uma arma, um distintivo e uma caixinha de sapatos repleta de fotos de policiais dos quais eu já fui ao enterro, incluindo meu único filho homem. Pegue o desgraçado que matou o Sanders, porque o FBI não vai fazer isso, estão numa moleza em cima desse caso que até eu já desconfio de que tem dedo de gente grande nessa história, talvez pressão da Casa Branca, porque os infelizes faziam serviço sujo pra eles e quem vai querer expor a sujeira da CIA? Então faça a justiça pela Amanda e os meninos. Por falar nisso, fizemos uma caixinha pra ajudá-la, até o Estado mexer o traseiro e pagar os fundos de pensão dela...

Krycek se levanta. Norris abre a gaveta e tira um envelope.

NORRIS: - Leve esse dinheiro pra Amanda. Diga o que eu já disse. Se faltar alguma coisa pra ela e os meninos, pra não ter vergonha de nos pedir.

KRYCEK: - Obrigado, delegado.

NORRIS: - Agora tira seu traseiro daqui, Checov, e vá cuidar da sua garota. Continue investigando e só volte quando souber onde esses mercenários estão escondidos. E chame reforços! Não nos deixe fora da festinha!

Krycek coloca o envelope no bolso.

KRYCEK: - Norris... Eu sei que ninguém sabe nada sobre esse assunto, você é durão, não expõe sua vida. Não precisa dizer se não quiser. Hoje, lá no estacionamento do necrotério, eu entendi. Entendi finalmente porque você tanto odeia o FBI. Seu filho foi um agente, não foi? Morreu num tiroteio porque não esperou o parceiro. E a ajuda não veio a tempo.

Norris disfarça, ajeitando a mesa e depois olha pra ele.

NORRIS: - Outra coisa. Gosto do jeito como faz os suspeitos falarem. Você enxergou naquele garoto o mesmo que eu enxergava. Um garoto com medo. Um bom garoto que poderia acabar virando um bandido. Você salvou a vida daquele jovem hoje. O Jerome está bem, a mãe e a irmã dele também. O líder da gangue foi preso, vai ser acusado de vários crimes, pegamos todos porque o líder abriu o bico e denunciou os parceiros e a gangue se desmantelou. E Jerome vai voltar pra escola.

KRYCEK: -Eu só gosto de inventar histórias, fazer de conta que sei como é a vida dura deles, como é ser considerado um lixo social e eles ficam impressionados com um sobrenome russo, pensam que nasci na Rússia mesmo. Só isso. Se eu fosse russo, nem poderia ser policial nesse país, não é?

Krycek sai fechando a porta.

NORRIS: - (SORRI) Checov, Checov... Eu tenho mais que a sua idade só como policial. Você sabe mais do que diz. Posso ver nos seus olhos que suas historinhas não são ficção criativa da sua mente. Eu reconheço lixo quando vejo um, e você já foi lixo. Agora busca desesperadamente fazer a coisa certa para se redimir. E eu gosto disso, filho. Gosto mesmo. Quem conheceu a lama, sabe o prazer de um bom banho. E também sabe reconhecer os enlameados bem melhor do que os que sempre estiveram limpos...

Norris abre a gaveta e pega uma foto. Ele mais novo, com um jovem de 25 anos, abraçado nele. Os dois sorrindo, num tempo feliz, imortalizado pela imagem.

NORRIS: - Não sei qual de nós dois esconde mais segredos pra não pensar muito nisso e se culpar mais ainda, Checov. Eu devia ter dito não, surrado esse teimoso, quando ele disse que queria ser policial como o pai dele e que ia entrar pra Academia do FBI... Mas eu fiquei com aquele orgulho bobo e estúpido de pai. E hoje... Hoje eu não tenho mais o meu filho comigo. Essa é a culpa que eu vou carregar pro resto da minha vida.

Norris morde os lábios, contendo a emoção, olhando pra foto.


Residência dos Sanders - 4:47 P.M.

Na cozinha, Krycek se levanta da cadeira e abraça Amanda que chora, segurando o envelope.

KRYCEK: - Força, tá? Eu vou pegar o cara que fez isso com ele, eu prometo pra você.

AMANDA: - (TENTANDO SEGURAR O CHORO) Tá. Eu sei que vai... O enterro vai ser em três dias, porque os pais dele virão do Canadá...

KRYCEK: - Me liga se precisar de qualquer coisa. Eu não estarei no distrito, Norris me liberou pra investigar esses canalhas... Era pra ter sido eu, Amanda. Não ele.

AMANDA: - (EM LÁGRIMAS)Alex, a morte não leva quem não escolhe. Era a hora dele. Por mais que doa, era a hora do meu marido... Eu não sei o que vou fazer sem ele, mas... Minha mãe está chegando do Mississipi essa tarde e os garotos pelo menos terão a avó por perto... Alex... Acha que ele sentiu dor?

KRYCEK: - Amanda... Ele não teve tempo pra sentir nada.

AMANDA: - (SORRI EM LÁGRIMAS) Pelo menos ele não sofreu...

Krycek tira um saco de papel dobrado de dentro da jaqueta. Entrega pra ela.

KRYCEK: - Amanda, eu não sou policial corrupto, você me conhece. Eu quero que fique com isso, mas não diga nada a ninguém. Vai garantir dias melhores pra você e os meninos.

Amanda abre o pacote, repleto de maços de dólares.

AMANDA: - Alex? E-eu não...

KRYCEK: - Por favor. Seu marido foi um amigo, ele me ajudou todas as vezes que eu precisei. Ele ficava sozinho no plantão, quando eu precisava me ausentar pra ajudar outro amigo que estava em apuros. Sanders era meu parceiro, eu confiava minha vida todas as noites nas mãos dele. Eu fiz coisas erradas no passado, antes de ser um policial. E eu não me orgulho disso. Por essas coisas, querem me matar e seu marido morreu no meu lugar. Eu preferia que não fosse assim. Eu devia ter morrido. Aceite e use esse dinheiro por uma boa causa, pelos seus filhos. Eu vou me sentir melhor se você fizer isso.

Amanda se abraça nele chorando.


Residência de Barbara Wallace - 6:03 P.M.

A campainha toca. Barbara se aproxima pra atender a porta, Krycek a impede.

KRYCEK: - (SUSSURRA) Espia primeiro.

Krycek puxa a arma do coldre. Barbara espia pela janela. Sorri. Corre abrindo a porta. O louro alto e sorridente olha pra ela.

CALVIN: - Barbara Wallace, minha musa fujona!

Barbara pula nele, os dois se abraçam dando um giro. Krycek, incrédulo, guarda a arma no coldre e cruza os braços observando, quase num beiço de ciúmes. Barbara desce do colo de Calvin.

BARBARA: - Eu não acredito! Calvin, você tá maravilhoso!!!

CALVIN: - Sua vizinha não queria me dar seu endereço novo. Por que não avisou os amigos? Pra que tanto mistério, garota?

BARBARA: - Complicado explicar... Mas se tiver tempo...

Barbara percebe Krycek bravo, olhando pros dois.

BARBARA: - Calvin, esse é o Alex, meu namorado.

CALVIN: - (ESTENDE A MÃO) Prazer, Calvin Bryant.

Krycek o cumprimenta. Barbara puxa Calvin pela mão.

BARBARA: -Vem, vamos pra cozinha, tomar um café... Me conta como andam as coisas...

Corte.


Calvin sentado ao balcão, Barbara serve café pra eles. Krycek disfarça, pega o sininho de vento pra instalar, fica desembaraçando os beija-flores dos fios, mas de ouvidos no assunto deles.

BARBARA: -Calvin, ainda tenho uns biscoitinhos daqueles que eu faço e que você adora.

Ela serve os biscoitos, Calvin pega um, levando à boca.

CALVIN: -Saudades desses biscoitos! Você levava pra redação na noite, era o nosso lanchinho... Vocês dois estão juntos há quanto tempo?

BARBARA: - Há uns seis meses, ficamos um bom tempo só na paquera. Encontrei o amor da minha vida, Calvin! Esse russo maravilhoso! Amor, vem tomar café com a gente, deixa isso pra depois!

Krycek senta-se, desconfiado.

CALVIN: - Ele é mais bonito que o Rockfell. Pelo menos você melhorou seu gosto por homens.

BARBARA: - Alex, tira essa cara de ciúmes, Calvin é meu amigo de jornalismo, trabalhamos na RBN juntos.

CALVIN: - É, Alex, tira essa cara de ciúmes. Barbara é minha amiga, foi minha confidente e eu sou gay. Fique relax.

Krycek dá um sorriso, aliviado.

CALVIN: - Ah, você tem um sorriso bonito! Barbara estou há meses atrás de você, preciso da sua ajuda. O que você anda fazendo? Eu sei que saiu da RBN. As fofocas correm. Alguém me disse que você andou expondo segredos do governo naquele caso do ex-agente do FBI que foi preso, e Rockfell não gostou nada disso. Queria estar lá sendo uma mosquinha pra ver a cara daquele infeliz com a Casa Branca fungando no cangote dele.

BARBARA: - O culpado tá sentado do seu lado. Minha fonte.

CALVIN: - Não! Você se apaixonou pelo seu informante? Barbara, isso dá uma ótima história!!! Então você foi a fonte dela nesse caso?

KRYCEK: - É. E por isso mesmo ela teve que se mudar às pressas. Virou alvo. Gente da pesada, como ela escreveu.

CALVIN: - Eu li a ficha do agente...

KRYCEK: - Mulder.

CALVIN: - Isso. Depois que Barbara publicou a denúncia, eu fui procurar informações. Barbara, você tinha uma série inteira de reportagens que iria abalar as estruturas do governo americano e calaram você quando começou a expor segredos. Os Arquivos X foram fechados, reabertos, fechados novamente. As pessoas nem sabem disso! Nem imaginam que parte de seus impostos vai para um porão onde as coisas aconteciam e que esses dois agentes foram tão censurados e perseguidos lá dentro. Não sei como o FBI conseguiu manter segredo desse departamento por tantos anos. Tem muita história pra ser exposta, isso foi apenas a ponta do iceberg!

BARBARA: -Eu sei, Calvin. Eu estava na minha terceira reportagem quando me chamaram no RH. Agora não tenho muito orgulho do que estou fazendo, mas as portas se fecharam, sabe que Rockfell é influente e eu preciso pagar as contas. Apresento um programa semanal no canal comunitário local e uma coluna mensal sobre economia e política na Sexy for Man.

CALVIN: - Barbara, e quem lê? Os caras compram essas revistas para... Desculpe, Alex. Você sabe. Ler é a única coisa que eles não fazem com certeza! Sabe por que saí da RBN.

BARBARA: - Seu pai faleceu, você tinha que tomar a frente nos negócios da família.

CALVIN: - Vendi tudo. O que eu entendo de imóveis? Comprei um jornaleco falido em Harrisburg, na Pensilvânia. Eu já estava namorando o Henry, ele topou e nos mudamos pra lá. Mudamos o formato, o layout, colocamos cores, troquei prensas, melhorei a qualidade do papel, ampliei o foco das reportagens e colunas, contratei fotógrafos e jornalistas, mudei totalmente o jornal, exceto o nome e o logo que já eram conhecidos. Ainda criamos um portal de notícias onde os assinantes tem acesso livre ao conteúdo do jornal e mais alguns bônus. Sabe o que aconteceu? Somos o jornal com mais tiragem e venda no estado inteiro!

BARBARA: - (SORRI) Não brinca! Estou feliz por você, Calvin!

CALVIN: -Depois comprei um canal de televisão local, ainda estou correndo atrás de programas pagos de terceiros e anunciantes, nossa grade de programação própria se limita aos noticiários, desenhos matutinos e filmes na madrugada, até eu conseguir produzir programas próprios. Eu preciso de gente daqui, pertinho de Washington, pra fazer matérias locais para o jornal e entrar ao vivo na edição do noticiário da noite pra falar sobre política. Preciso de uma repórter curiosa, investigativa, competente e experiente na televisão. Alguém de confiança, que trabalha sério, e só conheço uma: Você, Barbara Wallace. Tenho certeza que você vai aumentar a minha audiência.

Krycek sorri olhando pra Barbara, que enche os olhos de lágrimas.

CALVIN: - Barbara, sempre chorona. Vamos voltar a trabalhar juntos? Você pode fazer suas reportagens, enviar por e-mail, colocamos no jornal de papel e no jornal virtual. Fotos você tira. E vai ficar como a nossa correspondente de Washington, você entrará no ar várias vezes durante o noticiário das oito. Com sua ajuda, quem sabe um dia seremos uma rede nacional e dar bofetadas na RBN? Liberdade total pra você, sem censura de matérias, porque nosso lema é mostrar o outro lado da moeda. O que me diz?

BARBARA: -(PREOCUPADA) Alex? O que você acha? Você se importa?

KRYCEK: - (INCRÉDULO) Eu? Barbara, eu só acho que seus olhos estão brilhando de empolgação e vai ser muito tola se não aceitar a oferta do seu amigo. É a sua vida, seu trabalho, você ralou pra isso, eu não tenho que me opor a nada!

CALVIN: - Gostei dele. Então, Barbara? Diga sim e faça nós três felizes! Volte pras telas. Seu público vai agradecer.

BARBARA: - (FELIZ) Sim!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!


7:31 P.M.

Krycek entra sério pela porta dos fundos carregando a mochila, o coldre com a arma e o rifle M16. Coloca sobre a mesa. Pega o rifle.

KRYCEK: - Vamos ter que ser amigos, por mais que eu ame o meu AK. Mas ele é meu, não da polícia. E eu vou precisar de um parceiro americano e não um delator russo.

Krycek larga o rifle na mesa. Pega a 9 mm do coldre. Checa o pente. Coloca a arma no coldre sobre a mesa.

KRYCEK: - Você não vai sair daí, parceira, a menos que eu oficialmente precise de você.

Krycek abre a mochila. Tira outra 9 mm, um silenciador e alguns pentes de balas. Coloca um pente na arma. Depois o silenciador. Ergue a arma, sério, olhando pra ela.

KRYCEK: - Pensei que nunca mais nos veríamos, Srta. Sem Registro. Mas vamos ter que dançar outra valsa juntos, eu e você, como nos velhos tempos... Só nós dois.

Krycek beija a arma.

KRYCEK: -Não me desaponte querida. Dance uma última valsa comigo.

Krycek coloca a arma sobre a mesa. Tira uma calibre 22 pequena da mochila.

KRYCEK: - Olá, bem vinda à turma. Mas você vai fazer companhia pra outra pessoa. Seja boazinha com ela. Ela é importante demais pra mim, entendeu?

Krycek coloca a arma no bolso da jaqueta.

Corte.


Barbara sentada no tapete brincando de chazinho com Victoria. Krycek se recosta na porta e a observa.

VICTORIA: -"Sázinho" bom tia Babie. Qué mais?

BARBARA: -Claro, Tory! Você faz um chá maravilhoso, bem melhor que o meu! Qual o segredo?

VICTORIA: - (SORRI) Amor!

BARBARA: - (SORRI) Ah, mas o amor é segredo pra tudo!!!

Victoria põe as mãos nas pernas, sorrindo.

VICTORIA: - É!

Krycek sorri. Barbara o percebe.

BARBARA: - Ratoncito! Quer tomar um chá?

VICTORIA: - Tio "Tchek"!

Krycek senta-se no chão. Victoria entrega uma xícara pequenina de plástico vazia.

KRYCEK: - Obrigado, Scullyzinha. Barbara, fez o que eu pedi?

BARBARA: - Sim. E a Baba tá lá em cima, aproveitando pra limpar a casa de energias ruins.

KRYCEK: - Não quero vocês na rua. Não abra a porta pra quem não conhece. Nem para receber encomendas, ok? Scullyzinha, seu chá está maravilhoso, mas o tio "Tchek" tem que fazer algumas coisas.

BARBARA: - Alex, a Victoria falou que você cantou pra ela "tusha". O que ela quer dizer com isso?

KRYCEK: -Scullyzinha tem uma memória de elefante! Katyusha. Uma música folclórica russa. Uma polca. É uma história de amor, mas tem um cunho político de guerra.

BARBARA: - Adoro polca!

VICTORIA: - Canta "tusha" neném!!!

BARBARA: - Ah, tio Tchek, você não vai recusar um pedido desses, vai?

KRYCEK: - Eu prometo que canto pra você dormir, ok? Tio Tchek tem umas coisas importantes demais pra fazer agora. A tia Barbara pode procurar na minha mochila, tem um CD de música russa. Você quer ouvir?

Victoria faz que sim com a cabeça. Krycek se levanta. Barbara se levanta. Krycek a leva para longe dos olhos de Victoria.

BARBARA: - Amor, o que tá acontecendo? Por favor, não me esconde as coisas!

KRYCEK: - Sabe os presos que fugiram? São todos mercenários, assassinos de aluguel e caçadores de recompensa. Um deles era Clarson que estava morto na sua varanda. Outro foi pego pelo Górki, que tinha contas a acertar. Um deles matou Sanders, pensando que era eu. Restam sete desgraçados soltos por aí, e a missão deles é matar a todos nós, a resistência.

BARBARA: - (ARREGALA OS OLHOS) O Sindicato...

KRYCEK: - É. Homens mortos não contam histórias, Barbara. Nem contam a verdade... Você ainda tem fé, não tem? Fé em Deus.

BARBARA: - Claro que sim, Ratoncito!

KRYCEK: - Então reza por nós todos, ok? Pede proteção. Tem gente bem ruim fazendo coisas bem malignas, desejando a nossa morte. Por isso quero que fique dentro de casa, com a Baba e a Scullyzinha. O bicho vai pegar. Quando eu não estiver aqui, você vai ter que usar isso. Cuidado, está carregada.

Krycek entrega a calibre 22 pra ela.

BARBARA: - Ratoncito, Scully me ensinou a atirar, mas eu acabo indo pra trás e ainda não tô boa de mira! Na verdade eu nem queria pegar nessa coisa. Confio mais na minha frigideira!

KRYCEK: - Ninguém quer, Barbara. Mas quando é pra salvar os seus, não pense duas vezes. Fica com essa arma, ela é leve e você vai conseguir manusear. Quando isso acabar, eu vou te levar pra um lugar legal e vamos melhorar sua pontaria... Frohike e Langly vão chegar aqui em meia hora. Eu vou tomar um banho, posso?

BARBARA: -Claro que pode! E eu vou preparar o jantar e depois você vai me contar tudinho com detalhes!

KRYCEK: - Barbara, fique longe das janelas, ok? Coloca o CD pra entreter Victoria, não quero ela correndo por aí, eles devem estar de olho. Arrume uns cobertores, lençóis, qualquer coisa, porque vamos cobrir portas e janelas por segurança. Faz um favor pra mim? Entra no meu e-mail e veja se Skinner mandou alguma coisa.

BARBARA: - Avisou todos?

KRYCEK: - Sim, só vamos deixar as raposas fora disso. Não se perturba o acasalamento desses bichos. Pode ser perigoso!

Barbara começa a rir. Krycek sobe as escadas.


Apartamento de Skinner - 7:57 P.M.

Ellen sentada no sofá, passando hidratante nas pernas e assistindo televisão. Skinner tenso, fecha todas as cortinas, com a arma na mão. Ellen joga o hidratante no sofá e desliga a TV.

ELLEN: - Ok! O que está havendo? Primeiro me arranca da cafeteria, depois diz que não posso ir trabalhar, tranca as portas e janelas todas, fica andando armado dentro de casa e agora fecha as cortinas! Pode ir abrindo o bico, Walter Skinner!

SKINNER: - Sete animais soltos lá fora. Com nossos nomes na lista de alvos.

