Meu Mundo Sobrenatural Follow story

kztironi Karina Zulauf Tironi

Leanan está prestes a ser a dona oficial do restaurante da sua família, Doce Veneno. Todas os seres da cidade de Enchanted fazem parte da clientela; centauros, vampiros, bruxas e até mesmo o pé grande. Leanan está feliz, é claro, será uma honra administrar o lugar que passou de geração em geração até chegar nela. Porém... Leanan deseja mais para sua vida do que servir e limpar Doce Veneno: ela quer conhecer o mundo. Embarque com Leanan Sídhe nessa aventura cheia de autoconhecimento, amizade, paixões avassaladoras e muita fantasia. Não deixe a lua cheia te assustar, nessa história os lobisomens fazem muito mais do que uivar.


Fantasy All public.

#fantasia #magia #vampiros #mitologia #bruxas #lendas #fadas #lobisomens #gárgulas
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Doce Veneno

Ouvi dizer que na época que minha bisavó era dona do café, as gárgulas não haviam sido completamente extintas ainda e que, inclusive, muitas delas faziam parte da vasta freguesia do único recinto que realmente servia comida para todas as variações das espécies na cidade de Enchant – o nosso restaurante, Doce Veneno.

Elas começaram a misteriosamente desaparecer na época em que mamãe ainda podia caber na palma da mão de vovó, de tão pequeninha. Ninguém nunca soube direito o que aconteceu com elas ou porque não foram mais vistas em lugar nenhum, nem mesmo encolhidas nas calhas dos telhados, onde costumavam ficar, principalmente ao entardecer dos dias. As gárgulas não foram as únicas a serem – aparentemente – extintas, junto com elas haviam as Nixes, os Iétis e os Minotauros, apesar de vez em quando eu jurar ver um quando ia até a Floresta Azul colher algumas hortaliças para saborizar as bebidas.

Eu mesma nunca dei de cara com uma gárgula de verdade antes.

Delas só sei o que mamãe me contou: o quão monstruosas eram, com suas asas enormes, capazes de abraçar o próprio corpo duas vezes, garras afiadíssimas, chifres e olhos petrificantes. Uma vez cheguei a sonhar com uma, mas, como nunca havia realmente visto com meus próprios olhos, não sabia dizer se a minha criação da mesma chegava perto ou longe da realidade de uma gárgula.

De qualquer forma, eu sentia tristeza com o desaparecimento da espécie, assim como ficava quando via Douglas, o último lobisomem de Enchant. Sua matilha havia ido embora há alguns anos da cidade, ele fora o único que permanecera, por algum motivo. E acho que nunca saberei o porquê. Ele dizia ser um lobo solitário todas as vezes que eu tocava no assunto, se esquivando de uma resposta mais elaborada, então parei de questionar.

– Você nunca sente vontade de ir embora também? – Foi o que havia perguntando em nossa última conversa – Sabe, explorar outros lugares, cavar outras terras e farejar outros traseiros.

Douglas bufou, ofendido.

– Nunca considerei nada disso como felicidade. Fazer xixi em uma árvore há quilômetros de Enchant ou no jardim de casa, pra mim, é a mesma coisa.

Revirei os olhos, passando o pano úmido feito de teias de Aracne no balcão de bebidas. Douglas estava sentado do outro lado, tomando um copo de leite morno, seu preferido.

– Bom, deveria pensar. Você, pelo menos, tem a liberdade de fazer o que quiser. Não está preso aqui para o resto da sua vida.

Ele parou no movimento de levar o copo aos lábios, curioso.

– Ora, nem você.

– Sabe que não é verdade. Minha mãe está passando a escritura do restaurante no meu nome, será meu em questão de semanas ou poucos dias. Não posso sair. Assim que tudo estiver pronto, minha vida será dentro do lado de dentro dessas paredes.

Olhei em volta por um momento, e deixei que o sentimento de carinho por aquele lugar tomasse conta de mim, me lembrando que ser dona do Doce Veneno não seria um fardo. Claro, demandaria alguns sacrifícios de minha parte, como a possibilidade de mudança, mas minha árvore genealógica havia fincado suas raízes em mim e no restaurante, que era de meus ancestrais, anos atrás, e logo seria completamente meu. Renegar Doce Veneno seria como cuspir na cara de toda minha família e dar-lhes as costas definitivamente. Eu não podia e não faria isso.

