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dissecando Edison Oliveira

Às vezes o primeiro beijo, pode ser o mais incrível da sua vida.


Short Story Not for children under 13.
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ALL STAR



Depois de molhar os pés, após caminhar por alguns minutos na orla da praia, me sentei na areia e admirei o horizonte; vi uma infinidade de céu e mar, uma visão única que chegava a provocar ilusões, como se os dois fossem uma coisa só.
Não fazia muito calor (mesmo que estivéssemos no auge do verão) e o sol não queimava como de costume, mas ainda assim minha mãe havia me obrigado a passar o protetor solar.
Com um certo desconforto, a obedeci. A sensação de ter aquele creme pegajoso por braços, ombros, costas, peito e parte do rosto me agoniava. Além do mais, não fazia meu estilo andar por aí sem usar camiseta. Sabe, sou magro demais, e deixar meus ossos em exibição sempre fora algo constrangedor.
Meus olhos estavam cansados de admirar os diversos tons de azul que céu e mar exibiam, então desviei o olhar na direção oposta da onde havia caminhado até chegar ali. Num primeiro momento, achei que era algum morador local que andava pela orla, como era de costume. Depois, após alguns segundos e com os olhos se adaptando ao que estava enxergando, percebi que se tratava de uma garota. Provavelmente uma de minha idade, a julgar pela sua altura e o seu físico.
Imediatamente quis ser tragado pela areia; nunca fui um rapaz popular na escola (as garotas nem sequer tinham olhos para mim, e quando precisavam me chamar faziam algum ruído já que não tinham ideia de como era meu nome) e além do mais estava sem camiseta. O pesadelo de todo magricela envergonhado deste planeta.
Pensei em me levantar e começar a andar na direção oposta, inicialmente chutando a areia e depois aumentando os passos, até que a garota ficasse para trás e se tornasse apenas um borrão no horizonte. A ideia me parecia interessante, cheguei até a me levantar e dar umas palmadinhas em minha bermuda para limpá-la da areia, e quando tornei a olhar na direção da menina, ela já estava diante de mim.
Levei um susto, soltei um gritinho afeminado e ela sorriu. Naquele instante, foi como enxergar o azul do céu e do mar mais uma vez; era um sorriso lindo, que combinava perfeitamente com aquele dia quente, com os traços de seu rosto delicado e com seus cabelos longos e escuros.
— Olá, — me disse ela, com uma voz doce e ainda exibindo os dentes.
Tentei responder, então lembrei que estava sem camiseta e fui capaz apenas de gaguejar qualquer coisa.
Ela continuou:
— Sabe que lugar é este? É que estou um tanto perdida, e não faço ideia de como me localizar.
Quando falou isso, olhou em volta e pareceu suspirar. Talvez pela beleza da praia, ou então por simplesmente sentir alívio por ter encontrado alguém que pudesse ajudá-la. Não que eu fosse capaz (estava ali apenas de férias da escola, como fazíamos em todos os verões) e ainda por cima não era o sujeito mais familiarizado com o endereço de onde estava. Ainda assim, prometi a mim mesmo que daria o meu melhor. Não era sempre que uma garota falava comigo, ainda mais linda e simpática daquele jeito.
Segurei o queixo e olhei em volta, procurando uma placa de referência, alguém mais velho ou até mesmo a minha mãe, preocupada com a minha demora e vindo em minha direção com o andar agitado. Não vi nada dessas coisas, então tornei a olhar para a garota e falei:
— Estamos no litoral, — senti minhas bochechas esquentarem logo depois.
— Certo. Nossa, cai longe desta vez.
— Para onde você está indo?
A garota deu de ombros.
— Nunca sei. Por aí. E você, mora aqui?
— Não, moro no centro. Só venho para cá nas minhas férias da escola. Estou na sétima série.
Não sei até hoje porque falei aquilo. Achava que era um bom número, uma demonstração do nível intelectual em que me encontrava, e que também queria dizer que já não era mais uma criança, que tinha pêlos no saco e que não brincava mais com bonequinhos.
De qualquer modo, ela não pareceu se importar. Remexeu a cabeça quando o vento soprou os seus cabelos e ironicamente me lembrei de algum comercial de shampoo. Ainda me sentindo deslocado, cocei o braço esquerdo e olhei para o mar. As ondas estavam mais agitadas, e o barulho vindo delas soava belo e amedrontador.
— É bonito, né? — comentei, quase sem perceber.
— Sem dúvida. Nunca vi tão de perto.
— Primeira vez na praia?
— Sim, — ela respondeu, e por algum motivo achei aquilo a coisa mais doce do mundo.