ELLEN: - (ARREGALA OS OLHOS) ....

SKINNER: - Não quero você longe de mim, ok? Começaram a retaliação e dessa vez é contra nós!

ELLEN: - Meu Deus! Precisamos pegar a Victoria e a Baba...

SKINNER: - Krycek está com as duas.

ELLEN: - E Mulder e Scully estão sabendo disso? Eles podem ser alvos fáceis...

SKINNER: - Eles nem sabem que Mulder e Scully estão fora do país. Eles viajaram com passaportes falsos pra não chamar a atenção. Eles têm mais coisas a resolver na Europa que apenas uma lua de mel na Itália.

Ellen se levanta irritada.

ELLEN: - E quando eu ia saber disso? Dana não me contou!

SKINNER: - Porque não era pra contar. Apenas Krycek e eu sabemos. São assuntos pessoais do Mulder que envolve a conspiração toda. Coisas relativas aos antepassados da família dele, Spender e Strughold, segredos enterrados na Alemanha da segunda-guerra. Mulder vai sair da Itália e depois ir pra Alemanha com a Scully pra descobrir coisas. Eles têm um contato em Israel, um rabino que conheceram naquele acidente de avião, que vai encontrá-los em Berlim e ajudá-los com isso.

ELLEN: - Ótimo! E qual o problema se me contassem ou contassem pra Barbara? Ela sabe?

SKINNER: -Não, ela não sabe. E qual o problema se não contaram? Eles queriam que vocês não ficassem preocupadas. Ellen, não que você não seja confiável, ok? É que quanto menos souberem, melhor pra vocês duas. Esses segredos da família Mulder estão diretamente ligados com Spender e Strughold e a genética de Mulder. Você acha que eles pegaram Mulder à toa? Acha que Bill Mulder e Spender foram escolhidos à toa para serem pais do Mulder?

ELLEN: - Pais? Como assim? Mulder tem dois pais biológicos? Isso é impossível! Ou Mulder é uma experiência?

SKINNER: - Agora entende porque é melhor você não saber? O assunto é longo demais pra explicar. Mulder e Scully estão preocupados com Victoria. É por isso que eles querem saber mais.

Skinner senta-se no sofá.

ELLEN: - Você não vai trabalhar!

SKINNER: - Eu não posso deixar de ir pro FBI. Carter me mataria!

ELLEN: - Eu que vou matar o Carter se alguma coisa acontecer com você! Você pegou uma gripe. Uma gripe forte e contagiosa.

SKINNER: - Ellen, Krycek precisa de mim naquele escritório! Eu sou os olhos e ele os braços! Não posso ficar longe agora. Alguém tem que mantê-lo a par das informações e ficar de olhos nos corredores.

ELLEN: - Ô meu Deus! Agora sim estou me sentindo uma X-Women completa! Posso sentir na pele o medo da Dana e da Barbara! Prefiro você lendo relatórios sentado numa sala!!!

SKINNER: -É, eu também prefiro, mas eu não fico apenas lendo relatórios sentado numa sala.

O celular de Skinner toca. Ellen olha nervosa pra ele. Skinner atende.

SKINNER: - (AO CELULAR) Skinner... (DESCONFIADO)... Vou descer.

Skinner desliga e se levanta. Ellen se põe na frente da porta.

ELLEN: - (NERVOSA) Ah, mas não vai descer não! Eu não sei quem é, mas que volte outro dia!

Skinner verifica o pente na arma. Esconde a arma dentro do paletó.

SKINNER: - Ellen, eu tenho que resolver isso, pela segurança de todos. Tranque a porta quando eu sair.

ELLEN: - Quem é? Ahn? Pode me dizer? Caso você apareça morto, eu pelo menos saberei quem foi que matou você pra exigir justiça!

SKINNER: - É o Spender. Está me esperando na garagem do prédio.

ELLEN: - Walter, está louco? É uma cilada!!!

SKINNER: - Ellen, não queira me ensinar o jogo desses homens porque eu estou nesse jogo há muito mais tempo que você.

Ellen suspira. Sai da frente da porta.

ELLEN: - Se quer morrer, problema seu! Eu vou de branco no enterro! Vou rir e vou dançar no seu caixão! Servirei bolo e chá sobre ele! E vou mentir que você nem tinha uma lanterna tão grande assim! E vou dizer ao seu filho que você era um teimoso idiota! E vou arrumar dois garotos de 20 pra colocar na sua cama! E vou gastar minha pensão de viúva com eles!

Skinner olha pra ela e sorri. Ellen abaixa a cabeça. Skinner dá um beijo nela e sai. Ellen tranca a porta e se recosta.

ELLEN: - Meu Deus, a gente nunca vai ter paz nessa droga de vida? Ah, mas eu vou ligar agora pra Barbara, vamos trocar informações! Se tem girafa nervosa no zoológico X, com certeza tem rato nervoso também!


Garagem de Skinner - 8:18 P.M.

Skinner entra no estacionamento. O Canceroso fuma em pé, perto de um carro.

CANCEROSO: - Estão me deixando de lado, como um brinquedo velho, que serve apenas para uma decoração retrô. Agem por minhas costas, sem me consultarem. Desde que Coin chegou, Strughold e Diana Fowley sabem mais do que eu. Ele não confia em mim.

SKINNER: -E poderia? Desde quando você é confiável?

CANCEROSO: - Mulder já deve ter contado a você a real identidade de Coin.

SKINNER: - Sim e só acreditei porque ouvi da boca do Mulder.

CANCEROSO: - Coin é um maldito alienígena infiltrado em nossa organização. Um problema antigo da humanidade, que soava surreal demais para nos preocuparmos. Quem acredita no diabo, senhor Skinner? Eu e Strughold somos os últimos ali dentro, mas não estamos do mesmo lado. E estamos morrendo aos poucos. Extintos como dinossauros.

SKINNER: - Isso me parece bom.

CANCEROSO: - Não é bom. Quando você conhece seu inimigo, sabe como jogar. Quando seu inimigo muda constantemente, você não tem como vencer o jogo. E Coin sabe disso, está mexendo homens no Sindicato. Ele é um general, um estrategista, algo superior a nós, com armas que desconhecemos a tecnologia. E o paradeiro delas.

SKINNER: - (INDIGNADO) Vocês têm tecnologia extraterrestre, não minta pra mim! Suas alianças com raças...

CANCEROSO: -Raças que estão ao lado do Coin, querendo sua fatia da torta ao final da festa. Temos tecnologia pré-histórica extraterrestre, de civilizações muito adiantadas à nós, mas não tão adiantadas quanto a dele. Coin nunca nos daria a tecnologia de Deus e não é por respeitá-lo, é para a sua própria segurança. Skinner, ou você é muito inocente ou realmente tolo demais para compreender o que está havendo. A preocupação agora está em outro nível. Estamos lidando com o próprio diabo. E ele não tem chifres, nem leva sua alma para o inferno. Ele é um militar sanguinário, com inteligência e armas acima de qualquer bomba atômica que você possa imaginar.

SKINNER: - E por que Strughold colocou você de lado sabendo dessas coisas?

CANCEROSO: - (SOPRA A FUMAÇA) Essa é a pergunta do milhão, senhor Skinner. Mas eu darei a resposta. Porque ninguém sabe a natureza dele. Os que tiveram a prova, quando a suspeita foi levantada, não estão mais vivos para contarem a história. Eu sou o último. Eu recebi a moeda e escapei, mas meus dias estão contados.

SKINNER: - Difícil acreditar nisso. Eu sei que Coin pertence ao topo da pirâmide da organização que sustenta vocês todos no poder. É impossível que os que estão no topo com ele não saibam da sua natureza.

CANCEROSO: - (SORRI) Senhor Skinner, o maior truque já realizado pelo diabo não foi convencer o mundo de que ele não existe. Foi convencer o mundo de que ele não está entre nós, mas num inferno mítico... Eu não me importo com nenhum de vocês. Me importo com Mulder e a família dele.

SKINNER: - Você não se importa com ninguém! Suas intenções de proteção são por interesse genético em Mulder e Victoria.

CANCEROSO: - Está enganado, senhor Skinner. E eu não preciso provar nada pra ninguém. Estou correndo riscos por dar essa informação a você. Finja que não me viu.

O Canceroso entrega um bilhete para Skinner. Skinner pega o bilhete e o lê, enquanto o Canceroso se afasta,sumindo na escuridão. Skinner guarda o bilhete e caminha até o elevador.

Do fundo da escuridão do estacionamento, Leviathan sai. Abre um sorriso debochado.


Residência de Barbara Wallace - 8:37 P.M.

[Som: Katyusha]

Close no sininho de vento com beija-flores coloridos, pendurado na varanda. As luzes todas do quintal acesas. Barbara e Baba sentadas à mesa, jantando. Victoria na sala de estar íntimo, em pé, apoiada no sofá e dançando. Baba e Barbara a observam, aos risos. Ela nem liga, continua rebolando e tentando dançar.

BARBARA: - Coisa linda! Nada como uma criança pra alegrar a vida!

BABA: - É verdade. Victoria me faz esquecer dos problemas. Tem horas que esqueço que ela é uma criança, porque parece tão madura pra idade. Curiosa com tudo, adora música, adora que leiam pra ela, contem histórias, qualquer coisa a distrai. Ela parece entender as coisas que a gente explica pra ela. Tem vezes que penso que ela tem computador incrível naquela cabecinha, só adicionando dados para depois os traduzir... Nunca incomoda, acorda rindo, dorme rindo... Quando dorme. Agora anda dormindo mais, mas se tem folia e barulho, pronto! Arrumou parceira pra festa.

BARBARA: -Ela é especial. Tem uma energia boa nela. Não porque seja criança, mas é uma coisa diferente, não dá pra explicar.

BABA: - Um pedacinho do céu?

BARBARA: - Isso! É como um anjinho de luz. Ela brilha, traz paz... Só sinto coisas boas com ela. Obrigada por tirar as energias ruins da casa. Não gosto de mortos na minha porta. Me sinto melhor agora com vocês duas aqui.

VICTORIA: - (EMPOLGADA) Tusha, Baba!!!

BARBARA: - Tem certeza de que ela é filha do Mulder, mesmo? Alex não tem nada a ver com isso?

As duas riem.

BARBARA: - Acho que é a sonoridade da língua, uma coisa forte. Eu também gosto.

Frohike passa em direção à varanda, carregando uma caixa.

FROHIKE: - (DEBOCHADO) Hey! É assim que os russos cantam, sempre termina com: Hey!

VICTORIA: - Hey!!!

BABA: - Ele não vai jantar?

BARBARA: - Vou deixar um prato no microondas. Isso vai longe!

Krycek entra na cozinha, falando ao celular, segurando o rifle M16.

KRYCEK: - (AO CELULAR) Tá tudo bem, Mulder. Tudo aqui está tranquilo.

Baba e Barbara se entreolham debochadas. Krycek coloca o rifle em cima da geladeira.

KRYCEK: - (AO CELULAR) Nenhuma novidade, um tédio só...

Langly passa com a escada. Frohike volta com um rolo de fios.

KRYCEK: - (AO CELULAR) Não, tudo em perfeita ordem. Pode ficar tranquilo, Mulder... Sim, Baba e Victoria estão aqui, a Barbara sente-se sozinha, eu trabalho à noite... Não, Mulder. Victoria está bem... Está dançando música russa... (DEBOCHADO) Ela herdou os genes russos paternos.

Krycek rindo abaixa o celular. Escuta-se Mulder gritando e xingando. Krycek entrega pra Baba.

KRYCEK: - Meu "amorzinho" quer falar com você. Ele não me ama mais.

BABA: - (AO CELULAR) Fala, narigudo... Sim, está tudo tranquilo aqui. Um mar de rosas... Mulder, sua filha já tomou banho, jantou, está dançando e se divertindo muito! Faça o mesmo com a Scully e pare de ligar, ocupe sua boca com a ruiva! Bye!!!

Baba desliga. Entrega o celular pra Krycek.

BABA: - É assim que precisa fazer ou ele vai ficar ligando o tempo todo. A Scully eu atendo, ela liga todo o dia de noite, mas o Mulder liga o dia inteiro! Parece criança!

BARBARA: - Tem certeza de que não querem jantar?

FROHIKE: - Não.

LANGLY: - Depois aceito um sanduíche.

Os três vão pro jardim. Barbara ergue os ombros.

BABA: - Não era mais seguro contratar pessoas especializadas em segurança residencial?

BARBARA: - Eu acho, mas o Ratoncito tá com pressa e todos estão com as agendas cheias.

Krycek volta pra cozinha.

KRYCEK: - Preciso desligar a geral da casa. Vou mexer na eletricidade.

BABA: - Meu Senhor, eu só espero que ninguém morra eletrocutado por aqui!!!

Langly dá um grito. Baba põe a mão no peito, olhos arregalados.

FROHIKE: - (GRITA DO JARDIM) Não foi nada! O idiota só caiu da escada!

Victoria começa a rir sem parar, cai sentada no chão de tanto rir.

BABA: - Espero sobreviver a essa noite. E espero que a bruxinha durma, porque com tanta gente e coisa acontecendo na volta, ela não vai querer ficar fora da bagunça.

BARBARA: - Bando de covardes que matam crianças, mulheres e até grávidas. Susanne está uma pilha de nervos. Ellen me ligou quase tendo uma catarse, porque Skinner decidiu que é melhor eles ficarem no FBI. Acho que nenhum de nós vai conseguir dormir enquanto esses caras estiverem soltos. Só o Mulder e a Scully ainda sabem o que é sono. Também eles merecem, né?

BABA: - É, eles merecem, porque sempre que acontecia alguma coisa, os dois tomavam à frente. Agora temos o Krycek. Daqui à pouco, sou eu quem vai ter que aprender a atirar...

Frohike entra.

FROHIKE: - Eu defenderei você, minha donzela núbia!

Baba olha incrédula pra ele.

BABA: - Do quê? De um ataque de formigas cibernéticas?

Barbara solta uma risada. Frohike revira algumas ferramentas.

FROHIKE: - Bem vejo que desconhece o cavalheirismo e o romantismo de um baixinho. Sabia que tamanho não é documento?

BABA: - Depende.

FROHIKE: - Nem todo grande é grande, nem todo o pequeno é pequeno. E nos pequenos frascos se escodem os melhores perfumes, sabia?

Barbara fica surpresa. Apoia a mão no cotovelo, sobre a mesa, admirando eles.

BABA: - (DEBOCHADA) Vem cá, nanico, você tá me cantando?

FROHIKE: - Estou dizendo que sou um homem concentrado. Embalagem pequena para um coração grande.

Baba ergue a sobrancelha, incrédula.

FROHIKE: - Então, Pérola Negra, que tipo de música você gosta?

Krycek passa rindo por Frohike e dá um tapinha nas costas dele. Abre a geladeira e pega cervejas. Abre uma cerveja observando a cena.

BABA: - Gosto de jazz, blues e logicamente rock'n roll. Por que quer saber? Vai tocar um xilofone infantil pra mim?

FROHIKE: -Não... Acho que o tempo está esfriando. Vou vestir minha jaqueta de couro.

Krycek pisca pra Frohike e faz sinal de positivo.


Hotel Vaudeville- 9:15 P.M.

Skinner e uma dúzia de agentes avançam armados, com coletes à prova de balas, e em formação tática pelo corredor do hotel até a porta de um quarto. Skinner sinaliza. Um agente chuta a porta, eles entram com rifles apontados. O quarto vazio.

SKINNER: - Verifiquem os outros!

Skinner checa o banheiro apontando a arma. Ninguém. Um dos agentes entra no quarto.

AGENTE DO FBI: - Nada, senhor. Se os foragidos estavam aqui, já foram embora.

Skinner abaixa a arma e fica irritado.



BLOCO 4:

Residência de Barbara Wallace -9:46 P.M.

As portas de vidro cobertas com cobertores e lençóis. Krycek sentado na sala de estar íntimo, segurando a pistola com silenciador. Barbara entra.

BARBARA: -Você viu o Frohike? Impressão minha ou ele tá a fim da Baba?

KRYCEK: - É, eu vi. Estou tão surpreso quanto você! Achei que era palhaçada dele quando dava indiretas pra ela na casa do Mulder.

BARBARA: - Sabe que eles combinam? A Baba se manteve na linha, mas no fundo, eu acho que ela gostou. Que mulher não gostaria?

KRYCEK: - Ah não, lá vem o Mulder baixando em você? Vai virar casamenteira também? Por que vocês dois não colocam uma agência de namoros?

BARBARA: - Fala sério, Ratoncito! Você não acha bonito quando duas almas se encontram? Quem sabe esses dois se encontraram? Hum?

KRYCEK: - Quem sabe? Importa que ele use a jaqueta de couro. Vamos ver no que vai dar.

Barbara olha desconfiada pra ele.

KRYCEK: - (RINDO)Quê?

BARBARA: - (SÉRIA) Só presta atenção: eu vou checar aquela sua jaqueta todos os dias, feito um perito em busca de evidências criminais. Entendeu?

KRYCEK: - A jaqueta é apenas embalagem. O conteúdo é todo seu.

BARBARA: - É, mas eu compro o conteúdo e ele vem dentro da embalagem, portanto a embalagem também me pertence!

KRYCEK: - (PROVOCANDO) Você não é nada ecológica, Malyshka. Não sabe o que é reciclar?

BARBARA: - Sei. Se eu sentir perfume, encontrar marca de batom e sei lá mais ou quê, eu vou reciclar você inteirinho com uma tesoura. E vou começar cortando a pontinha do Tetra-Pak!

Krycek abaixa a cabeça, rindo. Ela ri com ele.

BARBARA: - Baba foi fazer a Victoria dormir. Fiz como você pediu, coloquei um colchão no corredor. Não fica muito confortável...

KRYCEK: -Mas fica bem mais seguro. Mesmo com cortinas, eles podem calcular a altura da cama e atirar contra a janela acertando as duas. Sua casa agora tem alarmes, câmeras e lasers no jardim, que disparam quando acionados. Você pode monitorar do escritório no porão, dessa TV aqui ou na do quarto. Vá dormir, Malyshka.

BARBARA: - Vou ficar com você. Vou descer e pegar meu notebook. Enquanto você fica aí, eu vou revirar o celular do Rockfell. Eles querem guerra, não é? Então vamos direto ao topo da conspiração. Ficar de braços cruzados não vai ajudar você.

KRYCEK: - ... Pobre da Amanda, precisava ver os filhos deles... Não tem o que falar numa hora dessas, sabe? Eles se davam tão bem como casal. Tudo que pude fazer é jurar que vou pegar o cara que matou o Sanders.

BARBARA: - ... Deus, eu nem sei o que faria se perdesse você, grandão!

KRYCEK: - Eu sei que a gente devia estar comemorando que você conseguiu um emprego decente fazendo o que gosta...

BARBARA: - Vamos ter tempo pra isso. Hoje você perdeu seu parceiro e estamos no meio de uma situação tensa da qual nossas vidas dependem única e exclusivamente de você. É muita pressão pra um homem só. Quer relaxar?

KRYCEK: - Querer eu quero, mas relaxar agora é perigoso.

BARBARA: - Então mantenha sua testosterona alta, Ratoncito, porque eu realmente tô com medo desses caras. Temos uma criança lá em cima. Eu jamais me perdoaria se eles a levassem.

KRYCEK: - Vão ter que me matar primeiro pra colocarem as mãos nela. Quem jamais se perdoaria sou eu. Devo isso àqueles dois e vou proteger a única chance que eles tiveram.

Barbara senta-se ao lado dele, se abraçando nele. Krycek envolve o braço nela.

