METÁLICO Follow story

dissecando Edison Oliveira

Marcos Lima leva um susto dos grandes quando percebe o que o seu filho está vomitando.


Horror Monster literature Not for children under 13.
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METÁLICO





Marcos Lima estava com o corpo curvado olhando para dentro da geladeira quando escutou o barulho. Foi como se uma dúzia de objetos de metal caíssem sobre o piso.

Seu corpo deu um sobressalto e sua cabeça virou imediatamente para trás, a tempo de conseguir ver o filho sentado à mesa, com os braços abraçando a própria barriga. No chão abaixo dele havia um punhado do que Marcos pensava serem parafusos. Fechou a porta da geladeira com um tapa e andou na direção do garoto. Este subiu os olhos para ele, assustado, como se houvesse feito algo muito ruim.

— Está tudo bem aí, filho? — perguntou Marcos, colocando uma das mãos nas costas do garoto. Olhou pretensiosamente para o chão e teve a certeza de que eram parafusos. Não sabia da onde eles haviam surgido, mas tinha um palpite ; o garoto andava brincando com as suas ferramentas.

— Eu acho que vomitei, — falou o menino, com uma voz rouca. Seus olhos ainda estavam arregalados e a boca entreaberta, buscando pelo ar.

Marcos não via sinais de restos de comida, e achava que o garoto não sabia bem o que estava dizendo.

Deu uma nova olhada para o amontoado de parafusos e percebeu uma coisa que não havia notado antes. Eles estavam envolvidos por um líquido transparente, algo que se parecia muito com saliva. Se ajoelhou e remexeu devagar naqueles parafusos, notando que aquilo que os envolvia só poderia mesmo ser saliva, mesmo que a ideia lhe parecesse absurda. Estava prestes a erguer a cabeça para olhar para o filho quando um som agudo surgiu acima de si. Ele vinha do garoto. De dentro dele. Marcos sabia o que ele significava e instintivamente recuou o corpo, esperando que a segunda rodada de vômito viesse com tudo, borrifando o piso já nas primeiras golfadas. Só que ela não veio. Ao menos não como ele imaginava. O garoto curvou as costas e seus olhos se esbugalharam de uma maneira dolorida, seus braços ainda apertando o próprio corpo. O som de que alguma estava vindo ainda podia ser escutado, incômodo e constante. E quando ele finalmente abriu a boca para botar para fora, o que saiu fez Marcos Lima cair de traseiro no chão. Inúmeros parafusos jorravam da boca do menino, numa cachoeira metálica que terminava sobre os outros parafusos que já estavam no chão. O barulho era idêntico a quando moedas caiam umas sobre as outras.

Os olhos do filho acompanhavam a tudo, assustados, procurando por respostas que nem mesmo o seu pai poderia lhe dar.

A ação toda não levou mais de vinte segundos, mas Marcos deu graças ao Senhor quando aquele barulho finalmente parou.


Durante aquela tarde, Marcos trabalhou normalmente na plantação de milho que tinha cultivada no seu quintal dos fundos. Ele aplicava os agrotóxicos manualmente, deixando o sol quente de Janeiro esquentar a sua cabeça por debaixo do chapéu de palha. Vez que outra ele espichava a cabeça para além do milharal e via a esposa estendendo as roupas no varal. A brisa fazia com que o vestido dela esvoaçasse, deixando-a linda olhada contra o sol. Ela estava estendendo um lençol azulado com certa dificuldade ( ele era comprido e deveria estar pesado por estar molhado ) e Marcos começou a caminhar até lá para ajudá-la.

Estava no meio do caminho quando decidiu desistir. Ele conseguiu evitar olhar para a esposa por quase toda a tarde após o almoço e esperava que aquilo permanecesse assim por mais um tempo.

Não saberia o que dizer quando estivesse diante dela. Helen não havia presenciado o que ocorrera na cozinha algumas horas atrás e Marcos esperava que ela nunca tomasse nota sobre o assunto. E ela também não havia escutado nada, caso contrário ela teria invadido a cozinha aos gritos assim que o tilintar dos parafusos começasse. Helen não era uma mulher religiosa, tinha uma cabeça até avançada para alguém do campo, mas Marcos não estava afim de falar sobre aquilo. Talvez ele mesmo tenha visto demais. Vai ver imaginou a coisa toda, como uma espécie de sonho anormal, o tipo de sonho que se tem acordado. Mesmo que o barulho dos parafusos o tivessem lhe deixado com os braços arrepiados. Observou a esposa terminar de estender o lençol após uma longa batalha e voltou para a plantação.

No caminho, cuspiu no chão quente e ajustou o chapéu de palha com o polegar.




