S06#21 - KALINKA Follow story

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Por muito tempo Alex Krycek foi considerado um traidor e mercenário, o homem oportunista e egoísta que faria qualquer coisa em proveito próprio. Mas você sabe que uma avalanche se cria a partir de uma pequena bola de neve? AVISO: Contém cenas de violência física que podem chocar pessoas sensíveis.


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S06#21 - KALINKA

(Pequeno viburno)


(Promo em vídeo: https://youtu.be/S4fPI4YPBDU)

📷


Свою природу не изменишь.

(Você não pode mudar sua natureza.)



INTRODUÇÃO AO EPISÓDIO:

1991

Aeroporto Internacional John F. Kennedy - Nova Iorque - 5:32 P.M.

O Agente da CIA, um homem sério, usando terno, gravata e sobretudo, entra rapidamente no saguão do aeroporto segurando uma folha de papel. Observa o painel de chegadas.

O Agente se dirige rapidamente para o portão 3, olhando para o relógio. Procura com os olhos entre as pessoas que andam por ali. Abre a folha de papel onde vemos escrito: Krycek.

Krycek, com 29 anos, magro, em roupas bem simples, segurando uma sacola de viagem, com a cabeça enfaixada cobrindo um dos olhos, se aproxima dele. O Agente da CIA ao vê-lo, desconfia.

AGENTE DA CIA: - Alexander Krycek? Fala minha língua?

KRYCEK: - Perfeitamente.

AGENTE DA CIA: - Desculpe o atraso. Esperava um russo no estilo Schwarzenegger, mas... Me siga.

KRYCEK: - (CURIOSO) E quem é esse?

AGENTE DA CIA: - Está brincando, não é? Ah, esqueci que você veio de outro mundo. Vamos?

Krycek o segue, feito um turista que observa tudo maravilhado.

AGENTE DA CIA: - Como está Moscou? Desde que o muro caiu, as coisas estão quentes por lá.

KRYCEK: - A União Soviética inteira está dividida entre o comunismo ou a abertura de Gorbachev. A pancadaria é inevitável.

AGENTE DA CIA: - Conseguiu essa atadura no meio de algum manifesto popular?

KRYCEK: - O exército vermelho nunca foi tolerante com seus soldados. Com o comunismo ameaçado, a intolerância aumentou.

O Agente da CIA vira-se pra ele, assustado.

AGENTE DA CIA: - É uma piada russa, não é?

KRYCEK: - Gostaria que fosse.

VINHETA DE ABERTURA: истина где-то рядом*

*A verdade está lá fora.




BLOCO 1:

5:39 P.M.

O Agente da CIA se aproxima do carro preto com placa do governo e abre a porta para Krycek.

AGENTE DA CIA: -Só tem isso de bagagem?

KRYCEK: - Apenas o importante.

AGENTE DA CIA: -Entre.

Krycek entra no carro. O Canceroso, bem mais novo, sentado no banco de trás, observa Krycek. O Agente da CIA senta-se no banco da frente. O motorista parte.

CANCEROSO: - Bem vindo aos Estados Unidos da América, Alexander Krycek.

KRYCEK: - O senhor é... ?

CANCEROSO: - Seu contato. Sem nomes por enquanto. Vai aprender que nomes e posições não são pronunciados. Quanto menos souber, melhor pra você. Fuma?

KRYCEK: - Não, senhor.

CANCEROSO: - (SORRI) Um soldado russo que não fuma... Interessante.

O Canceroso acende um cigarro.

CANCEROSO: - O que houve com você? Isso será um atraso a ser considerado?

KRYCEK: - Quase perdi um olho, mas agora estou bem, senhor.

CANCEROSO: - Espancamento?

KRYCEK: - Sim, senhor.

CANCEROSO: - (SORRI) Precisa esquecer que foi um soldado, "senhor".

KRYCEK: - (EMBARAÇADO) Desculpe, sen... Desculpe. Vou consertar isso.

CANCEROSO: -As coisas em seu país estão mudando e mais cabeças rolarão. Gorbachev é um osso duro. O partido comunista e seu regime já eram. É questão de tempo.

KRYCEK: - Só acredito vendo, mas prefiro ver de longe. De perto posso perder mais um olho.

Krycek observa os prédios e as pessoas pela janela do carro. Fascinado, num sorriso.

KRYCEK: - Isso é Nova Iorque? Posso gostar daqui. É bonito...

O Canceroso retira um envelope do bolso e entrega pra ele. Krycek abre. Há um bolo de dinheiro.

CANCEROSO: - Seu pagamento adiantado. E tem mais de onde veio isso.

KRYCEK: - (SORRI/ SURPRESO) Admito, nunca vi tanto dinheiro...

CANCEROSO: - Está na América, a terra da liberdade e dos sonhos, meu jovem. Pode fazer o que quiser. Desde que faça o seu trabalho direito. Vassily Pescow explicou pra você, mas vou aprofundar as coisas.

O Canceroso entrega uma valise para Krycek.

CANCEROSO: - Seu tema de casa está todo aqui dentro. Seus documentos novos, carteira de motorista, identidade, passaporte, seguro social... Seu nome permanece neles. Mas sua nacionalidade agora é americana. Você vai esquecer do buraco de onde veio. Vai esquecer que é russo. E precisa perder o resto de sotaque russo que ainda tem, afinal você é americano, entendeu? Isso é imprescindível. O escolhemos justamente pelo pouco sotaque a ser corrigido.

KRYCEK: - Meu pai me ajudou com isso. Ele era insistente.

CANCEROSO: - Vai ficar num hotel por nossa conta. Até encontrar algum lugar pra você, isso não é prioridade agora. Em breve vão extinguir a KGB, mas o serviço de espionagem russa continuará sob o comando de Pescow, e você agora faz parte dessa nova geração. Sua prioridade no momento é entregar para ele todas as informações que eu passar pra você. Em troca, ele dará informações que você entregará diretamente a mim. A ninguém mais. Fui claro?

KRYCEK: - Como um carteiro clandestino, um mediador entre você e Vassily Pescow. Um agente duplo.

CANCEROSO: - É, você é esperto. Entenda que o que vai fazer será ajudar sua pátria a sair das mãos comunistas pegajosas e retrógradas. Os comunistas não querem perder o poder, mas o progresso é inevitável. Considere-se um libertador do seu povo. As informações que você intermediar serão de vital importância para a operação Glasnost e Perestroica. Ajudaremos a manter Gorbachev no poder. Dentro dessa valise tem um celular e uma arma não registrada. Se fizer bobagem, não conhecemos você, entendeu? Negaremos tudo. Estará por sua conta.

KRYCEK: - Pescow não disse que eu precisaria de arma. Eu vou ter que matar alguém?

CANCEROSO: - Também para sua defesa. Alguns do meu povo e do seu não querem que essas informações cheguem. E temos incômodos que precisam ser eliminados algumas vezes, acho que entende. E isso faz parte do seu serviço. Se tiver estômago, caso contrário, voltamos para o aeroporto e você volta pra sua vida miserável na União Soviética. Ou eu deveria dizer para a prisão militar?Não são tempos bons para um traidor comunista. O partido está bem irritado com traidores e Gorbachev não faz perguntas a militares.

KRYCEK: - Não fiz nada do que me acusam, senhor. Nunca fui traidor.

CANCEROSO: -Eu sei disso. Acha que Pescow e eu confiaríamos uma missão de suma importância caso você não fosse confiável? Você foi um bode expiatório pra eles, Alex Krycek. Por isso eu digo para também não confiar em Pescow, os homens dele fazem besteiras e depois precisam limpar a sujeira. Você foi o esfregão da vez... Entenda que informações importantes estavam em jogo e eles não poderiam se expor, alguém tinha que levar a culpa. Pelo menos sua coragem, honra e atitude chamaram a atenção de Pescow e ele lhe deu essa oportunidade. Então... Prisão militar russa ou agente duplo? Acho que não tem muitas opções. Basta olhar pro seu rosto no espelho. Assim como tem mais dinheiro de onde saiu esse, tem mais tortura de onde saiu essa.

KRYCEK: -(INCRÉDULO) Vocês americanos sabem sobre o que aconteceu em Tunguska?

CANCEROSO: - Esse assunto no momento é irrelevante, trataremos dele mais tarde. Temos outras prioridades como estabelecer o capitalismo na União Soviética. Deixemos os alienígenas para depois. Você também vai ser nosso carteiro nesse assunto.

Krycek olha pela janela. Olha para o dinheiro.

CANCEROSO: - Não vai matar inocentes nesse jogo. Vai matar traidores. Homens comoRurik Sharapov, que Pescow não confia mais. Nós também temos os nossos Sharapovs e você vai nos ajudar com isso.

KRYCEK: -(ANGUSTIADO) ...

CANCEROSO: - Algum problema?

KRYCEK: - Não. Pra quem eu trabalho aqui? O senhor é da CIA?

CANCEROSO: - Não importa. Você faz o serviço, recebe seu dinheiro, fica calado e vive o sonho americano da liberdade e democracia. Eu fico feliz e você também. A mãe América e a mãe Rússia ficam agradecidas. É isso o que importa. Sei que gosta de música clássica, ópera, essas coisas. Certamente tem vocação para atuar. Então, encare personagens e siga no palco da vida. Será fácil pra você que é artista. Será um treinamento, para quando realizar seu sonho, já esteja bem capacitado para tanto.

KRYCEK: - E vou poder buscar meu sonho?

CANCEROSO: - É claro. E como cidadão americano as portas se abrem, não é mesmo? Também sei que precisou abandonar a escola muito cedo, mas é inteligente, esforçado e aprende com os livros. Dentro dessa valise tem alguns livros. Você terá tempo para estudá-los. São manuais de Quântico para quem cursa a academia do FBI, coisas básicas como leis e procedimentos de conduta. Quero que aprenda o que contém neles. Quando terminar, alguém vai ensinar você a agir como um agente do FBI. Terá credenciais e o colocaremos lá dentro para espionar uma pessoa. Como sei que é um jovem curioso e aprende rápido, essa missão será sua, mas requer tempo para que aprenda, perca o resto de sotaque russo e entre no personagem, porque não vai enganar a raposa tão fácil.

KRYCEK: -Eu...

CANCEROSO: - Então? Quer voltar para casa? Devo procurar outro que deseja realizar seus sonhos porque você não tem coragem o suficiente para ser um mocinho e espionar cretinos mentirosos? Matar os verdadeiros traidores de nossas pátrias? Não quer ser o sujeito que ajudou a derrubar a mentira do comunismo? Logo você, filho de um dissidente comunista, que morreu justamente nas mãos deles. Os comunistas tiraram tudo de você. Estou dando a você a chance de ajudar a libertar seu país das mãos da tirania. De fazer justiça.

KRYCEK: -Estou dentro, senhor.

O Canceroso sorri, soprando a fumaça. O carro para.

CANCEROSO: - Seu hotel. Tem um quarto em seu nome. Como eu disse, não se preocupe com as despesas. Descanse da viagem, compre roupas novas e vire um americano o mais rápido que puder, e eu sei que deseja muito isso. Vou mandar um médico de verdade para cuidar desse seu olho. Eu entro em contato.

Krycek desce com sua sacola de viagem. Olha incrédulo para o imenso hotel luxuoso. Olha ao redor, as pessoas apressadas na calçada, o trânsito barulhento, os garotos com rádios portáteis enormes escutando música e dançando. Os outdoors. Krycek segura as lágrimas.

KRYCEK: - (SORRI) America, papa. Esta é a América. Liberdade! Finalmente o seu filho conseguiu.


2003 - TEMPO ATUAL

Esconderijo de Alex Krycek – 6:33 P.M.

Krycek sentado sobre o balcão da cozinha.

KRYCEK: - Por mim... Scully concorda com isso?

Mulder andando de um lado pra outro, com as mãos nos bolsos das calças.

MULDER: - Concorda. E a Barbara?

KRYCEK: - Já deixei isso bem claro pra ela, que também não se opôs.

MULDER: - As duas se odeiam. Um jantar poderia fazer elas se conhecerem e pararem com essa implicância. Não ajuda em nada.

KRYCEK: - Scully foi quem começou. E agora continua, e não é por minha causa não. Scully morre de ciúmes de você perto da Barbara.

MULDER: - E a Barbara não morre de ciúmes de você e Scully? Elas vão ter que se acertarem.

Batidas na porta. Mulder atende. Barbara entra, num vestido, saltos altos, cabelos presos num rabo de cavalo, segurando um saco de compras e um prato de vidro com tampa.

BARBARA: - Ahn... Eu volto depois, não quero atrapalhar o assunto de vocês.

MULDER: -Não, eu já estou de saída.

Barbara coloca as compras e o prato de vidro sobre a pia.

BARBARA: - Espero que tenha brigado com esse teimoso... Alex, como está?

KRYCEK: - Tô bem.

Barbara fica na frente dele e o encara levando as mãos à cintura.

KRYCEK: - (SORRI) É sério. Eu me sinto ótimo!

BARBARA: - Bom, pelo menos colocou um sorriso nessa cara sempre amarrada. Devia sorrir mais, evita rugas e fica mais bonitinho.

MULDER: - (DEBOCHADO) É, fica mais bonitinho...

Krycek faz uma careta pra Mulder. Barbara se aproxima de Krycek, desconfiada. Krycek suspira. Ergue a camiseta, mostrando a cicatriz da cirurgia. Mulder leva a mão à boca, segurando o riso.

BARBARA: - É, ficou uma cicatriz aí. Podia ter sido pior. Nem quero lembrar...

Krycek abaixa a camiseta.

KRYCEK: - Tá se divertindo, né, ô "Terror da Virgínia". Seus dias estão contados, viu? Toc toc. Quem é? Dana Scully voltando pra colocar a coleira na raposa!

MULDER: -Barbara, se fosse eu no lugar dele, teria optado por você bancando enfermeira particular 24 horas por dia, com direito a massagem, banho de esponja, curativos com beijinhos, mas ele insistiu em se cuidar sozinho... Acho que foi melhor assim, só fazer visita. Com você aqui ele não ia repousar e corria o sério risco de acabar enfartando.

Barbara solta uma gargalhada. Krycek acena negativamente com a cabeça.

KRYCEK: - Querem parar? Eu tô ótimo! Nunca me senti melhor!

Mulder observa Barbara que começa a retirar as compras sem prestar atenção neles. Mulder morde os lábios. Aponta pra Barbara. Krycek faz um gesto de "não entendi". Mulder suspira, demonstrando com as mãos que está falando do prato. Krycek olha pra Barbara guardando o prato na geladeira. Mulder olha pra Krycek com deboche, Krycek segura o riso.

BARBARA: - Eu fiz uma sobremesa...

Mulder e Krycek se seguram pra não rir. Mulder move os lábios em silêncio dizendo pra Krycek: "eu avisei!". Krycek abaixa a cabeça, quase rindo. Barbara atarefada fazendo o jantar não presta atenção neles trocando códigos.

MULDER: - (CURIOSO) Gelatina? Ou é algum tipo de sobremesa mais sofisticada, algo como mousse, essas coisas...

BARBARA: - Sofisticada. Eu fiz torta de chocolate trufada com ganache.

MULDER: - (DEBOCHADO/ OLHANDO PRA KRYCEK) Ah! Além de chocolate, é trufada e pra completar ainda a crueldade é com ganache...

Mulder move os lábios em silêncio dizendo: "se ferrou!". Krycek abaixa a cabeça, põe a mão na boca e tenta não mostrar que está rindo.

BARBARA: - Eu prometi fazer o jantar pra comemorar que o Alex está bem. Mulder, fica pra jantar conosco?

Krycek olha pra Mulder e sinaliza que "não" com a cabeça. Barbara continua atarefada preparando o jantar na frente do fogão. Mulder faz caras e bocas debochando de Krycek.

MULDER: - (DEBOCHADO/ PROVOCANDO) É. Acho que vou ficar. O cheiro tá delicioso...

Krycek faz uma careta pra Mulder, bota a língua e pega uma maçã da fruteira, atirando em Mulder, que desvia. Barbara olha pra eles. Eles disfarçam feito dois moleques.

BARBARA: - Estão calados... Atrapalhei o assunto quando cheguei?

MULDER: - Não. Pra dizer a verdade, eu adoraria ficar pra jantar, mas tenho que ir pro FBI compensar horas de trabalho. (DEBOCHADO)Divirtam-se!

Mulder caminha até a porta de costas, olhando pra Krycek e gesticulando coisas obscenas. Krycek atira outra maçã nele. Mulder sai segurando o riso e fechando a porta.

BARBARA: - Pena o Mulder ter que ir embora. Ele é o palhaço da turma. Espero que goste do meu molho. Gosta de macarrão?

KRYCEK: - Claro, quem não gosta? Barbara, como eu disse antes, não precisa vir até aqui fazer coisas pra mim. Eu agora estou bem. Não acho justo você deixar sua vida pra...

BARBARA: - Não estou deixando minha vida. Estou aqui hoje pra gente comemorar a sua vida. E prometo, agora que você está bem, eu não virei tanto aqui. Eu sou adulta pra saber que sentir algo por você não me dá o direito de ficar na sua volta querendo que você sinta o mesmo por mim. Eu sou mulher, mas até eu detesto mulher que fica grudando na volta do cara. Se eu fosse homem correria de mulheres assim, porque chiclete, além de grudar, perde o sabor.

Krycek desce do balcão. Aproxima-se dela.

KRYCEK: - Não quero que interprete errado o porque não aceitei sua ajuda. Eu gosto da sua companhia. Mas eu precisava de um tempo pra digerir as coisas que vivi no último mês. Isso mexeu comigo. Estar, sei lá, morto, sonhando, eu ainda não sei definir aquilo...

BARBARA: - Não se justifique Alex. A vida é como um livro, precisa encerrar um capítulo para começar a escrever o outro. Eu também vou começar um capítulo novo agora. Consegui um emprego como colunista numa revista... Vou falar sobre política.

Ele fica atrás dela, bem pertinho.

KRYCEK: - (SORRI) Sério? Então temos mais um motivo pra comemorar.

Barbara pega o molho na colher e coloca a ponta do dedo, levando o dedo aos lábios, provando o molho.

BARBARA: - Hum... Falta alguma coisa aqui... O que você acha?

Barbara leva a colher até a boca de Krycek. Ele tira a colher da mão dela e joga na pia. Pega a mão dela e leva o dedo dela aos seus lábios, chupando-o, olhando seriamente pra ela. Barbara perde qualquer reação, sente as pernas amolecerem e o coração disparar. Krycek solta a mão dela, ainda olhando nos olhos de Barbara. Aproxima seus lábios. Ela fecha os olhos, acuada contra o fogão e se rende ao beijo suave.

KRYCEK: - Você é uma mulher de palavras. Eu sou um homem de ação. Pode me dar até um soco, mas vai ter que me nocautear, porque dessa vez eu não vou recuar.

Barbara leva a mão pra trás e desliga o fogão. Solta os cabelos. Ele rouba outro beijo suave, descendo as mãos e agarrando o traseiro dela. Aprofunda o beijo com a língua, esfregando seu corpo no dela. Os dois se agarram, num beijo faminto, Krycek a ergue, ela envolve as pernas nele e os dois saem derrubando tudo pela cozinha. Ele a coloca sobre o balcão, ela ergue a camiseta dele com urgência, ele ergue os braços permitindo. Barbara percorre o peito dele com os lábios, enquanto ele desce as mãos pelas costas dela abrindo o zíper do vestido. Ela desce a parte de cima do vestido, num olhar de desejo. Ele envolve os braços nela, percorrendo as mãos em carícias e os lábios pelo pescoço e ombro dela, que sorri inebriada. Ele vai deslizando o sutiã pra cima, acariciando os seios dela e os tomando com as mãos e os lábios. Ela deita-se no balcão, vai tirando o sutiã, permitindo mais a ele, que inclina-se sobre ela brincando com os seios.

Krycek leva as mãos pelo corpo dela em carícias firmes, descendo para as coxas com as mãos e os lábios. Ela apoia-se nos cotovelos, inebriada, olhando pra ele, que leva as mãos pra baixo do vestido dela. Ela ergue os quadris permitindo que ele tire a calcinha e mergulhe o rosto embaixo do vestido dela. Ela dobra as pernas, apoiando os pés no balcão, ele desliza as mãos pelos quadris a segurando firmemente, Barbara ofegante inclina a cabeça pra trás movendo o corpo de prazer contra o rosto dele que brinca entre as pernas dela. Ela solta gemidos, ri, entra em êxtase, até murmurar para que ele pare. Ele obedece, com um olhar de desejo incontido.

Enquanto trocam beijos e carinhos um no outro, ela leva as mãos ao zíper das calças dele, abrindo. Barbara deita-se no balcão, olhando pra ele em expectativa, numa respiração quase que descompassada. Krycek leva as mãos pelo corpo dela, em carícias pela pele arrepiada. Deita-se sobre ela, procurando com seus lábios em outro beijo de desejo. Ela o sente dentro de si e deixa escapar gemidos de prazer enquanto ele move-se lentamente contra ela mantendo as mãos e os lábios em carícias. Ela apoia-se nos cotovelos, chamando os lábios dele com os seus. Lábios ofegantes, semiabertos, línguas que se procuram e ele aumenta o ritmo. Barbara deita-se e coloca as pernas nos ombros dele, que agora a segura pela cintura. Ela ergue-se, apoiando-se em uma das mãos e envolvendo o braço no pescoço dele, mantendo as pernas nos ombros dele. Ele apoia as mãos no balcão movendo-se afoito contra ela. Ambos famintos um pelo outro. Ela agora se apoia com as duas mãos, quase nem tocando o bumbum no balcão, segurando-se nele com as pernas, enquanto ele a segura pela cintura, e de olhos fechados aumenta o ritmo. Ela entra em êxtase, murmurando para ele não parar.


8:16 P.M.

Krycek e Barbara deitados nus entre os lençóis, olhando um para o outro, ambos trocando beijos e carícias. Barbara sorri.

BARBARA: - ... Quem é você, Alex Krycek, que me deixa cada vez mais confusa e me surpreende a cada minuto?

KRYCEK: - (SORRI ENIGMÁTICO) ...

BARBARA: - Quando penso que desvendei você, lá vem outra surpresa. Estou confusa. Conheço um assassino, um traidor, um chantagista capaz de qualquer coisa, um badboy de jaqueta de couro que chega pensando que pode tomar o que quiser, penso "isso vai ser selvagem e agressivo, ele deve ser meio sádico, depois vai fechar as calças e me mandar embora porque já conseguiu o que queria"... E acabo na cama com um amante carinhoso e beijoqueiro? Nossa, o que foi aquilo na cozinha? Você sabe enlouquecer uma mulher, admito!

KRYCEK: -Eu nem sei como agir com você Barbara. Estou sendo eu mesmo.

BARBARA: - Está indo bem, acredite. Vou anotar sua pontuação. Bem que dizem que as águas mais escuras são as mais profundas.

Ele a envolve nos braços. Ela fica de costas pra ele. Krycek apoia o queixo no ombro dela. Fecha os olhos.

KRYCEK: - Geralmente quando algo dessa natureza acontece, é apenas uma aventura, uma noite, e nunca no meu espaço, porque assim tenho desculpas pra ir embora. Eu sempre quero ir embora.

BARBARA: - Ok. Eu posso ir embora. Mas por que sempre quer ir embora? Tem medo do quê?

KRYCEK: - Medo de estragar tudo. Que a mulher descubra quem sou e acabe frustrada. Então nada além de sexo. Sem envolvimento emocional.

BARBARA: - Bom, eu sei quem você é. E sinceramente, não ligo mesmo. Acho que você é mais do que um rótulo. E eu quero descobrir o conteúdo da embalagem porque não acredito nas propagandas, elas são enganosas.

KRYCEK: - (SORRI) Você é diferente, sabia? Além de linda, inteligente e divertida, você é bem maluquinha mesmo... Não, eu não quero que vá embora. Espero que fique aqui essa noite. Gosto do jeito como você me trata.

BARBARA: - E que jeito seria esse?

KRYCEK: - Como uma pessoa, um ser humano. Você sabe alguns dos meus defeitos e não liga pra eles. Você não me julga. Não tenta cobrar de mim aquilo que não sou. Você me apresenta a chance de uma vida que eu não tenho direito de ter, mas que é um sonho bonito.

BARBARA: - E por que não teria direito?Quem nunca errou na vida, atire a primeira pedra.

KRYCEK: - O que eu sei é que só estou insistindo em nós porque você deixou claro que gosta de mim e eu me sinto atraído por você. Se você não tivesse dito, mesmo eu estando a fim, eu não ficaria correndo atrás porque isso é muito chato. Não é orgulho. Perseguição é coisa de stalker. Posso ser tudo, menos stalker de mulher.

Barbara começa a rir.

BARBARA: - Alex, você realmente é uma caixinha de surpresas...

KRYCEK: -Todas as noites naquela delegacia eu tenho que sair pra algemar e dar uns tapas num cretino que colocou na cabeça que é dono da mulher e isso lhe dá o direito persegui-la. Ou até mesmo de enchê-la de pancadas e ameaças. E não falo de maridos. Falo de caras que saem pra rua, agredindo as prostitutas, mesmo que elas se recusem a transar com eles por dinheiro.

BARBARA: - Acha que fui uma stalker, perseguindo você?

KRYCEK: -Não. Você não me perseguiu. Você não forçou nada. Você jogou seu charme, eu achava que estava vendo coisas, afinal, você é uma mulher inteligente e culta, como iria se interessar por um traste burro feito eu? E o Mulder folgado ficava enchendo o meu saco me chamando de otário e viadinho...

BARBARA: - (RI ALTO) ... Vocês dois parecem moleques!

KRYCEK: - Eu vi que você estava a fim. Aí quando investi e tomei aquele tapa, fiquei achando que realmente eu vi coisas que não existiam. Mas o Mulder, como sempre, com a mania de cupido, ainda me xingou, disse que eu deveria chamar você pra sair, colocar as cartas na mesa. Naquela noite lá eu entendi o que você realmente queria. O mesmo que eu ando querendo agora. Tentar e ver se as coisas funcionam. Cansei de aventura. Cansei de estar sozinho. Cansei de muita coisa.Eu gosto de você. Gosto muito. Admiro o jeito como faz as coisas, como fala, como age... Como é tão sensível e feminina, delicada e forte, como chora e como luta. Seu andar, seu olhar, seu toque mágico que me faz esquecer tudo lá fora. Você é linda, inteligente, divertida... E eu acho que estou me apaixonando.

BARBARA: - (SORRI) Isso é bom ou ruim?

KRYCEK: - Isso implica dor e medo. Dor em sentir, medo em perder. Não quero perder você. Nem posso pensar nisso. Passei o último mês refletindo sobre tudo o que aconteceu na minha vida, incluindo seu lugar nela.

BARBARA: -Alex já saiba, eu também odeio homem chiclete. Se quer se livrar rapidinho de mim, vire um stalker e me sufoque. Eu sumo da sua frente num raio e sem deixar pistas.

KRYCEK: -Bom saber, porque eu odeio mulher no meu pé. Ou confia ou não confia. E não precisa passar o dia inteiro ligando pra saber aonde ando, o que estou fazendo e pra dizer que me ama. Eu sei que me ama, sei que sabe o que eu faço e eu tenho uma vida além de você.

BARBARA: - Concordo. O mesmo vale pra você em relação a mim. Nunca, jamais, em hipótese alguma atrapalhe meu trabalho. Quando estou no computador estou ocupada com meus neurônios, não conversando em chat de paquera. Acho que estamos nos entendendo.

KRYCEK: - É, estamos. É bom deixar as coisas claras desde o início. Se queremos chegar a algum lugar com essa relação, honestidade é a chave.

Krycek beija o ombro dela.

KRYCEK: - Não faço ideia do que esperar de nós dois. Nem sei o que esperar de mim mesmo. A única dúvida que não tenho é em você. No fundo até que somos bem parecidos. Você também tem uma casca lá fora. Uma repórter atrevida, uma lutadora, durona, independente... E uma mulher romântica, chorona, frágil, sensível, que não se importa em se entregar, que deseja um homem que a proteja... Você não é feminista. Você é feminina. E eu gosto disso. Você é diferente das mulheres que eu já tive na vida.

Barbara senta-se na cama, levando o lençol sobre os seios, angustiada, brincando com as mãos.

BARBARA: - Preciso contar uma coisa. Honestidade, como combinamos. Eu... Eu não sou a dama que você pensa. Não é fácil contar para o namorado na primeira noite algo que ele vai se decepcionar, mas que precisa ser contado porque não tolero mentiras. Se vamos começar um relacionamento que seja baseado na verdade e na sinceridade.

Krycek senta-se na cama. Os dois se recostam na cabeceira.

KRYCEK: - Seu segredo é tão horrível assim? Matou alguém?

BARBARA: - Minha inocência, Alex. Apenas isso.

KRYCEK: - É o crime mais grave de todos,milaya moya...

BARBARA: -E o que é milaya moya?Soa bonito, mas pode ser um palavrão. Como "quimbar". Em alguns países de língua espanhola pode significar dançar mambo, mas em Cuba você vai levar tapa se quiser quimbar com um desconhecida. Você vai propor é sexo com ela!

KRYCEK: -(SORRI) Eu ensino uns palavrões russos bem escabrosos pra você usar e ninguém entender, masestou chamando você de meu doce: Milaya moya.

BARBARA: - ... E como se diz vadia em russo?

KRYCEK: -Você não me parece uma suka.

BARBARA: -Alex... Eu nasci em Havana, Cuba. E você sabe que Cuba é um país fechado que até hoje resiste, mesmo vocês russos já tendo provado que o comunismo não funciona. Eu sou a caçula de quatro filhos. Dois homens e duas mulheres. Eu sou obstinada desde menina. O sonho americano me deixava maluca. Com dez anos eu assistia telejornal me imaginando ali apresentando as notícias principais do dia enquanto minha irmã brincava de boneca. Meu presente de onze anos foi o curso de inglês, porque meus pais não aguentavam mais minha insistência. E um curso particular, em casa, às escondidas, porque ninguém podia saber.

