Uma luz no fim do ano Follow story

netunochase Netuno Chase

As vezes, tudo o que se quer é desistir. Mas felizmente, sempre pode-se achar motivos para continuar, na fé de que em algum momento, a luz no fim do túnel brilhará.


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#lgbtq+ #original #violência #festejainks #amizade #desafio #suicídio-menção #estupro-sem-detalhes
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Capítulo único.

Fic feita para o desafio "Vem pra festa", promovido pelo inkspired.

Atentem-se as tags, essa história pode conter sérios gatilhos, então cuidado!

Boa leitura, e não deixem de ler as notas finais ^^

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Amanhã era o "grande dia". Último dia do ano, cheio de festa e fogos, comida e família reunida para todos – menos para ela. Lorena queria morrer, simples assim. Na verdade, era o que realmente planejava; acabar de vez com a própria vida e com o ano, realmente mudar algo e cumprir uma promessa.

Não deixaria ninguém para trás, ninguém se importaria. Não tinha mais amigos, não tinha mais família, não tinha ninguém. Todos a haviam abandonado desde que resolvera sair do armário. Lorena realmente pensou que se libertaria, mas na verdade havia aprisionado-se ainda mais na teia da solidão, enroscando-se em suas tramas e afundando cada vez mais em depressão.

Talvez o motivo do abandono fosse a religião que cegava seus parentes e amigos, pois Lorena vivia num círculo de evangélicos e católicos convictos. Se entre si eles já brigavam e deixavam de se falar por seguirem ideologias diferentes, não devia ser muita surpresa o fato de terem simplesmente excluído-a de seus círculos – e embora não tivesse se surpreendido tanto quanto deveria, havia se decepcionado muito.

Andando solitária pelas ruas do Centro de São Paulo, a jovem mulher chutava pedrinhas no caminho. Não lamentava mais sua sorte, até disso havia cansado. A noite desprovida de luar e estrelas refletia o seu estado de espírito; sentia-se vazia assim como o céu se mostrava estar naquele momento.

Entrando em um beco escuro e deserto, Lorena não percebeu as sombras que se projetavam atrás de si, tampouco notou os cochichos baixos que ecoavam quase imperceptíveis aos ouvidos — principalmente aos da mulher desatenta e imersa em pensamentos.

O fato é que, quando se deu conta, estava encurralada. Entrara no beco para fumar em paz, mas quando virou-se para encostar na parede suja e úmida do prédio antigo, deu de cara com um pequeno grupo de homens tão jovens quanto ela própria.

— E então, sapatão? – cuspiu um deles, o mais alto de todos. Era esguio porém forte e possuía um olhar cheio de preconceito e ignorância.

Lorena não se importava nada em parecer feminina, adorava seu estilo masculinizado — feito de cabelos curtos como os de um homem e roupas largas e desleixadas. O único problema de tal visual era o fato de deixar mais explícito sua sexualidade, desse modo expondo-a para agressores nojentos como o grupo à sua frente. Não que roupa definisse suas escolhas ou quem ela era, porém para ignorantes preconceituosos, qualquer mínimo detalhe era um indício para alimentar o ódio que residia em suas almas pútridas.

— É, parece que a mocinha aí gosta de chupar buceta. – comentou o cara de trás, com asco. Não era possível ver sua aparência, e Lorena tampouco se importava.

Naquelas horas, o mais sensato seria ficar calada para impedir que os malditos se irritassem ainda mais. Mas àquela altura do campeonato, a mulher não se importava com

nada. Era seu penúltimo dia na Terra, não iria ficar quieta, até porque sabia que apanharia do mesmo jeito — experiência de várias outras ocasiões lhe ajudavam a ter tamanha certeza.

— Gosto e aposto que chupo melhor que você, escroto do caralho. — cuspiu de forma ácida enquanto encarava cada um dos membros do grupo.

— Do que você me chamou, sua puta desgraçada? — o seu principal agressor verbal deu um passo a frente, ficando ao lado do mais alto. Os cabelos encaracolados e olhos verdes davam-lhe uma aparência certamente angelical, embora suas intenções fossem mais que demoníacas.

Antes que pudesse sequer se preparar, sentiu o estômago ser acertado em cheio por um soco bem dado. O ar fugiu-lhe dos pulmões, e em questão de segundos sua visão já estava nublada. Céus, que soco desgraçado era aquele? Antes que recuperasse o fôlego, uma bofetada veio em direção ao seu rosto, acertando-o de baixo para cima e logo em seguida, uma rasteira traiçoeira levou-a ao chão. Todo aquele espetáculo promovido pelo anjo demoníaco — o que havia dado um gás para que os outros continuassem.

Deitada em posição fetal, Lorena começou a sentir os chutes atingindo várias partes de seu corpo ao mesmo tempo — todos os quatro infelizes se empenhavam em surrá-la, sabendo que não haveria ninguém para salvá-la naquele lugar. Ou era o que pensavam.

— Deixem ela em paz, seus desocupados! — soou uma voz atrás deles, difícil de classificar como feminina ou masculina.

— Quer se juntar a festa? — perguntou o mais alto, virando-se para encarar quem quer que fosse.

