INFLAMÁVEL Follow story

dissecando Edison Oliveira

Quando Douglas tinha dezesseis anos de idade, ele tinha que tomar conta de seu irmão mais novo. Lucas, de oito anos. E Lucas era inflamável...


Horror Monster literature Not for children under 13.
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INFLAMÁVEL





Aos dezesseis anos de idade, minha tarefa mais importante era tomar conta de meu irmão mais novo.

Só que não era uma coisa muito simples. Lucas era inflamável. Ele tinha oito anos de idade, e meus pais só me contaram sobre aquele problema quando eu tinha onze. Eu costumava me perguntar sobre o porquê dele não poder sair daquele quarto, o porquê do pequeno Lucas nem sequer poder possuir uma velinha em seus bolos de aniversário. E principalmente o porquê dele viver os seus dias enfiado dentro de uma banheira, onde os seus únicos companheiros eram aqueles cubos de gelo. Quando eu tinha dezesseis anos, eu frequentava a Escola Estadual Maurício Filho, um lugar até que bom, onde minhas companhias eram as melhores que um garoto da minha idade iria querer possuir. Eu não estava no grupo daqueles que eram perseguidos, não estava também entre os mais populares, mas frequentava um bando que tinha a fama de ser temido pelos outros alunos. Isso já era o suficiente para mim.

Eu costumava usar sempre um All Star com um jeans rasgado, uma camiseta de alguma banda de rock ( AC/DC era a minha favorita ) e ter uma atitude despreocupada, como se existisse apenas o agora e que se fodesse o amanhã. Eu vivia os meus dias nem sempre dentro da linha, mas também nunca tão fora assim dela. Porque eu me preocupava com Lucas. E cuidar dele exigia bastante de mim, mesmo que ele já estivesse habituado com a sua situação e nem sequer abrisse a boca para se queixar de alguma coisa. Na época, meu pai trabalhava apenas meio período na fábrica de azulejos, e minha mãe fazia o mesmo na casa da senhora Viegas. Todos eram cientes da situação de Lucas, de modo que não haviam contestações por parte de ninguém quando o assunto era dar prioridade para a saúde do menino. Enquanto eles trabalhavam, a parte da tarde era reservada para mim.

Eu cuidava de Lucas das duas da tarde até às seis, enquanto ouvia música baixinho no meu quarto, deitado e com os pés virados para o teto. Vez que outra eu o escutava me chamar, então saltava da cama e ia descalço até o quarto especial dele. Sabia que sentiria os pés gelarem ao pisar no soalho do quarto do final do corredor, mas isso era algo que eu costumeiramente me esquecia. Certa tarde, eu estava folhando uma playboy com uma das mãos, enquanto a outra já alisava o pinto por cima das calças, quando escutei Lucas me chamar. Esperei alguns instantes ( não queria que o meu irmão me visse excitado ) e gritei que já estava indo.

Atirei a playboy em cima da cama desarrumada e parti na direção do final do corredor. Como sempre, lembrei dos chinelos apenas quando abri a porta de seu quarto e senti o ar frio tocar o meu rosto. Assim que entrei, imediatamente já fechei a porta atrás de mim com um puxão. Essa era uma das regras quando se entrava ali. O quartinho de Lucas não era muito grande, apenas uma peça de uns cinco metros quadrados com dois ar-condicionado acoplados um em cada canto das paredes. Eles ficavam um de frente para o outro, sempre com a temperatura beirando os cinco graus. No centro de tudo, ficava a banheira de Lucas com ele dentro. Ele passava os seus dias enfiado ali, com pedras de gelo boiando ao seu redor e uma TV de quatorze polegadas ligada dia e noite a sua frente.

Assim que entrei, vi que estava passando os ursinhos carinhosos. Lucas estava com a água até o seu peito magro e enrugado, escorado para trás. Seus olhos estavam apontados para mim, e aquilo era algo que eu nunca me acostumava a encarar. Eles não tinham cílios. E pareciam estar sempre avermelhados, maiores do que o normal.

— O que vai ser, carinha?

— Estou precisando ir ao banheiro, — ele falou, e eu já imaginava que era exatamente aquilo que ele estava querendo. Não havia outra razão para ele estar com a água até o seu peito. Ele já estava se preparando para sair da banheira.