Krycek sorri fascinado.

BARBARA: - Meus pais lutaram muito pra dar bons estudos aos filhos. Não éramos pobres, meu pai era funcionário público, minha mãe também, e eu sendo a caçula dos filhos já peguei uma fase melhor financeiramente na família. Eu sou a ovelha negra. Eu queria mais. Mas querer mais em Cuba... Não dá. Sair de Cuba, não dava. País fechado, você entende. Meus pais então pediram um visto pra visitar o México, eles tinham bons amigos lá. Férias, entende? E me levaram junto. Voltaram sem mim. Logicamente tiveram que fazer boletim de ocorrência, inventar que me perdi, para o regime comuna não vir pra cima deles, enquanto na verdade eles me deixaram no México com os amigos para eu entrar numa universidade americana. Era a única maneira de tentar estudar aqui. Em Cuba eu jamais conseguiria. Já no México...

KRYCEK: - Eu imagino...

BARBARA: - Graças ao casal de amigos deles que me ajudou a descobrir como as coisas funcionavam aqui, eu fiz o teste de inglês internacional e consegui ser aceita na Universidade da Flórida. Me deram visto de estudante. Foram quatro anos de vida dura, não me pergunte se tem diversão na Flórida e numa universidade porque eu só devorava livros e quase morava nas bibliotecas. Por isso Byers e eu nos tornamos amigos. Ele também não estava numa universidade pra curtir e namorar. Ele estava lá pra ser alguém, a gente se ajudava muito nos estudos, fazia trabalhos juntos e as atividades jornalísticas de campo. Nossa parceria funcionava muito bem, tínhamos os mesmos objetivos... Sabe quando as bibliotecárias conhecem você pelo nome e até se acham íntimas para desabafar problemas pessoais pra você? Então. Eu era "rata" de biblioteca.

Krycek segura a mão dela na sua.

KRYCEK: - Já manifestava interesse por roedores.

BARBARA: -(RINDO) Então, era bem assim... Sério, consegui um estágio no jornal Florida Daily, da RBN. Eu competi com tanta gente que achei que não conseguiria, mas consegui. A recompensa pelos anos de dedicação nos estudos fizeram a diferença. Então veio o diploma. E o voltar pra Cuba. Acabou o visto. Acha que eu queria volta pra Cuba? Voltar pra quê? Pra escrever o que Fidel queria? Pra não ter liberdade de expressão? Cara, como eu chorei, você nem imagina.

KRYCEK: - Acredite, eu posso imaginar. Voltar ao pesadelo comunista. Que só é bom pra comunista que não vive no comunismo.

BARBARA: -Bem assim. Então Rockfell apareceu na Flórida. E eu fiz a maior merda da minha vida, Alex. Eu sei que fiz merda, mas eu não me arrependo. Ou fazia aquilo ou voltava pra Cuba. Eu... Eu perdi meu orgulho. Vesti a roupa mais sensual que podia comprar e fui pra tal festa que ele deu para os funcionários da RBN na Flórida. Eu tinha que chegar nele. Eu sabia que ele tinha fama de mulherengo. E eu consegui.

Krycek presta atenção nela, que está culpada e com vergonha. Aperta a mão dela na sua.

BARBARA: - "Oi, é uma honra conhecer o senhor, sou sua estagiária"... E por aí vai. Agi feito uma puxa-saca vagabunda querendo me dar bem. Em resumo, saí da festa com ele, dei minha virgindade pra ele no banco de uma limusine e chorei tudo o que podia pra conseguir um emprego definitivo na RBN.

KRYCEK: - E conseguiu?

BARBARA: - Rockfell me mandou pra Nova Iorque, comecei já em rede nacional, sendo a garota do tempo no jornal do horário nobre da TV, o que é uma plataforma que toda iniciante jornalista adoraria ter, porque significa que dali é só pra cima. Ele me conseguiu o Greencard. E fiquei cinco anos sendo amante do cretino, mesmo não querendo, mas estava agora nas mãos dele, morando de graça num apartamento com vista para o Central Park, sempre tendo que estar pronta pra quando ele quisesse, sorrindo e bonita. Por fim, virei apresentadora do telejornal principal da capital, me mudei pra Washington e consegui fazer ele desistir de mim pela distância, por já estar balzaquiana e haver mais estagiárias novinhas pra ele comer por aí... Eu estudei tanto pra ascender e terminei abrindo as pernas pra conseguir um lugar ao sol. Suka, como diriam os russos. Talvez eu seja uma incompetente mesmo que só chegou no auge dando para o dono da emissora.

KRYCEK: - (SORRI) Esse é seu segredo sujo, Barbara Wallace?

BARBARA: -(CULPADA) ... Não acha sujo? Você parece não estar chocado.

KRYCEK: - E deveria? Eu não julgo você. Fez o que precisava pra sobreviver. Se não tivesse feito acabaria voltando pra uma vidinha de merda em Cuba. Eu sei bem o que é a vida num país comunista. Tem suas vantagens em alguns pontos, mas a liberdade... Nenhuma vantagem supera a liberdade.

Barbara se abraça nele, olhos em lágrimas. Ele envolve os braços nela.

KRYCEK: - Malyshka... (SORRI) Isso significa "baby"... Você nem imagina o quanto somos parecidos... A vida não é tão fácil como a gente sonha. O que fez não a torna uma vadia. E nem uma incompetente no que faz. Foi um meio pra um fim. Se você tivesse feito porque era uma incompetente na profissão, com certeza teria descido profissionalmente ou desistido e se contentado em viver como dondoca às custas dele... Pensa nisso.

BARBARA: - ...

KRYCEK: - No fundo você sabe que não é incompetente, ou não teria a popularidade que tem entre as pessoas, que até hoje perguntam pra você na rua o porquê você não mais apresenta o telejornal. Eu já vi acontecer quando estava do seu lado num café. Até autógrafo pediram. Tive vontade de dizer: eu sou o culpado disso. Seus fãs certamente me linchariam.

Barbara sorri entre lágrimas. Se aninha contra o corpo dele. Krycek faz carinhos nos cabelos dela.

KRYCEK: - Acha que um empresário como Rockfell ia colocar você em posições de destaque e importância em cadeia nacional se você não tivesse competência? Pra passar vergonha pública? Ele não poderia fazer isso, perderia audiência, dinheiro, credibilidade e acionistas. Você chegou aonde chegou por competência e merecimento próprio. Ele apenas abriu as portas, o que é algo bem difícil pra todo mundo, conseguir uma porta pra entrar e mostrar do que é capaz. Se a porta foi essa, paciência, a vida não é perfeita. E você perdeu tudo porque eu meti você nessa enrascada toda pra salvar o Mulder da cadeia.

BARBARA: - Essa enrascada toda mudou minha vida, Alex. Sinto falta daquilo que fazia, mas... Hoje não poderia continuar fazendo. Não depois de tudo o que eu vi. De tudo o que sei, de toda essa sujeira conspiratória. Prefiro mesmo escrever pra revistas. Pelo menos basta dizer meu nome que as portas se abrem. Menos as portas do que pertence a Rockfell. Meu Deus, como aquele maldito canalha permitiu que me usassem contra Mulder e você? Que me sequestrassem, sabendo que iam me matar? Depois de dividir uma cama comigo por cinco anos, ele entregou minha vida nas mãos do Strughold como se eu tivesse sido apenas um lixo pra ele? E ainda me jurava amor. O bom é que eu nunca acreditei!

KRYCEK: - Esses caras mentem, Barbara. Se aproveitam da ingenuidade que você tem em atingir seus objetivos na vida para usarem você de acordo com seus propósitos. E quando somos jovens, não temos a malandragem que eles já têm da vida, portanto, nos enganam com facilidade. Mas pense assim:Você nos deu mais um cara do topo da conspiração. Mulder e eu vamos investigar isso a fundo. Vai ter sua justiça,malyshka. E eu vou proteger você dessa gente. E desse cara.

BARBARA: - (SORRI) Está me dizendo que agora é o meu homem, Alex Krycek?

KRYCEK: - Eu sempre fui o seu homem, protegendo você, fazendo vigília do lado de fora do prédio... Sabe o que é passar a noite acordado e sentado dentro de um carro?

Barbara o abraça com mais força. Fecha os olhos.

BARBARA: - Agora pode fazer vigília deitado na minha cama confortavelmente. Me chama de malyshka. Gosto disso. És hermoso, mi ratoncito, pasión de mi vida. Yomovería mundos por ti.

KRYCEK: -Está me xingando?

BARBARA: - Não. Mas acho melhor terminar o macarrão porque estou morrendo de fome! Eu adoro comer. Quando fazia reportagem na rua, nem imagina o quanto de lanche eu ganhava! E você abriu meu apetite, depois daquela bagunça que começou na cozinha...

Ela pula da cama arrastando os lençóis consigo. Krycek se levanta num sorriso.


10:12 P.M.

Barbara vestida apenas com a camiseta de Krycek coloca o gorro russo de pele na cabeça. Olha pra Krycek.

BARBARA: - (SORRI) Como estou? Pareço uma soviética?

KRYCEK: - (SORRI) ... Você não é européia. É latina. Cheira como latina, veste-se e caminha como latina...

BARBARA: - (INCRÉDULA) Isso é uma ofensa?

KRYCEK: - Se você considera ofensivo ser latina, porque eu acho as latinas excitantes. Sou fã da Penelope Cruz, da Salma Hayek e da Barbara Wallace. Essa então, me deixa louco.

BARBARA: - (SORRI) Barbara Martinez. Esse é meu sobrenome real. Eu tenho orgulho de ser latina, mas precisava ser "americana" na tela, entende? Americano quer ver americano.Então, grande homem europeu, o que você considera?

KRYCEK: - Que o futuro pertence a América inteira. O resto do mundo é velho demais para mudar o pensamento.

BARBARA: -(SORRI) Perguntei sobre as mulheres latinas.

KRYCEK: - Elas gostam de dar bofetes em europeus atrevidos.

BARBARA: - ... Gostei desse gorro.

KRYCEK: -Ushanka, é como se chama. Era do meu pai.

Barbara coloca o gorro no cabide. Morde os lábios.

BARBARA: - Ai! Desculpe! Isso é coisa sagrada...

Barbara pula na cama e se enfia embaixo dos lençóis.

KRYCEK: - Senhorita Wallace ou Martinez, acho que é hora de dizer algumas verdades pra você, do tipo repense bem as escolhas que faz na vida. Se afaste da minha companhia enquanto é tempo. Eu não quero que se engane comigo.

BARBARA: - Vai precisar mais do que isso pra me fazer sair correndo daqui e pedir socorro. Conheço caras como você. Se escondem atrás da rudez, mas no fundo querem mais é desabar.

KRYCEK: - Eu não costumo chorar.

BARBARA: - Sei. Homem não chora. Bela filosofia! Deveria chorar algumas vezes, Alexander Krycek. Faz bem pros pulmões e não afeta a testosterona.

KRYCEK: - Eu não sou o mocinho do faroeste e nem o príncipe do cavalo branco. Tenho sangue nas minhas mãos e as costas carregadas de assassinatos, trapaças e chantagens... Eu indiretamente matei a irmã da Scully. Eu matei o pai do Mulder. Eu passei anos mentindo pro Mulder, chantageando o Skinner e todas as pessoas boas que você agora conhece. Eu entreguei Scully pra ser abduzida e torturada. E também poderia entregar você... Afinal, você desconhece o lado negro dessa história.

BARBARA: -(SENTA-SE NA CAMA/ OLHANDO PRA ELE) Talvez eu saiba mais do lado negro da história do que você pode imaginar.

KRYCEK: - Você ficou revirando minha vida e não sei como conseguiu acesso a coisas que ninguém sabia, além do Fumacento.

BARBARA: - Eu não pertenço a organização deles, se é o que está insinuando. Apenas tenho boas fontes espalhadas por aí.

KRYCEK: - Não estou insinuando. Você é curiosa demais e curiosidade não é pré-requisito da organização deles. Portanto você não teria chance com eles.

BARBARA: - ... Alex... Quem é você? De verdade.

Krycek se levanta. Barbara o acompanha com os olhos. Ele abre o armário, pega uma garrafa de vinho e duas taças.

BARBARA: - Desculpe. Não precisa falar nada.

Krycek abre o vinho.

KRYCEK: - E neste momento vem o Mulder profético na minha cabeça falando que um dia isso ia acontecer... Vou contar um segredo pra você, meu e do Mulder. Ninguém mais sabe. Mulder é meu psicólogo.

BARBARA: -(SORRI) Fala sério, Alex! Isso é mais uma piada entre vocês dois, "amorzinho"? Quer dizer, ele é seu amigo, então, não deixa de ser um psicólogo, ele escuta você e...

Krycek sorri e serve as taças.

KRYCEK: -É sério. E não foi por escolha, tipo, vou arrumar um psicólogo pra conversar. Jamais pensei nisso. Achava uma besteira. E Mulder seria o último a quem eu recorreria. Aliás, quem acreditaria nesse talento do Mulder?

BARBARA: - Isso é sério mesmo?

KRYCEK: -Mulder tem diploma em psicologia. Com o que aconteceu a Scully, ele resolveu fazer um pós-graduação às escondidas, sobre personalidades múltiplas, pra entender o que estava ou não acontecendo com ela. Então ele já tinha a Scully como paciente de personalidades múltiplas, mesmo ela nem sabendo disso! Você conhece a raposa, ela estuda o outro no silêncio e ainda arranca informações sem você desconfiar de nada. Então ficou faltando um paciente com qualquer outro problema que não tivesse relação com personalidades múltiplas.

BARBARA: - Tipo um estágio? Pobre do Mulder! Se ele estivesse no ramo, teria sido mais fácil, teria pacientes e relatórios prontos... Assim só acumulou mais coisa com o FBI.

KRYCEK: -Entende agora porque ele anda cansado? Ele precisava ter pacientes e preencher relatórios de campo porque esse diploma também vai servir como uma atualização pra clinicar. Caso o FBI o exonere, Mulder está tentando ter opções futuras além de alienígenas e paranormalidade. Eu disse que aqueles amigos birutas dele, tipo o Langly ou o Frohike, seriam ideais. Até o Skinner tem problemas sérios de humor inconstante. Mas os caras estavam brigados com ele por causa da nossa amizade. Se tem viadinhos nessa história não sou eu, eles estavam todos com ciúmes do Mulder comigo.

Barbara dá uma risada.Krycek entrega uma taça pra ela. Senta-se na poltrona em frente a cama.

KRYCEK: -Eu queria contar umas coisas pra ele, pedir desculpas, explicar... E acabei contando o que nem devia e acho que o Mulder saiu meio desatinado daqui naquela noite... Eu sei que ele não ia dizer, pra não me deixar pior, mas depois disso, certamente pensou que poderia me ajudar. Então alegou que ele não tinha tempo e ninguém disponível, fez aquela cara que ele faz quando quer alguma coisa e soltou aquele discurso que só a Scully tem paciência pra argumentar contra... Pensei, bom, quem sabe ele me ajuda mesmo com os meus monstros... A máxima do amigo é pra essas coisas, um ajuda o outro. Tudo bem, sessões gratuitas, mas o preço que paguei foi ter que passar mais tempo ainda com o Mulder e queimando o meu filme.

BARBARA: - (RINDO) E vocês conseguem ser sérios durante as sessões? Meu Deus, eu não imagino vocês dois como psicólogo e paciente! Isso deve ser hilário! Fala sério, Alex!

KRYCEK: -Eu achei que ficaria respondendo perguntas de questionário de faculdade, a gente ia tomar umas, contar piada e rir das desgraças, mas o infeliz leva a sério a coisa toda. Grava nossas sessões. Fica sentado na poltrona anotando, analisando o meu comportamento, se eu me mexo muito enquanto falo, se balanço a perna, se estou com o corpo voltado pra porta e essas coisas de psicólogo... Ele nem me chama de Rato! Me chama de Alex!

Barbara começa a rir.

KRYCEK: - Acho que o Mulder é quem precisa de psicólogo, porque ele tem outro cara dentro dele escondido. Acredita que o palhaço desaparece e baixa o psicólogo naquele corpo? Mulder sério é algo que poucos veem. Ele tem jeito pra coisa. Ele gosta de escutar. Consegue tirar de você coisas que você teria vergonha de contar ao seu travesseiro.

BARBARA: - Juro que estou surpresa! E agora que sei disso, consegui encontrar justificativas para sua mudança de comportamento. Tipo aquele dia. Achei que mataria Strughold. Então Mulder convenceu você e eu não conseguia entender como ele havia feito aquilo. Agora muitas coisas me fazem sentido. Acho realmente que Mulder está ajudando muito, tanto como amigo, quanto psicólogo.

KRYCEK: - Ele faz a parte dele, eu que não faço a minha. Mas sim, ele me ajuda a ver as coisas por outra ótica, a desfocar a raiva... Me ajudou a me perdoar pela morte da Marita e colocar um fim nisso e aceitar a perda. Mulder tem futuro como psicólogo se quiser... Barbara, só você e o Fumacento sabem partes do meu passado. Mas só tem uma pessoa que sabe tudo: Mulder. Como eu também sei tudo dele. Então, se alguém tem o direito de se meter na minha vida e dar conselhos, esse é o Mulder. O cara pelo qual não pensei duas vezes em me atirar na frente das balas e morrer por causa dele. Ele me ajudou a ser uma pessoa melhor. Ou me ajudou a voltar a ser a pessoa que eu já fui. Quem pode entender isso? A minha relação com o Mulder? Só o Mulder e eu. Ninguém mais. Fomos vítimas, ele tem razão quando diz isso. Fomos vítimas desses caras. Porque se nos conhecêssemos em outras circunstâncias, nada dessas merdas teriam acontecido.

Krycek toma um gole de vinho. Barbara senta-se na cama de frente pra ele.

KRYCEK: - Admito, malyshka. Eu choro também. Geralmente entre quatro paredes e sozinho. Depois engulo o choro, transformo em raiva e saio ferrando todo mundo. Hoje mudou, eu engulo o choro, transformo em raiva e saio ferrando quem me ferrou. Não mudou muito, não é mesmo? Por isso eu aviso você desde agora, eu não sou um príncipe perfeito dos seus romances. E nunca vou ser. Eu fui o vilão e continuo sendo o cara que pode apertar o gatilho porque não tem escrúpulos em fazer isso. A vida me ensinou a maldade. Se alguém tiver que ser o vilão que seja eu. Não deixaria Mulder fazer besteira. Ele não precisa aprender a maldade. Cabe a quem a aprendeu evitar que outros a aprendam. Mesmo que tenha que agir com a maldade pra poupar o outro de ser mau. Aqui entra o meu papel nessa aliança contra esses caras do Sindicato, mesmo que Mulder não concorde. Se alguém tiver que ser morto pra defender os nossos, e isso for contra a lei, eu atiro. Se for dentro da lei, deixo pra eles.

BARBARA: - ...

KRYCEK: - Mulder não pode. Ele tem muito a perder. Skinner também não pode, arriscaria seu cargo. Os outros não sabem atirar. Então eu faço o serviço se precisar ser feito pra salvar um de nós. Temos mulheres a defender. Uma criança agora. Temos muito a perder. E mesmo que os outros não confiem totalmente em mim...

BARBARA: -(SORRI) Acho que depois que colocou sua vida em risco pra salvar o Mulder, você calou a boca de muita gente. E ainda ajudou Mulder a não ser chamado de trouxa que se deixa enganar. Essa sua atitude de proteção ao grupo, de sacrifício... Isso é muito nobre, sabia?

KRYCEK: - Não é nobre. É uma constatação que a vida ensina. Nobreza é outra coisa. Mulder é um cara nobre. Eu não tenho nobreza. E sei que vou ter que abrir meu passado pra você, mais cedo ou mais tarde. E não é coisa pouca como o seu segredinho que você acha sujo. E eu tenho vergonha de você. E medo de que você desista de mim quando souber pelos esgotos aonde andei.

Barbara se levanta e senta no colo dele. O envolve nos braços. Krycek a abraça, cabisbaixo, triste.

BARBARA: - Quando estiver pronto vai me contar. E eu não vou desistir de você. Pouco me importam os esgotos do passado, quando o futuro nos apresenta um jardim. Ele só depende do que plantaremos nele.

KRYCEK: - Como você me chamou mesmo?

BARBARA: - (SORRI) Mi ratoncito russo... Meu ratinho... Belo, sério, cheio de segredos... Gostoso... Tudo o que essa jornalista adora!

Krycek começa a rir.

BARBARA: - Em alguns países latinos existe o Ratoncito Pérez. Ele leva os dentinhos das crianças, como a fada do dente.

KRYCEK: - (INCRÉDULO) Um rato? Uma fada não é mais atraente?

BARBARA: - Tem lógica essa coisa do rato. Ele é um roedor, mesmo que perca seus dentes eles nascem de novo. Mais lógico que uma fada, não acha? Então, deixe seus dentes nascerem de novo. Roa outras coisas. Coisas novas.

KRYCEK: - (SORRI) É, tem mais sentido que uma fada... Mas igual sempre o rato rouba alguma coisa, o rato nunca presta mesmo, impressionante!

Barbara ri alto.

KRYCEK: - Adoro sua risada espontânea... Eu já fui de sorrir mais.

BARBARA: - Eu só sei que a cada sorriso que eu consigo arrancar de você, eu me sinto mais feliz. Ver você feliz, me faz feliz.

KRYCEK: - Golpe baixo, malyshka. (SORRI) Eu confesso... Eu tô apaixonado por você. Sinto uma dorzinha no meu peito que não é pós-traumática não. Aquela dor angustiante.

BARBARA: - Eu conheço essa dor...

Barbara toma o rosto dele nas mãos e o beija na boca.


1:11 A.M.

Barbara dormindo. Krycek levanta-se da cama. Pega o gorro do pai e o coloca na cabeça. Serve outra taça de vinho. Senta-se na poltrona, a observando dormir.

Corte.


1994

Hotel Majestic - Washington D.C. - 7:45 A.M.

Krycek termina de fazer o nó da gravata em frente ao espelho do banheiro. Não acerta. Suspira irritado.

KRYCEK: - (MURMURA)Pareço um idiota engomadinho com esse cabelo lambido...

O Canceroso fuma um cigarro perto da janela, segurando uma pasta. Krycek sai do banheiro.

KRYCEK: - Não consigo acertar isso, senhor.

O Canceroso se aproxima, larga a pasta na cama e começa a dar o nó na gravata de Krycek.

CANCEROSO: - Um dos meus colegas, chamado Strughold, vai entrar em contato com você.

KRYCEK: - Muda alguma coisa? Devo me reportar a ele?

CANCEROSO: - Sempre se reportará a mim, Alex Krycek. A mais ninguém. Qualquer ordem dada que não seja diretamente por mim, você virá até mim e me contará. Fui claro?

KRYCEK: - Sim, senhor.

O Canceroso se afasta. Observa Krycek.

CANCEROSO: - Parece um agente do FBI. Passou no teste. Fez o dever de casa?

KRYCEK: - Sim, sei tudo sobre os agentes Mulder e Scully e os Arquivos X.

CANCEROSO: -Há 24 anos um experimento secreto de anulação do sono foi feito com militares, e agora, uma das cobaias está buscando vingança e deixando uma trilha de pistas. Mulder vai farejar isso para nos expor. E como eu expliquei pra você, esse imbecil não sabe que seus atos podem comprometer a segurança nacional. Você vai dizer que abriu esse caso antes de Mulder. Nós já fizemos isso com o seu nome. Cabe a você agir como um agente que acredita no que Mulder acredita e defender seu direito de investigar isso com ele, afinal você abriu o caso. Você será um crédulo, ao contrário da ex-parceira dele.

KRYCEK: - Sim, eu sei que separaram os dois e os tiraram dos Arquivos X. E devo atrapalhar a investigação?

CANCEROSO: -Não se preocupe com isso, pode investigar, precisa ser convincente, ajude Mulder, encare o papel de um agente de verdade. O resto nós cuidaremos. Eu quero que observe Mulder, nunca o perca de vista. Quero saber se ele ainda mantém contato com a agente Scully. Se trabalham juntos não oficialmente, entendeu? Se Scully ainda é um problema para nós.

Krycek coloca o crachá do FBI no paletó.

KRYCEK: - Sim, eu sei. Vou ficar de olho nele o tempo inteiro e fazer relatórios para o senhor.

CANCEROSO: - Elogie a fama dele com a humildade de um agente novato. O ego de Mulder gosta disso, vai perceber que ele é arrogante e sei que você não gosta de arrogantes, portanto, controle-se, finja-se de idiota o tempo todo, deixe ele, o idiota, achar que sabe tudo. Fale da má fama dele na academia, diga que não concorda, que você como outros também acreditam no que Mulder acredita. Conquiste. Seja mais esperto que a raposa. Ele precisa realmente acreditar que você é um agente e que é de confiança. Faça Mulder ser seu amigo. Seja um chiclete no encalço dele. Mas não se envolva com ele. Mulder é o tipo de pessoa que não se deve confiar. Ele parece legal, mas não é. Ele ferra com todos e tudo ao redor dele. Não esqueça nunca disso: Mulder vive sozinho porque ninguém confia nele. Vai arriscar?

KRYCEK: - Não vou esquecer disso, senhor. Mas se ele é tão esperto assim, não vai cair nessa.

CANCEROSO: - Se você for convincente, vai fazer ele cair. Mulder é o inimigo, fui claro?

KRYCEK: -Sim, senhor. Mas por que esse Mulder incomoda vocês? Só por que investiga extraterrestres? Vocês podem desmenti-lo, ele não é nada mais que um agente federal. Isso pra vocês é muito fácil.

CANCEROSO: - Como eu disse, não cabe a você fazer perguntas, mas cumprir suas ordens. Mulder está metendo o nariz aonde não deve.

KRYCEK: - Quer que eu elimine Mulder? Vou estar tão perto que posso fazer o serviço, como venho fazendo com outros nesses anos em que estou com vocês.

CANCEROSO: - Preste atenção: Nunca toque um dedo em Mulder.

Krycek observa o Canceroso com desconfiança.

CANCEROSO: - Se matar um, logo surgirão muitos. Antes o inimigo conhecido que o desconhecido, fui claro?

KRYCEK: - (SEM ENTENDER) Sim, senhor.

Krycek verifica o coldre. Estende a mão para o Canceroso.

KRYCEK: - Agente Krycek. Alex Krycek.

O Canceroso sorri, soprando a fumaça.

KRYCEK: - Vou ficar quanto tempo nesse papel?

CANCEROSO: -Depende. Se Mulder mostrar que não está com Scully, você vai ficar bastante tempo para ser parceiro dele. Caso contrário, se Scully for um problema ainda, teremos que pegá-la. E você nos ajudará nisso.

KRYCEK: - A parceira dele? Mas por que pegar Scully e não o Mulder?

CANCEROSO: -Se continuar a fazer perguntas, Alex Krycek... Vai terminar calado bem rapidinho. Eu já disse que não deve tocar em Mulder.

O Canceroso entrega uma chave com um bilhete.

CANCEROSO: - Seu falso apartamento. Pode precisar. Agora vá. E não nos desaponte.

Krycek pega a pasta sobre a cama e sai. O Canceroso puxa o celular do bolso.

CANCEROSO: - (AO CELULAR) Sou eu. Ele está indo agora para o FBI, mas faz perguntas demais. Apesar de não ter um nível de escolaridade decente, ele é muito mais esperto do que Pescow nos informou... Sim, se ele passar a ser um problema, sabemos como resolver.

Corta para o lado de fora do quarto. Krycek parado escutando tudo.


1995

West Tisbury - Martha's Vineyard - Massachusetts - Noite

Krycek sentado dentro do carro estacionado na rua. Observa a casa de Bill Mulder. O celular toca. Krycek atende.

KRYCEK: - (AO CELULAR) Sim, sou eu... Sim, senhor Strughold, Mulder está se drogando com o LSD na água, fiz conforme você e o senhor Spender pediram... Sim, estou de olho... Eu não ia saber que Mulder não estava no apartamento e que Scully estaria lá! Eu atirei na silhueta que vi! .... Eu só quero entender porque Spender agora não é o único a me dar ordens... Você quer que eu mate o Mulder, Spender não quer, vocês podem decidir o que querem afinal de contas? ... Ok, eu calo a boca.

Krycek desliga.

KRYCEK: - Esses filhos da mãe estão me enganando. Tem mais coisas aí sobre o Mulder... Fingiram uma abdução da Scully... O que eles estão me escondendo? E escondendo do Pescow? Será que tem a ver com Tunguska? Com essas experiências com alienígenas? Então Pescow também está me escondendo alguma coisa. Merda, aonde fui me meter! Ah mas eles vão pagar caro se estiverem mentindo. Eu tô cansado de ser marionete deles! Eles vão ver só com quem estão lidando.

Mulder estaciona o carro. Krycek fica indignado.

KRYCEK: - Esse cara não desiste mesmo! Não morre nunca esse arrogante! Esse imbecil idiota não vê que deveria deixar isso de lado e seguir a vida dele? O cara tem tudo na vida e fica correndo atrás de verdades que o mundo nem tá interessado em saber. Causa perdida. Quem me dera eu tivesse tido a chance de estudar, de ser alguém na vida, fosse inteligente como ele e tivesse aquela ruiva linda do meu lado. Tem gente que não merece viver mesmo porque não sabe valorizar o que tem.

Mulder desce do carro. Bate à porta da casa do pai. Bill Mulder abre a porta. Mulder entra.

KRYCEK: - Ok, lamento. Você acaba de matar o linguarudo do seu pai. Eu nem faço ideia do que seja o assunto, mas... Eu vou ter tempo pra descobrir. Porque agora eu estou ficando curioso.

