u15514544731551454473 Luiz Fabrício Mendes

Seria o desejo de vingança um sentimento essencialmente humano? Até mesmo no caso de um humano artificial?


Science Fiction Not for children under 13.

#Revanche #vingança #Espécime #ciência #relato #fuga #cobaia #sci-fi #rebelião #Consciência #vida-artificial #laboratório #Genética
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Capítulo Único

Setor 05


Originalmente escrito como presente de aniversário à minha amiga Vania Pontes (Tod), em 2007.


I


Assim que ouviu o último gemido do homem de uniforme, somado ao barulho de ossos quebrando, ele largou o pescoço deste, o qual antes apertava com titânica força. O corpo sem vida desabou sobre o piso, as vestes do morto sendo manchadas pelo sangue de outro cadáver próximo. Logo em seguida o assassino olhou ao redor, buscando algo. Ouviu um gemido, vindo dos móveis destroçados. A luz no teto oscilou. Ele seguiu até o local onde se encontrava o provável autor do som.

Entre os restos de um sofá, encontrou um homem vestindo jaleco de laboratório, um dos braços quebrados. Provavelmente tal fratura ocorrera quando ele o arremessara ali instantes antes. Urrando de fúria, apanhou o homem ferido pela roupa, erguendo-o alguns centímetros acima do chão com sua incrível força. Apavorado em relação às coisas que aquele invasor era capaz de fazer, o suposto cientista perguntou, quase chorando de tanto medo:

- O que você quer?

- Eu quero vingança! – rugiu o agressor, dentes cerrados. – Quero acabar com a vida do homem que matou meu pai!

- Mas do que é que você está falando?

Ainda mais enfurecido devido ao cinismo daquele homem que julgara poder lhe dar inúmeras respostas, ele arremessou-o novamente, desta vez na direção de uma vidraça. O corpo trajando jaleco atravessou a janela e despencou, gritando, até a rua vários andares abaixo.

Foi então que uma porta de metal que possuía o símbolo de perigo biológico se abriu, e outro cientista, vestido como tal, adentrou o recinto. Nosso protagonista, que até chegar ali arrancara a vida de dezenas de pessoas sem nem ao menos pestanejar, ficou paralisado ao fitar a face daquele homem.

Ele finalmente o encontrara de novo.

Sentindo que aquele era o momento mais importante de sua sofrida existência, o assassino fechou os olhos, visualizando em fração de segundos todo o caminho que percorrera até chegar ali...


II


Ele nascera num laboratório. Crescera num laboratório. Criara raiva do mundo num laboratório.

A primeira lembrança que tinha de sua vida era a de uma placa branca iluminada por lâmpadas de mercúrio, a qual possuía, em letras negras maiúsculas ao lado de um símbolo que seu pai mais tarde lhe revelaria significar perigo biológico, o nome do lugar onde passara seus primeiros anos totalmente confinado, salvo por algumas visitas à enfermaria e à "sala de presentes": "SETOR 05".

Aquela era sua casa: uma sala revestida de metal amplamente iluminada, com uma cama, um pequeno e frio banheiro anexo, uma TV, um computador e alguns objetos pessoais. Na sua infância eram brinquedos, na adolescência CDs de bandas de rock e livros de estudo, e na maturidade qualquer coisa trazida ou esquecida pelos que entravam no lugar que trouxesse informações mais concretas sobre o mundo exterior. Sim, tudo que existisse fora daquele setor e daquele maldito laboratório. Por muito tempo conhecer o mundo exterior fora a maior ambição em sua vida.

Além da placa com o nome do setor, outra lembrança nítida de seus primeiros anos remetia à ocasião em que os homens de branco, que mais tarde aprenderia se chamarem "geneticistas", revelaram-lhe seu nome: Apolo. Através dos livros de mitologia que seu pai lhe trazia, ele descobriu que esse era o nome de um dos mais importantes deuses gregos, representando o próprio Sol. Por esse motivo, ele muitas vezes se sentia orgulhoso em relação ao seu nome quando era chamado pelas pessoas ao redor, porém tal fascínio logo se perdeu nos primeiros anos da puberdade, época em que ele começou a achar tal denominação ridícula e pretensiosa.

A vida no Setor 05 era relativamente monótona. TV, computador (o qual era usado quase sempre para os estudos, raramente sendo permitido que Apolo se divertisse com jogos eletrônicos, os quais eram de vez em quando trazidos por seu pai), livros de estudo... Ah, os estudos. Muito cobrados pelos homens de branco. Eles exigiam que ele fosse um crânio em todas as matérias imagináveis... Matemática, geografia, história, física, química, biologia... O desejo deles era que Apolo se tornasse uma verdadeira máquina de raciocinar.

