Quando a Morte deixar de ser a Morte. Follow story

asheviere Jupiter L

Em um mundo pós-apocalíptico, no qual poucos humanos restaram, uma misteriosa entidade passa a ajudar os humanos a sobreviver. É uma função estranha, essa que a Morte decidiu assumir.


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#vida #morte #oneshot #conto #fantasia
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Único - Sobre a Morte e a Vida.

Saia. Saia daqui agora” sussurrei, perto o suficiente para encostar meus lábios na pele dele, se desejasse. Era a primeira vez que tentava instigá-los diretamente. Mas eu sabia que ele era inteligente o suficiente para ouvir a voz da Morte.

Aquele humano era o que chamavam de Alex. O apocalipse não fizera bem para ele, como não fizera bem a nenhum outro. Alex estava muito mais magro do que antes. A privação do sol tornara-o pálido e acinzentado, sendo possível observar veias esverdeadas sob áreas de pele quase translúcida. As poucas horas diárias de sono deixavam marcas em seu rosto, grandes manchas escuras sob olhos cansados em inchados.

E não eram apenas as olheiras que haviam mudado em seu rosto. No início, quando os humanos ainda não sabiam como sobreviver no seu novo mundo desolado, não se protegiam adequadamente. As fortes tempestades de areias, de grãos afiados como navalhas, eram muito mais perigosas do que julgaram. Milhares morreram por respirar um pouco daquela poeira, que invadia seus pulmões como lascas de diamantes, rasgando-os de dentro para fora. Os mais espertos começaram a cobrir o rosto com tecidos pesados, e ainda assim, precisavam trocar regularmente, pois mesmo o material grosseiro era retalhado em poucas semanas de uso. Além do tecido, usavam também óculos de proteção. No rosto de Alex, nas poucas áreas expostas entre os óculos e o tecido, sua pele tornara-se áspera em razão das finas cicatrizes que se entrelaçavam como teias de aranha. Todos os humanos as tinham, atualmente. Era impossível não carregar cicatrizes, todos já haviam sido pegos de surpresa por uma tempestade enquanto procuravam comida ou voltavam para seus abrigos.

Eu não deveria possuir cicatrizes, mas possuo. As tempestades não me afetam, e eu sigo meu caminho com meu rosto erguido e livre, sem proteção alguma. Ainda assim, quando as cicatrizes se tornaram comuns para os humanos, também começaram a aparecer na minha pele. Eu não sou mais do que um reflexo deles.

Saia daqui agora” reforcei, com ênfase.

Alex não podia me ouvir pelo corpo, mas eu esperava que ele me ouvisse pela mente, através do que chamavam de intuição. Ele ergueu a cabeça, as sobrancelhas franzidas em estranhamento. Minhas ações estavam cada vez mais explícitas, e acho que os humanos começavam a percebê-las, a entender que algo os ajudava, algo além do que eles podiam ver, ouvir ou tocar. Era um pouco irônico que fosse eu a ajudá-los. A Morte lutando para proteger os últimos humanos.

“Qual o sentido disso?Alex não falou em voz alta, nem mesmo chegou a formular a pergunta em sua mente, mas eu era capaz de ler os sentimentos humanos como se a minha aura ecoasse a deles. Alex se questionava sobre mim. Havia realmente algo além dele naquela farmácia abandonada e saqueada? Finalmente, depois de tanto tempo, estava começando a enlouquecer? Porque ele sentia uma presença fraca e volátil, sentia essa presença quando precisava de ajuda, e tão logo que a presença surgia, ela se esvaía, tão rápido que Alex só a percebia depois que ela já desaparecera.

Levante-se agora” instiguei. “Levante-se. Levante-se. Saia daqui agora.” Meus avisos deveriam ser percebidos como um instinto, um pressentimento. Alex sentia que precisava se levantar, mas ele estava exausto, além de começar a sentir os efeitos da desidratação. Se ele ao menos conseguisse chegar aos fundos, eu poderia guiá-lo até um lugar onde encontraria água para reabastecer o cantil, e seria o suficiente para que ele voltasse para os outros. Pacientemente, me sentei ao lado de Alex, deitado no chão sujo e quase sem forças. “Você já conseguiu os remédios, mas não adianta se não conseguir entregá-los. Você precisa levantar. Precisa voltar.”

Alex sentia sua garganta fechar ao constatar que seus companheiros dependiam dele. Sentia-se inútil. Morreria sem poder ajudá-los, e eles morreriam também porque Alex era fraco. Seus olhos encheram com as poucas lágrimas que conseguiam formar, mas Alex não se permitiu chorar ou entrar em pânico ainda.

“Se você realmente está aí…” Eu me surpreendi. Não era um mero sentimento, era um pensamento construído. Alex tentava falar comigo. “Por favor, me ajude mais uma vez.”