Por mais que ansiasse essa liberdade.

Douglas ficou pensativo de repente.

– O que foi? – Instigo, deixando o pano de lado.

– Eu só estava pensando – ergueu os ombros, com os olhos perdidos na bebida, ainda na mão esquerda – Que se você vai realmente ficar presa aqui depois que o restaurante for seu, devia aproveitar o tempo que lhe resta para fazer algumas coisas. Coisas que nunca fez, mas que sempre sentiu vontade de fazer. Viajar, por exemplo.

Sorrio de lado, contente por ele demonstrar interesse em uma questão minha, porém, bastante ciente que aquela era uma ideia maluca.

– E quem cuidaria do restaurante?

– Tenho certeza que sua mãe poderia recuperar o controle dele por alguns dias, enquanto você está fora.

Balanço a cabeça.

– Já passou da idade dela trabalhar, Douglas. Minha mãe precisa descansar, a última coisa que ela deveria ter que lidar deveria ser o restaurante. Você sabe como as coisas aqui podem ser... – paro para escolher a palavra certa, e, quando a digo, faço em um tom mais baixo que o anterior – Complicadas.

Quase que imediatamente após minha fala, houve uma comoção em uma das mesas do restaurante parcialmente lotado. Me mexi para ver que uma discussão que começara com ofensas sussurradas em tom adequado para as regras de Doce Veneno (elas não eram fora do comum, principalmente juntando em um só recinto várias espécies de seres sobrenaturais, então era quase que impossível impedi-las de acontecerem a cada vinte minutos) crescera para se tornar uma iniciação de briga.

Os envolvidos era um Centauro de longos cabelos presos em três tranças ao redor da cabeça bronzeada e um Kakamora, o que me surpreendeu, pois eles raramente eram vistos fora das cavernas. O Kakamora tinha um corpanzil, se destacando do Centauro com seu único braço, olho e perna e seu cabelo ruivo ralo, reminiscência da crina de um parente próximo dos próprios Centauros mais antigos. Dos dedos de sua única mão, unhas compridas, negras eram capazes de fazer um grande estrago – como eu já havia escutado de conhecidos, arranhando seres até a morte.

Ambos se encararam com agressividade, o Kakamora tendo levantado tão depressa que chegou a derrubar a cadeira para trás. Imediatamente me apressei para sair de detrás do balcão.

A coisa ficaria bem feia se eu não interferisse logo.

Experiência própria, com meus quase vinte anos cuidando do restaurante.

– Ei, ei, ei. – Me coloquei entre os dois, mas não no meio, para minha própria segurança, Conhecimento igualmente graças à uma experiência anterior – O que está acontecendo aqui?

O Centauro se permitiu uma espiada em minha direção, mas o Kakamora colérico nem mesmo dirigiu-me um olhar, sua boca repuxada nos cantos, como se fantasiasse em rasgar a jugular do Centauro com os próprios dentes.

– O pocotó aqui está me acusando de uma coisa que não fiz. – Falou, ríspido e exaltado – Você não tem prova alguma do que diz.

O Centauro voltou a atenção novamente para o rival e o mediu com uma expressão de escárnio.

– Se somente o senhor soubesse mentir tão bem quanto joga cartas, Ulizon. Eu sei da verdade, a casa caiu para você.

Uma veia roxa surgiu no cenho do Kakamora, pulsando fervorosamente em sua cabeça em formato de batata.

– Eu absolutamente não dormi com sua irmã!

– Ah, é mesmo? – O centauro deixou a cabeça pender – E as marcas de garras no torso dela com suas iniciais? E a própria memória de Rina sobre a noite em que você se esgueirou em sua casa, a prensou sobre o feno e a abusou? O que tem a me dizer sobre tudo isso? Ainda acha que vou acreditar em você depois disso?

Troquei olhares entre os dois e ergui as mãos, cada palma virada para um deles.

– Pessoal, vamos resolver isso lá fo...

