kztironi Karina Zulauf Tironi

"O que aconteceu naquele dia não contei e não pretendo contar a ninguém. Ninguém além de você que está lendo, claro. Mas só vou arriscar parecer um maluco dessa vez porque eu preciso que alguém, alguma pessoa além de mim mesmo, saiba do diário."


Short Story Not for children under 13.
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Caneta de Pena

Eu nunca contei pra ninguém o que aconteceu naquele dia. Talvez por medo de me acharem um doido e rirem da minha cara; considerando meu histórico com coisas malucas e quase impossíveis de se acreditar, provavelmente achariam mesmo.

Não coisas paranormais, tipo ver um fantasma atrás da geladeira quando você desce de madrugada para pegar um copo d'água ou sentir alguém te vigiando enquanto dorme. Nada desse tipo acontece comigo, pode ter certeza. Mas, por outro lado, acontecimentos realmente estranhos costumam fazer parte do meu dia a dia, como na vez em que eu achei dez reais na calçada e quando me abaixei para pegá-lo um mendigo fedendo a bebida barata e comicamente uma mistura de creme de barbear saiu correndo de um beco gritando e simplesmente se jogou em cima de mim. Assustado como estava, permaneci no chão até que ele pegou a nota de dez reais e voltou correndo para as sombras do prédio comercial. Torci meu punho feio naquele dia. Hoje em dia só arrisco pegar um dinheiro que achei na rua se for cinquenta pra cima.

Eu desisti de contar essas coisas para meus amigos desde o momento que começaram a me chamar de "Senhor das Loucuras Iminentes". Quero dizer, ninguém quer ter um apelido assim, né? Faz parecer que sou viciado em crack ou sei lá.

Enfim. De qualquer modo, o que aconteceu naquele dia não contei e não pretendo contar a ninguém. Ninguém além de você que está lendo, claro. Mas só vou arriscar parecer um maluco dessa vez porque eu preciso que alguém, alguma pessoa além de mim mesmo, saiba do diário.

Como a maioria das bizarrices que me ocorrem, essa também se passou durante minhas idas e vindas da faculdade. Dessa vez eu estava indo e eram sete e meia da manhã. Eu tenho um costume meio chato de entrar em modo automático quando estou andando em público, minhas pernas se mexem sozinhas e eu meio que entro em um profundo estado contemplativo do universo e meus pequenos problemas de vida – minha mãe chama isso de pedir para ser assaltado, mas não ligo, já que não tenho a menor cara de quem tem dinheiro nos bolsos. Nesse dia eu andava assim já fazia algumas boas quadras quando tropecei em uma coisa e quase fui de nariz no concreto; era uma coisa preta e pequena, do tamanho de um caderno. Voltei um passo e o examinei de cima.

Algo em mim não permitiu que eu fosse embora naquele momento, mas eu tive muito cuidado em olhar para todos os lados antes de pegar o caderno nas mãos. Eu definitivamente não queria ser atacado por nenhum mendigo lunático novamente.

Hesitei somente por um segundo antes de abrir na primeira página.

Era um diário. Ele tinha folhas amareladas (quão velho seria?) e estava escrito de forma quase que ilegível, com uma tinta que borrava em vários pontos da folha. Talvez por uma daquelas canetas tinteiro?

Fiz sombra com a mão para poder ler os primeiros parágrafos.


"13 de Agosto de 2015.

Eu percebi que o que estava acontecendo não tinha volta quando tive que esfregar as mãos mais de seis vezes até conseguir tirar todo o sangue de debaixo das unhas. Até agora sinto o cheiro de ? (não consegui ler a palavra, estava muito borrado de tinta) quando aproximo as mãos do rosto. Mas pode ser que esteja alucinando novamente. Há sempre essa possibilidade.

Lúcio disse que eu precisava de um medicamento com urgência na nossa última consulta. Não lembro exatamente o que eu disse para ele, mas lembro do assombro em seu rosto antes de eu sair da sua sala. Acho que não posso voltar mais lá."


Pisquei, sentindo a boca seca.Tive dificuldades em erguer os olhos do diário e me lembrar onde estava.

O que eu havia acabado de ler?

Alguns pedestres que passam por mim me olham estranho porque estou no meio do caminho na calçada. Me afasto para a parede de uma loja de souvenirs e volto a ler a continuação do diário.


"Ele era um bom homem, mas nunca conseguiu me entender de verdade. O que possivelmente o tornava um fracasso na sua profissão.

Mas eu não posso aceitar isso; ser dopado por remédios. Eu sei o que eles fazem. Vi o que fizeram com minha mãe. Não irei permitir que me tornem um monstro que eu não conheço.

Pelo menos dessa vez eu sei com o que estou lidando.

Pelo menos dessa vez eu conheço as cantigas de ninar que o adormecem.

Embora muitas vezes nesses últimos dias quem seja dominado sou eu."


Tomado de muita curiosidade, praticamente não tive outra escolha que não fosse levar aquele diário comigo para as aulas. Eu não poderia simplesmente deixá-lo ali, não naquele momento; quem sabe se eu conseguisse ler mais um pouco, só mais umas páginas, eu pudesse colocá-lo no chão onde havia encontrado quando voltasse da faculdade.

Tendo me decidido, coloco o diário na mochila com a promessa de continuar a leitura assim que tivesse a chance.

Por coincidência, meu segundo professor da manhã avisa em cima da hora que não poderá dar aula dado a um mal-estar e sou presenteado com cinquenta minutos livres para uma leitura do diário. Meus colegas de sala saem para aproveitar o dia ensolarado e eu sento em uma das últimas cadeiras para não ser interrompido.


