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Catarina Alves era somente uma jovem um tanto esquisita quando conheceu Arthur Ferreira, pouco ela sabia que estava no início de uma longa história de romance. Uma narrativa que corre pelos olhos da própria personagem em seu futuro trará memórias de um relacionamento que se iniciou ainda na adolescência e perdurou entre altos e baixos por décadas, com um toque especial de comédia e nostalgia. Conheça a história de quem teve privilégio de saber o que significa o 'amor verdadeiro' e contará para todos os detalhes sua aventura.


Romance Young Adult Romance Not for children under 13.

#drama #jovem-adulto #romance
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Capítulo I - O começo

Os dedos de Arthur eram definitivamente femininos. Apesar de serem grandes, eram finos e delicados. Eu sempre o dizia que tinham sido esculpidas por Michelangelo, ele respondia com um riso envergonhado. Aquelas mãos eram seu dom, onde a potência dele estava; Arthur pintava como Leonardo da Vinci e tocava piano como Bethoveen. O que poderia dizer? Ele era arte. Tudo em si emanava a beleza da eternidade e eu enxergava em seus olhos castanhos escuros o brilho de todas as estrelas do cosmo.

''Por favor, por favor!'', pedia sempre.

''Meus dedos estão doendo, Nina.'', ele respondia, porém Arthur sempre cedia depois de encarar as teclas novamente.

Então o garoto se perdia entre o preto e branco, suas mãos dançavam no teclado como se o próprio objeto aclamasse que fosse usado. O som vibrava harmônico e o corpo dele se movia como se nadasse nas ondas sonoras. Ele era apaixonado pela melancolia de Chopin, mas também se derretia com contemporâneos como Dustin O'Halloran. Arthur tinha um gosto peculiar pela tristeza e saudosismo. Era bucólico por natureza. Gostava de caminhar nos parques somente em dias nublados e chuvosos. Mesmo morando em um apartamento onde só o piano dele ocupava todo o espaço, ele fazia do lugar aconchegante, mantendo uma singela plantação na varanda. O parapeito era recheado por uma camada de vermelho escuro das centenas de flores de cravo a qual ele cuidava sagradamente. Tudo o que conhecia de paixão e da música foi ele que me ensinou.

Houve um período em que Arthur tentou me obrigar a aprender piano – não que eu não desejasse. Toda via o teste foi uma tremenda desgraça. Não conseguia decorar as notas e minhas mãos eram pequenas e largas demais para as finas teclas. Minha carreira musical havia sido sacrificada antes de iniciar. Foram episódios que me trouxeram muita raiva no momento, mas depois serviram para muitas piadas internas e risadas nos jantares.

Quanto a mim? Poderia comentar de minha fascínação por Caetano Veloso, do Toquinho e Belchior. Eu gostava da conturbação do mundo moderno. Ensinei Arthur a sair do quadro europeu que ele vivia, a princípio ele estranhou, mas depois estávamos nos dois cantando ''Como Nossos País'' enquanto tentava tirá-la no piano. Quanto a jardinagem, bom, não conseguia manter uma planta sequer viva.

''Você deixou a Clair morrer?'', perguntou Arthur um dia.

''Quem é Clair?'', respondi.

Ele encarou a pobre planta marrom e murcha despencada no vaso.

''Por que Clair?'', investiguei. ''Em que momento definimos que ia se chamar Clair?''

''Não fuja do assunto, Catarina!'', Arthur pegou delicadamente a folha e a examinou. ''O que fez com a coitada?''

''Tem gênero?''

''Plantas tem gênero.''

''Plantas não são hermafroditas?''

Arthur passou os dedos na terra seca, concentrado.

''A princípio.''

''Deveria ter pego um nome hermafrodita, então.'', pontuei.

Ele me encarou com a dúvida na face. Como eu me divertia com aquela expressão.

''O que seria um 'nome hermafrodita'?''

''Nomes unissex. Alex, Ariel, esse tipo.''

''Eu não entendo, a gente pegou literalmente a planta mais fácil de cuidar e você conseguiu matar a coitada. Você é uma assassina.''

