O gato de Schrödinger Follow story

ayzu-saki Ayzu Saki

O gato está dentro da caixa fechada, com 50% de chances de estar vivo e 50% de chances de estar morto. Segundo o princípio da incerteza na física quântica, ele está vivo e morto, até alguém abrir a caixa. Izuku não quer abrir a caixa. OU Izuku não retornou para casa depois da escola. Dois meses depois ele foi encontrado perambulando em uma estrada deserta, com cabelos brancos, amnésia psicogênica e uma quirk fora do controle. Nada é o mesmo depois disso. [Izuku não é quirkless] [Izuku não recebe OFA] [TodeDeku] [Izuku não faz parte da Classe 1-A] [Izuku & Dadzawa]


Fanfiction Anime/Manga For over 18 only.

#kiribaku #hurt-and-comfort #sindrome-de-maria-antonieta #amnesia #Izuku-não-recebe-ofa #física-quântica- #tododeku #Síndrome-de-Maria-Antonieta #Izuku-não-vai-para-o-curso-de-heróis #dadzawa #Aizawa-adota-gatos-e-crianças #amnésia #trauma #izuku-não-é-quirkless #Izuku-não-recebe-one-for-all
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O gato está dentro da caixa


Notas iniciais

Essa fanfic vai ser curta, 4 capítulos, com 25k no geral e já está terminada.

Ela é Tododeku e tem um breve Kiribaku e EraserMight no final, mas a principal relação acabou sendo Dadzawa e sua criança problema.

Ela é contada principalmente na perspectiva do Izuku, que não vai fazer parte da classe A, então a história deles não vai ser aprofundada. Apenas saibam que sem Izuku na classe tem algum outro aluno lá, mas isso não é importante.

Ela abrange antes dos exames da U.A até o arco do Stain e com um salto de tempo no final de seis meses. Tem alguns spoilers do mangá e informações do spin off de illegals, que no momento está focada no passado de Aizawa, mas nada muito grande. Apenas saibam que Shirakumo foi um amigo importante de Aizawa e que influenciou ele profundamente como herói, mas no momento não se sabe qual foi o destino dele, porém como ele não apareceu como herói adulto e o assunto é traumático para Aizawa, se supõe que não foi algo bom e que ele provavelmente morreu quando ainda era um estudante.

Devido a ausência do Izuku na classe alguns eventos vão mudar, claro.

Agora muito importante: Fiquem atentos nas tags. Apesar de não ter nada explicito, há menções à assuntos como pedofilia, tortura e abuso sexual, que fica implícito em algumas partes.

Espero que gostem e ao longo dos capítulos deixarem mais algumas notas no final.

Avisos:

Implícitos: Tortura, mutilação, abuso físico e psicológico, pedofilia, abuso sexual.

Explícitos: Ataques de pânico, violência, manipulação, Endeavor é seu próprio aviso


O gato está dentro da caixa


"Nada acabou ainda, o gato ainda está lá dentro."

― Emily St. John Mandel, The Singer's Gun

Seu despertar foi abrupto, sua respiração saindo em uma grande golfada por ar, como um homem que escapa das profundezas e finalmente encontra o oxigênio que precisa.

Seu despertar não foi indolor. Suas mãos eram a principal fonte de agonia, tortas e sangrentas, encaixadas em braços tão magros que demorou segundos para notar que eram realmente os seus.

O mais estranho, no entanto, era o peso dentro do seu peito. Algo que parecia inflar como um balão, tomando espaço e lhe tirando o ar de forma dolorosa, o devorando por dentro de tal forma que tinha certeza que estava morrendo.

Sentou de forma relutante, mais dores se fazendo presentes com o movimento, seus olhos ardendo terrivelmente com a luz entre as árvores, seus ouvidos apitando com os sons ao redor. Minutos se passaram até conseguir focar, olhos lacrimejantes e confusos olhando ao redor, apenas para novamente perder o ar.

Pedras e troncos caídos flutuavam ao seu redor até onde podia ver na floresta.

Izuku abraçou suas mãos esmagadas contra seu peito, seus olhos arregalados. A dor em seu peito piorando, ardendo e o sufocando.

Seus olhos reviraram nas órbitas e tudo voltou a sumir.

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A memória é um dos processos mais complexos que existe a serem executados pelo cérebro humano. A todo momento estamos adquirindo, armazenando e recuperando informações, auxiliado por nossos sentidos, fundamentais no processo de assimilação e invocação do que aprendemos.

Izuku sempre havia sido fascinado por esse processo, algo importante quando fazia suas análises. Ele sabia sobre as áreas do cérebro responsáveis por esse armazenamento, o processo da construção de palácios mentais e, claro, em fatores que atrapalham ou bloqueiam essa operação.

E, por isso, ele compreendeu de imediato o que o herói estava lhe falando naquele momento. Ele havia compreendido bem antes, no momento em que havia acordado na floresta, confuso e com objetos flutuando ao seu redor.

Entre exames e visitas de heróis e detetives a parte, ele havia descoberto que havia ficado desaparecido por dois meses. Dias atrás alguém havia o reportado perambulando em uma estrada deserta em outra cidade e o levado até a delegacia mais próxima.

Sua última lembrança havia sido de estar retornando da escola depois de Bakugou jogar seu caderno pela janela, até acordar no meio de uma floresta sozinho e caminhar por horas até encontrar asfalto. E agora aparentemente ele tinha uma quirk. Era algo que ele sempre sonhou em ter, que já havia desistido.

Ele tinha uma quirk, uma versão mais poderosa da que sua mãe tinha.