"16 de Agosto de 2015.

Nos meus momentos de sanidade eu questiono tudo o que aconteceu comigo nesses últimos anos e quanto eu desci, além do fundo do poço acredite, ele não tem um fim. Nesses meus momentos eu sei que passo muito tempo boiando ou submerso na loucura, sempre a uma respiração de me afogar. Nesses momentos eu sei que não estou pensando logicamente durante as crises, mas isso não as torna menos reais."


"20 de Agosto de 2015.

Eu sinto quando está prestes a começar. Sei exatamente quando está chegando. As palmas das minhas mãos ficam secas ou muito úmidas, começo a suar frio e tenho grandes e incontroláveis desejos de pegar a coisa mais próxima de mim e jogar contra a parede, ou agarrar a camisa de um pedestre e arrancar sua orelha fora com os dentes. A vontade de quebrar as coisas é movida pela satisfação que sinto ao escutar o som delas se estraçalhando, ver coisas perfeitas e imaculadas sendo destruídas e transformadas em algo indesejado. Mas sobre machucar pessoas de verdade... bom, quem sabe. Talvez eu sempre tenha sido assim.

Essa premonição, as mãos ressecadas e os choques elétricos correndo por minha coluna... estou sentindo agora.

Não falta muito tempo."


"01 de Setembro de 2015.

Na última vez eu escondi melhor meus rastros. No meio da loucura e do surto que gritava por terror, consegui planejar antes de fazer toda a sujeira. Eu achei um lugar, longe e afastado o suficiente e cavei um buraco, fundo e grande o bastante. Eu sabia exatamente o tamanho porque eu havia observado. A única testemunha foi um corvo, empoleirado em um galho da árvore mais próxima.

Ele me prometeu que não contaria a ninguém, contanto que eu não contasse que ele havia presenciado.

Dessa vez foi diferente.

Eu usei luvas, então não precisei lavar as mãos mil vezes depois. Não houve sujeira, ao menos não em mim. Não houveram roupas para lavar ou para jogar fora. Nem mesmo houveram arrependimentos.

Acredito que o fato de ter sido planejado e não algo totalmente animal e por impulso tenha algo a ver com isso. O monstro estava ficando cada vez mais calculista, não seria enganado por muito mais tempo.

Talvez eu devesse ter tomado aqueles medicamentos."


"03 de Setembro de 2015.

Um policial passou por mim hoje enquanto eu terminava de entregar os jornais.

Ele me olhou por um instante, acenou com a cabeça e continuou seu caminho."


"15 de Setembro de 2015.

Hoje eu vi o corvo novamente. Acho que acabei o adotando sem querer, ele vem me visitar quando eu sinto a sede de sangue novamente. Não sei se é um sinal ou se ele somente acha graça do meu sofrimento interminável. Talvez os dois. Ou talvez nenhum.

Quando o vejo, sinto que ele fica sorrindo para mim.

Ainda não sei se confio nele."


"16 de Setembro 2015.

Quanto mais eu faço, mais fácil parece ficar. De suportar. De esquecer. De ignorar. Chegará ao ponto que não sentirei mais nada?"


Passo para as próximas páginas, mas não há mais nada. Estão em branco.

Era isso.



Na volta para casa, ando segurando o diário nas mãos. Eu ainda não sabia o que pensar do seu conteúdo, não fazia ideia se aquilo se tratava de um tipo de história criada por uma pessoa com grande capacidade imaginativa ou se eu deveria reportar para a polícia. De alguma forma, esperava ter me decidido antes de chegar ao quarteirão onde havia encontrado o caderno, mas quando chego lá, não faço ideia do que fazer em seguida.

Eu poderia sequer devolver o diário assim? Depois de tudo que li?

Meu fluxo insano de pensamentos é interrompido bruscamente quando alguém esbarra comigo na calçada. Meu ombro é jogado para trás com força e perco o controle da minha mão por alguns instantes suficientes para derrubar o diário. Olho para o homem que trombou contra mim.

Ele usava um sobretudo preto gasto que agora estava mais para um cinza, tinha cabelos bem pretos, mas oleosos, na altura das clavículas, e marcas escuras de quem não dorme há dias abaixo dos olhos frios. Senti uma intenso arrepio ao olhar para ele, como se ele emanasse uma falta de calor; um cadáver ambulante.

– Desculpe – digo automaticamente, me abaixando para pegar o diário que caiu.

Quando me endireito, o homem está me olhando fixamente com as sobrancelhas caídas sobre os olhos. Por um minuto penso que minha mãe estava certa sobre minha distração. Eu seria assaltado.

Antes que pudesse dizer algo em minha defesa, como "cara, estou tão quebrado quanto você" ou "já vou pedindo desculpas porque só tenho uma barrinha de cereal na mochila" o homem age. Em uma velocidade alucinada o diário é arrancado de mim. E após isso? O homem sai correndo.

Ele corre e desaparece por uma das ruas transversais.

Sou deixado ali completamente embasbacado, com o queixo caído. Depois de alguns segundos me recuperando, sou capaz de perceber que o homem também derrubou alguma coisa, quando nos esbarramos. No chão, poucos centímetros do meu pé esquerdo, tinha uma pena preta.

Eu a pego nas mãos e a viro entre os dedos. Eles ficam manchados de um líquido escuro onde a ponta dela os toca.

Mas isso é.... tinta?




Jan. 23, 2020, 2:40 p.m. 0 Report Embed Follow story
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The End

Meet the author

Karina Zulauf Tironi Como escrever sobre mim, quando me torno tantas outras pessoas enquanto estou escrevendo? Só uma menina tentando transformar seus monstros em histórias que possam entreter.

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