O Mais Belo Vermelho Follow story

pepperink Gabriela Pimenta

Um acordo de casamento leva o jovem Julien Dufour e seu irmão Eloïs para a Inglaterra. Mais especificamente para as terras do Duque de Northumberland, também conhecido como Hugh, da prestigiada família Bamborough. Assim como qualquer acordo, o casamento de Julien com a filha mais velha do duque, Suzanne, também visava estreitar os laços econômicos e aumentar os lucros de ambas as famílias, já muito influentes em seus países. Sendo o primogênito e herdeiro dos Dufour, Julien realmente não se importava em estar arranjado em um matrimônio por conveniência. Afinal, ele nunca conheceu o amor e atrevia-se a dizer que não o conheceria. Porém, tudo muda no momento em que seus olhos pousam sobre aquela figura tão extraordinária. Ele irá aprender que o amor é igual ao mais belo vermelho.


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Os gêmeos

1812


Debruçado sobre o costado do navio, sentindo a brisa fresca daquela tarde de primavera contra o rosto, Julien observava a costa da Inglaterra ficar cada vez mais próxima. Depois de longos e exaustivos dias em alto mar, aguentando uma viagem pouco confortável, finalmente iriam atracar. E a partir dali, logo que colocasse seus pés em terra firme, começaria uma nova etapa de sua vida.

Um dos poucos sonhos que o jovem Julien mantinha em sua vida estritamente traçada desde o nascimento era conhecer o mundo. Especialmente o velho vizinho de que tanto ouvira falar. Mas, apesar de resignado com o motivo de sua visita àquele país que tanto idealizou estar um dia, ele não se sentia de fato feliz.


Ainda que suas responsabilidades como primogênito e herdeiro da família Dufour sempre lhe tenham sido muito claras, o rapaz supôs que poderia ao menos aproveitar sua ida a Inglaterra para vivenciar a experiência de estar naquele país.


No entanto, a razão de sua visita lhe rondava os pensamentos e dissipava quaisquer chances de ver aquela viagem como algo positivo e não imposto, embora realmente o fosse. Julien sabia o seu lugar. Assim como sabia que, independentemente de qual tivesse sido a sua opinião acerca do assunto, não poderia negar as palavras de seu pai. No fundo, ele não se importava tanto.


Estar enredado em um casamento arranjado era somente mais uma de suas várias incumbências. Em seus vinte e dois anos de idade, ele nunca conhecera o amor e atrevia-se a dizer que não o conheceria. Era cético quanto a isso, uma vez que em sua própria casa jamais vira um exemplo desse sentimento. Seus pais também se casaram por conveniência e, ainda que houvesse apreço e respeito mútuo entre eles, amor era algo que não existia naquela relação.


“Como alguém sente aquilo que nunca viu?”, era o que pensava.


Então, sustentado por sua convicção, não houve porquê recusar o seu casamento arranjado com a filha mais velha do duque de Northumberland. Velho amigo e sócio de seu pai. Ocasionalmente, o seu futuro sogro. Afinal de contas, não era como se ele esperasse encontrar e casar com alguém que amasse.


Casamento, para ele, jamais seria sinônimo de amor.


Cansado de seus devaneios, Julien ergueu os braços e soltou um longo suspiro. Fosse o que fosse, não tinha mais volta. Em poucos minutos desembarcariam e então iriam de carruagem até o ducado de Northumberland, onde estavam situadas as propriedades do duque, na divisão com o sul da Escócia. Escutara por alto que as terras daquela região eram deslumbrantes e cheias de aventuras inexploradas. O jovem Dufour gostaria de lançar-se em algumas com seu irmão.


Bem, isso se Eloïs quisesse segui-lo.


Seu irmão, apesar de companheiro, era do tipo que preferia ficar imerso em livros e partituras do que correndo por aí. Sempre fora assim desde a infância. Tanto que, com exceção dos cabelos castanhos, os irmãos não se pareciam em nada.


Julien era robusto, forte e com a pele mais amorenada. Enquanto Eloïs era esguio e tinha a pele quase leitosa pela falta de exposição ao Sol.


No entanto, o mais novo dos Dufour era um exímio pianista. De um intelecto invejável e astuto como poucos. Carregava um semblante sério e compenetrado, mas, perto de quem prezava, tinha um sorriso tão doce quanto o de um menino. Não era à toa que ambos fossem cobiçados pelas moças. Muito cobiçados.


Só que nenhum deles tinha qualquer interesse em envolvimentos românticos. Julien por não acreditar em tal coisa e Eloïs por simplesmente não ter vontade. Era muito mais proveitoso estar em companhia de um piano do que uma dama. Elas falavam e eram pomposas demais. Fingidas demais.