Izuku olhou para suas mãos no colo, sentindo os olhos do herói silencioso o analisando na cadeira ao lado da cama. O ignorou, focando no ângulo errado dos seus dedos, mesmo curados, nas unhas estranhamente escurecidas. As cicatrizes cobrindo cada centímetro que conseguia ver dos membros tortos. Ele não havia observado o que mais havia de errado, mas era impossível não perceber quando não conseguia fechar as próprias mãos direito.

"Uma quirk oculta pode ser ativado por gatilhos específicos ou, em certos casos, traumas extremos."

Engoliu a bile. Não havia entusiasmo algum sobre esse novo desenrolar. Apenas algo obscuro, um peso em seu peito sempre que sua respiração saia do controle e algum objeto flutuava no quarto. A mera visão da sua quirk lhe dava ânsia de vômito.

"Talvez." Pensou erguendo os olhos e observando o homem paciente de canto de olho. "Por isso tenham enviado o herói que pode apagar quirks para falar comigo."

Em outra situação ele teria sentido entusiasmo com esse encontro. Parecia que ele não conseguia sentir mais aquilo. Não havia nada além daquele balão em seu peito.

— Não foi reportado nenhum trauma severo craniano.

Amnésia psicogênica então. Causada por um trauma. Como sua quirk. Uma quirk como a da sua mãe, mas mais poderosa. Poderosa o bastante para jogar médicos na parede durante um ataque de pânico, fazer as paredes tremerem, objetos flutuarem e destruir as janelas do quarto. Poderosa o bastante para Eraserhead estar ali.

— Posso ver minha mãe agora?

A expressão do homem mudou, o rosto ficando desconfortável.

"Izuku!!"

Como um gatilho, Izuku sentiu suas mãos tremerem, sua respiração aumentar o ritmo. O peso dentro se expandiu como um balão, apertando seus pulmões, o impedindo de respirar.

O saco de soro explodiu e em segundos olhos vermelhos estavam o fitando, mãos fortes segurando seus braços enquanto alguém entrava no quarto. Izuku se sentia subitamente gelado, um frio que fazia seu corpo tremer e seus olhos fecharem sem forças. Um frio que não sumiria em muito tempo.

Talvez fosse realmente uma boa ideia Eraserhead estar ali.

....................................................

O desaparecimento havia sido reportado pela primeira vez por Inko Midoriya, quando seu filho não retornou para casa depois da escola, após se envolver em um resgate desastrado em um ataque de vilão.

Ela havia ido a delegacia e falado de uma conversa estranha com um homem desconhecido que foi a sua casa, mas que por mais que tentasse não conseguia lembrar do rosto dele ou do conteúdo da conversa, a qual sentia que tinha algum envolvimento com seu filho sumir.

Eles não acreditaram nela de imediato, ignorando suas certezas de que não, seu filho nunca fugiria de casa, mesmo depois de ter aprontado o que aprontou. Ele não estaria escondido na casa de um amigo, ela tinha certeza disso. Sugestões de que talvez ele tivesse cometido suicídio foram jogadas sem cuidado, ninguém a permitindo passar além da mesa da frente da delegacia em seu estado histérico.

Uma parte feia de Izuku, amarga e consciente das injustiças que existiam nesse mundo, pensava que parte de toda a relutância em ver o caso como um caso real havia sido por ele ser um adolescente sem quirk, pessoas comuns de desaparecerem, sumindo entre os dedos do sistema facilmente.

Eles ignoravam a força que Inko Midoriya podia ser para proteger seu filho, afinal, Izuku havia herdado sua teimosia de algum lugar. Em uma semana Inko havia criado um caso, uma pesquisa cuidadosa regado pelo desespero havia encontrado desaparecimentos semelhantes nos últimos meses. Inko havia tomado ruas e becos estranhos na madrugada, falado com pessoas suspeitas e perigosas, até descobrir um padrão que chamasse finalmente a atenção das autoridades.

Houve uma mobilização do público e da mídia, até a situação cair finalmente nos ouvidos de alguém que fazia seu trabalho direito e as buscas e investigações deslancharam. Por algum motivo, até mesmo All Might havia se envolvido na situação, sendo um dos que se comprometeu a ajudar nas buscas, o que aumentou ainda mais a mídia para a situação, as pessoas tentando entender as razões do herói número um estar tão investido no desaparecido de uma garoto sem quirk.

Depois de semanas indo a delegacia todos os dias para se envolver nas buscas com o detetive Naomasa, um dia Inko não apareceu. Seu apartamento foi encontrado revirado, com sinais de luta, a porta escancarada.

Inko Midoriya não foi encontrada.

Três dias depois Izuku foi avistado na estrada deserta.

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Um estranho o fitava do outro lado do espelho. Um rosto cadavérico e pálido demais, fazendo suas sardas saltarem de forma absurda. Seus olhos pareciam estranhos, apagados e a boca em uma perpétua linha reta. Ergueu os cantos levemente e o resultado saiu estranho, falso demais.

Ele não conseguia reconhecer aquela pessoa.

O mais estranho de tudo, no entanto, era o que mais evitava olhar. Seu cabelo estava branco, completamente grisalho. O termo Síndrome de Maria Antonieta foi sussurrado entre os médicos. Cabelos brancos, unhas escurecidas.

Perda de memória, uma quirk forçada e agora isso. Três sinais causados por trauma extremo. Algo tão cortante, que havia propositalmente enterrado tão fundo dentro da sua mente que não conseguia alcançar.