— Certo. Número um ou número dois?

— Eu só quero mijar. Anda logo, Douglas!

Eu dei risada. Me aproximei e peguei a toalha que estava num balde que ficava ao lado da banheira. Ele estava coberto de cubos de gelo, e a toalha mergulhada ali dentro. Na verdade, a toalha era um roupão que meu pai costumava usar para dormir. Ela cobria Lucas até os tornozelos e sobrava pano toda vez que a tarefa era levá-lo até o banheiro.

Retirei o roupão do balde ( senti minhas mãos quase congelarem ) e pedi para que Lucas se levantasse. Ele imediatamente o fez, ficando de pé e revelando o seu corpo enrugado, pequeno e tão frágil que dava calafrios só de olhar. Ele nem sequer estava tremendo. Aquela temperatura era perfeita para ele, quase como estar no paraíso, sentado numa cadeira e com um copo de suco de laranja nas mãos.

Eu o cobri com o roupão e disse que iria tirá-lo de dentro da banheira assim que ele estivesse pronto.

— Vou me mijar, é melhor ir logo com isso.

— Está bem — falei. Minhas mãos já estavam em volta de seus ombros. — Tem que ser depressa, você sabe. Um pé lá e outro cá.

— Já sei disso, mano. Agora, podemos ir antes que eu mije na sua cara, por favor?

Novamente ele me fez rir. Esta era a mágica em torno de Lucas. Ele sabia que não tinha uma vida como as outras crianças de sua idade, e que muito provavelmente nunca teria. Ele apenas escutava elas brincando na rua ( o quarto dele não possuía janelas ) jogando bola ou simplesmente correndo umas atrás das outras, aos berros e gargalhando. Por vezes eu tentava me colocar em seu lugar, tentava saber como deveria ser. Falhava todas as vezes. Nunca fui capaz de sentir, de enxergar o mundo como um grande forno onde cada perigo se escondia nas coisas mais simples. Então eu ficava confuso e não sabia se agradecia a Deus por aquilo. E eu só tinha dezesseis anos, ficar confuso era a minha especialidade.

Retirei Lucas da banheira e andei com ele até chegamos junto da porta. A água fria respingava pelo soalho.

— Vamos?

Ele me olhou ( os olhos avermelhados tentando parecer gentis, mas era algo impossível ) e então disse :

— Já estou quase fazendo aqui.

Abri a porta e corremos na direção do banheiro.




Duas noites depois, meus pais estavam conversando sobre as contas que tinham para pagar ( uma conversa que era cada vez mais frequente na hora do jantar ) quando escutei uma voz berrando pelo meu nome do lado de fora da casa. Eu a reconheci de imediato. Era meu amigo, Fernando Aguirre. Não exatamente um amigo, mas uma espécie de comparsa, um garoto muito mais alto e muito mais forte do que eu, apesar de termos a mesma idade.

Meu pai olhou por sobre o ombro, na direção de onde havia vindo o grito. Depois olhou para mim.

— Você não vai, — ele disse. A mão revirava o garfo no prato.

Minha mãe apenas me olhou, enquanto mastigava o bife e não disse nada. Costumava ser assim. Ela não contrariava uma ordem direta de meu pai, procurava evitar qualquer tipo de confronto mesmo que as vezes a razão estivesse do lado dela. Eu não a condenava. Ela apenas queria proteger o Lucas, tentar deixar o lar mais normal possível mesmo sabendo que o bairro inteiro não pensava assim.

— Vamos apenas na praça, pai. — Disse. Meu prato já estava vazio, e eu pronto para lavá-lo e dar no pé.

— Não, você não vai. Sei bem quem está chamando você. É aquele marginalzinho do Aguirre. O garoto não é boa coisa, filho.

Um novo grito pelo meu nome surgiu, dessa vez acompanhado por um desnecessário anda logo, porra, ao final da frase.

Meu pai fez um movimento como se fosse levantar e correr até a varanda, os punhos fechados e o rosto mais fechado ainda. Mas ele não fez isso, apenas ficou de pé, mastigando e olhando na direção do pátio.

— Esse fedelho é uma péssima companhia pra você, — repetiu ele. — Tem sumido muita coisa da loja de conveniências do Charles, e o velho jura por Deus que é coisa dele.

— Não creio que...