''Espero que a sentença seja curta.'', brinquei.

''Tô falando sério, Catarina. Como posso confiar que você cuida de si se deixa uma planta morrer! A Jiboia é literalmente só regar.''

''Eu cuido de mim, principalmente se não tenho que cuidar de uma planta. Minha memória tem espaço reservado.'', Arthur continuou me encarando com os olhos arregalados de preocupação. ''Eu juro que não esqueço de me dar água.''

Ele respirou fundo, então deixou a planta de lado. Os dedos dele quase não tocavam meu rosto quando ele o segurou. Arthur acariciou minha pele.

''Se eu comprar uma planta de plástico, promete que não vai deixar morrer?'', ele zombou.

Abri um sorriso. Depositei minhas mãos acima das dele.

''Vou tentar.''

Arthur tocou as últimas notas de Kol Nidrei, Op.47, enquanto Pedro finalizava com o som contínuo e mais agudo possível do violoncelo. O Municipal vibrou com palmas e assovios. Eram uma dupla e tanto. Quando todos foram agradecer, a multidão ficou de pé para os contemplar. Eu estava na primeira fileira da plateia, completamente tomada pelo orgulho. Deus, Arthur ficava lindo com o intenso laranja das luzes refletindo nas gotas de suor, o cabelo castanho perfeitamente arrumado grudado na testa, o terno alinhado e um sorriso triunfante. Conseguia perceber que as mãos dele tremiam de adrenalina. Era magnífico.

Quando acabou, o procurei em todos os lugares e o encontrei empolado na fachada, escondido entre um dos pilares com um cigarro nos dedos. Ele parecia vagar entre os carros, se perder entre as pessoas. Quando nossos olhos se encontraram tive certeza do que se tratava. Arthur fungou o frio de julho para si.

''Eles não vieram.'', disse o garoto, mais como uma afirmação do que uma pergunta.

Caminhei até ele e coloquei minhas mãos em seu ombro. Seus olhos estavam pesados, exaustos. Arthur tragou o cigarro.

''Não é como se fosse uma supressa.'', ele murmurou enquanto soltava a fumaça cinza.

Odiava aquela odor insuportável e me doía quando Arthur recaia aos maus hábitos – o que acontecia com certa frequência.

''Sua mãe me ligou, disse que teve um problema na firma, tiveram que trabalhar até depois do expediente.''

Um riso cheio de amargura e sarcasmo fez uma linha rígida em seus lábios. Ele afastou-se de mim, apanhou o celular e logo o aproximou da orelha.

''Já foi uma gripe, virose, vazamento no encanamento, goteira, carro quebrado e agora problema na firma. Sabe? Estou ficando bem curioso pra ver qual vai ser a próxima desculpa.''

Um silêncio se fez. Ele escutava com atenção as palavras do outro lado da ligação. Pude ver a face dele entrando em combustão. Eu me corroía para saber o que estava sendo dito.

Arthur costumava a ser ácido quando ficava magoado. Era como se ele soubesse que ponto te espetar que doeria mais, dizendo as palavras com um semblante cínico que perfurava a alma.

''Não é como se você entendesse. Além do mais você não trabalha.'', um dia ele argumentou em uma discussão, sereno como se estivesse falando a coisa mais sensata do poderia.

Eu nunca fui do tipo que consegue esconder emoções, estava expresso na minha face a tristeza e decepção. Lembro-me de o encarar com lágrimas nos olhos.

''Sério?''

Toda via, Arthur se arrepende rápido. As vezes rápido até mesmo para quem foi atacado assimilar a mudança nele. No mesmo instante ele desabou, quase caindo no chão para aclamar por perdão, cheio de vergonha. O garoto detestava confrontos.

A única mágoa que ele nunca superou foi com os próprios pais.

Voltando a névoa do inverno, Arthur disse:

''Seria muito mais honesto se simplesmente me dissesse que não querem vir! Ah, perdão, honestidade é algo irreconhecível pra vocês. Quer saber? Eu não sou idiota, peguei o recado, não vou mais convidar, assim não vão ter que esgotar a lista de desculpas. Guardem o resto pro Natal.''