— Ah, quero sim. Mas do meu jeito, e não será agradável pra nenhum de vocês. Deixem a garota em paz, é a última vez que aviso.

— Acho que é outra que gosta de chupar buceta, Vini. — resmungou o primeiro agressor de Lorena, sem parar de chutar a jovem.

— Deve ser. — resmungou um terceiro.

— Acha que pode nos parar sozinha, sua retardada? — desdenhou o novamente o mais alto, provavelmente o líder daquela merda.

— Não só acho como vou. — a pessoa estranha puxou da cintura uma arma. — Está bem carregada e não terei um pingo de dó para atirar, e se tentarem roubar ela de mim, alguém com certeza vai morrer antes de conseguirem.

— Ah, e o que vai dizer pra polícia depois, sua vagabunda? — o tal Vini perguntou, tentando se mostrar inabalado, porém sendo traído pela própria voz e pelo próprio olhar.

— A verdade. Não pensem que não tenho provas, e além do mais, não vai ser muito difícil fazer um exame de delito no corpo da garota para comprovar minhas palavras. — explicou de forma quase entediada. — Ah, e não pensem que não sei atirar, na verdade essa é minha arte favorita.

Para provar o que dizia, a estranha apontou para uma garrafa qualquer largada no fundo do beco. Mal podia ser vista devido a iluminação fraca do local, mas mesmo assim foi acertada com maestria pelo tiro da arma da mulher — ou homem? Lorena não sabia.

— Na próxima vai ser nas bolas de um de vocês. É melhor não estarem aqui quando eu chegar no número três. Um… — começou a contar, apontando de modo certeiro para os membros inferiores do líder.

Antes de começar a pronunciar dois, os covardes já corriam para longe, sem olhar para trás ou proferir ameaças sem sentido. Aparentemente, seus preciosos ovos valiam demais para serem acertados por mera teimosia e orgulho — pois para gente como eles, homem só era homem se mantivesse suas genitálias intactas.

Sem esperar que eles sumissem da sua vista, Lorena começou a se mover, tentando se levantar. As dores percorriam seu corpo a cada movimento brusco, e ela moveu-se várias vezes sem obter sucesso algum. A pessoa estranha que a defendera chegou perto, estendendo-lhe a mão enquanto lhe oferecia um sorriso complacente.

Vendo agora de perto, Lorena percebia se tratar de um homem — o que a deixou confusa, pois lembrava-se dos idiotas tratando o estranho pelo modo feminino. Alto e esguio, a pele negra brilhava viçosa refletindo a fraca luz que iluminava o beco. Os olhos eram tão castanhos que pareciam negros, e os cabelos crespos formavam um belo black power encaracolado. O homem trajava uma camiseta social branca e calças pretas de mesmo estilo, porém seus tênis eram esportivos.

No entanto, apesar da sua minuciosa análise, Lorena pensava haver algo que não se encaixava. A voz alheia parecia não ser definitivamente masculina e as feições também não.

— De nada. — o estranho comentou de forma irônica ao perceber o cuidado com qual era observado.

— Ah, desculpe. Obrigada por ser um maluco retardado que salva uma completa estranha de um grupo de endiabrados, arriscando sua própria pele. — respondeu com igual ironia, embora realmente estivesse grata.

— Sabe como é, a gente se compadece quando vê alguém passando por algo ruim que já experimentamos. — o estranho piscou um olho, sorrindo ladino.

Começaram a andar para fora do beco, lado a lado, a passos lentos para não apressar a vítima de agressão que mancava levemente. Lorena mostrou-se surpresa com a revelação, mas manteve-se calada por uns minutos. Somente quando a luz dos postes se tornou mais forte e a avenida mais movimentada, é que se atreveu a falar novamente.

— Já experimentou? Por quê? — virou o rosto para encarar o moço, a curiosidade preocupada visível em seus olhos claros.

— Trans negro. — disse em um suspiro resignado. — Acho que não preciso esclarecer mais nada.

— Não, não precisa. — concordou Lorena com certo pesar. Meteu as mãos nos bolsos enquanto começava a refletir. Lembrou-se de um detalhe e não foi capaz de conter a língua. — Como conseguiu uma arma?

— Digamos que ter um pai sargento tem suas vantagens. — respondeu simplesmente, dando de ombros.

— Ah, e ele aceita bem? — perguntou a acompanhante, realmente surpresa.

Um riso seco e amargurado reverberou pelas ruas, e o olhar do seu salvador se fez rancoroso de uma forma assustadora.

— Oh, sim claro. — as sobrancelhas se ergueram em deboche. — A ponto de fazer favores como me trancar numa sala e me estuprar pra que eu sentisse a força de uma rola e gostasse dela, aceitando que tinha nascido com buceta e não podia mudar isso.

Com as mãos tapando a boca, Lorena encarou o acompanhante de modo aterrorizado, mantendo os olhos claros tão arregalados que era possível enxergar a pupila e todas as nuances do verde.