— Façamos assim, — começou a dizer a minha mãe, se levantando e pegando os pratos um após o outro. — Vá até lá fora e diga que não vai poder sair, pois terá que cuidar de seu irmão. Simples. Isso não vai torná-lo um criminoso procurado. Seu pai irá permitir que faça isso. Não vai, Bruno?

Meu pai refletiu por um instante, olhando dela para mim enquanto o fazia. Ele não estava afim de abrir um debate, de falar sobre os perigos que andar com Fernando Aguirre poderia causar ( e não eram poucos, ele realmente andava furtando produtos da loja do velho Charles ) e ainda por cima, meu pai me conhecia muito bem. Ele tinha o faro da coisa, algo que apenas os pais possuem e os filhos não fazem ideia. Ele sabia que não tinha como evitar que eu encontrasse com o Aguirre. Nós estudávamos na mesma escola, frequentávamos praticamente os mesmos lugares enquanto voltávamos para a casa e tínhamos um gostinho todo peculiar para a música. Então, era melhor ( e muito mais eficaz ) ficar apenas de olho em mim e muito mais em Aguirre. Proibir que amigos se vejam é um convite a rebeldia, é colocar rédias numa situação que claramente irá fugir do controle. É como proibir a filha adolescente de namorar.

Após pensar provavelmente nesse tipo de coisa, meu pai finalmente me olhou e disse :

— Vá até lá e diga o que sua mãe mandou. — E quando eu sorri e comecei a andar pelo corredor, ele me chamou e eu me detive. — Depois agradeça a sua mãe pela colher de chá.

Nós três sorrimos e eu saí na noite fresca e de lua cheia.



Aguirre estava me esperando montado em sua Caloi, com um dos pés apoiado no chão. Ele usava uma bandana enrolada no pescoço e tinha um piercing em formato de argola num dos buracos do nariz. Daquele ângulo, eu não tinha como contestar a opinião de meu pai sobre ele.

— Fala aí, cuzão — ele me disse. Aquilo era um cumprimento na linguagem de caras como Aguirre. E também era usado por mim as vezes. — Vamos logo, as garotas já estão na praça esperando. Fiquei sabendo que a Ana está usando aquela saia preta, cara. Sabe, aquela que ela costuma usar quando está sem calcinha.

— É, eu sei, — e de fato sabia. Ana era o tipo de garota que tinha o nome reverenciando pelos corredores da escola. Os outros alunos diziam que ela já não era mais virgem, e que se conversasse do jeito certo com ela, poderia se adquirir um boquete escondido do outro lado da quadra de esportes. Mas eu gostava dela. Gostava como ela me olhava, da forma como mexia na mecha de cabelo enquanto estava olhando para o caderno e pensando. Acho que ela também gostava de mim, mas não me arriscava a perguntar. Isso seria um passo ousado demais. E não gostava nadinha da maneira que os outros se referiam a ela.

— Então, pega a sua bike e vamos, otário.

Olhei para trás, — para a direção da casa, — e depois tornei a encarar o Aguirre. Ele parecia ansioso, remexendo as mãos no guidão da Caloi como se estivesse acelerando uma motocicleta.

— Eu não vou poder ir, cara — falei. — Tenho que cuidar do meu irmão mais novo. Você sabe, ele é...

— Sei, ele queima a rosca. Mas os seus pais não estão em casa?

— Eles tiveram que dar uma volta. Me deixaram como babá. Eu sinto muito, Nando.

— Bem, — falou Aguirre, já apontando a bicicleta para o outro lado. — Vou ter que comer as garotas sozinho, então.

— Seu sortudo, — sorri, mas não estava afim de sorrir. Desconfiava que ele sabia da minha queda pela Ana, e estava dizendo aquilo unicamente para me provocar. Então, quando ele pôs um dos pés no pedal e se aprontou para começar a pedalar, eu concluí. — Me conte amanhã como foi.

Ele deu uma risadinha maliciosa e disparou com a Caloi, sumindo de vista logo após virar a esquina.




Na semana seguinte, eu passei todos os dias ao lado de Lucas em seu quarto especial. Coloquei um moletom e não esqueci de calçar os chinelos, ficando em uma cadeira ao seu lado enquanto o ursinho Pooh passava na televisão. Do lado de fora, dava para escutar as outras crianças ( aquelas que não corriam risco de ascender e explodir como um palito de fósforo ) brincando de alguma coisa que não parecia fazer sentido, pois elas apenas gritavam e depois seus passos eram ouvidos disparando pelo asfalto.