Como já descrito, ele só deixava a sala metálica para visitar a enfermaria, caso se machucasse de alguma forma (já que nunca ficara doente desde que nascera), e para ir até a "sala de presentes". Essas jornadas eram sem dúvida curiosas, já que ocorriam somente uma vez por ano, numa data que segundo todos era o aniversário de Apolo: 6 de abril.

Quando essa ocasião chegava, ele era levado sempre pelas mesmas pessoas, um homem e uma mulher de jaleco e semblantes sorridentes, até uma sala não muito diferente do Setor 05, onde era sentado numa cadeira e recebia o "presente" anual: a injeção de alguma substância em sua corrente sangüínea. Apolo notara que a cada ano o líquido na seringa mudava de cor, e cada um lhe causava um efeito diferente. Quando completara oito anos de vida, por exemplo, recebera um presente verde que aumentara consideravelmente sua força física. Aos doze, o presente azul incrementara sua capacidade de raciocínio. Aos dezesseis, seus cinco sentidos se tornaram mais aguçados por meio de um presente laranja... De qualquer forma, sempre após as injeções, Apolo passava alguns dias em período de observação, o que significava gente entrando e saindo do Setor 05 a quase todo instante anotando dados e perguntando como ele se sentia.

Conforme crescia, Apolo ficava mais forte, ágil e inteligente...


III


O pai. Não é possível continuar narrando esta história sem citá-lo.

Apolo viu-o pela primeira vez aos cinco anos de idade. Ele era um cientista mais simpático que os demais, logo se identificando como pai do garoto. Prometeu que faria qualquer coisa que ele pedisse, sempre. Os dois tinham uma relação sadia e prazerosa, e isso parecia não agradar os demais homens de branco. Não gostavam que Apolo o chamasse de pai, e por isso na presença deles ele sempre se referia ao sereno geneticista pelo nome de doutor Atkinson, como este mesmo lhe recomendara uma vez.

O morador do Setor 05 tinha no pai a fonte de suas raras alegrias naquele lugar. Enquanto os homens de branco lhe traziam apenas livros de estudos que deveriam ser lidos até a exaustão, doutor Atkinson trazia incontáveis obras de ficção, que auxiliaram na formação do caráter do pequeno Apolo. Dessa forma ele conheceu autores como Homero, Shakespeare, Swift, Julio Verne... Uma vez, já na adolescência, lhe presenteara com "Admirável Mundo Novo", de Huxley, mas tal livro fora praticamente apreendido pelos cientistas antes que Apolo pudesse iniciar a leitura.

Isso sem contar os jogos de computador, as histórias em quadrinhos, os CDs de música... Além dos ensinamentos, com certeza a maior contribuição de Atkinson para com seu filho. Ele ensinou Apolo a compreender melhor sua vida e a lidar melhor com os outros geneticistas. Também trazia relatos intrigantes sobre o mundo exterior... De início ele costumava dar ao habitante da sala metálica cartões-postais de várias partes do planeta, os quais num primeiro momento não atraíram a curiosidade de Apolo, coisa que só aconteceu quando atingiu a maioridade. Seu pai lhe falava sobre as pessoas, sobre os sentimentos humanos, dos quais os homens de branco pareciam querer manter o garoto o mais distante possível...

Enfim, apesar de não compreender ao certo o amor, coisa tão confusa e paradoxal que até os poetas e filósofos haviam falhado em explicar, Apolo podia dizer que amava o doutor Atkinson, seu pai, seu professor, seu protetor. A pessoa mais importante no mundo para ele.

E assim veio mais um 6 de abril...


IV


Naquele dia Apolo completava dezoito anos de vida no Setor 05. Ao contrário do que ocorrera em todos os outros anos, daquela vez não foi o casal de cientistas sorridentes que veio buscar o jovem para levá-lo até a sala de presentes, mas o doutor Atkinson, talvez devido ao fato de o garoto ter atingido a idade adulta. Entrando na sala, o geneticista encontrou seu filho sentado num canto, cabeça entre os joelhos. Preocupado, o pai correu até ele, perguntando:

- Apolo, você está bem?

- Sim... – suspirou o rapaz, erguendo a cabeça que, para alívio de Atkinson, não possuía sinal de lágrimas. – Pai, uma vez o senhor me prometeu que faria qualquer coisa que eu lhe pedisse, não?

- Sim, é verdade – respondeu o cientista com firmeza. – Qualquer coisa.

- Então me leve até o mundo exterior.