KRYCEK: - Quando eu era pequeno, mama me fazia rezar toda a noite com ela... Você acredita em desígnios divinos?

BARBARA: - Lógico que sim. Todos nós temos uma missão aqui para cumprir. Por que a pergunta?

KRYCEK: - É que eu não compreendo como até hoje, das tantas vezes que tentaram me matar, ou daquela vez que quase morri pra salvar o Mulder... Porque eu não morri. Por que Deus poupa gente ruim como eu? E por que continua poupando? Será que é Deus quem poupa mesmo? Ou é o acaso? Talvez o próprio Coin proteja os maus para fazerem seu serviço... Talvez seja apenas uma amostra em vida do inferno que me espera depois da morte. Deus nunca gostou de mim.

BARBARA: - Alex, você tá começando a cair de novo. Sanders se foi, é duro, eu sei, mas acontece com pessoas boas e pessoas ruins. Eu acho que você devia voltar a ter fé. Fé ajuda muito. Fé em Deus e fé em você.

KRYCEK: - Eu quero coisas impossíveis, Barbara. Quero me perdoar. Quero não sentir mais culpa das coisas erradas que fiz.

BARBARA: - Alex, as pessoas perdoaram você, Deus perdoou você. Precisa se perdoar. Sentir culpa não vai fazer você pagar seus pecados com eles. Nem se matar vai fazer isso.

KRYCEK: - E o que vai fazer isso?

BARBARA: - O tempo, Alex. O melhor remédio para as feridas que não cicatrizam. Eu sei que está bancando o homem, querendo defender sua mulher, a filha do seu amigo, os amigos do seu amigo. Isso é culpa. Não faça isso por culpa. Faça isso por justiça, tanto pra você quanto para o Mulder e a Scully, o Skinner e todos que você atingiu alguma vez.

KRYCEK: - E pra você, Malyshka? Farei pelo quê?

BARBARA: - (SORRI) Você sabe...

KRYCEK: - Malyshka, um assunto sério, de casal. Se você cansar das suas pílulas, me avise que eu uso proteção. Eu sei que você quer filhos, mas eu não quero.

Barbara olha incrédula pra ele.

KRYCEK: - Não quero. Não mesmo.

BARBARA: - Por quê?

KRYCEK: - Olha a nossa volta e veja se posso pensar em arriscar a vida de mais alguém? Tem uma criança lá em cima, eles nem ligam pra isso! Dá pra ter uma vida normal? Nunca teremos sossego com essa gente viva!

BARBARA: - Alex... Mulder tem razão quando diz que não podemos deixar de viver por causa daqueles homens!

KRYCEK: - Agora eu sinto na carne o que Mulder e Scully passaram. Pelo menos agora eles tem um a menos atrás deles: Eu. Mas do que adianta, eles contratam outros!

Krycek se levanta, perturbado.

KRYCEK: - Eu vou matar todos eles. Um por um. Eu juro que vou fazer isso. Enquanto aqueles homens estiverem vivos nunca teremos paz!

BARBARA: - É? Vai virar um justiceiro tipo Charles Bronson em Desejo de Matar? Pra cada um que você matar, eles vão colocar outro na cadeira do Sindicato!

KRYCEK: - (IRRITADO) Que coloquem! Eu vou continuar matando! Até esquecerem de nós! Eu sou o único que pode fazer isso! Eu sou um profissional, sei como armar emboscada, como matar sem deixar pistas, sei onde enterrar corpos! Skinner não pode, ele é diretor-assistente do FBI, não vai jogar sua aposentadoria no lixo! Aqueles três também não podem, eles nem sabem usar uma arma! Mulder não vai conseguir, ele não tem estrutura emocional pra isso!

BARBARA: - Alex, por favor, não vamos começar de novo, tá? Você não pode acabar com todos eles, sempre vai surgir outro, como numa maldita engrenagem! Você está abalado, perdeu seu parceiro, está sentindo a pressão de nos defender e...

KRYCEK: - Merda!!! Eu tô enlouquecendo!!! Eu quero matar um!!!

Krycek tira o silenciador da arma e coloca no bolso. Guarda a arma atrás das calças. Desliga o alarme e sai pra fora, deixando a porta aberta. Barbara fica nervosa. Krycek volta com uma marreta. Barbara arregala os olhos. Ele fecha a porta e aciona o alarme. Coloca a marreta no balcão.

KRYCEK: - Quer ampliar sua cozinha? Porque eu preciso descontar meu ódio em alguma coisa!!!

Krycek, tomado de ódio, começa puxar a geladeira que não sai do lugar. Barbara corre fechando a porta que dá acesso à sala e às escadas.

BARBARA: - Espero que não acorde a Baba e a Victoria...

Krycek insiste, puxa pra frente, mas a geladeira não se move.

KRYCEK: - Você colou essa porcaria no chão?

BARBARA: - Não! Já veio com a casa! A cozinha toda já estava aí!

KRYCEK: - Droga! Tem alguma coisa trancando essa geladeira. Me dá uma lanterna, antes que eu acerte a marreta nessa coisa!

Barbara tira uma lanterna da gaveta e entrega pra ele. Krycek se deita no chão e mira a lanterna debaixo da geladeira.

KRYCEK: - Que droga é essa? Odeio essas modernidades!

Krycek se levanta. Entrega a lanterna pra ela.

BARBARA: - O que tem aí?

KRYCEK: - Algum tipo de mecanismo, talvez pra facilitar a limpeza atrás dos móveis.

Krycek empurra a geladeira pro lado. A geladeira se move. Os dois arregalam os olhos.

Close no buraco na parede.

Krycek e Barbara se olham incrédulos.

Corte.


Barbara aponta a lanterna e espia pra dentro do buraco na parede.

BARBARA: - Realmente, é uma escada de metal redonda num espaço vazio. Que reforma fizeram aqui? Aposto que dá no porão!

KRYCEK: - Legal. Os idiotas queriam eliminar uma escada e fizeram paredes? E por que iam deixar esse buraco? ... Não, tem coisa aí. Não faz sentido.

Krycek pega a lanterna das mãos dela e entra no buraco. Barbara entra também. Krycek ilumina pra cima.

KRYCEK: -A escada vai para cima e para o porão.

BARBARA: - Mas não tem escada no nosso quarto! Espera... O closet fica aí em cima! Essa escada dá no closet? Mas nunca vi uma porta lá!

Krycek ilumina a escada e vai descendo. Barbara o segue. Eles descem um lance de escadas.

BARBARA: - Ratoncito, já estamos no porão e a escada continua.

Os dois continuam descendo. Terminam num espaço vazio com um longo corredor. Krycek ilumina com a lanterna.

KRYCEK: - Tem um interruptor aqui.

Krycek liga. As luzes vão se acendendo pelo corredor, revelando ao fundo uma porta de metal vermelha.Os dois entram no corredor.

BARBARA: - Legal. O mistério só aumenta. Por que alguém faria uma passagem secreta numa casa?

KRYCEK: - E pelo jeito ninguém passa por aqui há anos. Tem teias de aranha, cuidado com o seu cabelo.

BARBARA: - O casal, de quem comprei essa casa, foram os primeiros a morarem aqui, pelo que George me contou. Então nem deviam saber desse lugar!

Krycek ilumina a lanterna observando as vigas, colunas, paredes e o teto.

KRYCEK: - Concreto firme, estrutura forte e típica de um búnquer. Lembra muito as estruturas feitas no subsolo das instalações militares russas. Suportavam peso de andares em cima delas, feitas para resistirem a ataques de bombas e mísseis. Mesmo que o prédio inteiro desmoronasse por cima, quem estivesse lá embaixo sobreviveria ileso... Estamos debaixo da casa. Indo em direção ao jardim da frente... (EMPOLGADO) Passando pelo jardim da frente... Incrível!

BARBARA: - Que loucura, Ratoncito! Pra quê uma coisa militar dessas debaixo de uma casa?

Os dois param diante da porta com uma tranca atravessada. Um par de chaves pendurado ao lado. Krycek olha pra Barbara.

KRYCEK: - Que porcaria é essa?

BARBARA: - (EMPOLGADA) Eu não sei, mas confesso que estou curiosa!!!

Krycek retira a tranca. Pega as chaves e coloca na fechadura. Puxa a arma.

KRYCEK: - Agora vamos sair no quarto do maluco da família que ficava acorrentado aqui.

BARBARA: - Alex!!! Isso não tem graça!!!

Krycek coloca o ouvido na porta.

BARBARA: - O que está ouvindo?

KRYCEK: - (INCRÉDULO) Água?

Krycek gira a chave, tenta abrir a porta emperrada. Usa mais força. A porta se abre. Os dois saem na galeria pluvial da rua. Krycek vai mirando a lanterna.

KRYCEK: - Estamos debaixo da rua.

BARBARA: - Qual a necessidade disso, Alex? Uma saída secreta para uma fuga rápida pelos esgotos? Onde vai dar esse esgoto?

KRYCEK: - Não sei, mas vamos descobrir.

Krycek guarda a arma, mira a lanterna e caminha pela calçada ao lado da água. Barbara o segue.

BARBARA: - Hum... Comprei uma casa com segredos.

KRYCEK: - É. E eu gostei desse segredo, me deixou bem mais tranquilo. Caso alguém entre na sua casa, você tem onde se esconder ou pra onde fugir... Só quero ver aonde é a saída.

Krycek mira a lanterna pra parede. Uma escada. Mira a lanterna pra cima. Um bueiro.

KRYCEK: - (SORRI) Eis a resposta. Quer descobrir aonde vai dar isso?

BARBARA: - Que pergunta pra fazer a uma jornalista, Alex Krycek! É claro!!! E eu vou na frente!!!

Barbara sobe a escada. Krycek sobe atrás dela, iluminando com a lanterna pra cima.

KRYCEK: - Malyshka, que visão maravilhosa eu tenho daqui. Adoro vermelho comunista.

BARBARA: - Ratoncito cafajeste! Tira os olhos da minha bunda! Ai, Alex, não tenho força pra empurrar essa tampa.

Krycek se espreme com ela e empurra a tampa. Barbara espia primeiro.

BARBARA: - Alex, estamos na esquina.

KRYCEK: - Sai pra fora, Barbara. Me deixa sair.

Ela sai. Krycek sai logo em seguida. Os dois ficam parados na esquina. Krycek olha em direção a casa dela.

KRYCEK: - Muito bem bolado! Nota dez pro cara que fez isso. Tá vendo a sua casa?

BARBARA: - Não dá pra ver. Tem árvores na calçada e a casa é recuada da rua.

KRYCEK: - O que oculta uma fuga. Cara esperto! Vamos voltar pelo esgoto.

BARBARA: - (DEBOCHADA) Casal de ratos, por onde mais andariam? É a casa perfeita pra gente! Temos um esgoto todinho só pra nós, Ratoncito!

Corte.


Os dois caminham pelo esgoto.

BARBARA: - Ratoncito, estou pensando numa coisa. Nada sabemos sobre o arquiteto dessa casa. Exceto que ele fez também a casa do Mulder, que era pra ele e a esposa morarem. E a nossa casa era pra sogra dele.

Krycek para em frente a porta vermelha. Mira a lanterna pro outro lado da rua. Apenas paredes de concreto. Krycek fecha a porta vermelha. Por fora ela é de concreto. Krycek a fecha. A porta se confunde com a parede.

KRYCEK: - Esse cara é um gênio! Quando fechamos a porta, parece que não há porta aqui, apenas parede de concreto. Ele calculou que se a companhia de água e esgoto entrasse nessa galeria, ninguém teria como descobrir essa saída... Acho que a raposa ainda não descobriu que também tem uma passagem secreta na casa dele.

BARBARA: - Meu Deus! Só pode ser, está de frente pra nossa, do outro lado da rua. Alex, quem é esse arquiteto? Um bandido, um mafioso ou um louco esperando o fim do mundo?

KRYCEK: - Eu não sei, mas fiquei fã desse cara. Eu apostaria com você que ele é militar ou trabalhou para militares. Vou começar a cuidar quando o Mulder sai. E quando ele sair e eu estiver sozinho, posso entrar na casa do Mulder sem ninguém me ver e me encontrar com a Scully às escondidas.

Barbara dá um empurrão nele. Krycek começa a rir.

BARBARA: - É? A recíproca é verdadeira. Quando estiver me sentindo sozinha de noite, vou chamar o Mulder pra me fazer companhia. A Nancy não vai poder nos delatar.

KRYCEK: - Ah é? Acha o Mulder interessante?

BARBARA: - (PROVOCANDO) É. Acho.

KRYCEK: - Sei... É aquela cara de vira-lata pedinte que ele faz, deixando as mulheres com o instinto materno explodindo. Afinal, que mulher não se rende a um animal abandonado?

BARBARA: - (SEGURA O RISO) Tá com ciúmes, Ratoncito?

KRYCEK: - (DEBOCHADO) Nenhum pouco. Sei que o Mulder não me trairia.

BARBARA: - Fica tranquilo. Eu prefiro roedores fofinhos. As pessoas têm asco dos ratinhos, mas eles são espertos, inteligentes, companheiros, amorosos e... (PISCA O OLHO PRA ELE) Adoram brincar muito.

KRYCEK: - Vai comprar uma rodinha gigante pra eu correr nela o dia inteiro?

BARBARA: - Sabe que é uma ideia interessante, amor? Você ficaria malhadão enquanto eu mantenho você em cativeiro pra sempre! Será que fazem gaiolas gigantes?

Krycek segura o riso. Os dois entram. Krycek tranca a porta novamente.

KRYCEK: - Bom, quando estiver em perigo, empurre a geladeira. E puxe de volta. Ninguém nunca vai sacar essa saída de emergência. Quando o Mulder voltar, vamos descobrir o que tem na geladeira dele além de cerveja. Lamento, Malyshka, mas sua cozinha vai continuar pequena.

BARBARA: - Que se dane a cozinha! Pelo menos me sinto mais segura tendo um escape. Vamos subir e ver onde isso dá no closet? Talvez tenha uma entrada secreta na parede do porão.

KRYCEK: - Provavelmente. Rotas de fuga em todos os andares.


Residência dos Mulder - 11:25 P.M.

O quarto de casal na penumbra. Dois volumes sobre a cama, cobertos com o edredom. A porta do quarto abre lentamente. O Mercenário #3 e o Mercenário #4 entram, em roupas pretas, luvas e toucas ninjas. Miram as armas com silenciadores e disparam várias vezes na cama.

O Mercenário #3 cai ao chão. O Mercenário #4 se assusta, olha para o chão e depois vira o rosto para o lado. A bala acerta no meio da testa e ele cai morto.

Krycek sai do canto escuro, vestido todo de preto, segurando a arma com o silenciador, usando luvas de couro. Acende a luz do abajur. Os travesseiros e o edredom sobre a cama completamente perfurados. Krycek respira fundo. Observa os corpos dos mercenários mortos. Depois vai até a janela, abre a cortina e observa a casa de Barbara com as luzes acesas. Então se afasta. Apaga a luz do abajur e passa sobre os dois corpos caídos na porta do quarto. Krycek puxa o celular do bolso. Aperta um tecla.

KRYCEK: - (AO CELULAR) ... Chambers, é o Checov. Ouvi tiros no meu vizinho, aquele que está viajando e que dois caras tentaram invadir a casa dele... Estou indo até lá checar o que está acontecendo... Sim, envie reforços.

Krycek desliga. Guarda o celular.

KRYCEK: - "Amante", hora de dormir.

Krycek tira o silenciador da arma sem registro e guarda no bolso. Esconde a arma dentro da jaqueta. Tira as luvas, olhando para os dois mortos, num olhar frio. Guarda as luvas no bolso. Puxa a arma do coldre que está usando por baixo da jaqueta.

KRYCEK: - Vamos lá "esposa". Hora de acordar, precisa marcar presença pra polícia. Que policial entra numa casa suspeita de arrombamento estando desarmado?

Krycek puxa seu celular e aperta uma tecla.

KRYCEK: - (AO CELULAR) Frohike? Me escuta, tive uma ideia... Peguei dois na casa do Mulder... Sim, mortos e se Mulder e Scully estivessem em casa, nunca mais acordariam... Olha, vou agitar as coisas com a polícia. O procedimento policial você sabe, vai levar horas, e esses caras não são idiotas de tentarem nos pegar com a polícia aqui na rua. Skinner e Ellen estão seguros no FBI, mas vocês estão longe nós. Eu vou dizer o que vocês vão fazer...

Som de sirenes de polícia.


Residência de Barbara Wallace -1:43 A.M.

Barbara sentada à mesa da sala de jantar, pesquisando no notebook. O celular de Rockfell ao lado. Baba lendo um maço de folhas, sentada perto de Barbara. Victoria com um pirulito na boca, no colo de Krycek (ainda vestido de preto), que está em pé e também tem um pirulito na boca.

KRYCEK: - Gostou?

VICTORIA: - Sim! É guinho!

KRYCEK: - Guinho?

BABA: - Moranguinho.

KRYCEK: - Ah! É de "guinho" sim.E quem não gosta de doces?

BABA: - Agora é que ela não volta a dormir mesmo, se empanturrando de açúcar.

KRYCEK: - Ah, só um docinho não causa insônia. Melhora até o humor. Só não pode tirar o palitinho do pirulito. Se colocar essa bolinha de açúcar sozinha na boca, você pode engasgar, sabia? Aí vai ficar sem ar, vai passar mal...

VICTORIA: - Num qué gasgar não!

Barbara olha pra Baba.

BARBARA: - (COCHICHA) Deixa Victoria mais vezes aqui. O "não quero ter filhos" pode acabar mudando de ideia.

Baba segura o riso. Krycek se afasta delas, andando com Victoria no colo.

KRYCEK: - Tio Tchek já cantou "tusha", deu doce e depois a Victoria vai dormir.

VICTORIA: -(BEIÇO) Qué domir não, tio Tchek... Neném num tá sono.

KRYCEK: - Mas tem que dormir. O corpo e a mente precisam do sono. Nas crianças mais ainda, pra elas crescerem fortes e inteligentes...

VICTORIA: - Tá dodói?

KRYCEK: - Eu? Dodói? (SORRI) Não.

VICTORIA: - Tá sim!

Victoria aponta pro coração dele. Krycek olha pra ela, surpreso.

KRYCEK: -Eu sei que você é muito especial. Tipo um anjo nesse mundo. Mas sei que também é pequena e ainda inocente da maldade que existe aqui. Se pudesse entender quem sou e o que já fiz contra seus pais... Um dia você vai crescer. Espero que não me odeie, porque a lista é grande.

VICTORIA: - Papai ama tio Tchek. Neném ama também.

KRYCEK: - (RINDO) Ah! Eu sei que o Mulder me ama mesmo!

VICTORIA: - Nah Ox. (APONTA PRA CIMA) Oto papai!

Krycek tira o pirulito da boca, olha incrédulo pra ela. Victoria boceja, segura o pirulito com a mão e se abraça no pescoço dele. Krycek perde a reação, enchendo os olhos de lágrimas.

BABA: - Estou impressionada com esse rascunho, Barbara. O livro é ótimo. Você tem futuro.

BARBARA: - (SORRI) Só digitei. Ele foi escrito pelo pai do Alex. Estamos querendo publicar os escritos inéditos e fazer novas edições dos livros antigos dele.

BABA: - Sério?

BARBARA: - Agora só falta os escritos em russo. Preciso que o tradutor tenha um tempinho.

BABA: - Acho que o tradutor leva jeito com criança. Distraiu a cabeça completamente.

Barbara olha apaixonada pra Krycek que está com o pirulito no canto da boca e embalando Victoria, que abraçada no pescoço dele, já está quase dormindo, segurando o pirulito na mão melecada de doce. Barbara sorri.