Enquanto isso acontecia, eu não percebia uma mudança sequer na fisionomia de Lucas. Em momento algum ele parecia querer estar lá fora com os outros, correndo e ralando os joelhos. Talvez ele já estivesse conformado com tudo. Talvez aqueles cubos de gelo fossem mais interessantes. Então eu tornava a olhar para ele e entendia que não era ele quem não mudava a expressão. Era a sua enfermidade que não permitia isso. As rugas que cobriam o seu corpo o deixavam sempre com a mesma aparência, uma criatura pequena, careca e sem sobrancelhas. Um menino que tinha os lábios rachados, e que sangrava quando sorria. Em seu último aniversário, meus pais trouxeram um bolo para ele e sua felicidade foi tanta que ele chorou lágrimas que mais pareciam pequenas labaredas. Não havia velinhas, naturalmente. O fato de colocar uma chama ( por menor que ela seja ) diante de seu corpo, seria quase como ascender um isqueiro em frente à um tonel de gasolina destampado. Uns dois verões atrás, no dia mais quente do ano, todos se refrescaram com sorvete. Menos Lucas. Nós já havíamos tentado lhe oferecer esse tipo de comida, mas antes mesmo de entrar em sua boca, tudo se derretia e formava uma gosma sem graça e sem sabor.

Eu estava olhando para a televisão, sem prestar muito a atenção no que o Tigrão estava falando para o Abel quando fui surpreendido por uma pergunta de Lucas.

— O que?

— Por que eu sou assim, mano? — ele não estava olhando para mim. Olhava para si mesmo, para as mãos murchas cercadas pelo gelo.

— Eu não sei. Nossos pais já conversaram com você sobre isso, lembra?

— Sim, mas quero saber a sua opinião.

Me senti sufocado. Percebi que aquele era o motivo de não passar muito tempo ao lado de Lucas, e ficar apenas enfiado no quarto escutando música e só ir até ele quando era necessário. Era mais fácil de conviver com aquela realidade quando não era preciso tentar entendê-la. Poxa, nem os médicos tinham aquela resposta. Eles é que liberaram Lucas para morar em casa, desde que ele fosse mantido sempre em baixa temperatura e longe de produtos inflamáveis. Na realidade, eles não queriam correr os riscos. Não queriam ter de explicar para os familiares que alguma coisa tinha feito o seu filho explodir. Então enviaram a dinamite para os seus respectivos donos.

Me endireitei na cadeira, — tentei pensar em alguma coisa rápida e que não provocasse uma nova pergunta constrangedora — e então falei :

— Acho que você é um super-herói, carinha. Como o Batman ou o Homem-Aranha. Só que seu poder é muito mais forte.

— Ou como o tocha! — seus dentes estavam a mostra, um dos poucos gestos que revelavam o que estava sentindo.

— Quem?

— O tocha. Ele é do quarteto fantástico. Ele voa e tudo mais.

— Ah, então sim. Como esse cara aí, então.

Lucas espalmou a água a sua volta, provocando uma rajada de salpicos que atingiram o meu rosto. Eu não me importei. Ele estava feliz, como achava que nunca o tinha visto.

Os olhos dele se fechavam a cada respingo de água, e quando tornavam a se abrir eles pareciam brilhar, a reação mais comum a felicidade. Eu também estava feliz, algo que parecia muito distante poucos minutos antes. Me levantei e disse que iria buscar uma limonada.

— Posso beber um pouco também?

— Pode. Eu trago um copo pra você.

Me virei para abrir a porta e então Lucas me chamou.

— Fala.

— Se eu sou um super-herói, então eu sou indestrutível?

— Você é.

— Posso fazer qualquer coisa?

Pensei a respeito, segurando o queixo com uma das mãos.

— É, — disse. — Você pode.




Na sexta-feira da mesma semana, recebi uma visita que num primeiro momento me deixou encabulado, depois nervoso, e por fim, transbordando de alegria. Ela estava linda. Ana estava vestindo uma saia preta ( aquela saia preta ) e uma camiseta branca dos Ramones, enquanto me aguardava em frente ao portão de minha casa. Ela tinha um sorriso nos lábios quando me aproximei. Só esperava que a minha expressão não fosse semelhante a de um idiota, mas suspeitava que era exatamente assim que eu estava parecendo.