Algo que envolvia suas mãos tortas e as cicatrizes em seu corpo que mesmo com as quirks dos médicos não haviam sumido totalmente. Envolvia ter acordado sujo de sangue em uma floresta depois de meses, tão magro que mesmo depois dos dias no hospital ainda podia contar suas costelas, sentir os ângulos afiados do seu corpo.

Um barulho de algo se quebrando e viu sua imagem torta no espelho fraturado.

— Midoriya. Está tudo bem aí?

Tocou no vidro, ignorando a dor quando se cortou na protuberância afiada, seus olhos fixos no sangue pingando na porcelana da pia. Prendeu a respiração com a imagem, os olhos seguindo as gotas que desciam.

"Sangue respingado em paredes escuras. Gritos."

—Merda!

Um xingamento perto o fez virar a cabeça, uma mão segurando seu pulso firmemente, mas de forma estranhamente gentil.

Franziu o cenho, vendo a porta do quarto do hospital arrombada. O herói olhava sua mão com uma expressão indecifrável. Muito perto. O balão expandiu outra vez, sua respiração entrecortada e corpo trêmulo.

Algo na sua expressão fez o homem soltar sua mão de imediato e dar um passo para trás, os olhos vermelhos e o cabelo flutuando.

— Não vou te machucar. Vamos ver esse corte.

Depois disso ele não o deixou mais fechar a porta.

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Em seus sonhos sempre havia água. Ele podia ouvir os respingos batendo na madeira do teto enquanto olhava fixamente para a porta da frente. A madeira apodrecida, com larvas rastejando pela superfície, emanando um odor forte que fazia seus olhos lacrimejarem.

Do outro lado ele podia ouvir gritos, distintos e conhecidos, ininterruptos. O frio que ela emanava sacudia seus ossos, enquanto tapava os ouvidos e fechava os olhos com força.

— Izuku!!Abra a porta!

Ele nunca abria a porta.

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Izuku sabia que era algo lógico ele ficar sob a guarda de algum herói. Sua mãe ainda estava desaparecida, ninguém havia conseguido contato com seu pai, nenhum suspeito havia sido preso e o caso ainda estava em andamento. Também fazia sentido esse herói ser Eraserhead, o único que podia controlar sua quirk monstruosa, que parecia tão em sintonia com suas emoções, o que a tornava tão mais perigosa.

Ainda assim ele não conseguia não se sentir um peso no momento, ou abafar o desejo extremo de ir para casa, de abrir a porta e ver sua mãe na cozinha preparando Katsudon, o olhando suavemente enquanto tagarelava sobre seu dia.

Aquele apartamento era desconhecido, com suas paredes vazias e ambiente espaçoso pela ausência dos móveis que abarrotavam a residência dos Midoriya. Havia um cheiro de café impregnado nas cortinas, comida instantânea nos armários e enérgicos e proteínas aos montes na geladeira. Um gato veio lhes cumprimentar na porta miando de forma exigente e o farejando desconfiado. Era como estar em um planeta alienígena.

Ainda assim ele não conseguia reclamar de nada, não apenas pela estranha apatia que o abatera desde que havia acordado no hospital, mas também porque claramente o herói, que estava tão desconfortável como ele em dividir seu espaço com uma criança estranha, estava se esforçando tanto.

Eraserhead esvaziou o escritório e teve o trabalho de colocar uma cama, uma cômoda e uma mesa de estudos no canto. O herói o deixou saber que havia passado na sua casa e pego coisas suas que iria precisar. O lugar ainda era considerado uma cena de crime e estava fechado.

Havia roupas suas nas gavetas e seus cadernos de análise estavam empilhados na mesa junto com alguns novos e canetas coloridas. Olhou o homem parado na porta, os olhos o seguindo enquanto lia o ambiente. Ele parecia bem sensível em lhe dar espaço desde o que havia acontecido no banheiro, se aproximando como quem se aproxima de um animal ferido, as mãos sempre à mostra e a postura relaxada.

— Achei que ia querer os cadernos. Além de ser perigoso esse tipo de informação desprotegida.

— Você leu?

Ele assentiu, acariciando o gato em seus braços. Izuku tocou com relutância as lombadas. O número 13 estava faltando, claro. Havia sumido junto com ele. Aqueles cadernos sempre haviam sido uma parte tão importante de si mesmo.

Abriu um deles e sentiu um gosto amargo na boca, os olhos desfocados.

— São boas análises. Seu objetivo é o curso de heróis?

A palavra o fez prender a respiração. Izuku fechou o caderno, tentando controlar a expansão do balão em seu peito.

— Não.

Respondeu suavemente, colocando uma caneta que havia começado a flutuar de volta no lugar.

Era algo em que todos estavam certos, no fim das contas.

Izuku nunca poderia ser um herói.

.................................................................

Na primeira noite Aizawa abriu a porta suavemente para checar seu novo colega de casa, apenas para vê-lo acordado e sentado na cama, as costas contra a cabeceira e os olhos firmes na porta, abertos e vermelhos.

O viu prender a respiração quando o avistou e tentou relaxar seu corpo, se mostrar menos uma ameaça.

—São duas da manhã, por que não dormiu?

Olhos verdes seguiram cada movimento seu, a expressão concentrada, mas um medo óbvio em cada tremor.

—Os monstros aparecem a noite, Eraserhead.

Aizawa sentiu seu estômago embrulhar com o que isso implicava e apertou a maçaneta que segurava com força por alguns segundos para se controlar. Pegou Mochi que estava nos seus pés e a colocou na cama com o garoto. Imediatamente ela foi até a forma tensa e rígida, pequena e encolhida na cabeceira e sentou nas pernas dele, se esfregando como se não houvesse amanhã.

Ele saiu do quarto e deixou os dois.