Krycek desce do carro, tira a arma da cintura. Entra sorrateiro pelo pátio, abrindo a janela do banheiro.

KRYCEK: - Lamento, senhor Mulder pai. Nem lhe conheço. Nada pessoal. É apenas o meu trabalho. Eles mandam, eu obedeço. Se você não morrer, quem vai morrer sou eu.


2003 - TEMPO ATUAL

Krycek, sentado na poltrona, sai de suas lembranças. Olha para suas mãos. Vozes ecoam em sua mente.

MULDER (OFF): - Quando a mente lhe pregar peças, Alex, e isso vai acontecer, desvie sua atenção para coisas positivas. Você não pode consertar o passado. Não pode mais viver lá. O passado é como uma caixa num arquivo morto. Todo o esforço emocional que você deposita nisso, nunca vai alterar o que já aconteceu. Então precisa direcionar esse esforço para o presente, o momento agora. Aquele cara lá não mais existe, está muito distante, anos se passaram e mesmo que você continuasse com o mesmo pensamento, o que é impossível pra qualquer pessoa, aquele cara está no passado, ele não está aqui no hoje. As atitudes foram dele. Você é responsável pelas atitudes de agora. Esse é o seu foco. Qual sua atitude agora?

KRYCEK (OFF): -Mudar. Eu quero ter o direito de escolher o meu próprio caminho, eu nunca tive escolhas, sempre escolheram por mim ou me colocavam contra a parede, sabe? E essas lembranças me perturbam. E me perturba voltar a ter pesadelos com coisas que pensei ter superado. Algumas vezes acordo no meio da noite aos gritos. Eu não entendo, já se passaram anos, não deveria mais ter pesadelos com aquele sargento desgraçado, mas...

MULDER (OFF): -Eu preciso ser honesto e dizer que traumas como esse que você passou, são dificilmente superados. Tudo o que pode fazer é usar artifícios, que vamos escolher juntos, para desviar seu pensamento dessa lembrança que machuca, porque esquecer você não vai esquecer. Então precisa estar preparado para enfrentar quando a lembrança vier à mente. Quer falar sobre isso?

KRYCEK (OFF): - Não. Hoje não. Eu nem sei como consegui contar isso pra você. Eu sinto vergonha, raiva, humilhação...

MULDER (OFF): -Homens são mais difíceis de conseguir colocar essas coisas pra fora, é normal, ok? E isso não faz você ser menos homem, não se esqueça disso. Acontece mais do que você imagina. Vamos então continuar falando do que você quer falar. Você já foi perdoado, precisa se perdoar. Apenas mais uma vítima, lembre-se disso. Existia outra alternativa ou foi questão de sobrevivência? Encaixe seu passado todo e veja aonde você foi levado, certamente não por escolha própria, mas por oportunidades. Aqueles homens não eram as verdadeiras vítimas nessa história, eles sabiam o que estavam fazendo. Você e Mulder foram. Colocados um contra o outro num jogo sujo do qual nem entendiam até aonde a mentira ia.

KRYCEK (OFF): - Eu sei. Mas depois eu descobri a verdade, joguei contra eles também e continuei assim mesmo o jogo deles contra você.

MULDER (OFF): - Contra mim, não. Contra o Mulder, eu não sou o Mulder agora. Estamos aqui fazendo outra coisa.

KRYCEK (OFF): - Ok, "Dr. Fox".

Krycek sai das lembranças. Olha para Barbara. Dá um sorriso triste e apaixonado. Barbara se vira, procurando o corpo dele. Então se ergue na cama. Apoia o cotovelo no colchão e a mão no rosto.

BARBARA: - Perdeu o sono, ratoncito? Um dólar por seus pensamentos. Um milhão para que nunca mais tire esse gorro da cabeça.

KRYCEK: - (SORRI) Já pensou em escrever livros que não romances?

BARBARA: - Por que a pergunta?

KRYCEK: - Meu pai escreveu muitos livros que foram proibidos e incinerados pelos comunistas. Eu tenho todos os rascunhos escritos à mão, pelo próprio punho dele.

Barbara senta na cama, empolgada, amarrando os cabelos.

BARBARA: -Jura? Você me daria isso? Caramba, Alex! Imagina publicar os escritos do seu pai nesses tempos? Fala sério?

KRYCEK: - Isso tem me perturbado. É como ter a voz dele trancada dentro de uma caixa e calá-la pela segunda vez.

BARBARA: - Mas eu preciso da sua ajuda. Eu não sei ler russo. Vamos fazer assim. Você pega uma garrafa de vodka, fica nu sentado no meu sofá usando apenas esse gorro na cabeça e... Não. Não vai dar certo. Só de imaginar já perdi a concentração.

Krycek começa a rir.

BARBARA: - Sério. Estou interessada nos livros. E logicamente também estou interessada em você pelado no meu sofá usando apenas um gorro russo, mas vamos aos negócios. Deixa eu me concentrar.

KRYCEK: - Ele tem poucos em russo, apenas os poemas. Os pensamentos ele escrevia em inglês para treinar o idioma e para que nenhum idiota russo entendesse o assunto anti-comunista dele, caso descobrisse os manuscritos. Mas eu ajudo sim. Pelado ou vestido. Do jeito que você quiser.

Barbara abre um sorriso, caindo de costas na cama.

BARBARA: - Ah, meu Deus! Ele ainda topa minhas loucuras... Ah!!! Eu tô ficando mais apaixonada por esse homem!

KRYCEK: - ... Quando cheguei nos Estados Unidos, eu tinha apenas uma sacola de viagem. Não havia roupas nela, com exceção de uma velha blusa feminina, a favorita da minha mãe que ela mesma costurou e bordou, o gorro do meu pai e os manuscritos dele. Foi tudo o que eu trouxe da Rússia comigo.

Barbara deita-se de bruços na cama, apoiando os cotovelos no colchão e o rosto nas mãos, prestando atenção nele enquanto balança as pernas.

KRYCEK: - Nasci no inverno de 1962, na cidade de Moscou... Nasci nos tempos da corrida espacial e da Guerra Fria. No ano da Crise dos Mísseis de Cuba. Nasci cinco anos depois que a URSS colocou o primeiro satélite nos céus, o Sputnik-1. Nasci cinco anos antes do astronauta Vladimir Komarov, a bordo da Soyuz 1, ter sido deixado pra morrer sozinho no espaço, naquela sucata voadora que chamavam de foguete. Tudo o que sobrou dele, em nome da corrida espacial, foi um osso do calcanhar e uma massa de restos calcinados e uma gravação amaldiçoando os engenheiros pouco antes dele morrer queimado durante a reentrada... Nasci um ano depois de terem lançado o Vostok 1, com Yuri Gagarin ficando por cerca de 90 minutos em órbita da Terra. Tudo bem, o mundo esqueceu. Preferem lembrar da viagem americana à lua, em 1969, como se os americanos tivessem sido os precursores espaciais e não tivessem aprendido com os erros soviéticos.

BARBARA: - ...

KRYCEK: - Nasci nove anos depois da morte de Stalin. Um ano depois que Fidel derrubava a ditadura em Cuba e instalava o comunismo, a ameaça mundial daqueles tempos. O mundo tinha medo do fantasma do comunismo, catarse criada pelos americanos que não queriam perder o mundo para os soviéticos, que estavam tão bem aparelhados quanto eles. Período negro de golpes de ditaduras militares nos países da América Latina, golpes impostos e vigiados de longe por frotas de navios do Tio Sam. Melhor ter em seu quintal político e econômico um bando de militares manipulados controlando esses países do que comunistas armados pela mãe Rússia. Era a guerra fria, não declarada, e ambas as potências dormiam com o dedo no botão da bomba atômica e o mundo temia não acordar no outro dia. Seu conhecido Mr. Morley já era expert em conspiração, quando eu dei o meu primeiro choro.

BARBARA: - Pelo menos chorou alguma vez na vida.

KRYCEK: - Meu país sempre foi um mundo à parte e você é cubana, sabe disso. Eu cresci no governo de Leonid Brejnev. O pior de todos. Ele era secretário-geral do partido comunista e presidente do país. Ao contrário do que pregam contra o comunismo, ele foi ótimo para nós em alguns momentos, menos em alguns governos como o de Brejnev. No governo dele a falta de liberdade política causou estagnação econômica, caiu a produção industrial, comercial e agrícola, cresceu o desemprego, faltava alimentos nas cidades e os serviços públicos ficaram uma droga. Some a isso o aumento do alcoolismo por causa da descrença da população e mais o crescimento da corrupção administrativa. Você sabe, corrupção existe também no comunismo. Onde há dinheiro e poder, há corruptos e corruptores.

Krycek ajeita o gorro russo na cabeça.

KRYCEK: - Minha mãe contava que quando eu nasci, eu parecia uma bola de neve de tão branco. Era branco, bochechas rosadas e gordinho. Meu pai trouxe um gorro de pompom branco e colocou na minha cabeça. Mama achou aquilo tão engraçado, dizendo que eu parecia uma bola de neve com um viburno na cabeça.

BARBARA: - (SORRI)O que é um viburno?

KRYCEK: - Um tipo de arbusto que dá flores. Existem vários tipos, alguns conhecem mais a rosa-de-gueldres ou bola de neve, que chamamos kalinka em russo. Uma bola de neve com uma bola-de-neve na cabeça. Pronto. Ganhei meu primeiro apelido.

BARBARA: - Kalinka... Gostei. Aposto que era um bebê fofinho, Kalinka.

KRYCEK: -Moskva ne srazou stroilas. Moscou não foi feita em um dia. Nem um homem é feito em alguns anos... A vida é uma bola de neve, malyshka. Você começa pequeno, cresce conforme rola pelo monte e finalmente ao chegar ao vale, você é uma bola de neve gigantesca que destrói o que há pela frente... Egoísta e traidor. Tantas vezes me chamaram de egoísta e traidor. Não. Eu apenas aprendi a sobreviver... Do jeito que dava...


Teatro de Moscou – 1968

[Som: Alexandrov Red Army Choir - Kalinka]

No palco bailarinos, coral e o cantor apresentando uma ópera, em um palco que simula um ambiente gelado, uma casinha ao fundo, a árvore e arbustos de viburnos e framboesas silvestres, a neve falsa caindo.

Anna Krycek, a jovem e bela mulher judia-ucraniana, olhos e cabelos negros e longos, de lenço na cabeça, casaco pesado, alterna o olhar nervoso entre o palco e a saída do teatro.

CANTOR: - Pod sosnuyu, pod zelenoyu... Spat' polozhite vy menya... Aaaaaaaaaj!

(Embaixo do pinheiro, embaixo do pinheiro verde...Deite-me para dormir)

Anna amassa os dedos, um no outro. Olha para a porta.

CORAL: - Aj lyuli*, lyuli... Aj, lyuli, lyuli...

(*Lyuli =deusa da primavera, terra, amor e fertilidade)

CANTOR: - Spat' polozhite vy menya...

(Deite-me para dormir)

O pequeno Krycek, de seis anos de idade, assiste o espetáculo, sem desgrudar os olhos atentos e curiosos do palco. Então olha para Anna que está nervosa. Leva a mãozinha até a mão dela. Anna sorri para o filho. O pequeno lhe devolve um sorriso.

CANTOR: - Kalinka, kalinka, kalinka moya! V sadu yagoda malinka, malinka moya!

(Viburno, viburno, viburno meu!No jardim está a framboesa, a minha framboesa!)

CORAL: - Hej! Kalinka, kalinka, kalinka moya! V sadu yagoda malinka, malinka moya!

O pequeno Krycek olha para o palco, está fascinado. Os dançarinos de braços cruzados, dançam com passos russos. Os olhos dele brilham de felicidade.

KRYCEK CRIANÇA: - (COCHICHA PARA A MÃE) Mama, quando crescer eu quero ser artista!

Anna sorri, passando a mão na cabeça do filho. Andrevich, o homem russo de cavanhaque, que mantém a jaqueta fechada com as mãos, se aproxima, atrapalhando os expectadores, passando entre eles até chegar em Anna. Cochicha algo no ouvido dela.

Anna fecha os olhos, tremendo. O pequeno Krycek olha pra ela.Andrevich senta-se, nervoso, fingindo prestar atenção no espetáculo. Anna suspira, olhando para o palco.

O pequeno Krycek torna a admirar o cantor. Sorri, empolgado. A mãe tensa, fecha os olhos. Andrevich ao lado dela olha pra porta. Olha pro palco. Abre o casaco e retira disfarçadamente alguns folhetos, jogando ao chão. Empurra-os com o pé pra baixo da poltrona. O pequeno Krycek observa a atitude do homem, sem entender.

Corta para a porta do teatro. Agentes da KGB e soldados armados entram no teatro. As pessoas vão se virando, assustadas. Os artistas igualmente assustados, continuam o show, nervosos.

Os soldados param em frente ao palco, engatilhando as armas. O Agente da KGB #1 sobe ao palco. Grita algo em russo, com autoridade.

AGENTE DA KGB #1: - Niet paniki! Ishchu predatelya*!!!!! (Sem pânico! Procuro um traidor*!!!)

O show para. As luzes se acendem. Os soldados e agentes começam a revistar as pessoas, aos puxões, empurrões e selvageria. O pequeno Krycek se agarra na mãe, assustado com aquilo. Os agentes da KGB chegam até Anna. Revistam Andrevich. Então percebem os panfletos ao chão. Um deles acena ao Agente da KGB #1.

Anna fecha os olhos, abraçando e protegendo o filho. Os agentes da KGB pegam o homem do banco de trás, o levando aos empurrões.

HOMEM: - Niet !!!!!! Ya ne predatel*!!!!!!!! (Não!!!!!! Eu não sou traidor*)!!!!!

KRYCEK (OFF): - A KGB fazia o serviço sujo, malyshka. Não havia piedade alguma com dissidentes do regime comunista. Eram executados na hora, na frente de todos, para servirem de exemplo. A tirania não conhece limites. Andrevich empurrou com os pés a culpa para o inocente que estava sentado atrás dele. Questão de sobrevivência?

O Agente da KGB #1 desce do palco e puxa a pistola. Anna toma o rosto do filho contra seu corpo, mas Alex consegue ver o tiro que esfacela a cabeça do homem atrás de Andrevich. O menino arregala os olhos assustado. Os agentes cospem no corpo que jaz sentado na cadeira. O puxam violentamente arrastando pelo corredor do teatro, deixando o rastro de sangue pelo caminho.

KRYCEK (OFF): -Foi como eu conheci o que era a morte. E o que era uma arma. Nunca esqueci aquela cena. Tive pesadelos por dias com aquilo. Eu só tinha seis anos, o que poderia pensar?

Corte.


A neve cai sobre Moscou. Em meio a rua de pedras, sobrecoberta de neve, Anna leva o pequeno Krycek pela mão.

Andrevich, atrás deles, caminha bebendo vodka. Param perto de um beco, de onde sai Mikhail Krycek, com o gorro russo, segurando panfletos na mão. Andrevich aproxima-se de Mikhail. Dá um beijo em seu rosto e os deixa. Anna acerta um tapa na cara de Mikhail.

ANNA: -(FURIOSA/ ASSUSTADA) Irresponsável! Louco! Poderiam ter nos matado! O seu filho e eu, seu cretino!!!

Anna sai puxando o pequeno Krycek, que tenta acompanha-la, com o rosto virado pra trás, observando o pai. Mikhail a segue, metendo as mãos nos bolsos do casaco, tremendo de frio. Anna para em frente ao velho prédio do cortiço, empurrando a porta e puxando o filho escada à cima. Sobe dois lances de escada e então abre a porta.

Corte.


O ambiente pobre. Uma peça grande, uma máquina de costura perto da janela. A mesa, um fogão à lenha aceso, esquentando o ambiente. Dois armários, alguns bancos. Anna acende as velas para iluminar o ambiente sem luz.

ANNA: - Alex querido, tire seu casaco e vá para a cama. Preciso conversar com o papa.

O pequeno Krycek olha para o pai. Mikhail lhe sorri, afagando sua cabeça. Krycek tira o casaco, a mãe o pendura perto do fogão. O menino empurra a porta e olha para a cama de casal, único móvel do pequeno quarto, improvisada sobre tábuas. Mikhail pega uma das velas e vai até o quarto. O pequeno deita-se. O pai o cobre e o beija na testa, deixando a vela e fechando a porta. O pequeno Krycek fica escutando a discussão, de olhos fechados.

ANNA: - Aonde está com sua cabeça, Mikha? Na lua?

MIKHAIL: - Alguém precisa fazer isso, Anna!

ANNA: -E por que tem que ser o meu marido? Ahn? Não pode ser outro? Um inocente morreu por sua culpa!!!!!! Maldito seja você, Mikhail Krycek!

O pequeno Krycek senta-se na cama. Olha para o chão de tábuas velhas.

MIKHAIL: - Vários inocentes morrem todos os dias nesse maldito país, Anna! Não pode me culpar por tentar mudar a situação! Precisamos reagir! Estamos morrendo de fome, de frio, de desemprego! Nem luz o governo fornece mais! Olhe ao seu redor e me diga se isso aqui é lugar pra se viver? Ahn? (FURIOSO) Net!!! Eu tinha uma casa boa há anos atrás e o que aconteceu? O governo desapropriou minha família! Achou que era grande demais pra nós e nos tirou de lá! Acha justo isso? Que os filhos dos outros durmam numa casa confortável com calefação que herdei da minha família enquanto meu filho congela nesse cortiço? Eu não acho!!!

ANNA: - Fale baixo ou os vizinhos vão ouvir! Não quero minha casa sendo invadida por policiais e ver você morto nesse chão!

O pequeno Krycek abaixa-se. Leva a mão até uma das tábuas, a erguendo.

ANNA: - Você tinha um emprego como jornalista até se envolver com esses malucos! Agora você não tem nada, é apenas um doido que escreve coisas proibidas!

MIKHAIL: - Não somos malucos! Somos a resistência a Brejnev que mata esse país de fome, desemprego e decadência! Esse regime porco, que criticava os porcos czaristas e agora faz a mesma coisa com os filhos da Rússia! Eles nos roubam! Eu quero a liberdade, a democracia!!! Eu vou lutar até o fim por um país digno pro meu filho! Eu não quero Alexander passando por essa miséria e nem cerceado por essas malditas fronteiras fechadas, com uma mente manipulada aprendendo apenas o que o sistema quer, pensando como mais uma engrenagem enferrujada deles! Meu filho tem direito de conhecer o mundo, de estudar numa universidade fora daqui! Dói no meu coração de pai, será que pode entender isso?

O pequeno Krycek retira do assoalho uma revista. Os olhos dele brilham ao ver na capa da revista americana uma garrafa de Coca-Cola.

ANNA: - Não há liberdade! Deixe o país para os políticos! Meu Deus, por que não se contenta com o que existe? Por que simplesmente não pode ficar quieto, trabalhar, ser um marido comum como os outros, um pai dedicado a seu filho? Não, você e sua busca pelo impossível!

MIKHAIL: - Eu sou dedicado ao Alexander! Não venha me dizer que não me importo com o meu filho!

O pequeno Krycek fica observando a propaganda da Coca-Cola. Sorri.

ANNA: - Não, você não é! Você ensina inglês ao seu filho! Você coloca coisas na cabeça dele! Nós não temos mais comida! É isso que chama de dedicação ao Alex?

MIKHAIL: - Não pode me condenar por tentar mudar as coisas! Eu vou trazer comida! Eu nem sei aonde existe comida nesse país! Aquele desgraçado acabou com o povo!

ANNA: - Eu me mato o dia todo em cima daquela máquina de costura e mal consigo alguns rublos! Você não tem responsabilidades, Mikhail! Você só tem responsabilidades com esse maldito jornal de fundo de quintal que fala mal de Brejnev e do regime do país! Brejnev é um maldito desgraçado, mas e daí??? Temos um filho, ele tem necessidades a serem supridas!

O pequeno Krycek folheia a revista. Observa a foto das crianças correndo num jardim verde, os pais abraçados. A bela casa. Um carro. O sonho americano com o título 'America, Freedom'.

MIKHAIL: - Eu vou buscar comida!!!!

ANNA: - Vai roubar? É só o que falta para você se igualar a quem critica!

MIKHAIL: - Eu farei o que tiver de fazer pra matar a fome do meu filho! Quem pensará nele a não ser nós? O governo?

Mikhail sai batendo a porta do apartamento. O pequeno Krycek rapidamente guarda a revista, coloca a tábua no lugar e se deita, puxando o cobertor. Anna entra no quarto. O menino finge dormir. Ela senta-se na cama, leva a mão debaixo do cobertor até os pés do filho.

ANNA: - Você tá congelando, meu amor...

Ela senta-se no chão, esfregando os pés do menino, e assoprando para esquentá-los. Depois baixa a cabeça e chora. O pequeno Krycek derruba lágrimas, bem quietinho.


7:31 A.M.

O pequeno Krycek sai do quarto, com cara de sono. Esfrega os olhos. Anna sentada à máquina, costurando. Levanta-se. Mikhail escrevendo na mesa. O garoto entra no banheiro. Abre a torneira. Coloca a mão na água gelada e retira rapidamente.

ANNA: - Filho, vai perder a escola. Apresse-se! Um dia você será um grande soldado, vai dar muito orgulho a nossa família.

MIKHAIL: - Só por cima do meu cadáver! Meu filho não vai vestir a roupa desses desgraçados! Ele vai ter a oportunidade de ser o que ele quiser.

O pequeno Krycek passa apenas a ponta dos dedos molhados nos olhos, tiritando de frio. Sai do banheiro. A mãe serve um chá preto e ralo. Ele pega o copo e bebe rapidamente. O pai abaixa a cabeça, angustiado. Anna olha para o filho, com vontade de chorar, mas o menino sorri. Veste as luvas, o gorro e o casaco. Dá um beijo na mãe, outro no pai, pega os cadernos e sai correndo, fechando a porta.

ANNA: - Acha justo que por sua causa tenhamos perdido tudo? O governo marcou sua cara, Mikha! E o pouco que aparece você usa para patrocinar panfletos arruaceiros? É isso o que quer para o seu filho? Eu não aguento mais dar apenas chá pra ele!!!

MIKHAIL: - Anna, entenda por favor! Nem que eu tivesse dinheiro eu conseguiria comida nessa cidade! Os mercados estão vazios, as fazendas coletivas cheias e o transporte do governo parado! O que eu faço, faço pelo meu filho, pelo futuro dele. Assim que Alex tiver idade, vou manda-lo pra fora desse país, pra América, nem que eu tenha que morrer pra isso! E vou continuar ensinando inglês pra ele sim, até ele falar sem nem restar sotaque russo! Não quero ver Alexander se acabando nesse lugar. Eu quero mais pra ele!

ANNA: - É? E vai vender o que agora? Minha máquina de costura? Futuro? Que futuro seu filho vai ter se morrer de fome no presente? Ahn?

KRYCEK (OFF): - Malyshka, você sabe o que é passar fome? Finais de semana eram piores, porque não tinha escola. Pelo menos na escola, eles serviam uns bolinhos horríveis, mas era algo no estômago. E geralmente a única refeição do dia. E como eu podia condenar meus pais? Eles faziam o que podiam. Meu pai fazia bicos consertando coisas e trocando por comida. Minha mãe naquela máquina de costura, costurando vestidos para mulheres de oficiais e bordando pra elas. Eu separava as linhas, juntava, ajudava. E pensando que na America as crianças tinham comida. Os pais tinham empregos. As famílias tinham conforto. As "maravilhas da America". Era o que eu via nas revistas que papa escondia no chão. Apenas ele e eu sabíamos da existência delas. Mama surtaria. Era segredo de meninos. Acho que amadureci cedo demais pra minha idade. A realidade faz isso...


7:38 A.M.

O pequeno Krycek passa pelos meninos na rua. Alguns cochicham rindo das roupas pobres dele.

KRYCEK (OFF): - Eu era um menino quieto. Talvez por não ter irmãos, eu só tinha a companhia dos livros que papa me ensinava a ler. Eu tinha medo de me comportar mal e a KGB fazer comigo o que fizeram com o sujeito no teatro, pelo menos era o que a professora dizia sobre o que acontecia com os meninos maus. Eu tinha medo das pessoas, todos me pareciam perigosos e delatores. Até as crianças da minha rua. Eu não era brigão, era tímido e calado. Não tinha amigos. E era discriminado, embora a situação econômica não fosse das melhores para ninguém na Era Brejnev, todos chamavam meu papa de vagabundo porque ele era um escritor e um pensador.

Os meninos provocam ele com xingamentos e pedras. O pequeno Krycek passa cabisbaixo, sem dizer nada.

KRYCEK (OFF): - Aquilo me dava ódio. Papa não era um vagabundo. Era um escritor, um pensador, um intelectual avançado demais para o seu tempo, que predizia que a URSS cairia algum dia e colocaria um cartaz da Coca-Cola em cada esquina. Eu tinha vontade de brigar e bater nos garotos da minha rua, mas sempre que pensava em fazer isso, ficava com medo de magoar mama. E da KGB me pegar e atirar na minha cabeça. A KGB era o monstro que assombrava minha infância. O meu bicho-papão. Pior que a Baba Yaga.

O pequeno Krycek deixa os cadernos caírem. Os meninos riem dele. Ele pega os cadernos e sai correndo, fugindo deles.


5:51 P.M.

[Som: Red Russian Army Choir - Ochi Chyornye]

Anna cozinha algo no fogão enquanto sova a massa de pão. Mikhail escreve alguma coisa num pedaço de papel. Então se levanta. Puxa Anna pela cintura, a levando para uma dança imaginária. Anna sorri.

KRYCEK (OFF): - Meus pais brigavam muito. Mas também se amavam muito. Papa gostava de dançar com mama pela casa. Principalmente depois de uma briga. Era o jeito dele pedir desculpas e o jeito dela em dizer que aceitava. "Ochi Chyornye"... Olhos negros. Meu papa cantava essa música por causa da cor dos olhos da mama. Ele dizia que aqueles olhos negros o faziam esquecer do mundo. E ela se rendia. Ele sabia como conquistá-la, afinal, poetas tem esse dom natural de conquistar as mulheres. Nada me dava mais paz que vê-los dançarem, ver o amor que tinham um pelo outro.

O pequeno Krycek entra em casa. Fica parado na porta, observando os pais dançarem. Mikhail e Anna trocam um beijo apaixonado. O filho abre um sorriso. Tira o casaco. Anna ao percebê-lo, solta o marido e disfarça voltando a amassar o pão. Mikhail sorri.

MIKHAIL: - Ei, Kalinka, vem aqui. Tenho algo pra você, meu filho.

O pequeno Krycek corre até o pai. Mikhail o faz sentar-se em sua perna. Retira um chocolate do bolso. O menino sorri, abrindo o chocolate rapidamente. O pequeno divide o chocolate em três partes. O pai não aceita. A mãe também não.

ANNA: - Seu pai e eu detestamos chocolate. Coma você, querido.

KRYCEK (OFF): - Não sei aonde ele conseguiu o tal chocolate. Mas se recusaram a comer. Eu ficava pensando em como alguém poderia não gostar de chocolate! Claro que gostavam, mas priorizavam o filho. Depois de adulto é que entendi isso.

MIKHAIL: - Um dia, meu filho, este país será como o ocidente. Haverá fartura. Não teremos mais medo de sair nas ruas, de defender nossa opinião. Alguém vai derrubar as fronteiras entre nossos estados, a estátua de Lênin da praça, tirar Brejnev do poder...

KRYCEK CRIANÇA: - Papa, que gosto tem a Coca-Cola?

MIKHAIL: - Não sei meu filho. Deve ser bem doce e certamente eu beberia muitas! Mas há muito mais na América do que Coca-Cola. Há liberdade. Freedom. Repete comigo. Freedom. Quanto mais treinar, menos sotaque terá.

KRYCEK CRIANÇA: - Freedom...

ANNA: -Mikha, pare de enfiar minhoca na cabeça do menino! Eu já tenho um aqui dentro para me preocupar se voltará vivo pra casa! Não preciso de dois!

O pequeno Krycek olha para o pai. Ele lhe sorri, afagando seus cabelos. Krycek olha para a mãe. Ela coloca o pão no forno.

KRYCEK (OFF): - Mama, Anna Larissa Yavanov Krycek. Filha de judeus russos ucranianos, que perderam tudo na Segunda Guerra. Conheceu papa quando ele foi fazer uma matéria sobre a vida na Ucrânia. Se apaixonaram e meu papa trouxe ela pra Moscou. Ela era uma mulher divertida, mas a situação a fez ficar séria e amargurada. Ela raras vezes dizia que amava meu papa, bancando a durona. Porém estava estampado em seu rosto. Quando ele chegava em casa, ela fingia não estar feliz. Mas estava, porque o esperava sempre com chá pronto. Sabia que ele adorava chá, como todo russo. Talvez não mais do que os olhos e os cabelos negros dela... O pão simples que mama fazia... Nunca mais comi um pão tão gostoso quanto o de mama. Tinha gosto de pão feito com carinho. Pão de mãe sempre tem gosto diferente, não é?

ANNA: - Alex, mamãe precisa que leve o vestido da senhora Pescow. Ela vai lhe dar dez rublos. E apresse-se, preciso comprar velas antes que escureça.

O pequeno Krycek sai do colo do pai. O pai volta a escrever no pedaço de papel que não cabe mais nenhuma letra.

6:35 P.M.

Anna olha para o pequeno Krycek, seriamente.

ANNA: - Dez rublos. Aqui só tem nove. O que fez com o outro?

KRYCEK CRIANÇA: - Eu perdi.

ANNA: - Filho, seja mais atento, por favor! Fique aqui, vou ver se consigo encontrar velas para comprar, já está escurecendo.

