dissecando Edison Oliveira

Às vezes, nós precisamos apenas acreditar...


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A INOCÊNCIA DE SÉLTON




Não havia muitas crianças; apenas alguns parentes, boa parte deles adultos. Era o aniversário de oito anos de nosso filho Sélton, e aquilo estava nos enchendo de orgulho.
Minha esposa e eu sabíamos que não seríamos capazes de realizar uma grande festa, mas tínhamos em mente que Sélton não iria dar importância. Ele não costumava fazer isso para muita coisa. Às vezes, simplesmente chamá-lo pelo nome não funcionava. Ele ficava exatamente onde estava, mexendo uma mão sobre a outra e olhando para algum lugar que apenas ele era capaz de compreender.
Notamos, Maria e eu, que Sélton não era muito fã de abraços. Toda vez que tentávamos demonstrar algum carinho, uma situação constrangedora acontecia. Certa vez, isso ocorreu em um supermercado; minha esposa Maria estava na sessão de legumes e verduras (ela é vegetariana e faz questão de escolher muito bem o que vai fazer para o jantar) enquanto eu revirava a adega de vinhos em busca de algo bom, não muito forte mas também não muito fraco.
De repente, ouvi gritos. Eles certamente eram de uma criança. Devolvi a garrafa de vinho tinto para a prateleira e corri na direção onde havia me despedido de Maria e de meu filho. Assim que entrei no corredor, me deparei com Maria abaixada, com um dos joelhos apoiado no chão. Ela tentava acalmar o nosso filho, perguntando para ele o que gostaria de fazer assim que chegasse em casa.
Sélton não respondia nada. Ele não era capaz de compreender. Apenas balançava os braços, furioso com o mundo, arremessando algumas berinjelas na direção de outras pessoas que já se aglomeravam para ver o que estava acontecendo. Aquilo levou tempo. Não sei dizer com precisão quanto, mas lembro de ficar suado e chateado depois.
Sabe, as pessoas não compreendem. Eu mesmo ainda fico muito confuso. Vez que outra me pego pesquisando sobre o autismo na internet, mas decido parar assim que percebo que não há necessidade de fazer aquilo. Então, sinto vergonha de mim mesmo e volto para a varanda para deixar que o tempo me acalme.

Falávamos sobre o clima (um pouco quente para o mês de julho) quando minha irmã Cassia me olhou um tanto sem jeito e disse que às quatro horas teria de partir. Era a terceira vez que ela me dizia aquilo, e respondi que talvez já fosse o momento de trazer o bolo e cantar os parabéns.
— Acho que tem razão, — concordou Maria, levantando do sofá e indo na direção da cozinha.
Sélton continuava próximo de nós, sentado no piso e brincando com uma das rodinhas de um de seus carros. Era um hábito dele; brincar com apenas uma parte de seus brinquedos.
Ele resmungou qualquer coisa e um instante depois Maria cruzou a sala segurando a bandeja do bolo de cenoura. Certamente ele estava uma delícia, pois Maria era uma tremenda confeiteira e justificava isto mantendo seu próprio negócio em um estabelecimento em um shopping do centro.
Todos nos reunimos em volta da mesa um pouco depois das três da tarde, batemos palmas e cantamos, deixando Sélton um pouco confuso, mas ainda assim participativo. Minha irmã soltou uma risada sonoramente desagradável e dirigiu suas palavras para o sobrinho:
— Está na hora de fazer um pedido, querido.
Sélton olhou para ela e não teve reação alguma. Ficou apenas parado, sem expressão e remexendo na roda de brinquedo.
Minha esposa se abaixou e ficou da altura dele.
— Sua tia tem razão, — falou. — Veja. Feche os olhos. Então faça um pedido. Depois sopre as velinhas. É fácil. Você pode fazer isso, amor.
De fato ele podia. Após algumas tentativas frustradas, Sélton finalmente conseguiu compreender. Foi um momento doce, onde Maria e eu nos abraçamos e choramos juntos, um choro honesto e de alegria, uma felicidade que raramente caía sobre as nossas vidas.

Provavelmente ele comprou a ideia de algum programa que viu na televisão, ou até mesmo de um filme da Disney. Não sou capaz de lhe contar exatamente. Onde moramos (um sítio ao sul de Pedra Negra) as pessoas não costumam fazer muitas perguntas. Muitas nem sabem que atrás da plantação de tomates existe um unicórnio desfilando com nobreza, disparando numa velocidade impossível e deixando um rastro de arco-íris para trás. Ele apareceu na fazenda três dias depois que Sélton soprou aquelas velinhas.
Maria deu um grito quando foi estender as roupas no varal e o bicho cafungou em seus calcanhares. Também levei um susto e fui mordido pelo mosquito da incompreensão; coisas como aquela não existem, não é?
O que falar sobre a cama feita de chocolate do aniversário seguinte a este? Minha esposa até ficou com inveja de tamanha arquitetura daquela obra. Os detalhes eram impressionantes, e o cheiro delicioso, algo que me fazia lembrar caramelo e amêndoas.
De fato, Sélton parece ter pegado o jeito da coisa, de uma forma ou de outra. Gostaria que minha irmã Cassia viesse nos visitar qualquer dia desses, mas suponho que isso não será possível. Não sei onde estamos.
Em seu aniversário da semana passada, Sélton tornou a soprar as velinhas. Maria e eu apertamos as nossas mãos com força, imaginando exatamente a mesma coisa: o que será que ele está pedindo?
Agora, sabemos o que foi. Não há muito a dizer, apenas que estamos bem e felizes. Um pouco assustados, mas animados por estarmos todos juntos.
Desconfio que aqui possa ser o lugar onde nascem os sonhos.

Jan. 3, 2020, 7:03 p.m. 2 Report Embed 2
The End

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tiago líreas tiago líreas
Sinto que isso foi uma sinopse prolongada de algum filme de animação sobre como essa mesma família precisa impedir algo que o garoto pede no décimo ou décimo primeiro aniversário que, por ser perigoso, poderia destruir a cidade ou cidades próximas. Passam um ano inteiro no medo e desespero e no seguinte aniversário o garoto pede a solução e fim. Gostei da ideia base, mas... parece incompleto?, tipo, você só apresentou um conceito e como ele pode se aplicar usando essa narrativa, mas não desenvolveu praticamente nada. Enfim, não sei se era a sua intenção de desenvolver, então não prossigo. Gostei, mas podia ter gostado mais, sem dúvida. Em nota adicional, lembrou Muito o outro conto seu "VOCÊ PEDE e ELE FAZ", com o carro das janelas sujas que serviam pra escrever desejos, e até o "Antes que tudo se vá" um pouco.
January 15, 2020, 12:16
Atila Senna Atila Senna
Curioso ler seus história. Imagino um romance com essa premissa.
January 03, 2020, 19:22
~