VOCÊ PEDE e ELE FAZ Follow story

dissecando Edison Oliveira

" você precisa acreditar ”... esta é uma frase muito utilizada nesse conto e ela faz todo o sentido. Quando você descobre que escrever em um vidro empoeirado de um carro abandonado é algo surpreendente, você só precisa acreditar, e descobrir que tudo tem um preço muito alto.


Horror Monster literature Not for children under 13.
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VOCÊ PEDE e ELE FAZ

Uma vez o meu pai me disse, enquanto estávamos sentados na varanda, eu com um copo de suco de laranja e ele com uma latinha de cerveja, sem camisa e suando por demais, que a gente sempre deveria acreditar.

Na época eu não fazia idéia sobre o que o senhor Fernando Peixoto estava se referindo — suponho que aos dez anos de idade a gente não sabe absolutamente nada — mas estava perto de descobrir. Nós tínhamos uma vida boa em Minerva, uma cidade que baseava o seu capital na venda de couros e distribuição de tabaco, mas meu pai não estava satisfeito. Ele era soldador numa empresa que produzia aço, ganhava um salário que dava para pagar as contas — não todas, as vezes o senhor da cantina ficava a ver navios, mas deixava para lá e dizia que estava tudo bem — e aquilo era uma coisa que estava corroendo meu pai como seu sangue fosse feito de ácido.

Minha mãe, Beatriz — ou Bia, se você fosse chegado da família — lavava as roupas dos granfinos da cidade e recebia uma boa gorjeta, além de cantadas hilárias e nada bem sucedidas daqueles velhos de terno e charuto no canto da boca. Ela e meu pai costumavam ter longas conversas na cozinha no meio da noite, sempre deixando a TV com o volume um pouco mais alto para evitar que eu escutasse algo indevido.

Como devem saber, não adiantou muita coisa. Ou arrumamos mais dinheiro, ou estamos lascados, sussurrava ela. E meu pai respondia, por entre os dentes, que iria dar um jeito.

Ele de certa forma cumpriu esta promessa. Quase dois meses depois de quase esbofetear a minha mãe próximo ao fogão a lenha, ele chegou em casa com um sorriso esquisito no rosto, uma sacola plástica com alimento na mão esquerda e o casaco sujo de graxa na direita. Eu corri até ele para abraçá-lo, e ele se abaixou colocando a sacola de compras sobre a mesa antes disso.

— Calma, ou vai derrubar o velho aqui — Ele disse, me beijando a testa e afagando o meu cabelo.

Eu sorri, percorri os olhos e vi o rosto sério de minha mãe. Eu conhecia aquele olhar e o meu pai muito mais. Tinha certeza que logo eu seria mandado para o quarto, a TV seria ligada com o volume um pouco acima do normal e talvez escutasse um estalo provocado por um tabefe. Para minha surpresa, minha mãe apenas deu as costas e continuou picando a alface na tábua com a faca.

— Que há, Bia?

Minha mãe não disse nada. Apenas o som oco da faca na madeira. Eu estava sentado à mesa roendo um pedaço de queijo. Já observava que o sorriso que meu pai tinha no rosto desaparecera.

— Mas o que há com você?! — Ele insistiu. Cruzou os braços e se escorou na geladeira. Gostei de ver aqueles braços assim, e não saculejando pelo ar e encontrando o rosto de minha mãe no caminho.

— Nando, onde arrumou dinheiro para comprar essa comida? — Ela fez esta pergunta sem ao menos se virar. Não era necessário olhar para o rosto de meu pai para saber se estava mentindo. O tom de sua voz era um grande dedo duro.

— Fiz uma hora extra no trabalho. — Ele disse.

Minha mãe parou de picar a alface. Sua cabeça virou por cima do ombro e sua sobrancelha estava arqueada.

— Marcos, suba para seu quarto — Ela pediu. E aquilo não era algo a ser negociado de maneira nenhuma.

Coloquei os chinelos nos pés, afastei a cadeira e andei a passos largos, roendo o queijo e não olhando para trás. Ainda tive tempo de ver o meu pai piscar o olho para mim.

— Que merda anda fazendo?! — E foi só o que consegui escutar antes de fechar a porta do quarto.

Esta conversa durou três horas e quatorze minutos — sim, parece um exagero, mas acredite, eu contei enquanto olhava para o relógio preso na parede — e tudo que deu para ouvir foram gritos e, de vez em quando, alguma panela caindo ao chão.