– Eu estou lhe dizendo que não fiz isso.

Ulizon deu um passo à frente, parecendo prestes a explodir em chamas, como uma Phoenix. Só que ele, com certeza, queimaria tudo a sua volta. Sua voz era grave e baixa, o que era decididamente um mau presságio. Kakamora usualmente eram seres barulhentos e espaçosos, quando apareciam em público; o fato dele falar mais baixo indicava perigo e talvez o começo de algo muito maior.

– Então está insinuando que minha irmã mentiu. – Os olhos do Centauro, até então opacos, ficaram tensos, agitados. Vibraram com vida e com uma grande agressividade antes adormecida.

Ulizon nem mesmo hesitou.

– Se ela lhe disse que fui em quem a estuprou, então, sim, sua irmã está mentindo. E muito.

O primeiro soco passou centímetros do meu rosto. Como se em câmera lenta, vi o punho fechado do Centauro fazendo o caminho até o nariz de Ulizon e o tempo parou. No segundo seguinte o Kakamoa caiu para trás no chão encerado do restaurante e deslizou algumas boas caminhadas. Seu corpo pesado foi de encontro ao piso com um som de “Uffff”.

Olhei boquiaberta para o Centauro, que assoprava os nós dos dedos. Ao ver que o observava, ergueu os olhos para mim e se abriu um pequeno sorriso convencido.

– Normalmente não é assim que resolvo conflitos, madame, mas eu... – Sua fala foi interrompida quando Ulizon se colocou de joelhos e com um gesto veloz o arranhou em uma extensão bastante grande. Do ombro direito até o começo da cintura. Cortes profundos dos quais sangue verde começou a aflorar como em um chafariz, logo formando uma poça.

O restaurante parou para assistir, tirando um ou outro Fomoriano, acostumado com violência, que não deram a mínima para a briga e continuaram comendo, sem se impressionarem com a cena. Douglas tentou se aproximar de onde eu estava, mas lancei-lhe um olhar frio assim que o senti perto. Os lobisomens não eram exatamente os mais queridos em Enchant, ainda mais com a fama toda de arruaceiros e imaturos. Com a melhor das intenções, Douglas poderia acabar piorando tudo ainda mais.

O Centauro, mesmo sangrando, foi para cima do Kakamora e perdi o resto da minha paciência.

Eu odiava ter que apelar para aquilo, mas eu não tinha mesmo outras opções.

– Agora já chega! – Gritei e minha voz ecoou pela Doce Veneno, rebatendo em cada parede e voltando. A construção tremeu e o chão acompanhou. Cerrei os punhos e pude sentir minha cabeça ficando pesada com o poder, que foi sendo transmitido para o resto do meu corpo. Pescoço, peito, braços e pernas.

Eu poucos segundos eu era só energia.

Meus pés já não tocavam mais o chão, e eu levitava acima de qualquer cabeça no restaurante. Fechei os olhos com força e respirei fundo, a garganta queimando com um grito reprimido de guerra.

Cada vibração de cada célula do meu corpo estava vinte vezes mais intensa nas mãos e a única coisa que me impedia de explodir o lugar inteiro até só sobrarem destroços era meu grande controle, que há anos vinha aprimorando e aprendendo a dosar. Três anos atrás eu mal seria capaz de conter tamanha energia somente com os punhos.

Abri os olhos de supetão. O restaurante inteiro estava em silêncio e, dessa vez, eu conquistara a atenção de todos, até mesmo dos Fomorianos. Ulizon e o Centauro me fitavam com certo fascínio, os dois embolados no chão, congelados como haviam parado; a única mão do Kakamora no pescoço do Centauro e um dos cascos do Centauro no peito de Ulizon. O sangue em seu peito parara de escorrer, graças a fácil recuperação dos Centauros em cortes mais superficiais, mas ainda era possível ver o sangue seco e as cicatrizes que ele provavelmente carregaria pelo resto da vida.

Inspirei bem fundo pela respiração diafragmática, como mamãe havia me ensinado, controlando e renovando as energias, não permitindo que ela se acomodasse por muito tempo num mesmo local, causando um estrago no meu autocontrole.

