Belas pernas Follow story

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Aquele provador de roupas é tão esquisito... às vezes, a cortina dele parece se mexer mesmo quando não há ninguém lá dentro. Você quer se aproximar para ver mais de perto?


Horror Ghost stories Not for children under 13.
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Belas pernas

— Então, me fale a respeito — disse Maciel. Eles cruzavam o corredor denominado principal, após atravessarem o saguão de entrada.

Havia um capacete branco sobre a cabeça de cada um deles, uma norma de segurança imposta assim que deixaram a sala de reunião. Vitória só não mencionou que ali dentro o calor era de rachar. A camiseta azul piscina de Maciel possuía manchas enormes de suor, algo incômodo de se vestir e de se olhar.

Estavam atravessando uma ampla vitrine, coberta pela poeira e com marcas de dedos marcando uma trajeto sinuoso. Dava para ver que ainda haviam alguns manequins por detrás, um deles lhe faltando um braço. Estavam despidos, em pose formal, olhando — como sempre — para lugar nenhum.

— A prefeitura quer o lugar de volta, — disse Vitória. O vestido dela dançava conforme o gingado de seus quadris e Maciel procurava não olhar muito. Era um homem casado, mas olhar era um pecado secreto. — Disseram que a idéia é revitalizar o lugar. Talvez uma praça batizada com o nome de algum governante, ou até mesmo um condomínio residencial. Ainda não se sabe.

— Mas shopping, não mais?

— Oh, sem dúvida. — Vitória exibiu um largo sorriso. Ela andava um pouco a frente por conhecer bem o lugar. Quando construíram o Belo shopping, era ela quem havia comandado as obras. A intimidação por ser mulher não ocorreu. Os olhares e alguns inevitáveis assobios, estes sim ocorreram.



O lugar tinha um tamanho considerável ( segundo as pesquisas, era o segundo maior da América Latina ) e estar ali com todo aquele espaço vazio era de fato sufocante. No ano de 2015 o número de frequentadores do lugar era astronômico;

Nos fins de semana, este número duplicava. Haviam estréias nos cinemas, eventos ao lado da praça de alimentação e as vezes até algum figurão da música dava as caras por ali para um showzinho surpresa.

Agora, o Belo shopping era o lar de algumas ratazanas e vez que outra de algum morador de rua que conseguia pular a tela de arame farpado. Nada sério, apenas um incômodo comum nesta área da cidade.

Passaram devagar por uma área demasiada espaçosa e Maciel apontou o dedo.

— O que tem ali?

Vitória olhou e sorriu um tanto desconcertada. Não era o primeiro que perguntava aquilo. O outro mestre de obras, um tal senhor Ivo, fez a mesma pergunta antes de começarem os problemas.

— Ali ficava uma loja de roupas, — respondeu Vitória. — Roupas, em sua maioria, femininas. Não me recordo o nome do lugar, mas era bastante frequentado.

— Podemos dar uma olhada?

Ela pareceu exitar. Mordeu os lábios suavemente, deu uma espiada na direção do chão e depois tornou a olhar para o corredor escuro.

— Podemos? Não é uma área de risco, é?


— Oh, de modo algum — ela disse. — O lugar é de total segurança. É que... bem, não sei como lhe contar algo assim.

Maciel cruzou os braços. Era um homem curioso, adorava ter sua curiosidade atiçada, mesmo sabendo que as vezes isso lhe causava imprevistos. Mas aqui o papo estava bom e ainda havia a dona Vitória com seu longo cabelo loiro e seu vestido curto. Não um curto revelador, mas um curto que você olha e pensa: Deus, o que há ai debaixo?

Maciel sabia o que havia. Mas estava tentado com a loja do corredor escuro. Aquela sim era de fazer sacudir as pernas.

Ele olhou naquela direção — um lugar angustiantemente silencioso — e deixou as palavras saírem.

— Bem, Vitória, pode contar da maneira que achar melhor. Ou se preferir, retomamos a caminhada até o restante do shopping. Mas saiba que se fizermos isso, deixará um homem muito curioso no seu encalço.

— É que não sei por onde começar, — ela disse, acompanhada de um risinho simpático.— Não creio que já tenha escutado algo assim. Sabe, as pessoas falam demais por aqui. Então coisas como essa surgem sem que percebam.


Maciel coçou o cavanhaque. Só havia um tipo de assunto que circulava pelos bares, depois saltava para as famílias dos subúrbios até chegar em algum jornalzinho de quinta. E ele não era um sujeito que acreditava nessas coisas.

— Assombração? — indagou. Conferiu a dona Vitória fazer que sim com a cabeça e só então deixou que uma risadinha debochada saísse de sua boca.

— Mas não é nada demais, acredite. É ridículo, eu sei, mas os boatos são fortes pela região.