— Mas digamos que isso me rendeu algumas cartas na manga. — retomou o homem ao seu lado, de forma astuta. — Um dia eu simplesmente cansei de ser idiota e me manter calado, então gravei tudo. Depois fiz chantagem e mesmo sabendo que existem vários corruptos na sua área, meu querido pai preferiu não se arriscar e cedeu aos meus "caprichos". Me ajudou a arrumar emprego, estudar para passar no Enem e me deu algumas formas de proteção. — apontou a arma escondida no lado direito de seu quadril, mostrando-a parcialmente ao levantar a ponta da camiseta. — Quando se tem cartas escondidas na manga, é importante fazer uso delas, antes que venha um filha da puta se aproveitar da sua fragilidade.

— Nunca pensou em desistir? — perguntou Lorena de modo repentino, encarando o céu. — Sei lá, é tudo tão difícil… ter que lutar pelos seus direitos só por escolher algo diferente, ter que convencer as pessoas de que você não merece apanhar só por não seguir as convenções sociais. Tem hora que tudo que eu quero é morrer, e de fato é o que pretendo pro final de ano. — desabafou sem sequer se dar conta do quanto a língua estava soltando. Ao terminar, encarou seu acompanhante e ao invés de deparar-se com um olhar de comiseração ou reprimenda, encontrou apenas compreensão.

— Se eu já pensei em desistir? Com certeza. — anuiu positivamente com a cabeça, começando a encarar o céu também. — Houve dias em que eu não me levantei, não fiz nada e temi encontrar a merda do meu pai no caminho. Teve dias que eu apontei essa arma pra minha cabeça e cogitei atirar. Teve dias que eu simplesmente não encontrei um motivo sequer pra sorrir. Mas apesar de pensar, não consegui desistir. Sempre a voz do Narutinho soava em minha mente: "Watashi o akirameru no o akirameru" — seu acompanhante não deu a mínima para o fato de talvez falar com alguém que não entenderia bulhufas.

Para sua surpresa e satisfação, ele viu a mulher sorrir cúmplice.

— Eu jurava que era algo como "Akiramenai" que eles diziam. E essa frase não é bem do Naruto, mas sim do Jiraiya. — corrigiu, com meio sorriso enfeitando seu rosto.

— Tanto faz, eu ouço na voz do Narutinho e ponto. — decretou, cruzando os braços enquanto um bico emburrado tomava seus lábios, tal qual uma criança birrenta.

— Ok, ok. Que seja, o importante é seguir a filosofia passada no anime! — incentivou Lorena, risonha.

O clima tenso que havia se instalado graças a menção ao suicídio havia evaporado, porém o assunto não morreria ali, Lorena pôde sentir isso no olhar de seu acompanhante. Entretanto, não conseguiu se arrepender de abrir sua boca grande — sentia que explodiria se não o fizesse.

Andaram por mais alguns instantes em total silêncio. Rodeavam a praça da Sé naquele momento, sem um rumo certo.

— O engraçado é que até agora não sei seu nome. — comentou o jovem, enquanto a encarava de soslaio.

— Oh, é verdade! — exclamou surpresa. — Sou Lorena, mas pode me chamar de Loren, gosto de me sentir como a gatinha do Fifith Harmony. — gracejou, piscando um olho enquanto estendia a mão para que o outro apertasse.

— Mas o nome da mina não é Lauren? — perguntou confuso, ignorando a apresentação.

— E daí? Eu nunca falo nome gringo certo, não é agora que isso vai mudar. — resmungou meio emburrada, porém sem recolher a mão que oferecia. — Vai se apresentar ou eu vou ficar no vácuo mesmo?

— Quanta pressa.— caçoou, ainda ignorando a mão.

Lorena revirou os olhos, irritada ao perceber que seu acompanhante fazia aquilo de propósito. Recolheu o braço estendido em um modo de fazer birra.

— Estava com pressa porque meu braço já tava doendo de tanto ficar em esticado. Mas agora foda-se também, não quer falar seu nome, não fala. Não sei pra que tanto mistério. — resmungou ranzinza, parecendo uma adolescente revoltada.

— Quanto estresse. Respira moça, conta até três e seja feliz. — zombou o outro, ignorando o olhar fuzilador que recebeu. — Bom, meu nome é Arthur. — estendeu o braço, pronto para os cumprimentos formais, mas tudo que recebeu foi um tapa ardido que o fez abaixar seu braço.

— Agora eu não quero mais. — rezinzou a moça, irritada.

No fim, ambos acabaram rindo. Cansada de andar e sentindo os pulmões trabalhando com menos eficiência devido a surra, Lorena apontou um banco e arrastou Arthur para lá, jogando-se assim que o assento estava ao seu alcance. Ao redor, alguns mendigos dormiam, outros zanzavam meio bêbados e outros se banhavam. O lugar fedia a mijo, cerveja barata e cheiro de sujeira, mas os visitantes ignoraram o detalhe.

— Sabe aquele clipe "Wake me up", do Avicii? — indagou Arthur, de modo aleatório. Seu olhar estava perdido na cena dos mendigos dormindo.

— Sei… — respondeu de forma vaga, com certo pesar no olhar ao lembrar do seu DJ favorito que, infelizmente, estava morto.

— Tem um lugar assim para nós, tipo o do clipe: onde a galera se entende por ter sofrido a mesma rejeição, por passar pelas mesmas dificuldades. — revelou o jovem, quase num sussurro.

— E vocês sempre se apoiam? — perguntou Lorena, um tanto incrédula.