Não sei se meu pai ergueu sua mão pesada para ela naquela noite — suponho que não, ele pode ter sido um sujeito ruim, mas bater em mulheres não era de sua personalidade — mas creio que sentiu uma vontade danada de marcar a bochecha dela com os dedos.

A coisa só tomou um rumo inesperado após ele anunciar, após o jantar numa reunião no sofá da sala, que nós teríamos de mudar de casa. Nesta época meu pai já havia deixado o emprego de soldador para trás — assim como suas roupas engraxadas, seu cheiro de óleo e seu bafo de gim — fazendo com que minha mãe aumentasse a dose de seus comprimidos para dor de cabeça.

— Mudar? Nando, isso é loucura!

— Loucura será continuar aqui, — e então ele fez a expressão mais assustadora que já vi em seu rosto. Era uma mistura de medo e orgulho. — Temos que dar no pé, Bia. Acredite em mim.



Minha mãe, obviamente, não acreditou. Mas nos mudamos mesmo assim, uma semana depois, deixando roupas e o fogão a lenha para trás. Ele nos colocou as pressas dentro da camionete, jogou uma maleta preta no colo de minha mãe e antes dela perguntar o que tinha ali ele ligou aquele motor horroroso e só foi dizer alguma coisa quando chegamos em Filomena, um lugarzinho hostil, com pouca iluminação e campos de milho a perder de vista. Ali era onde viveu o meu avô por parte de pai, o senhor Arnoldo, um velho matuto que usava macacão jeans e cuspia tabaco, sempre deixando o queixo sujo.

— Por Deus, por que nos trouxe para cá? — meu pai não pareceu ouvir, desceu da camionete e minha mãe insistiu. — Nando, que droga está havendo?!

— Depois, Bia. Agora me ajude aqui, sim.

A ajuda era para descarregar umas caixas de papelão que estavam na parte de trás da velha camionete. Havia uma dúzia delas, todas lacradas com fita isolante e amontoadas umas sobre as outras. Minha mãe bufou, desceu para ajudá-lo e eu contemplei o céu alaranjado de fim de tarde, achando que aquilo tudo não era tão importante, que logo a idiotice que o meu pai tinha feito iria passar e as coisas voltariam ao normal. Mas, diabos, o que é que um menino de dez anos sabe da vida?



A primeira noite na nova casa passou longe de ser uma coisa boa.

Agora não havia televisão para encobrir aqueles gritos. Deu para ouvir cada palavra raivosa ser atirada na cara um do outro, mas por sorte — e juízo, se é que havia isso em uma discussão — não houveram tapas.

Minha mãe berrava que logo pela manhã entraria naquela camionete e iria para a casa da mãe dela — Minha avó, Joana, era muito divertida e assim foi até morrer no ano passado graças ao único rim que deu defeito — e meu pai berrava de volta que ela não iria a lugar nenhum até que tudo aquilo passasse.

— Mas a cagada foi sua, Nando!

— Eles não querem saber, Bia. Você e o Marcos estão correndo perigo também. Estas pessoas não tem limites!

Um silêncio apavorante tomou conta da casa toda — por um instante pensei que ele havia dado uma facada nela e que estava vindo devagar até o meu quarto, com a faca escondida nas costas e quando se abaixasse para me dar boa noite me cortaria o pescoço — mas então escutei a voz de minha mãe.

— Máfia, Nando?

— Porra, Bia! Não me julgue, certo? Eu só queria dar uma vida para nós. Aquela merda de emprego não dava nem para manter os armários cheios. E então eu chegava do trabalho, sujo e cansado. Você me olhava com nojo, da cabeça aos pés. Eu quase podia imaginar você conversando com a sua mãe e dizendo: olha, você estava certa. Aquele homem não era mesmo um bom partido. E não me venha dizer que estou errado em pensar assim, Bia. Dava para ver o desprezo em seus olhos.

— Você é ridículo!

— Não posso fazer nada para mudar sua opinião. Mas, esteja ciente dessa merda toda. Você e o Marcos não sairão daqui até a poeira baixar. Me prometa isso, Bia.

Minha mãe ficou em silêncio. Eu parei de tapar os ouvidos, fiquei com os olhos abertos no escuro e com a atenção no que estava acontecendo na sala ao lado.

— Prometa, porra!

— Você matou sua família. Lembre-se disso.