Naquela noite nenhum deles dormiu.

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"Danificada."

Uma palavra sussurrada que captou antes da porta se fechar em sua cara. Sentou no banco no corredor, suas pernas penduradas pela altura. Mochi estava em seus braços. Nos últimos dias a gata havia se tornado uma estranha fonte de conforto, e Aizawa não havia se oposto quando pediu para trazê-la durante o registro de sua quirk. O homem devia saber que ia precisar dela.

Olhou para o vidro na parede, a cortina entreaberta onde seu guardião atual conversava com o especialista.

Era um pouco rude falarem sobre a quirk dele sem a sua presença, mas também não queria saber sobre ela. Era irônico como logo ele, que sempre havia sido fascinado por quirks, sentia ânsia de vômito apenas em pensar sobre a sua.

Abraçou mais a gata, tentando pegar um pouco do calor dela. Parece que frio era um reboot. Isso explicava a hipotermia sempre que perdia o controle.

Fitou os homens, seus olhos indo aos lábios dos dois, captando as palavras com curiosidade.

"Danificada"

"Perigosa"

"Trauma"

"Medo da própria quirk"

Franziu o cenho, seus cabelos brancos caindo em seus olhos. Brancos como os de Mochi, que o fitava com olhos azuis. Depois da destruição da sala de testes o balão em seu peito parecia calmo. Ele podia o sentir lá, mas não havia expansão.

"Ele precisa de combustível para expandir. De calor. O fogo do seu pai, a atração da sua mãe. Telecinese que precisa de calor para gerar energia. Seu calor ou do que estivesse ao redor."

Fechou os olhos, enfiando o rosto no pelo branco.

Eles estavam errados. Não era a quirk que estava danificada.

Era ele.

.....................................

Na volta do especialista Aizawa parou no supermercado e encheu um carro com barras de proteínas e shakes e outro com roupas quentes.

Izuku tinha que comer a cada duas horas e manter suas calorias diárias, algo que fez com relutância.

Em poucos dias ele começou a parecer menos como um esqueleto caminhando.

Ainda assim, ele sempre estava com frio.

...................................

Ele sonhou com sua mãe. Ele não a via, mas sabia que ela estava lá. Podia a sentir atrás dele, ouvir sua voz, mas ela sumia quando virava. Os dois tentavam se abraçar, mas nunca se alcançavam.

Ela sumia por trás daquela porta.

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Ninguém falava nada sobre as investigações, algo sobre querer o preservar.

Izuku não era nada se não teimoso, ainda mais com o desaparecimento da sua mãe. Ela havia lutado por ele, ele lutaria por ela.

Ele estava vivendo na casa de um herói, onde muitos heróis passavam. As informações estavam lá, com a pergunta certa. Se aproveitava que não podia ser deixado sem supervisão, não com uma quirk destrutiva e sem controle. Cada ida sua a delegacia com Aizawa ele aprendia algo novo. Como os desaparecimentos antes deles, 8 adolescentes, mesma idade ou mais jovens, a maioria sem quirk ou alguma quirk considerada fraca. Exceto por ele, todos os outros eram pessoas que não teriam feito falta. Sem família, sem laços, sem um papel considerado na sociedade. Se não fosse por sua mãe, talvez ele tivesse sido como um deles.

E ele tinha certeza que era a mesma pessoa. Sua mãe havia atrapalhado o padrão. Ele só não entendia a razão de correr o risco e levá-la, se podia ter cometido o crime e feito parecer um assalto. O que havia diferente nele para valer esse risco? De levar uma pessoa que faria falta para alguém?

— Naomasa me pediu para controlar você, é ilegal invadir a sala de um policial.

Izuku sentiu seu corpo tensionar, olhando do canto de olho de onde estava sentado no chão brincando com Mochi. O homem parecia calmo, lendo alguns papéis na mesa enquanto bebia o café.

— Se quiser saber alguma coisa, é mais fácil me perguntar, não acha?

A voz era sarcástica. O olhou surpreso, os olhos piscando confusos, desconfiado.

— Me diria a verdade?

— Se não sabe ainda, não costumo mentir.

— Por quê?

—Mentir é cansativo.

— Não, por que me diria?

Aizawa suspirou e o fitou nos olhos finalmente. A expressão sincera. Izuku sentiu algo estranho ao perceber como o penteado dele era familiar.

— Porque é sua vida e sua mãe. Você é o mais interessado. E prefiro que não faça besteira tentando descobrir as coisas sozinho, criança problema.

Havia sido pego de surpresa. Nos últimos tempos havia adquirido desconfiança total em adultos, mas Aizawa até aquele momento não havia feito nada se não o ajudar e lhe dar espaço. Até mesmo sua quirk, assim que haviam chegado em casa ele havia sentado e lhe contado tudo o que havia sido discutido e lhe aberto a opção do aconselhamento quando estivesse pronto. Mesmo que Izuku soubesse que nunca estaria, ele não queria ter nada com sua quirk.

Aizawa não era amoroso como sua mãe, longe disso. Ainda assim havia algo nele que lhe lembrava muito dela.

"Ele se importa."

Olhou o homem, se esforçando para fazer contato visual, algo até então impossível desde que acordara. Seus lábios se curvaram levemente na tentativa de um sorriso. Sentiu sua boca doer com a tentativa, mas ainda assim tinha certeza que havia visto os olhos escuros mais suaves quando o herói sorriu de volta.

Desde aquele momento ele deixou de se encolher sempre que Aizawa se aproximava.

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Izuku não conseguia se mover na maioria dos seus sonhos.