Aproximei-me com temor que a bomba de sentimentos se voltasse contra mim.

''Ei, você foi perfeito hoje.'', sussurrei somente para ele, como se fosse um segredo.

''Eu quero ir pra casa.'', Arthur pediu com as palavras quebradiças e os olhos reluzindo o brilho dos postes de luz, marejados.

Oh! Esqueci-me de um fato importante sobre mim, sou uma ótima cozinheira. Entre uma enorme família de indígenas, italianos e portugueses, recebi o dom da cozinha, principalmente com doces. É como se já soubesse o gosto somente vendo a receita, sabendo o que quero adicionar ou tirar. Minhas lasanhas são as preferidas da família, e sei fazer a melhor moqueca – receita da bisa Nadi.

''Posso fazer aquela coisa de jogar?'', Arthur perguntou todo entusiasmado enquanto eu preparava uma panqueca.

''Nunca mais, meu bem.''

Sentia o calor do fogo em minha frente. Arthur passou os braços pela minha cintura e deixando um beijo suave em minha bochecha.

''Meu passado vai me perseguir até quando?'', ele indagou, acariciando meu braço com a ponta dos dedos.

''Tem uma reputação agora, senhor Ferreira.''

Poderia afirmar que tinha uma razão pela minha negligência. Da última vez que tinha o deixado tentar virar a panqueca, o seguinte ocorreu:

''Agora com cuidado vira.'', disse enquanto segurava as mãos de Arthur.

''Eu consigo fazer sozinho. Confia em mim, amor.''

''Arthur...''

''Confia!''

Assenti, afastando alguns seguros centímetros, pronta para salvar minha criação. Arthur se preparou para o lance, com um enorme sorriso bobo e os olhos fechados de tanta animação. Ele tentou algumas vezes, desistindo no meio, todas as vezes soltando uma gargalhada com o próprio fracasso. Porém, em uma vez ele criou coragem e a jogou para o alto. A panqueca sobrevoou o ar, Arthur posicionou novamente a frigideira para o pouso que nunca veio, pois a coitada caiu direto no fogo que estava acesso, logo as chamas se espalharam pela carbonizada comida. Ambos soltamos um grito em uníssono. Arthur caiu no chão, com as mãos segurando a barriga de tanto rir. Acabei por bater nele com um pano algumas vezes, aterrorizada que aquilo se tornaria o incêndio mais idiota do universo. Desliguei o fogo, apanhei um pano, o molhei e joguei em cima da panqueca em chamas.

''Por que tá rindo?!'', gritei em desespero. ''Poderia ter nos matado!''

Minhas palavras só o fizeram rir ainda mais. A raiva que tinha só restou mais poucos segundos, pois logo o riso brotou em mim também como uma doença contagiosa. Sentei-me no chão com as mãos tampando a testa e pus-me a rir. Arthur abraçou-me ainda gargalhando.

De qualquer maneira leitores, imagino que vieram para cá a espera de uma trágica história de romance e não pedaços de uma velha memória apaixonada. Então, já que este é o primeiro capítulo, irei começar pelo nosso primeiro beijo. Perdoe-me minha falta de cronologia, nunca fui muito boa com datas.

Lembro-me que tinha dezoito anos, era a vergonhosa época de 2008, meu rosto pipocava espinhas estranhas e vermelhas que pareciam entrar em erupção. Costumava molhar meu cabelo para o manter liso como o da Avril Lavigne, sempre com o estilo mais ''punk'' que conseguia encontrar em meu armário. Fazia parte da turma dos ''esquisitos'', aqueles que andavam de skate e tinham cabelo repicado. Foi um período estranho de minha vida e mesmo assim daria tudo para poder o reviver – por uns cinco minutos e depois o esquecer completamente. Entre Green Day, The Cure e Pitty, minha vida caminhava. Arthur era tão estranho como eu. Sua banda preferida? Radiohead. Ele era o tipo que achava que não cabia em nenhum grupo, sempre usando roupas ordinárias e o mesmo estilo de cabelo, costumava a não falar muito mais do que uma ou duas palavras, sempre com seu discman na mão.