E esta foi a maneira que minha mãe encontrou de prometer alguma coisa para o meu pai.



De acordo com o que minha cabeça de dez anos de idade me permitiu entender, meu pai era um mafioso procurado — além de ser pela Polícia — por outros mafiosos da região de Minerva. Ele havia formado uma pequena quadrilha com outros quatros sujeitos ( todos do mesmo emprego da empresa de aço ) e passaram a praticar pequenos delitos pela cidade; coisas como assaltos a pequenas lojas de roupas, vendas de porções pequenas de maconha e até uma suspeita de assassinato havia sido agregada ao seu bando. Até que — creio que a idéia partiu da mente do meu pai, pois o sujeito tinha mesmo o dom da coisa — decidiram elaborar um pouco melhor os seus planos e os seus alvos. Aproveitaram que Minerva era o cargo chefe da distribuição de tabaco para outras regiões do país — e seus lucros eram demasiado excessivos para uma comunidade tão pequena — para criar o seu próprio meio de negócio. Na teoria a coisa era muito simples. Bastava que seu bando começasse a atacar os caminhões que transportavam tabaco pela rodovia, deixando que o motorista saísse com vida, nada de tiros ou vítimas desnecessárias.

Já na prática a coisa ficou demasiada difícil. Na primeira tentativa eles quase fizeram o caminhão capotar, o bando entrou em desespero e por muito pouco uma bala não foi disparada na testa daquele motorista. Com o passar dos meses, eles pegaram a prática do negócio.

Aquela era uma época onde essa espécie de assalto era quase que uma exclusividade de meu pai e seu bando, e se pudessem, teriam patenteado a categoria e lucrado uns bons trocados.

Só que em um mundo onde criminosos vagueiam pelas ruas aos montes, uma hora você esbarra num cano de espingarda muito maior e mais potente que o seu. E foi isso que aconteceu com o meu pai e nos obrigou a ir parar no meio do mato, quase sem grana e com o cheiro da morte evaporando do meio das árvores.

— Você precisa acreditar — Ele me disse. E nesta primeira vez eu não fazia idéia para onde a conversa iria ir. Acho que nem nas conversas seguintes consegui entender.

Os dez anos tinham culpa nisso, mas suspeito — hoje em dia mais ainda — que não dá para entender o que não tem explicação. Ouça, falar disso ainda hoje me assusta. Você não pode simplesmente se sentar em sua varanda, segurando uma lata de Schin e dizer para um menino que o mau tem maneiras obscuras de agir. Eu bebia um gole do meu suco de laranja, olhava para ele parado diante de mim, os olhos nervosos procurando ao redor e um suor exagerado escorrendo da testa.

— Eu não entendo.

Outro gole na cerveja. Uma passada do pulso na testa, depois uma olhada que tentava me passar tranquilidade mas só conseguiu me deixar ainda mais preocupado.

— Eu muito menos, filho.



Em nosso terceiro mês naquela fazenda cercada pelo mato, meu pai decidiu juntar minha mãe e eu no sofá da sala e contar o que ele havia descoberto no celeiro nos fundos do terreno.

— Vocês precisam acreditar, — Ele disse. Agora era minha mãe quem não estava entendendo aquilo que eu já estava ouvindo a uma semana. — Não me perguntem coisas estúpidas, apenas ouçam e acreditem.

— Desenbucha.

Ele desenbuchou. Disse que no celeiro havia — além de feno e pedaços de madeira velhos — um automóvel coberto pela poeira, com os pneus furados e os faróis quebrados. Estava em tão péssimo estado que era impossível saber o modelo, algo pouco provável vindo de um sujeito que entendia um pouco de mecânica. Ele acreditava que aquele veículo deveria estar ali a quase cinqüenta anos, pois lembrava-se de ver o pai fuçar nele quando ainda tinha a minha idade.

— E o que pretende? Concertá-lo para dar uma volta e ser morto pela máfia na cidade? — perguntou minha mãe e recebeu um olhar maldoso como resposta.

— Desculpe, filho, mas vou mandar sua mãe se foder.

Após fazer isso, ele continuou.

— No vidro traseiro daquela velharia tem tanta poeira que não se pode limpar. Não sei da onde ela vem, pois a mata detém qualquer sinal de pó. Enfim, certa noite, decidi fumar um cigarro e ir até o celeiro esfriar a cabeça e pensar em alguma coisa. Foi então que resolvi mexer naquela poeira. Usei o indicador direito para isso. Desenhei um pé de tomate nele. Na verdade, era apenas um galho com uma bolinha na ponta. Me lembrou um pé de tomate, por alguma razão. Isso é o que menos importa. O fato é que dois dias depois havia um pezinho desses nascendo naquela vasilha.

