Dez Andares Acima. Follow story

kztironi Karina Zulauf Tironi

Ana Clara é azarada. A coisa de "um raio não cai duas vezes no mesmo lugar" não se aplicava à ela. Se tratando de Clarinha, cairia umas cinco vezes na sua cabeça. Se duvidar dez. Trabalhando no RH de uma empresa que despreza, onde o chefe parece fazer de tudo para pegar no seu pé e as colegas de trabalho a ignoram tanto quanto ignorariam um saco de arroz mofado, Ana Clara luta para permanecer otimista em relação a vida. Isto é, até as coisas começarem a dar errado. Muito errado. Em meio à fofocas de mal gosto, chefes esnobes, vizinhos irritantemente bonitos e chaves que nunca parecem ficar no lugar em que as coloca, Ana precisa se manter firme em seus sonhos e não se perder tentando se encaixar em um molde pequeno demais para ela.


Romance Chick-lit Not for children under 13.

#vizinhos #divertido #humor #romance
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Azarada

O dia já me parecia prometer que seria horrível desde as sete e meia da manhã, quando acordei sobressaltada e mirei o pequeno relógio verde no criado-mudo. Eu estava atrasada para o trabalho.

Seu Joaquim iria arrancar meu couro. E depois pregá-lo de volta e arrancar de novo, tamanha a raiva que estaria de mim. Chegar atrasada no terceiro dia logo após as férias na empresa não era uma coisa que chefes costumavam apreciar.

Joguei as cobertas para o lado na cama queen size e me levantei tão rápido que meu costumeiro problema de pressão baixa riu na minha cara. Com uma mão na cabeça e a outra estendida para me orientar em meio a súbita tontura, tracei meu caminho até o banheiro. Dei um jeito de escovar meus dentes o melhor que pude no menor tempo possível e passei um pouco de água fria nos cachos, que haviam se revoltado contra mim durante a noite.

Era doido como um pouquinho de água fazia milagres. Eu deixava de parecer um assombroso espantalho do milharal para ser um espantalho após um dia no salão.

Depois de trocar de roupa, corro pelo apartamento procurando por minha bolsa; a encontro no balcão da cozinha, ao lado de um pacote parcialmente vazio de Cheetos – o último lanchinho da noite que eu tivera, na preguiça para cozinhar algo digno ou pedir iFood. Ignoro o salgadinho com um embrulho no estômago e zarpo para o elevador. Ansiosa, não tiro os olhos do número em vermelho, indicando o andar em que ele estava parado.

13.

Eu morava no terceiro andar.

Mordisco o lábio inferior. Por que o número não mudava? Quem era o idiota que estava segurando o elevador?

Ah, eu tinha certeza que era aquele cara rabugento do prédio que nunca falava com ninguém, tanto pessoalmente quanto no grupo do condomínio. Seus olhos eram maldosos por si só. Ele devia estar segurando o elevador no horário mais movimentado de propósito. Seria bem o tipo dele.

Claro, eu não sabia se o apartamento dele ficava no décimo terceiro andar, mas se eu pudesse fazer um chute, diria que sim. O último andar do prédio seria perfeito para não ter que socializar com os moradores dos andares de baixo. Ele se isolaria lá em cima, como um homem das cavernas moderno.

Espio novamente o número do andar.

13. Não era possível.

Resmungando durante todos os três lances de escada, chego na garagem e praticamente me jogo dentro do meu Celta vermelho. Já eram sete e cinquenta, meu Deus, eu teria minhas entranhas sugadas de dentro de mim por um aspirador de pó. Isso se Joaquim tivesse misericórdia e não decidisse coloca-las em um espeto depois.

Enfio a chave na ignição e ligo o carro,

Ou tento. Por que o carro não liga. Nem na primeira tentativa, muito menos na sexta.

Só podia ser brincadeira.

Argh! Eu sabia que devia tê-lo mandado para a revisão na semana passada. Eu sabia!

Deixo a cabeça cair contra o volante enquanto penso minhas opções. Eu poderia pegar um ônibus, havia um ponto bem do lado do prédio, mas isso me faria chegar ainda mais atrasada. Poderia pedir uma carona para a senhora Silva, que eu sabia que trabalhava na confeitaria ao lado da empresa, mas não queria ser inconveniente (embora ela estivesse realmente me devendo uma, da vez que ela fora viajar e me deixara cuidando de seu maltês, Dorotinha, que fez xixi no meu apartamento inteiro e destruiu uma das minhas almofadas preferidas). É... acho que não me restavam muitas alternativas além da mais óbvia: chamar um Uber.

A contragosto e tentando reprimir a lembrança da última vez, quando o homem tentara me convencer a enviar uma solicitação de amizade para ele no Facebook, abro o aplicativo e digito o endereço. Graças a Deus o motorista é um senhor mais velho e silencioso. Tão silencioso que só escuto sua voz no “bom dia” quando entro no carro e no “tenha um bom dia” quando saio dele, na frente do prédio cinza azulado, onde ficava a S&S, Segurança e Sigilo, empresa em que eu trabalhava há três depressivos anos.

