Fúria contra à Máquina Follow story

oak Rodrigo Carvalho

Um conto rápido sobre raiva, revolta, sociedades quebradas e motivos para continuar.


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#ficçãocientífica #contraosistema #futurismo #conto #tecnologia #futurista
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Fins e Começos

Rápido.


Atingiu os limites da autoestrada em meio minuto. Seu grito estridente era abafado pelo intenso rugido do motor que impedia se distinguir se era raiva, dor ou euforia.


Mais rápido.


Movia incessante ambas as mãos no volante, forçando a máquina a ir mais e mais rápido. O painel digital exibia números em constante elevação. Cada vez mais rápido cada vez mais difícil de enxergar, cada vez mais difícil de controlar.


Ainda não é o suficiente.


O tom chumbo chapado que a veículo carregava se iluminava em uma laranja incandescente cada vez que era mais exigido. A turbina de captação de ar absorvia todo a ar possível lutando contra o superaquecimento que a máquina de velocidade. Seu rastro para o olho humano era um espectro de vermelho e laranja que a seguia por metros a fio, cada vez mais distante, cada vez mais intenso, cada vez mais poderoso.


Não, eu quero mais, eu quero mais do que isso.


Seu cabelo não serpenteava mais, era controlado pela velocidade em uma única direção, um único comando, seguir o avança ininterrupto de homem e máquina. A testa cerrada e os olhos vidrados, vermelhos e cansados, já secos pela ininterrupta ação física do próprio ar se recusam a deixar de produzir lágrimas, mas assim como seu grito seco, abafado, não podiam ser distinguidas. Lágrimas de que? Raiva dor ou euforia?


Não é o suficiente.


No painel digital os três dígitos se aproximavam de um número improvável e perigoso. O casaco perdia o capuz, que aos poucos ia se rasgando dada a força que o jogava para trás e a força de seu dono que não cedia ao sua opositora.


Por que eu não consigo sentir que é o suficiente?


Piscou uma vez e já não via mais o asfalta negro com as marcas amarelas da via. Sentiu seu corpo estático, mas com uma leveza, uma liberdade tão incrível que podia se perder dentro dela para sempre.


Por que eu preciso provar algo pra eles?


Notou que ouvia dois sons diferentes agora, e percebeu quão alto gritava, quando dolorosa era a força exercida por suas cordas vocais em sua garganta, e quão desconfortável era a dor de seus músculos queimando por todo o corpo, tudo isso por resistir àquela velocidade. O outro som era aquele motor infernal, gritando e implorando por mais.


Rápido, eu só.. quero ir mais rápido, para o mais longe daqui.


No chão, enquanto olhava para cima sem pensar no que acabava de acontecer, sem sentir mais aquela força que o puxava para trás, livre do peso que o prendia e o impedia de ir só conseguia notar os pássaros que voavam bem distantes, como se passassem para observar o que havia acontecido ali.


- Vai ficar largado ai ou vai lá mostrar pra todo mundo que você é melhor do que eles acham que você é? - Agachada ao seu lado os cabelos vermelhos roubavam a cor do céu, tornando avermelhados como sangue que sentia escorrer por cima de seus olhos - Você tem que provar pra você mesmo que não precisa provar nada pra eles, não é? - Puxou delicadamente uma mexe do cabelo e o prendeu atrás de uma das orelhas, ele caiu logo em seguida o que tirou um sorriso do seu rosto - Mas você tá provando isso pra você ou pra eles? Você quer fugir, e deveria, mas quer ficar e lutar, e também deveria então o que você faz? - A mulher se levanta tornando impossível ver seu rosto graças ao sol que com dificuldade ultrapassa as nuvens, apenas a roupa que usa ele pode ver, o short, as botas, a camisa de manga comprida toda preta e branca com a logo marca daquela marca de pizzaria que ele adora - Você tem que fazer o que você sente que é certo e foda-se eles - Ela olha para cima tentando proteger seus olhos com um das mãos - E foda-se o resto, eu vou com você pra onde você for - Com um movimento forte de sua postura e um olhar decidido que mesmo ofuscado pelo sol podia ser visto dentro dele, ela o penetrou até a alma e de suas costas puxou algo bem peculiar particular para ele - Mas você precisa entender isso..faz por você, deixa teu corpo te levar, eu não ligo de morrer aqui ou daqui a dez anos a dez mil milhas daqui - Puxou de um lado e segurou do outro mostrando uma lâmina prateada que refletiu ainda mais o feixe de luz que vinha de cima, seus olhos azuis era refletidos assim como a própria luz - Só não se entrega a essa merda, você já caiu algumas vezes pra isso, mas eu sei que você pode lutar contra, pode vencer... - Sacou a lâmina da bainha, 1 metro do mais puro titânio enriquecido com carbono - E então, eles não vão ser nada.. - Apontou para ele a espada e apenas aguardou sua resposta.