BARBARA: - Acho que ele daria um ótimo pai. Teve um bom exemplo de amor paterno. Aposto que tentaria ser melhor ainda.

BABA: - O que tiver de ser, será. Deus sabe das coisas.

BARBARA: - Um filho seria bom pra ele. Esqueceria os problemas, aumentaria a autoestima e com certeza o colocaria na linha. Um homem muda quando tem um filho.

BABA: - Com certeza. Bom, acho que não vamos mais acordar com sirenes de polícia na rua. Vou colocar a bruxinha no colchão e vou dormir também. Amanhã ela acorda cedo, com toda a energia que eu já não tenho dormindo bem. Imagina quando não durmo direito.

Baba se levanta. Pega Victoria dos braços de Krycek.

BABA: - Boa noite pra vocês.

KRYCEK: - Boa noite, Baba.

BARBARA: - Bons sonhos!

Baba sai. Krycek pega a arma com silenciador de cima da TV e deita-se no sofá do estar íntimo, segurando a arma e olhando para o teto, com o pirulito no canto da boca. A expressão dele agora é de perturbação. Barbara continua seus afazeres.

BARBARA: -Não vai mesmo me dizer o que aconteceu na casa do Mulder enquanto você estava por lá e por que seus amigos da polícia chegaram com sirenes ligadas, isolaram a casa e acordaram a vizinhança inteira? A Nancy vai ter assunto por semanas.

KRYCEK: - (TIRA O PIRULITO DA BOCA) Isso é bom, assim os caras que querem nos matar não tentarão nada por aqui, até a confusão na rua acabar e a polícia ir embora.

BARBARA: - Lembra da nossa brincadeira do frio ou quente? Alguém morreu?

KRYCEK: - (COLOCA O PIRULITO NA BOCA) ... Quente.

BARBARA: - Matadores de aluguel?

KRYCEK: - ... Quente.

BARBARA: - Você é o policial encarregado do caso?

KRYCEK: - ...

BARBARA: - ???

KRYCEK: - Quente.

BARBARA: - ... Preciso de um café. Quer?

KRYCEK: - Não.

Barbara se levanta. Ele senta-se no sofá e a observa calado e com receio. Ela se aproxima e tira o pirulito da boca de Krycek.

BARBARA: - Acho que preciso de um doce.

Ela coloca o pirulito na boca e senta-se à mesa. Pega o celular e começa a mexer. Krycek fica desconfiado.

KRYCEK: - Quer falar alguma coisa? Ou só vai roubar o meu doce como punição?

BARBARA: - Quero falar sim.

KRYCEK: - (TENSO) Ok. Fale.

BARBARA: -Por que troca de arma a toda hora? Não dá pra pôr o bagulhinho da ponta na outra?

KRYCEK: - O bagulhinho se chama silenciador. Uma é amante, outra esposa.

Barbara vira-se pra ele, sem entender.

KRYCEK: - Não posso atirar de surpresa nesses caras com a minha arma de policial, isso me incriminaria. A esposa dorme então. Já a amante não tem registro, pode ser de qualquer um, não me liga ao assassinato. O silenciador é apenas para eu não confundir as duas na hora do vamos ver. Porque a adrenalina sobe numa situação de vida ou morte, você foca na sua sobrevivência e é onde os erros cruciais acontecem.

BARBARA: - Legal saber que tem uma esposa e uma amante bem "fogosas". Só espero que nenhuma delas leve você à morte.

KRYCEK: - Acho mais fácil morrer de tesão pela namorada, a mais fogosa de todas. Essa sim pode acabar comigo.

Barbara vira-se pra ele, séria, o encarando. Krycek fica tenso, olhando pra ela e esperando a bronca. Barbara, olhando pra ele, leva o pirulito à frente da boca, circula a língua nele sensualmente e depois o abocanha, chupando e puxando de volta num estalo. Dá uma lambida. Krycek revira os olhos, levando a mão ao peito, caindo de costas no sofá. Barbara coloca o pirulito na boca e vira-se pra mesa, pegando o celular de Rockfell e procurando contatos.

KRYCEK: - Aceitaria sua proposta, mas não posso desviar a atenção. Então não me tente.

BARBARA: - Se sobrevivermos quando isso acabar, você vai ver o tamanho da fome que eu tenho pelo que você tem grande e duro dentro dessas calças.

KRYCEK: - Garota, aprenda uma coisa: Homens são totalmente sensoriais. Então encerra o assunto antes que eu tenha uma ereção e me descuide do que realmente importa hoje, ou seja, as nossas vidas. Quando isso acabar, eu vou te mostrar o poderio de fogo soviético. Você vai esquecer aquele seu ex americano rapidinho.

BARBARA: - Ô garoto, aprenda que as mulheres também são muito sensoriais, ok? Então não me excita com coisas sujas, porque toda mulher gosta de sujeira sussurrada ao ouvido, e eu me excito fácil, você sabe disso. E não quero ter que correr pro quarto e brincar sozinha imaginando você. E se não der tempo, eu faço aqui na sua frente mesmo.

KRYCEK: - Vamos nós dois encerrar o assunto porque as cenas estão passando nas nossas cabeças e isso não vai nos ajudar em nada agora. Queria ter uns dias sozinho com você, sem trabalho ou preocupações, só pra extravasar esse tesão todo acumulado dentro da gente.

BARBARA: - Nada é pra sempre, uma hora dessas a gente consegue... Ah se eu tivesse tido acesso a esse celular quando estava com o Rockfell. Tem um monte de mulher nessa agenda!

KRYCEK: - Então forneci vingança pra você, Malyshka?

BARBARA: - Com certeza. A vingança tarda, mas não falha. Vou ignorar essas vadias, não creio que o clube do bolinha lá aceite meninas.

KRYCEK: - O Sindicato aceita.

BARBARA: - Ah, mas fala sério que "Mary Hot-Ass" pode ser codinome de conspiradora?

Krycek começa a rir.

BARBARA: - No máximo a especialidade da Mary "Rabo-Quente" é queimar pintos com a bunda. Não creio que seja um perigo pra nação, mas ela entrará certamente para os "anais" históricos. Quer dizer, vão entrar nos anais históricos dela.

Krycek ri mais ainda.

BARBARA: - (SURPRESA) Não acredito! A Kate? (BEIÇO) Que cadela vadia!!! Essa desgraçada era minha colega de redação!!! Falsa cretina!!!

Krycek vira-se de lado, apoiando a cabeça na mão e olhando pra ela.

BARBARA: - (BEIÇO) Aqui, outra asquerosa e mentirosa. A Nat... Cadela no cio, bem desconfiava quando ela ficava falando dele pelos corredores e encerrava o assunto quando eu chegava... Vaca do inferno! Bando de piranhas! Quem será Tessa 24X48? (ASSUSTADA) Isso não é um tamanho de pênis, neh?

Krycek não se aguenta e ri mais ainda.

KRYCEK: - (RINDO) Malyshka, 24 por 48 significa escala de trabalho! Tá maluca é?

BARBARA: - Ah! Bom, essa, pelo jeito, tem uma escala de trabalho sem folga. A única coisa folgada nela devem ser as cavidades corporais...

Krycek coloca a mão na barriga, de tanto rir.

BARBARA: - (BEIÇO) Mas é o Mr. "Passa o Rodo Geral"! Até parece que Rockfell é isso tudo!!! Olha, nem quero saber de mais nada! Vou me ater só aos homens aqui, antes que eu vomite lembrando que transei com esse doente pervertido! Que nojo!!! Só tem vadia nesse celular!!!

KRYCEK: - Malyshka... Adoro ver você brava, sabia? Fica sexy fazendo esse beiço irritado.

BARBARA: - É? Mas não queira me ver brava. Eu não fico perseguindo e vigiando, eu confio em você. Mas se aprontar, já sabe. Vai ter mais que beiço. Vai tomar uns tabefes bem dados e uma surra com o meu guarda-chuva. Você e a piranha vão apanhar juntos!

KRYCEK: - (SORRI BOBO) Não tem piranha nessa história. Pode olhar meu celular. Eu dei a senha do meu e-mail pra você pegar meus recados. Não gosto muito de computador.

BARBARA: - Eu confio em você, não acho legal mexer no seu celular, isso é invasão de privacidade... Mas admito, eu pensei mesmo que a Sasha era uma vadia, falando de filhos seus e dizendo que era sua irmã... Aí eu desconfiei! Você não tem irmãos!

KRYCEK: - Pobre da freira! Eu não tenho filhos por aí, sempre fui muito cuidadoso, exceto por uma vez. Estou descuidado é com você, mas...

BARBARA: - O que quer dizer com isso, Alex Krycek? A gente conversou, combinou e eu preferi pílulas porque fiquei com peninha de você que nunca teve uma mulher apenas sua, tendo que viver plastificado e afinal de contas isso está durando mais que uma noite! Aqui, meu filho, você pode confiar, é seu uso exclusivo! Tá desconfiando, é? Não preciso segurar namorado arrumando barriga!

KRYCEK: - Calma garota! Eu não disse isso. Você nem me deixa terminar a frase! Eu disse que estou descuidado é com você, mas porque combinamos assim. Você sabe que filhos não fazem parte do meu vocabulário.

BARBARA: - Ok, vamos falar nisso.

KRYCEK: - Não quero falar nisso.

BARBARA: - Mas eu quero falar nisso! Caso você enjoe de mim e resolva saltar fora, vai me prometer que pelo menos vai me deixar um ratinho ou uma ratinha. Dois seria melhor ainda!

KRYCEK: - (INCRÉDULO) Você tá maluca? Acha que é assim fazer um filho e cair fora? Tá me chamando de doador de esperma?

BARBARA: - Estou aqui apostando a minha vida, as minhas fichas em você. Eu quero um filho, nunca escondi isso. Ainda tenho idade pra conceber. Aí você cai fora em cinco anos e diminui as minhas chances? Aonde vou achar outro pai pro meu bebê a tempo? Não mesmo! Quando quiser cair fora me avisa e me deixa um bebê, porque eu vou sentir menos raiva de você!

KRYCEK: - Garota, você é totalmente maluca mesmo! Acha que por eu ser homem, fazer um filho não é nada? É algo do tipo, antes de você ir embora, pode deixar o cachorro comigo?

BARBARA: - Não temos cachorro. Ainda. Estou falando de um bebê. E estou sendo honesta e sincera em dizer que nunca se sabe o dia de amanhã. Você pode achar outra mais interessante...

KRYCEK: - Que outra mais interessante, garota? Hum? Eu nunca conheci outra mulher tão interessante quanto você, a prova disso é que não quero nem ir embora! Acredita em mim, eu não tô mentindo pra você. Malyshka, eu tô apaixonado. Não tenho olhos pra ninguém mais. Eu tô bobo, andando nas nuvens, feito um moleque que arruma a primeira namorada.

BARBARA: - Mas você é um moleque que arrumou a primeira namorada. Espero que seja esperto e não a perca. Porque só vai aprontar uma vez. Quando a confiança morre, o amor nunca mais será como já foi um dia, mesmo que seja perdoado.

KRYCEK: - Ah, eu sei bem sobre esse assunto. Eu não quero isso de novo na minha vida. Garota, eu não sou um moleque, ok? Eu sou um homem! Eu não sou os caras da sua idade que ainda querem farra porque são solteiros ou porque casaram cedo demais. Eu não estou aqui tirando a sua juventude pra farrear com você, pra depois que você passar dos 40 anos eu chutar você e arrumar outra mais nova! É mais fácil você cansar de mim quando eu ficar mais velho, porque eu vou envelhecer dez anos antes de você.

BARBARA: - É? E eu vou ficar gorda, flácida, com estrias e quero ver você sentir alguma coisa por mim.

KRYCEK: - Ah certo! E eu vou ficar garotão a vida toda! E tudo que vejo em você é o seu corpo. Malyshka, você tá me ofendendo, sabia? A gente tá praticamente dividindo uma vida juntos!

BARBARA: - Estamos mesmo?

KRYCEK: - Sabia que ia terminar no "você não vem morar aqui". Já expliquei pra você. Vamos com calma. Sabe o que são etapas?

BARBARA: - Sei e concordei, só estou esclarecendo algumas coisas. Prefiro a honestidade.

KRYCEK: - Eu sou honesto com você. Eu já cheguei na sua vida cansado de estar sozinho. Maduro. Decidido a mudar de vida, a tentar ter alguém ao meu lado. Se eu quisesse farra não dava seu números pra recados, concorda?

Ela sorri boba. Amassa um papel e atira a bolinha de papel nele.

BARBARA: - Arrependido? Ratoncito achou sarna pra se coçar?

KRYCEK: - Nenhum pouco. Onde encontraria outra doida que se apaixonaria por Alex Krycek? Só uma louca de pedra mesmo!

BARBARA: - ... Ratoncito, a louca de pedra encontrou aqui doze iniciais seguidas com a letra "O" mais o número 13. BAAO13, deve ser B.A. Alberthi. Com ele são doze nomes, e se o Alberthi está incluso, Rockfell está, sendo então ele o número 13. Alguns números de telefone são internacionais.

KRYCEK: - Só pode ser a máfia deles, o topo da pirâmide! São em treze então. "O 13" será um código? Uma abreviatura? Uma empresa, organização...

BARBARA: - Não achei nada na internet com essa sigla, o que então significa que realmente estamos na pista certa. São em treze. Organização dos treze?

KRYCEK: - Pode ser... Não creio que apenas americanos façam parte disso. A coisa é global. Eles chefiam os sindicatos pelos países.

BARBARA: - Então vamos nos ater a esses onze desconhecidos. Pelos prefixos dos números temos Londres, Dubai, Coréia do Sul, China... Vou verificar os outros... Ai, amor, o Skinner já mandou a lista com a ficha dos mercenários!

Krycek se levanta rapidamente. Senta-se ao lado dela. O celular dele toca. Krycek atende.

KRYCEK: - (AO CELULAR) Fala, Skinner...

Corte.


Skinner parado no corredor do FBI. Observa para todos os lados, com cautela.

SKINNER: - (AO CELULAR) Recebeu? ... Sabe o que fazer. Fui contatado pelo Spender. Ele me confirmou nomes e me deu números de quartos num hotel. Não havia ninguém lá. Ele armou pra mim.

KRYCEK (OFF): - Espera... Spender pessoalmente deu essa informação pra você? Isso é sério?

SKINNER: - (AO CELULAR) Sim. E novamente me enganaram.

KRYCEK (OFF): - Acho que não, Skinner. Armaram pra cima dele. Spender está sendo colocado em xeque dentro da organização. Se ele pessoalmente bancou o informante, a coisa deve estar pegando fogo lá dentro. E eles já devem saber que ele deu a informação pra você. Foi uma jogada estratégica para expor Spender.

SKINNER: - (AO CELULAR) Eu levei uma bronca homérica do Carter e do Kersh. Faz sentido pra você que eu, um diretor-assistente, não deveria ter pego agentes e verificado uma denúncia sobre a localização de foragidos perigosos? A única preocupação deles era saber quem havia feito a denúncia!

KRYCEK (OFF): - Faz bastante sentido. Você entregou o velho? Me diz que não.

SKINNER: - (AO CELULAR) Não. Disse que recebi uma denúncia anônima por telefone.

KRYCEK (OFF): - Fez bem. Agora ele nos deve um favor. Inverteu o jogo, Skinner. É assim que se joga com esses caras. Você não pode blefar. E a Ellen, como está?

SKINNER: - (AO CELULAR) Está na minha sala dormindo no sofá. Ainda acho o FBI o local mais seguro. Aqui dentro não tentarão nada... Krycek, leia o currículo desses atiradores. Faz você parecer amador. Todos foram militares, com exceção daquele agente do FBI.

KRYCEK (OFF): - Também fui militar, Skinner. Estamos à altura. Fique aí, mantenha os olhos abertos e cuide da sua mulher. Eu cuido do resto.

Skinner desliga. Diana Fowley passa por ele. Skinner disfarça e a acompanha com os olhos.


Corta para Krycek. Ele desliga o celular. O celular toca. Krycek olha para o visor, não é o dele. Barbara percebe que é o celular de Rockfell. Krycek corre até a mesa. Os dois olham para o número e o nome que surge: RRO13. Eles se entreolham.

BARBARA: - Atendo?

KRYCEK: - Não. Deixa tocar. Se atender, mesmo que não diga nada, saberão que alguém está com esse telefone e vai atrair a atenção. É melhor que pensem que está perdido, esquecido num canto.

BARBARA: - Amor, e se eles rastrearem o aparelho? Rockfell já deve estar maluco porque perdeu isso, entende?

O celular continua tocando.

KRYCEK: - Deve ser importante. Achei que ele já tivesse avisado a todos que perdeu o celular. Pra nossa sorte, o RRO13 não sabe ainda. Eu não creio que Rockfell esteja preocupado com o celular perdido, ele não me viu no hotel, não percebeu que eu roubei, e isso nas mãos de qualquer um não teria significado e os nomes que importam estão abreviados por segurança.

O celular insiste até parar.

BARBARA: - Bom, com certeza não é o celular de trabalho, porque se fosse, tocaria de minuto em minuto. Com exceção das duas vadias da RBN, não vi nenhum nome de jornalista, editor, políticos, escritórios da empresa e essas coisas que eu sei que ele teria nos contatos dele. Esse é o número da diversão e negócios escusos. Ele nem vai querer rastrear mesmo. Já deve até ter comprado outro! Só deve estar se lamentando por perder o número das vagabundas como a Mary Rabo-Quente.

KRYCEK: - Não temos nomes, mas temos as iniciais deles e o número de telefone. Vamos dar mais um dia pra ver quem liga e depois destruímos esse aparelho, por precaução. Guarda tudo isso anotado, meu amor. Da onde é esse número?

Barbara mexe no celular.

BARBARA: - Coreia do Sul. Temos um coreano na jogada... Ou não? Não conheço nomes coreanos com R...

KRYCEK: - Não importa. Importa que ele é um dos treze. Faltam dez.

BARBARA: - Alex, eu joguei todos esses números na internet. Nem constam em listas. São privados. Se constassem, eu ligaria de um celular descartável pra cada um, como se fosse engano, tentando descobrir quem está falando. O problema aqui é que se são números privados, é engano em demasia, justamente quando Rockfell perdeu o celular. Vamos ter que ser cautelosos. Eu ligo pra um numa semana, dou um tempo, ligo pra outro. Pode levar meses e talvez nem descubra quem são!

KRYCEK: - Eu confio no seu faro jornalístico. Deixo pra você descobrir isso. Seja prudente. Eles não podem saber que sabemos da existência deles. Vão sumir rapidinho. Ou mandar um pelotão de mercenários e aí, Malyshka, eu precisaria de um exército comigo!

O celular toca novamente. Krycek percebe que é o dele. Olha para o visor. Fica nervoso. Barbara olha pra ele, num olhar tenso e preocupado. Krycek atende.

KRYCEK: - (AO CELULAR) Fala Frohike... Estou indo. Continue como combinamos e fique longe das janelas.

Krycek desliga. Veste apressadamente a jaqueta de couro. Pega o coldre com a arma e pendura no ombro. Barbara o observa, olhos marejados. Krycek pega a arma com o silenciador e verifica o pente. Esconde a arma atrás das calças. Veste as luvas de couro. Barbara vai até ele.

BARBARA: - Alex... Não vou fazer perguntas que você não pode responder. Só promete que vai voltar vivo pra mim, meu pistoleiro. Pega aqueles seus duzentos cavalos de motor, faz o que tem que fazer e volta correndo pro seu rancho, tá? Eu estou aqui esperando por você.