– Discussões são aceitas, de certa forma – falei, minha voz rouca e intensa. Com a minha sensibilidade aguçada, durante o excélsior (a utilização de toda minha força e potencial), pude sentir que algum ser de tamanho mediano e chifres tremeu na extremidade esquerda do restaurante – Mas aqui nós não vamos tolerar agressões físicas, senhores. Se desejarem resolver seus conflitos dessa forma, o façam lá fora.

Direcionei um pouco de toda aquela energia para a porta de entrada. Acabei liberando um pouco mais do que seria necessário por distração, o que faz com que ela se abra como se tivesse recebido um chute e bata na parede com força. Alguns seres pulam na cadeira no susto.

O Centauro dirigiu seu olhar para o Kakamora, dessa vez menos hostil e muito mais submisso. Não à Ulizon, mas à minha própria autoridade.

Ulizon resmungou, retirando sua mão do pescoço do outro, mas não sem deixar marcas de unhas ali, e se levantou.

– Isso não vai acabar aqui. – Disse ele, cuspindo no chão entre os dois. O ácido de sua saliva fez um pequeno buraco no chão de madeira e a fumaça tóxica subiu no ar, adquirindo uma cor amarela.

Encaro Ulizon de braços cruzados.

– Eu certamente espero que não acaba aqui no meu restaurante, Kakamora.

Ele olhou para mim uma vez antes de se retirar, pulando no seu único pé e gungunando o percurso todo até lá fora. Usei minha energia novamente para fechar a porta atrás dele quando o Centauro não mostrou sinais de que o seguiria.

Liberei meus braços, que voltaram a cair ao lado do corpo, somando aquela briga com as outras que eu tivera que apartar só naquela semana – entre uma múmia e um demônio Tonnin, uma Quimera e um Dragão Wyvern por um prato de carne defumada com molho de maçã, dentre outras.

Esperei que os clientes do restaurante voltassem sua atenção para a própria mesa novamente antes de começar o processo de me resfriar. Cancelar toda aquela energia vibrante não era um procedimento tão rápido assim e exigia bastante prática. Lembro dos ensinamentos de minha mãe, em como eu devia me acalmar, sentir meu coração desacelerar até ser quase impossível ouvi-lo, tomando consciência de cada parte do meu corpo. A vibração diminuiu significativamente e pude abrir minhas mãos com a segurança de que não colocaria o lugar inteiro abaixo.

– Você está bem? – Escutei Douglas perguntar, cauteloso, atrás de mim.

Me viro e sorrio para meu amigo de longa data.

– Estou ótima.

Ele me analisou, como se não acreditasse e precisasse de provas.

– Bom, você ainda está voando...

Olhei para baixo e conclui que estava mesmo, meus pés se mantinham quase uma palma do chão e eu nem mesmo havia percebido. Me concentrei brevemente mais uma vez, imaginando que haviam pesos em meus ombros, forçando-me para baixo. Comecei a descer pouquinho a pouquinho até as solas dos meus calçados tocarem o piso do restaurante. Por precaução, caso eu começasse a andar e a levitar novamente, reforcei o pensamento imaginando raízes saindo das mesmas solas dos calçados, me prendendo firmemente ao chão e me tornando mercê da gravidade mais uma vez.

– Isso só prova o quanto você precisa conhecer o mundo enquanto ainda tem chance. – Ele retomou o assunto, sua expressão retorcida em um tipo de preocupação fraternal que nunca realmente parecia combinar com a raça dos lobisomens em geral.

– Não – disse, me dirigindo ao balcão de bebidas – Isso prova o quanto esse lugar precisa de mim e quanto trabalho há aqui. Outro alguém não teria tanta paciência ou coragem para administrar o Doce Veneno. Além do mais, eu não confiaria muitos outros o restaurante.

Douglas retorceu o nariz daquele jeito dele, quando ele não estava bem contente com a situação, e passou os dedos pelas costeletas e a barba extensa. Eu soube que viria coisa antes mesmo de ele abrir a boca.

– Imagino que eu poderia ficar no comando por alguns dias.