O motivo ainda é esquecido em meio a minha memória, mas sei que naquela noite estávamos juntos no shopping. Tínhamos acabado de nos empantufar de hambúrgueres, comer fritas até nossas faces estarem cheias de óleo e beber duas garrafas do pior vinho da minha vida, o que era muito refinado para a Catarina de dezoito anos. Estávamos suando álcool no estacionamento do lugar, minha visão era turva e tudo parecia mais lento que o normal. Se eu estava em uma situação desagradável, bom, Arthur era pior. Ele parecia a dois instantes de vomitar, o rosto estava pálido e os lábios esbranquiçados.

O pobre garoto me encarou no fundo dos olhos e disse com o semblante mais perdido que já havia visto:

''Onde tá o Carlos e a Adriana?''

Olhei em nossa volta e só então reparei que nossos amigos tinham ido embora. Ah, Arthur era melhor amigo do namorado de minha amiga de escola, o garoto esquisito que via somente em festas de aniversário e só o ouvia dizer um tímido 'Oi.'.

''Acho que eles foram embora.'', respondi.

Arthur bufou e apanhou a garrafa de vinho da minha mão, esgotando o líquido com um grande gole.

''Eles devem estar fodendo em algum banheiro.''

Encarei o garoto embebedado e melancólico.

''Tenho quase certeza que eles foram embora.''

Aquela foi a primeira vez que Arthur manteve o contato visual por mais de cinco segundos. Ele parecia extremamente magoado – ou talvez fosse só o álcool.

''Então devem estar fodendo em algum sofá.''

O nosso silêncio se estendeu enquanto observávamos um carro partindo do estacionamento. Estranhamente estávamos confortáveis em ficar quietos. Quando voltamos a nos encarar, um súbito calor envolveu meu estômago, ambos caímos na gargalhada.

''Eles estão fodendo!'', gritei enquanto riamos da terrível situação. ''E nós dois estamos bêbados na porra de um shopping! Somos... somos esquisitos de merda.''

''Bêbados em um shopping! O quão patético isso é?'', ele indagou gargalhando.

''A gente poderia estar bêbados em uma boate! Seria mais digno''

''Ou em um puteiro.'', ele complementou.

Nunca pensei que o escutaria dizendo aquelas palavras. Quando ele se deu conta do que falou rimos ainda mais. Estamos berrando, levantamos e começamos a caminhar entre os carros estacionados. Estava fervendo por dentro. Nosso fôlego acabou e permanecemos no silêncio acolhedor.

''Você é virgem?'', perguntei em um murmúrio.

Ele assentiu cheio de vergonha. Abri um sorriso, milhares de pedras despencaram de minhas costas. Apesar de que eu pudesse dar a volta no pulso mirrado de Arthur, suas roupas estranhas, o cabelo sem graça e o cheiro de vinho, eu enxergava algo extremamente atraente em suas bizarrices. Erámos dois adolescentes reprimidos, incompreendidos e repletos de hormônios. Eu peguei gentilmente a mão dele, sem coragem de o encarar, mas percebendo o tom rubro que o rosto dele imediatamente ficou. Para minha surpresa, Arthur segurou-me pela cintura e me puxou para um estranho beijo com odor de vinho velho, batata frita e maionese. Estava bêbada demais para me importar com o gosto estranho. Enfiei minha mão no emaranhado de fios castanhos. Arthur passou os lábios até meu pescoço, fazendo-me arrepiar. Ele empurrou-me até um canto. Nossas respirações começaram a falhar, mas nós não parávamos, provavelmente fervilhando vinho pobre. O tímido garoto apertou minha cintura fazendo com que soltasse um baixo gemido. No momento, parecia o momento mais sensual de minha miserável vida, para um telespectador comum seria mais como dois jovens a ponto de se engolir, confundindo mãos e língua. Felizmente tivemos a decência de parar antes que alguma peça de roupa fosse arrancada.

Decidimos caminhar para ''esfriar a cabeça'', assim que recuperei o fôlego, disse:

''Isso significa que você não é gay.''

