Dádiva e Punição Follow story

u15514544731551454473 Luiz Fabrício Mendes

Numa região do mundo devastada pela guerra, camponeses das montanhas afirmam ter visões divinas. A Santa Madre Igreja envia um especialista para apurar os fatos... Mas, ao invés de uma fraude, o clérigo torturado pelo passado acabará encontrando outra verdade, ainda que inesperada.


Paranormal Lucid All public.

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Capítulo Único

Dádiva e Punição


Conto originalmente publicado na antologia "Angelus", da Editora Literata.


A trilha era pedregosa e acidentada, mas ele seguia andando — vendo naquilo sutil metáfora referente à sua vida, uma estrada de obstáculos que ele até então, na graça de Deus, lograra vencer. O trajeto contornando a montanha causaria vertigens numa pessoa mais sensível; o ar rarefeito da neblina por certo cansaria mais rápido os pulmões de alguém menos experimentado. Mas não a ele.

Já haviam se passado horas desde que cruzara com o último povoado, as lúdicas casinhas de madeira que pareciam ter saído de um conto de fadas, quase todas vazias devido à ausência dos moradores envolvidos na peregrinação. A aparência do local, no entanto, contrastava com a realidade de guerra que assolava aquela região da Iugoslávia. Em meio ao sangrento cenário do conflito — com cristãos e muçulmanos se exterminando enquanto ditadores sádicos viam a oportunidade para erradicar também minorias étnicas — os rumores de uma aparição mariana realmente não teriam demorado a surgir. Segundo os camponeses, a Virgem Maria vinha se apresentando a eles numa gruta remota junto a uma cachoeira ao final daquele caminho. Os vestígios de pegadas na terra enlameada revelavam que o fluxo de fiéis era mesmo grande naquela direção. Qualquer indício de alento divino para a sofrida população dos Bálcãs era abraçada com o máximo fervor.

Ele, como investigador a serviço do Vaticano, era encarregado há anos de viajar pelo mundo comprovando a veracidade ou não de tais aparições — fossem envolvendo Maria, santos ou até mesmo Jesus Cristo. Lembrava-se ainda das palavras do perspicaz cardeal chefe da Congregação para a Doutrina da Fé, alegando que aquele caminho era o ideal para sua redenção. Um ex-criminoso homicida que se convertera na prisão e se tornara padre já era uma história rara de se ouvir. Se a completasse com o fato de caçar milagres pelo mundo, com certeza não despertaria reações muito diferentes do riso ou revolta.

Séculos antes, quando o órgão ainda era conhecido por Santa Inquisição, eles o teriam queimado vivo ao invés de dar-lhe uma segunda chance...

A travessia chegava ao fim, inserindo-se por uma área de rico arvoredo e com o fluir da cachoeira podendo ser ouvido ao longe. Um pedaço esquecido do Éden na Terra, talvez, colocado num lugar tão alto e numa nação tão belicosa justamente para que não o encontrassem. Ou talvez não passasse de um respingo de floresta em que alguns devotos desesperados vinham sofrendo de alucinação coletiva. Ele acreditava nas aparições reconhecidas pela Igreja, mas tinha de reconhecer — assim como o próprio Papa — que, às vezes, a mente humana, molestada pelo sofrimento, acabava vendo mais coisas do que realmente existiam...

Chegou à clareira depois de mais alguns minutos, a queda d'água desabando sobre um conjunto de rochas e se transformando num riacho que serpenteava encosta abaixo. Havia realmente considerável aglomeração ali, pessoas de toda a região voltadas para a cachoeira em posições de prece, a maioria ajoelhada. Julgou que logo perceberiam, pelo detalhe branco em seu colarinho, sua condição de sacerdote — mas na verdade mal notaram sua chegada, fascinados como estavam pelo local sagrado. O silêncio predominava, quebrado apenas pelo leve murmúrio da correnteza. Hesitou por alguns instantes, temendo remover os fiéis de seu transe, mas acabou por se aproximar de uma mulher prostrada e inquiriu, na língua local:

— O que vê?

A senhora manteve os olhos arregalados na direção da queda d'água e respondeu, sem desviá-los:

— A Virgem Maria... Ela está aqui, entre nós...

— A senhora a está vendo neste momento? — o padre piscou, um tanto ansioso.

— Não... Ela se recolheu para a gruta, atrás da cachoeira.

Ele voltou a cabeça. Realmente, por trás da cortina aquosa era possível vislumbrar a entrada de uma caverna esculpida na rocha, a esparsa luz do dia pouco iluminando seu misterioso interior. Fitou brevemente, mais uma vez, os demais fiéis. Torceu para que eles não tentassem impedi-lo de alcançar a entrada, pois era exatamente isso que tentaria fazer. Talvez fosse mesmo, com séculos de simpatia eclesiástica favorecendo-o, um novo inquisidor...

Os camponeses, felizmente, continuaram a ignorá-lo. Não pareciam preocupados com a possibilidade de o milagre ser eventualmente desmascarado. O padre venceu com calma o caminho de pedras escorregadias riacho acima, logo saltando para dentro da gruta. Teve boa parte da roupa negra ensopada ao atravessar a cortina d'água, mas não ligou. O solo da caverna era seco e plano, podendo caminhar com relativa segurança. Não deixou, porém, de acender uma lanterna. Por mais que alegassem ser ali o local de aparições de Maria, todo cuidado era pouco com os enigmas que a ciência não conseguia desvendar...

