Deu ruim, sorria. Follow story

navled DELVAN SALES

Uma história sobre Jupter e Marte e também sobre quando algo que planejamos dá errado. Mas dar errado é relativo, então leia e tire suas próprias conclusões.


Romance Contemporary All public.
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Deu ruim, sorria.

Final de um dia de outono. No cais de frente pro lago da cidade haviam alguns jovens, pessoas cinzas normais. Jupter chorava de forma contida, enquanto Marte olhava perdidamente para o lago

A luz dos postes refletia no lago e formava algumas imagens abstratas que redesenhavam-se conforme o vento movia a água da superfície.

Ambos estavam sentados na beira do cais, seus pés quase tocavam a água. Júpiter sentia um frio adicional em razão de suas lágrimas, então de tempos em tempos limpava o rosto com a manga de sua blusa de frio.

“Queria conseguir chorar assim, deve dar um bom alívio”, disse Marte, desviando o olhar. Jupter não entendeu o que Marte quis dizer com ‘queria conseguir chorar’, afinal quem iria querer conseguir chorar? Pensou. Mas ignorou esse pensamento e indagou “você não chora?”. Marte percebeu certo incômodo de Jupter com sua colocação, mas ignorou, então redarguiu “é claro que choro, mas apenas quando tem muita coisa acumulada aqui dentro, só quando… - nesse momento ficou tentando encontrar alguma metáfora pra explicar como funciona o seu choro, até que ao olhar pro lago continuou - … Só quando meu lago interior está muito cheio e aí acaba transbordando, mas sempre leva um bom tempo pra isso acontecer e quando acontece dá mais desespero que alívio”. Sorriu timidamente e continuou “assim que funciono com relação aos choros, queria que fosse algo mais frequente e natural como é pra você”.

Jupter entendeu o que Marte tentou dizer, quis retrucar, mas preferiu não prolongar o assunto.

Mudando o foco da conversa, Jupter olhou para Marte com um misto de confusão e firmeza e falou “faz tempo que estamos aqui, né, mas é como se acabássemos de chegar, acho que já perdi a noção de tempo”.

Marte pensou sobre isso por um momento e respondeu “você tem razão, não consigo perceber quanto tempo faz que estamos aqui também”.

Algumas horas antes desse momento, meio que marcaram um encontro, a princípio romântico. Um passeio de barco no lago.

Não era o primeiro encontro, se conheciam fazia uns meses e sempre que podiam, saíam. Curtiam programas alternativos, que significava qualquer coisa que não fosse dentro de um shopping ou em alguma rede de fast-food.

O lago em que estavam atravessava toda a cidade. Aproveitando-se disso alguns donos de barcos organizavam passeios turísticos.

Na manhã do dia em que esta história começa, Jupter recebeu uma mensagem de Marte, que dizia “advinha quem conseguiu dois ingressos para andarmos de barco hoje à tarde?” seguido de “bom, eu sei que está cedo, sei que está dormindo, pois ainda são quatro. Era pra ter te contado isso ontem, mas quis deixar a surpresa pra hoje, porém meu celular voltou a apresentar aquele problema, então antes de chegar no trabalho vou deixar ele no conserto, provavelmente só o pego amanhã, então meio que estou sendo forçado a adiantar as coisas, enfim, te espero na ponte, onde os barcos saem, o nosso sai às 18h, não se atrase. Beijos.”

Ao acordar, Jupter leu a mensagem. Num primeiro momento, pensou em responder dizendo que não poderia ir, pois tinha umas coisas pra fazer. Na verdade só não estava com ânimo pra sair naquele dia, queria ficar em casa jogando world of warcraft ou assistindo qualquer coisa na Netflix. Mas logo raciocinou que Marte só veria sua resposta no dia seguinte, quando ela já não serviria. Jupter realmente não estava a fim de ir, mas não tinha nenhum motivo realmente válido para não ir, então acabou cedendo.

Ao chegar no passeio, Conheceram um senhorzinho com arquétipo de marinheiro, que se apresentou como Netuno, e lhes contou um pouco sobre o lago e sobre seu barco, Andrea Dória, com histórias meio grandiosas e de duvidosa veracidade sobre o que já viveram juntos.

Em determinado momento da viagem, Jupter e Marte foram até ponta do barco, e imitando a cena de titanic, abriram os braços, quando Jupter se desequilibrou e acabou caindo no lago. Rapidamente Marte pulou para lhe resgatar. Netuno correu até a ponta barco e gritou“VOCÊS ESTÃO BEM?”.

Após uns segundos de silêncio e apreensão, Marte emergiu trazendo consigo Jupter, e gritou“ESTAMOS”. Netuno respondeu“ESPEREM QUE VOU JOGAR COLETES E UMA CORDA PRA VOCÊS”. Mas Marte respondeu“OBRIGADO, MAS NÃO PRECISA. ESTÁ VENDO AQUELE CAIS? VAMOS PARA LÁ. PODE CONTINUAR A VIAGEM”. Netuno transpareceu uma expressão nitidamente insatisfeita com a situação, mas ao mesmo tempo com um ar de alívio acenou pros dois enquanto respondeu que tudo bem e lhes disse para tomarem mais cuidado.

Jupter pensou que sinceramente nem queria estar ali naquela noite e que poderia ter evitado passar por toda aquela situação, então começou a chorar. Marte apenas ficou olhando pro lago

Passaram-se alguns minutos de silêncio. Só ficaram lá.

Após um tempo, Marte olhou firmemente pros olhos de Jupter e disse “bom, depois do que passamos acho que shopping nem é um programa tão ruim assim, né”. Jupter olhou para Marte com uma expressão incrédula pelo que acabara de escutar, pensou em alguma resposta, mas só conseguiu lhe dar um sorriso. Um sorriso sincero. Retribuído com outro sorriso sincero.

Neste momento, apesar de tudo que aconteceu, o dia valeu a pena.

Nov. 26, 2019, 5:31 a.m. 1 Report Embed 1
The End

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Rodrigo Borges Rodrigo Borges
É uma metáfora bem válida essa do lago cheio. Sei bem o quanto se encaixa. Parabéns pela primeira postagem no site, e que postagem!!
2 weeks ago
~

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