''O que?'', Arthur indagou.

Abri um sorriso sem graça. Minhas mãos começaram a suar.

''O que é bom porque eu gostei... disso. Mas, se você fosse, ou é, não tem problemas eu mesma não sei o que sou. Acho que sou hétero. As vezes eu penso em garotas, mas só aconteceu uma vez de... sabe... beijar. Nem foi tão bom. Na verdade foi. Não, tenho certeza que sou hétero. De qualquer maneira, é bom que não seja gay porque isso não teria sido bom pra você se fosse. Foi bom?'', disse initerruptamente, sentindo meu ar se esvair como quando alguém solta uma bexiga.

''O que? Você é lésbica?"'

''Não! Eu só penso sobre, sabe? Fantasio, mas eu sou hétero. Você é hétero, né?''

Arthur se afastou com uma incógnita na face.

''Por que pensou que era gay?''

''Porque você... eu só senti.''

''Tem como sentir?''

''Bom, eu errei, então acho que não.'', disse com um sorriso tentando acalmar a criatura vermelha em minha frente. ''Eu errei?''

''Sim! Eu sou hétero!''

''Bom, bom. Isso é bom. Muito bom.''

Imagino que esse não seja um começo muito descente para uma histórica épica de romance; dois jovens bêbados, inexperientes e com a libido acima do comum. Talvez seja mais apropriado os levar para um ano no futuro a partir desse terrível acontecimento, mais especificamente para minha apresentação de ballet, Chopin Les Sylphides, minha honrada passagem para o 'Avançado II' no aprendizado clássico.

Hoje, quase esqueço-me da sensação de estar no palco, a inquietante ansiedade, o nervosismo, o medo da falha, o modo como tudo é intenso quando se está na coxia, porém assim que o holofote te busca é como o mar de emoções se tornasse quieto, deixando que você seja levado pelos passos já tão treinados excessivamente. É um sentimento e tanto. Lembro-me de como achava magnífico o movimento singelo e suave das mãos em contraste com seu corpo rígido. Foram anos de ouro. Como estava bela aquela noite com esplêndido vestido branco com as saias esvoaçantes, a sapatilha reluzindo a luz, o cabelo preso em duas tranças no topo da cabeça com alguns frios adornando a lateral de minha face.

Assim que deixei o palco me deparei com Carlos e Adriana acompanhados pelo estranho garoto que havia me atracado um ano antes. Minha pele congelou de vergonha, o pobre menino encarava o chão como se fosse o objeto de seu desejo.

''Carlos, Adriana!'', sorri para ambos. ''E... Ar...''

''Arthur.'', ele disse.

''Isso! Arthur! Desculpa, eu realmente tenho uma memória bem ruim. O que faz aqui?''

''Eu contei que você dançaria Chopin e o menino pirou, disse que queria vir.'', contou Adriana, com um pouco de pena em sua voz.

''Por conta própria'', complementou o namorado.

Arthur mordiscou os lábios, tentando conter a humilhação e timidez.

''Isso é bem estranho.'', o garoto murmurou para si. ''Eu realmente gosto muito de Chopin, e não sabia que dançava. Dança como uma deusa, na minha opinião. Desculpa se isso é muito... perseguidor.''

Sorri para ele.

''Eu entendo, faria a mesma coisa por Chopin. Aquele homem...'', consegui arrancar um riso de Arthur. ''Obrigada por terem vindo, de verdade. Vou falar com minha família e já volto para vocês.''

''Ei! Seu número, pode me dar?'', ele se apressou para dizer antes que eu fosse embora.

Encarei o celular de teclado retrátil que Arthur me entregava. Vi novamente aquele rosto aparentemente inocente. Por fim, cedi e lá pus o que ele desejava.