A noite, Marcos e Helen não fizeram sexo mas conversaram um bocado sobre as reformas da casa. Havia uma porção de coisas para se fazer. E Marcos tinha de consolidar o tempo entre a plantação de milho e os afazeres com o telhado da casa.

Não gostava muito de subir em alturas ( quando era criança, presenciou o pai cair da escada enquanto limpava a calha, algo que quase lhe quebrou o pescoço e o deixou na cama por semanas ) mas preferia correr o risco a pagar para outro sujeito resolver a coisa. Além do mais, achava que um bom marido deveria saber cuidar da própria casa. Helen estava falando sobre como a plantação havia crescido nos últimos dias, e enquanto falava Marcos não deixava de reparar nas suas coxas que estavam amostra bem ao seu lado. Ela estava usando uma camisola branca, e seus longos cabelos escuros estavam cuidadosamente caídos sobre os ombros e escorrendo até os seios. Ocorreu a Marcos que transar ainda era uma ideia a ser considerada.

O fato de ter descartado essa hipótese assim que se deitaram, partiu do ponto do que havia ocorrido com o filho na cozinha. A ideia de não contar nada para Helen ainda persistia, e só de estar com ela na mesma cama há quase duas horas sem tocar no assunto, já era uma vitória. Não que a possibilidade de fazer isso tenha passado longe de seus pensamentos. Pelo contrário, havia passado perto até demais.

A esposa estava falando alguma coisa sobre uma prima dela chamada Suzana, quando um barulho espalhafatoso veio de dentro da casa. Helen parou de imediato e olhou para o marido. Marcos engoliu a seco e rezou em silêncio para ser outra coisa. Qualquer coisa. Sabia o que era aquilo pois já havia escutado a mesma droga mais cedo, na cozinha.

— Este som veio aqui de dentro? — perguntou Helen. Havia uma certa preocupação em sua voz.

— Talvez tenha caído alguma coisa no galpão, — disse Marcos, sendo aquela resposta a única que pareceu boa em sua cabeça. Então o barulho aconteceu outra vez, parecendo muito mais alto.

— Não, isso é aqui dentro! — e assim que falou isso, Helen saltou da cama e calçou os chinelos. Marcos fez o mesmo praticamente ao mesmo tempo e lhe pediu para ficar aonde estava.

— Mas por que?

— Eu vou olhar, — disse Marcos, estendendo a mão e apontando com o dedo na direção da cama, como se dissesse para a esposa voltar para ela. — Fique aqui que eu já volto, está bem?

— Não, eu vou com você.

— Fique cacete! — o rosto de Marcos estava fechado. Sua voz saiu rabugenta, muito semelhante a época em que costumava beber dois fardos de cerveja por dia. Helen não gostou das lembranças que teve.

— Está bem. Qualquer coisa me dê um grito.

Marcos esperou que ela se deitasse ( fez isso mais por medo do que desconfiança, ou quem sabe pelos dois ) e andou na direção do corredor sentindo o coração dar coices em seu peito nu.




Assim que entrou no quarto do filho, Marcos ascendeu a luz e o viu deitado de lado sobre a cama. Seus cabelos estavam úmidos e a testa suada. Havia um pavor hipnotizante em seu rosto ( ele queria respostas assim como o seu pai ) e um punhado de parafusos jazia no soalho logo abaixo.

Marcos correu até chegar diante do filho e se sentou na cama ao seu lado, afagando os seus cabelos logo depois.

— Que está havendo, pai? — a voz do menino estava rouca outra vez, fazendo ele parecer ter sessenta anos ao invés de sete.

— Eu não sei, filho. Dói muito quando eles saem?

A resposta do garoto veio através de um fraco movimento positivo com a cabeça.

— Eu não consigo entender. — Os olhos de Marcos se fecharam e em seguida, ele perguntou a única coisa que foi capaz de perguntar :

— Você por acaso engoliu esses parafusos, Gabi?

— Não, pai. Eu não sou um bebê pra fazer algo assim. Sei o que coloco na boca.

Ouvir aquilo fez Marcos se sentir um idiota. O filho não era nenhum paspalho, ele bem sabia — assim como sabia que se ele engolisse aquela quantidade de parafusos provavelmente morreria antes mesmo de expulsá-los do corpo, — mas sua preocupação não o deixou pensar em nada mais racional.

Puxou o filho para junto de si e lhe deu um abraço.

— Isso vai passar, está bem? — as palavras saíram fracas, distantes como a lua minguante que enfeitava o céu através da janela. — Eu só preciso que tenha paciência, filho. Consegue fazer isso?