Anna veste o casaco e sai. O pequeno Krycek abre seu casaco e retira o bloco de rascunho que comprara escondido. Corre até o quarto.

Mikhail sentado na cama, com o gorro russo, brincando com os dedos na balalaica. O menino observa o pai. A agilidade de seus dedos no instrumento musical. Algumas vezes, ele para de tocar, levando o copo de vodka à boca, desanimado.

KRYCEK (OFF): - Papa, Mikhail Yuri Krycek. Filho único, entre duas irmãs, o caçula. O pai dele, Yuri Krycek era major do exército russo, foi preso pelos alemães na Segunda Guerra. Morreu em Auschwitz, sem nem mesmo saber que tinha deixado a esposa grávida. Papa nasceu sem conhecer seu papa. Talvez por isso ele prezasse tanto a palavra pai e odiasse tanto o exército vermelho do qual meu avô fez parte. Eu o amava. Ele falava pouco dentro de casa. Era escritor. Escritores criam ao silêncio. Se alimentam do silêncio, falam com o papel, sentem-se melhor com isso do que com as pessoas. Caneta e papel eram sua vida. Censurar papa era como prender um pássaro. Ele morreria.

O pequeno Krycek estende a mão segurando o bloco. Mikhail ao ver o bloco, olha pro filho, derrubando lágrimas.

KRYCEK CRIANÇA: -Pra você, papa. Agora pode escrever mais.

MIKHAIL: - Como comprou isso?

Mikhail abraça o filho. Põe as mãos nos ombros do garoto, olhando pra ele.

MIKHAIL: - Eu amo você, meu pequeno homem. Estou começando um novo livro de poesias. Uma delas é sobre você. Leia aqui. Esta é para sua mãe.

KRYCEK (OFF): - Ele escrevia poesias. Era a forma que tinha de reclamar contra o sistema, disfarçando sua revolta em metáforas. Já não vendia mais livros, ninguém tinha dinheiro pra comer, quanto mais para a cultura. O que aumentava a raiva dele. Papa também fazia bicos numa gráfica, e de noite, clandestinamente alguns amigos imprimiam enquanto ele escrevia manifestos contra o governo russo. Papa não tinha mais esperanças nele. Hoje eu entendo. Entendo que a única esperança que o velho Mikhail tinha era eu...



BLOCO 2:

[Som: Maurice Jarre - Somewhere My Love (Lara's Theme)]

O pequeno Krycek acorda-se com a música. Abre a porta do quarto lentamente, espiando pra sala. Mikhail dança com Anna. Os dois sorrindo. A neve cai lá fora, pelo vidro embaçado da janela.

MIKHAIL: - Como no romance de Pasternak, Yuri e Larissa juntos.Entretanto, aqui eles dançam e vivem seu amor.

Anna sorri apaixonada.

MIKHAIL: -Tenho pena desse povo que nunca lerá essa obra maravilhosa pelo governo considerar anti-comunista.

ANNA: - Mikha, se Pasternak conseguiu mandar sua obra para ser publicada lá fora, você também conseguiu.

MIKHAIL: - Anna, eu não tenho certeza de muitas coisas. A única certeza que eu tenho, além do nosso amor, é que Deus me deu o dom da escrita. Eu sei que esse livro vai vender muito bem na França. E tenho certeza de que será publicado em outros países europeus, livres, já que os escritores russos não podem publicar na Rússia, porque pensar aqui é perigoso. Eu já sei o que fazer quando começar a receber o dinheiro.

ANNA: - E o que vai fazer?

MIKHAIL: - Vou juntar. Até ter o suficiente para levar minha família pra tirar férias em Paris. Vou dar entrada no pedido de saída, sabe que o governo leva tempo e nem sempre é aprovado na primeira. E quando estivermos fora daqui... Não voltaremos mais. E de Paris vamos pra América, construir uma vida nova.

ANNA: - (SORRI) Isso é sério, Mikha?

MIKHAIL: - Sim. Esse livro vai nos salvar, minha Anna. Chega dessa vida. Nós três merecemos mais. Nada nos prende aqui. Só precisamos esperar a impressão e as vendas. Eles me deram o prazo de um mês.

KRYCEK (OFF): -Papa enfim conseguira vender um romance para uma editora estrangeira em Paris... As coisas iriam melhorar. Finalmente sairíamos da Rússia. Eles não dançavam, flutuavam como dois amantes apaixonados. Eu nunca vou esquecer do olhar de mama. Ela olhava pra ele como se sua vida se resumisse nele. Talvez ela não soubesse que a vida de papa também se resumia nela: 'Anna dos cabelos escuros como as noites de Moscou, dos lábios de framboesa, do cheiro da neve fresca...' Seu poema foi parar em tantos cartões para namorados russos... E nunca ninguém lhe deu um centavo por isso. Nem atribuiu seu nome. Perseguição política.

O pequeno Krycek sorri. Fica observando os pais dançarem.

KRYCEK (OFF): -Foi a última vez que vi mama com vida. Ela ficou doente de repente e tão rápido... Como era da natureza dela, sofria sozinha, sem dizer a ninguém que estava com leucemia... O médico depois disse que provavelmente ela adoeceu por anemia profunda. Não havia... (VOZ EMBARGADA) Não havia muito o que comer naquela época, o governo soviético dava tickets para serem trocados por alimento, mas a corrupção fazia faltar tudo. E ela, como toda mãe, preferia deixar o pouco que tinha para o filho...

Corte. (Permanece a música, ligando a cena seguinte.)


As mãos trêmulas e frágeis de Anna sobre a máquina de costura, ela mal consegue direcionar o tecido na agulha. O corpo dela cai por sobre a máquina. Mikhail entra em casa com o filho. Ao ver a esposa, corre até ela. O pequeno Krycek enche os olhos de lágrimas.

Corte. (Permanece a música, ligando a cena seguinte.)

Mikhail se ajoelha ao lado de Anna, o corpo dela ainda sobre a máquina de costura. Ele chora alto, gritando de dor.

MIKHAIL: -(AOS GRITOS/ CHORANDO EM DESESPERO) Ya lyublyu tyebya, Anna!!!!! Prosti menya!!! Ya lyublyu tyebya Annnnnnaaaaaaaa!!!!!!!!!!!

(Eu amo você Anna!!!! Perdoa!!!! Eu amo você Anna!!!!!)

O pequeno Krycek, com os olhos cheios de lágrimas, observa o pai chorando e a mãe morta.

Corte. (Permanece a música, ligando a cena seguinte.)


A neve caindo. Mikhail ajoelha-se, colocando a folha de papel com um poema sobre o túmulo com a inscrição: Anna Larissa Yavanov Krycek. Beija ternamente a pedra da humilde sepultura. Fica em pé, derrubando lágrimas. O pequeno Krycek dá a mão para o pai, o observando. Mikhail retira o gorro de pele da cabeça e o coloca na cabeça do filho. Pai e filho saem de mãos dadas pelo cemitério, cheio de árvores secas pelo frio intenso de Moscou.

KRYCEK (OFF): -(VOZ EMBARGADA/ CHORANDO) Foi quando eu entendi que nunca mais eu veria mama de novo... Nem brava, nem sorrindo, nem fazendo chá, nem pão, nem afagando e soprando os meus pés pra eu me esquentar e pegar no sono... Nem dançando com seus cabelos negros e longos como as noites de Moscou... Parecia um sonho, sabe? Que eu acordaria no outro dia e ela estaria no fogão preparando um chá ou na máquina costurando. Ou na balalaica me ensinando algumas notas... Mas os dias passavam vazios sem a presença dela e eu percebi que não era um sonho.

O pequeno Krycek olha para trás, para o túmulo da mãe. Olha para o pai que segura firme sua mão enquanto chora calado.

KRYCEK (OFF): - O cheiro da neve e o calor da mão de papa, me lembravam dela... As coisas não seriam iguais daquele dia em diante. Papa não aceitou a morte de mama. Sua revolta cresceu mais, ele amaldiçoava o sistema todo pelo fato de não conseguir sustentar sozinho a família, por mama ter ficado doente pela fome... Ele se culpava, chorava as noites todas. Nos anos seguintes, ele passou a me ensinar inglês com mais afinco. Falávamos mais em inglês que russo dentro de casa. Guardou a balalaica de mama como um troféu. Arrumou um violão e tocava músicas clássicas, me ensinando as notas. Eu cantava e ele tocava. Muitas vezes nada sóbrio. Papa dizia que iríamos embora da Rússia. Que ele daria um jeito. Que na América ele sobreviveria escrevendo sem censura e que eu poderia cantar. Que não perderia mais nada para o comunismo. Mas ele perdeu mama pra eles. E a sanidade. E começou a beber a cada dia mais... E o dinheiro do livro nunca chegou. Sim, ele foi publicado, foi pago, mas retido pelo governo soviético. Tínhamos que sair daquele país. Papa me fez jurar que se ele nunca conseguisse, eu iria conseguir. E eu jurei.


Moscou - 1972

Krycek com dez anos, sentado à mesa, estudando inglês. Mikhail de frente pra ele, bebendo vodca.

MIKHAIL: - Depois quero ouvir a pronúncia. Se ouvir sotaque russo, você vai fazer pão, e eu vou ficar rindo de você.

KRYCEK CRIANÇA: - Acho que você vai fazer o pão hoje, papa. E eu vou ficar rindo de você.

Mikhail revira os cabelos do filho, num sorriso orgulhoso. Depois fica sério e volta a beber, com o olhar parado e perdido no vazio, olhos acumulando lágrimas.

KRYCEK (OFF): - Quatro anos se passaram. Na época eu não podia entender porque papa não parecia mais ser o meu papa, alegre, vivo... Ele definhava cada dia mais, se entregando a bebida e criticando mais o sistema. Nunca o vi com outra mulher. Ele não conseguia mais escrever. Mama levou com ela a vida que ele tinha. Não via mais poesia nas coisas. Tentava me sorrir, pensava que me enganava. Eu podia ver a dor dentro dele. Dor que hoje, como homem, eu posso saber muito bem. A dor de amar demais uma mulher e depois perdê-la... Dor que não quero mais sentir.


3:21 P.M.

[Som: Kalinka (balalaica) – Stars of St. Petersburg]

Mikhail passa por entre as pessoas, discretamente retirando panfletos de dentro do casaco. Os entrega.

MIKHAIL: - Camarada, preste atenção nesse socialismo disfarçado. Somos escravos do sistema comunista. Estão nos matando de desemprego, de fome e de intolerância. Isso não é socializar nada, isso é exploração! A filosofia de Marx está sendo distorcida por esses ditadores!

O garoto Krycek entrega panfletos, mais adiante.

KRYCEK (OFF): - Ele ficou mais crítico, mais rancoroso, mais radical. As pessoas que liam seus poemas e críticas antigas não reconheciam mais o poeta Mikhail... Eu temia por ele, pois lembrava do medo da mama, da KGB disfarçada nas ruas, e mesmo não sabendo ainda bem das coisas, o medo que ela tinha era o meu medo. Na Rússia você não podia sequer pensar contra o comunismo. Me lembro de uma piada que papa contava: Na pauta da reunião do partido em um kolkhoz, uma fazenda coletiva, havia duas questões na ordem do dia: a) construção de um barracão. b) a construção do comunismo. Devido à 'falta de tábuas', decidiram passar direto para a segunda questão.


1:34 A.M.

O garoto Krycek quase dormindo. Mikhail sentado na cama, lendo a luz de velas "O Jogador, deFiódor Dostoiévski".

MIKHAIL: - (LENDO EM VOZ ALTA) Mas, também, quem é que aguenta olhar para os nossos russos? Eles ficam aqui sentadinhos, não se atrevem nem a espiar, e estão dispostos, talvez, a negar que são russos. Pelo menos em Paris, no meu hotel, começaram a me tratar com muito mais atenção depois que contei a todos a respeito da minha briga com o abade. Um nobre polonês gordo, o que se mostrava mais hostil comigo na table d’hôte, acabou ficando em segundo plano. Os franceses suportaram muito bem, mesmo quando contei que, há dois anos, conheci um homem em quem um soldado francês deu um tiro, em 1812, só para descarregar seu fuzil. Quando o caso ocorreu, esse homem era um menino de dez anos, e sua família não teve tempo de fugir de Moscou.

Mikhail fecha o livro e o coloca debaixo do travesseiro.

MIKHAIL: - Amanhã continuamos Dostoiévski.

KRYCEK CRIANÇA: - Adoro que leia pra mim, papa. Você explica o que não entendo.

Mikhail se deita ao lado do filho, olhos perdidos no nada, segurando lágrimas.

MIKHAIL: - Tenho orgulho de você, meu Kalinka. Você é um bom filho. Atura esse seu pai bêbado, indignado e com a alma vazia.

KRYCEK CRIANÇA: -Papa, eu amo você. E você é mais do que isso. Apenas está triste. Quando estamos tristes nossa alma fica vazia.

Barulhos na porta.

KRYCEK (OFF): - Eu nunca esqueci daquela noite, malyshka. Foi quando eu perdi tudo na vida. Algumas vezes, eu ainda tenho pesadelos e as imagens voltam nítidas na minha memória.

Três agentes da KGB arrebentam a porta. Mikhail pula da cama. Pega os panfletos e abre o assoalho. Os coloca sobre a revista americana. Coloca as tábuas no lugar rapidamente.

O garoto Krycek senta-se na cama, esfregando os olhos, assustado.

KRYCEK (OFF): - Os homens da KGB entraram no apartamento. Arrastaram papa. Ele gritava que não sabia de nada. Naquela época você não podia saber de nada. Me levaram pra sala junto com ele. Barbara, estou falando de 1972. Enquanto o mundo dançava discoteca, comia fast-food, frequentava cinema, andava em carros avançados e já se falava em computadores e música eletrônica, eu estava na Rússia vivendo uma realidade surreal, primitiva, intolerante. Imagine o mundo como uma tela de cinema a cores e nós ainda estávamos no cinema mudo.

Os agentes reviram a casa toda. Destroem tudo. Mikhail, mantém o filho atrás de si. O garoto Krycek, olhos assustados, segurando o choro, apavorado olhando para os sujeitos da KGB.

KRYCEK (OFF): - Reviraram tudo. Não encontraram os panfletos. Mas sabiam que papa era um dissidente. Um agitador. Alguém o entregou. Como mama sempre predisse. Aconteceria.

Mikhail grita algo em russo. Os agentes falam aos gritos. Mikhail leva a mão dentro do casaco.

AGENTE DA KGB #2: - Oruzhiye*!!!!!!!!! (Arma*)

O Agente da KGB #2 puxa a arma, assustado. Atira na cabeça de Mikhail, que cai morto ao chão, com a mão ainda dentro do casaco. O garoto Krycek arregala os olhos, prendendo a respiração. O Agente da KGB #3 se agacha, revistando o pai de Krycek. Leva a mão dentro do casaco dele. Retira um bloco rascunhado.

KRYCEK (OFF): - Não era uma arma. Papa não admitia violência, era um pacifista sonhador... O que ele tinha escondido no casaco, era apenas a maior riqueza que lhe restava: "Para Anna. Para Alex. Poemas com amor".

O Agente da KGB #2 mira a arma na cabeça do garoto Krycek. Ele fecha os olhos.

KRYCEK (OFF): - Fechei meus olhos. Senti o cano da arma na minha cabeça. Eu tive medo. Com certeza eu ia morrer. O único pensamento que me ocorreu foi de que, pelo menos, nossa família ficaria junta novamente em outro plano. Apesar da perseguição, os russos sempre foram religiosos, mesmo às escondidas. Meu pai nem tanto, mas mama era católica ortodoxa. Eu conhecia algumas orações por conta dela. Mas naquele momento, eu não lembrava de nenhuma.

O Agente da KGB#3 grita algo em russo.

O Agente da KGB#2 baixa a arma, olhando pro garoto.

AGENTE DA KGB #2: -Udachlivyy*! (Sortudo*).

Eles vão embora.

O garoto Krycek parado, abre os olhos. Fica olhando para o pai morto. Olhos derrubando lágrimas, de quem não entende nada. Ele se agacha e se abraça no pai, chorando.

KRYCEK (OFF): - Daquele dia em diante... Eu não mais seria o menino calado e obediente. A bola de neve começava a tomar forma. Vim a descobrir que você deve ser por você, as pessoas não são confiáveis, elas delatam, elas traem, elas mentem. Eu também ia aprender a fazer isso. Eu ia sobreviver pelo meu papa, pela mama, pelo sacrifício que eles passaram pra criar o único filho. Escondi todos os escritos do meu papa debaixo do assoalho, junto com a blusa de mama. Não demorou para os vizinhos chegarem, chamarem a polícia e eles me levaram pra um orfanato. Mas os muros do orfanato não me seguraram mais que dois anos. Eu conheci outro órfão, Karel. Bolamos um plano e fugimos de lá. Fiquei pelas ruas de Moscou com ele, engraxando sapatos. Assim como papa... Eu era um pássaro. Muros não iriam me segurar. Um dia eu daria o fora daquele país. Nem que tivesse que vender minha alma ao diabo pra isso.


Moscou - 1977

4:11 P.M.

O jovem Krycek, de 15 anos, com o gorro de pele de seu pai, parado na rua. O policial passa por ele.

POLICIAL: - Ei!

Krycek fecha os olhos. Medo.

POLICIAL: - Quer trabalhar ou não? Engraxe as minhas botas.

Ele começa a engraxar as botas do policial. Olhos voltados, disfarçadamente, para o outro lado da rua.

POLICIAL: - Tem família?

KRYCEK ADOLESCENTE: - Tenho, camarada. Moram na outra rua.

POLICIAL: - Tem família mesmo ou é um garoto de rua? Olha que mando você para um gulag. Vagabundagem é crime!

KRYCEK ADOLESCENTE: - Tenho família sim, camarada. Faço isso pra ajudar meu pai, ele trabalha duro numa fábrica. E eu como bom cidadão soviético, trabalho duro pela minha pátria. Viva o comunismo!

O policial sorri. Volta os olhos para o outro lado da rua. Krycek começa a suar frio, apressando o serviço. O policial volta os olhos para as pessoas. Krycek continua nervoso. Termina rapidamente o que fazia. O policial coloca a mão no bolso.

POLICIAL: - Um rublo.

Ele entrega a moeda e sai. Krycek levanta-se, olhando pra moeda. Coloca no bolso.

Gritaria.

Karel, o moleque de uns 15 anos sai correndo do pequeno mercadinho, carregando sacolas. Krycek pega a caixa de engraxate e dispara atrás dele. Os policiais correm atrás dos dois. Eles entram num beco, agachando-se por debaixo da cerca, levando o roubo consigo. Um dos policiais pega Krycek pelas pernas, o puxando. Krycek grita. Karel estende a mão o puxando, sem sucesso.

POLICIAL #1: - (AOS GRITOS) Seus fedelhos vagabundos, vou mandar vocês pra um gulag*! Vão dar duro na enxada pra virar gente!

(*Gulag - campo de prisioneiros com trabalhos forçados)

Karel procura uma pedra. Pega a pedra e atira por sobre a cerca. Escuta-se o grito do policial. Krycek passa rapidamente por baixo da cerca e os dois correm.


4:44 P.M.

Krycek e Karel sobem rapidamente as escadas do cortiço abandonado. Entram num apartamento, fechando a porta. Empurram um armário velho, único móvel no ambiente, se enfiando por dentro do buraco na parede, saindo em outro cômodo.

Colchões pelo chão. Os dois se atiram nos colchões aos risos altos e ofegantes.

KRYCEK ADOLESCENTE: - Você me salvou, Karel. Obrigado.

KAREL ADOLESCENTE: - Não me agradeça, Alex. Irmãos são pra isso. Nosso juramento de sangue, lembra? Um ajuda o outro.

Karel começa a tirar o furto das sacolas. Apenas comida.

KAREL ADOLESCENTE: - Eu disse que conseguiria. E você duvidou!

KRYCEK ADOLESCENTE: - Eu sei que você disse. Mas por um instante pensei que ia sair na hora que o desgraçado do policial estava engraxando as botas!

KAREL ADOLESCENTE: - Você se preocupa demais. Eu sou rápido e esperto. Você vigia. Eu cometo o crime. Se me pegarem, você fica vivo. Você vale mais do que eu, amigo, porque você é um artista. Tem um futuro pela frente.

Karel tira do bolso algumas notas de dinheiro.

KRYCEK ADOLESCENTE: - (ASSUSTADO)Aonde conseguiu isso?

KAREL ADOLESCENTE: - Eu ganhei de um amigo.

KRYCEK ADOLESCENTE: - Que amigo?

KAREL ADOLESCENTE: - O que importa? Pega isso e compra umas roupas pra você. Estou cansado de ver você sempre com esse casaco fedorento... Dê um tempo aqui e depois saia. Vou esquentar uma água pra tomar banho. Vou usar a lenha que você roubou.

KRYCEK (OFF): - Karel. Era o único amigo que eu tinha. Era minha família agora. Ele não tinha pais, cresceu no orfanato e fugiu comigo de lá. Nos criamos juntos na rua, um cuidando do outro. Roubávamos juntos. Desde comida até lenha. Ele sempre aparecia com dinheiro, e eu não sabia de onde ele conseguia. Mas depois eu falarei de Karel. Eu tinha algumas amigas também, mais velhas do que eu. Eu fazia favores pra elas em troca de dinheiro... Já começava a aprender como ter falta de caráter pra viver...


10:37 P.M.

As duas prostitutas escondidas, fazendo ponto num beco. Krycek adolescente se aproxima.

SVETLANA: - Ora, ora, se não é o nosso homenzinho...

KRYCEK ADOLESCENTE: - O que você quer, Svetlana?

SVETLANA: - Preciso de um favorzinho. (PISCA O OLHO) Está vendo aquele bacana descendo do carro?

KRYCEK ADOLESCENTE: - Sim.

Ela entrega um bilhete.

KRYCEK ADOLESCENTE: - O que vou ganhar com isso? Acha que vou ajudar de graça?

SVETLANA: - Depois te dou uma trepada por conta da casa.

KRYCEK ADOLESCENTE: - Não estou interessado. Quero dois rublos.

SVETLANA: - Que desaforo garoto! Isso é exploração!

KRYCEK ADOLESCENTE: - (SORRI) Dois rublos agora ou ele não vai receber esse bilhete.

Krycek ameaça engolir o bilhete. Ela ergue a sobrancelha, debochada.

SVETLANA: - Tá aprendendo, garoto. Vanya, nosso garotinho tá aprendendo como é a vida nas ruas...

Ela ergue a saia, tirando duas moedas da meia. Entrega pra Krycek.

KRYCEK ADOLESCENTE: - Pernas lindas.

SVETLANA: - Sai daqui seu pivete! Não são pro seu bico!

O jovem Krycek rindo, atravessa a rua, indo em direção ao carro.

KRYCEK (OFF): - Eu fazia o serviço de correio entre prostitutas e clientes. Entregava bilhetes, arrumava clientes, fugia com a carteira deles no meio da noite... Elas me tratavam bem, eu ganhava uma percentagem do roubo ou do programa conseguido. Algumas vezes me presenteavam com algum artigo de luxo que conseguiam com seus clientes: uísque americano, cocaína, maconha... E eu queria apenas provar a tal Coca-Cola... Chegava a sonhar com o gosto que aquilo podia ter, mas a Coca-Cola nunca vinha... Quando eu tinha fome, elas me davam o que comer, dividindo o pouco que tinham. Bom, como drogas entravam num país comunista? Eu sei que elas dormiam com o alto escalão russo. E com a KGB. Então havia hipocrisia mesmo no regime.

BARBARA (OFF): - Agora entendo porque você defende as prostitutas naquela delegacia...

KRYCEK (OFF): - Elas me ajudaram quando eu precisei. Nunca vou virar as costas pra nenhuma delas, seja em qualquer lugar do mundo. Elas são mais decentes que muita gente que eu conheci. Pelo menos nunca me negaram um pedaço de pão. Devo isso a elas.

O jovem Krycek entrega o bilhete pela janela do carro. O homem dá uma moeda pra ele.


12:23 A.M.

Um quarto de pensão. Cama arrumada, ambiente simples e decadente. O adolescente Krycek parado ali. Vanya, a prostituta, sai do banheiro, vestida apenas de calcinha, sutiã e cinta-liga. O jovem Krycek olha pra ela, então disfarça. Ela acende um cigarro. Espalha cocaína sobre a cômoda.

VANYA: - O que foi? Está vermelho em homenagem a pátria ou nunca viu uma mulher em trajes íntimos, camarada?

KRYCEK ADOLESCENTE: - Por que me chamou? Temos trabalho? Vou trazer outro trouxa pra você enrolar enquanto roubo a carteira dele?

VANYA: - Você tá muito nervosinho hoje, garoto.

Vanya separa as fileiras de cocaína, enrola uma nota de rublo e aspira uma carreira.

VANYA: - Ah!!! Adoro minha clientela. Essa velharada não trepa bem, mas em compensação a droga é pura.

Vanya serve dois copos de vodka. Entrega um pra ele.

VANYA: - Você já é homem, camarada, ou é apenas um garotinho bobo que acha que o que tem entre as pernas serve apenas pra fazer xixi?

KRYCEK ADOLESCENTE: - O que quer, Vanya? Saber se posso beber? Se posso cheirar sua cocaína? É, eu posso. Eu quero ficar doido hoje porque preciso muito sair da realidade!

Krycek puxa o cigarro da mão dela e traga. Dá uma tossida, mas continua tentando fumar.

VANYA: -Nossa! O que aconteceu com você? Virou um adolescente revoltado? Sabia que se ficar muito revoltado as espinhas vão começar a crescer?

KRYCEK ADOLESCENTE: - Ah, me deixa, Vanya!Eu sou um adolescente revoltado! E tenho meus motivos pra isso! Se pudesse matava um hoje, de tanta raiva dessa merda de vida!

Krycek entrega o cigarro pra Vanya.

VANYA: - Querido, eu também tenho meus motivos pra ser puta e nem por isso eu saio por aí descontando a minha vagina na cara dos outros! Se bem que eles adorariam!

Krycek começa a rir.

VANYA: - Ah, agora sim. Meu garoto voltou. Querido, infelizmente uns tem sorte na vida e outros... Precisa haver os que fodem e os que são fodidos. É a vida. Não é bom fazer parte dos fodidos, mas o que importa mesmo é viver. Do jeito que dá. Acha que tenho remorso de roubar esses cretinos? Eles não se importam comigo. Eles querem algo que eu tenho e eu quero o dinheiro deles pra sobreviver. Nenhum homem vai bater na minha porta e dizer: Ei, Vanya, quer casar comigo e sair dessa vida? Não, Alex. Quando querem casar, eles vão atrás das puritanas. Como ninguém vai dizer pra você: Ei, garoto, quer fazer parte da minha família, já que perdeu a sua? Não. Eles fazem seus próprios filhos, não precisam pegar os filhos das ruas. As pessoas não ligam, querido. Elas não se importam com o sofrimento das outras. Por que você vai se importar com o sofrimento delas? Elas sofrem em suas casas confortáveis com refeições na mesa. Pensam que sabem o que é sofrer!

Krycek bebe a vodka num gole só. Coloca o copo sobre a cômoda, pega a nota de rublo e aspira uma carreira de cocaína. Sacode a cabeça.

KRYCEK ADOLESCENTE: - Preciso ir.

Vanya o puxa pelo braço. Empurra Krycek contra a parede. Os dois se olham. Vanya leva a mão dentro das calças de Krycek, o massageando. Ele fecha os olhos, nervoso.

VANYA: - Já sentiu isso? Hum? É gostoso, não é? Hum... Grandinho pra sua idade, não? (MORDE A ORELHA DE KRYCEK) Me diz que não gosta, moleque, e eu paro. Porque eu tô cansada de coisa velha. Hoje eu não quero trabalhar, quero me divertir. Também quero fugir da merda da realidade!

KRYCEK ADOLESCENTE: - E-eu...

VANYA: -Você sabe que é uma gracinha, não sabe? Eu posso ensinar tudo o que precisa sobre mulheres. Em primeiro lugar, elas gostam de homens rudes e sérios.

Vanya empurra Krycek na cama. Fica sobre ele, descendo a mão pelo zíper das calças. Krycek tenta levantar, mas ela o empurra com força, metendo um tapa nele.

VANYA: - Selvagem, garoto. Seja selvagem! O amor é uma ilusão, ele não existe. O que existe é apenas interesse do homem e da mulher. Aprenda isso agora ou vai se machucar pensando em donzelas que nunca irá ter. É a regra da vida.

Vanya abre as calças dele, levando a boca. Krycek fecha os olhos, angustiado.

KRYCEK (OFF): - Minha primeira vez foi com Vanya. Ela estava chapada e de porre completo e eu me senti muito mal. Ela tinha os cabelos mais louros que eu já vi e 35 anos de idade. Eu tinha 15. Me apaixonei... É tão fácil se apaixonar aos 15 anos... Ainda mais quando você recebe carinho, abraços e colo pra chorar. O que aprendi sobre sexo e relacionamentos amorosos, aprendi com uma prostituta, num quarto de pensão em Moscou. Quando ela não tinha clientes, nós transávamos. Algumas vezes ela atendia mulheres da elite. Elas pagavam melhor que os homens. Se a prostituição já era crime, o lesbianismo então era passível de linchamento... Outras vezes as madames me queriam no pacote, acho que me entende. Aí eu tirava um extra sem precisar roubar por uns dias. Até que Vanya foi para Leningrado com um primeiro oficial. E partiu meu coração...


6:21 P.M.

Karel e Krycek sentados no colchão. Escutam rádio. Krycek conta dinheiro. Karel de rosto virado pra parede, sem falar com Krycek.

KRYCEK ADOLESCENTE: - Sua ideia de assaltar o judeu dono do mercado deu certo. Temos dinheiro pra dar o fora daqui, antes que a polícia nos pegue e nos mande pra alguma fazenda pra trabalhar duro. Não sou fazendeiro. Sou artista.

