u15514544731551454473 Luiz Fabrício Mendes

Los Angeles, 1947. Uma cidade podre até os alicerces, em que anjos são uma espécie em extinção. Mas foi exatamente esse local a residência escolhida por boa parte dos deuses antigos, disfarçados há séculos entre os mortais. Passando por produtores e artistas de Hollywood, as divindades não mais cultuadas procuram tirar seu nome do esquecimento investindo em filmes de mitologia que tornem suas histórias populares no mundo moderno. Nesse cenário peculiar, enquanto a polícia convencional tenta desbaratar a máfia, a D.A.O. - Divine Aura Organization - existe em segredo para investigar crimes relacionados aos deuses e entidades mitológicas. Pandora Olympus, jovem recém-admitida à D.A.O., acaba de receber seu primeiro caso... E ele tem a ver com certo velhinho barbudo bem popular no Natal.


Fantasy Not for children under 13.

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I

Mythos Noir


Caso #01: O Sumiço de Noel


I


Los Angeles, março de 1947

Ela aguardou dentro do cômodo por uma eternidade. Sua experiência na força policial lhe dizia que aquela era uma típica sala de interrogatório com espelho falso, as paredes revestidas com isolamento acústico do chão ao teto e até a clássica mesa com uma cadeira de frente para a outra estando presente – encontrando-se, no caso, sentada numa delas.

Só que não lidava mais com a polícia comum. Aquela era a D.A.O., e só por sua incumbência, era de se esperar que aquela não fosse simplesmente uma sala de interrogatório, localizada num complexo secreto vários subsolos abaixo do imponente prédio do Departamento de Polícia de Los Angeles, por completo desconhecido à vasta maioria da população mundial – que continuava assim vivendo em seu mundo normal e confortável, sob o véu que a impedia de entrar em pânico se soubesse do que se escondia nas sombras, das reais identidades por trás daquele ídolo tão charmoso ou do empresário tão bem-sucedido...

Tamborilou seus dedos sobre a madeira da mesa por vários instantes, ora tentando imitar o ritmo de uma conhecida melodia de Cole Porter, ora não fazendo sentido algum. Foi numa dessas notas desencontradas, todas parecendo iguais entre si por comporem o mesmo eco seco da tábua, que a porta do recinto se abriu – uma silhueta de terno e chapéu cinzentos entrando sem pressa, o que contrastava e muito com a impaciência que ela sentia.

O homem indefinido, trajado como todos os outros nas ruas lá em cima logo ganhou suas particularidades: vinha com um cigarro aceso preso entre os dedos de sua mão esquerda, e na direita carregava uma pasta cor de creme manchada de tinta aqui e ali. O rosto era sisudo e frio, como talhado em mármore, da exata maneira como disseram a ela que seria – e seus gélidos olhos verdes revelavam-se bem intimidadores, de modo a fazer pensar serem capazes de fitar sua própria alma através de sua carne; e perguntou-se se não era esse o poder de sua aura.

Sem a mínima cerimônia, o recém-chegado atirou a pasta sobre a mesa – ela por pouco não deslizando para fora e os papéis em seu interior não escapando pelo que pareceu um milagre. Levou o cigarro à boca e deu um trago, a fumaça impregnando a atmosfera fechada do cômodo de maneira a fazer a jovem sentir-se num cabaré de quinta categoria; porém não expressou seu incômodo. Se ela queria mesmo mostrar-se digna de fazer parte daquela organização, precisaria aprender a lidar com coisa muito pior que aquilo.

O sujeito sentou-se diante dela, afastando um pouco a cadeira para acomodar suas pernas – visto ser razoavelmente alto, assim como boa parte dos veteranos do Pacífico que ela costumava encontrar agora em Los Angeles, comprando imóveis nos novos bairros que surgiam para tentar recomeçar sua vida após a guerra.

Ele a olhava fixamente, fazendo-a perguntar-se a razão. Não estava particularmente arrumada, tendo os cabelos loiros presos num coque sob o quepe e a apertada farda azul da polícia contendo a silhueta de seu corpo quase ao máximo. O homem provavelmente somente a analisava de forma minuciosa, como fazia com tudo e todos – era algo da profissão e também fora avisada a respeito, tendo caído no engano de se esquecer por alguns segundos.

- Senhorita Olympus? – ele indagou, sua voz ao mesmo tempo cavernosa e eloquente, como um locutor de rádio. – Pandora Olympus?

Ela manteve o olhar erguido, mesmo achando-se pressionada pelo fato do interlocutor continuar encarando-a.

- Sim, sou eu.

Ele calou-se por alguns instantes, de certo examinando até mesmo como se davam os espasmos no branco de seus olhos, antes de continuar:

- Recebi a informação de que fez um pedido de recrutamento à D.A.O., e estou aqui para tutorá-la. É o procedimento padrão, como devem ter-lhe explicado. Como muitos nos procuram desorientados, sem saber ao certo qual é nosso trabalho, peço, por gentileza, que faça um breve resumo sobre a organização e sua função.