Ele apontou para um vaso de cerâmica branco, sujo de barro e com um galho verde com uma bolota alaranjada na ponta. Minha mãe e eu olhamos para aquilo, depois olhamos de volta para o meu pai.

— O que? Nando isso é...

— Bia — a mão dele estava espalmada no ar. — Eu pedi para que acreditassem no começo desta conversa. Então não me venha com essa merda agora!

— Mas já ouviu o que está falando? Sobre um dedo mágico ou coisa assim?

— Não é o dedo, é o carro! Ponha algo naquela poeira do vidro e ela acontece. Você pede, ele faz. Simples assim.

Minha mãe fechou os olhos e eu pensei que veria um bocado de absurdos saindo de sua boca e até cheguei a me encolher no canto do sofá. Confesso que também senti vontade de fazer algo do tipo. Achava que meu pai já estava um tanto velho para contar fábulas como aquela, mas deixei a situação caminhar sozinha.

— Não foi só com o tomate. — Nisso minha mãe abriu os olhos. Por alguma razão queria ouvir a próxima bizarrice que meu pai revelaria. — Ontem a noite eu escrevi UM MAÇO DE CIGARROS naquele vidro empoeirado. E hoje de manhã, havia um maço de Marlboro filtro vermelho na escada da varanda. Novinho em folha.

— Você trouxe uma centena deles naquelas caixas, Nando. Pode ter deixado algum cair.

Meu pai se levantou, determinado, nos pediu para acompanhá-lo até o celeiro e saiu andando sem olhar para trás. Minha mãe resistiu por um tempo, depois limpou as mãos no avental e me puxou pelo pulso. Confesso que nem precisava. Estava louco para ver o tal carro, a poeira cobrindo seu vidro mágico, as rodas murchas no chão de terra. A excitação quase me fazia sorrir.

Quando entramos no celeiro, meu pai estava parado ao lado de um monte de ferro sujo e enferrujado que ele chamava de automóvel. Dali, me pareceu um amontoado de aço recolhido de um incêndio. Os faróis estavam quebrados, o para-choque retorcido como um sorriso desengonçado. O vidro frontal já não existia. Haviam apenas pedaços pontiagudos que me lembraram dentes de um monstro faminto.

— Olhem aqui atrás. — Ele apontou o dedão para trás como num gesto de caroneiro.

Nós fomos até lá — minha mãe com a cara fechada e eu quase puxando a sua mão na ansiedade — e vimos uma janela intacta e coberta de poeira.

— O que querem que eu escreva? — ele perguntou. Parecia ansioso.

— Ah, Nando, por favor.

— Vamos lá... quero provar para vocês.

Minha mãe apenas olhava para aquela janela, tentando não mandar o meu pai para ir tomar naquele lugar, enquanto eu, honestamente, pensava em algo para ele escrever na poeira. Acho que ele percebeu isso e se abaixou, ficando da minha altura. Tentei sentir cheiro de cerveja mas não obtive sucesso.

— E você, filho. Quer pedir alguma coisa?

Eu ergui a cabeça para minha mãe — era um sinal claro de quem está pedindo permissão — e ela apenas deu de ombros. Ela não acreditava — ainda — em nada que meu pai havia nos dito, mas, era esquisito demais permitir que o filho pequeno entrasse num terreno desconhecido como aquele. Por fim, ela fez um movimento lento com a cabeça e me deu o sinal verde. Eu sorri e falei para o meu pai o que eu queria.



O sol, ainda que fraco, iluminava o meu quartinho bagunçado com seus raios penetrantes através da janela de cortina rasgada.

Não houve tempo para trazer nada da antiga casa. Por sorte conseguimos colocar algumas peças de roupa dentro de sacos que eram usados para o lixo. Acordei e esfreguei os olhos, bocejando e com a visão turva. Diante da minha cama estava uma bicicleta Caloi 10, os aros tinindo e os pneus tão negros quanto o céu num dia de tempestade.

