Tudo que você mais odeia Follow story

dissecando Edison Oliveira

Eu acredito que se você odeia muito alguma coisa, de algum modo você não pode se livrar disto. Talvez não seja de fato uma verdade, mas escrevi algo que prova este ponto de vista. É uma ficção, obviamente. Mas toda ficção parece ter um pingo de verdade. Boa leitura.


Horror Ghost stories Not for children under 13.
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TUDO QUE VOCÊ MAIS ODEIA



Eu estava acelerando o Honda Civic o máximo que podia e o rosto de Agnes estava tomado pelo mais puro pavor.

Dava para ver claramente o branco de seus olhos, tão arregalados que tinha certeza que eles nunca mais teriam o mesmo diâmetro. E eu estava adorando aquilo tudo. Eu pisava mais fundo no acelerador cada vez que escutava ela gritar. Olhei para ela deliberadamente por um breve instante e tudo que consegui ver foi o medo. Até aquele momento, não sabia que o medo e o pavor tinham de fato um rosto.

O Civic estava quase atingindo a casa dos 150 quando escutei ela implorar pela própria vida. Não foi um pedido que consegui entender de imediato ; as palavras saíram cuspidas, melosas, quase como escutar uma menininha pedir para o pai que encontrasse o seu bichinho de pelúcia perdido. Aquilo me fez gritar. Acho que minhas cordas vocais quase se enrolaram umas nas outras.

Ela ainda tentou implorar uma outra vez ( devo admitir que a persistência daquela maldita era mesmo das grandes ) mas então já estava um pouco tarde. A figueira que ficava um pouco antes da curva em S começou a crescer assustadoramente no nosso campo de visão. O pôr do sol ofuscava no retrovisor e não havia nada entre ele e o Civic. Tampouco entre a parte frontal do meu veículo e o tronco robusto da figueira.

Eu ainda pude ouvir os pneus derraparem. Aquele som era tão alto e feroz que achei que o carro estava gritando. Agnes — esta sim berrando pra valer — levou as mãos até o rosto em uma inútil tentativa de evitar o que iria acontecer em menos de cinco segundos. Como o instinto humano nos faz cometer atos idiotas até mesmo na hora da morte.

Olhei rapidamente para a frente e a árvore já estava diante de nós. Virei a cabeça na direção de Agnes ( era ela quem eu queria ver, era o seu rosto maldito de pavor quem eu queria levar para o túmulo comigo ) e só o que tive tempo de enxergar foram os braços dela esticados para frente. O grito que ela emitiu por último foi uma coisa medonha. Depois tudo se apagou.

As trevas estavam surgindo no horizonte, assim como faziam as tempestades.



Eu passei quase cinco meses internado no Hospital Memorial, com metade do corpo quebrado e algumas vozes que eu imaginava serem de médicos e enfermeiros cochichando ao redor da minha cama. Eu sentia tanta dor que queria simplesmente puxar a cordinha do ônibus e descer. E mesmo em meio a um turbilhão de remédios e rotinas de exames, eu só conseguia pensar em uma coisa : será que aquela PUTA tinha sobrevivido?

Estaria ela no quarto ao lado, sem uma perna e com o rosto desfigurado, mas ainda assim respirando? Ou pior : apenas com uma fratura em um dos braços e tão lúcida que já havia contado aos policiais o que o seu marido alucinado havia feito.

Naquela altura eles já deveriam estar sabendo. Um deles ( talvez o delegado, um sujeito de meia idade e ficando calvo ) estaria anotando toda a declaração dela em seu bloquinho de notas. Mais tarde ele daria uma ordem para um de seus homens ficar de plantão diante da porta do meu quarto. Seria mesmo possível ela ter sobrevivido? Bem, ela estava usando o cinto de segurança... mas a velocidade do Civic era de outro mundo. E eu mirei bem no centro da árvore. Já havia escutado alguns casos de pessoas que sobreviveram a batidas semelhantes.

O que as pessoas costumam chamar de " milagres " e os médicos de " uma estatística pequena ". Fosse como fosse, eu esperava com as únicas forças que me restavam que Agnes tivesse morrido. Isso ou vegetando num quarto qualquer, esperando um doutor entrar no leito segurando uma prancheta e dizendo que já era hora de desligar os aparelhos pois a morte cerebral havia sido constatada. Eu tive de esperar mais alguns dias para ouvir da boca de um médico chamado Ruben que Agnes Pilar, esposa e até então com seus quarenta e dois anos, havia morrido no local do acidente. Confesso que quase deixei um sorriso escapar. Mas me mantive firme, com a cabeça apoiada em três travesseiros.