O geneticista ficou calado por um momento, fitando o filho com um olhar de espanto. Depois indagou, um pouco tenso:

- O mundo exterior?

- Sim, eu quero que o senhor me mostre! – implorou Apolo, agarrando os ombros do pai com os olhos brilhando.

Atkinson não podia recusar. Ele o amava, ele faria tudo por ele. Lembrou-se de uma frase que lera num livro recentemente, a qual se aplicava perfeitamente àquela ocasião: por você, faria isso mil vezes! Mil vezes... Sim, o doutor o faria. Em nome do amor que sentia por seu filho.

- Venha comigo, e não faça barulho.

Apolo segurou a mão direita do pai, que o guiou para fora do Setor 05. Seguiram sorrateiramente pelos corredores, e o jovem adentrou partes do laboratório que nunca vira antes. O mundo não era mesmo limitado somente à sua sala metálica. Havia muitos lugares para ver, muitas coisas para conhecer... Atkinson tremia. Sabia as conseqüências que aquele seu ato poderia ter, porém seu filho não poderia viver daquela forma para sempre. Não era justo.

Súbito, ao dobrarem um corredor, os dois foram surpreendidos por uma fileira de homens armados usando uniforme militar, apontado-lhes metralhadoras. Toda a discrição do pai de Apolo fora em vão, eles haviam sido descobertos quando estavam bem próximos da saída do prédio. O garoto, com medo, cingiu a cintura de seu protetor pelas costas com os braços, ao mesmo tempo em que um homem careca de jaleco, face severa, surgia entre os soldados. Apolo nunca mais esqueceria aquele rosto...

- Eu sabia que uma hora ou outra você acabaria traindo a equipe, Atkinson – afirmou o sinistro personagem, apontando uma pistola automática para o pobre geneticista. – Seus sentimentos são uma ameaça.

- Dane-se a equipe, dane-se o governo! – exclamou o pai de Apolo com raiva. – Ele precisa conhecer o mundo, ele tem de saber a verdade!

- Você sabe muito bem que não é tão simples... Não sabe?

Um disparo. Atkinson desfaleceu, tombando nos braços do filho. As mãos deste ficaram banhadas pelo sangue do homem que tanto amava. Uma lágrima gélida e salgada rolou pelo rosto do rapaz, enquanto fumaça saía do cano da arma do careca. Ele matara seu pai. Ele aniquilara uma parte do próprio Apolo com frieza e crueldade incomparáveis.

Gritando pelo pai, Apolo foi arrastado pelos guardas de volta ao Setor 05, a imagem do cadáver ensangüentado de Atkinson se tornando mais e mais distante. A partir daquele dia, sair daquele laboratório passou a ser o único objetivo na vida do recém-chegado à maturidade. Sair dali e vingar seu pai, acabando com a vida do homem que o assassinara.


V


Os dias passavam, e Apolo, trancafiado no Setor 05, ia alimentando seu ódio. Tratava os homens de branco com agressividade, às vezes sendo até necessário que eles usassem cassetetes elétricos ou injeções para contê-lo. Quebrara a TV e o computador, fazia suas necessidades fora do banheiro, urrava ao invés de falar... Aos poucos se tornou mais animal do que humano. Uma fera cujo motor era o desejo de vingança.

Até que, num dia oportuno, a chance de concretizá-la chegou.

Houve uma queda de energia em todo o laboratório, e a porta do Setor 05 acabou destrancada automaticamente. Apolo saiu sem pensar duas vezes, enfrentando todos que tentassem detê-lo pelos corredores. Fazendo uso das incríveis habilidades fornecidas pelos presentes ao longo de todos os anos que passara ali, o rapaz fez uma verdadeira carnificina entre os soldados que falharam em derrubá-lo usando meios não letais. Por algum motivo Apolo valia muito para eles, e não queriam vê-lo morto.

Sem grandes dificuldades, o fugitivo deixou o prédio, ganhando finalmente o mundo exterior.

Logo após despistar seus perseguidores, Apolo procurou conhecer e sentir tudo que havia naquele novo ambiente de infinitas possibilidades. Primeiramente livrou-se das vestes cinzas, as únicas que usava no Setor 05, e arranjou roupas iguais às das outras pessoas. Depois seguiu até uma movimentada avenida de uma grande cidade que já vira antes em alguns cartões-postais trazidos pelo pai. Utilizando seus sentidos aguçados, conseguia fitar atentamente a face de todos os seres humanos que passavam por si, procurando entender sua existência e o mundo em si, com toda a sua imensidão. Estava livre. Finalmente livre. Todavia, ainda havia algo a fazer...

Até que surgiu a pista.