Quase não conseguia acreditar. Esfreguei os olhos uma segunda vez, sentado e com as pernas dobradas na altura do rosto. Joguei o lençol do Mickey mouse para o lado e saltei diante da bicicleta. Passei a mão direita em seu quadro vermelho, senti o metal esfriar os meus dedos — era isso que queria sentir, como uma maneira mais sutil de pedir que alguém te belisque para saber que não está sonhando — e meu sorriso foi instantâneo.

Abri a porta do quarto, corri até a cozinha e dei de cara com meus pais tomando o café da manhã.

Minha mãe estava com os cabelos loiros amarrados, de pé diante da pia. Havia um pires solitário em sua mão. Meu pai estava sentado à mesa, sem camisa, a barba por fazer e mastigando um biscoito tão velho que fazia um ruído alto ao ser mordido.

— Pai, mãe... vocês não vão acreditar!

— O que foi, filho? — era minha mãe, verdadeiramente surpresa.

Já meu pai não precisava levantar questionamento algum. Continuou sentado, mastigando o biscoito e espalhando farelo pelo canto da boca. Ele desenhara a Caloi 10 no vidro traseiro daquela sucata amontoada no celeiro. Foi isso que sussurrei no ouvido dele na tarde de ontem. Ele já sabia o porquê de minha euforia.

— É a bicicleta, não é? — a voz dele era firme, idêntica as vezes em que gritava com a minha mãe.

— Mas de que diabos está falando?

— Venham ver! Venham até meu quarto ver!

Corri como um maluco, os braços se agitando, as pernas quase encostando uma na outra.

Quando minha mãe chegou diante da porta, segurou o pé que daria um novo passo e se deteve. Levou uma das mãos ao peito, os olhos avaliando a Caloi como se ela fosse um extraterrestre.

— Da onde saiu isso? — perguntou.

— Foi o que eu pedi para o papai escrever no carro. Sempre quis uma bicicleta, mas nunca conseguiram me comprar uma.

— Não pode ser...

Ela girou nos calcanhares e saiu pelo corredor gritando o nome de meu pai. Passei a mão em um de seus pedais, pensei em empurrá-la até o pátio para dar uma voltinha — não andava de bicicleta a uns dois anos, talvez três — mas preferi voltar até a cozinha.

— De onde saiu aquela coisa? — escutei ela perguntar, apontando o dedo na direção do meu quarto. Meu pai coçava o ouvido com um palito de fósforo.

— Pergunte ao carro, Bia. Ele é quem faz a mágica acontecer. Eu apenas desenhei aquela coisa no vidro a pedido do nosso filho.

— E vai querer que eu acredite nessa merda?

— Viu a bicicleta, não viu?

Vi apenas minha mãe bufar e pôr as mãos na cabeça. Ela tinha essa mania — essa que meu pai sempre dizia que ela havia herdado da chata da mãe dela — de mexer nos cabelos e revirar os olhos num gesto claro de reprovação.

Ela se afastou até a pia resmungando uma coisa qualquer, enquanto meu pai se ergueu da cadeira e me olhou. Eu estava espiando pelo canto da parede.

— Quer dar uma volta, filho?

Meu rosto surgiu de trás da parede, os olhos brilhando e um sorriso que tinha certeza que já dava para ser visto.

— Posso?

— Claro. Vá pegar o seu presente e pise fundo!

Acho que corri como um touro aquele dia. Não me lembro muito bem — a coisa ficou estranha logo depois disso — mas posso afirmar que pedalei por horas no pátio de terra, levantando poeira e fazendo o cascalho saltitar. Eu dava voltas pela casa, a brisa tocava o meu rosto, meus cabelos dançavam como ondas do mar. Meu pai ficou sentado na varanda, as pernas para cima exibindo as botas sujas. Cada vez que cruzava por ele, mais tinha certeza que sua mente não estava mais ali conosco. A cabeça para trás, os olhos vazios encarando o teto repleto de cupins. Ele estava alimentando algo ruim. E isso começou a nascer duas noites depois.




Para minha mãe, ver para crer valia muito mais do que crer para ver; Ela não fazia o tipo de pessoa que saía acreditando em tudo que uma boca desdentada saía falando por ai. Ela sabia que havia algo diferente — talvez até especial — acontecendo naquele celeiro, onde uma carcaça do que antes deveria ter sido um belo carro estava guardada. Ela tinha em mente que aquela bicicleta não veio parar em nossa casa sozinha. E sabia que não havia maneira de meu pai ter trazido ela de algum lugar, mesmo que essa hipótese ficasse cutucando sua cabeça incansavelmente. Então ela decidiu arriscar.