Quinze minutos depois, estávamos sentados um do lado do outro, como se fossemos velhos amigos, ou então (quem me dera) um casal.
Falávamos do mar, do cheiro da orla e do que eu costumava fazer quando não estava de férias. Ela sempre sorria quando eu dizia que era muito popular na minha escola, e aquilo acabava me deixando um tanto sem jeito. Algo em minha cabeça sussurrava: IDIOTA, ELA SABE QUE VOCÊ É UM PALERMA!
Então, olhava para aquele sorriso e minhas preocupações desapareciam, como se fossem levadas pelas ondas agitadas do mar.
— Em que série você está? — perguntei de repente, fazendo o sorriso dela morrer devagar.
— Eu não estou na escola, — ela disse, parecendo despontada. — Mas frequentei por um tempinho.
— Pensei que você morasse aqui.
— Até escurecer, irei morar.
Ergui uma sobrancelha e a encarei.
— Você e sua família está de partida hoje a noite?
A garota sorriu, quase gargalhou. Não soou como um deboche, mas sim um riso honesto, espontâneo e cheio de alegria. Quanto a mim, permaneci sem reação, olhando para a garota mais linda que já havia visto e falado comigo, esperando ansioso que até o fim do dia lhe pediria o número de seu telefone.
Aos poucos, ela foi parando de sorrir, então olhou para mim e disse:
— Não estou aqui de férias, como você. A propósito, como você se chama?
— Murilo. E você?
Ela se pôs a pensar. Depois, um tanto confusa, falou.
— Faz tanto tempo que não escuto ele, que acabei esquecendo.
Nós dois sorrimos daquela vez, e em uma rápida percorrida com os olhos, reparei que ela usava um par de tênis All Star lilás, sem meias e com aparência desgastada.
— Já sei, — falei. — Vou chamá-la de All Star.

Começamos a andar na direção da nossa casa de praia (meu coração batendo mais forte, as mãos cada vez mais suadas) e All Star bem ao meu lado, olhando com uma certa frequência para o céu.
Cogitei que ela deveria estar atrasada, que a mãe dela deveria ser tão zelosa quanto a minha e que logo o celular dela iria vibrar com inúmeras mensagens e ligações. Aquilo me fez retirar o telefone de um dos bolsos e conferir. Apenas duas mensagens de texto, ambas de minha mãe perguntando se eu já estava a caminho. Respondi rapidamente que sim, digitando ferozmente e com abreviações.
All Star fingiu espiar o que eu estava escrevendo, e eu fingi esconder o celular de seu campo de visão.
— Escrevendo pra namorada? — ela questionou, me fazendo tremer. Quase deixei o celular cair.
— Não tenho namorada — respondi, mas não tenho certeza se gaguejei ou não.
— Pensei que fosse popular na sua escola.
— É, mas… estou sozinho no momento. Terminei um namoro uns meses atrás, e quero sossego. Curtir, sabe?
Num primeiro momento, adorei a minha resposta. Me senti foda, um rapaz descolado e importante, do tipo que não liga para nada a não ser uma trepada de vez em quando. Quase como Thiago Melo, meu colega de classe que já comeu metade da escola. Estava pensando nele quando criei aquelas palavras, em como ele agiria naquela situação e se sentiria orgulho de como havia me saído.
Guardei o celular e tentei desviar o assunto.
— Então, você e sua família está acampada aonde?
— Não há família, — disse All Star, um pouco triste. — Desde que apontei para uma estrela, não tenho mais a minha vida. Agora pertenço a isso tudo.
Ela apontou com a cabeça para o céu ainda azul. Sem entender (e muito mais preocupado em pegar o número de seu celular) falei que já ouvirá aquela lenda outra vez, quando era uma criança de nariz escorrendo.
— Que lenda?
— Aquela que diz que se você aponta para uma estrela, uma verruga nasce no seu dedo.
— É lorota, — desdenhou ela, diminuindo os passos. — Fiz isso quando tinha seis anos, e aos onze vieram me buscar. Desde então, não tenho endereço fixo. Não lembro quem são meus pais, nem do meu nome. Provavelmente vou esquecer de você também, e isso me deixa triste. Gostei de você.
Quando ouvi aquilo, parei de caminhar. All Star parou logo em seguida, sem entender. Naquele momento, nada do que ela havia me dito fazia sentido, mas em meio a toda aquela confusão, escutei um “gostei de você”, e então nada mais importava. Nunca havia escutado aquilo de alguém que não fosse a minha mãe.
Fiquei parado, absorvendo as palavras, o momento e a alegria. Era tão denso que sentia que poderia tocá-lo se quisesse.
— Que foi? — quis saber All Star, verdadeiramente confusa.
— Nunca me falaram isso.
— Eu sei, — ela disse, sorrindo sem jeito. — Ninguém acredita quando conto essa história. Só que é verdade. Toda noite, eu viro uma estrela. Viajo por todos os cantos do mundo, e quando o dia chega, acordo em algum lugar. Nunca é o mesmo, claro, e devagar fui esquecendo das coisas. É uma maldição, mas bela ao mesmo tempo.
Sem prestar a atenção em nada, perguntei:
— Você gosta mesmo de mim?