Dou uma espiada no celular.

Oito e vinte.

Fecho os olhos e inspiro fundo, dizendo a mim mesma que estava tudo bem e que Joaquim não teria a coragem de cometer um assassinato publicamente. Não seria bom para a empresa.

Porém, quando entro pelas portas de vidro e o rosto da secretária Karla se vira para mim com uma expressão de escárnio, começo a duvidar de como aquele dia se seguiria. Talvez eu nem mesmo tivesse a chance de ver a luz do sol outra vez. Engulo em seco e continuo em frente, tentando ao máximo passar despercebida – coisa que, é claro, não consegui fazer.

– Clara, querida.

Estanco no lugar em reação àquela voz que me dava pesadelos desde que eu começara a trabalhar na S&S, três anos atrás. De alguma forma, dou um jeito de virar e sorrir para Amélia, a filha do meu chefe e designer gráfica da empresa.

– Bom dia, Amélia.

– Oh, o que é isso. – Ela deu uma daquelas suas risadinhas que pareciam muito com tilintar de taças de vidro – Me chame de senhorita Rogers, por favor.

E alongou os dedos da mão esquerda em minha direção. Era impossível ignorar o anel dourado em seu dedo anelar. A joia parecia gritar para mim.

– Vocês se casaram? – Perguntei, tentando esconder minha surpresa.

– Ainda não, coisinha boba. Estamos noivos! – Abriu um sorrisão que brilhava tanto quanto o anel – Ainda vamos decidir os detalhes, mas já falei para o Guilherme que quero casar na primavera.

– Ah – foi só o que consegui dizer – Meus parabéns.

Guilherme, por acaso, também trabalhava na S&S, como diretor executivo, eu o conhecia há tanto tempo quanto conhecia Amélia e os outros. Contudo, ele havia sido uma das únicas pessoas naquele lugar que realmente fora gentil comigo; conversamos pouco, mas, quando o fazíamos, ele sempre se mostrara interessado e sorridente. Naquele lugar hostil, era de se entender como eu poderia ter começado a criar sentimentos por um homem bondoso. E como meu coração se despedaçara a vê-lo assumir um namoro com Amélia.

E agora um noivado.

– Ah, aqui vem ele!

Meu sangue gelou nas veias ao ver Guilherme se aproximando de nós duas. Ele estava usando um daqueles seus ternos super bem passados, sem um amassado sequer (naquele dia a cor escolhida fora um azul marfim que realçava seus olhos) e o cabelo escuro penteado minuciosamente para trás com gel. Sua colônia almiscarada usual me arrebata muito antes de ele parar na nossa frente.

– Bom dia, meninas.

Amélia riu mais uma vez, como se fosse uma colegial.

– Você já me disse bom dia hoje mais cedo. – E piscou para ele.

Tive ânsia de vômito.

– Bom, não custa dizer mais uma vez. – Guilherme sorriu e, com um galanteio, me perguntou como eu estava – Não vi você quando passei pela sua sala.

Senti minhas orelhas ficando vermelhas.

– É que eu, hã, acabei de chegar.

– Atrasada, senhorita? – Brincou, mas sem me dar uma reprimenda – Não contarei se você não contar.

– Tenho certeza que o meu pai deve ter notado a falta de Ana Clara há essas horas, meu amor. – Amélia falou com uma voz afetada – Ele tem olhos de águia. Sempre sabe quando alguém se atrasa, eu nunca conseguia me safar nas escapulidas para as festas da faculdade.

Maravilhoso.

– Espero saber mais dessas suas escapulidas na hora do almoço. Você nunca me contou que saia escondido pela janela. – Guilherme a cutucou de leve antes de continuar seu caminho – Vejo você depois, lindinha? Até mais, Ana.

– Tchau. – Murmurei ao mesmo tempo que Amélia lhe soprava um beijo.

Noivado. É, acho que agora não dá mais pra voltar atrás.

Eu devia saber que Guilherme era um homem muito além do que eu poderia ter.

– Eu sou tão sortuda. – Amélia suspirou, observando o noivo se afastar.

É.

E eu sou tão azarada.

Vou para minha mesa sem muita vontade, questionando como tanta coisa ruim poderia acontecer em menos de uma hora. O despertador não tocar, carro não ligar, receber a notícia de que o homem por quem eu secretamente tinha uma paixão vai se casar com a mulher mais insuportável de toda a S&S... O meu dia só melhorava.

O que mais poderia acontecer? Eu ser despedia? Tropeçar no ar, cair de cara no chão e quebrar os ossos faciais? Descobrir que o apocalipse vai acontecer e que meu corpo é o único que tem a cura e basta me matarem para extraí-la?

