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eddy767 Eddy767

Aquele sentimento que foi roubado pela obrigação e imposto pela necessidade. Se livrar do pacote que chega aos dezoito anos, quando você finalmente tem que esquecer dá descontração e abdicar da sua essência para se transformar numa outra pessoa. Pensar na infância sempre era penoso, voltar ao passado, voltar ao inicio.


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Rotina

O despertador do celular tocava incessantemente. Marcos olhou pela janela e visualizou, no horizonte, o raiar do sol. Um sentimento melancólico tomava conta do seu coração. Era o mesmo sentimento que surgia todas as manhãs dos dias úteis; a confirmação do inicio da rotina que se destacava brilhando no céu. Pegou o celular, desligou o despertador e checo as mensagens.

Sempre as mesmas mensagens, sempre o mesmo conteúdo.

Apenas futilidade nas mídias sociais, nada de aproveitável poderia tirar daquilo. Ferramentas inúteis, que passavam a ilusão que todas as pessoas eram aceitas. A maioria dos seus amigos vivia essa ilusão diariamente. Ele repudiava veementemente todo aquilo lixo digital. Por ele, não teria nem celular, mas infelizmente a vida exigia a conexão; nos tempos modernos ficou impossível viver desconectado. A cada dia um novo app sai em circulação, a cada dia uma nova corrente era-lhe imposta. A vida dos conectados se assemelhe a vida dos zumbis, alimentados por informações fúteis, assim como os zumbis por carne humana; sem aquela necessidade fisiológica eram esquecidos ao ermo. Claro que há exceções, ferramentas que realmente ajudam no progresso do ser humano. Eu não seria hipócrita em colocar tudo no mesmo conjunto.

A grande verdade é que nenhum desses avanços tecnológicos tem culpa da mesquinhez do ser humano. Isso era o que mais o incomodava. Ter a certeza que todo ser humano tinha uma tendência a imperfeição, e que nada naquele globo, se tratando de sentimento coletivo, poderia geral algo de bom. Quanto mais próximas as pessoas, mais desafeto criavam entre si.

Por isso, optou por viver no mundo dos solitários, longe de qualquer compromisso superficial que a sociedade lhe impunha. Estava cansado de seguir o enxame, queria respirar o ar fora da colmeia. Poder sentir de novo a sensação que sentia quando era criança, quando realmente estava vivo. Aquele sentimento que foi roubado pela obrigação e imposto pela necessidade. Se livrar do pacote que chega aos dezoito anos, quando você finalmente tem que esquecer dá descontração e abdicar da sua essência para se transformar numa outra pessoa. Pensar na infância sempre era penoso, voltar ao passado, voltar ao inicio.


De súbito, se lembrou que estava começando a se atrasar para o trabalho. Correu para o banheiro e ligou a ducha no gelado. O choque térmico de início liberou uma sensação de dor temporária. O feito após o impacto foi animador. Começar o dia saindo da sua zona de conforto era o inicio de tudo. Vestiu o terno e os sapatos, e foi para cozinha. Colocou os dois ovos para fritar, acompanhados de um suco misto de frutas cítricas que preparava simultaneamente no liquidificador. Na garagem, entre o carro e a bicicleta, escolheu a bicicleta. Não seria fácil chegar até o trabalho, mas valeria apena quebrar um pouco daquela rotina massiva, que o trânsito lhe proporcionava. No caminho para o trabalho, parou na ponte e contemplou as quedas da água. A natureza em toda a sua imponência. Ficava difícil pensar na obrigação, diante do esplendor. Mas, tinha que continuar uma empresa daquele porte não parava por nada. Sua função nem era tão essencial e, mesmo odiando toda aquela realidade; as contas do mês exigiam neutralidade, pensar apenas no sentimento não o levaria a lugar algum.

Ao chegar, no trabalho, tranco a bicicleta e percebeu que era o único no bicicletário, a vista se perdia com tantos carros.

O porteiro com aquele habitual sorriso forçado, de quem não queria estar naquela posição, deu bom dia.

O bom dia, nas manhãs de trabalho, sempre soava falso. Isso é um fato, mas nunca comentado. As pessoas aprendem camuflar o seu sentimento, e preferem seguir no automático. A vida era demasiada penosa para desejar um bom dia de todo coração. Ele entendia perfeitamente, mesmo assim, sorria e expressava falsamente o seu bom dia. Na sala, que dividia com mais cinco funcionários, a atmosfera era igualmente tenebrosa. No momento em que iniciou o trabalho, contava as horas para a saída. A cada pausa para o café, a sensação de liberdade voltava. Foi para o banheiro sentou no vazo, ligou o celular e continuo a procrastinar. Vinte minutos era o suficiente para não ser notado, o tempo necessário para jogar uma partida de MOBA.

No horário de almoço fugiu para o lago do parque, estendeu a manta, e comeu junto dos pombos que o cercava. O sol no inicio de tarde fria, era reconfortante; deitou, e colocou celular para despertar. Quinze minutos depois abria os olhos, cheio de preguiça. Pensou na papelada que teria que revisar, e desejou estar doente, para não ter que voltar ao trabalho. Mas a obrigação exigia o compromisso. Pegou a bicicleta e foi embora.

O parque, pouco habitado, era seu recanto preferido. Foi naquele lugar que viveu boa parte da sua infância. Conhecia todos os segredos escondidos dos olhos das pessoas que não tinham familiaridade com o local. Subia em todas as arvores e comia de todos os frutos, sempre acompanhado de pelo menos um amigo. A volta da escola já era motivo para passear pelo parque, nadar no lago ou atacar os frutos que amadureciam nas pontas das arvores. Todas as tarde, jogava futebol e brincava de outras brincadeiras que só a geografia do parque proporcionava. Era o paraíso das crianças que moravam no bairro. Tanto de dia como de noite, o parque sempre foi ponto de encontro da juventude e todas as gerações que passaram pela cidade. A comunicação face a face, tão difícil nos dias de hoje, tinha o um significado maior naquele ambiente; sempre descobrindo e redescobrindo personalidades. O individualismo do ser humano também era preservado.

Mas, nos últimos cinco anos a tradição foi quebrada, iniciando um processo de desligamento histórico e sentimental do parque. O acesso descontrolado da informação digital prejudicava o que ele mais apreciava; o contato sutil do ser humano com a natureza.


Enquanto saia pela entrada que dava acesso ao lago, teve uma experiência transcendental.




Aug. 4, 2019, 2:25 p.m. 0 Report Embed 0
To be continued...

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