Entrou na sala — ou no que chamávamos de sala, apenas uma poltrona com buracos que deixavam as esponjas a mostra —e bateu na coxa ossuda de meu pai.

— Quero que escreva algo naquele vidro.

— Mais um teste?

— Um definitivo.

Meu pai sorriu. Primeiro acho que ele ficou satisfeito por ver minha mãe lhe dando uma oportunidade. Mas no fundo acho que ele já estava com outros planos.

Neste dia eu os segui até o celeiro, dando passos lentos e cautelosos, me esgueirando por entre a plantação de milho. Contornei o velho celeiro e espiei por uma brecha na madeira, agachado ao lado de uma pedra com limo nas pontas. Não dava para ouvi-los com clareza, mas consegui enxergar o que meu pai escreveu naquele vidro.


SACO DE ARROZ/FEIJÃO


No dia seguinte almoçamos como reis. O único armário da casa — um monstro gigantesco com quatro portas e três gavetas — estava vazio há uma semana e só nos alimentávamos com espigas duras de milho. Mas não naquele dia. Não após o meu pai pedir arroz e feijão para aquele carro.

Minha mãe abriu uma das portas do armário, seu rosto era de total espanto mas ao mesmo tempo de uma alegria absurda. Não dava para fingir uma coisa aquela. Ela cozinhou com uma felicidade que só existia em nossos melhores dias no centro da cidade, e de vez em quando até dava para ouvi-la cantarolar.

Durante a refeição meu pai permanecia com um semblante fechado. Ele colocava a colher na boca, mastigava, olhando sempre para o prato na mesa.

— Quer mais um pouco, querido?

Aposto que ele deve ter pensado: ah, agora sou querido?

Ele fez que não com a cabeça. Seu prato ainda estava cheio. Sentado diante dele, conseguia ver a sua testa franzir aos poucos enquanto mastigava.

Cinco minutos mais tarde, ele olhou para minha mãe e disse algo que mudaria a situação dali para frente.

— Eu sei o que vou fazer, Bia.

— Do que está falando?

Eu parei de mastigar e encostei a colher no prato.

— Vou me livrar de nossos problemas — disse meu pai.

Em segundos, meu apetite deixou de existir.




Naquela mesma noite, meu pai foi até o celeiro e só voltou de lá meia hora depois.

Minha mãe andava de um lado à outro da cozinha, tentando espiar pela janela mas sem obter sucesso algum. Estava escuro demais e não havia uma lâmpada do lado de fora da casa. Eu estava quase dormindo na velha poltrona, a cabeça escorada no braço e as pernas trançadas numa posição de yoga.

Meus olhos se arregalaram e meu corpo tremeu quando ele entrou pela porta marchando e os olhos mais alucinados que já vira.

— Eu fiz, Bia! Eu fiz...

— Que escreveu naquela coisa, Nando?

Não sei se ele não quis contar por eu estar presente — ou por sentir um medo perturbador por saber que havia feito algo sem volta — mas ele não disse nada.

Apenas andou na direção do quarto dos dois, esfregando as mãos e sendo seguido por minha mãe que insistia em lhe fazer perguntas. Escutei ele dizer que "estava feito" mais umas quatro vezes naquela noite, e quando amanheceu meu pai estava verificando o motor da camionete desde cedo. Suas mãos estavam encrustadas de graxa, assim como suas calças.

— Vou até Minerva. — Ele disse para minha mãe. — Preciso ver uma coisa. Não se preocupe, eu volto logo.

— Isso não é perigoso, Nando?

— Se tudo funcionou, não mais. — Ele respondeu, sem olhar para ela e entrando na camionete.

O motor roncou alto, a poeira dançou em redemoinhos atrás do cano de descarga e a camionete sumiu atrás da plantação de milho. Mais tarde naquele dia, meu pai voltou da cidade com um sorriso esquisito no rosto, abraçou minha mãe e lhe beijou nos lábios. Me trouxe para junto de sua cintura e acariciou meu ombro.

— Peguei um, pessoal. — Eu olhei para minha mãe e ela também parecia perdida.

— O que houve, Nando?

— Agora, vou até o celeiro pegar outro. Podem ir dormir se quiser. Eu volto já.

E ele voltou uma hora depois, com aquele sorriso assustador no rosto e a empolgação de um menininho travesso.