Existia, naquela mesma metrópole, um outro laboratório pertencente aos mesmos homens de branco que o haviam iludido por tanto tempo. Lá provavelmente encontraria o cientista careca que matara seu pai. Decidido, Apolo invadiu o local numa noite fria de inverno, aniquilando incontáveis guardas e geneticistas. Chegando ao último andar, sentiu que finalmente saciaria sua sede de revanche.

E é aqui que voltamos ao início desta narrativa...


VI


Apolo estava mais uma vez frente a frente com o assassino do doutor Atkinson. Ele parecia não ter mudado em nada. A mesma roupa, a mesma expressão facial inescrupulosa. Desarmado, caminhou até o rapaz, afirmando sarcasticamente:

- Eu sabia que você viria... É bastante previsível.

- Você matou meu pai, desgraçado! – berrou Apolo, punhos fechados e ofegante. – Você matou meu pai e agora vai pagar por isso!

- Está totalmente fora de controle, mas essa sua fúria é natural... – murmurou o cientista, circulando ao redor do ex-morador do Setor 05. – Afinal de contas, ela está nos seus genes...

- Nos meus genes? – estranhou. – O que está dizendo?

Aparentemente inconformado devido ao fato de Apolo ainda não ter compreendido tudo, ainda mais com as várias tentativas do falecido doutor Atkinson buscando lhe abrir os olhos, o careca explodiu, exclamando com os olhos arregalados:

- Você nunca se perguntou a respeito de que propósito nasceu, Apolo? Foi criado por nós! Não passa de um clone gerado com o objetivo de se tornar o soldado perfeito! Um combatente imune a todas as doenças, dotado de força, sentidos e inteligência sobre-humanos! Um ser criado num tubo de ensaio com o único propósito de se tornar o guerreiro definitivo: frio, calculista e eternamente leal à nação. O Projeto Apolo.

- Não, não é verdade! – protestou o rapaz, olhos marejados.

- Encare os fatos, você nunca será mais que um experimento do governo, um ser criado artificialmente. Por mais que negue, nunca será igual às pessoas normais. Só se livrará definitivamente disso se morrer.

- Pois se é necessário... Assim o farei!

Tomando tal decisão, Apolo rasgou a camisa que usava, revelando várias bananas de dinamite presas ao peito por meio de um cinto. O geneticista careca estremeceu, recuando alguns passos. Trêmulo, tentou persuadir o clone a não concretizar seu plano:

- Não pode fazer isso! Não condiz com o que ensinamos a você todos esses anos!

- Sim, você e sua laia tentaram me transformar num matador que cumpre apenas o que lhe é ordenado, mas meu pai me ensinou a pensar por mim mesmo, me ensinou a ter sentimentos! – bradou Apolo num sorriso convicto. – Aliás, se prestasse mais atenção nos livros fornecidos a mim durante esse período, saberia que num deles, sobre táticas militares, havia uma descrição detalhada do modus operandi dos homens-bomba do Oriente Médio. Eles se suicidavam almejando o Paraíso. No meu caso, não é muito diferente...

O filho do doutor Atkinson acionou o detonador, e uma intensa explosão, que pôde ser vista e sentida por toda a cidade, engoliu os últimos andares do prédio, incinerando tudo neles presente. Naquela noite que muitos diriam fatídica, o antigo habitante do Setor 05 concretizou não só sua vingança, mas também sua libertação.

Dec. 6, 2019, 12:16 a.m. 2 Report Embed 4
The End

Meet the author

Luiz Fabrício Mendes Goldfield, alcunha daquele em cuja lápide figura o nome "Luiz Fabrício de Oliveira Mendes", vaga desde 1988. Nasceu e reside em Casa Branca - SP, local que se diz ter sido alvo da maldição de um padre. Por esse motivo, talvez, goste tanto do que é sobrenatural. Atualmente é professor de História, mas nas horas vagas, além de zumbi, se transforma em agente de contra-espionagem, caçador de vampiros, guerreiro medieval, viajante do espaço ou o que quer que sua mente lhe permita escrever.

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Netuno Chase Netuno Chase
Caraca, isso foi impactante, pra dizer o mínimo. Tu escreve muito bem, sua imaginação é incrível e suas descrições são de arrepiar, estou encantada... Queria elogiar mais, mas tô realmente sem palavras... Parabéns, amigo, isso foi genial!
3 days ago

  • Luiz Fabrício Mendes Luiz Fabrício Mendes
    Muito, muito obrigado :) Que bom que gostou! Esses elogios são sempre um bom incentivo a continuar escrevendo, ainda mais por eu desanimar muitas vezes. Valeu de verdade :) Abraços. 3 days ago
~

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