— Que surpresa, — falei, e foi o melhor que pude fazer.

— Estava passando e achei que seria uma boa ideia parar e bater um papo. Já que você não foi me ver na praça naquela noite.

— Eu não pude ir. Tive que cuidar do meu irmão.

— É, o Nando falou algo assim. — Ela estava enrolando uma mecha de cabelos, enquanto mordia delicadamente o lábio inferior. Era uma visão que só em meus sonhos molhados era capaz de ocorrer.

— E eu não posso deixá-lo sozinho. Você sabe, ele...

— Pega fogo, — me interrompeu Ana. — É, eu tô sabendo. Mas é só ele que tem fogo nessa família?

Aquela pergunta mexeu comigo na hora. Ainda mais que logo depois ela me piscou um dos olhos, quase um convite para entrar em minha casa e descobrir por si mesma o que acabara de perguntar.

Balancei a cabeça e sorri, um tanto sem jeito.

— Você... Bem, quer entrar, beber alguma coisa?

— Estava pensando se não poderia me mostrar o seu irmão.

— Mostrar ele pra você?

— Aham.

— Mas pra que? — na verdade eu já sabia aquela resposta. As pessoas do bairro tinham muita curiosidade em relação ao Lucas, mas elas respeitavam os limites que existiam entre a satisfação própria e o respeito. Mas Ana não sabia muito bem sobre isso. Ela tinha quinze anos e um pouco de erva na cabeça quase todas as tardes, de modo que preferi simplesmente me fazer de bobo.

— Ah, você sabe. Ele é deformado como os outros alunos falam?

— Não, ele não é. Ele é uma criança como qualquer outra.

— Não é mesmo, — falou Ana, deixando o seu rosto assumir uma expressão de deboche. — Qualquer um que não pode ficar longe de uma banheira com gelo por mais de cinco minutos não pode ser chamado de normal.

— Então, pela sua tese, alguém que tem a fama de chupar pau é uma boqueteira mesmo que ela não se considere uma?

O sorriso irônico do rosto dela se desfez. Seus olhos se esbugalharam e sua boca criou um ângulo para baixo, numa expressão deprimente que eu tive a certeza de que ela iria chorar. Mas Ana não chorou, ela simplesmente me deu as costas e saiu sem dizer uma única palavra.

Eu até que senti uma vontade passageira de lhe chamar, de correr atrás dela e pedir desculpas, mas isso foi passando antes mesmo da vontade ganhar força e se concretizar. Achava que alguém como ela não iria me fazer falta na vida, alguém que considerava o meu irmão uma aberração de circo. Só que na verdade, pessoas assim existiam as pencas para todo lugar que se olhava. E se eu fosse virar a cara para todos que pensavam daquela maneira, iria me isolar do mundo, entrar dentro de uma banheira com gelo e assistir aos desenhos da tarde. Era uma realidade cruel, algo que eu achava que estava começando a aprender a lidar, mas que na verdade ainda estava bem longe de ser algo possível. Acompanhei Ana se afastar até ela virar a esquina. Em alguns momentos, a mão dela parecia ir até o rosto e eu suspeitava que era para secar alguma lágrima. Nunca soube se fora de fato isso. Ela nunca mais quis falar comigo.




Dois dias depois de eu jogar a amizade com Ana pelo ralo, Aguirre me chamou em frente à minha casa numa tarde nublada e com cheiro de terra molhada. Eu estava conversando com Lucas no momento em que ouvi o meu nome vindo do lado de fora da casa. Nós falávamos sobre o novo assunto preferido de Lucas ; os super-heróis.

Então quando ele escutou uma voz me chamar, logo pareceu se desanimar.

— Não fique assim, — falei. — Eu já vou voltar. Só vou ver o que aquele panaca quer.

— Se acha ele um panaca, por que ainda fala com ele?

Fiquei sem resposta, e após analisar por um instante, falei :

— E não é que tem razão.

Abri a porta e sai.




Na rua, parecia mesmo que iria chover. Estava nublado, com nuvens pesadas e cinzas cobrindo o céu por completo. Em algumas partes, elas eram escuras, e vez que outra um raio riscava o céu ao longe.