Krycek abraça Barbara, beija-lhe a cabeça, fechando os olhos e a mantendo contra seu peito. Ela se abraça nele, quase chorando.

KRYCEK: - Eu prometo que vou tomar cuidado, Malyshka.

Barbara enche ele de beijos, o adorando. Ele se afasta dela, angustiado.

KRYCEK: - Ligue os alarmes quando eu sair. E qualquer coisa, empurre a geladeira e se esconda com a Baba e a Victoria.

Ele desliga o alarme e sai. Barbara liga o alarme novamente, ouvindo a picape dele partir. Ela se escora na porta, descendo o corpo até cair sentada, chorando com as mãos no rosto.


Sede dos Pistoleiros Solitários - 3:14 A.M.

Cortinas abertas, luzes acesas. Langly segura uma caneca, mãos trêmulas. Frohike digita alguma coisa no computador e Byers agachado espia pela janela. Silêncio completo. Susanne grávida, afastada da janela e nervosa, sentada numa poltrona, passa a mão na barriga. Frohike olha pra ela, preocupado.

FROHIKE: - Devia estar descansando. Essa criança está quase nascendo.

SUSANNE: - Não consigo. Estou com medo de dormir e nunca mais acordar. É desconfortável pra mim a ideia de confiar minha vida nas mãos de uma pessoa que já tentou me matar.

Byers vai até ela, puxa um banquinho e senta-se de frente pra Susanne, segurando as mãos dela nas dele, olhando em seus olhos.

BYERS: - Susanne, confia, tá? Krycek realmente mudou. E eu quero que ele chegue rápido aqui porque aqueles caras lá fora, estão se preparando. Eles é que são o nosso problema.Não fica nervosa assim, a Julie sente tudo o que você tá sentindo.

FROHIKE: - (IRRITADO) Mas você realmente sabe como acalmar uma mulher grávida! Quem sabe liga a televisão no Discovery ID, acho que ela não ouviu sobre morte o suficiente!

LANGLY: - É verdade, eu já li isso sobre os bebês sentirem as emoções das mães.

FROHIKE: - E desde quando você se interessa por bebês?

LANGLY: - Eu me interesso por tudo que seja interessante. Achei interessante. Não posso achar bebês interessantes?

FROHIKE: - Aprenda a trocar fraldas, isso seria interessante.


Corta para a rua. Os Mercenários #5 e #6 observam a casa, sentados dentro do carro, enquanto colocam munição nas armas. Descem do carro. Caminham se esgueirando pelo jardim até a porta dos fundos. O Mercenário #5 tenta abrir a porta, mas está trancada. Ele tira uma chave micha do bolso, se agacha e a coloca na fechadura. O Mercenário #6 fica atento, olhando ao redor.

Som do tiro que transpassa a cabeça do Mercenário #6 que cai morto ao chão. O Mercenário #5 solta a arma e se levanta, erguendo as mãos.

O sujeito de preto, com touca ninja e luvas de couro sai detrás do jardim. Aproxima-se, mirando a pistola com um silenciador. O Mercenário #5 sorri.

MERCENÁRIO #5: - É... Pelo visto somos colegas. Qual de vocês é um traidor, além do Clarson? O que vai ganhar a mais com isso? Vai me matar? Quer o bônus todo só pra você? Isso não é uma atitude profissional.

O sujeito tira a touca ninja, revelando ser Krycek, que mantém a arma apontada para o rosto do mercenário.

KRYCEK: - Eu sou profissional.

MERCENÁRIO #5: - Foi o Sindicato, não foi? Eu sabia que eles não nos deixariam vivos, só não imaginava que começariam a nos matar antes mesmo de terminar o serviço. Eu cubro o valor que lhe ofereceram.

KRYCEK: - Sabe que não funciona assim. Isso também não é nada profissional. Arruína sua reputação nesse meio. Não foram eles. Estou aqui em causa própria.

MERCENÁRIO #5: - O que quer? Informações?

KRYCEK: - Você vai tirar meu tempo contando mentiras. Vai enrolar até seus parceiros terminarem o serviço todo. Eu sei como funciona.

MERCENÁRIO #5: - Juro que não. Eu só quero dar o fora daqui.

KRYCEK: - Há uma ordem de execução nessa lista?

MERCENÁRIO #5: - ... Abaixa essa arma e a gente conversa.

KRYCEK: - Vou perguntar novamente: Há uma ordem de execução nessa lista? Se for esperto vai me dizer a verdade. E eu prometo que não vou matar você.

MERCENÁRIO #5: - Sabe que não vou dizer a verdade, assim como eu sei que você está mentindo.

KRYCEK: - Eu estou na sua lista. Por isso estou dizendo que se me contar o que preciso saber, eu livro o seu rabo. Não faço mais esse tipo de serviço. Estou aposentado.

MERCENÁRIO #5: - (SORRI) Então você é Alex Krycek, o russo traidor. Ninguém se aposenta vivo em nosso ramo. Você nunca vai parar. É maior que você.

KRYCEK: - A lista e a ordem dos alvos.

O Mercenário #5 se agacha rapidamente pegando a arma. Krycek é mais rápido e atira na cabeça dele. O sujeito cai morto.

KRYCEK: - Tem razão. Não tem como parar. Mesmo que você queira.

Corte.

Frohike espia pelo olho mágico da porta. Tira todas as trancas e abre a porta. Krycek tira as luvas de couro.

KRYCEK: - Não vá até os fundos da casa. Não vai gostar do que tem lá.

Frohike respira aliviado. Langly se aproxima deles. Susanne se abraça em Byers, assustada.

KRYCEK: - Não relaxem na vigilância ainda. Existem mais três. Continuem trancados dentro de casa, mantenham as portas, janelas e cortinas fechadas e não fiquem na frente das janelas, nem durmam em suas camas.

FROHIKE: - Pensei que estava maluco quando aceitei sua ideia de bancarmos os alvos fáceis deixando as cortinas abertas. Entra.

KRYCEK: - Não. Prestem atenção: Vocês não me conhecem, eu não conheço vocês. Ninguém pode nos associar um ao outro. Um de vocês vai ligar agora para a polícia. Meus colegas vão atender a chamada, vão me ligar porque o caso é meu, e eu vou ser um dos que vai chegar na ocorrência. Vocês não viram nada. Só ouviram barulhos no jardim e quando abriram a porta havia dois presuntos lá atrás. O resto, eu resolvo.

LANGLY: - E isso é legal?

KRYCEK: - Não tem como haver legalidade. A lei está dormindo pra gente. Podem provar que soltaram esses caras para nos matarem? Porque precisam provar, ou a lei não vai mover um dedo pra nos proteger e resolver a situação. Se fosse assim, eu estaria aqui com meu distintivo, fazendo isso da forma legal.

FROHIKE: - Não podemos provar. Vão perguntar por que nos querem mortos e vamos ser honestos na resposta. Vamos dizer que uma conspiração dentro do governo americano nos quer calados porque sabemos da existência deles e das coisas que fazem contra o povo.

BYERS: - O máximo que a lei faria por nós seria nos internar num manicômio. Alex tem razão. Não tem como haver legalidade na nossa situação. Ou Alex resolve e salva nossas vidas, ou vamos morrer um por um esperando por uma justiça que não está do nosso lado.

KRYCEK: - Algumas vezes precisamos mentir pra sobreviver, mesmo que não concordemos com mentiras. As pessoas não estão prontas pra verdade.

Krycek dá as costas.

SUSANNE: - Alex!

Krycek se vira. Susanne, com a mão na barriga, olha agradecida pra ele.

SUSANNE: - Obrigada, Alex. Salvou nossas vidas e a da minha filha.

KRYCEK: -Eu já fui pago pra encontrar e matar você, Susanne. Não me agradeça. É um débito que preciso pagar.

FROHIKE: - Acho que já pagou todas as suas dívidas. Não acha?

KRYCEK: - Não. Nunca vou conseguir pagar.


3:41 A.M.

Policiais isolam o jardim. Krycek se aproxima, usando o coldre, sem jaqueta, mostrando o distintivo.

KRYCEK: - Alex Krycek, homicídios. O que temos aí?

POLICIAL: - Os moradores relataram que ouviram barulhos no jardim e um deles saiu pra ver o que era e encontrou esses dois caras mortos. Parecem atiradores profissionais.

KRYCEK: - Estamos atrás de assassinos foragidos de Rockville. Podem ser dois deles. Peça para patrulharem a área. Provavelmente houve um desentendimento com algum colega.

POLICIAL: - Sim, senhor.

O Policial se afasta. Krycek olha para os dois mortos. Chambers se aproxima.

CHAMBERS: - Que bom que chegou! Estava colhendo o depoimento das testemunhas.

KRYCEK: - Serviço de profissional. Deveria haver um terceiro aqui. Já pedi para patrulharem a área atrás do cara.

CHAMBERS: - Pensei a mesma coisa. Devem ser os caras que fugiram da prisão, colegas daqueles que invadiram a casa do seu amigo, por isso liguei pra você, o caso é seu. Sabe como é, Checov, uma hora eles sempre se desentendem. Já chamei a perícia para recolher as provas. Eu sei que não pode me dizer por que estão atrás de você, mas como seu amigo também era do FBI, eu calculo que são caras zangados que vocês dois devem ter colocado na prisão. Mas sabe por que estão atrás de três malucos de uma revista mais maluca do que eles?

KRYCEK: - Não sei ainda, mas vou descobrir. Consegue resolver essa merda? Deixei minha garota sozinha e estou preocupado com ela.

CHAMBERS: - Deixa comigo. E toma cuidado, Checov.

Krycek se afasta. Chambers agacha-se observando os mortos. Krycek entra na picape. Pega o celular e aperta uma tecla.

KRYCEK: - (AO CELULAR) Dois a menos, Skinner. Faltam três. Não feche os olhos ainda... Está sob controle, é problema da polícia e não dos federais. Permaneça seguro no FBI, mas tranque a porta do seu escritório. Eles não seriam loucos de matar você aí dentro, mas conhece a palava desespero...

Krycek desliga. Aperta outra tecla.

KRYCEK: - (AO CELULAR) Barbara? ... Sim, estou bem... Sim, eles estão bem. Já vou chegar em casa. Fica tranquila, tá? ... Malyshka, não chora, tá tudo bem. Olha, quem sabe você esquenta o jantar pro seu namorado? Hum? (SORRI) ... Eu também te amo. Já tô saindo daqui.


Residência de Barbara Wallace - 4:19 A.M.

Lençóis e colchas cobrindo as portas de vidro. Krycek sentado no sofá do estar íntimo, de olhos fechados, cabelos molhados, pés descalços, calças jeans e sem camisa. A arma com silenciador na mão. Barbara sentada à mesa da sala de jantar, digitando algo no notebook. Leva a caneca de café à boca. Olha pra Krycek seriamente. Volta a atenção para o notebook.

KRYCEK: - Eu sei que você sabe que fiz novamente o que prometi não fazer nunca mais. E duas vezes numa só noite. E não vou esconder isso de você. Eu matei quatro caras hoje, com uma arma não registrada. E restam três. E eu vou matá-los. Prendê-los é perda de tempo, o Sindicato vai matá-los antes que abram a boca pra testemunhar a nosso favor. Eles já são homens mortos. Como eu sou.

BARBARA: - ...

KRYCEK: - Eu sei que vai falar duas horas sem parar, mesmo que eu diga que foi por uma boa causa, pra salvar pessoas inocentes. Pessoas com as quais eu tenho um débito eterno, por toda a maldita merda que já fiz contra elas.

BARBARA: - Não vou dizer nada, Alex. Fez o que deveria fazer. Salvou nossos amigos, uma mulher e um bebê que nem nasceu ainda. E tenho certeza de que eles matariam Mulder e Scully se estivessem naquela casa hoje.

KRYCEK: - Então por que está tão séria?

BARBARA: - Porque o destino sempre empurra você pra essas coisas. Você sempre tem que pegar o serviço sujo. O sangue sempre tem que correr pelas suas mãos.

KRYCEK: - E correria pelas mãos de quem? Quem mais poderia fazer isso?

BARBARA: - Ninguém e por isso estou brava.

KRYCEK: - Não será pra sempre, Malyshka. Eu prometo.

BARBARA: - Tenho medo da sua promessa, porque sei o que pensa em fazer, você mesmo me disse. Eu não direi mais nada, Alex. Só quero que volte vivo pra mim. Minha contribuição para essa causa serão as minhas reportagens, estou na ativa novamente. E quando isso acabar, vamos treinar tiro. Eu preciso ter uma arma na minha bolsa, porque o meu Grandão não pode estar o tempo todo do meu lado para me proteger. Nem é justo com ele.

Krycek se levanta. Coloca a arma com o silenciador no sofá. Puxa a cadeira e senta-se ao lado dela.

KRYCEK: - Malyshka, vem aqui, vem.

Barbara senta-se no colo dele, de frente pra ele, abraçando-se nele e derrubando lágrimas.

BARBARA: - Só promete que vai voltar pra mim. Só isso.

Ela começa a chorar no ombro dele. Krycek envolve o braço nela e afaga-lhe os cabelos.

KRYCEK: - Eu vou ficar sempre esperto, pra voltar pra você. É o que eu posso prometer.

BARBARA: - Eu amo você demais, Ratoncito. Meu coração fica apertado quando essas coisas acontecem. Eu nem tenho tanto medo de você ser policial, arriscar sua vida todos os dias. O meu maior medo é desses homens matarem você.

KRYCEK: - Barbara, olha pra mim.

Barbara olha pra ele, secando as lágrimas.

KRYCEK: - Na Rússia há um ditado que diz:Se você perseguir duas lebres, não agarrará nenhuma. Eu já fiz a minha escolha. E você sabe qual é.

Krycek a envolve nos braços. Baba entra, dá meia volta.

BABA: - Ops... Hora errada...

BARBARA: - (SORRI) Não. Tudo bem. (SECA AS LÁGRIMAS) Só tava desabafando.

Barbara sai do colo de Krycek.

KRYCEK: - Conhece sanguessuga? Até pra desabafar tem que estar colada na vítima.

BARBARA: - Mas eu sou nanica, se eu não colar, não consigo olhar nos seus olhos!

BABA: - Pelo menos vocês são um casal silencioso, diferente de certo casal barulhento que eu conheço... Confesso, eu tô com saudade daqueles dois. Posso pegar um café?

BARBARA: - Claro. Me serve um também? A noite vai ser longa!

Baba serve dois cafés em canecas.

BABA: - Não durmo direito há dias. Krycek, confio em você tanto quanto confio no Mulder, mas realmente eu tenho tido dificuldades pra dormir. Essa gente é perigosa, tem energia ruim, me arrepio toda só de falar. Tenho tido visões de gente morta que eu não conheço... Quer um café também?

KRYCEK: - Não.Baba, pode dormir tranquila. Qualquer coisa que pisar nesse quintal vai acionar o alarme.

BABA: - E se for o gato da Nancy?

KRYCEK: - Azar do gato. Não mandei entrar na toca dos ratos.

BARBARA: - Alex, afinal de contas, por que o Mulder chama você de rato? Por que esse apelido?

KRYCEK: - Por causa do meu sobrenome. Alguns pronunciam "krytchek" outros "krysek", depende da região russa. A pronúncia de ratazana em russo soa "krysek".

BABA: - Enigma resolvido. Não sei como vocês russos se entendem com essa língua esquisita. Barbara você fala russo ou Krycek fala espanhol? A coisa deve ser complicada nessa casa.

BARBARA: - Nos entendemos só no inglês mesmo. Ah, mas na hora de ralar a mandioca, não tem língua que não compreenda!

Baba começa a rir.Entrega a caneca pra Barbara.

KRYCEK: - (RINDO) Como é que é? Ralar a mandioca?

BARBARA: - Ralar a mandioca. Sabe né? A mandioca lembra...

KRYCEK: - (RINDO) Eu sei a que mandioca lembra, Malyshka! Só achei engraçado essa expressão.

BARBARA: - É como a gente fala em Cuba. Por que, na Rússia vocês não têm uma expressão pra ralar a mandioca?

KRYCEK: - Lysogo v kolake gonyay.

BABA: - Tenho até medo de perguntar o significado!

BARBARA: - Ah, mas eu pergunto!

KRYCEK: - Não, é muito vulgar!

BARBARA: - Ah não! Pode falar. É mais vulgar que ralar a mandioca?

KRYCEK: - É bem mais direto. Algo como "guiar o careca com o punho".

BARBARA: - O que tem o Skinner?

Baba e Krycek começam a rir dela. Barbara tentando entender.

BABA: - (RINDO) Essa eu vou contar pro Mulder. Ele vai fazer piada disso por um ano!!!

A bala atravessa o lençol na porta de vidro raspando no braço de Baba, fazendo-a deixar a caneca de café cair ao chão. Krycek arregala os olhos, se atira em cima de Baba, a empurrando para o chão, enquanto a segunda bala transpassa a perna de Krycek. Barbara se apavora e grita.

KRYCEK: - (AOS GRITOS) Corram lá pra cima!!!!!!!!!!!!!! Barbara, o closet!!!

BARBARA: - Ratoncito, você tá ferido!!!

KRYCEK: - (GRITA) Agora!!!!!!!!!!!! Peguem Victoria e se escondam!!!!!!

Uma terceira bala passa rente aos cabelos de Barbara, acertando a parede. Barbara ajuda Baba a se levantar e a puxa pela mão. As duas sobem as escadas correndo. Krycek se arrasta e pega o rifle M16 escorado na parede.

KRYCEK: - (ÓDIO) Venham seus filhos da puta! Acham que só tem mulher aqui dentro, vão ter uma surpresinha!

Krycek se recosta na parede da cozinha e consegue se erguer, mancando. Fica escondido atrás da parede e espia atento a porta de vidro do estar íntimo. Uma rajada de balas atravessa, quebrando os vidros. Os alarmes da casa disparam todos. Krycek se agacha. O Mercenário #7 entra apontando um rifle com mira telescópica.

MERCENÁRIO #7: - (ASSOVIA) Ei, jornalista linguaruda dos peitinhos gostosos! Sua língua é tão grande quando a sua bundinha que você exibe o dia todo nessa casa?

Krycek fica com mais raiva.

MERCENÁRIO #7: - Eu passei dias observando você. Sou seu fã apaixonado, Wallace! Não sabe quantas vezes eu bati uma na prisão olhando pra você na TV... Eu sei que você está em casa com a empregada e a menina, não vai querer brincar de esconde-esconde comigo. Saiam do esconderijo. Vou matar as duas de qualquer jeito, mas posso pensar em poupar sua vida se me oferecer algo bem agradável em troca. E eu estou precisando muito disso!

Krycek mira o rifle com ódio e atira, pegando de raspão no ombro do sujeito. Ele, assustado, recua de costas, disparando pra todo o lado. Krycek se joga no chão. Atira contra o sujeito, que se joga atrás do balcão da cozinha. Apenas uma parede divide os dois.

MERCENÁRIO #7: - Alex Krycek, é você?

KRYCEK: - Quem é você?

MERCENÁRIO #7: - Jackson Scooter, ou mais conhecido por Jack Shooter.

O Mercenário #7 sentado no chão se recosta contra o armário, mantendo o rifle em posição, olhando para a parede, calculando alguma coisa.

KRYCEK: - Trabalhamos juntos para o Sindicato em Estocolmo. Você ferrou nossa missão quando desviou o foco do alvo e resolveu estuprar a vizinha do cara! Eu tive que abandonar a missão às pressas, e só saí desapercebido porque estava no prédio da frente, esperando o alvo chegar, quando vi pela mira do rifle a merda que você começou a fazer!