KAREL ADOLESCENTE: - (EMBURRADO) ...

KRYCEK ADOLESCENTE: - Prefere ir pra Ucrânia, pra Saint Petersburg ou prefere ir para...

KAREL ADOLESCENTE: -Prefiro que você vá pra puta que o pariu, Alex! É isso o que eu prefiro!

Krycek olha incrédulo pra Karel.

KRYCEK (OFF): - Vanya chamava Karel de 'florzinha'. Na verdade, Karel era gay. Ele nunca dizia isso, nem eu acreditava, até que o flagrei... Prestando favores sexuais pra um velho num beco, em troca de dinheiro. Então eu descobri o que ele fazia pra conseguir dinheiro pra gente... Jamais deixei ele perceber que eu sabia, para não deixa-lo constrangido. Mas isso não me incomodava. Pouco me importava o que ele fazia, se gostava de homens. Isso não tirava o caráter dele. Karel era meu amigo. Meu único amigo, a única pessoa em quem eu confiava, ele daria a vida por mim e com toda a certeza, eu daria a vida por ele. Éramos irmãos, não de sangue, mas irmãos de destino. Quando um caía, o outro segurava a barra. Nada iria nos separar. Nada... Eu pensava. Fizemos um pacto de sangue, quando garotos. Aquele orfanato, um depósito de meninos, um lugar sujo, cruel e violento, a gente trabalhava pra ter direito de comer, e muitas vezes não tinha comida porque o governo não dava. Apanhava apenas por respirar e sabia que assim que tivéssemos força nos braços, eles nos mandariam para um gulag, quebrar pedras ou algo assim. Alguns ficavam doentes e acabavam morrendo, outros ficavam tão deprimidos que se matavam. Não tinha assistência social. E quem iria reclamar?Então fugimos antes de morrer ou acabarmos num gulag.

Krycek abaixa a cabeça. Divide o dinheiro em duas partes. Entrega uma pra Karel.

KRYCEK ADOLESCENTE: - Não sei porque você está agindo comigo desse jeito. Toma sua parte.

KAREL ADOLESCENTE: - Porque eu sei que você anda transando com aquela prostituta! É por isso!

Karel levanta-se.

KRYCEK (OFF): - Na verdade eu sabia porque Karel estava furioso. Digamos que na cabeça dele, o fato de eu ser a única pessoa que se importava com ele, o fez... Se apaixonar por mim. Talvez Karel não dissesse isso porque sabia que eu não gostava de meninos, eu poderia ficar furioso e o deixaria sozinho. E ele não queria ficar sozinho. Nem eu. A gente morava juntos num cortiço abandonado. Ele fazia o que precisava pra sobreviver e eu também. E no final do dia, nos sentávamos, conversávamos e contávamos como havia sido o dia de cada um. Algumas vezes eu saía à noite e ele também, eu pra roubar pras prostitutas e ele... Pra se prostituir.

Krycek abre a caixa de engraxate.

KRYCEK ADOLESCENTE: - E qual o problema? Eu devia ter transado com alguma garota de melhor classe? Acorda, Karel! Somos dois ladrões, vagabundos, o que podemos esperar da vida? Garotas de tranças do colegial? Netas de algum líder político? As filhas de algum oficial do partido comunista?

Krycek retira da caixa uma arma. Karel olha assustado pra ele.

KAREL ADOLESCENTE: - Aonde conseguiu isso?

KRYCEK ADOLESCENTE: - Roubei de um dos clientes de Vanya. Agora temos proteção.

KAREL ADOLESCENTE: - Joga isso fora, por favor! Alex, roubamos pra viver, não quero ver você matando gente! Aquela mulher encheu sua cabeça de coisas erradas! Você está agindo feito uma pessoa sem fé e amargurada! Você bebe, cheira, fica dopado e sabe o que pode fazer!

KRYCEK ADOLESCENTE: - Fé? Você acha que posso esperar algo da vida? Você espera? Somos garotos de rua, Karel! Fomos criados pela rua, acha que na rua se aprende outra coisa a não ser sobreviver? Acredita que vai sair dessa? Acha que eu não queria estar na escola? Que eu não queria ter um carro? Uma casa linda, cheia de confortos? Eu já disse a você que um dia eu saio desse país. Eu vou viver na América. Beber Coca-Cola. Ter minha casa, minha independência. Eu vou pra Nova Iorque. Sabe o que é Nova Iorque?

KAREL ADOLESCENTE: - Você perdeu seus sonhos, Alex. Não devia perdê-los. Eles podem se realizar. Você está se transformando num monstro hipócrita, mentiroso, de duas caras, que só pensa em si mesmo! Esse não é você! Não é mesmo! Nem sorrir você consegue sorrir mais!

KRYCEK ADOLESCENTE: - Eu não perdi meus sonhos! Eu vou ser cantor, você vai me ver um dia no teatro de Moscou, com a plateia lotada! Eu serei um grande homem, você vai ver!!!!


2003 - TEMPO ATUAL

Krycek sentado na poltrona, olhos parados num ponto de fuga.

KRYCEK: -Karel tinha razão, eu estava virando outra pessoa. Olha o grande artista, o grande homem aqui à sua frente, Barbara. O grande artista da mentira, da conspiração... Eu consegui a minha fama. Como o canalha bastardo que todo mundo conhece e aponta o dedo acusador. E nem posso condenar as pessoas por fazerem isso. Eu não mereço e nem quero a piedade de ninguém. Eu juro pra você que algumas vezes fico amaldiçoando aquele agente da KGB que não apertou o gatilho contra a minha cabeça. Teria sido melhor morrer uma criança inocente que viver pra ser um homem torturado pelo passado.

Barbara levanta-se da cama, angustiada.Vai pra cozinha.

BARBARA: - Vou pegar uma cerveja, Alex. Preciso de uma... Quer?

KRYCEK: - Não. Mas aceito uma vodka. Preciso de algo mais forte.

BARBARA: - As pessoas julgam você sem ao menos perguntar o porquê das suas atitudes. Acho que isso nunca vai mudar, sabe? Hermoso, você ficou viciado em drogas?

KRYCEK: - Por um tempo. Depois passei por uma desintoxicação forçada e as coisas mudaram.

BARBARA: - Seu irmãoKarel parecia prever o que aconteceria com você quando pegou aquela arma.

KRYCEK: - Uma arma dá coragem, sabia? Quando você tem ela na mão, você acha que pode tudo. É um pensamento automático, instintivo. Você tem o poder nas mãos. Da vida e da morte. E perde o medo. E eu perdi.

Barbara volta com a cerveja e um copo de vodka que entrega pra ele. Senta-se na cama.

BARBARA: - De um garoto doce, sonhador e quieto... Meu Deus, Alex! E não o culpo por isso.

KRYCEK: - Eu me culpo. Tomei decisões erradas.

BARBARA: - Alex, por favor! Que decisões erradas? Fala da arma? Você podia matar com as mãos se quisesse, tamanho o ódio em você e a necessidade de sobreviver nesse caos. Você não escolheu essa vida! Você foi atirado nela!

KRYCEK: - ...

BARBARA: -Hermoso, a família, por pior que seja, é o suporte pra tudo na vida. E tiraram a sua. Sua vida mudou depois que você os perdeu. Se os tivesse, certamente teria sido outra pessoa. Sua mãe era uma mulher trabalhadora e honesta. Seu pai um jornalista e escritor que lia Dostoiévski e ensinava inglês para uma criança! Querido, você teria sido além de um grande artista, um filósofo, um sociólogo, um doutor no que quisesse e qualquer universidade abriria as portas pra você. Mas arrancaram as suas oportunidades, sua infância, seu futuro no dia em que mataram o seu pai. Entende isso? Se ao menos tivesse sido adotado, mas Vanya tinha razão mesmo. Ninguém se importa.

KRYCEK: - Você fala como o Mulder. Mas eu acho que sou culpado.

BARBARA: - Nem seu pai foi culpado. Vocês foram vítimas de um maldito sistema! Pelo amor de Deus, Alex! Sua mãe morreu doente, seu pai foi morto, atiraram você num depósito de crianças pra morrer e você ainda acha que foi sua culpa? Eles criaram o monstro... Como criam muitos ainda hoje. Enquanto a sociedade não entender que as crianças de hoje são o futuro de amanhã, nunca poderemos bater no peito e dizer que somos humanos, porque não somos! Sabe qual o maior veneno do nosso sistema agora? Dizimar as famílias. Eu posso parecer absurdamente careta no que vou dizer, mas desde que permitiram o divórcio por qualquer motivo, as pessoas passaram a casar sem responsabilidade alguma, porque se não der certo, separa. E os filhos? Ah, existem novos tipos de família. Hollywood apresenta todos os tipos, todos os dias nas telas das televisões e a falsa maravilha com crianças felizes e sem transtornos. O inferno que existe! Nada substitui um pai e uma mãe dentro de uma casa. Nem padrasto, madrasta, amante da mãe, do pai, o que seja! O amor de quem gera é muito diferente.

KRYCEK: - ... Concordo com você sobre isso.

BARBARA: - Isso me revolta, sabia? Ok, não vamos aos extremos, tem casos que é melhor o divórcio. Tem mães que criam os filhos sozinhas porque os pais caem fora... Tem mulheres que engravidam pra segurar os caras, como se isso segurasse homem. Tem de tudo. E as crianças são sempre as que saem perdendo. O que estou falando é que as pessoas não têm consciência da seriedade de ter um filho. É uma vida colocada no mundo, não é um brinquedo descartável.

KRYCEK: - Eu concordo com você. Eu não posso me queixar dos meus pais. Eu tinha amor. Mais amor do que bronca. Poucas vezes levei alguma bronca. Eles me ensinavam limites.

BARBARA: - Ah, entendeu agora o que eu digo sobre tirarem tudo de você? Entende que seria diferente se você tivesse sua família? ... Tá, continua. O que aconteceu depois que roubou essa arma?

KRYCEK: - Custei a ter coragem para usá-la. Levou uns três anos pra fazer isso.


Moscou, 1980

Krycek, com 18 anos, anda pela rua. Karel ao lado dele. Os dois olham pra relojoaria.

KRYCEK: -É agora ou nunca. Vão nos dar uma bolada pelas jóias e nós dois vamos pra América. Já tenho quem nos atravesse pra Finlândia. O problema é atravessar os estados até chegar em São Petersburgo. Nem que vamos a pé, pelas florestas, mas vamos dar o fora desse país. Eu enchi! Cansei! Olha pra mim, consegui até agora realizar algum sonho?

KAREL: - Você canta. Você tem talento. Uma voz linda. Vai fazer sucesso. Eu sei que vai e eu tenho orgulho de ter você como amigo. Um amigo fiel é o melhor remédio que se encontra na vida... Lembre-se disso Alexander...

Krycek confere a arma dentro das calças. Tenso, fecha os olhos.

KRYCEK: -Nunca fiz isso... Deus, me perdoe, mas eu mato um se preciso for pra poder dar o fora dessa vida ordinária.

KAREL: - Acredita em Deus agora?

KRYCEK (OFF): - Tudo o que eu sabia de Deus, Karel me ensinou. Ele lia a Bíblia pra mim. Havia roubado uma da igreja ortodoxa cristã. Era o único livro que tínhamos acesso.

KRYCEK: -Não sei se acredito. Ele nunca olhou pro meu lado. Se existe é americano.

Karel suspira. Krycek ajeita as luvas nas mãos e o gorro na cabeça. Os dois se aproximam da relojoaria. Entram.

KRYCEK (OFF): - O que não sabíamos era que naquele dia, justo naquele maldito dia, a polícia e os soldados estavam pelas ruas. Havia uma manifestação contra o partido comunista. Os caras estavam armados até os dentes esperando pelos revoltosos. Mas pouco ligávamos pra isso. A vontade de sair daquela vida era maior.

O carro do exército russo estaciona na calçada. Alguns soldados tomam posição pela rua. Krycek e Karel saem em disparada da loja. O joalheiro grita, desesperado. Os soldados ao verem a confusão saem atrás do garotos. Eles tomam o velho beco conhecido. Param.

Close nos policiais armados que olham pra eles.

Krycek, nervoso, puxa a arma e mira neles. Karel grita. Os policiais miram as armas neles. Krycek deixa a arma cair ao chão. Os soldados chegam. Agarram os dois os colocando contra a parede e os revistando. Depois começam a bater nos garotos com violência.

KRYCEK (OFF): - Era o fim de uma era. De uma era pra Krycek e Karel. Nossa pena não foi uma fazenda e uma enxada. Não foi quebrar pedras num gulag. A única chance de redenção que tínhamos era entrar para o exército russo. E eu odiava aqueles caras. Mas parece que o sonho de mama, se realizaria. E o pesadelo de papa também.



BLOCO 3:

Ucrânia,1982

5:21 A.M.

Krycek com 20 anos, num uniforme de soldado, ao lado de Karel e outros rapazes. O sargento Sharapov, um russo alto e robusto, faz a vistoria.

KRYCEK (OFF): - Pensava no orgulho que mama sentiria se me visse naquele uniforme. E na revolta de papa, por eu estar fazendo parte do sistema que ele contrariava. Mas papa morreu e Brejnev continuava vivo e governando. A corrida armamentista estava mais rápida. Ainda não havia televisão a cores para os soviéticos. Se alguns poucos passavam miséria, agora passavam mais. O dinheiro era todo colocado em armas. Apenas o exército se mantinha bem. Brejnev queria derrotar a América... A vida havia melhorado pra mim. Em termos. O bom de tudo é que agora tínhamos cama, comida, um teto. E eu fazia parte do coral do exército russo. Eu estava estudando música a fundo, realizando o meu sonho. Estava gostando de ser soldado. Mas ainda queria saber que gosto tinha a tal Coca-Cola...

O sargento Sharapov continua a vistoria.

KRYCEK (OFF): - O lado ruim é que... Conhece a expressão "dedovshchina"?

BARBARA (OFF): - Ai, Alex...Dedovshchina é a prática informal de iniciação e bullying que o exército russo fazia com seus recrutas. Uma afronta aos direitos humanos.

KRYCEK (OFF): -Então. Logo que chegamos, tivemos que dormir no gelo, apanhamos na cara, banho frio no inverno ucraniano, comida com insetos, marchar na neve sem botas, chutes nas partes íntimas e todo tipo de coisa que faria qualquer um sair correndo. Só que Karel e eu não tínhamos pra onde correr. Então nos comportávamos ao máximo para não sermos alvos. Conforme o tempo passava, chegavam novos recrutas, e aí o sargento nos obrigava a fazer com eles as mesmas coisas que sofremos. Ou você fazia ou fariam com você. Conheci a violência com eles. Uma vez precisei espancar um rapaz com o cabo do rifle, com o sargento apontando a arma na minha bunda. Eu acho que fiquei dias sem dormir direito, nem podia olhar para o pobre do recruta, o remorso me corroía, mas se eu não tivesse feito, ficaria sem sentar por um bom tempo e ainda levaria a punição que não queria aplicar.

BARBARA (OFF): - Meu Deus, quanta crueldade!

KRYCEK (OFF): -Você nem imagina como é o treinamento do exército russo. Se as pessoas relutam a mudanças, imagine os militares. Eles estão no limite da resistência às reformas. Imagine mais ainda militares russos. A Guerra Fria continuava. Os rumores de um míssil, de uma outra bomba atômica, fazia o exército russo ampliar seu estoque de armas. As duas maiores potências nucleares estavam prontas para qualquer ataque. Em 20 minutos, uma bomba saída dos EUA ou da URSS iniciariam a terceira guerra mundial. Isso se sobrasse alguma coisa do mundo pra contar a história...

O sargento Sharapov para na frente de um soldado. Acerta um chute nas partes íntimas do rapaz que cai ao chão. Continua o chutando. Krycek fecha os olhos. Karel, trêmulo.

KRYCEK (OFF): - Você pode imaginar que eu temia eles. Mas não pode imaginar o medo que Karel sentia, pela sua condição sexual. Se eles descobrissem... O pior aconteceria... O comunismo não admitia homossexuais. O exército vermelho então... Eles eram perseguidos, torturados e mortos pelo governo. O sargentoSharapov, aquele miserável desgraçado, tinha o apelido de "Palach", o torturador. O cara era enorme, intolerante e inspirava medo em todos os soldados no campo. Um olhar dele bastava pro cara mijar nas calças.

O sargento olha para Krycek.

SHARAPOV: -Seu nome, soldado!

ALEX KRYCEK: - Alexander Krycek, camarada sargento!

SHARAPOV: -E você, soldado?

KAREL: - Karel Krasnov, camarada sargento!

SHARAPOV: -Vocês dois servem. Me acompanhem.

O sargento sai. Krycek e Karel o seguem.

KRYCEK (OFF): - Eu não podia entender porque Sharapov havia nos escolhido. Só com o tempo eu percebi que não nos escolheu à toa. Éramos garotos de rua. Se ele nos perdesse, seria um favor para o país, não teriam problemas com famílias querendo saber o paradeiro de seus filhos. Quando você precisa de dois bodes expiatórios, você arma pra cima deles, para ter o que argumentar na hora que os bodes tenham que pagar por um jogo que nem sonhavam estar.

O sargento puxa uma garrafinha de vodca de dentro da farda. Oferece. Krycek a pega, tomando um gole.

SHARAPOV: -Querem servir ao seu país, camaradas?

KRYCEK: - Sim, senhor.

KAREL: - Sim, senhor.

SHARAPOV: -Vou coloca-los numa missão de alto sigilo. Preciso de homens de coragem como vocês dois.

Os dois jovens se entreolham, empolgados.

SHARAPOV: -Uma aeronave americana foi abatida em espaço aéreo russo. Vocês farão parte de um grupo de resgate. Estejam prontos em dez minutos. Depois que resgatarmos a nave americana, vamos leva-la para Achinsk.

O sargento dá as costas. Krycek olha para a floresta.

KRYCEK (OFF): - Estávamos no meio da floresta ucraniana. Isolados. Teríamos que viajar horas para uma base militar de alta segurança, em Achinsk, região de Krasnoyarsk, na Sibéria. Eu não entendia porque, mas viria a entender depois o que era Tunguska.


5:34 P.M.

Krycek segue pela floresta coberta de neve. O frio intenso. Os MIG-21 sobrevoam rapidamente a área. Krycek olha pra cima. Karel atrás dele, lhe estende uma garrafa de vodca.

KAREL: - Chamam de MIG-21. É o caça mais rápido. Quero ver os americanos conseguirem fabricar um melhor.

KRYCEK: - Aposto que não leva muito tempo.

KAREL: - Você gosta de americanos, não é?

KRYCEK: - Eles sabem como viver.

KAREL: - (SORRI) Eu acho eles bonitos e atraentes.

Krycek cospe a vodca. Karel se flagra do que disse, ficando com as bochechas vermelhas. Krycek olha pra ele e começa a rir.

KRYCEK: - Quando chegarmos na América, você pode arrumar quantos namorados americanos quiser. Mas quando escolher um, lembre-se de que eu serei o padrinho do casamento.

Karel, mais calmo, começa a rir. Os dois seguem rindo e se empurrando, feito dois irmãos jovens, dividindo a vodca.

KRYCEK: - Eu tenho pensado. Se formos mesmo para Achinsk, a gente pode fugir e seguir para o sul, para a Mongólia. De lá podemos ir para a América. Só precisamos encarar um longo caminho de gelo e floresta, talvez conseguir carona...Não vai ser fácil atravessar a Sibéria. Podemos seguir a transiberiana.

KAREL: - Eu faço as fogueiras e você caça, porque me recuso a matar os animaizinhos. Com o treinamento que tivemos, acho que vale tentar. Imagina nós dois em Nova Iorque? Você cantando, eu livre pra poder fazer o que quiser... Quero estudar.

KRYCEK: - E o que pretende estudar?

KAREL: - Quero ser advogado. Vou defender as minorias. Gente como eu.

KRYCEK: - Nossa, eu apoio você. Tenho certeza que será um ótimo advogado. E não diga gente como eu, Karel. Todas as pessoas são gente. Não se diminua por gostar de homens.

KAREL: - Desde quando sabe disso, Alex?

KRYCEK: - Desde muito tempo.

KAREL: - E por que não fugiu de mim? Eu sou uma abominação da natureza.

KRYCEK: - Por que fugiria? Você é meu irmão. Não é abominação nenhuma. Apenas tem uma péssima predileção, mas fazer o quê...

Os dois riem.

KAREL: - Sempre respeitei você, Alex. Mas saiba que sempre amei você.

KRYCEK: - Eu sei. Só espero que entenda que amo você como um irmão. Eu não posso ser pra você nada além disso.

KAREL: - Eu sei e entendo, Alex. E está tudo bem. Eu me sinto seguro com você do meu lado.

KRYCEK: - Nesse sentido posso ser seu homem, meu amigo. Pra defender você. Fora disso, não dá. Eu gosto de mulher.

KAREL: -Você é quem tem uma péssima predileção, Alex.

Os dois riem.

O sargento Sharapov bem mais à frente, avança com o fuzil. Os soldados o seguem, atentos. Krycek e Karel vão bem mais atrás. Então todos param com receio, olhando incrédulos para as árvores queimadas e destruídas.

Foco na nave espacial em forma de charuto, semi-enterrada na neve.

KRYCEK (OFF): - Então eu entendi o que havia caído na floresta. Não era uma nave americana. Era longa, em forma de charuto, de uma cor escura, uma tecnologia que eu nunca tinha visto. E os tripulantes mortos não me pareciam americanos. Eram baixinhos, de cor marrom, olhos vermelhos. Um deles ainda agonizava quando o sargento sentou o cabo do fuzil na cara dele.

BARBARA (OFF): - Uma nave alienígena, Alex? Tripulada? Sério?

KRYCEK (OFF): - Sim. Como outras tantas que eu veria depois. Assim como os americanos, os soviéticos estavam interessados na alta tecnologia que aquelas naves poderiam trazer. E eu começaria a entender porque todo traidor russo temia ouvir o nome Sibéria.

BARBARA (OFF): - Por que além de ser o lugar mais frio da Rússia, era o mais abandonado?

KRYCEK (OFF): - Não. Porque na Sibéria havia Krasnoyarsk, região do evento Tunguska. Não era uma base, era um gulag de experimentos secretos. E era pra lá que todos os dissidentes e rebeldes iam. Virar experiência. Todos os soldados envolvidos no resgate eram da base de Achinsk, com exceção de Karel, eu e o sargento. Adivinha por que Karel e eu fomos os sortudos para a missão? Porque não significávamos nada pra eles. Acha que depois de ver o que vimos, iam nos deixar vivos? E se vendêssemos informações para os americanos? A paranoia soviética não tinha limites quando se tratava de tecnologia de guerra.

BARBARA (OFF): - Não foi lá que explodiu algo no céu em 1908, com uma potência demil bombas de Hiroshima? Diziam que era um meteorito, mas nunca ninguém encontrou nada.

KRYCEK (OFF): - Encontraram, mas não disseram. Por isso se concentraram por lá. Havia muito a estudar sobre aquela pedra. Bem, ajudamos a limpar a bagunça, esconder a nave, isolar a área e a retirar corpos da neve. De lá fomos fazendo escolta até a base em Achinsk. Depois eles levaram os caminhões com os corpos e não sei pra onde. E então o sargento nos disse que a partir daquele momento ficaríamos fixos emAchinsk.

Base Militar de Achinsk - Imediações deKrasnoyarsk - 9:12 P.M.

Krycek engraxa suas botas, sentado em seu beliche. Karel, deitado no beliche de baixo, brinca com o gorro do pai de Krycek. Krycek olha pra todos os lados. Os soldados dispersos, conversam, bebem, fazem faxina. Krycek inclina a cabeça pra baixo, olhando pra Karel.

KRYCEK: - Sobe aqui.

Karel levanta-se. Sobe pro beliche de cima.

KAREL: - (OLHANDO PROS LADOS/ SUSSURRANDO) O que está havendo?

KRYCEK: - (SUSSURRANDO) Não sei. Eu não creio que aquelas coisas que vimos são reais.

KAREL: - São extraterrestres.

KRYCEK: - (SUSSURRANDO) Fala baixo. Acho que levam todos pra Krasnoyarsk. Você viu, tinha locais de acesso restrito, alta segurança militar.Como acha que nós fabricamos esses MIGs?

KAREL: - (SUSSURRANDO) Imagine o exército russo com essa tecnologia? Explodiria os americanos!

KRYCEK: - (SUSSURRANDO) Mas ouvi eles dizerem que os americanos também tem alguns desses seres e naves por lá. Estão trocando informações. Dizem que essas coisas aparecem desde a Segunda Guerra.

KAREL: - (SUSSURRANDO) Americanos e Soviéticos trocando informações? Desde a Segunda Guerra?

KRYCEK: - (SUSSURRANDO) Sim. Eu disse a você que somos alienados de achar que eles não tem um tratado por baixo do pano. Meu pai dizia isso. Governos paralelos, Karel. Governos ocultos que comandam tudo. Escondem o jogo real. Você viu caras falando em inglês com cientistas. Haviam alemães. Estão todos juntos.

KAREL: - (SUSSURRANDO) E quem comanda esses governos?

ALEX KRYCEK: - (SUSSURRANDO) Sei lá. Mas com certeza não é uma pessoa bem intencionada.

KAREL: - (SUSSURRANDO) Isso deve ser coisa do diabo.

KRYCEK: - (SUSSURRANDO) Pare de falar em Deus e Diabo ou vão usar você em experimentos com aquelas coisas.

KAREL: - Você tá brincando...

KRYCEK: - Não estou. Estão usando civis e até soldados desertores pra isso. Tente ser o melhor possível aqui dentro ou vai terminar no matadouro da Sibéria, como experiência em Krasnoyarsk. Campo de trabalho forçado é a fachada! Na verdade a intenção é usarem as pessoas como cobaias! Há anos eles trazem pedaços de um meteoro caído que desenterraram da neve, em caminhões fechados, não sei o que existem naquelas rochas, mas estão pesquisando a fundo. Um colega disse que tem algo dentro delas parecido com petróleo.

KAREL: - (ASSUSTADO) ... Alex, você tá me assustando.

KRYCEK: - Então fique esperto. Ah, eu tenho uma coisa boa pra contar. Amanhã vou para Moscou. Vou cantar no teatro com o pessoal do coral.

KAREL: - (SORRI) Alex, sabia que conseguiria. Estou feliz por você. (ENCHE OS OLHOS DE LÁGRIMAS) Não se esquece de me dar um autógrafo antes de virar um artista famoso.

KRYCEK: - Nossa vida vai mudar, confie em mim. Vou aproveitar e fazer contatos. Um dia vamos dar o fora daqui, pedir asilo político nos Estados Unidos e você vai ser meu assessor.

Karel sorri. Krycek termina de engraxar as botas. O sargento se aproxima.

SHARAPOV: -Soldados Krycek e Krasnov. Boas notícias pra vocês. Hoje vocês foram os dois contemplados para o teste de resistência.


10:23 P.M.

Karel e Krycek sentados na neve, um ao lado do outro, no meio das árvores. Mesmo com gorros e jaquetas pesadas, os dois congelando, dividindo uma garrafa de vodca.

KRYCEK: -Aquele desgraçado do Sharapov fez isso de propósito! Sabia que amanhã era um dia importante pra mim. Por causa disso não vou mais pra Moscou! Acha que terei voz pra cantar depois de congelar aqui fora?

KAREL: - Conforme-se Alex. Vai surgir outra oportunidade pra você cantar no Teatro de Moscou... Pense assim: Se sobrevivermos a essa noite, sem ataque de urso, tigre ou lobo ou sem congelar, teremos um dia de folga. E vai ser um teste pra saber se temos condições de fugir pra Mongólia.

KRYCEK (OFF): - Fazia parte do treinamento do exército russo deixar os soldados nas piores condições humanas. Precisávamos sobreviver se houvesse qualquer guerra contra os americanos. Por isso nos testavam em todas as situações que podiam. Não éramos homens, éramos criados ali como máquinas de guerra, resistentes a toda e qualquer situação. Dormir sentado no gelo, dentro da água, tomar banho gelado, ficar nu numa temperatura de menos 10 graus... Sorte era sobreviver aos espancamentos quando você falhava em alguma missão ou não lustrava suas botas decentemente. Passamos a noite inteira, mal movíamos os pés e nossa pele se queimou com o frio. No outro dia, não pude cantar. Adoeci. Fiquei dois dias na enfermaria. Tive alta durante a madrugada do segundo dia. Quando voltei, tive uma surpresa. Foi onde o que já era terrível, ficou pior. Os dois bodes expiatórios teriam que ser sacrificados.


3:31 A.M.

Krycek entra no alojamento, enrolado num cobertor, com neve até pelos cabelos. Caminha até seu beliche. Os soldados dormindo. Krycek olha pro beliche vazio de Karel. Olha para o soldado no beliche ao lado. O acorda.

KRYCEK: - Onde está Karel?

SOLDADO: - Não sei.

KRYCEK: - Como assim 'não sabe'? Alguém aqui tem que saber.

SOLDADO: - Durma e não faça perguntas.

Krycek olha pros outros soldados, alguns rindo. Krycek pega o soldado pelos cabelos.

KRYCEK: - (AOS GRITOS) Sukin syn*!!!!! Onde está Karel?????? (*filho da puta)

SOLDADO: - Eles o levaram.

SOLDADO #2: - Por que se importa? Era amante dele?

Krycek fecha os olhos.

KRYCEK (OFF): - Descobriram que Karel era gay... Então um frio maior percorreu a minha espinha. Eu tinha que encontrar Karel e teríamos que partir antes que eles o matassem.

KRYCEK: - Pra onde o levaram?

SOLDADO: - Eu não sei. O sargento levou ele daqui.

Corte.