Aguirre estava sentado na Caloi, usando um único pé como apoio e mantendo os braços cruzados sobre o peito. Aquilo o deixava maior. Talvez até mais forte. Ele estava mascando chiclete, mexendo o maxilar para cima e para baixo rapidamente, sem tempo de fechar a boca.

— E aí, otário — falei, cumprimentando ao estilo Aguirre.

— Cara, você magoou a Ana, sabia?

— Imagino que sim. Mas ela me magoou primeiro.

— Ah, sem essa, — retrucou ele, rindo depois. — Todo mundo sabe que seu irmão é... Olha, sei lá o que ele é. Ela só queria ver o palito de fósforo, poxa.

— Ele não está amostra. Ele só tem oito anos, cara. E é doente. Você sabia que se um dia ele por acaso espirrar, ele pode explodir? Tem a mínima noção do que é ser alguém inflamável, pronto para pegar fogo a qualquer momento?

Aguirre não estava mais sorrindo.

— Eu sei que o moleque é sinistro, — ele disse, embora até hoje desconfie que ele não saiba. — Sei que você da duro pra cuidar dele. Foi mal se falei alguma merda.

— Esquece. O que veio fazer aqui?

— Vim convidar você para uma festança, cara. — O sorriso estava de volta ao rosto fino de Fernando Aguirre. Ele tinha os seus problemas, mas era um sujeito bacana. — Vai acontecer hoje à noite, na casa do Olavo.

Olavo era outro membro do bando. Ele tinha quatorze anos ( o mais jovem do grupo ) e uma irmã que, assim como Ana, tinha lá a sua fama. E havia outra coisa positiva sobre o Olavo ; ele morava a três casas da minha, logo depois da residência da senhora Fernandes e antes da casa da família Torres. Ir até ali por alguns minutos seria como literalmente ir num pé e voltar no outro. E meus pais já haviam me dito que naquela noite iriam jantar fora — queriam um tempo só para eles, no fim das contas. E eu também estava precisando de um tempo só para mim.

— Que horas vai ser isso?

Aguirre esfregou as mãos como se quisesse esquentá-las e disse que iria começar às oito. Meus pais iriam sair às sete. Eu poderia dar um pulinho até lá até umas oito e meia, beber um vinho, paquerar umas garotas ( talvez falar uma outra vez com a Ana ) e depois voltar para assistir televisão com o Lucas. Pelas minhas contas, até sobraria tempo.

— Você vem, otário?

Eu respondi que podiam contar com a minha presença.



Quando contei para o Lucas que eu teria de ir até o mercado rapidamente, ele pareceu não acreditar. Me fez uma ou duas perguntas ( ambas na intenção de detectar algum deslize ) e depois pareceu não se importar e virou os olhos para a TV.

— Vou lá rapidinho, — falei. — Só tem que me prometer que não vai dizer nada para o papai nem pra mamãe. Eles ficariam umas feras comigo por te deixar sozinho.

— Não vou dizer.

— Promete?

Ele apontou aqueles rosto derretido para mim ( a última vez que eu o veria ) e falou com a sua voz pastosa :

— Prometo.

Eu teria apertado a mão dele se pudesse. Me queimaria um pouco, mas ao menos encararia aquilo como uma despedida horas depois.




Eu estava segurando uma latinha de cerveja quando um dos garotos entrou gritando na sala de estar, apontando para o lado de fora e gaguejando um pouco. A música estava alta, e logo depois que Olavo percebeu o incidente, baixou o volume e causou uma certa reclamação dos outros presentes.

— O que está berrando aí, seu trouxa?

— Um incêndio! — gritou o garoto, apontando para a rua. Meu coração quase congelou no mesmo instante. — Tem fogo pra todo lado em uma casa logo mais à frente.

E antes mesmo que o restante do pessoal começasse a correr na direção da minha casa que estava em chamas, eu deixei a lata de cerveja cair e corri, corri aos tropeços, começando a chorar, abrindo caminho com as mãos e sabendo que nada mais poderia ser feito.




Os bombeiros levaram mais de duas horas para controlar as chamas. Havia muita gente acumulada atrás de um cordão de isolamento improvisado ( muita gente que estava na festa onde eu estava ao invés de estar cuidando do Lucas ) e todos pareciam honestamente chocados. As pessoas apontavam e depois cobriam a boca, algumas com lágrimas nos olhos.