Descobri a resposta antes mesmo da hora do almoço, quando recebi uma ligação da minha mãe avisando sobre o falecimento de seu irmão postiço. O enterro seria no dia seguinte, em outro estado, e ela só havia ligado para me informar, já que sabia que não poderia faltar no trabalho para acompanhá-la. Desejei meus sentimentos a ela (nunca tive muito contato com esse tio, apesar de minha mãe e eles terem sido próximos) e prometi que iria visita-la no próximo feriado. Quando desliguei, fiquei com uma sensação de vazio enorme dentro do peito, tanto por nunca ter me interessado em conhecer esse tio, quanto por perceber quão pouco via minha mãe desde que me mudara de casa e arranjara esse emprego.

Na hora do almoço sentei sozinha no refeitório da S&S, o que não era nada novo. Comi o que tinha no cardápio para aquela quarta-feira e tomei um copo de suco de laranja azedo que me deu afta na ponta da língua quase que instantaneamente. Ao levantar, senti uma forte cãibra na lateral da coxa e precisei me apoiar na mesa até passar.

A tarde foi mais tranquila, a única coisa ruim foi aguentar o esporro de Joaquim quando o encontrei no caminho até o banheiro. Pedi desculpas e prometi que não se repetiria. Quando o dia chegou ao fim, fiquei imensamente feliz. Acho que não poderia aguentar mais um minuto naquele lugar.

Porém, ingênuo de minha parte achar que minha má sorte tinha raiz no trabalho. O motorista do Uber que pego até em casa ficou me olhando estranho pelo retrovisor o caminho inteiro, até quase atropelou uma senhora na faixa de pedestres por causa de sua distração. Fiquei de braços cruzados e cara emburrada até chegarmos ao destino, onde saí do carro sem me despedir ou olhar para ele enquanto pagava pela viagem.

Assim que eu tivesse a chance iria levar o carro para a manutenção e problema resolvido. Nunca mais teria que lidar com uma situação incômoda daquelas.

Eu ainda estava parada na calçada em frente ao prédio, minhas mãos tremiam de nervoso graças à tensão dos minutos anteriores. Acalme-se, disse a mim mesma, ele já foi. Você está segura. Porém, meu coração acelerado alegava o contrário.

Você poderia ter sido levada para longe, ele dizia. Um pouquinho mais de má sorte e seu rosto estaria na lista dos desaparecidos.

Ergo os olhos para o bar do outro lado da rua, contrastando com um céu que prometia uma chuva daquelas de verão, e passo um tempo observando as pessoas chegando no lugar, arrumadas e bem vestidas. Boka Pub não era o lugar mais sofisticado ou famoso da cidade, mais tinha sua clientela e sua fama de servir bons drinks por preços amigos. Eu nunca havia ido lá, muito menos tinha companhia, e, para uma mulher, chegar num bar como aquele completamente sozinha... bom, não era algo bem visto.

Fiquei mais um tempinho ali até sentir que havia me acalmado, então viro para entrar, procurando na bolsa meu molho de chaves, no qual estava o tag para abrir a porta do saguão.

E... não estava ali.

Parei com a mão ainda dentro da bolsa, lembrando de ter deixado as malditas chaves penduradas na porta do apartamento, na minha pressa para chegar ao trabalho. Eu quis me dar um soco na cara. Ou esmagar minha cabeça com a porta da geladeira.

Mas eu não poderia fazer isso porque não conseguiria entrar no maldito prédio!

Me xinguei mentalmente com todos os palavrões que conhecia por uns bons cinco minutos. Como eu podia ser tão estúpida? Nem mesmo as chaves reserva podia pegar, pois estavam no carro, na garagem. Eu só tinha duas opções: esperar alguém chegar e abrir para mim ou mandar mensagem para um vizinho que eu sabia que estava em casa essas horas.

Apoio as costas na parede ao lado da porta e conto até cinco para não surtar. Minha balança de sorte e azar devia estar quebrada, não era possível. Eu precisava ter uma conversinha com seja lá quem fosse o responsável por essa organização de distribuição de sorte. Minha quantia estava pequena demais – especialmente naquele dia catastrófico.

Volto a abrir os olhos e os foco novamente no Boka Pub.

Levo poucos segundos para tomar uma decisão.

Aquele dia estava sendo péssimo, acho que eu merecia alguma coisa forte. Alguma coisa que me fizesse esquecer, por uns momentos, toda a merda que havia acontecido em menos de vinte e quatro horas. Eu resolveria como entraria no prédio depois. Isso podia esperar.

Me desencosto da parede e olho para o céu que escurecia bem rápido, deixando a rua toda com um aspecto macabro. Um vento fez meus cabelos voarem por todas as direções alucinadamente.

Eu queria rir da situação.

São só alguns passos até o bar, não vai chover em tão pouco tempo. Eu não sou tão azarada assim.

No momento que coloco o pé na rua, o céu cai em cima de mim.

Nov. 28, 2019, 8:14 p.m. 0 Report Embed 2
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