— Vou tentar. Mas está doendo muito, pai. E eu estou me sentindo mais pesado também.

Marcos recuou o corpo para trás, para olhar bem para os olhos do filho.

— Pesado?

— É, — falou o menino. Sua voz começava a voltar ao normal. — Parece que estou sempre estufado. E não consigo caminhar por muito tempo sem me cansar.


É evidente, pensou Marcos. Com essa quantidade de parafusos dentro dele, não tem como não ficar pesado.


— Isso vai passar, filho. — Disse, querendo mesmo acreditar naquilo. Outra vez estava abraçado no garoto. — Só precisamos ter calma.




Só que nada daquilo passou e agora até Helen já estava sabendo do que vinha acontecendo.

Marcos não teve como evitar. Ele estava trabalhando arando a terra com um velho trator, quando viu que Helen estava correndo em sua direção com os cabelos desgrenhados pelo vento. Ela nem precisou abrir a boca para Marcos saber do que se tratava. Ele desceu do trator com o cenho franzido, o suor escorrendo pela fonte. Não estava usando o chapéu de palha naquela tarde, e seus olhos castanhos e sinceros estavam claramente a vista. Helen gritou que estava acontecendo alguma coisa com o Gabi, alguma coisa que ela não fazia ideia do que era mas que com certeza não poderia ser bom.

Marcos a abraçou e disse para ela ficar calma, que logo tudo aquilo iria se ajeitar e então Helen teve a certeza de que ele já sabia do que estava acontecendo muito antes dela perceber.

— E por que não me falou nada? — a pergunta lembrava mais uma acusação do que qualquer outra coisa.

— Eu não quis lhe preocupar, Helen.

— E achou que escondendo de mim iria me poupar o sofrimento?

— Eu não sei, Helen. Eu nem sei o que pensei, na verdade.

— Em qualquer coisa, menos em mim. — Helen deu as costas e correu de volta para a casa, deixando o marido irritado consigo mesmo e olhando para o chão.

Pouco tempo depois ele saiu correndo sob o sol na direção da casa, com a cabeça rodando exatamente como a hélice do velho moinho abandonado um quilômetro adiante.




— Há quanto tempo isso está acontecendo? — a esposa quis saber. Ela estava sentada na poltrona da sala, olhando para o lado de fora. Havia ajudado o filho a ir até o quarto, o amparando pelo braço. Notou que ele estava relativamente mais pesado durante o caminho. Embora ainda tivesse a mesma aparência magricela de sempre.

— Faz algumas semanas.

Helen virou a cabeça para o marido.

— Semanas? E você não... por Deus, Marcos!

— Eu fiquei assustado, Helen! Eu não sei exatamente porque agi dessa maneira. O medo fez isso comigo. Eu não... Eu só não quis lhe deixar como eu estava. Como eu estou. E ver o garoto naquele estado... — os olhos de Marcos se encheram e Helen achou que o marido fosse chorar. Mas ele segurou e então prosseguiu. — Como pode uma coisa dessas, Helen? Quer dizer, você viu aqueles parafusos? A quantidade que ele pôs pra fora?

O rosto de Helen ficou verdadeiramente surpreso.

— Parafusos? — ela indagou. — O que ele acabou de vomitar foram mais de vinte talheres!

O queixo de Marcos caiu logo depois.




Helen estava preparando o jantar ( fora convencida por Marcos que o filho tinha de se alimentar antes de o levarem até o hospital ) quando escutou as pisadas firmes dos coturnos do marido se aproximando a suas costas. Virou-se imediatamente em sua direção.

— Como ele está?

— Fez outra vez, — disse Marcos, e Helen fechou os olhos tão rapidamente que ele achou que a esposa estivesse desmaiando. — Foram colheres pequenas e algumas placas minúsculas de metal. Agora ele está dormindo.

— Dormindo? Tem certeza de que...

— Por Deus, claro que não — interrompeu Marcos. Puxou uma cadeira e se sentou. — Está apenas dormindo. Eu mesmo verifiquei. Assim que ele comer vamos levá-lo até o centro.

— Não sei se ele vai conseguir se alimentar.

— Ele vai, Helen. Tem se alimentando. Tem vivido normalmente, diga-se de passagem. Tenho estado sempre de olho nele esse tempo todo e fora... Bem, fora aquela coisa que ele vomita, tudo está perfeitamente normal.