Aquilo era novidade. Os humanos não costumavam me chamar, apenas a minha contraparte recebia suas orações. A mim, pediam para que eu os deixasse em paz, que me afastasse deles. Nem sempre eu podia cumprir o que pediam, e poucos dos humanos tinham maturidade para me receber serenamente. Esses poucos humanos sabiam como era a natureza, e sabiam que não existe a Vida sem a Morte. Não podiam atrair minha irmã e ignorar minha existência. Não podiam fugir de mim.

Agora, eu estava ali pelos humanos, tentando evitar a todo o custo que eles viessem a cair em meus braços. Eu os receberia tão bem quanto recebi a todos, com um sussurro acolhedor e a promessa de que o sofrimento havia acabado. Mas eu sabia que assim que o último dos humanos desse seu último suspiro, eu também deixaria de existir.

Eu não sou parte da natureza. Os animais nasciam e morriam bem antes de minha irmã e eu sermos criadas. Mas os humanos eram diferentes. Eles enxergavam mais forças a reger o mundo do que aquelas meramente naturais. Eles enxergavam a geração de uma criança ou a perda de um ente e entregavam um sentido além do natural. Animais já morriam antes de mim, mas eu sou constituída dos pensamentos e crenças humanos, que enxergavam na morte uma entidade. É por isso que até mesmo minha aparência é inconstante, moldada pelos pensamentos dos humanos. Por isso que agora eu carrego cicatrizes como as deles. Então eu sei que o destino da humanidade será igual ao meu. Eu existo enquanto eles existirem.

Deve ser o mesmo para minha irmã. Espero que ela não se importe por eu agir em seu lugar. Mas há muito não nos encontramos, e às vezes acho que ela já desapareceu, conforme os humanos passaram a confiar mais em mim do que nela. A Morte era mais presente naqueles dias do que a Vida. Talvez, pouco a pouco, eu a tenha reduzido a nada.

– Por favor… me ajude… mais uma vez… – Dessa vez, Alex falou, apesar da voz rouca atravessar a garganta seca com esforço.

Era realmente para mim, não para minha irmã. Hesitei de início, então eu me inclinei sobre ele e coloquei minha mão em seu peito, sobre seu coração. Ao contrário do que pensava a maioria, meu toque não era gélido, era quente e reconfortante. Eu queria que Alex sentisse um pouco disso enquanto me ouvia.

Como você conheceu seus companheiros?” perguntei, gentilmente. Alex viajava com mais quatro pessoas. Um homem, chamado Daniel, e seu filho pequeno, Lucas. Uma mulher de meia idade chamada Ellen. Uma adolescente chamada Nerissa. Nenhuma dessas pessoas se conhecia quando o mundo ainda era receptivo à vida humana. Eles se juntaram depois, encontraram-se em momentos de necessidade e fortes laços de confiança e parceria se formaram entre eles. Eram uma família genuína. Agora, Daniel estava doente, e Nerissa estava ferida. Alex estava naquela farmácia por isso. Por eles. “Você se lembra da Raquel?” Raquel era uma garota de 11 anos que abrira as portas do galpão onde sua família se abrigava para Alex durante uma das tempestades. “Você se lembra dos seus pais, da sua irmã, e de todas as pessoas que o ajudaram a chegar até aqui?

E assim, como só acontecia quando os humanos estavam prestes a me encontrar pessoalmente, as imagens dançaram diante de Alex, memórias de toda a sua vida. Alex não podia desistir. Sua sobrevivência era resultado do esforço de muitas pessoas, e agora era sua vez de garantir a sobrevivência de outros. Eu mantive minha mão em seu peito, para que a sensação alentadora permanecesse enquanto Alex tinha em mente os seus amigos. De algum lugar dentro de si, Alex conseguiu reunir forças. Ele estendia os braços, determinado, enquanto se esforçava para alcançar a saída. Ainda sem forças para levantar, se aproximava da porta devagar, arrastando-se como podia.

Está tudo bem” falei. “Apenas não pare.

Alex finalmente conseguiu se levantar, carregando os remédios que precisava, e, em passos cambaleantes, seguimos lado a lado. Eu sussurrava sugestões para ele, cuja intuição parecia mais aflorada agora que ele reconhecia minha ajuda. Com meia palavra, uma mera ideia lançada sobre ele, Alex compreendia o que precisava fazer.