— Imagino que sejam. Quer partilhar?

— Se estiver disposto.



Até que estava. Eram duas e onze da tarde, o sol estava brilhando quente e forte e sua esposa Maria deveria estar enfiada no escritório de advocacia. Ela só sairia de lá daqui uma hora, duas no máximo. E Maciel estava em sua última visita antes de começarem o projeto de demolição. Havia tempo para ouvir algumas histórias. Mesmo que elas sejam ruins e sonolentas como os filmes de romance que a esposa gosta de assistir.

Andaram na direção do corredor escuro e pararam assim que avistaram a antiga loja de roupas. A vitrine estava empoeirada e um cartaz com a promoção de roupas de verão pendia apenas preso por uma fita. Lá dentro era tão escuro quanto o corredor.

— Eles inauguraram a loja em novembro de 92, se minha memória não está enganada — disse Vitória. — E como já comentei, o alvo era o público feminino. As mulheres faziam fila só para entrar aqui. As roupas tinham promoções semanais. Era muito dinheiro que entrava, sem dúvida. Os maridos, toda vez que viam este corredor, já sabiam que teriam de abrir as carteiras. E Getúlio Borges também sabia disso.

— E este quem é?

— Foi um grande empresário da cidade — respondeu Vitória. Dava para ver que havia uma empolgação para contar a história, mas também haviam vislumbres de receio. Maciel achava que ela deveria crer nas tais histórias. — Ele tirou a própria vida em 94, após não suportar ficar mais sozinho. Ele era casado com Vanessa Miller, uma modelo de muito sucesso na época.

— Sim... eu acho que ouvi falar dela. Ela estava em ascensão na carreira quando de repente sumiu.

— Morreu, na verdade. — Disse Vitória. Os olhos dela agora procuravam olhar apenas para Maciel. Pareciam evitar apontar para a loja. — Ela veio até esta loja numa tarde de domingo acompanhada do noivo. Testemunhas disseram que ambos estavam muito felizes. Eles sorriam o tempo todo e entravam em praticamente todas as lojas. Mas foi nesta aqui que aconteceu.

— Aconteceu?

Vitória concordou devagar com a cabeça.

— A jovem entrou em um provador de roupas e deixou o noivo esperando por ela como é de costume. Cerca de dez minutos depois, e após algumas chamadas pelo seu nome, o tal noivo decidiu entrar no provador. Ele abriu a cortina e a viu escorada na parede. Estava vestindo a roupa que pegou para experimentar. Um vestido amarelo que se alongava até a altura das canelas. Disseram que ele a agarrou e a sacudiu. Ele gritava por seu nome enquanto as pessoas cercavam o lugar boquiabertas. Ninguém conseguia acreditar naquilo. Ela deveria ter uns vinte anos e um ataque cardíaco jamais seria esperado. Os olhos dela permaneceram abertos até que uma ambulância chegou e resolveu o assunto. Ainda assim, tiveram dificuldade em fechá-los. Os mais religiosos diziam que algo muito ruim provocou aquilo. Os dedos do diabo seguraram as pálpebras dela, coisas deste tipo. Foi uma época ruim. Mas só piorou ainda mais em 94.

A dona Vitória contou parte dessa coisa a um passo de entrarem no corredor, depois argumentou que talvez fosse melhor continuarem com a expedição pelo velho shopping e Maciel questionou educadamente.

Ele ainda tinha tempo. Maria deveria estar atendendo a telefonemas naquela caixa que ela chama de escritório e o restante das áreas do shopping poderiam esperar.

Achava que não conseguiria dormir se não ouvisse o resto da história. Talvez fosse um exagero, mas tinha a impressão que não era.



Entraram na loja um lado do outro, um cheiro de pó e papelão molhado penetrou suas narinas e dona Vitória fez uma careta.

Maciel aguentou firme.

— Desculpe, mas como é mesmo que chamam a falecida?

— As pessoas lhe batizaram de belas pernas, — respondeu Vitória. Não sabia se fora uma corrente de ar, mas um sopro gelado fez com que os pêlos de seus braços se arrepiassem. — Isso porque ela era modelo e...

— E?

Pararam subitamente. Na realidade, dona Vitória se deteve fazendo com que Maciel lhe acompanhasse.

Estavam diante de uma fileira de provadores de roupas; As cortinas tinham alguns rasgões, com poeira acumulada ao longo de seu comprimento. Deveriam haver umas quinze. Apenas uma tinha a cortina estranhamente fechada. Maciel supôs que fora ali que a jovem modelo sentiu o coração explodir no peito.

Vitória não conseguia evitar de olhar. Era como se a qualquer momento aquela cortina fosse se abrir. Mas não rapidamente. Seria devagar, acompanhada por uma mão morta e cinza. Sabe lá o que viria depois. Talvez um corpo esquelético usando um vestido amarelo.