— Como deve imaginar, o enterro já ocorreu — dizia a voz do doutor Ruben em algum lugar do escuro. — Ela foi sepultada no Cemitério da Paz. Eu sinto muito ter que lhe dar essa notícia, mas precisava ser feita.

— Eu entendo. Mas, doutor, quando acha que vou receber alta? E, por Deus, quando vão retirar estes tampões dos meus olhos?

Então houve um pequeno instante de silêncio. Não sei ao certo quanto, mas deve ter durado cerca de quinze ou vinte segundos. No escuro, me pareceu quase eterno.

— Eu preciso lhe revelar algumas coisas, senhor Silas — começou finalmente a falar o doutor, de algum lugar a minha frente, ou ao meu lado, não dava para ter uma boa perspectiva daquele breu.

A única coisa que podia distinguir era a precaução. Aquela coisinha que vem acompanhada de um tom de voz delicado, baixo, feita para não afugentar um pobre sujeito qualquer. A mesma precaução que você observa na voz de uma bela mulher que não quer nada com você e não sabe bem como dizer aquilo sem magoar os seus sentimentos.

O doutor Ruben utilizou da mesma artimanha para contar que eu havia perdido a visão.




Eu preferia a morte.

Foi porisso que joguei o Civic contra a figueira. Era para Agnes ter o que merecia por querer terminar com o nosso casamento de vinte anos e eu ir junto na bagagem. Pode me julgar como quiser, não vou culpá-lo por essa merda. As pessoas fazem loucuras todos os dias e no fim das contas dizem que tudo foi motivado pelo amor. Bem, não posso dizer que estão todos certos pois não sou o colchão de ninguém, mas, porra, eu sei que EU estava certo quando preferi morrer com o amor da minha vida. Era isto ou vê-la partir com outro sujeito, talvez mais jovem ( muito provavelmente que ele fosse mais jovem, Agnes arrastava uma asa para garotos universitários ) mas a ideia era ter partido juntos. Foi isso que quis fazer naquela tarde. Dar uma prova final de amor para ver se ela tirava da cabeça aquela ideia de separação. E até na morte ela bancou a egoísta. Se foi e me deixou aqui, sozinho, sem poder enxergar meu próprio pau na hora de mijar.

A minha casa fica afastada praticamente de tudo, ou, como Agnes costumava dizer, " nossa casa fica no cú do mundo, Silas ".

Um sujeitinho chamado Henrique sei lá o que é o responsável por me trazer os alimentos sempre que telefono para ele ; Minha velha irmã Beth mora do outro lado do estado e até cogitou se mudar para ficar comigo por uns tempos... mas cortei o barato dela logo depois. Não quero ninguém fazendo nada por mim. Eu sou homem e sei me virar sozinho. A única coisa que ela fez por mim foi ajustar as teclas do telefone para que pudesse ligar para o tal Henrique sei lá o que. Ela pôs umas fitas sobre cada tecla e eu só preciso sentir com as pontas dos dedos. Beth me liga de duas a três vezes por dia para saber como as coisas estão indo e eu respondo que estão como deveriam estar ; escuras.

As vezes eu ligo a TV e escuto as besteiras que aqueles programas de fofoca gostam de explorar. Que algum cantor famoso foi pego no flagra com o pau na xoxota de alguém ou que a famosa X agora está turbinada com peitos tão falsos quanto o seu caráter. Daí eu simplesmente apago tudo e escuto os pássaros lá fora. Depois preparo algo para comer ( essas maravilhas que podemos fazer no micro-ondas são mesmo uma mão na roda ) e então permaneço em silêncio. No escuro. Sempre no escuro. E então vejo o rosto de Agnes, coberto de pavor, a morte chegando bem pertinho, tão pertinho quanto aquela velha figueira estava naquela tarde de outono. E isso tudo me faz tão bem que chego a sorrir.




Eu estava sentado na varanda, me embalando devagar na velha cadeira de balanço, sentindo os raios de sol acariciar o meu rosto enquanto a brisa constante que soprava do lago cristal me fazia quase cochilar, quando eu os vi.

Os dois. Por um momento pensei que minha visão estivesse finalmente voltando aos poucos ( há uma pequena possibilidade, mas não se atenha muito à ela, disse o doutor Ruben ) mas então percebi que a única coisa que meus olhos de fato podiam enxergar eram os sapatos vermelhos de Agnes. Os mesmos que ela adorava usar — e eu detestava que ela os usasse.