- Não me perder na minha mente.. eu acho que já me perdi tantas vezes, que eu não sei mais como voltar.. - Palavras lentas, com a garganta destruída ele não podia esperar que sua voz seria bem projetada ou compreensível - Eu não queria que fosse assim, sabe? E..eu.. só queria me sentir livre um pouco, sem cobranças, sem o peso.. sem precisar mostrar pra eles que sou capaz.. eu.. - A mulher o interrompe enfiando a espada no solo bem ao lado de seu rosto. Ele nem sequer pisca e a encara nos olhos, mesmo ainda não conseguindo enxergar bem - E.. isso aqui é sua saída? - Ela pergunta irada - Desistir ainda é uma saída.. acho que a mais difícil - Ele responde com o corpo relaxando, parando de sentir a dor nos músculos por todo o corpo, parando de sentir o estrago que causou a sua garganta.


Silêncio.


- Mas se tem uma coisa que vai me impedir de desistir nesse momento.. - O senho se fechou e a expressão de raiva profunda tomou seu rosto e um único estalo, aquele provocado por seus punhos se fechando e seus ossos se contorcendo diante da profusão de todos seus músculos se enrijecendo - ... é que eu preciso arrancar aqueles sorrisos pretensiosos daquelas caras cheias de soberba.. - Seus olhos se abriram e em um movimento bruto e ágil na mesma intensidade levantou-se em meio a um rolamento. Tudo ainda era vermelho aos seus olhos, mas não havia mais algo ofuscando a visão - Foda-se ao que aquele imbicai me destinou quando eu nasci, e ao que eu fui taxado, ao que eu perdi, ao que eu falhei, eles não me controlam, eu me recuso a aceitar que me controlam.. e vou morrer, se precisar, me recusando a isso - A mulher deixou a espada leve em sua mão esperando que ele a pegasse e assim foi feito.


- Ótimo, já tava achando que ia precisar ir me matar sozinha - Gritou enquanto era tomada pela proliferação de sua aura. O vermelho forte, combinando com seu cabelo, sua marca registrada tornou-se asas da mesma cor, viva, porém irreal aos olhos alheios. Bateu uma vez, duas e alçou um vou lento que rapidamente tornou-se veloz em uma reta horizontal para cima. Centenas de metros a cima parou, olhou para baixo e mudou seu curso, voltaria a cidade das escadas, dos arranha-céus negros e das luzes neon.


Na estrada, bem abaixo dela o urro infernal da máquina que havia se calado volta a nascer. Mais voraz e poderosa que antes, indo na mesma direção que a mulher alada, tão rápida quanto. Deixando o mesmo rastro laranja avermelhado, mas voltado a um propósito. Ele segurava a espada com um dos braços abertos, seus olhos negros brilhavam em amarelo e os implantes em seu rosco cintilavam na mesma cor. As barreiras da estrada se moldando a sua vontade enquanto as armas se recusam a atingi-lo e os guardas ainda atônitos com a sua última passagem enlouquecendo com a visão da sua volta.


A lâmina se ilumina num profuso azul neon - Você sabe.. eu sinto que preciso descansar, que.. não há lugar para mim aqui, que ninguém me espera, ou que ninguém liga para mim, que nada que faço é valioso, faz sentido ou sequer é importante. E.. isso pode ser verdade, mas não posso simplesmente ignorar que acima disso tudo o que eu mais quero e ver quem faz a mim, e você que lê, sentir isso.. sofrer e pagar por isso. Cada lágrima será cobrada.


Kaidan a cidade das escadas, a maior do seu tipo, o antro da desigualdade, da desordem e do caos, a vitrine das grandes corporações, dos mais ricos e da uma legião de gado pobre que os serve sem questionar e se perguntar porque adoecem e tem uma vida tão miserável, o reflexo do mundo moderno criou muitos monstros em seus vários e vários anos de existência. Todos morreram, ceifados pelas próprias mãos que os criaram. Expulsos e depois caçados, ou pior, controlados por um sistema que sempre existiu para perpetuar quem manda e quem obedece, tornando o monstro em um cão adestrado, mais uma vez se confrontará com suas crias, sem perspectiva, sem ter o que perder, sem ter pra onde ir, ou o que sonhar, com um único objetivo o de matar e arrancar a cabeça desse ser nefasta que governa o homem, a cobra, raiz desse problema.


Dois monstros, erguidos por tantos outros que caíram antes deles, Athéo e Sadiha, mais uma vez se levantam contra a ordem natural, encarnando tudo pelo os que anseiam pela liberdade esperam mesmo sem sequer perceber: justiça.

Nov. 26, 2019, 6:11 a.m. 0 Report Embed 0
The End

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Rodrigo Carvalho Gosto de escrever, só não faço bem, por enquanto é só isso.

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