Krycek sai porta à fora, debaixo da neve que cai, segurando o cobertor por cima dos ombros. O termômetro no campo marca 15 graus negativos.

Ele caminha, os pés afundam na neve. Ele empurra a porta do prédio do comando e entra. Caminha pelo corredor e para na frente da sala do sargento. Tenta entrar, mas está fechada. Krycek então anda pelo corredor, abrindo todas as portas que consegue, procurando pelo amigo. Para em frente a porta do banheiro. Leva a mão com receio, empurrando a porta. Entra, silenciosamente. Para, olhando para os chuveiros. Um deles ainda está ligado. Krycek entra em estado de choque.

Karel está deitado nu e de bruços no chão de ladrilhos. Surrado e espancado, rosto irreconhecível. Sangue escorre entre as pernas dele. A água do chuveiro leva o sangue do jovem pelos ladrilhos até o ralo.

Krycek corre até o amigo, tentando acordá-lo. Ao virá-lo percebe o furo da bala que saiu pela barriga. Karel não respira. Está morto. Krycek o segura nos braços, dando um grito alto de dor e ódio.

KRYCEK (OFF): - Talvez você possa imaginar o que Sharapov fez com Karel...

BARBARA (OFF): - O espancou?

KRYCEK (OFF): - (VOZ EMBARGADA)O espancou, estuprou e... Pelo ângulo da bala saindo pelos intestinos... Deve ter enfiado a arma nele e atirado, entendeu? Ele era gay, não tinha o direito de existir no mundinho daqueles bastardos desgraçados. O meu irmão, entende? Ele era a única pessoa que eu tinha no mundo... Ele... Ele nunca fez mal pra ninguém... Nem pra um bicho quanto mais um ser humano... Mataram ele como não se mata nem um animal!

BARBARA (OFF): - Alex, você está chorando. Quer respirar um pouco, hum? Você não tá legal.

Krycek solta o corpo de Karel. Coloca o cobertor sobre ele. Fica sentado, chorando, com as mãos no rosto.

KRYCEK (OFF): - Me dá um copo de vodka. Eu vou contar tudo pra você, eu preciso. Eu preciso contar. Eu preciso achar aquele desgraçado ainda, ele vai pagar por tudo o que ele fez!!! Muitos anos depois eu voltei pra Krasnoyarsk, Pescow me fez voltar porque armamos pro Mulder, e lógico que Mulder caiu. Fomos juntos para aquele lugar maldito, porque fiz Mulder entender que eu falava russo. Marita deu as passagens e o visto pra ele e eu dei a informação sobre aquela desgraça alienígena. O que Pescow, Marita e eu queríamos era testar o óleo negro em Mulder, porque estávamos desconfiados que ele era imune e poderia nos dar a vacina. Os americanos estavam nos passando a perna como sempre, escondendo o jogo. O Fumacinha nunca nos deixaria pegar Mulder em solo americano. E não era por amor paterno não. Era porque queria que os americanos detivessem a vacina.

BARBARA (OFF): -É, pelo visto a guerra fria continua.

KRYCEK (OFF): - Ela nunca acabou, Barbara. Fora isso eu também tinha interesses particulares emKrasnoyarsk. Conversei com todos para descobrir aonde Sharapov estava. Me disseram que Sharapov não estava mais lá e nem em Achinsk. Que sumiu. O que perdi nisso? Um braço! Porque acharam que eu estava contaminado com aquela merda! O mesmo braço que ganhei de volta sendo cobaia do Strughold! E se não tivesse funcionado? Ahn? Felizmente funcionou, porque Strughold estava muito dedicado, precisava encontrar um jeito de restaurar as pernas da neta dele que perdeu as duas em um acidente! Espero que ela não tenha as dores lancinantes que eu tenho até hoje!

BARBARA (OFF): -Eu lamento, Alex...

KRYCEK (OFF): - Não lamente, Barbara. Minha mama dizia que quem busca a vingança acaba ferrado. E foi isso o que aconteceu... De novo. Porque não aprendi a lição da primeira vez. E acho que não vou aprender nunca, porque eu ainda quero matar aquele sargento desgraçado!

Krycek olha para Karel morto e num ataque de raiva, se levanta e sai pela porta do banheiro, tomando o corredor.

KRYCEK (OFF): - Eu assinei minha sentença de morte quando Karel morreu. Estava tão revoltado com a morte dele, que não pensei em mais nada. Na minha mente vinham flashes da mama sobre a máquina, morta pelo sistema de fome do comunismo, do meu pai morto segurando seu livro de poemas e do meu amigo gay morto porque amava homens... Eu fui até o alojamento. Peguei minha arma. A bola de neve agora crescia mais. Eles tiraram de mim a última pessoa que me restava. (VOZ EMBARGADA) O meu irmão. O meu amigo. Uma pessoa humana, mais humana do que eles! Ele não fez nada contra ninguém! Não merecia morrer! Ele só tinha 20 anos e a vida toda pela frente.

Corte.


O sargento Sharapov assiste um show na TV P&B. Sentado, pernas sobre uma mesa. Krycek adentra a porta com a pistola. O sargento olha pra ele.

SHARAPOV: -Você não mata nenhum rato, soldado Krycek. Aliás você é um rato. Você nunca terá a coragem de puxar esse gatilho.

Krycek, mãos trêmulas, aperta o gatilho.

KRYCEK (OFF): - Foi a primeira vez que atirei contra alguém. Me lembro de Sharapov permanecer sentado, olhando pra mim assustado, com a orelha sangrando. Não demorou muito e chegaram os soldados que estavam fazendo a segurança.

Os soldados entram e seguram Krycek. O sargento se levanta, passando a mão na orelha, observando o sangue. Aproxima-se de Krycek. Mete um soco no estômago dele. Krycek se encolhe.

SHARAPOV: - (GRITA)Levem esse traidor para a sala vermelha do juízo!!!


5:10 A.M.

Krycek desacordado e nu na cela escura. De frente para a parede, pendurado com as mãos acorrentadas nas grades da janela.

KRYCEK (OFF): - A sala vermelha do juízo era o porão. Não era vermelha. Era apenas uma alusão ao regime. Onde os vermelhos faziam os traidores do regime aprenderem a ter juízo. Para Sharapov, o Palach, era a sala favorita dele.

Sharapov entra na sala. Tranca a porta. Pega um balde de água fria e joga em Krycek. Ele se acorda.

SHARAPOV: - Eu sei que sabe minha fama. Mas não sou como dizem. Sou pior que isso.

Krycek começa a tremer de frio, quase congelando.

SHARAPOV: - Está com frio, soldado Krycek? Vou esquentar você.

Sharapov pega dois fios que estão ligados a uma bateria e dá uma descarga elétrica em Krycek que grita.

SHARAPOV: - Acho que agora está mais quente. Vamos estabelecer algumas regras, soldado. Você atirou contra o seu sargento. Isso é um crime passível de punição e exílio. Acho que esta parte da Sibéria não está tão fria, talvez precise ir pra uma parte mais gelada.

KRYCEK: - Você matou Karel!!! Eu sei que foi você!!!

Sharapov dá outra descarga elétrica em Krycek. Ele grita.

SHARAPOV: - Quem é Karel? Aquela bicha? Eu fiz um favor para o Estado.

Krycek tenta se virar, mas não consegue, com os olhos cheios de ódio.

KRYCEK: - Eu vou te matar desgraçado!!!

Sharapov acerta socos nos rins de Krycek que urra de dor. Então tira as correntes. Krycek cai ao chão.

SHARAPOV: - Quer me matar, soldado? Ahn? É isso o que quer?

Sharapov começa chutar Krycek, que se encolhe no chão.

SHARAPOV: -Tem algum parente que reclame o seu corpo ou posso atirá-lo aos lobos? Seu bosta de gente!

Sharapov se inclina e ergue Krycek pelos cabelos. Atira ele contra a parede. Krycek tonto, cambaleia.

SHARAPOV: -Aqui é o inferno, soldado Krycek. E eu sou o demônio.

Sharapov agarra Krycek pelos cabelos e dá com o rosto dele diversas vezes contra a parede. O sangue começa a espirrar. Ele solta Krycek que cai no chão, gemendo de dor e desatinado. O sargento retira um maço de cigarros, acende um calmamente e traga. Coloca o pé com a botina pesada na lateral do rosto de Krycek, forçando o rosto dele contra o chão.

SHARAPOV: - Estou há dez anos nesse campo e não será um marginal imbecil que vai colocar minha honra no buraco! Seu amigo teve o destino que todo bicha deve ter. Pense nisso como um favor. Mais cedo ou mais tarde, alguém iria fazer.

KRYCEK: -(MURMURA/ CANSADO) Desgraçado... Eu juro que vou te matar!!!

O sargento aperta mais ainda a botina contra o rosto de Krycek.

SHARAPOV: - Vai mesmo? Aposto que mato você antes, camarada.Linha dura. É o que sempre digo. Precisamos de homens linha dura no exército, não de maricas. Ty gey*, Alex Krycek? Hum? Amante do seu amiguinho?(*É gay)

Sharapov se agacha e apaga o cigarro no pescoço de Krycek. Krycek grita. Sharapov o ergue pelos cabelos, atirando Krycek de bruços por cima da mesa.

SHARAPOV: - Agora, 'camarada'... Tenho algumas pendências a resolver com você... Vou dar a você o tratamento que todo fresco recebe aqui.

Sharapov abre o zíper das calças.

SHARAPOV: - Seu amiguinho gostou.

2003 - TEMPO ATUAL

Barbara morde os lábios, deixando as lágrimas caírem, sentada na cama, de frente para Krycek na poltrona. Ele cabisbaixo, chorando com as mãos no rosto.

BARBARA: -Alex...

Barbara vai até ele. Krycek se abraça na cintura dela, chorando. Ela afaga os cabelos dele com carinho, mantendo o rosto dele contra seu ventre.

Krycek chora de ódio. Levanta-se. Esmurra a mesa, derruba coisas no chão, gritando em russo, com revolta. Barbara abaixa a cabeça. Krycek se encosta na parede, deixando o corpo cair ao chão.

KRYCEK: -(ÓDIO/ CHORANDO) Eu sumi do meu corpo... Eu quero matar aquele maldito desgraçado!!! Queria me ver chorar, Barbara Wallace? Está vendo. Mas eu mereço não é? Eu quis ser o cara mau. Eu nasci mau! Todo castigo pra mim é pouco. Quem liga pro meu lado da história? Hum? Quem se importa com o rato do Krycek? Ele é mau e pronto. É mais confortável. Questionar custa neurônio!

Barbara olha pra Krycek, com ternura. Ele fica sentado ali, com ódio de si mesmo, secando as lágrimas e tentando ser durão.

BARBARA: - ... Eu me importo... Alex... Mulder sabe disso?

KRYCEK: -Mulder sabe tudo. Alguém precisa saber da minha verdade. Alguém tem que me escutar! Alguém que queira me ouvir! Não alguém que esteja apenas querendo ver o lado bom da vida! A vida não tem lado bom! Não tem! Você tem que foder os outros antes que eles te fodam! Matar antes que te matem! Mentir antes que enganem você! Sobreviver, Barbara Wallace, apenas sobreviver!

BARBARA: - Alex, você pagou um preço por querer fazer justiça a um amigo. Você não tem uma natureza ruim. Não pode se condenar por isso. As pessoas não nascem más ou fazendo coisas más. Elas são jogadas na vida. Você foi uma vítima de um tempo da história humana. Vítima de um sistema.

KRYCEK: - Não justifica.

BARBARA: - Justifica sim, Alex. Acho que o que mantinha você era seu sonho de ser cantor e a amizade de Karel. Mas as coisas foram atropelando você, como uma bola de neve mesmo.

Barbara senta-se no chão ao lado dele.

BARBARA: - Se você quer continuar a desabafar, eu estou aqui. Isenta. Uma ouvinte. Uma amiga. Alguém que pode compreender e sentir as coisas pelas quais você passou.

KRYCEK: - Sabe como isso mexe com a cabeça de um homem? Eu sou menos homem por isso? Agora que sabe disso, você vai desistir de mim?

BARBARA: - Hermoso, desistir de você porque você foi estuprado covardemente? Tá maluco? No que isso afeta sua masculinidade? Isso só explica porque você não gosta que passem a mão no seu traseiro, é um trauma. Eu não desistiria de você por nada, ainda mais agora que sei o gosto dessa vodka! (BRINCANDO) Se quando eu pensava que você era amante da Scully e do Mulder eu nem assim desisti! E olha que achava que você era bissexual, afinal a Scully tava louca naquela época e insinuou isso pra me afastar de você. E eu me afastei? Nem assim! Continuei firme na desculpa de "é só trabalho". Eu queria mesmo era trabalhar em você!

Krycek começa a rir entre lágrimas.

BARBARA: -Depois daquilo na cozinha, dos orgasmos que eu tive naquela cama... Acho difícil acreditar que você ainda pense que é menos homem.

Barbara envolve o braço nele, sorrindo.

KRYCEK: - Piadinhas bobas ajudam. Pelo menos você desvia o foco.

BARBARA: - Mas não é piada não. Você me fez rir, mas por outro motivo. Alex Krycek, você é quente. E admito, o melhor homem que eu já tive. Você é cafajeste, másculo, viril... Aquela jaqueta me deixa louca. Até posso entender o que a ruiva gostou. Mas quem levou fui eu! Ela que sossegue com a raposa dela. Agora me conta, Mulder é, né? Ele tem todo o jeito pra coisa.

KRYCEK: -(RINDO) Pobre do Mulder, ele não é gay. E você tá dizendo essas coisas só pra me animar.

BARBARA: -Estou dizendo isso porque é verdade. Pra animar você eu tenho outras coisas em mente... Mas só vamos fazê-las quando você jogar tudo pra fora. Limpar seu coração. Eu não vou desistir de você não, mi ratoncito. Eu amo você e vou ajudar você a superar todas essas lembranças. Limpa seu coração, meu amor. Desabafa tudo. E vamos juntos enterrar esse passado e construir algo bom. Hum?

Krycek fica cabisbaixo.

KRYCEK: - ... Fiquei jogado naquele porão por dias, eu não sei bem quantos, porque perdi a noção do tempo. Com fome, sede, frio, dor, com nojo de mim mesmo e ódio... Ah, o ódio me alimentava. Quando eu pensava em desistir e me entregar, também pensava em quem faria justiça pelo Karel? Então o ódio voltava. A justiça era pelo Karel. A vingança era por mim. O ódio me fez resistir às torturas daquele cretino, desde choques a pau de arara, surra com correntes, ameaças de mais estupro, pancadas nas solas dos pés, queimaduras de cigarros e coisas que eu não tenho coragem de contar.


Base Militar de Achinsk - Imediações de Krasnoyarsk - 2:12 P.M.

A porta do porão se abre. Krycek sentado no chão, ergue o rosto, todo machucado com sangue pelo rosto e corpo. O sargento entra, fumando. Krycek recua feito um animal assustado.

KRYCEK (OFF): - O ato de atirar no desgraçado e ter errado não foi o crime que ele usou pra me acusar diante do general e cometer as atrocidades que estava cometendo comigo. O crime que Sharapov inventou ao general de campo foi: O soldado Krycek foi pego vendendo informações para o governo americano, matou seu colega e tentou me matar. Provas disso? Sim, ele tinha. Ele fabricava provas. Eu não sabia, mas o maldito vazava informações para os americanos, o exército suspeitava de alguém no campo, e eu era o prato a ser servido. O bode expiatório aqui ainda acreditava em justiça. Acreditava na verdade. Mas depois disso, eu nunca mais acreditei em verdade e justiça. Isso são lendas que otários como Mikhail Krycek e Fox Mulder acreditam.


2:31 P.M.

O General de Campo sentado em seu gabinete. O sargento Sharapov observa pela janela. Sentados ali homens da alta patente do exército russo. O agente da KGB Vassily Pescow, com um gorro russo, encostado contra a parede, observa a sala em silêncio.

Dois soldados entram, empurrando Krycek, amarrado pelas mãos, com sinais de espancamento e tortura. Cansado, roupas molhadas, cabelos molhados. Como todo russo, eles falam aos gritos.

KRYCEK: - (ASSUSTADO) Ya ne predatel' !!!!! (Eu não sou traidor*)

GENERAL DE CAMPO: - Por que você matou o soldado Krasnov? Ele sabia do seu envolvimento com os americanos?

KRYCEK: - Eu não matei Karel! (APONTA PARA O SARGENTO) Aquele desgraçado o matou!

GENERAL DE CAMPO: - Eu perguntei por que matou seu amigo? Para que ele não revelasse que você era um traidor?

KRYCEK: - Ya ne predatel'!!!!!

O General de Campo olha para o sargento Sharapov. Pescow atira uma pasta de documentos TOP SECRET sobre a mesa do general.

PESCOW: - Como conseguiu isso, soldado Krycek?

KRYCEK: - Eu não sei o que é isso!

GENERAL DE CAMPO: - Isto foi encontrado em suas coisas. Para quem ia entregar estes documentos?

KRYCEK: - Eu não sei do que está falando, senhor! Nunca vi isso antes, nem sei do que se trata!

GENERAL DE CAMPO: - Sabe que traição é um crime passível de morte, soldado Krycek?

Krycek olha assustado para Pescow no uniforme da KGB.

KRYCEK: - Eu não sou traidor, eu nem sei do que estão falando, camarada.

PESCOW: - Sou o Agente Pescow, da KGB.

KRYCEK: - (RI) KGB? Ótimo! O que faz a KGB aqui?

PESCOW: -Ele não é idiota.

KRYCEK: - Não, eu não sou! Vocês é que são loucos? Como podem acreditar nesse sargento cretino? Eu nem sei do que se tratam esses papéis!!!

PESCOW: - Seu pai foi morto por traição ao governo comunista. A fruta não cai longe do pé.

KRYCEK: - Minha palavra não basta? Pergunte aos outros! Ninguém me viu vendendo porra nenhuma de informação!!! Eu nem saio desse lugar!!!!

SHARAPOV: - Apenas cumpriu uma missão em Krasnoyarsk.

PESCOW: - O que diz nesta pasta, camarada Krycek?

Krycek olha para a pasta. Olha incrédulo para o sargento Sharapov.

PESCOW: - Krasnoyarsk. São documentos pertencentes a Krasnoyarsk, arquivados em Krasnoyarsk, elaborados em Krasnoyarsk. Os dois únicos estranhos que estiveram lá na semana em que esta pasta foi roubada eram você e o soldado Krasnov, que você matou, porque temos suas pegadas no banheiro, suas digitais por todo lugar e no corpo da vítima.

KRYCEK: -(REVOLTADO) Seus... Eu não fiz isso!!! (APONTA PARA O SARGENTO) Foi ele!!!!!

GENERAL DE CAMPO: - Sabe que agredir um superior e matar um colega de farda também é crime de traição? Acha que roubar documentos secretos do governo russo e entrega-los para americanos merece apenas um pedido de desculpas?

Krycek olha com ódio para Sharapov. Pescow observa.

KRYCEK: - Seu desgraçado!!!!! Você espancou, estuprou e matou o Karel e agora quer colocar a culpa em mim? Vocês viram o corpo, eu jamais faria isso com meu amigo!!!

Krycek tenta soltar as mãos. Os soldados o seguram. O General de Campo olha para os oficiais. Eles afirmam com a cabeça.

GENERAL DE CAMPO: - Soldado Alexander Krycek, pelo poder concedido a mim neste campo e sob supervisão de meus superiores, o governo soviético condena você por crime de traição. Você irá para o gulag de Krasnoyarsk e passará o resto da sua vida na prisão e em trabalhos forçados. Levem ele daqui!

KRYCEK: - (AOS GRITOS) Net!!! Net !!! Ya ne predatel'!!! (Não!!! Não!!! Eu não sou traidor!!!)

Os soldados o levam em direção à porta. Krycek olha para trás, com ódio, gritando com o sargento.

KRYCEK: -lzhets!!! Negodyay!!! Idi na hui!!! (Mentiroso!!! Bastardo!!! Vá se foder!!!)


3:29 P.M.

Dois soldados atiram Krycek numa cela. Sharapov se aproxima. Chutes, socos e tapas em Krycek. Depois o agarra pelos cabelos dando com a cara dele contra as grades até Krycek cair no chão.

KRYCEK (OFF): - Me jogaram numa cela, para aguardar a chegada dos oficiais que me levariam pra Krasnoyarsk. Eu não aguentava mais de tanto que apanhei. Fechava meus olhos e pedia pra acordar. Estava fraco, cansado, com fome. Sentia que ia desmaiar. A tortura não parava. A quem eu ia reclamar? Quando o Estado acusava, você só podia rezar. Quando o exército vermelho acusava, você só podia implorar pela morte rápida. Direitos? Que direitos?

SHARAPOV: - (AOS GRITOS) Como ousa contradizer a minha autoridade? Como se atreve a levantar questionamentos sobre a minha fidelidade ao partido, ao regime? A me inquirir na frente da KGB? Sabe quem é Pescow? É o homem abaixo do chefão da KGB!

O sargento começa a chuta-lo. Krycek urra com dor. Sharapov cospe na cara dele.

KRYCEK (OFF): - Eu tinha 20 anos quando entrei naquela cela fria e escura, aguardando o que fariam comigo, enquanto comia sopa com barata, apanhava todo o dia e rezava pra morrer. Eu queria me matar, mas não tinha como. Levaram dois anos para me julgarem oficialmente. Saí daquela cela aos 22 anos. Fui condenado como traidor do regime comunista e do exército vermelho. Fiquei doze horas preso numa masmorra do lado de fora, com menos 15 graus lá fora, até que viessem soldados de Krasnoyarsk para me escoltarem. Nu, sem comer e beber, aguardando a chegada da corte marcial. Com sorte, eu morreria antes. Sem sorte, me levariam para Krasnoyarsk vivo. E como estou aqui, você pode imaginar o quanto eu não tenho sorte.

6:45 A.M.

Dois soldados abrem a masmorra, coberta de neve. Um deles atira um cobertor pra Krycek, que está com cabelos longos e barbudo. Ele sai do buraco enrolado no cobertor. Os pés nus na neve. Completamente tremendo e congelado. Os soldados o empurram pela neve. Krycek, fraco, cai. Eles o erguem. Krycek olha para o sargento, falando com dois oficiais que aguardam ao lado do caminhão. O sargento olha pra Krycek. Sorri debochado.

SHARAPOV: - (RINDO) Ty moya suka... (Você é minha puta).

O ódio dentro de Krycek começa a se manifestar em seus olhos. Numa ação rápida, Krycek emite um urro como animal selvagem e com fúria solta-se dos soldados, avançando no sargento. Sharapov cai ao chão. Krycek o asfixia com as mãos.

KRYCEK (OFF): - Acabou o resto de bondade e fé que restava em mim. Havia virado um animal. Apertei o pescoço daquele desgraçado com toda a força que eu nem sabia mais que tinha. Enterrei a cara dele na neve. Nunca havia matado uma mosca na minha vida. Mas eu mataria o filho da mãe. Ele não tinha o direito de ter feito o que fez comigo e com Karel.

Os soldados tentam puxar Krycek, mas Krycek não solta o pescoço do sargento que já está ficando roxo. Krycek então morde a orelha do sargento, arrancando um pedaço com os dentes, olhando pros céus feito um animal que agradece a caça. Os soldados conseguem afastar Krycek, enquanto Sharapov grita e sangra. Krycek puxa a arma de um deles e atira na cabeça do soldado.

KRYCEK: - (FORA DE SI/ AOS GRITOS) Me deixem em paz!!!!!!!!!!!

Krycek mira a arma em Sharapov, mas o soldado acerta Krycek no rosto com o fuzil. Krycek cai na neve, desmaiado.



BLOCO 4:

Krasnoyarsk -1990

Tela se abre nas sombras humanas, refletidas na parede de pedras.

KRYCEK (OFF): -Escapei das experiências com alienígenas. Mas não escapei do sortilégio de espancamentos e maus tratos que todo traidor e assassino merecia. Inicialmentesem ver a luz do sol. Doze horas por dia pendurado pelos pulsos. Doze horas pendurado pelas pernas. Com os meses passando e novos guardas chegando, os substitutos que não conheciam Sharapov e nem tinham contato com ele, preferiam me mandar carregar e quebrar pedras, não queriam ficar gastando energia me torturando. De um garoto de rua e ladrão, eu passei para assassino, uma escalada rápida para alguém que sonhava em cantar no Teatro de Moscou. Brejnev havia morrido em 1982, tomou pentobarbitais em excesso. Em seu lugar assumiu Andropov, o chefe da KGB. Ele começou uma série de reformas econômicas, a perseguir os amigos de Brejnev, a lutar contra a corrupção que havia se criado. Mas a URSS já estava falida por gastar tanto em poder bélico. Então veio Konstantin Chernenko, que morreu em 1985 quando Gorbachev assumiu o poder para terminar com o comunismo. Eu passei minha juventude preso e torturado num gulag. Por traição. Um crime que nunca cometi. Então, Sharapov foi transferido paraKrasnoyarsk.

As sombras de dois homens com quepes. Um terceiro homem ao centro, amarrado pelos pulsos.

SHARAPOV: - Sentiu saudades minhas? Pois agora eu serei o seu sargento de novo.

A sombra do homem à esquerda ergue o bastão de madeira, arrebentando-o com força nas costas do preso. Ele grita. O corpo vai de encontro à parede, balançando.

Foco apenas na sombra do bastão que desce diversas vezes contra as costas do preso até que finalmente, os gritos dele cessam, cansado da tortura.

A sombra do corpo do preso cede, o deixando pendurado pelos pulsos.

O homem da direita agacha-se. O outro também. O corpo do preso cai, deixando nenhuma sombra restante na parede de pedras, a não ser a sombra das duas correntes.

Os dois homens de quepe erguem-se. Puxam as correntes para baixo. Surge então a sombra do homem preso novamente, desta vez as pernas para cima. Escuta-se leves murmúrios em russo. O homem da direita ergue o bastão e acerta nas solas dos pés do preso. Ele urra com dor.

KRYCEK (OFF): - E você se pergunta por que a morte não vem? Você deseja a morte, malyshka. O mais rápido possível, porque não existe mais esperança alguma. Você tem 28 anos e apenas dor e tortura pela frente.

Fade to black.

Vozes.


Fade to up.

A luz repentina do isqueiro quebra a escuridão, acendendo o cigarro. A ponta acesa do cigarro no escuro, move-se algumas vezes, mostrando as barras de uma cela. O cigarro levado à boca e tragado, aumenta a luz revelando a face sombria do Canceroso.

A luz de um lampião acesa por Pescow, ilumina o lugar.

Krycek dorme no chão da cela entre ratos. Está cabeludo e barbudo, magro, pés machucados, cabeça sangrando e o olho esquerdo inchado e cortado.

PESCOW: - Podemos usar outro. Mas esse é durão, acredite. Só precisa de um banho, corte de cabelo, fazer a barba, comer alguma coisa decente. Em alguns meses ele vai parecer um jovem bonito e saudável de novo. Tem 28 anos, vai fazer 29 em breve.

CANCEROSO: - (TRAGA O CIGARRO NUM SORRISO) Gostei da ficha dele. Tem boa aparência. Além de saber inglês, é jovem e ambicioso. Treinamento no exército, sede de vingança, olhos frios. Filho de um reacionário. Viveu na pobreza. Um sonhador. É só dar a ele o que quer e fará qualquer coisa que pedirmos.

PESCOW: - Acho que podemos confiar nele. Nunca acreditei que fosse um traidor.

CANCEROSO: - Ele não foi condenado por traição? Vamos deixar que o rapaz faça jus a sua condenação. Não vamos ficar com ele por muito tempo. Apenas enquanto nos servir.

O Canceroso fica observando Krycek. Solta a fumaça do cigarro, num sorriso.

Corte.


A cela se abre. Krycek acorda-se num sobressalto, encolhendo-se contra a parede, com medo. O guarda o arrasta. Ele aos gritos. O guarda joga um balde de água fria nele.

GUARDA: - Levanta daí! Está fedendo feito um porco! Tem visita pra você.

Corte.


O guarda escolta Krycek, de cabelos cortados e molhados, barba feita, bandagem na cabeça cobrindo o olho, vestido num uniforme de prisioneiro. O guarda o empurra pra dentro da sala atapetada com um falso espelho. Fecha a porta. Pescow sentado à escrivaninha, tomando chá. Abre uma caixa de cigarros.

O Canceroso fuma um cigarro, na outra sala, analisando Krycek pelo espelho.

PESCOW: - Fuma, camarada?

KRYCEK: - (DESCONFIADO) Não... Vão me executar? Me diz que sim.

PESCOW: - Sente-se. (FECHA A CAIXA DE CIGARROS) Quer um chá?

Krycek o fita mais desconfiado ainda.

PESCOW: - Sente-se, soldado.

Pescow serve um chá numa bonita xícara de porcelana. Krycek senta-se, completamente desconfiado, sem notar a presença do Canceroso do outro lado do espelho.

KRYCEK: - Eu conheço você, estava com eles quando me acusaram de traidor. Você é da KGB.

Pescow coloca o chá à frente de Krycek.

PESCOW: - Beba, camarada. Um verdadeiro russo não recusa um chá.

Krycek empurra a xícara no chão.

KRYCEK: -(GRITA) Idi na hui!!! (Foda-se!!!)

PESCOW: - ...

KRYCEK: - Acha que sou imbecil? E se tem veneno aí dentro?

O Canceroso abre um sorriso, impressionado. Pescow pega uma pasta.

PESCOW: - Alexander Dimitri Yavanov Krycek. Vinte e oito anos. Nascido em Moscou... Sua mãe fazia vestidos para minha mãe, sabia? Lembro de você moleque indo entregar os vestidos dela. E eu era fã de seu pai, Mikhail Krycek. Tenho todos os livros dele. Tínhamos algo em comum. Seu pai e eu odiávamos Brejnev. Felizmente, Brejnev morreu.