Uma paralisia tomava seu corpo, um peso nas suas costas. Por vezes se encontrava encolhido, braços ao redor do seu peito o segurando no lugar. Uma sombra gigante que não o deixava escapar.

O pior de tudo era a voz. A voz nunca se calava, sempre em seu ouvido, falando mesmo quando não conseguia a entender.

"Ninguém vai vir, ninguém se importa. Só eu me importo com você, só eu amo você. Só precisa me amar de volta, Izuku. Quando desaparecer eu vou ser o único que vou lembrar da sua voz. Me deixe ouvir sua voz."

Às vezes ele queria não entender.

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Havia dias ruins e dias menos ruins, mas as noites sempre se encaixam em apenas uma categoria. Dormir nunca parecia uma boa opção, não quando a porta apodrecida o aguardava, os gritos por trás dela e os pedidos de clemência, sangue escorrendo pelo chão e ganhando forma, tentando o puxar para dentro.

Ultimamente ele podia sentir as mãos o puxando, o tocando, o impedindo de respirar, roubando qualquer calor que tinha, como sua quirk.

Acordava com frequência com as coisas tremendo no quarto, objetos flutuando e com hipotermia, Aizawa o fitando com os olhos vermelhos cansados. Nenhum dos dois tinha descanso mais. Izuku sabia que logo ele teria que voltar a patrulha, havia o ouvido conversar com alguém no telefone, mas não sabia o que fazer com Izuku.

Izuku se sentia um peso. Com sua quirk quebrada que tirava qualquer calor de dentro dele. Ele não conhecia mais nada além do frio constante. Como se já estivesse morto há muito tempo.

Talvez ele estivesse.

— Para com isso.

Uma xícara com chocolate fumegante foi depositada na sua frente. Seu nariz franziu com o cheiro, o calor fazendo o frio terrível diminuir. Izuku ergueu a cabeça do tampo da mesa e olhou seu guardião com olhos gigantes. A expressão severa pareceu quebrar um pouco, um sorriso quase saindo e sentiu a mão dele em seu cabelo, bagunçando os fios suados. O fato de Izuku não se encolher pareceu surpreender os dois por alguns segundos e se enrolou mais no lençol, os tremores acabando aos poucos. Mochi estava em seu colo, alheia a tudo ao redor.

Livrou as mãos do casulo de lençóis e pegou a xícara para mais perto. Aizawa saiu pelo corredor com uma sacola de lixo e voltou com as coisas que havia quebrado por acidente.

— Me desculpe.

O homem revirou os olhos colocando o saco perto da porta.

— Você fez de propósito?

— Não, mas-

— Sem 'mas', foi um acidente. Ninguém aprende controle do nada. Ainda mais com uma quirk como essa.

—Quebrada?

Tentou conter a amargura na voz, mas deve ter falhado. Sentiu os olhos de Aizawa em sua nuca. Podia quase ver sua expressão de 'está cedo demais para isso, preciso de café.'

— Poderosa. Quirks que vem tarde sempre são mais poderosas e difíceis de controlar. Não preciso dizer isso, você é o especialista.

— Não sou.

Murmurou e podia admitir que sua voz parecia de uma criança com birra no momento. Seu rosto esquentou de vergonha quando ouviu uma risada disfarçada de tossida do outro.

— Precisamos repor algumas coisas.

— Me desculpe-

— Eu já disse que não-

—Mas preciso!

Seu tom de voz alto o surpreendeu. Izuku não havia sido nada se não dócil durante as últimas semanas. Quase apático fora dos seus descontroles com a quirk. Quebrado.

—Eu invadi sua casa, sua vida. Eu ouvi sobre as patrulhas, está sem poder trabalhar comigo aqui e pessoas estão se machucando por minha causa! Você fez um quarto só para mim e eu destruo ele toda noite! Eu vi as rachaduras na parede, e se um dia eu derrubar o prédio!? E se puxar meu calor não for suficiente?!

O homem parou na sua frente o olhou com seriedade. Mochi miava em seu colo, tentando alcançar seu rosto. O balão estava em seu peito, batendo nas paredes da sua caixa torácica, expandindo com cada respiração.

— Você só precisa de controle.

—EU NÃO QUERO CONTROLE, EU NÃO QUERO ESSA QUIRK! EU QUERO QUE ELA SUMA!

A xícara explodiu na sua mão, cacos de porcelana e chocolate escaldante se espalhando na mesa e nas suas mãos. Mochi saltou a tempo de escapar, mas viu Aizawa se encolher do líquido escaldante, um caco cortando sua bochecha com o impacto.

Focou nos olhos vermelhos em choque, vapor frio saindo de sua boca com a súbita diminuição de temperatura em seu corpo.

Aizawa suspirou, piscando por alguns segundos, seu cabelo se abaixando.

—Vem cá-

Negou rapidamente, se erguendo e derrubando a cadeira, deixando um longo espaço entre os dois. A expressão de Aizawa se tornou um pouco machucada.

—Eu não vou te machucar.

Não era dele que Izuku tinha medo no momento, mas de si mesmo.

Eles deviam o trancafiar em algum lugar, com supressantes, onde não poderia machucar mais ninguém.

Se abraçou, seus olhos focando nas manchas de chocolate no pijama. Elas lhe lembraram outras manchas. Quase podia vislumbrar o sangue escorrendo em pernas pálidas. E uma voz, uma voz perto, muito perto, falando e falando-

Colocou as mãos nos ouvidos e fechou os olhos com força. Sentiu algo tomar seu peito, mas não era o balão. O balão no momento parecia controlado por Aizawa. Era algo diferente, algo que não sentia faz tempo.