Ela os comprou em uma liquidação uns anos atrás, numa viagem que fizemos para o nordeste. Eram bonitos quando vistos de longe... mas de perto à fazia parecer uma prostituta barata. Ela os estava usando no dia em que joguei o Civic na árvore.

E naquela tarde eles estavam caminhando pelo jardim. Sozinhos. Um de cada vez, passo após passo. Meus olhos cegos acompanhavam tudo aquilo sem acreditar. Parei de me embalar na cadeira. Virei a cabeça para a esquerda, depois para a direita, apontei para o alto e depois para baixo ; nada. Tão escuro quanto o fundo de um poço.

Mas as porcarias dos sapatos eu via. Caminhando sozinhos, devagar, com elegância. Uma elegância que apenas...

— Uma dama teria. — disse, olhando eles subirem os degraus da varanda. Cada passo dado ecoava no soalho.

Eles cruzaram pela minha frente ( bem diante da porra dos meus olhos inúteis! ) E adentraram para dentro da casa, onde, ainda sentado na cadeira de balanço, pude escutar eles ecoando assim como ecoavam quando Agnes os estava usando.



Procurei por eles cerca de vinte minutos depois ( tempo que levei para me recuperar do que havia acabado de presenciar ) e os encontrei dentro da calçadeira.

Estavam um ao lado do outro. Haviam machas de terra em ambos, algo que não havia notado quando passaram por mim pela varanda. Provavelmente porque não estava acreditando em nada daquilo. O cérebro dos cegos costuma pregar esse tipo de peça ; é uma forma dele ludibriar a sua falta de visão. Não é fascinante?

Então me ocorreu ir até o guarda-roupas e abrir as duas portas da esquerda, onde Agnes costumava guardar as suas peças que foram compradas durante anos com o meu dinheiro de vendedor de seguros.

Da calçadeira até o guarda-roupas, eram seis passos curtos. Eu sabia disso pois andava começando a contar os passos sempre que podia. Era uma forma de me localizar com mais facilidade, e também uma completa falta do que fazer.

Seis passos depois, cheguei diante das duas portas esquerdas do guarda-roupas. Usei o tato para me orientar e escutei um canário assobiar pela janela. O putinho até que me assustou.

E foi um susto pequeno comparado com o que vi assim que abri as portas do guarda-roupas.

Pelo que pude observar, cada peça de roupa que pedi para minha irmã Beth enfiar num saco preto e levar embora dali, estava delicadamente exposta em seus cabides. E em nada me surpreendeu quando vi que o vestido azul que Agnes estava usando no dia em que os paramédicos recolheram os pedaços de seu crânio do painel do Civic, estava exatamente onde sempre esteve.

Fechei as portas com um único empurrão e retornei para a varanda. Eram vinte e dois passos até lá.



Durante alguns dias, observei os sapatos de Agnes perambular pela casa tão devagar como alguém que estivesse aprendendo a andar. Cada passo provocava um eco que faziam os meus braços se arrepiarem.

Vez que outra eles passavam por mim e pareciam diminuir... como se ( misericórdia! ) Estivessem me enxergando também. Eu quis chutar um deles dias atrás, mas um pavor horrendo segurou a minha perna com unhas e dentes. Eu havia escutado o vento aumentar lá fora, chacoalhar a calha que nem tive tempo de consertar, e imediatamente supus que iria chover. O que não era de todo ruim. A chuva abafaria os ecos das pisadas, mesmo que ainda assim eu conseguisse vê-los. Por alguma razão, ouvi-los era assustadoramente pior.

Estava me encaminhando para o meu quarto ( vinte e oito passos se começar a contar a partir da geladeira ) quando o telefone tocou e quase me fez cair. Pude sentir o coração bater na garganta. Mudei a minha rota e fui até a sala de estar. Até ali eram apenas treze passos.

Sabia que seria Beth. Assim como sabia que deveriam ser quase quatro da tarde, horário que ela costumava ligar. Peguei no telefone e o levei até a orelha.

— Poxa, finalmente atendeu — disse Beth, parecendo impaciente.

— Caso não se lembre, agora eu não consigo correr porai, Beth.

— Eu sei, me desculpe. Como é que você está? Aquele menino tem levado as compras pra você?

Respondi que sim para as duas perguntas. Apertei o nariz próximo a região dos olhos, utilizando o indicador e o dedão, então perguntei :

— Você levou todas as roupas da Agnes, não levou?

