G'runrig Follow story

paolaconsigliere

Em um floresta obscura e misteriosa, um monstro vive aterrorizando os moradores que ali perto vivem. Dois caçadores se aventuram na busca de tal criatura que ninguém nunca viu para, enfim, trazer paz.


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#dark #luta #universo-alternativo #fantasia #floresta #mistério #monstro #ação
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G'runrig

Os raios do sol, agora baixo, brilhavam através da pequena brecha entre rochas. Duas rochas imensas, cobertas de musgo, apoiavam-se uma na outra, fechando a passagem do cânion. Os paredões de rocha ao redor também impossibilitavam a passagem de luz ali embaixo e, mesmo faltando muito para o sol se pôr, uma penumbra a impedia de enxergar com clareza.

Escondera-se entre duas rochas soltas no canto mais escuro do beco. Lá em cima, podia ver as imponentes árvores da floresta alcançando alturas espetaculares, com copas carregadas de galhos e folhas tão verdes e novas quanto se podia naquela época do ano em Tavar, um pequeno vilarejo ao sul do reino de Stamkan.

Há cinco dias atrás ela e seu parceiro, Deros, chegaram na pequena vila procurando trabalho. Eram ambos mercenários, mas que faziam outros bicos como procurar pessoas ou objetos desaparecidos, coletar itens difíceis de serem encontrados e até caçar javalis para as pobres velhinhas que não tinham a ninguém. Aquela missão tinha começado com uma caça, mas não percebera, até agora, de que eles eram a presa.

-Será fácil, Hallie. – Deros dissera quando descansavam em seu pequeno quarto temporário, aos fundos da única e principal taverna, que mais parecia uma tenda com sua paredes de barro e teto de palha, com cheiro de algo podre e bolorento. – Provavelmente é algum lobo ou urso, os habitantes de pequenos vilarejos como esse são sempre muito supersticiosos e gostam de acreditar em espíritos da floresta como esse, ou também deuses de lagos, monstros que comem crianças, mas nada mais são do que animais selvagens tentando sobreviver.

No dia seguinte àquele, houvera um novo ataque na floresta, Floresta Banida, era como a chamavam. Um homem havia sido encontrado morto a uns dois quilômetros do vilarejo, seu abdômen fora aberto, o intestino pendia para fora, e seus olhos eram duas grandes órbitas negras e ocas. Seus braços tinham sido presos nas árvores próximas com correntes enferrujadas e cobertas de terra e musgo.

-Lobos e ursos não manejam correntes. – dissera a Deros na ocasião. Talvez fosse um selvagem tomado pela loucura daquele lugar, talvez fosse algum exilado procurando vingança, não sabia.

Deros apenas a encarara com seus olhos verdes selvagens, a dúvida visível em seu olhar. Ou terá sido medo? Deros era da raça dos romiin, originários do continente de Tahrokor banhado pelas águas glaciais. Um povo de pele e cabelos muito claros e muito resistentes ao frio, ele sempre sofria quando chegavam a regiões quentes e tropicais como aquela.

Ela, por outro lado, era nativa de Stamkan, da grande cidade de Bair, a oeste, às margens do Mar Profundo, uma das cidades portuárias mais ricas do reino, rica em diversidade, rica em ouro, rica em produtos e rica em pobreza. Hallie crescera nos becos daquela cidade, órfão e, na maioria das vezes, solitária. Não existem amigos de rua, existem aqueles que estão tão fodidos quanto você, e vão virar-lhe as costas na primeira oportunidade que tiverem de saírem vitoriosos.

Agora aqueles becos lhe pareciam saídos de um sonho, tão distante estavam. Mas as técnicas de sobrevivência ainda a mantinham vivo ali, esconder-se, manter-se invisível e sempre atenta. Não sabia onde Deros estava, talvez estivesse morto, tinham se separado logo após o ataque da criatura.

Sua espada e seu arco ainda estavam presos a suas costas e na mão levava uma faca de caça, mas acreditava que não era o suficiente para acabar com a criatura. G’runrig foi como os moradores da vila a chamaram, significava “Espírito da Floresta” na língua sulista.

Uma lenda, pensou. Era apenas uma lenda.

Não podia ficar ali escondida o dia todo, teria de sair para se alimentar, sentia-se fraca já e provavelmente sua ferida na perna esquerda estaria matando-a de dor se não fosse a adrenalina que corria por seu corpo, fazendo-a tremer da cabeça aos pés. O ar batia forte e gélido ali também, sentia seus dedos congelados envolta do cabo encouraçado da faca.

Um...dois...três!