Semanas depois, no fim da tarde de março, recebi uma ligação do tal garoto. Ele me disse que havia ligado pois tinha esquecido o nome da música da apresentação. Uma mentira. Acabamos por conversar até a madrugada aquele dia. Ele me contou que estudava piano no Municipal, discutimos sobre os mais variados tipos de música. Debatemos sobre a credibilidade da Avril Lavigne depois de 'Girlfriend', sobre vender-se pelo dinheiro. Erámos jovens sonhadores, cheios de esperanças de conquistar o mundo. Parecia que todos os assuntos poderíamos conversar, até mesmo aqueles que não concordávamos. Na verdade, discordar de Arthur sempre foi uma das minhas coisas preferidas. Naquela noite eu adormeci com o coração encantado.

Depois disso tivemos que começar a conversar por telefone fixo para não torrarmos nossos créditos. A madrugada era nosso horário preferido. Falávamos sobre tudo já que ele se sentia confortável de mencionar seus tabus e eu de comentar meus medos. Parecia que o mundo havia nos feito como peças perfeitas de um quebra-cabeça; ambos tinham curso de tarde e a noite livre para gastarmos falando. Admito que no início sentia uma pontada de atração por ele, mas que logo foi convertendo em boa amizade, pelo menos em minha parte, pois anos depois Arthur confessou-me que era apaixonado desde aquela apresentação de ballet – já mencionei que ele é um idealizador incansável?

Em alguns domingos nós começamos a nos encontrarmos na Avenida Paulista, andávamos e ficávamos conversando em algum banco do parque Trianon. Naquele dia iriamos destrocar os livros que cada um tinha emprestado para o outro. Estávamos caminhando sob a sombra das enormes arvores, passando por uma ponte quando tirei de minha mochila uma edição de 'Ao Farol' de Virginia Woolf. Arthur já estava com o meu 1984 nas mãos.

''O que achou?'', perguntei animada

''Diferente de tudo o que já li. É tão agressivo, agressivo de um jeito bom. Não sei explicar. E você, o que achou do seu?''

Entreguei o livro que segurava para ele.

''Introspectivo. Contemplativo. Mas, ao mesmo tempo é poderoso. Combina com você.''

''Não sei se tenho que ficar preocupado ou agradecer.'', o garoto sorriu.

''Acho que os dois. Agora só falta você ler 'Admirável Mundo Novo' e 'Laranja Mecânica', assim vai poder entrar pro meu grupo.''

''Admirável Mundo Novo. Meu pai tem esse livro. Eu tentei ler quando tinha uns quinze anos e desisti. Tudo o que lembro é de como eles tratavam o sexo de um jeito tão... banal e como isso era uma forma de controle. Mas, por que o sexo? O que ele tem de importante para conseguir controlar uma população inteira?''

''Não era o sexo que controlava a população, na verdade eram muitas coisas, mas acho que sobre o que tá dizendo ele quis dizer sobre a falta do amor. O que eles faziam era dar uma dose de prazer, seja com o 'soma' ou com o sexo, pra fazer você ser escravo das sensações e esquecer dos sentimentos.''

''Sensações...sentimentos... Não tem o mesmo significado?'', ele perguntou.

''Nunca! Você pode ter uma sensação vazia de sentimento.'', aproximei-me dele e peguei-lhe as mãos. Senti-o ficando petrificado ''A sensação é da minha mão na sua, da pele encostando, só isso. Mas, se você sente algo por mim, acaba sentindo algo além disso. E o amor é intenso demais para manter o equilíbrio de uma sociedade. O amor pode ser egoísta, trágico e até mesmo revolucionário. Então eles estimulam o sexo e repreendem os sentimentos. Todos eles.''

Uma agonia fez todo meu corpo estremecer de dor. Felizmente consegui colocar as mãos no chão para amortecer a queda, porém senti meu pé esquerdo virar, no momento que pude sentar eu agarrei meu tornozelo com um berro preso na garganta, meus olhos lagrimejavam pela dor que pulsava. Arthur largou a caderneta dele no chão e correu até mim.

''Estica a perna.'', ele mandou.

Um tanto relutante eu consegui fazer o que ele pediu. O garoto entregou a própria mão para que eu a apertasse caso sentisse dor.

''Tenta mover o pé''

Na primeira tentativa uma lágrima de desespero escorreu. Ele a secou com a ponta dos dedos e acariciou meu rosto.