Se deu conta ali que não havia chorado nenhuma vez desde que havia acordado no hospital.

Eu quero minha mãe.

Aizawa o puxou para perto, devagar. Izuku deixou.

Talvez ele estivesse mais seguro sempre perto de Aizawa.

Aizawa não ia o machucar, deixar que alguém ou machucasse, ou permitir que machucasse alguém.

Era a única pessoa segura em sua vida no momento.

......................................................................

Naquele mesmo dia eles voltaram ao especialista para uma prescrição de supressantes.

Izuku sentiu que finalmente conseguia respirar melhor depois disso.

......................................................................

— Essa é Kayama. Ela vai ficar de olho em você hoje.

Izuku olhou para a mulher na porta por trás de Aizawa. Não se importava de parecer uma criança com a força que segurava na blusa dele no momento, os olhos a analisando com cautela. Nemuri Kayama parecia bem diferente da heroína Midnight, com suas camisa de botões, óculos nerd e um gato em seus ombros. O sorriso dela era quase maternal, o fitando daquela forma.

Olhou para Aizawa, que no momento parecia bem estressado em ter que patrulhar, e soltou a mão da roupa dele com relutância, cumprimentando a mulher com uma reverência. Sua mãe não criou um menino mal-educado.

— Olá, Izuku! Esse é o Sushi!

Ela apontou para o gato, que o fitou interessado. Izuku sorriu timidamente e sentiu Aizawa relaxar mais ao seu lado.

Enquanto os adultos conversavam, Aizawa explicando sobre os supressantes e dando um tanto de instruções desnecessárias, Izuku sentou com os gatos no chão.

Ele era um garoto esperto, não precisava ler a sua ficha no hospital ou do caso para saber o que havia acontecido consigo, ainda que a palavra não pudesse sair dos seus lábios ou tentasse a abafar da sua mente o máximo que podia. Seus sonhos não o deixavam escapar disso, as cenas escapando das trincas em sua mente sempre que acontecia algum gatilho, de mãos em seu corpo, o destruindo por onde passavam.

Os sinais estavam lá, seu terror perto de homens adultos bem evidente. Por isso Aizawa havia trazido Kayama-san, e não Yamada, que era seu melhor amigo.

Izuku estava certo em poder confiar em Aizawa.

.............................................................

Kayama era divertida. Ela não parecia em nada com sua mãe, mas havia algo maternal nela. Eles assistiram um filme e ela o deixou tagarelar sobre seu quadro de evidências no quarto. Havia algo nos olhos dela que era familiar. Uma camaradagem estranha.

Izuku se perguntava quem havia a machucado também.

— Ele gosta muito de você.

A olhou de forma curiosa e a mulher sorriu com algo em sua expressão. Os dois sentados no sofá com os gatos, um novo episódio começando.

—Shota.

Izuku sentiu seu rosto esquentar, os olhos fitando Mochi.

—Gosta?

Kayama riu e apertou sua bochecha.

—Ele só fala de você. Ele pode parecer durão, mas no fundo tem o coração mole. Basta olhar para ele com esses olhões de Bambi aí e vai conseguir qualquer coisa.

Ela piscou e se sentiu ainda mais vermelho.

Não estava tão frio como de costume.

Ele acordou dormindo no sofá, coberto com gatos e lençóis e com as vozes de Kayama e Aizawa por perto. Sentiu um beijo em sua cabeça e voltou a dormir.

Ele não sonhou com a porta naquela noite.

.....................................................

Nos meses que se seguiram Izuku conseguiu terminar o restante do secundário em cursos online. Aizawa havia dito que seria bom para se distrair, ele não esperava que Izuku terminasse tão rápido. Durante aquele tempo a escola havia saído de sua mente. Parecia outra vida, distante. Aquele Izuku não existia mais, e ele não sabia quase nada sobre esse outro no lugar dele.

Ele se sentia um pouco mal por ter se recusado quando Mitsuki e Masaru foram até a delegacia e falaram com Naomasa, pedindo para o ver. A notícia sobre seu desaparecimento e ter sido encontrado parecia um hit na mídia por meses, mas logo a novidade morreu e as pessoas esqueceram do caso.

Sua situação ainda era incerta e a polícia parecia em um impasse sem pistas sobre sua mãe. Era frustrante saber que a resolução podia estar na sua cabeça, mas não conseguia tirar o que queria de lá. Enquanto isso, ainda estava sob responsabilidade de Aizawa. E por isso o homem havia sentado e lhe dado opções sobre o que queria fazer sobre sua educação dali para frente. O velho Izuku teria se agarrado a situação, ele sempre amou aprender, ainda mais ao saber que Aizawa ensinava na sua antiga escola dos sonhos. Agora ele tinha uma quirk poderosa, se ele conseguisse controle sob ela ele poderia ser um herói.

Esse novo Izuku só estava cansado e não queria ter nada com sua quirk. Por ele podia viver de supressantes, mas depois de ter passado do limite e sido hospitalizado por usar uma dose a mais, estava sendo controlado sobre isso. Esse Izuku tinha medo de pessoas e multidões, de homens e barulho. E quando ele tinha medo coisas tendiam a ser destruídas ao redor. Ele não era confiável para se estar entre crianças.

A opções seria escola em casa, mas Aizawa trabalhava o dia inteiro e Izuku não confiava em ninguém além de Kayama e ela também tinha que trabalhar.

A solução veio de uma forma inusitada.

— Nedzu? O diretor da U.A?

— Eu mostrei a ele algumas de suas análises. Ele pareceu bem disposto a ser seu tutor.

Izuku não sabia o que pensar sobre isso.

—Ele não é ocupado?