Saiu de seu esconderijo cautelosamente, esforçando-se para não fazer barulho e olhando os arredores em busca de movimentos ou ruídos. O pequeno riacho que passava por ali podia encobrir os barulhos que seus pés faziam entre os pedregulhos. Pouco a pouco avançava pelo caminho que tinha vindo, a ventania fazia os galhos das árvores acima se remexerem e isso a sobressaltava.

Em determinado momento, um peixe pulou para fora da água ao seu lado arrancando-lhe um grito. Cobriu sua boca imediatamente e correu para se esconder na quina do paredão, esperando que ninguém estivesse vindo. Só depois de longos minutos que Hallie voltou a avançar novamente, depois de conferir que ninguém viria.

Chegou a uma pequena queda d’água onde, lembrou-se, deslizara sem hesitar pelas pedras escorregadias, abrindo uma ferida em sua perna com o descuido e a pressa. Fez o caminho contrário, dessa vez com mais cuidado, agarrando-se às pedras e impulsionando o corpo para cima.

A floresta estava silenciosa ali em cima. A ventania cessara e nem os animais se manifestavam. Subiu a margem do rio, adentrando na escuridão das árvores. O chão era úmido e fofo e o ambiente cheirava a decomposição. Andava determinada, escondendo-se atrás dos grossos troncos ou de raízes aéreas que chegavam a alcançar o seu tamanho, não que fosse muito alta. Parecia estar livre por ali.

Uma mão tocou o seu ombro e Hallie, em segundos, agarrou-a e dobrou-a nas costas do oponente, jogando-o no chão. Era Deros. Graças aos deuses, ele estava vivo.

-O que está fazendo? – gritou ela o máximo que podia sussurrando.

-Sendo cauteloso, como você. – disse ele também em voz baixa. – Pode me soltar, por favor?

Não percebeu que ainda o mantinha preso. Soltou-o. Seu rosto estava sujo de lama, assim como seus braços musculosos. Usava calças marrons e um colete de couro verde, duas bainhas com adagas eram presas por correias, uma em cada ombro, formando um “x” no meio de seu peito. Percebeu que uma delas estava em sua mão. Nas costas levava o seu machado.

-Não era um urso. – disse ela, zombeteira. Aquela conversa ainda a deixava brava.

-É, eu vi como você saiu correndo, desesperada. – ele sorriu.

Hallie deu-lhe um soco no braço, deixando sua mão suja de lama.

-E você provavelmente deve ter pulado em uma poça de lama pra se esconder, não é?

-Não tem como se esconder, Hallie. Se os boatos estão certos então aquela criatura é a floresta, faz parte dela. Ela sabe onde estamos e cada minutos que desperdiçamos ela se aproxima e planeja seu ataque.

-Se a matarmos, podemos destruir a floresta também? – essa não era sua intenção.

-Não, acredito que seja um Filho da Floresta, como dizem na minha terra. Criaturas que se mesclam às árvores e raízes, geralmente inofensivos, não sei o que aconteceu para esse estar tão irritado.

-Vamos matá-lo, então?

-É claro, do contrário, ele vai nos matar.

-E como faremos isso?

-Como se mata uma planta?

-Deixando sem água?

-Também, mas cortar o caule é o golpe mortal.

-Como vamos cortar o caule se nem raízes ele têm?

O som de um grito gutural os deixou em alerta e os passos de algo muito pesado se aproximava. Esconderam-se atrás de tronco e observaram a criatura passar, distraída. Ela tinha pernas e braços semelhantes aos dos humanos, mas revestidos por uma casca grossa de madeira, suas mãos eram felpudas e suas garras, enormes e mortais. Os olhos eram quase invisíveis pelas folhas que cobriam quase seu rosto todo, mas pequenas esferas vermelhas ainda se sobressaíam com toda aquela folhagem, no topo da cabeça, dois galhos se prolongavam para os lados, fazendo uma pequena e sutil curva nas pontas.

A criatura seguiu para oeste, sem notá-los. Hallie estava curiosa para saber se onde ela tinha vindo.

-Me siga. – disse para seu companheiro.

Seguiu para leste, confiante de que achariam a sua morada. Passaram por um imenso tronco caído no qual tiveram de escalar para atravessá-lo e desembocaram em uma pequena clareira coberta por ossos, ossos de animais e, notou, alguns humanos. Havia ossos antigos, novos, mas todos limpos, sem nenhum vestígio de carne em sua superfície.

-Pelo deuses. – resmungou Deros. O cheiro também não estava dos melhores.

Do outro lado uma folhagem alta cobria-lhes a visão do que estava por vir, mas o monstro partira para a direção oposta então não se importou de pisar nos ossos. Assim, que o primeiro osso se estilhaçou na sua pisada, uma cabeça galhada se levantou logo a frente, entre o mato alto. Havia dois deles.