Julien sentou ao lado de seu irmão no estreito banco do convés e ficou observando-o estudar a partitura que segurava. Mais do que vir como assistente de negócios, Eloïs também planejava visitar alguns conservatórios em Londres quando tivesse a chance ou o mais próximo do ducado onde ficariam.


— Iremos desembarcar em breve. — comentou Julien, chamando a atenção do mais novo — Não é melhor guardar seus pertences? Ou irá perdê-los.


— Tem razão. — suspirou, pegando a pasta de couro caída no chão para arrumar os papéis — Sendo um duque, provavelmente o senhor Bamborough tenha um piano em casa, não é mesmo? Seria frustrante se não o tivesse, vale frisar.


— Sim, provavelmente. Não seria de admirar que o duque tenha um bom piano em sua sala. Especialmente para suas filhas que devem gostar de tocar.


— Que seja. Eu realmente não me importo. — deu de ombros — Contanto que eu possa usá-lo com sua permissão para praticar, pode ser de qualquer tipo.


— Você é um entusiasta, Eloïs. Poderia tocar um piano caindo aos pedaços.


— Possivelmente.


Julien riu do comentário sagaz do irmão. Tão típico dele.


Em meio a todas as contrariedades daquela viagem, o rapaz estava contente e agradecido de, pelo menos, ter o irmão mais novo ao seu lado.


O navio atracou no porto tranquilamente após alguns minutos. Dois velhos da tripulação descarregaram os baús que os Dufour trouxeram enquanto estes desembarcavam e olhavam ao redor. O mar se estendia pelo horizonte e, mesmo que Julien estivesse cansado de vê-lo, não podia negar que era lindo dali.


Trajando nada mais do que seu colete, as calças e as botas de montaria, Julien colocou seu casaco assim que um homem de aparência cuidadosa chamou por si. Não deu tempo de colocar o lenço ou levantar a gola de sua camisa, caída nos ombros.


— Senhor Dufour e seu irmão, estou correto?


— Sim. — apertaram as mãos. Eloïs foi o próximo.


— Meu nome é Albert, senhores. Muito prazer.


— Eu sou Julien e este é Eloïs. Você nos levará até a casa do duque?


— Exatamente. Poderiam me acompanhar? Pedirei que o encarregado venha buscar vossas bagagens para acomodar na carruagem e seguirmos viagem.


Os dois irmãos consentiram e acompanharam o tal homem até a saída do porto. Logo avistaram que uma bela carruagem os aguardava estacionada próximo à entrada, feita de madeira nobre e adornada com o brasão da família Bamborough entalhado na lateral, além de vários outros detalhes luxuosos.


Julien ficou impressionado com tanta suntuosidade, em oposição à Eloïs que achou tanto ouro e entalhaduras decorativas um grande exagero.


O cocheiro, um senhor beirando seus quarenta anos, acenou para os irmãos ao vê-los atravessar a doca em direção a estrada. Julien cumprimentou-o, tal como Eloïs, e ambos se acomodaram nos assentos confortáveis da carruagem.


— Será que eu deveria ajeitar as roupas antes de chegarmos a casa do duque? — indagou Julien — Não seria elegante e muito menos aceitável que eu aparecesse desalinhado dessa maneira diante de minha futura noiva e sogro.


— Ficamos dias dentro de um navio, como estaríamos alinhados? — retrucou — Creio que não há pressa, de qualquer modo. Ainda levaremos mais algumas horas para chegar à casa do duque e eu acredito que poderemos descansar e tomar um banho antes de as apresentações serem feitas, não é mesmo?


— Você está certo. — suspirou, relaxando contra o banco — Irei repousar um pouco, já que as nossas acomodações naquele navio mais contribuíram para que eu ficasse acordado do que tivesse uma boa noite de sono. E você? Também...


Antes que pudesse terminar, Julien percebeu que seu irmão já havia adormecido. Sorriu debochado. Eloïs tinha uma grande facilidade de adormecer, especialmente em locais que lhe eram propícios. Bem, não podia julgá-lo. Uma vez que sabia que o irmão também não conseguira dormir o suficiente nos dias em que estiveram viajando, assim como ele próprio.


Tomado pelo cansaço, Julien apoiou a cabeça no encosto do assento e fechou os olhos. Os ruídos das rodas contra o cascalho e o leve balançar da carruagem conforme os cavalos avançavam pela estrada conduziram o jovem Dufour ao sono.