— Sempre. Somos amigos, de verdade. — suspirou e juntou as mãos no colo. — Enfim, o que quero dizer é que nesse momento de recomeço, nós vamos reunir essa galera numa festa. Eles são parte da minha vida, parte que me ajuda a não desistir.

— Tá me convidando pra uma festa quase em família sendo que ninguém me conhece? Aliás, você mal sabe quem eu sou ainda. — com as sobrancelhas erguidas, Lorena encarava seu acompanhante, que não hesitou nem um segundo.

— Conheço o suficiente pra saber que você pode fazer parte dessa família. Não precisa desistir de tudo assim… — Arthur estava praticamente implorando, e a mulher não soube como interpretar aquela atitude.

— "Desista de me fazer desistir". — recitou com um sorriso, embora este fosse melancólico.

No seu olhar, havia uma ponta de esperança e ponderação que Arthur soube identificar. Sabia que ela iria considerar a ideia, e aquilo já era o suficiente. Uma chance, apenas uma ínfima possibilidade de fazê-la reconsiderar já era algo que podia comemorar. Sem perder tempo, pegou um papel com seu número de telefone da carteira e ofereceu a ela.

— Anda munido de papéis pra passar seu zap zap? — Lorena indagou, meneando a cabeça em pura incredulidade.

— Sabe como é, nunca se sabe quando vai encontrar uma gatinha por aí. — piscou galante. — Vou pra estação, vai ficar aí?

— Não, vamos lá. — levantou rapidamente, seguindo o caminho já tão conhecido.

Juntos, caminharam agora em silêncio até o local desejado. Lorena parecia estar ponderando sobre a proposta, e Arthur não quis atrapalhar suas reflexões. A caminhada se mostrou surpreendentemente rápida, e logo ambos chegavam ao seu destino. A diferença é que ele seguiu para a linha 1, enquanto ela seguia para a linha 3 — cada qual com seus medos e incertezas direcionados ao dia seguinte.

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Na tarde do dia 31, Lorena estava sentada numa cadeira em seu quarto enquanto encarava o celular na cama com uma expressão de dúvida. Já havia salvo o número de Arthur, porém estava num conflito interno entre chamar e não chamar — se chamasse, estava abrindo mão do plano para o fim de ano, mas se não chamasse, iria destruir o ano novo dele. Era um impasse.

— Ah, dane-se. — resmungou, já farta de manter-se sob os domínios da indecisão. Levantou-se e pegou o aparelho, abrindo o aplicativo do WhatsApp com pressa, indo até o contato desejado para pedir o tal endereço.

Sua respiração havia acelerado no processo, junto com os batimentos de seu coração. Notou que em menos de um minuto, a resposta havia chego até si. Provavelmente, Arthur estava esperando sua mensagem. No endereço, Lorena reconheceu os arredores (entre o Centro e o Brás) e sorriu — ao menos seria um lugar fácil de ser encontrado.

No entanto, um detalhe chamou sua atenção: Arthur pedia que vestisse roupas negras. Sem entender, Lorena resolveu questionar o motivo.

"O povo sempre passa de branco pra trazer paz, mas faz questão de criar guerras com preconceito e tudo mais. A gente não quer se igualar a hipocrisia dessa gente, e também tem o luto pelos nossos que morreram esse ano." — essa havia sido a resposta do jovem, e Lorena sentiu que havia feito a escolha certa ao poupar Arthur de mais uma preocupação ou motivo para manter luto.

Sem saber o que responder, deixou o celular de lado e foi em busca de um traje adequado. Para sua sorte, seu short moletom preto estava limpo, bem como sua camiseta enorme do Linkin Park. O All Star preto de cano médio serviria como a peça chave do look. Jogou tudo em cima da cama e foi pegando o necessário para o banho, sorrindo levemente no processo.

Talvez a virada de ano se mostrasse generosa com ela — era só um talvez, mas ainda era melhor do que nada.

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Ainda que suas roupas não entregassem muito naquele dia, Lorena pôde perceber os olhares atravessados que recebia. O fato de não se produzir como uma "garota normal" e manter uma pose não tão feminina já era o suficiente para as pessoas ficarem incomodadas com sua presença, como se para elas fosse um ultraje precisar respirar o mesmo oxigênio que uma sapatão.

Sempre que saía de casa, a jovem percebia a incrível habilidade do ser humano de ser mais preconceituoso do que humano — fosse em grandes atos (como o da surra no dia anterior) ou pequenos atos (como os olhares naquele momento dentro do metrô). Era realmente desnecessário ter que passar por tais coisas em pleno século vinte um, e Lorena precisava constantemente trincar os dentes para evitar mandar alguém tomar no cú de cinco em cinco minutos.

Foi com grande satisfação que percebeu que havia chegado sua hora de descer. Sem muita paciência para boas maneiras, saiu empurrando os que se mantinham em seu caminho sem dó nem piedade, ignorando os resmungos descontentes.

"Se não querem ser empurrados, saíam do meio, desgraçados filhas da puta do caralho" — pensou com seus botões, rangendo os dentes, até que enfim conseguiu atravessar aquela muvuca infernal de corpos.