MERCENÁRIO #7: - (RINDO) Você sempre foi um viadinho, Alex Krycek. Eu sempre desconfiei que era um chupador de rolas. A gostosatava ali, seminua, pedindo há dias com aquele biquíni, tomando banho de sol todas as manhãs na varanda, nos provocando... Eu só ia dar um trato nela e voltar pra missão. Um de nós precisava dar o que ela queria! E já que você não era macho pra isso...

KRYCEK: - (ÓDIO) Ela não tava pedindo nada, seu doente! Ela nem sabia que a gente estava lá! A garota tava na casa dela levando a vida dela! Você ficou observando a moça e não o alvo! Perdeu duas chances de matar o cara! Continua um maldito tarado imbecil que pensa com o pau! Ela começou a gritar e você atirou na pobre garota e alertou os vizinhos todos!

MERCENÁRIO #7: - Espero que entenda que estou aqui e não é nada pessoal.

KRYCEK: - Nunca é pessoal... Exceto que você bateu uma pensando na minha mulher!

MERCENÁRIO #7: - Não sabia que era sua mulher, achei que você nem gostasse da fruta. Se soubesse, eu tinha comido antes.

KRYCEK: - Não vai conseguir me desestabilizar. Eu não vou perder a cabeça e cometer um erro... Quanto vão pagar? Por cabeça ou por pacote?

O Mercenário #7 acende um cigarro. Krycek encosta a orelha na parede, tentando descobrir a localização dele.

MERCENÁRIO #7: - Ambos. Pacote de damas a cem e pacote de otários a cem. Diretor-Assistente do FBI a duzentos. Trezentos mil pela sua cabeça e mais trezentos pela do Mulder. Duzentos pelo sequestro da criança. Nos dividimos pra fazer o trabalho mais rápido, dividir a grana e cair fora.

KRYCEK: - Você tá na pior pra pegar uma missão dessas por tão pouco. Um milhão e duzentos dividido por nove... Não dá pra se aposentar bem com 133 mil.

MERCENÁRIO #7: - Mais meio milhão pra cada quando o serviço terminar. Com 633 mil, carona pra fora do país e identidade nova, dá pra começar uma vida mansa em algum lugar remoto do Pacífico. Bem melhor que apodrecer naquela prisão. Concorda?

KRYCEK: - Posso melhorar o acordo, coisa de amigo. Um milhão agora, só pra você, dinheiro vivo. E você nos deixa em paz. E se estiver a fim de fazer um serviço, pago mais dois milhões em barras de ouro depositadas na Suíça. Basta matar o Sindicato.

MERCENÁRIO #7: - Você tá aposentado. Não tem isso. E não somos amigos. Eu não arriscaria minha pele por nenhuma grana pra pegar aqueles caras. Não mesmo!

KRYCEK: - Eu não gastei todo o meu dinheiro com drogas, farras e mulheres. Eu guardei pra um dia sair fora dessa vida.

MERCENÁRIO #7: - Não tem como sair fora dessa vida, seu sonhador maricas! E não vou sujar com o Sindicato. Sou profissional. Por 633 mil, eu mataria até a minha mãe. Sabe que não precisava ser assim, russo. Ouvi dizer que traiu seus contratantes. E depois foi dormir com o inimigo deles.

KRYCEK: - O povo é muito fofoqueiro.

MERCENÁRIO #7: - Péssima decisão. Também comentaram que começou a ficar frouxo no serviço. Que fugiu pelo esgoto e se escondeu como um rato medroso e boiola.

KRYCEK: - É, mas eu nunca fui burro pra ser pego e jogado na prisão. Bom saber que a minha cotação subiu mais 200 mil. Ofereceram 100 para o cara que explodiu minha garota, meu filho e que ia me explodir também. Novatos sempre fazem merda e não valorizam a tabela de serviço.

MERCENÁRIO #7: - É, você tá bem cotado pra um russo miserável que chegou nesse país sem porra nenhuma. Mas como sempre, americanos não gostam de russos. Prometo não atirar na cara. Velório em caixão aberto. Pela amizade.

Krycek percebe que o sangramento na sua perna aumenta.

KRYCEK: - Uma pena estragar sua aposentadoria. Sabe quem matou aquele policial no estacionamento do necrotério?

MERCENÁRIO #7: - O confundi com você, por causa da picape. Me precipitei. Acontece até com os melhores. Ou você nunca cometeu erros?

KRYCEK: - Cometi. Pensei em tudo, menos em janelas e portas com vidros à prova de balas.

Krycek sai detrás da parede se arrastando de costas pelo chão, silenciosamente, pela frente do balcão, segurando o rifle com o dedo no gatilho, levando cacos de vidros contra as costas nuas, olhos atentos pro alto. Morde os lábios segurando a dor.

MERCENÁRIO #7: - Uma pena matar essa gostosinha provocante que quase anda nua pela casa. Tive visões deliciosas dela pela mira do meu rifle. Já podia ter feito o serviço, mas optei por curtir a paisagem por algum tempo. Vou matar você primeiro. Depois me divirto com sua vadia, pra ela conhecer um homem de verdade.

Krycek senta-se, fica recostado contra o balcão. Tira um caco de vidro mais profundo das costas, cerrando os dentes. Ergue o cano do rifle até a altura do balcão.

MERCENÁRIO #7: - Um travesseiro na cara e um tiro. Ela não vai sofrer.

KRYCEK: - ...

MERCENÁRIO #7: - O que está tramando, rato russo?

Krycek empurra a banqueta pra longe com o pé, fazendo barulho e a derrubando no chão. O Mercenário #7 se levanta detrás do balcão e dá uma rajada de tiros pra frente, quebrando os vidros da porta que vai pra piscina. Krycek cerra os olhos. Silêncio. O Mercenário #7 em pé, procura Krycek com os olhos. Krycek mantém o rifle em pé, na altura do balcão, olhando pra cima.

MERCENÁRIO #7: - Onde você está, "Nikita"?

Krycek mal respira, olhando pra cima, com o dedo no gatilho. O Mercenário #7 se inclina sobre o balcão apontando o cano do rifle pra baixo, quase tocando na ponta do rifle de Krycek. O russo mal respira, tenso, em silêncio, sem se mover.

MERCENÁRIO #7: - (AOS GRITOS) Nikita, vou matar você! Acabou a brincadeira! Sai do esconderijo, rato desgraçado!

O Mercenário #7 espera, mantendo o rifle mirado pra baixo. Krycek espera, alternando o olhar para a ponta do rifle do matador e o seu rifle. Silêncio.

O Mercenário #7 tenta espiar por cima do balcão. Numa fração de segundos, Krycek vê a testa dele se aproximando pra fora do balcão e aperta o gatilho. Sangue e pedaços de tecido e ossos caem em cima dele. Krycek solta o ar que trancava nos pulmões. Passa a mão no rosto, limpando-o. Olha pra porta da piscina com os vidros quebrados. Em seu foco de visão entra o Mercenário #8 com um rifle apontado pra dentro da casa. Krycek arregala os olhos, e entre tiros disparados pelo matador, ele escapa mancando e pisando em vidros, se atirando na varanda.

O Mercenário #8 avança pela casa com o rifle apontado e se aproxima da varanda. Krycek sumiu. Apenas manchas de sangue pelo chão.

MERCENÁRIO #8: - (AOS GRITOS) Maldito russo desgraçado!!! Se não aparecer vou pegar sua vadia primeiro!!!

Som do gatilho.

O Mercenário #8 vira-se para a porta da piscina. Krycek em pé, sorri pra ele com o rifle apontado.

KRYCEK: - (GRITA) Vai pro inferno!!!

Krycek dispara várias vezes e o sujeito cai morto no chão. Krycek avança pela casa, mancando, deixando um rastro de sangue que cai da perna e sai dos pés perfurados. O Mercenário #9 entra segurando Barbara, com a pistola 22 apontada no queixo dela, ela mal toca os pés no chão. A mão dele tem uma bandagem. Barbara apavorada, olha pra Krycek todo sujo de sangue.

MERCENÁRIO #9: - (AOS GRITOS) Solta a arma ou atiro na cabeça dela! Não estou brincando!!! E não vou matar na primeira, perdi dois dedos na prisão!!! Ela vai agonizar!!!

Barbara morde os lábios, derrubando lágrimas. Krycek se agacha e deixa o rifle no chão. Se levanta erguendo as mãos.

KRYCEK: - Se leu minha ficha, sabe que agora sou policial. Isso não precisa acabar desse jeito.

MERCENÁRIO #9: - Não tem outro jeito pra acabar! Se eu não fizer o serviço, eles me matarão!

KRYCEK: - Você pode expor seus contratantes. Coloco você na proteção de testemunhas. Documentos falsos, vigilância policial e um lugar seguro pra viver. Tenho dinheiro. Pago um milhão pra você. Vai ter a vida boa que deseja sem ser incomodado.

MERCENÁRIO #9: - Sabe que eles vão comprar tiras ou agentes e vão me matar antes que eu pense em abrir a boca num tribunal! Vão fazer comigo o que estão fazendo com você! A CIA não brinca, você sabe disso! Sabe que o Sindicato dorme com a CIA e dá escapadinhas com o FBI! Eu não tenho aonde me esconder!

KRYCEK: - Então pega o dinheiro naquela mochila e o meu carro. Cai fora agora. Eu não vou reagir. Só deixa a minha mulher em paz, ok?

MERCENÁRIO #9: - (NERVOSO)Eu não confio em você! Ninguém confia em ninguém nesse jogo!

Krycek percebe a mão do matador tremendo, a arma rente ao maxilar de Barbara que está numa pilha de nervos, tentando não chorar.

KRYCEK: - Calma, tá legal? Estou desarmado e você está apontando uma arma pra minha mulher, acha que eu mentiria pra você e arriscaria a vida dela? Pensa cara. Tem o dobro de dinheiro do que vão pagar pra você, e sabe que sozinho não vai matar todos nós. Tem um carro. Eu não pensaria duas vezes.

MERCENÁRIO #9: - Você sabe as regras do jogo. Mate pra não ser morto.


[Som: The White Stripes - Seven Nation Army]


Barbara dá uma cotovelada no sujeito, que recua e dá um disparo contra ela, mas não acerta. Ela corre pra cozinha, gritando a cada caco de vidro em que pisa, pulando e dando saltinhos delicados. Krycek voa pra cima do sujeito, segurando a mão dele com a arma. Os dois disputam a arma, Krycek dá uma rasteira no mercenário e ele se segura em Krycek. Ambos caem ao chão, rolando pela frente do balcão da cozinha, por cima de cacos de vidros e a ainda disputando a arma. Krycek aperta a atadura da mão do mercenário, ele grita, soltando a pistola 22 que desliza pra baixo do balcão. Acerta um soco no rosto de Krycek, que chega a virar o rosto cuspindo sangue. O Mercenário #9 se levanta, pisa na perna ferida de Krycek, que solta um grito.

Barbara vem por trás e acerta a frigideira com toda a força na cabeça do sujeito.

BARBARA: - (AOS GRITOS) Deixa meu Ratoncito em paz, seu assassino desgraçado!!!

Barbara continua dando frigideiradas na cabeça do mercenário. Ele se vira e segura a mão dela, tentando tirar a frigideira e ganha a disputa. Barbara segura a mão machucada dele e mete os dentes com força. O cara dá um grito e com a outra mão acerta um soco em Barbara, que vai de encontro com as costas no fogão, caindo zonza no chão, sangrando o supercílio.

Krycek se levanta com raiva e o agarra pelas costas, jogando ele de bruços no chão, a frigideira voa da mão dele. Krycek com ódio nos olhos, pega o sujeito pelos cabelos, dando com o rosto dele repetidas vezes contra o piso, enquanto o sujeito leva a mão embaixo do balcão tentando pegar a arma, dificultado pela mão com atadura que tranca no pequeno espaço, sem deixá-lo atingir seu objetivo.

Som das sirenes de polícia.

Barbara estende a mão, que por ser pequena, passa sem dificuldades pelo vão entre o móvel e o piso. Ela tenta pegar a arma, mas não alcança. Krycek acerta a cabeça do mercenário com toda a força no chão, depois se arrasta pegando o rifle M16, enquanto o sujeito tenta se levantar. Krycek aponta o rifle e dispara na cabeça do sujeito. Barbara vira o rosto, ao som do disparo.

Krycek solta o rifle e cai ao chão deitado, cansado, a adrenalina baixando, respiração descompassada. Barbara, ainda zonza, se arrasta até ele, quase chorando, olhando para o namorado todo esfolado e sangrando. Segura a mão dele. Krycek aperta a mão dela, fecha os olhos, ofegante.

KRYCEK: - (SORRI CANSADO) Quem sabe... Você trabalha comigo... Como assassina de aluguel, Malyshka?

BARBARA: - Já não apanhou o suficiente hoje, Ratoncito? Tô cansada, mas eu consigo pegar aquela frigideira e acertar sua cabeça até seu juízo voltar! Ai! Meu olho tá inchando...

Krycek sorri. Norris entra na casa com vários policiais, completamente irritado e nervoso.

NORRIS: - Chamem a ambulância! E depois a droga de uma faxineira, porque acabaram com a casa inteira! Checov, isso é hora de namorar? Levanta esse traseiro daí e me explica que merda aconteceu aqui dentro!


Residência dos Mulder - 6:24 A.M.

O táxi parte. As malas na calçada. Mulder segurando um enorme urso de pelúcia, observa boquiaberto. Scully catatônica. Os dois olhando pra confusão de vizinhos na rua, policiais patrulhando e isolando a área, viaturas com luzes acesas, ambulâncias, corpos sendo retirados em macas da casa de Barbara.

MULDER: - (PÂNICO) Eu disse que estava pressentindo merda e você ainda me chamou de maluco, como sempre!

Nancy percebe Mulder e Scully e fala alto, só pra causar mais pânico.

NANCY: - Nossa! Como morreu gente nessa rua hoje!!! Primeiro duas pessoas na casa ao lado...

Mulder lança um olhar incrédulo pra Nancy, as pernas amolecem. Scully arregala os olhos, quase tendo um ataque. O coração dela dispara.

SCULLY: - (NERVOSA) Duas? Ai meu Deus! Victoria!!!! Baba!!!!

Scully ameaça correr pra casa, mas Mulder solta a respiração e a segura. Baba vem atravessando a rua com Victoria no colo, um curativo no braço. Scully abre um sorriso de alívio. Baba coloca Victoria no chão. Ela corre apressada de braços abertos, até os pais. Scully a toma nos braços, a apertando e enchendo de beijos.

SCULLY: - (QUASE CHORANDO) Meu Deus, minha filha amada, meu anjo, meu tesouro, meu tudo na vida!!! Por que eu deixei você? Ai meu Deus, eu sou uma mãe louca e desnaturada!!!

BABA: - Calma, Scully! Ela está bem. Todos estamos. Menos o Krycek e a Barbara.

Mulder entra em desespero e ameaça atravessar a rua. Baba segura ele.

BABA: - Calma, Mulder. Eles já saíram na ambulância. Nada que uns pontos não resolvam.

MULDER: - (NERVOSO) O que aconteceu aqui? Uma guerra?

BABA: -Quase isso, mas nada de pior aconteceu. Porque quando o gato sai, o rato toma conta. E ele tomou conta direitinho.

Baba dá dois tapinhas no peito de Mulder, sorri e vai pra dentro de casa. Mulder e Scully ficam olhando incrédulos pra rua. Victoria olha pro urso e abre um sorriso.

VICTORIA: - Pá neném? (BEIÇO) Papai!!!!!!!!!

Mulder sai do transe. Pega Victoria do colo de Scully. Beija a filha na cabeça.


Local indefinido - 9:13 A.M.

The Gold Coin em pé, com as mãos nos bolsos das calças sociais. O Canceroso escorado perto da janela, fumando um cigarro e tentando não rir. Strughold anda irritado de um lado para o outro da sala. Diana Fowley lendo o jornal da Pensilvânia. Vários homens na sala, nervosos e preocupados.

THE GOLD COIN: - Acho que vou repetir o saldo da operação de vocês: Nove mercenários mortos. Nenhum alvo eliminado. Nem a menina em nossas mãos. E uma jornalista ressuscitada chamando a atenção pra cima de vocês com uma reportagem sobre fugitivos de Rockville, publicando a ficha dos mercenários com o logo do FBI... Cabe a palavra lamentável?

STRUGHOLD: - Alguém aqui dentro os alertou! Skinner recebeu a informação falsa do esconderijo deles!

THE GOLD COIN: - Isso só diz que temos um traidor. Não justifica a falha da operação.

O Canceroso permanece quieto, os observando.

DIANA FOWLEY: - (OLHANDO PARA O CANCEROSO) Mas ter a certeza de que realmente há um traidor entre nós, é algo muito preocupante.

THE GOLD COIN: - Preocupante é o nível a que esta organização chegou. Vocês não conseguem mais controlar a situação. Não bastava um monstro como o Mulder, agora criaram outro e esse não tem consciência pesada pra matar. Um gosta de apontar pro céu gritando sobre a verdade e o outro adora apontar a arma gritando o nome de vocês! Estamos ferrados! Não posso acreditar que apenas dois homens consigam destruir essa organização inteira! Vocês sabem o que é discrição? Precisavam criar toda essa bagunça para matar algumas pessoas?

Coin esmurra a mesa. Todos olham assustados.

THE GOLD COIN: - Primeiro aquele agente confuso disposto a nos expor, aí vocês colocam uma agente para contestá-lo e os dois acabam dividindo a mesma cama. Não aprenderam nada com isso! Agora aquele rato traidor que sabe os segredos sujos de vocês, juntou os trapos com aquela jornalista tagarela!

Coin acende um cigarro.

THE GOLD COIN: - Pensem, por favor, pensem! Vocês estão apenas alimentando a força de dois homens com coragem! Estão criando uma resistência! Os filhos deles vão crescer, e terão filhos, que terão filhos e a resistência só vai aumentar!

Coin se atira na cadeira.

THE GOLD COIN: - Eu vou contar uma historinha... Reza a lenda que um ser superior criou o homem. Ele passava seus dias dando nome às coisas e aos animais, distraído da vida, sem se questionar muito. Acreditam que a merda começou aí? Não mesmo! A merda toda realmente começou quando ele ganhou uma companheira de causa! Entenderam? Ou preciso ser mais claro? Dê um porto seguro a um guerreiro e ele vai se alimentar mais ainda! E foi o que vocês fizeram! Quando eu disse matem as vadias, peguem as vadias, tirem a mulher de um homem e ele vai se acabar, vocês não conseguiram! Bastava um casal gritando por aí, agora temos dois! O problema só aumenta!

CANCEROSO: - Vou resolver o problema Alex Krycek. Do meu modo. Do velho modo, como sempre funcionou. Se é que ainda faço parte desse grupo. Vocês desconfiam de mim, pensam que sou um traidor e desconfiam dos meus métodos. Meus métodos sempre funcionaram. Até Strughold assumir o comando. Então as coisas fugiram do controle. Lamento, Sr. Coin. Você não precisava ter descido do topo para perder seu tempo consertando erros primários. Nada disso teria acontecido se eu ainda desse as cartas. Alguém discorda?

STRUGHOLD: - Eu discordo!

CANCEROSO: - Você não pode discordar, Strughold. Seus métodos provaram ser ineficazes. Tudo começou com a sua teimosia em criar aquela vacina e mantê-la em sigilo até mesmos dos russos. O que deixou os russos malucos atiçando Alex Krycek contra a gente. E o que aconteceu? Scully e Modesky criaram a vacina antes, com os genes da filha, e Mulder a distribuiu ao mundo usando nossos laboratórios para isso.