—Nedzu faz o que ele quer.

Sorriu um pouco com a voz frustrada do seu guardião.

— Mas ele é um gênio e está disposto. É uma oportunidade que muitos iriam querer, há anos ele não pega um aprendiz.

Algo do velho Izuku aflorou com isso. Uma fome por informações que pensou ter perdido.

—Eu vou ter que ir para U.A?

Aizawa assentiu com uma expressão de desculpas.

— Mas não vai ter contato com outros estudantes e professores se não quiser. Há uma sala especial para você, vai passar o dia com ele, almoçar comigo ou Kayama e vir para casa. Não precisa tomar a decisão agora, o semestre não começa ainda pelos últimos meses. Apenas pense nisso bem.

Em alguns meses sua mãe podia ter retornado e pensaria em outra coisa.

Se tudo desse certo ele não precisaria tomar essa decisão.

—Tem mais uma coisa.

Olhou o outro com a firmeza da voz dele.

—Eu sei que vai odiar isso, mas vai ter que aprender a controlar sua quirk.

Começou a negar rapidamente, abraçando mais Mochi em seu peito.

—Izuku, me desculpe, mas é o mais seguro para todos.

—Os supressantes-

— Não foram feitos para serem usados constantemente. Eu não vou permitir que destrua seu corpo assim. Não vou negociar isso. Eu mesmo vou treinar você, com minha quirk é o ideal.

Izuku sabia que não tinha opção.

Ainda assim ele passou uma semana sem olhar para a cara do seu guardião.

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Era sempre a mesma porta, às vezes ele parecia mais próxima, outras mais longe.

Os gritos eram incessantes, conseguia distinguir sua própria voz, mas também ouvia a da sua mãe. Ela estava lá, atrás daquela porta.

Apenas se pudesse abri-la.

Apenas se tivesse a coragem.

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Para demonstrar como vigora o princípio quântico da incerteza, um físico austríaco chamado Erwin Rudolf Josef Alexander Schroedinger criou o paradoxo de Schroedinger.

É um experimento que consiste em prender um gato dentro de uma caixa. Junto a ele um frasco com um gás venenoso, um elemento radioativo emissor de partículas alfa e um dispositivo composto de um martelo e um detector de radiação. Caso o detector registre a presença da partícula alfa, o martelo é acionado e quebra o frasco, liberando o gás venenoso, matando o gato.

No entanto, o emissor trabalha em intervalos, e pode ou não liberar as partículas nesse intervalo. Há 50% de chances que ele libere e 50% de chances de que não libere. Se liberar o gato morre, se não o gato está vivo dentro da caixa. Você só vai saber se abrir. Enquanto não abrir o gato está em um estado entre eles, vivo e morto. Isso acontece porque com as leis do mundo subatômico uma partícula existe em dois estados ao mesmo tempo, até que seja observada. Se observada as duas realidades se chocam e só uma delas pode existir.

Izuku não queria abrir a caixa.

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Escrever sobre sua quirk foi uma necessidade que se apegou com relutância. Não tinha como escapar da situação, Aizawa não permitiria e Izuku realmente não queria machucar ninguém caso lhe tirassem os supressantes.

Sua quirk era estranha, uma mistura de seu pai e sua mãe, mas combinadas de uma forma errada. Ela convertia calor em energia, que era utilizada para mover as coisas. O problema é que não havia um botão de desligar, ela estava sempre captando calor e, por isso, o corpo de Izuku sempre estava frio. Quando não havia uma fonte de calor ela consumia sua gordura, o devorando de dentro para fora e por isso tinha que comer 4 vezes mais que o normal. Era como ter um animal enjaulado dentro do seu peito que precisava alimentar. Seu corpo estava lutando para sobreviver, e por isso nunca cresceria mais do que a altura que tinha no momento e quando o encontraram estava tão esquelético.

Ele sabia agora que havia uma razão para essa quirk estar suprimida por anos, uma tentativa do seu corpo de se proteger. Agora ela estava ativa, sem um botão de desligar. Izuku estava sempre empacotado com três casacos, o aquecedor nunca era desligado e os armários e geladeira sempre tinham proteínas para que consumisse as calorias necessárias, principalmente depois dos treinamentos terem começado. Em cada canto da casa sempre havia alguma barra de cereal a mostra.

Izuku havia se sentido terrível por isso, por todo o prejuízo, mas Aizawa o tranquilizou dizendo que todas as despesas estavam sendo pagas por Nedzu e que o homem tinha dinheiro o bastante para isso. O herói parecia realmente investido nisso e tentou não se sentir desconfiado ao invés de agradecido.

Ainda assim, uma voz em sua cabeça achava tudo isso desnecessário. Sua quirk sempre seria quebrada. Sempre precisando de combustível, devorando tudo ao redor e liberando energia destrutiva, em sintonia com suas emoções mais turbulentas.

Ele sempre quis uma quirk e agora o que mais queria é que não tivesse. Ele queria sentir calor novamente.

Ele queria que houvesse um botão para desligar o monstro dentro do seu peito.

Por isso o dia em que Izuku conheceu Shoto estaria para sempre guardado em sua mente.

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Eles haviam saído para comprar lâmpadas. Desde que havia percebido seu medo do escuro, Aizawa havia enchido seu quarto de luminárias. A luz e o calor que emanava delas eram um alívio, mas sempre havia perdas quando tinha algum pesadelo e alguma delas explodia. Vinha acontecendo menos e menos, mas ainda havia acidentes.