Avançou por uns bons metros, de forma lenta e cautelosa. Súbito, o foco de luz clareou um rosto. Pelos poucos instantes em que permaneceu sobre o mesmo, o clérigo pôde notar ser bem mais pálido do que deveria, mesmo sob o clarão alvo do equipamento. Desligou-o quando toda a gruta repentinamente se tornou nítida a partir de uma luminosidade emitida pela estranha figura humanoide, que logo se diluiu no ar como vaga-lumes de cristal. E ele viu: era uma menina. Deveria ter nove, dez anos, cabelos loiros lisos caindo-lhe até os ombros e o corpo infante vestindo uma imaculada túnica branca. A cabeça era semicoberta por um véu da mesma tonalidade e encarava-o fixamente com seu par de olhos azuis. Pela aparência, era claro o motivo de os fiéis terem tomado aquela criança por Nossa Senhora. A maneira como produzira luz levava a crer que não era humana... Mas o padre não estava tão certo se seria mesmo a Virgem.

— Quem és, ser celestial? — ele indagou em tom de profundo respeito, colocando-se tranquilamente de joelhos.

Não restaram dúvidas quando a garotinha se curvou de leve para frente... E duas majestosas asas brancas se desdobraram de suas costas, tendo quase o dobro de seu tamanho e preenchendo boa parte da caverna.

— Sou Metatron — replicou com um suave e inocente timbre infantil. — A Voz de Deus.

Então não era mesmo Maria. Estava lidando com a aparição de um Anjo — no caso um dos maiores de todas as legiões celestes, o verdadeiro mensageiro através do qual Deus se manifestava, já que Seus filhos jamais seriam capazes de contemplar-Lhe a real forma em seus débeis corpos mortais. O mesmo que segurara a mão de Abrão para que não ceifasse a vida do filho Isaac, e também aquele que, diziam, havia sido diretamente responsável pelo extermínio dos primogênitos no Egito. Um Anjo que, contendo seu imenso poder na forma daquela menina, representava muito bem sua dualidade de dádiva e punição. Assim como o Criador.

— O que deseja de nós, glorioso mensageiro? — o padre evitava encará-lo diretamente e, já acostumado a lidar com os mistérios celestes, achava aquele vocabulário um tanto estúpido, ainda que necessário.

Descalça, a criança deu alguns passos à frente, parando a poucos centímetros do sacerdote. Ele mantinha os olhos no chão, não podendo negar um pouco de nervosismo. Quando Metatron acariciou-lhe o rosto, sentiu como se uma brisa vinda diretamente do Céu invadisse a gruta e lhe envolvesse os poros. O Anjo então disse, quase num sussurro:

— Está difícil para o Pai continuar retesando Suas mãos contra os seres que criou do barro. A cada alvorada, novas afrontas surgem diante do Altíssimo. Seus filhos se matam como se jamais houvessem escutado Sua Palavra.

— O Altíssimo deseja, em breve, nos aniquilar? — ele perguntou com a voz um tanto trêmula.

— Não. Quando ocorrer, vocês mesmos o farão, sem a intervenção do Pai. A guerra que devasta esta nação é um indício. Por isso estou aqui. Tento dar a essas pessoas alento... Esperança. Para que possam aguentar os dias tenebrosos que virão. Eles esperam que o fim venha do Céu na forma de estrelas cadentes ou um grande dragão, ignorando que ocorrerá, na verdade, pelo coração dos próprios homens que perpetuam o mal...

Ainda ajoelhado, o padre não conseguiu se conter, tocado por aquelas palavras:

— E-Eu já fui um desses homens...

Em sua mente, despontaram flashes de sua vida pregressa. Cenas de roubos, torturas, assassinatos... O corpo ensanguentado da mulher que um dia amara, os atos que levaram à tragédia... Tremendo e fechando os olhos, não pôde evitar que uma lágrima brilhante escorresse por sua face, confundindo-se com os pontos de luz flutuando pela caverna...

E sentiu novamente o toque de Metatron, agora em sua testa.

Ainda sem enxergar, percebeu que as imagens desoladoras desapareciam uma a uma de seus pensamentos. A culpa convertia-se em alívio; o sofrimento, em esperança. Uma paz que há muito desconhecia o invadiu. Soluçou. E, quando tornou a erguer a cabeça, o ser celestial havia desaparecido, a luminosidade que trouxera aos poucos se dispersando pelas paredes rochosas daquele nicho...

Quando retornou pelo caminho até a cachoeira, viu-se cegado momentamente pela luz solar ao atingir a entrada da gruta. Lá fora, os devotos ainda rezavam completamente alheios ao que acontecera ali dentro. Sentindo-se leve como não se achava desde criança, o clérigo voltou pelas pedras escorregadias, passos mais firmes do que antes. Passou por alguns dos camponeses... E observou, ao longe, uma fileira de helicópteros de combate sobrevoando a paisagem montanhosa.

— Dádiva e punição... — suspirou, parando por um instante.

E, pensando no que registraria no relatório ao Vaticano, desapareceu pela trilha.

July 23, 2019, 11:49 p.m. 0 Report Embed 5
The End

Meet the author

Luiz Fabrício Mendes Goldfield, alcunha daquele em cuja lápide figura o nome "Luiz Fabrício de Oliveira Mendes", vaga desde 1988. Nasceu e reside em Casa Branca - SP, local que se diz ter sido alvo da maldição de um padre. Por esse motivo, talvez, goste tanto do que é sobrenatural. Atualmente é professor de História, mas nas horas vagas, além de zumbi, se transforma em agente de contra-espionagem, caçador de vampiros, guerreiro medieval, viajante do espaço ou o que quer que sua mente lhe permita escrever.

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