Certo, ela já esperava aquilo. Tratava-se da cartilha que todo candidato a uma vaga tinha de recitar de cor e salteado; os princípios que norteariam seu trabalho. Felizmente ela fizera a lição de casa, e mostrou-se bastante segura quando falou:

- D.A.O., sigla que corresponde a "Divine Aura Organization". Sua origem remete há aproximadamente dois séculos. Os deuses dos diferentes panteões do mundo, desde sua criação, viveram entre os homens, afetando diretamente sua existência. Na Antiguidade, povos como os egípcios, gregos e romanos registraram claramente esse contato, embora seus relatos tenham chegado a nós como mera mitologia. Na Idade Média, o predomínio do deus cristão fez com que as outras divindades fossem vistas como monstros e demônios, mas elas continuaram presentes entre nós. Até que, no século XVIII, devido aos malefícios que a intervenção direta dos deuses na vida dos mortais vinha causando à humanidade, as divindades resolveram se ocultar, saindo de cena e deixando que os homens caminhassem com as próprias pernas, sem o contínuo amparo dos deuses. Foi o início da Era da Razão, em que a tecnologia, continuamente desenvolvida pelo homem, substituiu o antigo poder divino; e desde então as diferentes crenças passaram a entrar em cada vez maior descrédito, boa parte das religiões, mesmo ainda tendo adeptos, sendo gradualmente enxergadas apenas como lendas.

Pandora efetuou uma pausa para recuperar o fôlego e continuou:

- Os deuses passaram a viver anônimos na sociedade, assumindo, com outras identidades trocadas de tempo em tempo para camuflar sua imortalidade, as ocupações de artistas, políticos, pensadores, empresários e outras posições de certo prestígio para compensar a perda de devoção. Não foi um processo simples, todavia: várias rivalidades entre divindades de panteões diferentes e até dentro de um mesmo panteão continuaram a existir, e os deuses passaram a temer serem atacados pelas costas por algum colega que violasse a regra de esquecer o passado e se misturar aos mortais. Além disso, seria necessário quem zelasse para conservar o segredo dos deuses. Assim, no mesmo período em que as divindades fizeram o acordo para deixar de interferir na história humana, foi criada a D.A.O., formada por mortais privilegiados incumbidos da tarefa de resguardar o sossego e a privacidade dos deuses. Para isso, cada um deles recebeu o poder da aura de um deus específico, permitindo fazerem uso de habilidades sobre-humanas de acordo com o domínio específico da divindade. Em suma, uma nova espécie de semideuses, servindo como guarda-costas de elite. Essa é a D.A.O., e é para fazer parte dela que estou aqui.

Ao término da exposição, o homem se manteve calado por mais algum tempo, dando novas tragadas no cigarro quase no fim. Pandora mal percebia mais a fumaça – o que a fez se sentir otimista, pois achou ser uma prova de que já se encontrava bem mais à vontade.

- Como soube de nós? – a pergunta foi incisiva, quase tão afiada como uma faca.

- Minha mãe foi integrante da organização por anos. Ela está agora, digamos, "passando o bastão adiante". Contou-me toda a verdade há algumas semanas, tão logo meus poderes, herdados dela, começaram a se manifestar. Já tenho experiência de anos na polícia, onde consegui subir ao posto de sargento, e estou habituada a investigações criminais. Desejo ocupar a vaga que antes pertenceu a Rhea Olympus.

Ele pigarreou, despejando cinzas do cigarro sobre o chão da sala com os dedos da mão esquerda num gesto que remetia a desdém.

- E qual é a aura divina atribuída à sua mãe Rhea, que dela herdou?

- Bastet – Pandora replicou meio abruptamente, devido ao orgulho que sentia de seu legado. – A deusa felina egípcia.

- Pode me provar, por favor? Entenda, recebemos embusteiros com não rara frequência...

Não viu incômodo algum no pedido. Mantendo-se sentada do outro lado da mesa, Pandora concentrou-se, baixando a cabeça e unindo as mãos abertas em cima do peito. Após seu corpo inteiro brilhar momentaneamente, sua silhueta diminuiu sobre a cadeira... perdendo gradualmente a forma humana para assumir a aparência de uma gata negra de pelo brilhante e longos bigodes brancos, mantendo-se sobre o assento enquanto encarava o tutor por cima do móvel com seus olhos claros de pupilas em fenda.

De modo a parecer um anúncio de que a transformação fora concluída – e consequentemente também superada a prova – a jovem convertida em animal soltou um breve miado.

- Esplêndido – o homem de terno e chapéu, que ela sabia se chamar Steve Vahls, recrutador da D.A.O., pronunciou-se, atirando fora o cigarro e juntando as mãos sobre a mesa.

Dec. 26, 2019, 6:45 p.m. 0 Report Embed 1
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