Ele disse que estava feito e não estava delirando, de maneira nenhuma. Meu pai — em uma semana — já havia escrito naquele vidro cerca de cinco nomes diferentes dos mafiosos que queriam meter uma bala em sua cabeça. O primeiro foi Carlos Vidal. Deste ele lembrava até da aparência — segundo ele, este sujeito fora o que cochichou em seu ouvido que ele já estava morto mas não sabia — e fez questão de escrever o nome dele naquele vidro.

— Foi a Minerva para saber se ele estava morto? — perguntou minha mãe. Estava bastante preocupada, com os quadris escorados na pia.

— Mais do que isso. Veja. — Ele retirou do bolso traseiro das calças um pequeno pedaço de papel e o sacudiu.

— Que é isso?

— A lista com todos os nomes daquela máfia. Um por um, Bia. Tem até mulheres.

Minha mãe passou a mão no rosto. Tenho certeza que se ela pudesse ter feito algo para evitar o que estava por vir, ela o faria. Meu pai entrara naquele mundo traiçoeiro por escolha própria, arrastando nós três para a beira do abismo, e agora a solução dele era de fato medonha.

— Vai matar toda esta gente, Nando! Percebe o que está fazendo?

— Bia, não sou eu. É o carro. Lembra? Você pede, ele faz. Eu escrevi o nome daquele puto do Vidal e o maldito teve um ataque cardíaco enquanto cagava no banheiro da sogra dele. Isso é divino. É como brincar de...

—Deus? É assim que você se sente? Você escreve um nome num vidro sujo e traça o destino de uma pessoa. Isso não é ser Deus. Isso é ser um covarde!

De repente vi que a fisionomia de meu pai se fechou como uma porta e o braço dele se levantou até atrás de sua cabeça. Seus lábios tremiam e seus dedos sacudiam na mão espalmada.

— Bate! — gritou minha mãe. — Vamos lá, vá em frente.

Mas ele não bateu. Eu comecei a chorar agarrado na cintura de minha mãe e ele abaixou o braço. Depois deu as costas e saiu chutando a cadeira.

Quase correu até o celeiro, chegou lá e deve ter visto o vidro empoeirado como sempre, esperando algo ser escrito nele. Você pede, ele faz, meu pai costumava dizer. E ele seguiu esta linha de raciocínio por mais oito ocasiões, até perceber que não havia mais volta, que estava, de alguma forma, alterando a ordem natural das coisas. Uma noite fui atrás dele escondido da minha mãe, os chinelos arrastando no carvalho e as mãos enfiadas nos bolsos do abrigo. Ele estava sentado ao lado daquele monte de ferro contorcido, o dedo indicador sujo de poeira e os olhos vermelhos de quem havia acabado de chorar.

— Que faz aqui, filho? — perguntou. A voz um tanto distante.

— Vim ver o que o senhor estava fazendo.

— Estou só... estava tentando arrumar este carro. Acho que o motor ainda serve.

Minha mãe tinha razão. O tom de sua voz mudava quando ele estava mentindo.

— O senhor precisa descansar. Vamos para casa, por favor.

— Já são dez horas?

— Duas e quinze da manhã.

Ele se levantou do chão, deu umas palmadas no traseiro e enroscou o braço em torno de meus ombros. Saímos na madrugada fresca, o sereno caía sobre nossas cabeças e umidecia as sobrancelhas.

— Pai?

— Diga.

— O que o senhor escreveu naquele vidro hoje?

Ele não me respondeu. Apenas sorriu um tanto sem jeito e me levou até o meu quarto, me deu um beijo na testa e acho que vi lágrimas escorrendo pelas suas bochechas.



Era uma manhã nublada aquela. Minha mãe já havia feito o nosso café — este fora comprado na cidade em uma viagem rápida até lá realizada pelo meu pai — e agora estava pendurando as roupas no varal. Durante esse período de trinta minutos, onde bebi um copo de leite e meu pai não tocou em nada que estava em cima da mesa, não reparei em nada de anormal. Foi só quando fomos para a varanda acompanhar o dia carrancudo, com minha mãe estendendo um lençol no varal com a esperança de ver o sol nascer, que meu pai decidiu me pedir um favor.

— Qual? — perguntei.

— Coce minha nuca, filho.

Olhei para ele tentando não parecer grosseiro. As mãos dele estavam escondidas entre as pernas e sua careta indicava que realmente precisava se coçar.