KRYCEK: - (FELIZ) Brejnev morreu???

PESCOW: - Sim, há muitos anos e não deixou saudades. Mais dois vieram depois dele e agora temos Gorbachev no poder. Meu jovem, você é filho do jornalista, escritor e poeta Mikhail Yuri Krycek... Gostava dos livros do seu pai. Antes de Brejnev assumir o poder, o conheci numa biblioteca e ele gentilmente me autografou um exemplar de Rodstvennaya Dusha, Alma Gêmea. Embora pareça um título romântico, o velho Krycek romantizava também seu amor pela mãe Rússia. Isso antes de ser perseguido, ter seus livros queimados, seus bens confiscados... Lamentável. Bom, Brejnev morreu, mas você não precisa morrer.

KRYCEK: - Aonde quer chegar com esse assunto?

PESCOW: - O que sabe sobre a Guerra Fria?

KRYCEK: - (RINDO) É alguma que você tá me armando não é? Não me tirou daquela cela fedida pra discutir política internacional!!!

O Canceroso sorri.

PESCOW: - O que sabe sobre a Guerra Fria?

KRYCEK: - (REVOLTADO) Tudo o que sei é sobre esse sistema. E quer minha opinião? Foda-se o Kremlin, o comunismo e a porra toda desse país totalitário!!! Eu beijo a bunda dos americanos e da democracia!!! Feliz? Agora pode me executar!

O Canceroso sorri.

PESCOW: -Comrade, we can have a frank talk... If you assure me that what we'll talk about will never get out of here. My name is Vassily Pescow, yes, I'm from the KGB and I can also be your fairy godmother*.

(Camarada, podemos ter uma conversa franca... Se você me garantir que o que falaremos nunca sairá daqui. Meu nome é Vassily Pescow, sim, sou da KGB e também posso ser sua fada madrinha*.)

KRYCEK: - (RINDO) Comrade, I didn't know KGB was fluent in English, but I always suspected that KGB slept with the CIA*.

(Camarada, eu não sabia que a KGB era fluente em inglês, mas sempre suspeitei que dormia com a CIA*).

PESCOW: -(SORRI) Você entende e fala inglês realmente.

KRYCEK: - Claro! (DEBOCHADO) Eu sou um bastardo, que trai a pátria desde que usava fraldas!

PESCOW: - Camarada, acho que passou tempo demais na alcova. E está desatualizado. Talvez precise de notícias... Saber o que está havendo no panorama político internacional.

KRYCEK: - Eu sei o que está havendo. Soviéticos e americanos querem comer um o rabo do outro.

PESCOW: -Talvez não. Tudo que precisa entender é que estamos na década de 90. Computadores vão virar eletrodomésticos. O desenvolvimento capitalista está deixando os soviéticos para trás e nós estamos falidos em dívidas de arsenal de guerra. Nosso povo está prestes a fazer uma outra revolução. Algumas pessoas estão criando organizações não-governamentais pelo mundo em nome dos direitos humanos. A América Latina está pronta, após a lavagem cerebral dos governos militares.

KRYCEK: - ...

PESCOW: -Em síntese, a mãe Rússia só tem alguns países amigos. Hora de libertá-la para o futuro.

KRYCEK: -Aonde quer chegar com esse assunto?

PESCOW: -Que o muro de Berlim foi derrubado. Que nosso homem Gorbachev venceu as eleições. Você ouvirá termos como Perestroica e Glasnost.

KRYCEK: - Está me dizendo que...

PESCOW: -O partido comunista e o parlamento já estão sendo dissolvidos. E exatamente no dia 25 de dezembro de 1991, Gorbachev extinguirá a URSS formando a CEI, Comunidade dos Estados Independentes. Logo depois disso renunciará e terá nossa proteção. E fim ao comunismo.

KRYCEK: - (OLHA PARA PESCOW) ... Traidor... (RI) E eu sou traidor! Meu pai tinha razão quando dizia que haviam opositores do comunismo que comiam nas mãos dos americanos, dentro do próprio partido comunista.

PESCOW: - Mudanças são necessárias... Nos livramos dos czares, hora de nos livrarmos dos vermes comunistas. Ou o empresariado vai falir. Como acha que um país pode sustentar todos sob o domínio do Estado? Não camarada. Empresas geram lucros. Geram trabalho. Geram consumo. Mas para que tudo isso aconteça, precisamos de homens de confiança. Você tem duas escolhas. Ou morre naquele esgoto ou escuta o que eu tenho a dizer. Você não tem futuro, Alex Krycek. É um traidor. Um defunto. Ou vai morrer de peste, de fome ou de tortura. Mas eu posso dar a você tudo o que sempre imaginou, tudo o que desejar. Eu vou dar a vida a você.

KRYCEK: - (RINDO) Sei.

PESCOW: -Dólares? Poder? Carros? Mulheres? Uma vida digna que você nunca teve. Que tal morar nos Estados Unidos, realizar seu sonho de liberdade? Por que não cantar? Você gosta de cantar, é artista. Pode ter chances num país livre.

KRYCEK: - E quem eu tenho que matar pra isso?

PESCOW: -Quero que trabalhe para mim. É pouco o que peço em troca de tanta oportunidade.Sua missão será receptar na América todas as malas postais soviéticas. E nos devolver as americanas.

KRYCEK: - Está me dizendo que serei um agente duplo?

PESCOW: - Não usaria esse termo. Você estará fazendo um favor para sua pátria, acabando com o regime comunista. Trabalho limpo e fácil. Poderá ter um apartamento em Nova Iorque, todas as despesas que tiver serão pagas pelo governo americano e soviético. Terá cartões de crédito sem limite. Com o tempo, terei mais funções para você. Será meu homem de confiança. Responderá apenas a mim e na América responderá ao Fumante, é o codinome dele. Você terá acesso a todos os prédios federais americanos. Será cidadão americano. Terá de negar sua nacionalidade. Seus pais eram imigrantes russos que foram para a Flórida. Você é americano por natureza. Seus arquivos todos serão queimados. Você nunca existiu nesse país. Nem o conhecemos.

Krycek olha para Pescow, incrédulo. Pescow tira uma passagem aérea da gaveta. Balança a passagem na frente do rosto de Krycek.

PESCOW: - Só de ida. É pegar ou morrer aqui. Estará sendo patriota. Vai ajudar a realizar o sonho do seu pai: Uma Rússia livre.

KRYCEK: - ...

Krycek observa a passagem. Olha para Pescow. Olha para a bandeira russa atrás dele.

PESCOW: -Acho que não tem muito o que pensar. Sim ou não?

Pescow discretamente tira a arma da gaveta, pronto para atirar em Krycek.

KRYCEK: - ... (FECHA OS OLHOS) Eu aceito.

Pescow guarda a arma e sorri. Entrega a passagem para Krycek. Pega o telefone.

PESCOW: - Prepare o carro e chame meu motorista.

Pescow desliga. Olha para o relógio.

PESCOW: -Exatamente à meia noite, você 'sumirá da sua cela'. A certidão de óbito estará sobre minha mesa com o relatório da sua execução.

Krycek levanta-se. As pernas tremendo. Incredulidade, alegria, medo, surpresa, todos os sentimentos embaralhados em sua face. Pescow levanta-se a abre a porta. O guarda se aproxima.

PESCOW: - Leve o prisioneiro para sua cela.

O guarda leva Krycek pelo braço. Pescow fecha a porta e olha para o Canceroso, que sai da outra sala.

PESCOW: - Então? Ele é perfeito!

CANCEROSO: - (TRAGA O CIGARRO) Sonhadores... São meus preferidos.


2003 - TEMPO ATUAL

Barbara olha para Krycek. Krycek cabisbaixo brinca com o gorro de pele. Os dois sentados no sofá.

KRYCEK: - Conforme prometeram, meia noite eu saí no carro de Pescow. Antes de ir pro hotel, eu pedi que me levassem ao cortiço aonde morei quando criança. Estava tudo abandonado e destruído. Só o fogão da mama sobreviveu. Fiquei alguns minutos lembrando dos meus pais dançando dentro de casa... Então fui até o quarto, abri o assoalho e peguei as coisas que havia escondido há quase duas décadas atrás. Depois fomos pra um hotel. Lá me deram roupas novas. Tomei um banho. Confesso que me sentei na banheira e comecei a chorar. Eu não acreditava que estava indo para a América. Pensava que minha vida ia mudar pra melhor.

BARBARA: - E confiou neles?

KRYCEK: - Confiei. Era a minha única chance. Você não vai ficar grato por um favor? Eu levaria anos pra acreditar que fizeram de mim bode expiatório de novo. Agora eu era traidor novamente. Traidor do quê? Será que eu era o traidor mesmo? Ou eram eles? E o resto da história você sabe.

Barbara vira o rosto. Disfarça, secando as lágrimas. Olha pra Krycek. Ele parece mais aliviado, brincando com o gorro. Barbara pega o gorro e coloca na cabeça de Krycek.

BARBARA: -Hermoso, você já começou a mudar sua vida. Agora anda do lado certo e sabe por quê? Porque agora você tem escolha. Entende? Pela primeira vez na sua vida você teve escolha. A escolha foi sua, apenas sua. Ninguém decidiu nada por você, nem o jogou entre a cruz e a espada, nem o empurrou pra um beco sem saída. E a sua escolha me faz acreditar na sua natureza boa. Você não pode mudar sua natureza, Alex. Pode tentar, mentir, enganar, mas nunca vai enganar a si mesmo.

KRYCEK: - Como assim?

BARBARA: - Não entendeu? Que bom! Sinal de que a sua natureza continua viva aí no seu inconsciente, saltando automaticamente pra fora porque nem você percebeu o que fez, então não foi planejado. Foi do coração e sincero mesmo.

KRYCEK: - Continuo sem entender.

BARBARA: -Você perdeu Marita e seu filho, foi o cheque mate deles em você. Então você podia ter fugido ou buscado vingança sozinho, afinal você era um traidor nada confiável, quem iria ajudar você? Pra quem pedir ajuda? Pra quê pedir ajuda se você "é um cara orgulhoso"? Tinha que ser sozinho mesmo. Eram as escolhas a serem feitas. Mas o que você escolheu? Você escolheu pedir perdão para o Mulder, o cara que você tanto ferrou! Escolheu lutar ao lado dele nessa guerra, seja por vingança ou justiça, essas duas palavras se confundem mesmo. Eu chamo essa sua atitude de humildade. Reconhecer o erro e pedir perdão é algo doloroso e requer coragem e humildade. Só quem as tem pode pedir perdão. Por isso ninguém acreditou na sua "redenção", nunca conheceram o Alex Krycek, jamais esperariam que tivesse um coração humilde. Entende?

KRYCEK: - (PENSATIVO) ...

BARBARA: -Mas Mulder, fala sério, sem brincadeiras, Mulder é fodástico como ser humano! Se não fosse, ele teria corrido com você, teria se vingado, motivos ele tinha de sobra, mas o que ele fez? Humildade e compaixão. Perdoou você. No fundo, hermoso, vocês dois tem mais coisas em comum do que imaginam. Dá pra entender o ciúme dos amigos dele, porque realmente vocês dois se ligaram porque tiveram vidas ferradas, tiveram que esquecer por um tempo que eram seres humanos e mergulhar de cabeça nessa loucura toda. Vocês tiveram vidas loucas. Cada um numa realidade diferente, num lado diferente do tabuleiro. Vocês passaram uma década se digladiando sem saber o quanto tinham em comum. Agora que sabem um do outro e estão unidos, é lógico que aqueles homens querem acabar com vocês. Vocês dois juntos é um perigo pra eles.

KRYCEK: - ... Não tinha pensado por esse ângulo. Agora faz sentido porque o Fumacento sempre me dizia para jamais confiar no Mulder. Que ele não era confiável.

BARBARA: - Eu não disse? Você nem vê o que fez. E sem você, nenhum de nós conseguiria ter chegado até aqui ileso. E talvez ninguém tenha dito muito obrigado.

KRYCEK: - Mulder disse. Desgraçado sortudo, ele sempre sabe o que dizer...

BARBARA: - Canta pra mim?

Krycek olha pra ela.

KRYCEK: - Eu não sei mais cantar. Pra cantar, você tem que cantar com a pureza da alma. Não tenho mais isso.

BARBARA: - Acho que tem sim. Lembre de seu pai. Não deixe que sua arte morra dentro de você. Existe um menino aí dentro. Um menino que tinha sonhos. Um menino simples, de bom coração. Não o deixe morrer de novo. Não pense que você não é digno da vida. Que não merece ser feliz. Acho que deveria sim continuar a conversar com o Dr. Fox, para superar os traumas que ficaram em sua vida. Todos nós passamos maus bocados, uns mais, outros menos, mas cabe a nós levantar, limpar os joelhos e correr novamente.

KRYCEK: - Scully e Mulder são importantes pra mim. O tempo em que eles precisaram de ajuda, me fez ver que eu era alguém importante. Consegue entender isso?

BARBARA: -E vai continuar sendo alguém importante. Você está aqui, está livre. Você tem um emprego de que eu sei que gosta. Nunca é tarde para enterrar o passado e começar um novo presente. Basta apenas perdoar a si mesmo para fazer isto.

Silêncio. Krycek cabisbaixo. Barbara toma o rosto de Krycek nas mãos. Os dois ficam se olhando. Barbara envolve os braços nele, aproximando-se mais, colocando as pernas sobre as pernas dele. Krycek pousa as mãos sobre as pernas dela. Aproximam os lábios, tocando-os delicadamente, aprofundando um beijo longo e suave. Afastam os lábios olhando um para o outro. Se abraçam. Krycek recosta o rosto no pescoço dela, fechando os olhos. Barbara afaga os cabelos dele com carinho.


Residência dos Mulder - 10:04 P.M.

[Som: The Smiths - The Boy With The Thorn in His Side]

Mulder sentado ao computador no sótão, digitando. Victoria dormindo no velho sofá de couro, segurando a caixinha do CD.

MULDER (OFF): - ... Nas transcrições em anexo da sessão de psicoterapia, o paciente A relata os abusos e torturas físicas e psicológicas sofridas. Observou-se no comportamento do indivíduo reações traumáticas típicas como: culpa, auto-punição, dificuldade nos relacionamentos, sentimento de vingança, manifestação de perfil abusador, inclinação para a violência, desconfiança, tendência a depressão e isolamento e também características típicas da Síndrome do Silêncio. O "garoto que carrega um fardo", como ele se apresenta diante deste profissional, manifesta um desejo profundo de mudanças em sua psiquê que estamos trabalhando mediante sessões semanais de psicanálise.

Mulder vira-se com a cadeira e observa a filha dormindo. Mulder se levanta e tira a caixinha do CD. Victoria vira-se no sofá, suspirando de cansaço. Mulder sorri e volta para o computador. Abre os emails. Um deles lhe chama atenção: "Assunto: Rurik Sharapov".

Mulder começa a ler o e-mail. A fisionomia dele muda para perturbação. Mulder se afasta com a cadeira, colocando as mãos atrás da cabeça, angustiado. Baba entra com uma caneca.

BABA: - Tem visita pra você. Barbara Wallace. Mando subir?

MULDER: -A Barbara? Claro.

BABA: - Café?

Mulder olha seriamente pra ela.

BABA: - Sem café então...

MULDER: - Não, eu quero o café. O que não quero é fazer o que eu penso que tenho que fazer.

BABA: - Simples. Se tem que fazer... Tem mesmo?

MULDER: - É, tenho mesmo. Se não fizer serei um filho da mãe cretino. Só tenho medo é da merda que vai dar.

BABA: - Já dizia Forrest Gump: Merdas acontecem. Levo essa criaturinha pra cama?

MULDER: - Não, deixa a minha garotinha dormindo aqui, quando eu for pra cama eu a levo. Ela adora dormir nesse sofá. E a Scully ainda não queria trazer o sofá do meu apartamento, aquela ingrata. Esse sofá tem tanta história... Planejávamos ela sentados nele. E depois, olhar pra minha filha me ajudar a pensar.

BABA: - Eu acho que é um todo, não apenas o sofá. É a presença do pai, o barulho das teclas do computador, a música e a barriguinha cheia. Isso é um convite perfeito pro sono chegar. E quanto ao pai, bem, o judeu narigudo do pai é a paixão da vida dela. Arrumou um chiclete bem grudento, Mulder. Um amor eterno que nada pode separar.

MULDER: - (SORRI) É. Scully gerou e pariu, mas o cordão umbilical é meu. A filha das entranhas da minha alma. Sabia que eu sentia os enjoos todos da Scully? Literalmente engravidei com ela.

Baba entrega a caneca e sai rindo. Mulder toma um gole de café e fecha os olhos num suspiro. Desliga o monitor do computador. Barbara entra, com uma fisionomia abatida. Mulder se levanta.

BARBARA: - Desculpe vir numa hora dessas... Nossa, isso sim é um escritório completo com direito a música, e eu adoro o Morrissey! E ainda tem a musa inspiradora dormindo no sofá.

MULDER: - (SORRI) Enquanto a musa não cresce, ainda sobra espaço pra visita sentar. Café?

BARBARA: - Não. Já tomei um com a Baba.

Barbara dá um cheirinho no pescoço de Victoria e senta-se no sofá. Mulder na cadeira.

BARBARA: - Estou aqui por dois motivos. Ambos são Alex. Quero agradecer o que está fazendo por ele. Como amigo e como psicólogo.

MULDER: - Na verdade nem poderia ajudar, vai contra a ética. Mas ele está me ajudando, não fosse ele eu não pegaria o diploma no final do mês.

BARBARA: - ... É, mas você está ajudando bastante. Ele escuta o que você diz. E sabe que Alex é teimoso, não escuta ninguém.

Barbara faz uma pausa. Brinca com o pé de Victoria.

MULDER: - Ele contou pra você. Posso ver pela expressão no seu rosto. Precisava ver a minha.

BARBARA: - (OLHOS EM LÁGRIMAS) Mas a chorona aqui conseguiu segurar. Sabe, ele não quer piedade, interpretaria mal as minhas lágrimas.

MULDER: - É. (ABAIXA A CABEÇA) Meu esforço de ator acabou quando entrei no meu carro... A gente adora apontar o dedo e julgar as pessoas não é? E se queixar dos nossos problemas como se o maior sofrimento do mundo fosse o nosso... Eu... Eu me coloco no lugar das pessoas. Me coloquei no lugar dele. Certamente teria feito diferente.

BARBARA: - E o que teria feito, Mulder?

MULDER: - Eu teria mematado ainda na adolescência. Eu tentei uma vez, por menos do que isso, pela culpa que sentia sobre minha irmã. Meus pais acharam que eu tinha me enganado com os remédios, mas eu não tinha... E não tenho dúvida alguma disso, na pele dele eu teria me matado. Krycek é forte, Barbara. Em partes pela infância boa que teve, apesar da pobreza. Não faltou amor, entende? Base sólida pra uma criança, porque a personalidade se desenvolve nessa época. Ele aprendeu com os pais a ser forte. Essa é a diferença entre ele e eu. Eu não sou forte como ele.

BARBARA: - Como posso ajudar o Alex, Mulder?

MULDER: - Ele é quem tem que se ajudar, Barbara. Você não pode forçar a pessoa a fazer o que não quer. E ele tem mostrado que quer mudar. O gatilho foi a morte de Marita, com certeza. Desde lá Krycek já mudou muito, não sei se por culpa ou por raiva, mas seja o que for, impulsionou ele positivamente. Mas tem coisas que afetam o equilíbrio emocional dele. O que pode fazer é apoiá-lo. E se ele quiser, o seu amor será muito bom.

BARBARA: - (SORRI) ... Estamos juntos.

MULDER: - (SORRI) Sério? Bom, não sei de nada. Ele vai me contar. Fico feliz com isso. Vai ser muito bom pra vocês dois. Principalmente pra ele que tem tendências depressivas. Mas como eu disse, cabe a ele mudar. Você não pode fazer nada. Apenas amar e apoiar. Escutar. Trocar ideias. E isso é bastante coisa, acredite.

Barbara se levanta.

BARBARA: - Obrigada mais uma vez. Ele é um bom homem, só não sabe disso ainda. Não precisa descer, eu conheço o caminho.

Barbara sai. Mulder abaixa a cabeça.

MULDER: - É... Mas a prova de fogo vai vir. E eu vou ter que contar pra ele.


Precinto 11 - Washington D.C. - 10:37 P.M.

Krycek sentado em sua cadeira. O detetive Sanders sentado na outra. O delegado Norris passa pela sala.

NORRIS: - Tem certeza de que está bem, Checov? Pode trabalhar? Não quero você na rua levando mais tiros, estou em defasagem de policiais!

KRYCEK: - Estou bem.

NORRIS: - Avise o FBI que da próxima vez que envolverem um policial do meu distrito em algum problema deles, eu mesmo vou pessoalmente até aquele pulgueiro de federais bostinhas e engravatados e vou começar elogiando a perversa mãe do diretor e discorrer sobre a viadagem do Hoover. Ou vice e versa. Na hora de ser macho é "acionem a polícia local". Quem leva tiro e fica suado somos nós. Eles ficam perfumadinhos e engomadinhos enfeitando cena de crime e falando merdas intelectuais rindo da nossa cara. Vão se ferrar!

Norris entra na sala dele batendo a porta. Sanders e Krycek começam a rir.

SANDERS: - Eu tô pra ver alguém odiar mais os federais que o velho "Chuck" Norris rabugento...

Scully entra segurando uma pasta, ainda com o crachá do FBI. Sanders olha pra Krycek.

SANDERS: - FBI? Hoje o delegado enfarta...

KRYCEK: - (NERVOSO) Aconteceu alguma coisa?

SCULLY: - Não, está tudo bem. O delegado está aí?

KRYCEK: - Tem certeza que quer mesmo falar com ele? Aconteceu alguma coisa que eu deva saber?

SCULLY: - Só com ele. Assunto oficial. Depois... Ligue pro Mulder.

Krycek se levanta e bate à porta. Abre uma fresta.

KRYCEK: - Norris... O FBI quer falar com você.

Krycek fecha a porta rapidamente, escuta-se o delegado xingando alto. Scully ergue as sobrancelhas.

KRYCEK: - Boa sorte. É todo seu.

Krycek abre a porta. Scully entra na sala. Norris com cara de irritado, rapidamente muda a fisionomia para gentileza quando vê Scully. Krycek sorri e fecha a porta.

SCULLY: - Delegado Norris? Agente Dana Scully, FBI. Podemos conversar?

NORRIS: - Deviam ter me avisado que era uma mulher. Claro, sente-se. Quer um café?

SCULLY: - Não, obrigada. Delegado, trouxe esses papéis para o senhor e... Gostaria de falar sobre seu policial Pavel Checov.

NORRIS: - O que tem o Checov?

SCULLY: - O nome dele não é Checov. Na verdade ele se chama Alexander Krycek e não é detetive da polícia.

Norris arregala os olhos.

NORRIS: - Agente Scully... Tem certeza do que está me falando?

SCULLY: - Absoluta. Eu vim até aqui enviada pelo meu diretor-assistente para informá-lo da verdade.

Norris perde a reação. Pega a pasta e começa a ler, incrédulo.

NORRIS: - Eu não acredito nisso... Checov é um dos melhores detetives do meu distrito! Eu li a ficha dele, ele veio transferido de Nova Iorque e... Meu Deus! Ele me enganou? Mas que diabos...

SCULLY: - Delegado, o que vamos conversar aqui é estritamente confidencial. Alexander Krycek é ex-agente do FBI, como pode ver nessa pasta, todos os documentos oficiais estão aí. Agora ele é um agente morto e o colocamos num programa de proteção. Ele não poderia revelar sua identidade. Pessoas o queriam morto, entende? Gente perigosa. O FBI o estava protegendo.

NORRIS: - Mafia russa? Chineses? Italianos? Se é nível federal a coisa é realmente muito séria.

SCULLY: - Uma espécie de grupo terrorista atuando em células pelo mundo infiltrados em organizações governamentais incluindo nos Estados Unidos. Krycek sabe demais. Corre perigo de vida. Acho que agora pode entender por que ele levou tiros, estava numa missão com um colega. Ele tomou os tiros para salvar o agente que estava com ele. Pode entender para um homem do talento dele ter que viver longe de um distintivo e da justiça? O senhor é policial, sabe como um policial se sente longe daquilo que ama. Pra ser policial tem que realmente gostar muito do que faz. Eu, por exemplo, larguei uma carreira na medicina para ter um distintivo. O senhor certamente também abdicou de alguma coisa em sua vida por amor a profissão.

NORRIS: - Meu casamento, agente Scully... Minha mulher cansou. Desistiu de esperar minha aposentadoria.

SCULLY: - Lamento. Então pode entender porque colocamos Alex Krycek como policial. Experiência ele tem. Habilidades...

NORRIS: - Não discuto isso. Embora eu deteste federais, nada pessoal com a senhora, mas Checov... Krycek é um dos melhores aqui. Vou lamentar perdê-lo.

SCULLY: - Não vai precisar perdê-lo. Espero que não compreenda mal, mas a vida de um agente estava em risco. Entretanto, como conseguimos pegar alguns culpados, decidimos que Alex Krycek pode retornar a sua identidade, mas como ele é um agente morto... Sendo sincera, o FBI não quer mais nenhum contato com ele. Simplesmente jogaram meu ex-parceiro na rua. E estou com medo dele perder a cabeça, sabe? Logo que o FBI o afastou, ele passou meses no AA tentando deixar a bebida. Agora... Temo que ele vai voltar a beber, vai se deprimir, pode tentar se suicidar, o senhor sabe como isso mexe com a cabeça de um policial.

NORRIS: - (IRRITADO)Mas é o que eu digo sempre! O cara se ferra, leva tiros, bota o pescoço na guilhotina e depois os federais chutam o traseiro dele como um cachorro sarnento! Desculpe, madame, pelo linguajar. Isso é típico daquela gente do Hoover!

Scully morde os lábios.

NORRIS: - Eu já vi policiais afastados e aposentados meterem uma bala na cabeça pela frustração de não poderem mais ter ação e correr atrás da vagabundagem... Pobre Checov, nem sabia que ele é ex-alcoólatra. Também sou.

SCULLY: - Tem uma carta de recomendação aí dentro. Eu... Desculpe estar abrindo minha vida privada diante do senhor, mas... Alex e eu fomos amantes, o amor se foi, mas ainda ficou a ternura, sabe? Eu gostaria tanto que ele ficasse na polícia. Quando nos encontramos, ele sempre fala que se soubesse como ser detetive de homicídios é bom, jamais teria entrado para o FBI. Ele admira o senhor, sabia? E agora Alex tem raiva dos federais e não posso culpá-lo. Depois de tudo... Se tiver alguma dúvida, tem o telefone do meu diretor-assistente, Walter Skinner. Ele é o homem encarregado da situação de Alex Krycek no Bureau.

Scully se levanta. Norris se levanta. Trocam um cumprimento.

SCULLY: - Ele foi meu amante e meu parceiro, delegado. É um grande policial. Está em suas mãos. Espero que tome a decisão certa, eu detestaria ver Krycek deprimido, longe daquilo que ele gosta de fazer. Temo que a vida dele se acabe... Sabe como é.

Norris abre a porta pra ela. Scully sai. Krycek olha pra ela curioso. Norris e Sanders observam.

SCULLY: - Lamento, meu querido. Sabe que se dependesse de mim, tudo seria diferente. Independente do que acontecer, não volte a beber. Eu me preocupo com você e...Fica bem, tá?

Krycek sem entender nada, olhando pra ela. Scully sorri e dá um beijo na testa dele. Sai da delegacia. Ele fica incrédulo e perdido.

SANDERS: - Aí, hein Checov? Arrasando corações federais! Essa aí é a sua namorada da Virgínia?

Os policiais do plantão assoviam e começa a zoar Krycek.

NORRIS: - Chega! Vocês não tem o que fazerem não? Isso aqui não é a delegacia da mãe Joana, entenderam? Checov, entra aqui.

Krycek entra, desconfiado. Norris fecha a porta.

NORRIS: - Vou ter que engolir minha língua agora, porque sei a verdade, Alex Krycek.

Krycek arregala os olhos.

NORRIS: - Ela me contou.Eu bem desconfiava que você tinha um treinamento superior, você consegue detectar um filho da mãe há uma milha de distância, atira com precisão, gosta de dar porrada e tem um faro aguçado pra investigar as coisas. Mas nunca imaginei que tivesse cursado a Academia do FBI em Quântico.

KRYCEK: - Mas eu...

NORRIS: - Gosto de saber que também detesta federais. Viu como eu tenho razão? Mas sua ex-parceira e... Bem, ex-namorada, a agente Scully, explicou a sua situação como agente morto, sua entrada no programa de proteção... Nem posso imaginar que tipo de gente queria seu pescoço, mas você terá tempo pra me contar. Eu vou ver o que posso fazer para mantê-lo na polícia. Você não leva jeito pra federal mesmo. Acho que seu lugar é aqui. E siga meu conselho, beber não vai resolver nada. E não espere ouvir elogios, entendeu? Agora tire a bunda da minha sala e vá trabalhar!

Krycek sai da sala fechando a porta atrás de si. Fisionomia de incredulidade.

SANDERS: - Qual foi o esporro dessa vez?

KRYCEK: - Nada... Não tô entendendo nada... Vou ter que ligar pra um amigo.

Corte.


Scully entra no carro. Pega o celular e aperta uma tecla, aguardando.

SCULLY: - Mulder, sou eu.

MULDER (OFF): - E aí? Deu certo?

SCULLY: - Bom, se o delegado ligar pro Skinner... Skinner confirmará.

MULDER (OFF): -Acha que Krycek vai conseguir usar o nome dele no distintivo?