— Como pode chamar isso de normal, Marcos? — viu o marido revirar os olhos e se levantar. Em seguida, ele começou a andar na direção da sala e Helen o acompanhou. — Ele está vomitando coisas de metal há quase um mês e você acha isso normal? Nosso filho está cada vez mais pesado, mas o corpo dele não muda de modo algum. Mais cedo, quando o levei para o quarto, senti como se estivesse puxando uma barra de ferro. E não foi pelo peso. Foi porque ele estava gelado. Como se tivesse.... Metal debaixo da pele.

Marcos agora estava sentado no sofá, com a cabeça abaixada e as mãos sobre a testa.

De repente sentiu uma vontade alucinante de beber. Quase pôde sentir o gosto da cerveja caindo sobre a língua, preenchendo cada espaço de sua boca. Havia momentos que a vida lhe empurrava na direção do álcool, com mãos fortes e trancos de respeito. Era dureza resistir. Tinha de prender bem os calcanhares no chão para não cair. Não lembrava ao certo quando fora exatamente a última vez que bebera ( talvez uns dois anos atrás, numa festa de aniversário tediosa de algum familiar da Helen, provavelmente ) mas podia se lembrar com uma clareza assustadora do gosto da cerveja. Pensava que era exatamente igual com alguém que estivera internado em um hospital por muito tempo, ou com um policial que resolvera crimes durante boa parte de sua carreira. Eles tinham isso em comum. Todos se lembravam como era o cheiro de suas experiências.

— Você está me ouvindo, Marcos? — a voz de Helen parecia distante, perdida em algum cantinho dos pensamentos de Marcos.

Ele então ergueu a cabeça.

— Estou, é claro. Ouça, nós vamos levá-lo até o hospital. Mas ele precisa comer primeiro. Está pálido. Assim que encher a barriga e pegar uma cor, a gente vai. Entendeu?

Helen não disse nada e deu as costas. Marcos a acompanhou com os olhos até que ela chegasse na cozinha.




Marcos Lima estava pensando seriamente em pedir desculpas para a esposa. Não era um homem acostumado a fazer esse tipo de coisa ( estava mais para alguém que não gostava muito de assumir os seus erros ) mas neste caso abrir uma exceção não significaria fraqueza.

Fora educado de um modo bruto, não exatamente com pancadas, mas com a filosofia que só um homem das cavernas seria capaz de lhe dar. E seu pai costumava desempenhar bem este papel. De modo que pedir desculpas significava baixar a guarda, ceder, dar o braço a torcer. E quando isso tinha de ser feito para uma mulher, a vergonha era muito maior.

Já pedira desculpas antes — inclusive para Helen, — mas as palavras sempre saíram arrastadas, pesando mais de uma tonelada. E também nunca parecia levar as próprias palavras a sério ; era quase como dizer da boca pra fora, e ele tinha a ligeira impressão que a esposa percebia isto. Helen não era uma mulher ignorante.

Em comparação com ele, a esposa era uma instrutora de etiquetas. Então, de certo modo, aquele pedido de desculpas não lhe traria vergonha em hipótese alguma. Porque Marcos Lima não estaria se desculpando para uma mulher. Estaria fazendo isso pensando no filho.

Chegou diante da mesa da cozinha e reparou que Helen parecia distante. Seus ombros estavam encolhidos, os braços cruzados na altura dos seios. Sua cabeça estava levemente pendida para a direita, e seus olhos apontavam para o chão, distantes. Marcos achava que ela nem havia notado que ele chegara na cozinha.

Coçou a nuca e disse :

— Sinto muito não ter falado sobre aquilo logo no começo. Foi uma burrice da minha parte, Helen. Já falei isso pra você, mas agora vejo com mais clareza. E, ouça. O garoto é forte. Isso... Seja lá o que for, vai passar logo.

— Como pode existir algo assim? — os olhos de Helen seguiam perdidos, de modo que suas palavras pareciam ser ditas para ela mesma. — Talvez haja uma explicação científica. Uma espécie de cobertura que encobre uma verdade muito desagradável.

— Eu vou buscá-lo para comer alguma coisa.

Marcos já estava girando o corpo quando foi capaz de escutar. Suas pernas tremeram e a esposa deu um grito. Três segundos depois uma nova onda de metal se chocando pôde ser ouvida e Marcos saiu em disparada pelo corredor. As pisadas de seu coturnos ecoavam pelos cômodos da casa. Helen ainda ficou anestesiada por mais um instante, as mãos cobrindo a boca e os olhos vertendo lágrimas. Então uma onda de impulso invadiu o seu corpo e ela saiu aos tropeços, chocando o quadril no encosto de uma cadeira que estava no caminho.

Quando estava a alguns passos de chegar no quarto do filho, Helen escutou um grito horripilante dado pelo marido. Foi um grito rouco, recheado de pavor e emoção. O susto foi tão grande ao escutá-lo que o corpo de Helen se deteve abruptamente, como se suas pernas tivessem sido desligadas.

