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loremkmorais Lorem K Morais

O humano de Leto estava estranho. E era tudo culpa daquela mulher irritante. Ou O amor e a perda pela visão de um gato.


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#perda #gatos
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O humano de Leto

“Quem pode acreditar que não há uma alma por trás daqueles olhos luminosos?”

– Theophile Gauthier


O humano de Leto estava diferente. Ele sempre havia sido aquela coisa irritante, com sua voz muito alta e com aqueles abraços incômodos e carentes. Estava sempre rindo como um idiota e falando coisas melosas. Era realmente aborrecedor, mas ele lhe dava sempre leite e petiscos e Leto até deixava ele acariciar sua barriga como recompensa por isso. De vez em quando, se estava se sentindo misericordioso, Leto se esfregava em suas pernas quando ele estava sentado no sofá, deitando-se em seu colo e deixando o humano lhe fazer carinho.

O humano de Leto era muito carente.

E então, a outra humana estranha chegou um dia. Com o cabelo escuro e aqueles olhares estranhos – os quais Leto não gostava nadinha - em seu humano irritante. Como o gato esperto que era e superior a todos, Leto soube que ela era uma rival da atenção que recebia. Aquele olhar tolo de seu humano era culpa da pervertida que vinha estudar com ele.

Leto por vezes se perguntara a razão de seu humano simplesmente não perguntar a ele as coisas que precisava saber. Os gatos, afinal, sabem todos os segredos do universo. Ele podia lhe ensinar física quântica e o que há nos astros, sobre o tempo e o espaço e a verdade por trás dos buracos de minhoca.

Por muitas vezes ele tentava mostrar que seu humano não precisava daquela pervertida para lhe ensinar nada. Ele não precisava dividir sua atenção com aquela estranha, se tinha Leto ali para lhe ensinar todos os segredos da vida se pedisse, mas seu pobre humano era tolo demais. Claro que ele entendia muito mais de sua língua do que muitos humanos – o que de fato fazia do seu humano seu servo ideal -, mas ele ainda não entendia essa questão essencial.

Isso frustrava Leto em demasia. O fazia por vezes arranhar a estranha e até mesmo uma vez – ultraje! – Leto teve que dormir do lado de fora do quarto depois de um arranhãozinho de nada naquela pervertida, quando enquanto estudavam na mesa a estranha inclinou-se e beijou seu humano.

Que sem vergonha!

Infelizmente Leto teve que recuar e ser esperto depois disso. Se tinha que dividir sua atenção e petiscos, seria temporário, sabia que seu humano logo perceberia que o centro de seu universo era o maravilhoso Leto e que não precisavam de mais ninguém. E por mais que ele beijasse e estivesse sempre com aquela humana estranha, era com Leto que ele deitava no sofá a noite, os dedos longos em seu pelo alaranjado, conversando suavemente e sonolento sobre tantas coisas. E por isso, Leto deixou como estava.

Mas então, um dia seu humano estava em casa e o telefone tocou. Ele saiu de casa correndo, o rosto em uma expressão que Leto não gostava. Como quando ele batia a perna na quina e fazia aquela cara engraçada. Ele nem mesmo colocara água ou comida para Leto e demorara horas para retornar.

Já era madrugada quando ele veio.

Ele estava diferente.

Como um sol apagado. Ele falara suavemente, pedindo desculpas, lhe alimentando, lhe acariciando.

Leto não sabia o que fazer. Ele ficava apenas lá, sentado, olhando para o nada e com os olhos, sempre tão brilhantes, apagados. Leto pensou que fosse fome, seu tolo humano que não se cuidava. Caçou para ele uma lagartixa e trouxe. Talvez um petisco ajudasse.

Seu humano apenas riu, mas seu riso não era o mesmo.

Isso estava o irritado.

– Obrigado amigo, mas não estou com fome.

Claro que ele estava. Leto podia preparar um miojo se fosse o caso, embora lagartixas fossem mais nutritivas.

Leto estava tão intrigado, que se esfregou nele, deixou ele lhe pegar no colo e o abraçar, mesmo que fosse tão apertado. E então ele estava o molhando todo e soltando aqueles sons engraçados, engasgados.

–Seremos só nós dois de novo, amigo. – Ele falou, o rosto ainda em seu pelo. – Ela teve que ir, ela não queria, mas teve.

Se não queria ir, por que foi? Não que se importasse, já tinha ido tarde, se fosse para fazer isso com seu humano tolo.

– Ela foi para um lugar longe, muito longe. O mesmo lugar que sua mãe foi.

O céu dos gatos, então foi isso. Não sabia que os humanos tinham um lugar assim também.

–Então, peça para sua mãe cuidar dela, assim como você cuida de mim, Leto. Meu lindo Leto. Meu bom garoto.

Bom, se fosse para fazer seu humano ficar melhor, ele faria isso. Sua mãezinha podia cuidar daquela imbecil que havia feito seu humano chorar. Faria isso por seu humano. Era seu dever cuidar de seus servos, afinal.

Esfregou-se em seu humano, já que ele era tolinho demais para entender suas falas e ele riu, aquele riso tão errado.

Ele cuidaria de seu humano, como sempre cuidou. Afinal, ele era seu lindo humano tolo. Leto o faria sorrir certo outra vez.

Nov. 30, 2019, 2:30 a.m. 2 Report Embed 2
The End

Meet the author

Lorem K Morais Cosmopolita, cafezeira e ranziza. Estou sempre de um lado para o outro, sem pouso certo. Uma hora aqui, outra acolá. Cirurgiã-Dentista e escritora por ocasião, porque preciso colocar em palavras tudo o que vi. Entre aqui e acolá. Em comum a vontade de fazer as pessoas sorrirem. Vocês podem me encontrar também no meu blog Anjo Sonhador [loremkrsna.blogspot.com]. Não se acanhe não, se achegue aqui. Deixe te contar uma história.

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Valéria Costa Valéria Costa
Esse conto é tão aconchegante! Deu vontade de chorar, mas eu amei. Parabéns!
1 week ago
Wilher O. Wilher O.
Esse narrador felino ficou muito bom. Parabéns!
1 week ago
~