— Levei. Doei para uma instituição aqui perto. O pessoal ficou bem feliz por lá, Silas. Mas por que, ficou mais alguma coisinha porai? Digo, que tenha percebido, é claro.

— Não... — respondi, quase sem voz. Acho que nem havia conseguido escutar o que minha irmã havia perguntado. Eu apenas não conseguia tirar os olhos do corpo de Agnes que passava pela minha frente, arrastando os pés e com apenas metade da cabeça.




Ela andava pela casa dia e noite. Os pés arrastando no soalho, provocando um ruído sinistro. A cabeça dela ( ou o que havia sobrado da cabeça ) pendia para o lado com o maxilar pendurado. Era como se lançasse um sorriso torto para mim toda vez que me encarava.

Havia tufos do cabelo loiro dela grudados no pedaço intacto da testa. E quando o único olho inteiro apontava para mim, ele parecia piscar. Era como se perguntasse : vamos dar uma volta, garotão? Talvez de carro?

Fechar os olhos não muda em nada. Eu escuto os passos, tanto os dela quanto os provocados pelos sapatos. Eu fico mergulhado no escuro o tempo inteiro, ouvindo a vida prosseguir e de vez em quando a morte aparece para dar um oi.

É como se Deus fizesse aquela brincadeira do " advinha quem é?" Comigo. Ele mantém as suas mãos sagradas sobre os meus olhos e de vez em quando, às retira. Então eu consigo ver. Mas apenas aquilo que odeio. Aquilo que está morto!

É irônico que em vida eu só possa enxergar a morte, mas isso é tudo. Ontem eu estava em minha poltrona, quando Agnes ( ou o que quer que seja aquela figura desmembrada ) cruzou pelo corredor tão devagar quanto uma valsa. Ela andava como se estivesse sem rumo, os braços soltos como se feitos de pano. A aliança caiu de seu dedo e provocou um tilintar suave. Ela nem percebeu. Eu quase levantei para que pudesse devolvê-la.




Não sei quantos dias se passaram desde que Agnes voltou para casa. Não tenho prestado muita atenção nas coisas ultimamente — exceto naquilo que meus olhos conseguem ver.

As vezes acho que o mundo que de fato existe é este que apenas eu enxergo. Uma coisa podre, imunda, vinda das profundezas. Virado do avesso, assim como fica uma meia recém tirada do pé. Eu até cogitei estar ficando maluco ; o que algum psicólogo sentado atrás de uma mesa poderia chamar de remorso. Mas não sei se é bem isto. Eu não me arrependo de ter jogado o carro na árvore. Adorei a coisa como aconteceu, embora eu não tenha morrido como era o plano original.

A polícia também não desconfiou de nada. Ou se desconfiou, não conseguiram descobrir nada de concreto. Não havia nada de teor alcoólico em meus exames e eu disse para um policial qualquer que havia me perdido na curva naquela ocasião. Até chorei contando isso pra ele. Quanto a velocidade ( estava em 130, no final das contas ) contei alguma coisa por estar atrasado e porisso exagerei um pouquinho em uma avenida em que o máximo permitido era oitenta. Cheguei a ser processado, mas as coisas por aqui se arrastam mais que os pés mortos de Agnes quando vagam pela casa. Acho que ainda terei de comparecer na delegacia algum dia, mas não vou fazer isso. Tenho outros planos. O telefone tocou inúmeras vezes desde ontem e não atendi nenhuma das ligações.

Beth deve estar que é só nervos. Sei que ela está vindo pra cá, mas não vai me encontrar. Não com vida, pelo menos.

Os sapatos de Agnes caminharam sem parar pela casa hoje de manhã. Ecoaram como nunca. A própria Agnes deve estar vagando em alguma parte da casa, sempre fugindo daquela figueira e sem imaginar que sua cabeça está partida em duas.

Eu vou caminhar até a beirada da estrada logo mais. Assim que ouvir o motor de algum automóvel, vou apenas...

Bem, fazer o que já tentei fazer antes. Eu não suporto mais viver desse jeito. Hoje cedo Agnes tentou me dizer alguma coisa mas eu não consegui entender.

O maxilar dela caiu no chão antes que pudesse terminar.

Aug. 6, 2019, 4:09 a.m. 1 Report Embed 2
The End

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Tiago Mariano Tiago Mariano
A Agnes morta me lembrou um pouco o Grunt do Amnesia: andar arrastado, maxilar caído.
1 day ago
~

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