STRUGHOLD: - Não fui eu quem teve a ideia imbecil de colocar Mulder no Sindicato! Morrendo de câncer... Acha mesmo que se ele estivesse morrendo de câncer teria recusado a cura por que a vida não valia mais nada sem Scully? Ora me poupe!

Coin cruza os braços e observa os dois.

CANCEROSO: - Eu não tinha provas de que ele havia mentido sobre a morte de Scully e mentido que estava morrendo de câncer. Um homem que nada tem a perder é um homem sem medo de fazer qualquer coisa. Mantenha seus amigos por perto, seus inimigos mais perto ainda. Não concorda, sr. Coin? A melhor maneira de saber o que seu inimigo está aprontando é ficar bem perto dele.

Coin olha pra ele num sorriso dissimulado, sacando a indireta.

CANCEROSO: - Então Mulder distribuiu a vacina e sabia o suficiente para nos expor. O que fizeram? Meteram os pés pelas mãos. Você assumiu o comando. E o que aconteceu? Alex Krycek passou para o lado de Mulder, porque vocês mataram Marita e o filho dele. Criaram o monstro. E agora continuam fazendo barulho sem resultados, perdendo o controle da situação. Sempre usei dos canais legais para fazerem as coisas acontecerem. Sem chamar muita atenção. O xeque mate chega na própria burocracia do sistema. Nos escondemos nela. Mas vocês preferem soltar mercenários barulhentos para deixarem corpos e rastros.

O Canceroso pega o telefone. Coin o analisa.

STRUGHOLD: - Você é um traidor e todos aqui dentro sabem disso! Admita! Foi você quem avisou Skinner com medo de que Mulder morresse!

CANCEROSO: - Eu nunca liguei pra vida do Mulder. Me interessavam os genes dele. A experiência F.O.X. (AO TELEFONE) Aqui é Spender, da CIA. Quero falar com o Comissário Landell. Aguardo... Landell, é Spender. Temos um problema. Aqueles nove ex-agentes meus que fugiram de Rockville foram mortos. E nós não gostamos disso, eles deveriam ser pegos legalmente e cumprirem suas penas... Eram nossos homens, cometeram tolices, mas eram filhos da CIA... Chegou aos meus ouvidos que um policial fez isso. Alguém querendo bancar o justiceiro, trapaceando na corporação, passando por cima das leis desse país. Eu não quero ter que levar isso à Casa Branca, porque essa encrenca vai voar até o Departamento de Justiça, descer para a prefeitura e cair bem no seu colo... Alexander Krycek. Espero que tome as providências necessárias... Não me agradeça, acho que é do nosso interesse mantermos nosso pessoal dentro da lei. Gente que leva a lei em seu peito e não a pratica, causa dores de cabeça desnecessárias.

O Canceroso desliga.

CANCEROSO: - Então, sobre o que falávamos? Como o sistema encerra os próprios problemas do sistema?


Residência de Barbara Wallace - 10:24 A.M.

Krycek deitado de lado na cama. Um curativo na perna, pés enfaixados, as costas com curativos. Mulder bate na porta do quarto e entra segurando uma caixa de bombons. Krycek começa a rir.

MULDER: - (DEBOCHADO) Amorzinho, me explica porque quando eu estou fora você arruma confusão. Trouxe bombons italianos pra você.

Mulder entrega a caixa de bombons. Krycek recosta-se na cama. Então solta um gemido de dor, se lembrando que as costas doem. Fica sentado.

KRYCEK: - Minha marca favorita. Como sabe?

MULDER: - Fui agente do FBI. Quando trabalhamos juntos na Itália eu percebi que você tinha umas caixas dessas pelo quarto. E aí? Só dói quando respira?

KRYCEK: - Podia ser pior. A Barbara é que está sofrendo.

MULDER: - Percebi. Tá reclamando algo em espanhol enquanto Scully e Baba a ajudam a limpar aquela bagunça lá em baixo. Vai precisar de uma boa reforma.

Mulder se atira na cama, colocando as mãos sobre a barriga.

MULDER: - Revirei a cozinha. A geladeira não tem o mesmo mecanismo. Ela só vem pra frente, o que causou um desconforto na Scully que viu a sujeira lá atrás acumulada e sobrou pra mim pegar o esfregão.

KRYCEK: - Mulder, tem que haver, faz sentido.

MULDER: - Suspeitei do armário que sempre teve um espaço ao lado onde caberia outro. Aquele que a Scully colocou um vaso de planta do lado. Puxei pro lado. Não se moveu. Puxei pra frente e nada. Olhei embaixo e vi o mesmo mecanismo da sua geladeira. Só procurando mesmo pra sacar aqueles trilhos. Se você não sabe, nunca veria!

KRYCEK: - (EMPOLGADO) Descobriu?

MULDER: - Custei, mas descobri que ele só vai para o lado se acionar o botão escondido atrás dele. Debaixo do armário fica escondida uma escada reta e estreita, da largura lateral do armário, que leva ao búnquer. Eu tenho um porão há anos sem nem suspeitar disso.

KRYCEK: - Tá, as estruturas são iguais?

MULDER: - Com diferenças. Ao descer a escada, além do corredor, tem uma porta enorme de metal. Scully quase surtou quando abrimos. Há um espaço enorme ali dentro, que fica debaixo da cozinha e da lavanderia, cheio de prateleiras com mantimentos pra uma guerra, medicamentos, água potável armazenada e pilhas de colchões... Então seguimos o corredor, haviam mais portas nele. Foi como descobrimos todos os acessos ao búnquer escondidos na casa. Há um no meu sótão, naquela parede pequena ao lado do banheiro, onde coloquei o quadro da Yoko. Não dá pra ver que ali é uma porta, o papel de parede foi feito pra ocultar mesmo!

KRYCEK: - O cara é gênio, eu falei! Você só encontra se sabe o que está procurando.

MULDER: - Há outro escape no chão do closet do quarto da Victoria. Você abre e salta para dentro do closet da sala, onde tem uma porta escondida na madeira do revestimento, com outra escada que leva ao búnquer. Um escape em cada andar, como você disse. Lá embaixo seguimos o corredor e vimos uma porta vermelha com tranca e uma chave ao lado. Abrimos e saímos no esgoto. Há duas saídas lá embaixo, a sua do seu lado, e a minha do meu lado. Não dá mesmo pra ver nada da esquina, porque as casas são recuadas. Se estivermos fugindo, seja quem estiver em nossa casa, também não terá visão dos bueiros nas esquinas. E podemos fugir por qualquer bueiro ligado naquele esgoto, seja nessa quadra, na outra, tanto faz.

KRYCEK: - Admita que você respirou aliviado. Eu respirei.

MULDER: - Muito. Agora sei que em caso de emergência, minha família tem onde se esconder ou por onde escapar. Peguei as plantas da casa. Esse búnquer subterrâneo não consta nelas, mas havia a assinatura dele nas plantas. Pesquisei e descobri que ele é civil, mas trabalhava como engenheiro para os militares. No currículo, uma vasta experiência como engenheiro e arquiteto de túneis e ferrovias em cidades como Nova Iorque e Los Angeles. Acho que sei porque os militares o contrataram.

KRYCEK: - Espera, espera. Túneis e ferrovias? Você acha que...

MULDER: - Rato, se me disser que os soviéticos possuem túneis no subsolo das suas instalações militares eu vou admitir que também levo a sério a teoria dos túneis embaixo desse país ligando as principais bases militares americanas.

KRYCEK: - Mulder, eu confirmo pra você. Temos ratos. E acho que vocês também têm ratos embaixo do solo. Em maior número que nós.

MULDER: - E se não chega pra você, ele fez parte no projeto do Aeroporto Internacional de Denver, no Colorado. Aquele sabe? Que todo mundo desconfia existir mais coisas embaixo dele que porões de carga.

KRYCEK: -Sei. O das pinturas que retratam supostamente a Nova Ordem Mundial, o búnquer escondido para proteger a elite e facilitar a fuga dos poderosos. Faz mais sentido ainda. E como achamos esse cara?

MULDER: - Não achamos. Ele se matou pouco depois de se mudar para Los Angeles. Ou mataram ele. Eu tenho uma teoria que até a Scully se rendeu e concordou. Acho que esse cara fez tantas construções secretas para o governo que ficou maluco. Só pensando em Denver, ele deve ter imaginado que algum dia chegaria um apocalipse e com medo, resolveu criar seu próprio búnquer para salvar a família. Família que ele nem chegou a formar, porque a garota dele o trocou por outro.

Mulder senta-se na cama.

MULDER: - Rato... Obrigado pelo que fez. Por cuidar da minha filha. De todos. Se não fosse você, as coisas não teriam terminado da melhor forma. E se eu estivesse no seu lugar, eu não teria sobrevivido.

KRYCEK: - Besteira! Você teria pego todos eles!

MULDER: - Você sabe que não. Sempre fui policial, nunca fui matador profissional. Eu não tenho essa habilidade toda. Não teria chances. Poderia matar alguns, mas ele me pegariam com certeza.

KRYCEK: - Mulder, irmãos, lembra? Um cuida da família do outro.

Mulder sorri. Os dois trocam um aperto de mão firme.

KRYCEK: - Mulder, agora eu preciso que você cuide da Barbara por mim.

MULDER: - (TENSO) Krycek, o que você vai fazer?

KRYCEK: - Não vou fazer, foi o que eu fiz. Eu amo o trabalho de policial, eu adoraria fazer isso o resto da vida. Mas eu cometi um erro.

MULDER: - Que erro?

KRYCEK: - ... Esqueci minha pistola sem registro em cima do sofá, quando o cara entrou atirando e acertando a Baba. Ela provavelmente foi encontrada na cena do crime. E tem minhas digitais nela. As balas vão bater com as balas que mataram os caras na sua casa e na do Frohike.

Mulder fecha os olhos.

MULDER: - Os rapazes podem conseguir um passaporte falso. Pega suas coisas, eu te levo agora pro México.

KRYCEK: - Não vou fugir, Mulder. Não mais. Estou cansado de fugir por causa do Sindicato.

MULDER: - Rato, se você ficar aqui, a polícia vai descobrir assim que os resultados da balística saírem! Você vai ser preso, entendeu? Com uma lista enorme de acusações. Todo o esforço que Skinner, Scully e eu fizemos pra manter você na polícia, vai pro ralo! Porque quando chafurdarem sua vida, vão descobrir que nem policial você é, nem é americano de verdade, que seus documentos todos são falsos, você nunca cursou o treinamento em Quântico e nem era pra ter sido agente federal! Vão começar a chafurdar a lama e ela vai levar ao FBI e a perguntas que o Sindicato nunca vai responder porque eles não existem e o FBI não tem pra dar, entendeu? Vão calar alguém pra não sobrar pra eles e para o Bureau e vão colocar você numa cela e jogar a chave fora! Resumo da história: Você vai se ferrar sozinho!

KRYCEK: - Algum dia eu teria que ser preso, não? Por tudo o que já fiz. Vou pagar a conta, Mulder. Eu preciso pagar. Não vai sobrar pra vocês, porque vocês também foram enganados. Não vou fugir, Mulder. Não. Só cuida da Barbara tá? E me visita de vez em quando, não precisa levar bombons. Só pra conversar.

Mulder coloca as mãos no rosto, desatinado. Krycek fecha os olhos, nervoso.


Dois dias depois...

Cemitério Hills - Virgínia - 3:21 P.M.

Muitas coroas de flores. A banda da polícia em silêncio, todos cabisbaixos. Apenas um policial toca com o trompete, o Toque de Silêncio. Amanda, a viúva de Sanders, sentada no chão, ao lado do caixão do marido, chorando em desespero. A bandeira americana e a bandeira da polícia sobre o caixão.

Norris, Chambers, Peter e a corporação de policiais em trajes de gala da polícia. As esposas ao lado deles, todas de preto. Krycek, igualmente vestido como eles. Todos cabisbaixos, em silêncio, emoções que tentam conter inutilmente.

Barbara num vestido preto, com um curativo no supercílio, leva a mão até a mão de Krycek, a apertando com força. Krycek ergue o rosto, olhando pra ela, olhos marejados e culpa. Barbara seca as lágrimas dela e depois as dele e olha pra ele com ternura. Krycek aperta a mão dela, tentando obter forças.

O caixão de Sanders desce ao túmulo. A mãe de Amanda ergue a filha, que grita e chora convulsivamente. Os dois filhos pequenos se abraçam na mãe, chorando com ela. Um deles começa a gritar pelo pai. A avó paterna pega o neto e sai com ele dali.

Krycek abaixa a cabeça, chorando. Norris puxa um lenço do bolso do uniforme e seca as lágrimas, mordendo os lábios.

Uma salva de tiros.

Barbara corre até Amanda, as duas se abraçam em prantos, Barbara tenta consolá-la em silêncio. Krycek se afasta, mancando, secando as lágrimas com a mão. Chambers vai atrás dele, coloca o braço sobre Krycek e o ajuda a caminhar. Ninguém consegue dizer nada, exceto pelas lágrimas.


Delegacia de Polícia - Precinto 11 - 5:13 P.M.

Krycek sentado à sua mesa, Chambers na dele, Peter na dele. Os três olham para a mesa vazia de Sanders. Ninguém fala nada. Ninguém se movimenta. O departamento de homicídios está calado e vazio. Sem café, rosquinhas, piadas e policiais matando tempo.

Norris entra e vai direto pra sua sala, deixando a porta aberta. Solta um suspiro cansado e triste. Pega a caixinha de sapatos e coloca na mesa. Não tem muito espaço nela, repleta de fotos. Norris coloca a foto de Sanders. Fecha a caixa, passando a mão em cima, como todo o velho que busca forças nas memórias saudosas do passado.

O policial Ramirez, de terno e gravata entra na sala, cabeça erguida, orgulhoso, segurando uma pasta e batendo na porta aberta.

RAMIREZ: - Homicídios?

Ninguém diz nada. Ninguém consegue nem erguer a cabeça de tanta tristeza e apatia.

RAMIREZ: - Procuro o detetive Alex Krycek. Sou o sargento Ramirez, da Corregedoria da Polícia.

Krycek fecha os olhos. Norris ao ouvir "corregedoria" cerra o punho e sai da sua sala enfurecido.

NORRIS: - Ok, Mr. Corregedoria! Acabamos de enterrar um colega! Acho melhor voltar outro dia.

RAMIREZ: - Quem é Alex Krycek?

Krycek ergue a mão, os olhos parados fitando o nada. Ramirez se coloca na frente da mesa dele, puxando papéis da pasta.

RAMIREZ: - Fizeram uma denúncia contra você na corregedoria.

Norris, já vermelho de raiva, encara Ramirez.

NORRIS: - Como é que é?

RAMIREZ: - Uma denúncia. Alex Krycek você foi denunciado por de abuso de autoridade, ocultação de provas, assassinato...

Peter e Chambers olham incrédulos para Ramirez.

NORRIS: - Que merda toda é essa que você está falando?

RAMIREZ: - Estou falando dos foragidos da Penitenciária de Rockville. As vítimas foram mortas...

NORRIS: - (ENLOUQUECE DE RAIVA) Vítimas? Nove filhos da puta assassinos são vítimas? Ah, mas eu tenho quarenta anos de polícia e juro que até agora eu não entendo as leis desse país! Os conceitos de vítima e culpado menos ainda!

KRYCEK: - (CULPADO) Norris...

NORRIS: - (RAIVA) Cale a boca, Checov! Olha aqui, Mr. Corregedoria, que saiu sabe-se lá de que buraco, eu já perdi um policial morto por uma dessas suas vítimas aí, e agora você quer me tirar outro? Eu quero é mais detetives no meu distrito e não que vocês venham aqui tirar os poucos que me restam! Tem provas de que meu detetive matou aqueles caras?

RAMIREZ: - Ainda não temos provas, vamos instaurar o inquérito, mas até termos as provas, Alex Krycek vai ficar suspenso. E ele não pode mais investigar o caso. Isso se enquadra em abuso de autoridade, ocultação de provas, assassinato...

NORRIS: - Eu sei no que se enquadra, para de repetir coisas feito papagaio de pirata! Eu posso ser velho, mas não sou surdo nem burro! Alex Krycek é um policial, não um justiceiro! Agiu em legítima defesa. Até eu atiraria naqueles três cretinos se entrassem na minha casa atirando em mim, ameaçando a minha mulher com uma arma e transformando minha casa num queijo suíço!

RAMIREZ: - Delegado, eu sei que o senhor é linha dura...

NORRIS: - Você não sabe porra nenhuma, você desce lá do seu escritório confortável com ar-condicionado e secretária e vem aqui encher o saco de homens honestos e com colhões que arriscam suas vidas todos os dias nas ruas dessa cidade! Chambers, liga agora pro laboratório e peça pra mandarem os resultados da balística.

Chambers pega o telefone e liga.

RAMIREZ: - Delegado, estou sendo educado com o senhor e não quero ter que reportar essa sua atitude deselegante para o Comissário Landell. A denúncia foi dada diretamente a ele. Detetive Krycek, sua arma e seu distintivo, por favor. Não vamos criar confusão ou terei que algemá-lo.

Krycek tira a arma do coldre. Norris o impede.

NORRIS: - E eu vou enfiar as investigações abertas no seu rabo, "Mr. Corregedoria"? Vai me deixar com apenas dois detetives no departamento de homicídios? Querem me deixar louco? Eu tenho mais de cinquenta casos abertos naquela mesa com familiares esperando resposta!

RAMIREZ: - Delegado Norris, isso não é da minha competência. Sabe as regras. Se há uma denúncia, o policial deve ser afastado imediatamente das suas funções até que as provas sejam reunidas, a investigação seja concluída e ocorra uma audiência. Seu distintivo e sua arma, detetive Krycek, por favor.

Krycek coloca a arma e o distintivo sobre a mesa.

NORRIS: - Burocratas malditos! Ô Chambers, me diz que a balística mandou os resultados!

CHAMBERS: - Estou agora com eles na linha... Tá chegando por fax.

PETER: - Policial Ramirez, temos a teoria de que um deles estava matando os outros, talvez por questões de dinheiro. A pergunta aqui deveria ser por quê eles estavam matando. Quem eles queriam exterminar.

RAMIREZ: - Bem, esse é o trabalho de vocês, investigar quem eram os alvos. Meu trabalho aqui é descobrir se o detetive Krycek matou aqueles foragidos ilegalmente.

Norris ergue os olhos, perdendo a paciência por completo. Vai para sua sala. Volta com três pastas, puxa a cadeira e senta-se ao lado da mesa de Krycek. Abre as pastas.

NORRIS: - Sente-se aí, "Mr. Corregedoria". Vamos esclarecer as verdades, enquanto o fax não chega. Vamos pegar os casos encerrados.

Ramirez senta-se. Krycek se levanta.

KRYCEK: - Norris, tá tudo bem. Por favor, não faz isso, você não...

Norris o puxa e Krycek cai sentado.

NORRIS: - Cala a boca Checov! Não admito que acusem meus homens sem provas. Ao contrário de vocês, meus detetives ralam, eles fazem as coisas como devem ser...Aqui. O caso do Clarson... Que vou chamar de Mercenário 1. Morreu com três tiros de uma pistola 22. Não sabemos quem atirou, ele tinha uma 9 mm com ele. Pega essa pasta.

Norris, de maneira estúpida, joga a pasta em cima de Ramirez. Ramirez pega a pasta.

NORRIS: - Aqui, a sua "vítima", o Mercenário 2. Foi encontrado espancado, com a língua arrancada e um corte na garganta. Testemunhas viram quando dois caras altos desceram de uma limusine e atiraram o corpo na lixeira de um beco. Toma.

Norris atira a pasta, Ramirez pega.