O solavanco que a roda deu ao passar por um buraco despertou Julien abruptamente. O rapaz, ainda sonolento, olhou ao redor e percebeu que a carruagem estacionava diante de um enorme palácio rural.


Seria a casa do duque?


Aprumou-se no assento e ajeitou rapidamente os cabelos logo que a portinhola fora aberta pelo mesmo homem que os recebera no porto, Albert.


— Senhores, acabamos de chegar. — informou.


— Obrigado. Por favor, dê-me um minuto, sim? — pediu, sendo obedecido de imediato — Eloïs... Eloïs, acorde. Nós chegamos.


— O que?


— Disse que chegamos.


— Oh, certo. — suspirou, despreguiçando — Pois bem. O que está esperando?


— Precisamos ao menos parecer apresentáveis, não é?


Eloïs analisou a si mesmo e bufou. Realmente não se importava com sua aparência. Só queria uma boa cama e comida para seu estômago vazio. Depois pensaria nos bons modos e todas as regras que a sociedade lhe impunha como nobre.


— Tudo bem. — respondeu enfim — Peça ao tal Albert para trazer algumas roupas.


Como fora pedido, o empregado entregou dois casacos limpos e lenços aos irmãos. Eloïs ajudou Julien a amarrar perfeitamente o lenço branco ao redor da gola alta de sua camisa, sendo retribuído logo em seguida. Os dois saíram da carruagem e vestiram os casacos escuros, abotoando-os e deixando bem alinhados ao corpo.


— Assim está melhor. — comentou Julien — Obrigado, Albert.


— Não há porque agradecer, senhor. — fez uma reverência — Anunciarei ao duque que os senhores chegaram e estão prontos para vê-lo.


Com um aceno do jovem Dufour, Albert entrou no palácio e só então os irmãos tomaram a liberdade de observar o lugar onde estavam. A construção era imponente, tão luxuosa e ofuscante quanto a carruagem na qual vieram, escondida em meio ao verde de arvoredos abundantes e campos infinitos. As paredes eram de um tom próximo ao branco e as janelas com enormes vitrais decorados, que provavelmente dariam vista para as belas paisagens bucólicas em torno da propriedade.


O palácio da família Dufour era considerado um dos mais admiráveis da região em que viviam. Era tão grande e luxuoso quanto, mas os irmãos tinham que admitir que o duque de Northumberland havia feito um bom trabalho ao mandar construir sua casa.


— Senhores, por favor. — Albert reapareceu na porta — O duque quer vê-los.


Julien poderia até mentir. Contudo, a verdade é que estava bastante nervoso. Afinal, o primeiro passo para dentro daquele palácio era o primeiro passo para sua nova vida.


A vida que, querendo ou não, seria a que deveria seguir a partir de então.


Sem alternativas, os irmãos Dufour seguiram Albert até o escritório do duque.


Em outra parte do palácio, mais especificamente na cozinha, um murmurinho crescia desenfreado graças à chegada dos ilustres convidados. Julianne, criada particular das irmãs Bamborough, agarrou as saias e correu o mais rápido que pôde até a sala de descanso onde as moças passavam a maior parte do dia. Bateu duas vezes na porta e entrou logo que foi permitida.


Suzanne, sentada próximo a janela e com um arco de bordar em mãos, olhou curiosa para a criada e as outras duas irmãs pararam o que faziam para prestar atenção.


— O que foi, Julianne? — perguntou a mais velha.


— Lady. — tomou fôlego — Ele chegou. Seu noivo e o irmão acabaram de chegar.


Quenny e Adelyn observaram a irmã, que arfou ao receber a notícia.


— E como eles são? Especialmente o meu noivo. É bonito?


— Perdão, eu ainda não os vi. — curvou-se — Mas outras empregadas, que estavam perto da entrada na hora em que a carruagem parou, disseram que são e muito.


— Isso é realmente interessante.


Suzanne levantou e alisou a saia de seu vestido branco simples. Os cachos de seu cabelo louro caiam sutilmente na altura dos ombros e as pérolas de sua falecida mãe lhe enfeitavam o pescoço alongado. Estava, como sempre, impecável.


— Como uma lady, devo me resguardar até que seja o momento de conhecer meu futuro marido. Irei para o meu quarto e ficarei por lá. — caminhou em direção a porta e parou com a mão na maçaneta — Me avise quando papai for apresentar-nos.


Sem delongas, saiu da sala e deixou as irmãs mais novas sozinhas com a criada. Adelyn, apesar de curiosa com as figuras que estavam em sua casa naquele momento, revirou os olhos para o comportamento de Suzanne e voltou a resolver o quebra-cabeças em que trabalhava desde a semana passada. Quenny a repreendeu pelo gesto, mesmo sabendo de que nada adiantaria, e virou-se para Julianne.