– Douglas, você nunca trabalhou na sua vida inteira. – Nem preciso olhar para ele quando digo isso, pegando seu copo de leite vazio e o lavando na pia, embaixo da mesa do balcão – Doce Veneno entraria em combustão ou seria saqueado em poucas horas sob o seu comando.

– Você me subestima demais, Leanan. – Resmungou ele.

Rio e passo de lavar para secar o copo. Alguém entra como um furacão no restaurante, trazendo um vento frio que joga meu comprido e grosso cabelo para trás e faz voar algumas folhas de hortelã que os fregueses usavam para limpar a boca (ou as bocas) entre uma mordida e outra. Quando uma raposa de seis caudas sobe no meu balcão eu imediatamente a enxoto dali com um gesto de mão.

– Quantas vezes eu não lhe disse para não subir nas mesas, Ilwy? Sai daí!

A raposa pulou para o chão a contragosto, e, ao ressurgir, o fez em sua forma humana. Seus cabelos eram ruivos como os pelos em sua forma animal, seu rosto era bastante estreito, com olhos e sobrancelhas finas (castanhos e ruivos, nessa ordem) e maçãs do rosto salientes. Seu corpo era esbelto e atlético, sem nunca deixar de lado a elegância de cada movimento, graças às suas características ligadas a raposa.

Ilwynog era uma Kitsune, e uma das mais belas, devo dizer.

Mesmo quando fazia caretas, como nesse momento, se recusando a olhar na direção de Douglas. Kitsunes eram conhecidas por seu medo e sua repulsa em relação aos lobisomens, mesmo em forma humanoide.

– Ugh. Você está aqui.

Douglas nem mesmo se afetou com sua rispidez.

– Eu sempre estou aqui, Ilwy.

– O que devo a graça de sua presença? – Pergunto para ela com um sorriso – Senti sua falta. Por onde esteve?

Ela retribui meu sorriso com um maior ainda. Nós nos conhecíamos quase a tanto tempo quanto eu conhecia Douglas.

– Ah, por aí. Florestas, vales, picos nevados. Explorando. Falando nisso, você já ouviu falar do Monte Yike? Visitei o lugar nesse fim de semana com a minha família e, caraaamba, que paraíso nevado.

– Você rolou na neve? – Adivinhei.

– Ô, se rolei. – Riu, se pendurando no balcão – Rolei tanto que virei uma raposa branca.

Essa era Ilwynog.

Quase cem anos anos de vida, seis caudas e uma mente livre.

– Fico feliz que se divertiu. – Me escuto dizendo com certo pesar e inveja, porque, ao contrário da minha amiga, eu nunca poderia ter a chance de conhecer tantos lugares assim.

Ela notou meu tom tristonho e perguntou:

– Ei, está tudo bem?

– Só pensamentos. – Respondo, me esquivando de uma explicação.

Contudo...

– Leanan aqui queria viajar, mas acredita estar presa ao restaurante e ao mesmo tempo não aceita a ideia de me deixar no controle dele enquanto ela aproveita seus últimos dias antes de ser oficialmente a dona de Doce Veneno.

Ilwy me encarou, perplexa.

– Sua mãe já está planejando passar o restaurante para você?

Suspirei, sabendo que não teria escapatória da chuva de perguntas.

– Ela está planejando faz algum tempo, mas só recentemente pôs em prática. Devo me tornar a dona em alguns dias...

– Eu fico fora duas semanas e de repente isso acontece! – Ela balançou a cabeça, boquiaberta – Que notícia incrível. Meus parabéns!

– É, se você não considerar que Leanan se sente responsável e presa ao restaurante para o resto da vida dela. – Douglas interferiu novamente, com um ar entediado – Realmente incrível.

As seis caudas de Ilwy apareceram do outro lado, vermelhas com as pontinhas brancas. Eu sempre as achara um charme.

– Isso é bobagem. Ninguém está preso a nada, ela pode sair daqui sempre que bem entender, não é como se ela tivesse feito um pacto com o restaurante ou algo do tipo.

– É? Então diga isso a ela.

Os dois me olharam ao mesmo tempo. Encolhi os ombros.