Eles estavam fazendo o esforço para que caminhasse em público, apesar de seu medo das pessoas. Não sentia mais vergonha da forma como se agarrava no braço ou nas roupas do herói, se escondendo atrás dele sempre que podia. A sensação de segurança vinha em primeiro lugar e Aizawa era a pessoa mais segura que existia em seu mundo no momento.

O homem olhava de cara feia sempre que alguém fitava demais em sua direção, mas Izuku não podia os culpar. Não quando usava roupas de frio fora de época, se agarrava em seu guardião como uma criança perdida e tinha uma aparência um tanto doentia. Ou talvez eles estivessem o reconhecendo dos cartazes de meses atrás, tentando assimilar a imagem do garoto desaparecido com essa versão mais estranha dele.

Mais de uma vez alguém tentou lhe perguntar o que havia acontecido, a mídia não tendo tido acesso aos detalhes sobre seu 'resgate' e muitos menos seu tempo de cativeiro. Havia muitas especulações sobre a razão de alguém capturar uma criança sem quirk, algumas corretas, mas nenhuma certeza.

Aizawa conseguia bloquear as perguntas com um olhar feio.

Izuku começava a pensar que realmente amava Aizawa. Era difícil não se afeiçoar a alguém que fazia tudo o que ele havia feito por uma criança problemática e desconhecida.

Estavam quase no final das compras quando as coisas deram errado.

Um ataque de um vilão aconteceu do lado de fora do mercado e quando Aizawa viu que nenhum herói havia aparecido teve que interceder.

Izuku tentou ser corajoso com isso. O homem estaria apenas do lado de fora e estaria seguro lá dentro. Ele tinha seus supressantes na bolsa, e seria rápido. Aizawa sempre era rápido, então, relutantemente ele o mandou ficar lá dentro, seguro perto do balcão.

Eles não saberiam que mais vilões iriam aparecer.

Os gritos se tornaram ensurdecedores, pessoas entrando aos montes dentro do mercado, o empurrando para perto das prateleiras. Podia ouvir explosões lá fora e alguém agarrou em seu braço o puxando para algum lugar. Talvez fosse apenas alguém tentando o ajudar, mas naquele momento tudo o que sentiu foi mais pânico. O balão se expandiu em seu peito e a mão sumiu do seu braço, a pessoa sendo jogada longe em cima das prateleiras.

Alguém tentou o segurar por trás e gritou até que o soltasse, coisas explodindo ao redor.

Ouviu gritos para que se afastassem dele e entre seus olhos desfocados conseguia ver as formas ao redor, se fechando. Vozes, uma perto do seu ouvido falando seu nome suavemente, segurando seu pulso enquanto o machucava, o fazia sangrar.

Sem saída. Vulnerável. Sem chance alguma.

"Por que ninguém vem me ajudar?"

O balão tomou toda a sua caixa torácica, a temperatura ao redor baixando drasticamente.

A porta de vidro explodiu.

—Eu disse para se afastarem!

Izuku não havia percebido que a baixa da temperatura ao redor não havia sido causada por sua quirk. O grito o fez abrir os olhos que havia fechado, se vendo encolhido no chão com as mãos nos cabelos. Olhou para cima e tudo o que viu foi branco. Gelo. Uma barreira havia se formado entre onde estava e as pessoas, as afastando forçosamente.

A frente havia alguém, a certa distância para não o assustar, mas perto o bastante se precisasse. Seu foco, no entanto, não estava nisso. Estava no calor que ele emanava. Mesmo com gelo ao redor, ele podia sentir o calor vindo do desconhecido, a quirk faminta em seu peito lutando como um animal enjaulado ao sentir o combustível tão perto.

—Vai ficar tudo bem.

O estranho se aproximou devagar, as mãos a frente do corpo, os dois soltando vapor frio pela boca. Por entre os fios de cabelos e olhos entreabertos observou o outro. Era um adolescente como ele, com estranhos cabelos de duas cores, assim como os olhos que o fitavam com cautela.

Izuku tentou controlar a respiração, se encolhendo ao redor de si mesmo mais, tentando suprimir o monstro dentro seu peito. Uma mão se aproximou relutante e tocou seu ombro, antes que pudesse o impedir.

No momento em que a pele quente tocou a sua o balão em seu peito atacou como um animal que avista uma presa.

Um lado inteiro do desconhecido ardeu em chamas.


Notas finais

Hi ya.

A capa foi feita pela Clara, assim como a arte que aparecerá no capítulo final. Fiz a comissão antes de terminar a fanfic, porque sou dessas.

Sobre a quirk do Izuku: Eu tive a ideia inicial dela após ler a fanfic Stygian Fire by LadyGreenFrisbee no ao3, que é maravilhosa. Apesar de elas serem diferentes (em Stygian fire é uma quirk de fogo) eu amei o conceito da quirk dele ter uma consciência própria e precisar de combustível, e incorporei isso aqui. O restante tem algumas semelhanças com uma certa quirk de um certo personagem, que vão perceber mais tarde. E claro, leis da termodinâmica.

Agora, contando a inspiração que me fez escrever isso: assisti de novo um olhar do paraíso e imaginei o que teria acontecido se Susie Salmon tivesse conseguido fugir do assassino dela. Esse filme sempre me deixa triste, por tudo o que ela poderia ter sido. Izuku é a Susie que escapou, mas que vai ter que levar o que aconteceu com ele para sempre, dentre outras coisas.

Enfim, espero que gostem da premissa. Me digam o que acharam!

Sept. 7, 2019, 6:09 p.m. 1 Report Embed 6
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Amanda Karynne de Almeida Amanda Karynne de Almeida
Nem sei o que pensar... vou continuar lendo.
Oct. 19, 2019, 3:30 p.m.
~

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