Já eram sete da noite, e a jovem agradeceu em pensamento o fato de precisar andar só uns dez minutos para chegar no lugar desejado. Andou sem pressa, observando o céu escuro ostentando algumas poucas estrelas e a lua cheia brilhante.

Quando se deu conta, já estava em frente ao local — havia se distraído com o céu, grande objeto de admiração para si, por ser tão imenso e estar sempre lhe acompanhando; o céu era aquele que nunca a abandonava, fosse nos bons momentos, fosse nos maus.

Voltando sua atenção para o lugar, começou a analisar: a entrada possuía portões duplos, com dois seguranças de feições sérias que faziam a guarda, que inspecionavam Lorena como se medissem a ameaça que ela podia oferecer.

— Nome, por favor. — exigiu um deles, ainda medindo-a de cima a baixo em uma análise profissional.

— Lorena. — respondeu, com certa apreensão.

O outro segurança conferiu uma lista (tirada sabe-se lá de onde) e após um rápido passar de olhos, assentiu positivamente para o outro. Enfim, eles se mobilizaram para abrir o portão, permitindo a passagem da jovem, que agradeceu antes de entrar.

Sentiu-se surpresa ao se deparar com o visual do lugar. Não era bem um salão de festas, era mais como uma casa de shows a céu aberto. Mais à frente, Lorena pôde ver um palco de tamanho mediano, com um enorme telão atrás e grandes caixas de som ao lado, tocando "K.O" de Plablo Vittar enquanto o clipe também era transmitido. Um aglomerado no meio do local — pareciam uma plateia — dançava de forma animada, enquanto ao extremo esquerdo pessoas bebiam apoiadas em um longo balcão curvilíneo. Algumas banquetas altas estavam dispostas para que pudessem se sentar, e nas vazias, o brilho das luzes coloridas refletia.

Arthur estava ao lado de uma das banquetas e parecia inquieto enquanto sorvia um drink que Lorena desconhecia. A jovem começou sua caminhada em direção ao novo amigo, espremendo-se entre a plateia, porém foi parada inesperadamente por um garoto de pele espinhenta e postura feminina. A roupa dele era masculina, mas os saltos estavam longe disso — céus, como ele conseguia ficar em pé e ainda dançar naquele treco?

— Oi, tu deve ser a tal Loren, não é? — perguntou ele, sorrindo afavelmente.

— Sim, sou eu! — respondeu Lorena, no mesmo tom.

— Prazer menina, seja bem vinda a nossa loucura! — se aproximando, o estranho deu-lhe um estalado beijo no rosto, o qual ela não soube retribuir. — Meu nome é Lukas, se o Arthur fizer alguma merda, me chama que enfio o salto na goela dele! — gargalhou enquanto olhava na direção do dito cujo.

— Que tipo de merda? — indagou Lorena, incerta.

— Ah, não sei, do tipo qualquer coisa mesmo. Eu só quero uma desculpa pra bater nele. — sorriu diabolicamente.

Lorena estava boba por ser tratada com tanta intimidade, sentiu-se em casa e adorou sensação. Sorriu na direção de seu novo amigo.

— Pode deixar que vou dedurar, só exijo ser VIP no camarote pra assistir ao barraco! — comentou risonha, e ambos gargalharam juntos.

Rindo, se despediu e deu as costas ao jovem para seguir seu caminho até Arthur. Quando chegou ao lado dele, jogou-se na banqueta da direita, observando o belo sorriso dele abrir-se. Os cabelos black power pareciam brilhar mais, tão hidratados que refletiam as luzes coloridas dos globinhos de festa que giravam por todo o local. Arthur continuava com sua roupa social, porém num tom totalmente preto, igual aos All stars.

— Cara, que bom que você veio! — abraçou-a sem reservas, curvando-se em seu banco para alcançá-la. — Tava preocupado.

— Você é um idiota por se preocupar com uma retardada que sequer conhece. Seu estúpido! — ralhou, embora não estivesse realmente brava, mas sim agradecida por todo aquele carinho que lhe era dirigido.

— Você que é uma tonta por achar que eu sou tonto por me preocupar com você. — Arthur retrucou, criando um quase trava línguas no qual se embolou levemente, principalmente por negligenciar as vírgulas da fala. Na sua mão esquerda, o copo com um drink desconhecido balançava.

— Já tá bêbo, seu palhaço? Nem me esperou. — Lorena soltou um muxoxo, enquanto se ajeitava no banquinho sem encosto (que fazia sua coluna doer).

— Ninguém mandou tu demorar. Eu tava criando raiz aqui, precisava no mínimo regar, né. — riu ele, inclinando-se em direção à acompanhante para empurrar-lhe o ombro levemente, numa brincadeira.

— Vou tirar esse atraso já! — exclamou, levantando o braço esquerdo no alto para chamar atenção do barman. Pediu uma caipirinha estilo Elsa (que significava exageradamente gelada). Quando a bebida chegou, brindou de forma desajeitada com Arthur, sorvendo o líquido de uma vez logo depois. A garganta protestou, sentindo a queimação da bebida juntar-se ao efeito gelado da mesma, criando um choque estranho enquanto descia.