Alex seguiu exemplarmente minhas instruções, e entrou em uma casa da rua, com um jardim cheio de plantas mortas. O clima agora era estranhamente seco, e a terra, infértil. As chuvas eram ocasionais. Felizmente, havia chovido há algum tempo. Quem quer que tivesse morado ali, gostava muito de plantas, grandes vasos abrigavam até mesmo árvores. Alex correu ao ver o que encontrara, caindo de joelhos diante de dois vasos ainda desocupados, que durante a última chuva haviam se enchido de água. Sua garganta implorava por água, e Alex, com as mãos tremendo, levou um pouco da água à boca, sem se importar com opacidade da água em razão da poeira. Não faria mal beber um pouco da água impura, como não fazia mal respirar uma única vez o ar das tempestades, mas não podia ser sempre descuidado de beber a água impura, ou a areia esfolaria sua garganta. Alex matou sua sede, mas para beber mais, ele tomou os cuidados necessários. Usou um pedaço quadrado do mesmo tecido que protegia seu rosto, o prendeu na boca da garrafa e virou o jarro, enchendo a garrafa enquanto a areia letal era filtrada pelo tecido.

Alex estava pronto para voltar para seu grupo e partiu imediatamente. Eu não o acompanhei, pois, em outro lugar, outros humanos precisavam de ajuda. Muitos quilômetros separavam esses dois grupos, mas um dia eu farei eles se encontrarem. Ambos os grupos terão mais chances caso se unam, isso é certo.

É assim que tem sido minha existência ultimamente. Eu sigo encontrando humanos e tentando ajudá-los a sobreviver. Em meses, eu só recebi na morte duas pessoas: um jovem que, apesar do meu esforço, não conseguiu me ouvir, e um senhor que deixou a vida por meios perfeitamente naturais. Parece que as surpresas da vida não se reservam apenas aos humanos. Aqui estou eu, fazendo o exato oposto do meu propósito.

Eu não esperava encontrar Alex outra vez, a menos que ele novamente precisasse da minha ajuda. Mas não foi assim que aconteceu. No momento, eu estava em paz, minha presença não era necessária em lugar algum. Mas dessa vez, algo parecia diferente, embora eu não conseguisse discernir o quê. Havia certa energia no ar, como um conjunto de vozes sussurrantes, mas eu não compreendia o que diziam. Eu deixei minha essência fluir pelo mundo, que o mundo me guiasse aonde eu precisasse ir. Foi uma surpresa encontrar aquelas cinco pessoas. Alex havia conseguido levar os remédios para Daniel e Nerissa. Então por que eu estava ali?

– Você sentiu aquilo de novo? – Ellen perguntou para Alex. Ellen sabia o que era “aquilo”, pois já estivera na posição de Alex e eu a ajudei. Ajudei todos ali. Eles se encontraram por minha causa.

– Senti, mais forte que nunca! – Alex falava com empolgação. Lucas, em seus 7 anos, observava a conversa atentamente, perguntando vez ou outra do que estavam falando.

– Nós achamos, Lucas, que existe uma força invisível acompanhando cada um de nós. – Ellen explicou. Pude perceber que Alex e Ellen não foram os únicos a notar meus esforços, vi nos rostos de Daniel e Nerissa que eles também sentiram algo perto de mim. – Uma força que, quando estamos em risco, surge rapidamente para nos inspirar, ou mesmo modifica a sorte em nosso favor.

– Uma pessoa? – Lucas perguntou.

– Talvez.

– Não é uma pessoa. – Alex afirmou, serenamente. Ele levantou a cabeça, sem olhar para Lucas ou Ellen. Por coincidência, ele olhava na minha direção, mesmo que seu olhar me atravessasse sem perceber que eu estava ali. Será que ele sentia minha presença naquele momento? – É uma força. A força da Vida.

Vida. Eles estavam me chamando de Vida.

Só então fui capaz de compreender aquela energia estranha, as vozes sussurrantes. Pessoas pediam minha ajuda, pessoas agradeciam minha ajuda. Alguns chamavam-me para acompanhá-los em sua jornada, outros pediam a graça de uma morte pacífica. Os humanos estavam falando comigo sem medo, como alguém que chama uma velha amiga. Minha irmã não estava mais aqui, eu era a única força que eles conheciam e que os auxiliava a perseverar.

Era possível que a Morte se tornasse a Vida?

Eu sempre gostei de ser inconstante, pois a eternidade é muito tempo para permanecer igual. Porém, todas as versões de mim sempre foram provocadas por mudanças na consciência coletiva da humanidade. Os pensamentos dos humanos mudavam minha aura, mudavam minha aparência. Seriam capazes de mudar meu propósito?

Não, isso estava errado. Não foram os humanos, fui eu. Eu agi. Eu os ajudei. Pela primeira vez em minha longa existência, algo em mim havia mudado por minhas ações. Os humanos apenas perceberam a mudança, não a causaram. Percebi, com satisfação, que Alex falara a verdade.

Eu era a Vida.

Nov. 26, 2019, 8:26 p.m. 0 Report Embed 1
The End

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