Eu estava sentado no meio fio, sendo acolhido pelos braços de minha mãe. Meu pai conversava com alguns paramédicos, olhando quase sem acreditar para toda aquela fumaça. Foi ele quem teve de explicar o que o meu irmão tinha e como aquilo deveria ter sido o responsável pelo incêndio. Minha mãe me abraçava com força, e eu era capaz de sentir o coração dela batucar em seu peito.

Quase dois meses depois, com nós três morando em uma nova cidade, é que um inquérito final sobre o ocorrido foi divulgado pelos responsáveis. Segundo o laudo, o incêndio começou muito provavelmente no corredor da casa. Em minha cabeça, em meu laudo mental, Lucas deve ter sentido vontade de ir até o banheiro. Possivelmente ele foi, correndo, sem se importar de enrolar o roupão sobre o corpo. Ele não colocaria a toalha em volta de si, porque eu disse que ele podia fazer o que quisesse. Certa vez ele me perguntara o que eu achava que acontecia com ele. Eu disse que achava que ele era um super-herói, e que não havia nada que ele não pudesse fazer. Mas eu estava errado. Sabia desde o momento que dei essa resposta que ela era mentirosa, que era apenas um desejo meu de possuir um irmão normal, uma força que gritava dentro de mim que nada daquilo deveria existir, porque pessoas inflamáveis não existem.

Uma semana depois meu pai faleceu. Sentiu o coração galopando, depois o braço esquerdo formigar e enfim tudo ficar preto. Assim que completei a maioridade, me mudei para um apartamento no centro após me fixar em um emprego. Eu era garçom num restaurante boa pinta, e costumava tirar boas gorjetas nos finais de semana. Pouco tempo depois, decidi contar para a minha mãe o que de fato aconteceu naquela noite em que o Lucas se foi. Contei que eu não estava em casa, que eu não havia sobrevivido simplesmente por ter agido rápido e saído para o pátio da casa. Falei que estava em uma festa três casas depois da nossa, cercado por adolescentes tão irresponsáveis quanto eu fora na época, e que ao invés de estar assistindo televisão com o meu irmão inflamável, eu estava com uma lata de cerveja em uma mão e o ombro de uma menina que eu nem conhecia na outra. Contei isso aos soluços, com lágrimas lavando o meu rosto.

Minha mãe chorou sem parar e fez isso abraçada em mim. Acho que no fundo ela sabia que eu não estava em casa. E o meu pai também. Eles sabiam que cuidar do Lucas era algo dolorido, cuidadoso, tão metódico quanto passar diante de uma bomba de combustível com um isqueiro aceso nas mãos. Nós nunca tivemos uma vida normal. Estávamos sempre exaustos, com medo, sabendo que um dia algum de nós iria deixar o palito de fósforo cair no piso encharcado de gasolina. E este alguém foi eu. Acho — e me faz bem acreditar nisso — que todos sentimos um certo alívio quando ele se foi. Sem dúvida ele sofria tanto quanto nós, tendo a terrível sensação de estar sempre com o corpo coberto de combustível.

Cerca de dois meses após contar a verdade, Suzi Álvares, minha mãe, também faleceu. Ela morreu enquanto estava dormindo, em seu quarto, numa noite chuvosa e triste. Eu e minha esposa, Karla, fomos até o enterro e escutamos um padre velho e de bigode dizer que Deus a estava esperando em seu novo lar. Gosto de acreditar que isso seja verdade. A morte realmente parece estar sempre sondando, como se todos nós fôssemos inflamáveis e em algum momento alguém fosse acender o isqueiro.

Há um mês meu primeiro filho nasceu. Ele se chama Felipe, e Karla e eu temos nos revezado para cuidar dele. Tem sido difícil ( ele acorda todas as madrugadas, chorando e com o corpo quente ) mas nós sabemos que vamos dar conta. Já até providenciamos uma banheira bem pequena, e Karla disse que sabe onde conseguir sacos de gelo pela metade do preço. É. Nós podemos dar conta.

Mas não sabemos até quando.


Sept. 4, 2019, 12:02 a.m. 0 Report Embed 2
The End

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