— CRISTO!!! ME PERDOE, FILHO. ME PERDOEEEE!!!!! — escutou Helen, apavorada, recuperando as forças para continuar os seus passos. Mas ela não queria continuá-los. Seu coração berrava para não continuar.

Entrou no quarto do filho e viu o marido abraçado no garoto. Ele estava chorando compulsivamente, soluçando de modo descontrolado. O corpo do filho estava praticamente escondido pelos braços grandes de Marcos.

— Meu Deus, o que houve? — Helen choramingou, se aproximando.

Marcos pareceu nem lhe escutar. Continuava agarrado no corpo do filho, apertando ele como se quisesse evitar que ele caísse.

E assim que Helen conseguiu chegar mais perto, viu que era exatamente isso que o marido estava fazendo.

Marcos segurava o garoto apenas pelo tronco. Sua cabeça e seus braços haviam se desmembrado, dando lugares a facas de lâminas reluzentes que cintilavam sob a lâmpada do quarto. Ao lado da cama, uma pilha de talheres formava uma colina de metal que provocava arrepios só de olhar.

Helen quis, durante os dois segundos que seu corpo levou para cair no soalho do quarto, que tudo aquilo fosse um pesadelo. Mas ela sabia que não era. Pensar naquilo era apenas tentar encobrir a verdade com uma mentira.


Aug. 15, 2019, 1:03 a.m. 10 Report Embed 4
The End

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Afogata   Afogata
Suas histórias nunca me decepcionam. Você escreve bem demais, me desperta os mais variados tipos de emoção.
3 weeks ago
Tiago Líreas Tiago Líreas
Imagino que essa "maldição" do filho seja uma forma de castigo ao pai por algum erro passado do pai, por conta das bebedeiras. Teoria confirmada?
Aug. 15, 2019, 7:09 a.m.

  • Edison Oliveira Edison Oliveira
    Acho que essa é uma das grandes maravilhas de escrever sobre o horror fantástico ; surgem teorias, e você pode acreditar no que quiser. Uma pessoa religiosa diria que é algo relacionado ao diabo. Um cientista tentaria encontrar uma razão científica — mesmo sabendo que não há nada que explique tal fato. O que posso dizer pra você, leitor, é que você pode acreditar no que sua consciência mandar. Eu apenas pintei a tela em branco. Você enxerga o que quiser. Obrigado pela leitura, e espero que tenha gostado. Aug. 15, 2019, 9:47 a.m.
  • Tiago Líreas Tiago Líreas
    Muitas vezes narrativas desse tipo não são "pintadas em branco" e tudo faz sentido, mas precisa-se fazer uma conexão de cada ponto da história pra poder compreender tudo que acontece nela, e eu pensei que era o caso aqui. Não acho que há diversão em formular teorias se não existe uma razão científica ou religiosa escondida pelo autor nos confins do enredo e das personagens e por isso fiquei meio desapontado em ouvir isso... Seja como for ainda vou ler todos os seus contos porque eles conseguem me arrepiar, coisa que muita mídia do mesmo gênero falha em fazer. Continua com as paranormalidade s e bizarrices demoníacas! 4 weeks ago
  • Edison Oliveira Edison Oliveira
    Deixando claro : sim, tudo que crio tem o seu fundamento. Caso contrário, não iria postar. Mas nesta história em questão, deixei para o leitor criar em sua cabeça o que ele achasse melhor. Com certeza a sua ideia de entendimento foi diferente do outro e vice-versa. Eu, por exemplo, se visse o meu filho vomitando metal entraria em pânico! Creio que pensaria logo em bruxaria ou algo do gênero. E também outra questão : não costumo responder a comentários. Este será meu último. Se um autor entra em debate com um leitor, a coisa vira uma bola de neve. Cara, eu adoro escrever. Não comecei ontem — vinte anos, mais ou menos de escrita para chegar num nível " apresentável " ao leitor. Tenho muito que melhorar. Um escritor nunca para de aprender. Algumas coisas que você lê aqui são mais velhas do que você, pois as escrevi na época da escola. Outras são bem recentes. Creio que as melhores são as atuais. Obrigado pelos comentários, de verdade. E que bom que apreciou as minhas histórias. 4 weeks ago
  • Tiago Líreas Tiago Líreas
    Bem, já que não vai responder a mais nada sobre as histórias (e acho justo e correto), existe alguma outra plataforma em que você tenha escrito e tem outras narrativas que não estejam aqui no Inkspired? (queria ver mesmo todas) 3 weeks ago
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