Recuaram alguns passos, mas ele os ouviu e virou em sua direção, as fendas vermelhas de seus olhos brilhando surpresas. A criatura, por fim, se pôs de pé, os braços estendidos com as garras à mostra, em posição de ataque, e pulou na árvore mais próxima, agarrando-se em seu tronco.

Hallie pegou seu arco e mirou uma flecha no bicho que saltava de tronco em tronco em sua direção. A primeira flecha atingiu uma de suas pernas e fez a criatura gritar de dor, errou a segunda e a terceira foi impedida pelo impacto de seu salto quando pousou a sua frente.

Caiu de costas no chão. Deros se colocou a sua frente com seu machado em mãos e a fera pareceu recuar, temendo a arma. Medo que logo se transformou em ódio e a fez rugir antes de acertá-lo na cabeça com um de seus longos braços. Deros voou para longe, indo de encontro a uma árvore onde caiu inconsciente.

-Homens. – suspirou.

Levantou-se e correu para onde a fera saíra. Deros dissera para cortar o caule, mas a raiz servia ainda melhor e Hallie suspeitava de que algo ali os alimentava.

Pulou nas ossadas, rastejando-se até o outro lado quando percebeu que não conseguiria atravessar de pé. A criatura pulou em sua direção, agarrando o seu pé e a arrastando para trás. Hallie se virou para ficar de cara com o bicho e deu-lhe um chute no rosto – ou o que achava ser um rosto – e folhas caíram quando o fez, um gemido – gemido? – escapou de sua boca coberta de presas e Hallie quase pensou que houvesse uma consciência ali dentro, algo além da maldade e do instinto matador. Um segundo chute fez o bicho soltar sua perna e possibilitou-a de engatinhar o resto do caminho até a folhagens.

No entanto, quando abriu caminho pelas plantas, viu algo ainda mais bizarro. Brotos. Ou o que pareciam ser, pequenas criaturinhas verdes que dormiam em buracos na terra, com galhos minúsculos nas cabecinhas e sem nenhuma folha cobrindo seus rostos retorcidos com apenas olhos e uma buraco onde devia ser a boca.

Não sei o que aconteceu para esse estar tão irritado.

Eram os pais deles, percebeu. Protegiam seus filhotes, por isso as agressões. Aquilo mudava tudo.

Uma mão cheia de garras cravou-se em seu pescoço, puxando-a para longe do ninho. Foi jogada em meio à pilha de ossos, a criatura se estendendo por cima dela, muito irritada.

-Espere! – gritou, não sabia se a fera a entenderia, mas sabia que era inteligente. – Não vamos machucá-los!

A fera parou o golpe mortal que preparava para olhá-la mais atentamente.

-Não...vamos...machucá-los. – repetiu, dessa vez fazendo gestos com as mãos, sabia que aquilo não serviria de nada, porém era a única forma que conhecia de se fazer entender.

E ela parecia ter entendido, não fazia menção de que atacaria. Abaixou seus braços e cobriu suas presas, apenas olhando-a com curiosidade. Porém, sua postura mudou rapidamente e voltou a mostrar os dentes, rugindo com algo atrás de si e no segundo seguinte um machado atingiu seu torso. A fera cambaleou para trás.

-Não, Deros! – gritou com ódio.

A criatura arrancou a arma de seu corpo e sangue, na verdade, seiva jorrou do ferimento. Antes que pudesse sentir pena dela, Deros agarrou seu braço e a arrastou para fora da pilha. Correram para longe enquanto a fera ainda estava atônita com a ferida.

-Você a matou! – gritou acusativa, as lágrimas escorrendo por seu rosto. – Você a matou!

-Não, Hallie. Eu disse que precisava cortar o caule pra matar, eu só fiz um furo. Ela vai viver. Agora o meu machado, sim, se perdeu para sempre, de nada!

Pararam apenas quando seus membros não aguentavam mais se mover e seus pulmões pareciam explodir.

-Vamos... – ela respirou. -...Voltar ao rio.... E lá... Achamos o caminho de volta.

Deros assentiu, estava agachado, os braços descansando nas coxas e a cabeça pendendo para trás se cansaço.

-Vamos. – disse ele, por fim. Determinado. Determinação que logo se transformou em medo no seu olhar.

Hallie olhou na mesma direção, no topo da árvore. A adrenalina voltou a pulsar em suas veias. Tirou o arco de suas costas e encaixou uma flecha na corda.

-Me dê sua espada, Hallie, vou precisar aparar alguns galhos.

Um grupo de pelo menos dez g’runrigs pendurava-se nos galhos das copas das árvores. Alguns desciam pelo tronco e todos os olhos se voltavam para eles.

Aug. 4, 2019, 11:10 p.m. 0 Report Embed 1
The End

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