NORRIS: - Aqui está o relatório da morte do meu policial, a verdadeira vítima. Ele foi morto por uma calibre .338. Arma pra mercenário e franco-atirador. Se isso interessa pra você. E não consta aqui, que ele deixou uma viúva e dois filhos pequenos que vão crescer sem o pai. Se isso também interessa pra você.

Norris atira a pasta. Ramirez pega. Chambers se aproxima segurando um fax comprido. Krycek está tão envergonhado dos colegas, que está sem reação.

CHAMBERS: - Hum... Resultado da balística sobre os projéteis retirados das duas vítimas encontradas na casa de Fox Mulder. Nenhum projétil coincide com as armas encontradas no local. Foram feitos exames nas armas encontradas com as vítimas, projéteis não identificados.

NORRIS: - Chame de mercenários, eles não são vítimas nessa delegacia.

CHAMBERS: - Deixa eu ver aqui... Resultado da balística sobre os projéteis retirados das vítimas encontradas na casa de Melvin Frohike. Nenhum projétil coincide com as armas encontradas no local. Contudo os projéteis coincidem com... Vamos ser diretos. Os caras foram mortos pela mesma arma que matou os outros dois na casa de Fox Mulder. Uma 9 mm.

Ramirez sorri. Krycek fecha os olhos.

NORRIS: - Peter, me serve outro café.

CHAMBERS: - Resultado da balística sobre os projéteis retirados das vítimas encontradas na casa do detetive Alex Krycek.... (LENDO) Bom... Os três morreram com tiros de uma M16, confere com a arma encontrada na casa, legalmente pertencente a esse distrito, de posse do detetive Alex Krycek. Quer o número de série?

NORRIS: - Ele é policial e deve atirar diante de ameaças a vida de pessoas ou à sua própria vida. Legítima defesa. Segue o resto, Chambers.

Peter entrega o café pra Norris.

CHAMBERS: - Deixa eu ver aqui, tô procurando os resultados das armas que estavam com os atiradores... Achei. O projétil da arma de um dos atiradores, uma .338 bate com a arma que matou Sanders e que acertou a perna do Krycek. Outro tinha um rifle .40... Tô pulando as partes técnicas...

Krycek se levanta, desanimado e triste. Norris entrega o café pra Krycek.

NORRIS: - Beba isso, Checov. Fique calmo e sente-se. Quem não deve, não teme. Vamos calar as acusações do Mr. Corregedoria. Imagina se eu teria um policial aqui dentro capaz de agir fora da lei. Isso é um insulto a minha inteligência, eu tenho mais de 40 anos de polícia, não sou um idiota! Se tivesse um cara assim aqui dentro, eu mesmo entregava a cabeça dele! Eu seria o primeiro a algemá-lo e jogar no colo da corregedoria por achar que eu sou um imbecil! Continua Chambers.

Krycek senta-se. Morde os lábios, sentindo-se culpado por esconder a verdade de Norris.

CHAMBERS: - Ok. Uma das armas encontradas, uma 9 mm sem identificação e com silenciador... Todos os projéteis dessa arma pertencem a mesma arma que matou as vítimas na casa de Fox Mulder e Melvin Frohike. Confirmamos a teoria de que eles estavam se matando entre si. Dinheiro não é? Menor concorrência, mais lucro.

RAMIREZ: - Não confirmamos nada. Com quem estava essa arma 9 mm sem registro?

CHAMBERS: - De acordo com o relatório do policial que estava atendendo a ocorrência, essa arma foi encontrada na mão do atirador com a mão enfaixada.

Krycek fica incrédulo.

RAMIREZ: - E quem foi o policial que esteve na ocorrência e recolheu as armas?

NORRIS: - Eu. E se você tivesse baixado o seu topete quando entrou aqui, eu teria poupado o seu tempo! E nenhuma outra arma foi encontrada no local. Satisfeito?

Krycek fica confuso, sem entender nada.

CHAMBERS: - Um deles tinha uma .40, outro uma .338 e o terceiro essa 9 mm com silenciador. É, coisa de assassino de aluguel mesmo!

NORRIS: - Então, "Mr. Corregedoria"? Caso encerrado? Agora vai tirar o traseiro da minha delegacia e pedir desculpas ao detetive Krycek?

Ramirez fecha a pasta. Joga as outras na mesa de Krycek.

RAMIREZ: - Quero uma cópia desses resultados da balística e de todos os relatórios envolvendo a morte dos nove atiradores.

CHAMBERS: - Mandaremos.

Ramirez sai frustrado. Norris se levanta e serve um café. Krycek sem reação, incrédulo. Norris aponta pra Peter e Chambers.

NORRIS: - Vão agora até a sala de cópias, copiem tudo e despachem logo pra esses sacanas não torrarem mais o nosso saco!

Os dois saem. Norris, segurando a caneca de café, se aproxima da mesa de Sanders. Pega a plaquinha com o nome dele e a admira na mão. Krycek nem consegue olhar para o delegado. Norris coloca a plaquinha de Sanders de volta na mesa e vai pra sua sala. Um silêncio paira no ar. Krycek se levanta, pega a arma e o distintivo e entra mancando na sala de Norris. Coloca sobre a mesa do delegado.

KRYCEK: - Quero minha demissão. Não sou digno de usar isso. O cara que era digno foi morto no meu lugar. Eu deveria ter morrido, se houvesse justiça.

NORRIS: - Demissão negada.

Norris abre a gaveta e retira um plástico com a pistola 22 do cara da mão enfaixada e joga pra Krycek que a pega no ar. Krycek olha incrédulo pra arma.

NORRIS: - Faz uma ficha dessa arma e despacha pra sala de provas. É apenas mais uma arma sem registro encontrada na rua. E da próxima vez, Checov, vê se não esquece uma 9 mm sem registro no sofá da sua casa. E espero que não tenha próxima vez. Agora tira seu rabo da minha sala e vá cumprir seu atestado médico de uma semana. Tem uma garota bonita e apaixonada esperando por você.

KRYCEK: - ... Você sabe o que eu fiz. Mas você não sabe quem eu já fui na vida, as merdas todas que eu já fiz, eu não sou digno de ser chamado policial e fazer parte dessa corporação.

NORRIS: - Não quero saber do seu passado Checov, ninguém se orgulha muito do passado, nem eu me orgulho do meu. Quero saber o que faz agora. Que eu saiba é um ótimo detetive, um cara esforçado e alguém disposto a consertar as merdas que fez, que está se culpando pela morte do parceiro, que se importa com essa corporação, que defende seus amigos com lealdade, gosta realmente do que faz e enche as celas de vagabundos que nunca aprenderam com seus erros e continuam voltando. Isso é o que me importa. Somos uma família aqui. Agora, eu tenho trabalho pra fazer. Cai fora. Te vejo em uma semana.

KRYCEK: - Não deixa tirarem a mesa do Sanders.

NORRIS: - Não deixarei. Ele ainda faz parte desse departamento. E sempre fará. E Checov... A família dele agradece. E sei que ele, seja aonde estiver, também está agradecido pela justiça que seu parceiro lhe fez.

Krycek olha para o distintivo e a arma. Olhos em lágrimas, culpado. Norris se levanta. Coloca a arma no coldre de Krycek e o distintivo no bolso.

NORRIS: - Vai pra casa, filho. De cabeça erguida, com a sensação do dever cumprido.Os verdadeiros culpados estão mortos. E não temos mais vítimas inocentes porque você os pegou antes. Não importa o homem do passado. Tem um policial na minha frente, com um grande futuro nessa corporação.

Krycek sai mancando da sala, segurando lágrimas.


Residência de Barbara Wallace - 9:31 P.M.

Barbara sentada na cama, angustiada, assistindo televisão. Krycek entra mancando no quarto, arrastando uma mala. Barbara se levanta.

BARBARA: - Você não atendeu o celular... Amor, eu tava preocupada, você não voltava nunca pra casa... Aconteceu alguma coisa? Suspenderam você?

KRYCEK: - Eu demorei porque passei na minha casa. Precisava pensar um pouco, sozinho. A corregedoria apareceu. Norris colocou a cara por mim. Continuo policial. A história é longa.

BARBARA: - Eu visitaria você na cadeia.

KRYCEK: - É? Pela minha vida toda? Porque eu passaria a vida inteira atrás das grades.

BARBARA: - Sim. Pela vida toda... Sabe que eu faria.

Krycek senta-se na cama. Suspira, cansado. Bate no colchão.

KRYCEK: - Senta, Malyshka. Precisamos ter uma conversa séria.

Barbara senta-se ao lado dele. Krycek tira um pacote do bolso.

KRYCEK: - Antes de dizer qualquer coisa, comprei isso pra você.

Barbara abre o pacote e retira um porta jóias, a tampa é uma gatinha de batom, lacinho na cabeça e vestido de bolinhas, abraçando apertado pelo pescoço um ratinho de gravata borboleta que sorri bobo e feliz. Barbara abre um sorriso, empolgada.

BARBARA: - Oim... Que fofinho! Onde encontra essas coisinhas, Ratoncito? Uma gatinha abraçando seu ratinho, que meigo! Nós dois!

KRYCEK: - Se reparar bem, ela tá é esmagando o pobre rato num abraço apertado.

BARBARA: - Ah, mas é que a gatinha tá apaixonada, ela quer apertar bastante o ratinho dela!

KRYCEK: - Muita coisa aconteceu nos últimos dias. Nós quase morremos. Eu tenho que dizer pra você que só aguentei essa situação porque você estava comigo. Eu podia ser a força, mas você foi a minha coragem pra encarar isso tudo. Ter você comigo, enfrentando isso juntos, trocando ideias, me distraindo das coisas, me fazendo rir... Me fez ver que sozinho eu não teria conseguido fazer isso. Não mais, Malyshka. Realmente eu nem sei mais quem era Alex Krycek, eu só sei que eu não sou aquele cara, eu sou outra pessoa agora. Você foi meu apoio, meu conforto, meu consolo, meu colo... Uma coisa é você estar sozinho, sabe? Outra é estar com alguém que apoia você, faz você se sentir importante, cuida de você. Vocês fazem coisas juntos, desde aulas de dança até cozinhar...

Ela sorri apaixonada.

KRYCEK: - Chegar cansado em casa, e ao invés de ver paredes e recordar tristezas, eu tenho você me esperando com um sorriso. Passar horas conversando sobre tudo, se conhecendo mais, trocando carinhos, dizendo besteiras. Você caiu na minha vida, me dando a chance de ser uma pessoa melhor, a única coisa boa que me aconteceu a vida inteira e você sabe que estou sendo sincero, você conhece minha história... As coisas foram acontecendo, eu nem sentia nada por você e então, eu me apaixonei, senti medo de perder você... (SEGURA A EMOÇÃO) É, eu achei que perderia você quando aquele cara colocou a arma na sua cabeça e na mesma hora eu pensei: Que se dane, se ela morrer eu não quero mais viver, que graça tem a vida sem a presença dela?

Ele seca uma lágrima que surge, bancando o durão. Ela olha apaixonada pra ele.

KRYCEK: - Acho que eu fiquei frouxo mesmo. Eu não sei como dizer isso, não é fácil chegar a um ponto desses... Você é a pessoa mais maravilhosa que eu já conheci... Mas o que aconteceu nessa semana, me fez ver que novamente você tinha razão, esse relacionamento não está mais me preenchendo e...

Ela tira o sorriso dos lábios.

BARBARA: - Agora entendi porque trouxe a mala. Pra levar suas coisas.

KRYCEK: - Não, naquela mala estão as minhas coisas. O que me importa de verdade. Claro que se você tiver um cantinho, eu trago meus CDs e os aparelhos de ginástica...

Barbara solta os ombros olhando incrédula e de boca aberta pra ele.

BARBARA: - Espera, acho que estou tentando processar a informação...

KRYCEK: - (SORRI) Vim pra ficar. Pra sempre. Posso?

Barbara cerra o cenho, enche os olhos de lágrimas e se abraça nele. Ele a envolve nos braços.

KRYCEK: - (SORRI) Acho que isso deixou você triste. Melhor eu ir embora.

BARBARA: - Não!!! Não ouse!!! Já falou, agora não vale voltar atrás! Acho melhor levar essa mala pro closet antes que você se arrependa...

KRYCEK: - (SORRI) Me dá essa mãozinha linda?

BARBARA: - Dou. Vai colocar novamente no seu coração?

Krycek pega a mão esquerda dela e a beija. Então tira o anel de diamantes do bolso e coloca no dedo dela. Barbara, boquiaberta, olha pra ele, incrédula.

KRYCEK: - Só uma etapa a mais. Agora somos noivos.

Barbara se abraça nele. Krycek a envolve nos braços.

BARBARA: - Eu nem tô acreditando, eu não sei se beijo você ou choro!

KRYCEK: - Acho que beijar é mais legal, garota.

Barbara senta no colo dele, toma o rosto dele nas mãos e dá um beijo suave.

BARBARA: - Bem se vê que você nada entende mesmo dessas coisas. Colocou um anel de compromisso no meu dedo esquerdo.

KRYCEK: - Me desculpe, esqueci que seu costume é outro. Na Rússia, na direita é depois de casado. Quer trocar de mão?

BARBARA: - (SORRI) Sério que até isso é diferente? Não quero trocar nada! Que seja russo em tudo!!! Tem alguma coisa escrita?

KRYCEK: - Tem.

Ela arranca o anel do dedo, curiosa, e tenta ler.

BARBARA: - (BEIÇO) Mas tá em russo! Ratoncito malvado, vai ter que me dizer o que é, e ai de você se não disser!

KRYCEK: - (SACANA) Não vou dizer, vai ter que aprender russo e descobrir.

Barbara faz uma careta.

KRYCEK: - (SORRI) Koshka i krysa. Gata e rato.

BARBARA: - Ai que fofo esse meu Ratoncito lindo...

Ela enche ele de beijo, ele começa a rir. Ela entrega o anel pra ele. Estende a mão esquerda.

BARBARA: - (SORRI BOBA) Coloca de novo?

KRYCEK: - Ok. Quer casar comigo, Barbara Wallace?

BARBARA: - Enfia logo esse anel no meu dedo, a resposta é sim, Alexander Krycek, mas se apresse, antes que você se arrependa!

Krycek coloca o anel no dedo dela. Barbara o empurra pra cama, segurando o rosto dele e trocando um beijo apaixonado.


8:23 A.M.

Mulder parado na frente da sua casa. Mãos na cintura. Olha invocado pro lado, vendo Nancy plantando flores e o observando. Mulder arregala os olhos, abre a boca com os dedos e faz cara de louco. Nancy solta a pá e entra em casa correndo. Mulder começa a rir.

A Harley Davidson estaciona na frente dele. Krycek sentado na moto, de botas, calças jeans, jaqueta de couro, bandana na cabeça, brinco de argolinha na orelha. Barbara sentada atrás, de shorts jeans, botas, jaqueta de couro, mochila e cabelos soltos. Barbara estende a mão com o anel, mostrando pra Mulder.

BARBARA: - Agradece a Scully pelo buquê. Agora somos noivos.

Mulder aponta pra Krycek e começa a gargalhar alto. Krycek abaixa a cabeça, acenando negativamente.

MULDER: - É, a maldição do buquê é real mesmo! Um Arquivo X dos mais sinistros! Ah, mas eu tô vingado! Rato, se eu queria uma vingança contra você, essa foi a resposta! Vou cobrar as cervejas do Skinner, né "nasci pra amante"? Domesticaram o ratboy! Eu disse, não disse? Começa com uma sobremesa, uma escova de dentes que vai ficando...

Barbara ri, recostando a cabeça nas costas de Krycek e se abraçando nele.

KRYCEK: - (RINDO) Cala a boca, Mulder!

MULDER: - Admite, eu tenho bom gosto. Eu disse que essa era legal, bonita, possante, de classe e melhor custo-benefício.

KRYCEK: - É. Gostei dela também. Valeu a dica. Obrigado por ter ido comigo e...

MULDER: - Não tô falando da moto... E vai conseguir pilotar todo ferrado desse jeito?

KRYCEK: - Tá falando da moto?

MULDER: - Também.

KRYCEK: - Existem coisas chamadas curativos. Reduzem impacto, sabia?

MULDER: - Ah, não vai dar essa de graça pra eu encestar, vai? Não, até vou ficar quieto!

KRYCEK: - (RINDO) Mulder, cala a boca!

MULDER: - Me deve um colchão novo.

KRYCEK: - Coloca na minha conta.

MULDER: - Pensando bem... Acho que aquele já estava amassado demais. A Scully estraga colchões muito rápido. Coisa de baixinha.

KRYCEK: - (SEGURA O RISO) Acha mesmo que consegue tomar conta das coisas por aqui sozinho? Eu viro as costas e você se mete em encrenca, "amorzinho".

MULDER: - Não fui eu quem causou uma alvoroço na rua, "amorzinho". Eu saio e você cria uma guerra na vizinhança. Acho que agora é você quem precisa de uma lua de mel. Precisa testar o motor dessa belezinha.

KRYCEK: - Fala da moto?

MULDER: - Das duas.

Barbara ri e entrega as chaves da casa.

BARBARA: - E não vai dar festinhas de arromba, Mulder.

MULDER: - Seu namorado é quem dá festinhas de arromba. Meu negócio são alienígenas, não mercenários. Mas eu aviso se eles fizerem um primeiro contato.

KRYCEK: - Não me ligue. Se eu ver que é você, vou ignorar a chamada. Se cuida, "amorzinho".

MULDER: - Você também, "amorzinho".

Krycek arranca a moto, tomando a rua. Mulder sorri. Scully se aproxima, abraçando-se em Mulder.

SCULLY: - Hum... Lembra quando a gente começou a ficar juntos? Tudo o que queríamos eram momentos a sós e nada nos atrapalhando.

MULDER: - Lembro. Os dois doidinhos de tesão, o trabalho atrasando nosso lado, o telefone que sempre tocava nas horas mais impróprias... (DEBOCHADO) Tem saudades?

SCULLY: - (RINDO) Não mesmo! Prefiro o agora... É. Eles merecem um tempo sozinhos. Faz falta pra um casal.

MULDER: - E aí? Vamos comprar um colchão?

SCULLY: - Mulder, mal saímos da lua de mel e você já pensa no colchão?

MULDER: - Mas Scully, agora que temos bastante tempo na vida pra ficar na cama, não acha que o colchão é um item de primeira necessidade?

SCULLY: - É, quem diria, você está pensando mesmo é em dormir mais! E eu iludida com outra coisa... Me dá as chaves da Barbara. Estou encarregada de fiscalizar a reforma.

MULDER: - A gente pode trocar a cama também, hum?

SCULLY: - Aviso Mulder: Se aparecer com uma cama sem grades na cabeceira, você tá ferrado!

Os dois entram na casa rindo e abraçados.

Corte.


[Som: Scorpions - Wind of Change]

Krycek dirige a moto pela estrada deserta. Barbara agarrada nele, inclina a cabeça pra trás, deixando os cabelos voando ao vento.

Um cruzamento. Krycek para a moto.

KRYCEK: - Pra onde, Malyshka? Em que direção você quer ir?

BARBARA: - (SORRI) Na direção do vento, pra onde o vento nos levar.

Os dois trocam um beijo. Krycek toma a estrada e segue reto. Barbara se abraça nele, recostando o rosto em suas costas e fechando os olhos num sorriso de felicidade.


X


19/02/2020


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March 13, 2020, 10:48 a.m. 0 Report Embed Follow story
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The End

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Lara One As fanfics da One são escritas em forma de roteiro adaptado, em episódios e dispostas por temporadas, como uma série de verdade. Uma alternativa shipper à mitologia da série de televisão Arquivo X. https://www.facebook.com/laraone1

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