''Tá tudo bem, Catarina. Você no máximo luxou. Tenta de novo.''

Arthur segurou meu pé e fez lentos movimentos com ele. Quando meu corpo voltou a temperatura normal, os lábios voltaram a ser rosados e o pavor da queda me deixou, a dor em si diminuiu consideravelmente. Finalizei ali mesmo meu treino. Arthur insistiu que me acompanhasse até minha casa, mesmo eu argumentando que não havia nada de errado com meu tornozelo.

Permaneci em silêncio no metrô, encarando o céu criar uma camada negra com nuvens cinzas de poluição e chuva. Estava aterrorizada por dentro pela possibilidade de ter realmente machucado meu pé. Não sabia exatamente como isso influenciaria na dança. Talvez teria que tirar alguns dias de repouso ou talvez até meses. A dor permanecia lá, quieta e constante. Naquela semana em específico eu estava aterrorizada. O próprio vestibular estava chegando, testes no ballet e uma horrível briga com meus pais. Encostei-me no ombro de Arthur e peguei sua mão, ali percebi como era perfeita, com dedos proporcionais e delicados. Ele parecia uma das poucas coisas que permaneceriam estáveis em minha vida. Não entendia o motivo dele se doar tanto a mim. Arthur era uma das raras pessoas que eram gentis somente por ser, sem desejar algo em troca. Ele tinha uma alma naturalmente boa. Provavelmente o que me conquistou naquele dia foi o fato dele não tentar absolutamente nada mesmo que eu estivesse derretendo-me em seu ombro. Arthur permanecia encarando a janela do metro, vendo a paisagem se tornar um borrão. Quando levei minhas até atrás de sua nuca foi o momento em que ele me encarou completamente confuso. Assim que Arthur se deu conta do que queria, o garoto aproximou-se até nossos narizes se encostarem. Deus, como erámos frágeis. Deixei que nossos lábios se tocassem, daquela vez sem o estranho gosto de vinho. Arthur segurou meu rosto com as ambas as mãos, como se me protegesse do mundo. Ele se afastou por um momento e murmurou, havia uma tristeza tão amarga em sua voz:

''Eu talvez goste de você.''

Sorri, sentindo a respiração abafada dele em meu rosto.

''Também talvez gosto de você.'', confessei.

Ele soltou um riso de nervoso enquanto segurava minha mão. Estávamos tão próximos que nossos corpos quase se fundiam.

''Você tá bem?'', ele indagou em um sussurro.

Deixei que nos beijássemos de novo, daquela fez foi eu que cobri seu rosto com minhas mãos. Escorri entre nossos lábios, meu corpo formigava e o estômago estava congelado em ansiedade. Ele passou os braços pela minha cintura e puxou-me para si. Era como se estivesse em baixo d'água, com os sons todos abafados ao redor. Arthur me abraçou, afundando a cabeça em meu ombro. Acariciei seus cachos.

Quando deixamos o vagão eu apertava minhas mãos suadas. Tentava somente prestar atenção no jeito estranho que mancava. Pisava na faixa amarela do metrô como se estivesse em uma corda bamba.

''Então... continua achando que sou gay?'', ele indagou com um riso zombeteiro.

Soltei uma estranha risada.

''Continua achando que sou lésbica?'', rebati.

Arthur olhou-me com os olhos apertados de diversão

''Talvez um pouco'', ele pegou em minha mão. ''Quero te mostrar uma coisa.''

''O que?''

''Vem!''

Então o garoto puxou-me até a escada rolante e corremos até o outro andar da estação de metrô.

Sim, agora sim está um início melhor para essa história.

*Observação do Arthur: Eu nunca disse que era apaixonado desde a apresentação de dança! Disse que tinha uma queda por ti desde aquele dia.

*Resposta a observação do Arthur: Não é a mesma coisa?

*Resposta da resposta da observação do Arthur: Não!

Sabe que eu vou deixar assim, dá uma carga mais dramática.

Eu te odeio.

Jan. 14, 2020, 3:46 a.m. 0 Report Embed 0
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