— Mas por que o senhor mesmo não faz? — e se soubesse o que viria a seguir, jamais teria feito aquela pergunta.

— Se pudesse, eu faria — suas mãos se ergueram e um pavor tomou conta do meu corpo, quando eu vi que seus dedos não estavam lá.— Vê? Eles caíram, filho. Todos eles.

Gritei. Mas um grito que me fez cair de bunda na varanda e chamasse a atenção de minha mãe. Ela deixou cair o vestido que estava em suas mãos, correu até a varanda e perguntou o que estava acontecendo. Antes mesmo que pudesse responder, ela viu aquela coisa grotesca que era agora as mãos do meu pai, apenas uma concha vazia como patas de um sapo. Ela também gritou, levou as mãos até a boca e me puxou para junto de sua cintura.

— O que você fez, Nando?

— Escrevi no vidro que queria que meus dedos caíssem, — ele respondeu do modo mais natural possível.— Se não fizesse isso, não conseguiria parar, Bia. É poder demais para um homem e quanto mais você faz, mais você quer fazer.

— Jesus...

E este foi um sussurro que ficou em minha cabeça por quase trinta anos.

Voltamos para Minerva no mesmo dia — graças ao meu pai, não haviam mais mafiosos a nossa espera — e reconstruímos nossas vidas a partir dali.

Minha mãe conseguiu um emprego numa casa bonita, onde havia um balanço no jardim e um chafariz na parte dos fundos. Meu pai ficou completamente incapacitado, perambulando pela casa com um sorriso no rosto, algo que dizia missão cumprida, voltamos para casa baby.

Ele viveu por mais vinte e cinco anos, conseguiu uma prótese escrota em seu último ano de vida e usava ela para abrir as latas de cerveja nas tardes de domingo no horário do jogo de futebol.

Dois anos atrás minha mãe também partiu. Eu estava no trabalho quando recebi o telefonema. Esse tipo de coisa sempre nos pega de calça na mão, como se houvesse um manual onde diz que isso é obrigatório.

Hoje sou um homem agradecido por ter vivido até os quarenta — meu pai me disse, por alguma razão, que eu não passaria dos trinta — e ter uma família incrível. Sou casado a três anos com Marisa Aguiar e ela está esperando nosso primeiro filho.

Sabe, contar o que contei me trouxe lembranças. Não que elas houvessem se apagado, elas sempre estão ali, soprando no nosso ouvido. Quis dizer que elas brilharam mais forte, piscando como uma lanterna no escuro. Utilizando a frase que meu pai disse quando revelou o que aquele carro destruído era capaz de fazer, me despeço por aqui.

Você precisa acreditar...


July 24, 2019, 5:19 p.m. 2 Report Embed 3
The End

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Tiago Líreas Tiago Líreas
Você sempre faz uma imagem super estereótipa dos pais (suados, grosseiros, com latas de cerveja na mão). Sempre que vejo que há um pai na história fico à espera da cerveja
Aug. 20, 2019, 5:25 a.m.
Karimy Karimy
Olá! Escrevo-lhe por causa do Sistema de Verificação do Inkspired. Caso ainda não conheça, o Sistema de Verificação existe para ajudar os leitores a encontrarem boas histórias no quesito ortografia e gramática; verificar sua história significa colocá-la entre as melhores com relação a isso. Sua história foi verificada, mas agostaria de apontar algumas coisas que encontrei durante a leitura e aconselhar uma revisão: O verbo "haver" é usado quando queremos denotar tempo transcorrido, portanto observe os exemplos retirados de sua história e a correção à frente deles: "estava ouvindo a uma semana" em vez de "estava ouvindo há uma semana"; "deveria estar ali a quase cinquenta anos" em vez de "deveria estar ali há quase cinquenta anos". Encontrei, também, algumas vírgulas após a adversativa "mas", que admite vírgula apenas antes dela — ex.: "em nada que meu pai havia nos dito, mas, era esquisito demais permitir..." em vez de "em nada que meu pai havia nos dito, mas era esquisito demais permitir..."; "de um lado à outro" em vez de "de um lado a outro" — "outro" é masculino, portanto não admite o fenômeno da crase. Além disso, há algumas conjunções "mas" sem a vírgula antes delas. São coisas pequenas e que podem ter simplesmente passado por despercebidas, mas ainda aconselho uma revisão quando possível. E parabéns, o seu conto é ótimo.
July 31, 2019, 6:56 a.m.
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