Lorena continuou nesse ritmo, e na quinta rodada, já se sentia tonta. Arthur estava na mesma, e ambos riam da pateticidade da situação: o relógio mal marcara 20:30 e eles já estavam quase bêbados. Resolveram parar por ali, virando-se de frente um para o outro a fim de conversarem e testarem o quão alterados estavam.

— E então? — questionou ele, subitamente sério. — Desistiu?

Lorena suspirou. Mentiria se dissesse que a vontade ainda estava presente, mas estava tão confusa…

— Não sei. — respondeu sincera, suspirando enquanto passava as mãos pelos cabelos, num gesto cansado. Era mais fácil ser sincera com ele, por algum motivo que a jovem desconhecia.

— Quando não se tem certeza sobre seu propósito, é porque ele não é real. — recitou Arthur de modo poético, estufando o peito de forma orgulhosa. Lorena não conseguiu conter uma gargalhada.

— Jovem vira filósofo poeta toda vez que bebe. Saibam mais. — zombou ela, endireitando a postura na cadeira enquanto fingia ser uma jornalista em apresentação. Ambos acabaram desabando em gargalhadas, tornando o clima tão leve que sentiam que podiam até mesmo flutuar.

— Matéria exclusiva; agora vou ensinar como lidar com a vida. — Arthur continuou a brincadeira, imitando o ar de entrevistado. — É o seguinte, se a vida dar as costas pra vocês, enfiem o dedo no cú dela, dessa safada! — ao proferir a frase motivadora e revolucionária, ele fez um gesto obsceno com as mãos, enfiando o dedo indicador esquerdo num buraco formado com o polegar e indicador da mão direita.

Lorena engasgou com o resto da caipirinha que ela virava de uma vez para "matar", cuspindo tudo no chão enquanto perdia o ar, sufocada pelas risadas e sons de engasgo. Até o barman ria àquela altura, mesmo sem saber todo o contexto da conversa.

— Senhor! Vamos logo sair daqui antes que você me mate de rir, seu desgraçado. — anunciou a jovem após se recuperar de seu pequeno ataque, pulando da banqueta enquanto agarrava o braço do outro e o arrastava para longe das bebidas. — Vamos atrás do Lukas, qualquer coisa ele te mete o porradão.

— Já conheceu o capiroto? Tô lascado : se junta dois demônios, é a derrota do anjo purificado. — lamentou-se Arthur, meneando negativamente a cabeça em pura desolação. Porém deixou-se ser arrastado, apesar de seus choramingos.

Lorena já estava bem mais animada, e chegou no grupo do "capiroto" pulando, sendo recebida com gritos animados e pulos também. Todos ignoraram os protestos de Arthur sobre odiar dançar, formando uma rodinha e empurrando-o para o centro. Todos foram obrigados a ir para o meio mexer o esqueleto, sem exceção — e apesar dos muitos passos ridículos e sem ritmo, as risadas se sobressaíam naquela roda, pois quanto mais feia a dança, maior a diversão.

Entre risos, passinhos mal executados e drinks, mal perceberam a hora passar. O fim do dia e do ano se aproximava de forma rápida sem que Lorena sequer se desse conta, tão entretida estava em sua diversão com os novos amigos. Em algum momento, Arthur afastou-se para resolver pendências da festa e de um tal discurso que ocorreria. Lorena permaneceu no seu lugar, sorvendo de um líquido agridoce que não possuía muito álcool.

Quando o seu relógio de pulso marcou 23:39, percebeu que a plateia começava a entrar em polvorosa, animada com o que viria a seguir. Todos estavam falando do tal discurso e da Madame Hope, responsável por ele. Arthur não havia voltado e os demais não davam a mínima, concentrados no palco. O relógio batia 23:45 quando uma movimentação nas escadarias que levavam ao palco chamou a atenção de Lorena, que fixou o olhar naquele ponto.

A jovem observou com certa animação a drag maravilhosa que subia no palco. As pessoas pareciam vibrar com sua presença, ela emanava força e vitalidade. A maquiagem tinha tons de vermelho, bem como a cabeleira de um ruivo intenso cor de fogo — que contrastavam poeticamente com sua pele cor de avelã. As vestes consistiam em um apertado corpete negro cheio de glitter dourado, uma saia de tule também negra, meia arrastão preta e botas de mesma cor que iam até a altura dos joelhos, com os cadarços pretos salpicados com glitter dourado. Era um belo look, chamativo mas que parecia combinar com a personalidade da usuária.

— Boa noite, amados. — começou o discurso, parada no meio do palco com um microfone sem fio em mãos. — Oh, credo, isso soou como coisa de crente, deixa eu começar de novo.

A plateia deu gargalhadas, e a própria drag gargalhou enquanto voltava no caminho pelo qual viera, apenas para refazer todo o processo de subir as escadinhas e tomar seu lugar no centro do palco.

— Boa noite, suas pocs safadas! — gritou, pulando em seu salto como se usasse um tênis esportivo. Todos vibraram e responderam com entusiasmo. — Ufa, agora sim! Vamos lá, começar o discurso de encerramento. Cara, foi difícil pra caralho chegar até aqui, né? Pois é, para todos nós foi… — sua postura agora era séria, compenetrada. — Por inúmeros motivos; família, preconceito, vida profissional, vida amorosa… Ah, geral sabe que 2019 foi bem merda pra quase todo mundo, quem teve um bom ano é privilegiado sim. Mas sabe, tiveram momentos bons, tentem se lembrar deles.