Paramos em uma pequena colina de areia, onde era possível enxergar algumas pessoas mais a frente. Não estava muito agitado, mas dava para ver que haviam crianças construindo castelinhos na areia, e adultos andando devagar e bebendo qualquer coisa que estivesse gelada.
Procurei para além da praia, e assim que avistei apontei o dedo.
— Aquela é a casa onde estou com minha mãe. Você quer ir até lá? Isso é, você pode?
— Posso ir onde quiser, — ela disse, num tom de liberdade que me fez sorrir. Depois, olhou para o céu que já acumulava tons de laranja e roxo. — Só que não vou poder. Logo vai escurecer e…
— Depois ligamos para os seus pais e avisamos, — interrompi, começando a andar. Minha cabeça estava operando em outra velocidade, e meu coração parecia prestes a explodir.
Quando estava no meio da colina, escutei All Star me chamar. Imediatamente parei e me virei para ela, que permanecia onde estava.
— Você não vem?
— Já vai escurecer, — ela disse, realmente desapontada. — Isso significa que está chegando a hora de partir.
— Posso ao menos pegar seu telefone? — perguntei, cheio de coragem, um sentimento não muito presente em minha vida.
All Star sorriu, mas aquele sorriso foi diferente; foi o mesmo que a minha mãe exibiu para o meu pai, quando eles se separaram e ela disse que tudo ficaria bem, mas que a partir dali eles seriam apenas bons amigos.
— Você não escutou nada que lhe falei, — afirmou ela, e estava certa. — Vou partir dentro de instantes, e quero me despedir de você. Suba até aqui de volta.
Confuso, subi devagar a pequena colina. Os pés esquentando, engolidos pela areia. Em nenhum momento, tirei os olhos de All Star. Estava linda, os cabelos voando na outra direção.
Já diante dela, me pus a escutar, talvez pela primeira vez naquela tarde.
— De todos os lugares que visitei, este foi o melhor. Adorei conhecer você, e sinto não podermos conversar muito mais. Vou nascer em breve, e serei apenas um pontinho brilhante no céu. Infelizmente a minha situação me fará esquecer de você em breve, assim como tem sido com o resto. Por isso estou me despedindo do jeito certo, para que não pense mal de mim.
Cocei a nuca e dei um passo para frente, na sua direção.
— Já que é assim… Podemos nos beijar?
— Não sei o que poderá lhe acontecer se me tocar. Não sei muita coisa, na verdade.
Dei um novo passo.
— Não sou quem disse ser. Nunca fui popular na escola, e todos zombam de mim o tempo todo. Queria apenas que as minhas férias fossem diferentes ao menos uma vez. Estou cansado de apenas caminhar na areia. — Mais um passo, e nossos narizes quase se tocaram. — Por favor? Não quero esquecer de você, como você esquecerá de mim.
Dava para sentir o cheiro dela. Era uma mistura de flor-do-campo, morango e mel. Ela respirava fundo naquele momento, e seu hálito mentolado tocava o meu rosto, numa carícia que jamais havia sentido anteriormente.
Sem perceber, nossos braços se entrelaçaram e em seguida foi a vez dos lábios. Nos beijamos sobre o céu alaranjado do fim de tarde.

Foi meu primeiro beijo.
Depois, não me lembro de muita coisa. Acho que apenas caminhei de volta pra casa, sem olhar para trás. Ela me pediu que fosse assim, pois segundo ela, não era bom observar uma estrela nascer.
Isso foi há dois anos, e desde então minha vida tem sido bastante agitada. Horas desgastantes em clínicas e hospitais, médicos inconformados com minha velhice repentina e análises mensais dolorosas, onde eles enfiam uma agulha na minha coluna e sugam o que quer que pretendem achar.
Estou com quinze anos, mas quando me olho no espelho vejo um velho de setenta. É triste se ver assim, pode apostar, mas procuro ver além; acho que é uma espécie de lembrança, um sinal deixado para que de fato eu não me esquecesse dela. A coitadinha tentou me dizer que não sabia o que poderia acontecer (acredito mesmo que ela não sabia) e o que aconteceu foi algo instantâneo, um desejo mútuo.
Às vezes me pego olhando para o céu durante a noite. Vejo milhares de All Stars, e todas parecem sorrir para mim, assim como naquela tarde. Obviamente não consigo identificá-la, mas gosto de pensar que ela é a que brilha mais forte, e como seria incrível se um dia eu pudesse vê-la mais uma vez.
Já pensou em como isso seria incrível?

Jan. 28, 2020, 11:21 p.m. 0 Report Embed 1
The End

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