— Talvez eu devesse me resguardar também? — perguntou — Se o irmão mais novo dos Dufour for tão bonito quanto estão falando, quem sabe eu não seja cortejada?!


— Lady Quenny é uma excelente pretendente ao irmão mais novo do senhor Dufour. Tenho certeza de que as chances de ser cortejada são muito altas.


— Pois bem. Está resolvido. — levantou de supetão, arrumando o vestido amarelo — Irei para o meu quarto. Adelyn, não se importa de ficar sozinha, não é?


— De modo algum.


— Se bem que, eu acho que como uma dama respeitável, você também deveria...


— Quenny, eu não sairei daqui. — retorquiu a mais nova — Deixe-me.


— Que seja.


Em companhia da criada, Quenny foi para o seu quarto no terceiro andar. Adelyn, aliviada por estar finalmente sozinha, continuou com seu quebra-cabeças na sala de descanso. Contudo, não demorou muito para que seus pensamentos divagassem para os acontecimentos que se sucederiam com a presença daqueles homens ali.


As coisas iriam mudar, com certeza.


Depois de uma longa conversa com Hugh Bamborough, o duque, Julien e Eloïs foram conduzidos para os aposentos que ocupariam ao longo dos meses em que estariam hospedados no palácio. O jantar seria servido as seis e então as apresentações seriam feitas. O que lhe dava tempo para descansar e se preparar.


— Nos vemos mais tarde. — disse Eloïs antes de entrar no quarto.


Julien assentiu e também entrou no seu. Como imaginava, a decoração e todo o ambiente exalava riqueza. Nada com o que não estivesse acostumado. Pois, era nobre tanto quanto a família Bamborough, com a diferença que a sua não era tão exibicionista. Talvez fosse apenas uma conduta comum de se seguir na Inglaterra.


Embora estivesse cansado, o rapaz tirou suas roupas, ficando apenas com as calças e deitou na enorme cama de dossel. Apoiou os braços sob a cabeça e soltou um longo suspiro. Tudo estava correndo de acordo com o que deveria. Em alguns meses, estaria casado com lady Suzanne e herdaria os negócios de sua família, assim como as terras incumbidas aos cuidados do duque em Durham, ao sul, onde deveria administrar as minerações de carvão.


Bem, era esse o trato que o levara ao matrimônio por conveniência. Contudo, haviam mais questões relacionadas ao seu casamento do que aparentava e que ainda lhe eram uma grande incógnita. Julien desvendaria todas pouco a pouco.


Deitado, começou a pensar nos membros daquela família, da qual em breve também faria parte. Sabia por alto que Hugh tinha dois filhos homens mais velhos. O primogênito e herdeiro do ducado de Northumberland, Joseph, que se casou há dois anos e estava encarregado de alguns negócios na França. E Augustus, esse que não tinha qualquer informação. O restante dos Bamborough era desconhecido, até mesmo sua noiva de quem conhecia apenas o nome, Suzanne.


O que mudaria no final daquela tarde, pois, conhecê-los-ia na hora do jantar.


Imerso em seus devaneios, Julien sobressaltou ao escutar um estrondo vindo do corredor. Alarmado, sentou e encarou fixamente a porta do quarto.


O que estaria acontecendo?


O barulho de passos batendo forte contra o piso de madeira ficou mais perto, bem como de risadas escandalosas ecoando, seguidas por um estrondo alto.


Que confusão toda era aquela, afinal?


— Por favor, não corram! — alguém gritou.


Intrigado com a situação, o rapaz vestiu às pressas sua camisa e abotoou o máximo que conseguiu. Descalço, marchou até a porta e a abriu de supetão, deparando com uma criada mal-humorada e com as mãos nos quadris, numa posição impaciente.


— Aconteceu alguma coisa? — indagou.


A voz levemente rouca assustou a criada, que abaixou os braços e fez uma reverência desajeitada. Desconcertada com a posição em que foi pega, ela disse:


— Oh, não senhor. Perdoe-me! São apenas os gêmeos aprontando como sempre.


— Gêmeos? — olhou em direção ao final do corredor — Tem certeza?


— Sim senhor.


Com um breve aceno e sem a mínima vontade de envolver-se no que quer que fosse, Julien voltou para dentro e trancou a porta. Jogou-se novamente na cama.


Gêmeos? Quem diria que o duque tivesse filhos gêmeos.


Aparentemente, a família Bamborough era maior do que poderia imaginar.

Feb. 6, 2020, 2:17 p.m. 0 Report Embed 2
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