Lorena lembrou-se de um sorvete que tomara num lindo dia de primavera, um dia tão calmo e tranquilo que nada havia tirado seu humor, algo aparentemente muito simples — mas é como sempre dizem: menos é mais. Lembrou-se também do dia que saíra sozinha para ir à praia refletir, passando a noite e sendo agraciada pelo céu estrelado acompanhado de lua cheia. E... ah! Havia ainda Arthur, que conhecera no dia anterior e mesmo assim já tinha mudado tanto em sua vida. Realmente, se parasse para refletir, haviam coisas boas no repertório daquele ano.

— Aposto que se lembram de algo. — retomou a Queen que tinha parado de falar por alguns instantes, dando tempo as pessoas. — Enfim, o que quero dizer é que por mais difícil que tenha sido, estamos aqui, sobrevivemos e ainda podemos nos lembrar de algo bom. E não tô falando só como LGBT não, somos mais do que isso; tô falando como a porra de um ser humano, parece que viemos aqui só pra tomar no cú, difícil pra caralho viver… — a plateia de dividiu entre os que gargalhavam e outros que comentavam "amém irmã" de forma debochada. — Mas enfim, queridas pocs, perdemos muitas batalhas, mas a guerra 2019 nós vencemos! E agora vem 2020 pra foder mais, mas já aguentamos tanto até agora, lutamos tanto pra desistir? Não, porra! We are the Champions, como dizia a rainha das pocs. O negócio é manter a força na peruca e permanecer firme no caminho, procurando a luz no fim do túnel, que inclusive ficou mais próxima nesse fim de ano: fica mais próxima a cada ano/guerra que nós passamos, por isso continuamos nessa luta incessante. Estamos aqui e iremos continuar, pelos nossos manos e manas que tiveram as vidas interrompidas. Vamos continuar na luta por eles; luta por nossos direitos como seres livres que podem escolher o que querem, luta como seres humanos que nasceram pra se foder, luta como vencedores. Plus ultra nessa porra! — gritou, arrastando a última vogal enquanto pulava de forma animada. Todos na plateia pareciam estar familiarizados com a expressão, o que fez Lorena questionar se estava em meio a um bando de otakus fedidos (como ela mesmo era).

No telão atrás da animada discursadora, a imagem de Freddie Mercury ganhou vida, e nas enormes caixas de som, "We are the Champions" começou a tocar estrondosamente, animando ainda mais todos no local. As palmas logo começaram a tentar acompanhar o ritmo da música, enquanto vozes desafinadas soavam num inglês precário.

No refrão, Lorena gritou junto da plateia, inundada pela esperança que acompanhava os acordes da música, a vibração das pessoas e dos fogos que rasgavam o céu — o relógio acabava de bater meia noite em ponto.

Sim, ela era uma vencedora! Sim, ela tinha aguentado tudo aquilo e estava de pé! Sim, apesar de todas as merdas que vivera, ela ainda sorria — como naquele momento.

"Não aguentei toda essa merda pra desistir agora; Lorena Carvalho, você tem mais motivos pra continuar do que pra desistir, e 2020 vai ser melhor! Como o Arthur disse, vou enfiar o dedo no cú da vida e seguir firme nessa porra! Plus ultra, Deku-kun, não irei desistir!" — um tanto alterada pelo álcool, Lorena estava meio sujeita a babaquices, portanto seu eu interior motivador fez questão de afinar a voz — em seu pensamento — ao proferir a última frase, como uma típica japonesa faria.

É, a luz no final do ano havia brilhado em uma fresta para ela, mas ainda tinha muito o que percorrer se quisesse ser banhada por completo em tal luz. Desistir de si e da dádiva de viver não era mais uma opção a partir daquele momento. Difícil como fosse, a vida ainda valia a pena ser vivida, e Lorena faria tudo valer quando brilhasse tão intensamente a ponto de todos verem seu esforço e sua luta. Sem dúvida, 2020 ia ser o seu ano.

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Gostaram? Espero que sim ;)

Seguinte galera, como uma garota jovem, branca e hétero (? Não tenho certeza disso hehehe), posso ter cometido uns furos, porque é realmente difícil escrever sobre temas no qual não se tem vivência. Então peço que me perdoem se não estiver de acordo com a realidade (embora eu tenha pesquisado muito e pedido muita ajuda) e por não ter ficado tanto no Arthur; ele foi uma peça chave sim, mas sem ter muito tato no assunto e com limite de palavras, acabei não explorando tanto, mas pretendo tentar explorar mais em outras histórias com essa vibe.

E pra quem achou que ia ter casal; não! Nem todo mundo conhece o amor de uma alma gêmea, preferi não pôr isso pra ficar um pouco mais real. Me perdoem aqueles que acharam que ia ter shipp :v

Enfim, é isso, críticas e avaliações são muito bem vindas e ajudam na melhora do meu trabalho, então sintam-se a vontade para digitar. Obrigada por lerem e até o próximo desfio, e lembrem-se; PLUS ULTRA NESSA PORRA!