SCULLY: - Acho que é mais do que justo, Mulder. Não acho certo ter que se passar por outra pessoa para sobreviver, com documentos falsos... Concordo com você e Skinner sobre isso. Pelo menos Krycek não estará mentindo ser alguém que não é. Krycek foi do FBI. Eu não menti para o delegado. Os documentos todos comprovam, não é mesmo? Aqueles homens deram isso a ele pelos motivos errados, acho que podemos conseguir um distintivo pra ele pelos motivos certos. E depois, Krycek tem experiência, mesmo não sendo policial. Acho que ele não representa perigo pra sociedade. Não mais.

MULDER (OFF): -Hum... Quanto elogio! Devo pensar que ele representa perigo pra mim?

SCULLY: - (SORRI) Mulder... Você me ensinou que as pessoas merecem uma segunda chance. Eu não sei o que sabe sobre Krycek para fazer isso por ele. Mas confio em você. Skinner também.

MULDER (OFF): -Não mentiu nada mesmo, Scully?

SCULLY: - (ENIGMÁTICA) Bom... Inventei umas coisinhas, acresci outras, falei outras que eu já acreditei uma vez e digamos que o delegado, apesar de turrão, tem um bom coração. Mas que realmente tem ódio do FBI, ele tem. E acho que a ideia de pegar um agente que o FBI jogou fora deixou ele animadinho, como se fosse vingança...

MULDER (OFF): - Vou ligar pro Krycek. Ele não deve estar entendendo nada e preciso falar umas coisas pra ele... Scully... Obrigado.

SCULLY: -Confesso que me senti bem fazendo isso, Mulder. Beijo na Victoria.

MULDER (OFF): - E no pai dela?

Scully desliga sorrindo.


Residência dos Sharapov - Maryland - 2:31 P.M.

Mulder para o carro em frente a casa. Krycek sentado ao lado.

MULDER: - Eu desço. Você fica quieto aqui. Eu sei que o cara tá velho, mas ele ainda é um Stallone, ok? Sozinho você não tem chances!

KRYCEK: -Fique fora disso, o problema é meu!

MULDER: -Rato egoísta! Eu também quero me divertir. Adoro pegar esse tipo de filho da puta.

KRYCEK: - Você não sabe quanto tempo eu esperei por isso.

MULDER: - Eu sei. Como sei que vai fazer merda. Não está em condições psicológicas pra fazer isso. Pra que ser gentil com um tiro na nuca? Saboreie lentamente. Aqui não é lugar. Seja esperto. Eu trago o doce pra você. Ele não me conhece e se reconhecer você, ahn? Vai ferrar com tudo? Fica no carro. Agora eu sou o cabeça fria entre nós dois, ok? Confia ou não em mim?

Krycek respira fundo. Mulder desce do carro e vai até a varanda. Bate na porta. O velho Rurik Sharapov abre a porta. Ele não tem um pedaço da orelha. Krycek ao vê-lo enche os olhos de ódio. Toma impulso para sair do carro, mas se contém.

MULDER: - Rurik Sharapov?

SHARAPOV: - Sim.

Mulder mostra o distintivo.

MULDER: - Agente Mulder, FBI.

SHARAPOV: -De novo não! Eu já contei tudo o que sei ao FBI.

Ele vai fechar a porta na cara de Mulder, Mulder coloca o pé.

MULDER: - Pegamos o culpado. Apenas quero que nos acompanhe até a delegacia para fazer o reconhecimento.

SHARAPOV: -(SURPRESO) ... Vou pegar meu casaco.

Mulder aguarda. O velho Sharapov sai fechando a porta. Os dois seguem até o carro. Mulder abre o carro. Os dois entram. Krycek vira o rosto pra janela, fisionomia de ódio, segurando raiva e lágrimas. Mulder dá a partida e toma a rua.

MULDER: - Então você pediu asilo político antes da queda do comunismo.

SHARAPOV: - ...

MULDER: - Desertor?

SHARAPOV: - Não sou desertor. Nunca estive no exército russo.

Krycek cerra os punhos. Mulder encosta o braço nele.

MULDER: - E nem faz parte da máfia russa.

SHARAPOV: -Lógico que não! Eu já disse tudo para os seus colegas. Eu não tenho nenhum envolvimento com o tráfico de jovens russas para prostituição. Eu estava casualmente passando quando vi o assassinato das três garotas. Disse quem era o sujeito pra vocês.

Krycek com os nervos à flor da pele. Olhos cerrados, evitando derrubar lágrimas.

MULDER: - Eu sei. Agora temos que encontrar o sujeito russo que alicia essas meninas pelas redes sociais. Deve ser um sujeito bem convincente. Deve criar uma amizade com elas, demonstra carinho e interesse em ter um relacionamento, diz que mora na América, mostra uma vida boa e tem condições de trazê-la para conhecê-lo... Deve prometer amor, casamento e uma vida tranquila financeiramente, afinal são garotas pobres e humildes que vivem em condições precárias. E a garota cai na isca, chega aqui e vai direto para a prostituição em cárcere privado.

SHARAPOV: - ...

MULDER: - Vou adorar pegar esse canalha. Eu sou pai. Eu mataria lentamente o filho da mãe que tocasse um dedo num filho meu. Não faz ideia de quem seja o aliciador?

SHARAPOV: - Não.... Ei, esse não é o caminho para a delegacia.

Krycek não se aguenta, puxa a arma e vira-se pra trás mirando na cara de Sharapov. Mulder arregala os olhos. Sharapov fica nervoso.

KRYCEK: - (GRITA/ FURIOSO) Fecha essa maldita boca nojenta seu assassino pervertido do inferno antes que eu faça você chupar o cano dessa arma, seu monte de merda!!!!

MULDER: - Não faz isso, parceiro. Vai sujar todo o meu carro. Fica calmo.

SHARAPOV: - Quem diabos são vocês? Eu quero sair daqui!

Krycek engatilha a arma, olhos cheios de ódio.

KRYCEK: -(GRITA/ FURIOSO) Eu disse pra calar essa boca!!!!!!!!!!

MULDER: - Acho melhor fazer o que ele disse, "camarada". Meu amigo vai fuzilar você.

SHARAPOV: - (ASSUSTADO) Quem é você?

KRYCEK: -(GRITA/ FURIOSO) Vai ter tempo pra adivinhar e pensar no quanto a vida dá voltas. Eu esperei esse momento por 21 anos tortuosos da minha vida! Pode apostar que vai ser divertido, eu garanto. Vou dar diversão pra você, seu filho da puta!

SHARAPOV: - Eu não sei quem vocês são, mas saibam que isso vai ficar complicado para o seu governo resolver. Minha embaixada vai saber disso...

KRYCEK: - Meu governo? Não sargento Sharapov, eu também sou russo. Vá refrescando sua memória. Temos um longo caminho pela frente. E se abrir a sua boca fedida e eu ouvir novamente a sua voz asquerosa, eu juro que aperto esse gatilho. Eu vou lhe dar uma pista para ficar refletindo durante o nosso passeio: Dessa vez, eu não vou errar!

Sharapov se cala.


3:11 P.M.

Krycek desce do carro, estacionado numa parte abandonada do cais. Arranca Sharapov de dentro do carro, mantendo a arma contra o ex-sargento. Mulder pega um sanduíche do painel do carro e desce, colocando o sanduíche no bolso. Krycek empurra o sujeito. Mulder abre a porta do armazém. Krycek empurra Sharapov pra dentro. Mulder entra e fecha a porta.

MULDER: - Ele é todo seu.

Krycek começa a socar Sharapov com ódio. Mulder cruza os braços e fica andando pelo lugar. Sharapov revida, acertando Krycek. Mulder voa pra cima dele, aos socos, derrubando o ex-sargento no chão. Krycek começa a chutá-lo, cego de ódio.

KRYCEK: - Gosta disso? Ahn? Gosta disso?

SHARAPOV: - Vou denunciar vocês por violência contra um velho!

KRYCEK: - Velho? Pra estuprar soldados você não era velho, seu filho da puta!!!!!!

Krycek aperta o pé contra o rosto dele.

KRYCEK: - Lembra de mim, ahn? Porque eu lembro de você! Por anos tive pesadelos, você acabou com a minha vida, seu merda!!!! Você matou meu único amigo naquele chuveiro!!!

MULDER: - Claro que ele lembra. Toda a vez que se olha no espelho e percebe que... Como se chama alguém que perde metade da orelha? "Desorelhado"? Ah, eu teria arrancado outra coisa dele. Posso?

Sharapov arregala os olhos. Mulder olha pra ele com cara de louco. Krycek se afasta, passando as mãos nos cabelos, nervoso, angustiado e com ódio. Mulder olha pra ele apiedado. Sharapov senta-se no chão.

SHARAPOV: - (RINDO) Ora, ora... Alexander Krycek? Meu soldado favorito. Acho que me entende.

Krycek avança no ex-sargento, metendo chutes na cara dele. Mulder afasta Krycek. Sharapov cospe sangue. Mulder segura Krycek.

MULDER: - (COCHICHA) Me escuta. Ele quer desestabilizar você emocionalmente. Não cai nesse jogo.

SHARAPOV: - Seu amiguinho teve uma morte lenta. Agonizou por quase meia hora. Tentei asfixiá-lo, mas o putinho não queria morrer. Tive que enfiar minha arma no rabo dele e atirar. Logicamente depois de enfiar o que ele adorava.

Mulder puxa a arma e mira na cabeça de Sharapov.

MULDER: - Cala essa boca, desgraçado! Cala essa boca!!!

Krycek voa pra cima de Sharapov, Mulder o detém.

MULDER: - Calma, Krycek. Calma.

KRYCEK: - (GRITA/ ÓDIO) Eu vou torturar e matar esse cara, você não vai me impedir!!!

MULDER: - Calma. Siga o combinado.

Sharapov olha pra Krycek o provocando. Mulder percebe e se mete no ângulo de visão entre eles.

MULDER: - Nomes. Agora! Ou vou deixar Krycek acabar com você.

SHARAPOV: - Que nomes?

MULDER: - Quem é o aliciador das garotas?

KRYCEK: -(GRITA/ ÓDIO) Desgraçado, você era o traidor naquele campo... Pescow desconfiava de você!

SHARAPOV: - Eu traí Pescow e depois fugi da Rússia. Eu vendia as informações para os americanos e joguei a culpa em você, sua bicha!!!

Krycek vem pra cima dele, mas Mulder mais rápido acerta um soco em Sharapov que cai deitado.

MULDER: - Bip! Resposta errada. Não tem bichas aqui, e pelo que me consta, gays não são pessoas de mau caráter. Eu só vejo um estuprador filho da mãe na minha frente, fissurado em subjugar sadicamente soldados jovens e mentindo descaradamente. Krycek, pega as cordas no carro.Se ele não abrir a boca, eu vou descer as calças dele e a gente vai ter uma festinha aqui.

Sharapov fica nervoso. Mulder mira a arma no meio das pernas dele.

MULDER: - Então, vai me dar nomes ou vou ter que castrar você? Ahn?

KRYCEK: -(GRITA/ ÓDIO) Deixa que eu mesmo vou atirar no rabo dele. Pra ele sangrar como Karel sangrou!!!

SHARAPOV: - (GRITA/ NERVOSO)Eu falo! Mas deixa esse maluco longe de mim!!! Eu sou o aliciador. Eu faço parte da máfia russa. Foi como consegui fugir pra cá, com eles. O cara que vocês prenderam é apenas um executor da máfia.

MULDER: - Fala mais. Não me convenci ainda.

SHARAPOV: - As garotas morreram porque tentaram fugir.Tem todos os contatos da máfia russa no meu celular. Todos os nomes. Agora me deixa ir.

Mulder se levanta. Estende a mão, pedindo o celular. Sharapov entrega. Mulder mexe na agenda.

MULDER: - É, só tem nome russo aqui. Vou limpar minhas digitais e mandar para o FBI anonimamente.

Mulder coloca as mãos nos ombros de Krycek. Olha nos olhos dele.

MULDER: -Krycek, eu não tenho direito algum de falar nada pra você, ok? Só você sabe o que passou nas mãos desse verme... Você e apenas você sabe o que precisa ou não fazer. Seja o que decidir, só quero que saiba que sou seu amigo e estou do seu lado, para o que der e vier... Agora, ele é todo seu.

Mulder dá as costas. Krycek sorri. Arregaça as mangas da camisa. Voa pra cima de Sharapov aos socos e pontapés.

Corte.


Mulder parado na porta aberta do armazém abandonado, de costas, comendo um sanduíche tranquilamente.

SHARAPOV: - (AOS GRITOS) Me ajuda, por favor!!!!

Mulder, indiferente, tira os farelos da gravata. Dá outra dentada no sanduíche.

SHARAPOV: - (AOS GRITOS) Eu sei quem é você!!! É agente do FBI!!!

Mulder continua tranquilo, comendo seu sanduíche.

SHARAPOV: - (AOS GRITOS) Ele vai me matar!!!!

Mulder ergue os ombros.

SHARAPOV: - (AOS GRITOS) Eu dei os nomes! Eu contei tudo o que sei!!! Você prometeu!!!

Mulder esboça indiferença.

SHARAPOV: - (AOS GRITOS) Vocês são sádicos!!!!

Mulder percebe a vassoura velha encostada na parede. Pega a vassoura e estende pra trás, sem olhar.

MULDER: - Ensina pra ele o que é sadismo. Experimenta isso. E não se dê ao trabalho de cuspir na ponta...

SHARAPOV: - (AOS GRITOS) Seus desgraçados!!!!!!

Mulder continua tranquilamente comendo seu sanduíche.

Corte.


Mulder sentado dentro do carro. Krycek sai do armazém, sujo de sangue. Entra no carro. Mulder olha pra ele.

MULDER: -... Usou a vassoura?

KRYCEK: - Não. Ele podia gostar.

MULDER: - Eu trouxe uma pá. Conheço um lugar bom pra enterrar um corpo.

KRYCEK: - (CABISBAIXO) ...

Mulder leva o braço e puxa Krycek.

MULDER: - Tá tudo bem. Acabou.

Krycek se abraça nele, segurando as lágrimas. Mulder enche os olhos de lágrimas.

MULDER: - Tá tudo bem, irmão... Tudo bem... Acabou... Ei, amorzinho. Não vai me fazer chorar, não vai pegar bem dois caras do nosso tamanho abraçados no carro e chorando junto... Vai queimar nosso filme. Se a Scully e a Barbara descobrem, vamos explicar o quê?

Krycek solta Mulder e sorri secando as lágrimas.

KRYCEK: - Irmãos são pra isso?

MULDER: - É. A menos que voltemos a ser inimigos. Você me trai, eu soco você. Você me trai de novo, eu soco você novamente, e vamos assim até ficarmos velhos e reumáticos brigando com os andadores dentro de um asilo até esquecermos do por que estamos brigando devido ao Alzheimer.

KRYCEK: - (SORRI CANSADO) Como se a vida fosse só ignorância e revide? Como se ninguém evoluísse e aprendesse com os erros? Não, Mulder. Posso brigar com você ainda, mas somos melhores juntos na mesma causa. Não acha?

MULDER: - É, eu gosto da ideia de brigar com os andadores num asilo, mas acho melhor ficarmos velhos e reumáticos brigando pela última cerveja enquanto olhamos pro traseiro das enfermeiras e contamos piadas sujas. Isso se lembrarmos das piadas sujas por causa do Alzheimer.

KRYCEK: - Eu não o matei.

Mulder olha pra Krycek com surpresa.

KRYCEK: - Você me disse uma coisa há muito tempo, que quando sentia ódio tinha vontade de matar seu pai, mas a morte era boa demais pra ele. E você tinha razão, a morte seria boa demais para o Fumacinha. Como a morte é boa demais para Sharapov. Ele precisa sofrer, pagar pelos pecados dele. Como eu paguei pelos meus. Matá-lo não vai trazer Karel de volta. Não vai desfazer o que ele fez comigo. Como matar o Fumacinha ou eu mesmo, não vai trazer seu pai de volta, nem desfazer as coisas que aconteceram com você e Scully. Você tem razão sobre o passado. O lugar dele é no passado. Cabe a nós mudarmos o presente.

Mulder sorri.

KRYCEK: - Se você tivesse me matado, teria sido bom demais para o Alex Krycek traidor e assassino. Eu segui errando, caindo e levando rasteiras até que caí na real quando perdi Marita. Você me ensinou o perdão quando me ajudou e me perdoou. Eu queria retribuir esse perdão, mas não consigo perdoar aquele canalha lá dentro. Eu quero mais que ele pague caro. E tenho certeza que na prisão não tem perdão pra aliciador de meninas. Ele vai sentir na pele o que fez comigo.

MULDER: - Situação diferente, Krycek. Nem eu conseguiria perdoar se estivesse no seu lugar. Uma coisa é você sentir ódio por ser traído, outra é ficar anos tentando superar um trauma. Mas certamente o "desorelhado" aí vai ter que servir o traseiro dele lá dentro. Isso sim é uma bela vingança. Ou uma bela justiça poética?

KRYCEK: - Vou ligar pro delegado Norris ou você liga pro FBI?

MULDER: - Vamos pensar... O que vamos dizer?

KRYCEK: - Melhor chamar o Norris. Os assassinatos das garotas ocorreram na região do meu distrito e eu sou da homicídios. Vou dizer que o reconheci como sendo da máfia russa, o segui e dei umas porradas nele pra falar a verdade. Norris vai adorar isso. Depois o FBI vai aparecer, sem dúvida. E o que vai dizer ao FBI?

MULDER: - O que você vai dizer?

KRYCEK: - Que somos amigos, fomos tomar um café juntos e nos deparamos com um suspeito e o resto eu fui o responsável. Sharapov pode chiar o que quiser, é a palavra de um aliciador da mafia russa contra a palavra de dois policiais.

MULDER: - Quer suspensão?

KRYCEK: -O máximo que vou ouvir do Norris é: (IMITA A VOZ FURIOSA DO DELEGADO) "Aqueles malditos federais, meu detetive conseguiu pegar o safado que eles não conseguiram e os filhos da mãe engravatadinhos de perfume burguês levaram os créditos! Devia ter batido mais nele, Checov, para o FBI, os 'Fucking Bastards Idiots' terem o trabalho de recolher os restos com uma pá"!

Os dois riem. Mulder liga o carro. Sai do cais.

MULDER: - Combinei de jantar com a Scully. Não quero me atrasar. Não sei quanto a sua garota, mas a minha fica num mau humor insuportável quando está com fome.

KRYCEK: - A minha já nasceu com fome.

MULDER: - Ahá! Já é sua então? E aí, ela é quente? Aposto que é quente!

KRYCEK: - Quer que eu arrume uns andadores agora ou vai esperar a velhice pra apanhar?

MULDER: - Ei! Eu avisei que elas chegam com sobremesa gourmet só pra pegar o cara pela barriga. A sua garota consegue ser mais cruel que a minha, usa até ganache! O próximo passo dela é deixar umas roupas e a escova de dentes na sua casa. Só estou avisando.

KRYCEK: - E depois?

MULDER: - Ela vai rasgar a sua agenda de namoradas casuais, se livrar da sua pornografia e alegar que sua casa é mais confortável que a dela.

KRYCEK: - E depois?

MULDER: - Depois? Depois você acorda junto todo o dia, com uma coleira invisível no pescoço e pagando as contas. E depois? Não tem depois. Você já era como homem, como indivíduo. Depois tudo é "como eu me meti nessa encrenca"? E quando você está prestes a descobrir a resposta da pergunta, lá vem o filho.

KRYCEK: -(RINDO) Desisto agora, Mulder?

MULDER: - (RINDO)Tá maluco, Rato? É muito bom ser domesticado! Tem vantagens que a selva não oferece pra homens como nós.

KRYCEK: - Tipo?

MULDER: - Tipo esquecer dos problemas, do mundo lá fora, daquela velharada conspiradora, ombro pra chorar, abraço pra dormir... Só cuidado, elas fazem quitutes com a intenção de engordar você para as outras perderem o interesse... Eu vou dar uma dicas pra você, fiquei expert nesse assunto...

KRYCEK: - (RINDO) Além de meu psicólogo ainda quer ser meu conselheiro sentimental? Mulder, vá se ferrar! Eu vou atirar em você!

MULDER: - Ah, é assim que você me agradece? Eu vou socar a sua cara, Rato! Já me bateu a saudade!

KRYCEK: - Ah, fala sério, amorzinho, você sempre arrumava um jeito de me socar como desculpa inconsciente pra ter contato físico comigo! Você me ama!

MULDER: - Ah, amorzinho, eu te amo tanto quanto amo uma cirurgia de apendicite! Você que não larga do meu pé!

KRYCEK: - Você que não sabe mais viver sem mim!

MULDER: -Você é folgado, sabia?

KRYCEK: - E você me traz bombons!

MULDER: - Na próxima coloco veneno pra rato!

KRYCEK: - Sabe que pele de raposa dá um bom dinheiro?

MULDER: - Avise sua namorada que dormir com rato causa leptospirose.

KRYCEK: - Agora entendi porque Scully está sempre com aquela cara. Dormir com raposa transmite raiva.

Os dois seguem discutindo dentro do carro.

Esconderijo de Alex Krycek - 7:12 P.M.

Krycek entra com uma garrafa de vinho numa das mãos e segurando um buquê escondido nas costas. Barbara na cozinha fazendo jantar, colocando algo no forno.

BARBARA: - Hermoso! Espero que não fique aborrecido, mas você me deu a chave.

Barbara vai até ele. Os dois trocam um beijo. Krycek entrega o vinho. Ela, curiosa tenta ver o que ele esconde na costas. Krycek entrega as flores. Barbara abre um sorriso.

KRYCEK: - (SORRI) Pra você, sua curiosa.

BARBARA: -(SORRI/ EMPOLGADA) Pra mim? Adorei!!!

Barbara envolve os braços no pescoço dele e lhe dá um beijo na boca. Então vai pra cozinha com as flores.

BARBARA: - Como foi seu primeiro dia de volta ao trabalho?

KRYCEK: - ... Confuso. Mas não quero falar disso agora.

Barbara revira os armários. Pega uma jarra e coloca água.

BARBARA: - Estou fazendo bolo de carne, gosta?

KRYCEK: - Eu tô começando a achar que o Mulder tem razão...

Krycek senta-se na cadeira. Barbara coloca as flores na jarra e põe sobre a mesa.

BARBARA: - E no que Mulder tem razão, mi ratoncito?

KRYCEK: - Que vocês nos engordam para as outras perderem o interesse... Pensando bem, geralmente os caras casados são gordos.

BARBARA: - Quanta conspiração! É apenas um inocente bolo de carne, feito com amor para o meu namorado. E posso perguntar por que o vinho? Quer me deixar bêbada?

KRYCEK: - Quero apenas relaxar... Eu deveria comemorar com você o fato de que Norris sabe minha identidade, vai mover forças pra me deixar na polícia e não vou mais precisar mentir. E você sabe que estou gostando da coisa de ser detetive. Eu tenho ação. Eu preciso disso. Eu só sei fazer isso na vida!

BARBARA: - Então vamos comemorar! Abra o vinho. Como isso aconteceu?

Krycek abre o vinho. Barbara pega duas taças.

KRYCEK: - Mulder e Skinner. Eu fui agente do FBI, pelo menos no papel. É o que querem sempre não? A burocracia... Ah deixa pra lá! Tô cansado. Tô aborrecido, mas também não tô. Eu nem sei o que estou sentindo.

Barbara pega a garrafa das mãos dele e serve as taças. Entrega uma pra ele. Senta-se no colo dele.

KRYCEK: - Escreveu seu artigo?

BARBARA: - Sim, até já enviei. Quero falar uma coisa pra você. Uma emissora de televisão local... Quer falar comigo.

KRYCEK: - (SORRI) Sério?

BARBARA: - (SORRI) Amanhã vou lá ver o que querem. Do jeito que as coisas estão, topo até apresentar programa de culinária!

Barbara começa a desabotoar a camisa dele. Krycek tira uma flor do vaso.

BARBARA: - Anda, vamos tirar essa camisa. Você tá muito tenso. Vou fazer uma massagem nos seus ombros. Seu dia deve ter sido cheio.

Krycek coloca a flor no cabelo dela. Barbara sorri.

KRYCEK: - Preciso de um banho, malyshka.

Barbara se levanta, ajudando ele a tirar a camisa.

BARBARA: - Precisa de uma massagem antes. Deixa eu pegar minha mochila.

KRYCEK: - (SORRI) Ah! Você trouxe mochila? Vai deixar alguma coisa aqui, tipo roupas e escova de dentes?

Barbara revira a mochilha e volta com um vidrinho.

BARBARA: - É. Você se importa?

Krycek segura o riso. Ergue o copo.

KRYCEK: - É, Mulder... Acho que vou pedir pra você os números da loteria na próxima vez.

BARBARA: - Vou passar um óleo de ervas...

Barbara começa a fazer massagem nos ombros dele. Krycek inclina a cabeça pra trás.

KRYCEK: - Ah, eu posso me acostumar com essas coisas... Agora estou entendendo o quanto é bom ser domesticado...

BARBARA: - (RINDO) Acha que vou domesticar um rato selvagem?

KRYCEK: -Vai ser difícil.

BARBARA: - Nada! Já comecei a colocar o queijo na ratoeira.

KRYCEK: - Vai confiando... Eu tenho fama de ser duas caras e traidor.

BARBARA: - Você não é geminiano né?

KRYCEK: - Não.

BARBARA: - Ah, então estou tranquila! Geminianos são volúveis. Quebrei a sombrinha na cabeça do Rockfell e da vadia que estava com ele. E olha que eu não gostava dele. E de você eu gosto. Entendeu? Preciso ser mais clara? Eu não sou ciumenta, mas não ouse me testar.

KRYCEK: -Ok, já me sinto avisado.

Barbara vai pra frente dele.

BARBARA: - Mais relaxado?

KRYCEK: - Bem melhor.

Barbara se agacha na frente dele. Krycek olha pra ela curioso.

KRYCEK: - O que foi?

BARBARA: - (SORRI) Acho que você precisa relaxar mais, mi ratoncito...

Barbara leva a mão às calças dele. Krycek inclina a cabeça pra trás.

KRYCEK: - Ferrou... Fui fisgado nessa ratoeira.

Corte.


Os dois na cama entre os lençóis. Barbara nos braços dele. Krycek afaga o braço dela com a ponta dos dedos.

KRYCEK: -Passa o dia comigo amanhã? Fica aqui?

BARBARA: - Alex... Eu não sei se é uma boa ideia. Você vai enjoar de mim.

KRYCEK: - Como eu posso enjoar de você?

Krycek leva a mão entre os cabelos longos dela, como se os penteasse.

KRYCEK: - Negros como as noites de Moscou...

BARBARA: - Não é um bom sinal?

Krycek olha pra ela, impressionado.

KRYCEK: - Adoro olhos escuros. Não são comuns. São olhos sinceros. Profundos... Há paz neles.

Barbara ergue-se, olhando pra ele.

BARBARA: - Então estamos namorando, é isso?

KRYCEK: - (COMEÇA A RIR) E como isso funciona? Eu nem sei namorar! Nunca tive namorada.

BARBARA: - Ah eu ensino você. Que tal? Podemos nos encontrar só nos fins de semana para não sufocar você. Não estou exigindo nada.

KRYCEK: - Você conquista tudo o que quer dessa maneira?

BARBARA: - Não... Geralmente eu grito, desço do salto e faço tragédia. E dependendo, uso a minha sombrinha também.

Barbara sobe sobre ele. Os dois trocam um beijo. Barbara se aninha nos braços dele. Faz carinhos em seu peito.

BARBARA: - ... Posso perguntar uma coisa que está me deixando curiosa desde ontem?

KRYCEK: - Pergunte.

BARBARA: - Qual foi a primeira coisa que você fez quando chegou nos Estados Unidos? Hum?

KRYCEK: - Você não acreditaria se eu contasse...


1991

Aeroporto Internacional JFK – Nova Iorque - 5:00 P.M.

Krycek sai do desembarque, segurando a sacola de viagem e ajeitando a bandagem na cabeça. Observa o saguão do aeroporto. Cartazes e propagandas em inglês por todo o lado. Krycek sorri, num alívio.

KRYCEK: - (MURMURA) Freedom, papa. America.

Krycek segue caminhando pelo saguão. Procura seu contato, mas não encontra. O veterano de guerra na cadeira de rodas segura uma placa: "Get out Bush"!!!

Krycek olha para todos os lados, impressionado. As pessoas passam por ele, com sacolas de compras, malas. Famílias juntas. Krycek para em frente a loja, estarrecido. Abre um sorriso ao ver a imagem colorida na TV. Passa a mão no vidro. Olha para todos os lugares, impressionado com as máquinas de refrigerante e chocolates. Krycek então entra numa lanchonete. A garçonete aproxima-se com o bloco de pedidos, olhando para a bandagem na cabeça dele.

GARÇONETE: - (MASCANDO CHICLETES) Nossa, pegaram você de jeito. O que vai pedir, bonitão?

KRYCEK: - Eu quero aquilo ali.

Krycek aponta para o fundo do bar, num sorriso de garoto bobo. A garçonete olha pra ele incrédula.

GARÇONETE: - Só isso?

KRYCEK: - (SORRI) Tudo isso.

A garçonete se afasta, sem entender. Krycek respira fundo, perdendo os olhos no nada. Um misto de medo e alívio.

A garçonete se aproxima, deixando a garrafa de Coca-Cola sobre a mesa e saindo.



Конец

(FIM)

05/01/2003

Nov. 30, 2019, 2:12 a.m. 0 Report Embed 1
The End

Meet the author

Lara One As fanfics da One são escritas em forma de roteiro adaptado, em episódios e dispostas por temporadas, como uma série de verdade. Uma alternativa shipper à mitologia da série de televisão Arquivo X. https://www.facebook.com/laraone1

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