– O restaurante é da minha família há tantas gerações – começo dizendo – Não posso simplesmente abandoná-lo desse jeito. Mamãe também não gostaria nada disso.

– Mas você não o abandonaria, seriam só alguns dias. – Douglas frisou – Além disso, não deve ser tão complicado assim cuidar desse lugar.

Lhe lanço um olhar insultado ao mesmo tempo que Ilwy diz:

– É. Quão difícil é servir clientes e limpar mesas?

Ao fundo, alguém derruba e quebra um prato e escuto dois seres começarem a se desentender, o volume da conversa subindo alguns bons andares.

– Está bem. Se vocês dois conseguirem apaziguar a briga que vai acontecer daqui a pouco entre aquela Mara e a Hag, me provando que não é grande coisa cuidar desse lugar, concordarei em tirar umas férias do restaurante. Se vocês conseguirem.

Os olhos já pequenos de Ilwy se estreitaram.

– Como você sabe que vai haver uma briga?

Ergui uma mão e fiz contagem regressiva. Ao abaixar todos os dedos, uma gritaria explodiu e as duas criaturas partiram uma contra a outra em uma confusão de braços, pernas e chapéus. A Hag segurou Mara pelos cabelos loiros e a fez bater com a testa na mesa antes da outra se recuperar e torcer seu braço atrás das costas e a prensar contra a parede.

Voltei-me para meus amigos desnorteados com calma e serenidade.

– Vocês têm cinco minutos.

Nov. 5, 2019, 7:03 p.m. 2 Report Embed 1
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Donna Dan Donna Dan
Olá Karina! Sou da equipe de verificação do Inspired e vim te parabenizar pela sua história. A cena em que Leanan controla a briga no bar é uma cena muito poderosa. Quando iniciei a leitura não imaginava o porquê dela ser tão importante para manter Doce Veneno nos trilhos, mas depois fez muito sentido e o drama da personagem ficou ainda mais intenso. A convivência de seres com naturezas tão distintas, e muitas vezes violentas, realmente deve ser muito complexa de equilibrar é não trabalho para qualquer um. Sobre o texto e sua escrita também gostaria de parabenizá-la. A escrita é leve e o enredo, ao mesmo tempo que trás a tensão da personagem entre suas obrigações e seus desejos, não deixa de ser muito divertido. Mesmo sem uma descrição super detalhada do ambiente e dos personagens, o uso de personagens fantásticos mas conhecidos e o clima criado na interação entre os personagens principais facilitam a imersão na história e imaginar toda a cena acontecendo claramente. Me diverti muito na cena final, com Leanan contando nos dedos os segundos para a briga começar! Sobre a ortografia e gramática um ou outro ponto poderia ser revisado, para aperfeiçoar o texto, como: 1. Pontuação. Vìrgulas: “estava vinte vezes mais intensa nas mãos, e a única coisa que me impedia de explodir” em vez de “estava vinte vezes mais intensa nas mãos e a única coisa que me impedia de explodir” 2. Ortografia: “terrar” em vez de “terras”. 3. Acentuação: ”abandona-lo” em vez de “abandoná-lo” Como já disse, o texto é envolvente e fiquei muito curiosa para saber se a personagem vai conseguir, mesmo que por um período, conhecer o mundo além do Doce Veneno, ou se ela vai descobrir que existe ali um mundo tão vasto quanto o mundo em si devido ao que acontece lá dentro… não sei! Obrigada por postar, parabéns pelo trabalho!
1 week ago

  • Karina Zulauf Tironi Karina Zulauf Tironi
    Oii, Donna Dan! Meu Deus, obrigada pelo comentário. Eu conheci Inspired recentemente e decidi publicar uma das minhas histórias aqui para divulgação. Até o momento estou amando o estilo do site :D Muito obrigada pela crítica sobre a ortografia e gramática, muitas vezes eu fico tão empolgada e imersa escrevendo que algumas coisinhas passam despercebido hahah. Fiquei muito feliz com seu comentário e sua ajuda!! Para uma escritora e autora que está em busca de divulgação, receber uma atenção sua significa muito <3 Farei o possível para melhorar a história cada vez mais! Beijossss <3 <3 1 week ago
~

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