Jan. 16, 2020, 7:36 p.m. 4 Report Embed 3
The End

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Netuno Chase Afogando as mágoas na escrita! Contas: Wattpad; Netuno_Chase Spirit; Netuno_Chase2

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Lollys Mars Lollys Mars
Olá! Tudo bem contigo? Conta pra gente como foi participar desse desafio! Sua opinião é importante para nós! Sua história é incrível! Tem drama, tem ação e um pouco de aventura, enfim, uma história completa! Você escreve muito bem, além de ter uma boa ortografia, assim, conseguimos mergulhar dentro da história da Lorena muito rapidamente, uma narração tão perfeita que é como se estivesse ali, dentro da história vivenciando tudo aquilo ao lado dela. Você conseguiu trabalhar muito bem o tema, e narrá-lo de uma forma única, tornando a sua história ainda melhor! Parabéns pela história maravilhosa e obrigada por participar!
2 weeks ago

  • Netuno Chase Netuno Chase
    Foi maravilhoso participar do desafio, eu adorei! Mas foi complicado, graças ao tema, sabe... Eu fiquei muito insegura e só continuei o trabalho graças as minhas amigas escritoras que me incentivaram, e terminei bem em cima da hora. Mas é realmente um desafio criar esse tipo de história, e foi muito gratificante o resultado. Muito obrigada mesmo pelo comentário, pelos elogios, fazem toda a diferença para mim como escritora, e pretendo participar de mais desafios de vocês! Parabéns pelo trabalho proposto e pelo incentivo dado! 2 weeks ago
Mary Mary
Oieeeeeeeee! Olha quem apareceu aqui! Vi que era atualização sua, fui logo ler. Vou começar do final (porque eu leio as notas da autora também), acredito que você pretendia enfatizar a questão da Lorena e conseguiu isso, muitas pessoas são rejeitadas dentro da própria casa e as denominações religiosas que deveriam servir de consolo, aconselhamento e apoio, acabam por afugentar quem gostaria de servir a Deus (digo, no caso de a pessoa acreditar no Deus Cristão) e no caso dos LGBTS, sempre utilizam os textos de Êxodo, Levítico, Deuteronômio e Romanos para condenar as práticas homoafetivas, sendo que são hipócritas porque acreditam ser santos, acima do bem e do mal, costumam julgar, condenar, odiar, matar, se sentem nesse direito de interromper uma vida. Se a Lorena chegou a esse ponto de não enxergar esperanças era porque não se sentia amada, bem-vinda e querida em lugar nenhum e é difícil você destoar das convenções sociais, não ter com quem contar e ainda por cima suportar todo o ódio, o preconceito. Tenho em mente que esse ódio contra lésbicas (vou falar sobre a Lorena) por parte de héteros é doentio porque qual é o problema de a Lorena se vestir como se veste? Em gostar de outra mulher? Em não se identificar com as designações de gênero? A vida dela importa! Quanto ao Arthur, quem sabe noutra ocasião, se você quiser explorar a questão da transfobia, pode contar a história de como ele se descobrir Arthur e encontrou um lugar para chamar de seu, pois com certeza o fato de ele ter aparecido no lugar certo e na hora certa, salvou uma vida. Ele salvou uma vida. Quem me dera um dia viver num mundo onde as pessoas possam amar a quem elas quiserem e não ter otário nenhum dizendo que "você vai para o inferno", "está escrito na bíblia que", "se me ver agarrada com mulher, separa que é briga", "depois que eu morrer, você faz o que você quiser, mas não vou deixar você me envergonhar", porque ser Lorena é vencer um combate por dia. Tem até um trecho de uma história que escrevi na qual, quando a personagem principal saiu do armário para a mãe, a mãe dela reagiu mal pra caramba, o capítulo ficou com uns 4k de palavras, foi um dos mais fortes que já escrevi, deve estar guardado em algum canto, ela fala muitas verdades que os LGBTS passam, lava a alma. A Lorena deve ter orgulho de ser quem é e de tudo que passou, isso sim. Não é para qualquer uma. Ela é uma guerreira e nem tem ideia do quanto é forte. Tem muitas Lorenas por aí e sabe que eu gostei de não ter casal? Não leio já esperando shippar casal, até gosto de contos e histórias em que o personagem central não namora ninguém ou não encontra a tal alma gêmea, não é um problema, até porque torna a história mais realista. Só queria te agradecer por postar. Espero em 2020 ler muitas histórias suas.
January 16, 2020, 20:22

  • Netuno Chase Netuno Chase
    Oi mana, é uma honra te ter como leitora e alguém presente, que comenta as história e tudo mais. Não sabe o bem que faz! Obrigada! Enfim, fico feliz que tenha entendido a Lorena, era exatamente o que eu queria passar e tals, fico feliz por teria conseguido. Sobre o Arthur, sim, eu pretendo fazer algo do tipo, mas preciso de mais tempo pra pesquisar. Essa fic em específico tinha um prazo porque é pro desafio, mas não vou desistir de me aprofundar mais no assunto. Mais uma vez, obrigada por ser minha leitora, e eu espero que meus projetos pra 2020 lhe agradem! <3 January 16, 2020, 22:04
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