Desviou os olhos para Maciel e este olhava ao redor.

— De fato era uma loja bem grande, — ele disse. Depois olhou para a dona Vitória e notou que ela não queria continuar ali. Estava inquieta, coçando um dos braços. — Está tudo bem?

— Isso é assustador! Saber que ali atrás uma pessoa perdeu a vida me dá calafrios.

— Sem dúvida. Mas lembro de ouvir você mencionar que a coisa pirou pouco tempo depois, certo?

— Correto. Foi quando as visualizações começaram. A primeira que viu foi uma vendedora da loja. Ela ficou até mais tarde para organizar o estoque. Passou três vezes em frente aos provadores. E nas três ela jurou ter visto um par de pernas abaixo da cortina. Eram as pernas da jovem. Só que não eram mais tão belas. Dava para ver a carne apodrecida. Um dos sapatos tinha o salto quebrado. O outro pé estava descalço, pisando em um líquido negro. Não tinha cheiro... apenas a sensação ruim, entende? Aquela que a gente sente quando entra em um cômodo escuro. E esta vendedora sentiu isso. Jogou as roupas para o alto e correu para fora deste lugar.

— Era de se esperar, — disse Maciel. Seu sorrisinho não causou efeito algum em Vitória.

— A moça pediu demissão na manhã seguinte. E isto era só o começo das aparições. Quando uma senhora entrou ali para experimentar um vestido, sentiu uma coisa acariciar suas costas. Quando pensou em gritar, caiu dura como pedra. Disseram que foi um infarto fulminante. Então a loja, o provador em si, passou a ter uma fama ruim. Os relatos de um par de pernas paradas abaixo da cortina só aumentaram. Ninguém nunca viu a dona destas pernas, mas todos sabiam quem era. Não é um simples fantasma. É uma coisa ruim. Uma coisa podre. Algo que nunca se foi de fato. Ela está sempre de pé atrás do provador. Vê como a cortina permanece fechada?

Maciel via. E ao contrário de muita gente — incluído a dona Vitória — ele não sentia nada. Era curioso, o pior dos seres, mas não tinha a superstição como uma ferramenta em sua vida. Até acreditava em Deus, de modo simples, sem muita polpa e muito menos idas a igreja. Maria até já tentou levá-lo em uma missa de domingo.

Recebeu um irônico "vá com Deus" como reposta, antes de ver o marido virar para o lado e se tapar com o lençol.

Ele assentiu de cabeça quando ouviu a dona Vitória lhe informar uma outra coisa. Esta, um pouco mais sinistra.

— Não é comum ver a "belas pernas" — ela disse. — Você só a vê antes de morrer. Foi assim com quem já a viu. Estamos aqui a quase vinte minutos e não tiro os olhos daquele provador. Vejo apenas uma cortina e nada mais. Mas e você, Maciel? Já olhou bem para o provador?

Ele sorriu nervosamente. Estava pronto para responder quando algo lhe chamou a atenção. Não sabia ao certo, mas parecia haver um movimento suave na cortina do único provador fechado. Quase imperceptível. Era como se uma leve brisa tocasse naquele trapo sujo.

Não queria demonstrar nada diante da dona Vitória, então curvou as costas apenas um pouco e apoiou as mãos nos joelhos. Dalí, pôde ver um par de pernas sujas. Como descrito por uma testemunha, havia um pé descalço e outro com um sapato de salto quebrado. Um líquido negro rodeava a dona daquelas pernas. Elas não se mexiam, apenas se exibiam imóveis para Maciel Arantes e sua curiosidade.

Com um certo esforço, dava para ver os nervos de suas panturrilhas.

Ele tentou não demonstrar sentimento algum — mesmo com sua mente berrando para dar o fora dali — e percebeu mais uma coisa horripilante. A cortina foi aberta meio centímetro. Um olho branco como uma tigela de leite espiou pelo pequeno espaço.

Maciel sentiu um aperto no peito e voltou a posição inicial. A mão de dona Vitória caiu sobre seu ombro, assustando-o.

— É só uma lenda, Maciel. Não vá ligar para essas coisas, ou vai acabar nunca mais querendo vir até esta obra.

— Sim... claro. — Os olhos dele ainda espiaram uma última vez para o provador. A cortina estava fechada e isso lhe deu um alívio. Já não sabia se ela em algum momento fora afastada suavemente. Provavelmente não.

— Vamos continuar?

— Com certeza. Ainda falta muito?

— Pouco, agora. O saguão pelo qual passamos no começo é a maior área. Daqui para frente são apenas pequenas lojas.



Eles deixaram a loja de roupas femininas para trás ( e aquela figura atrás da cortina também, se é que havia uma ) e fizeram o restante da vistoria em pouco mais de meia hora.

Dona Vitória não tocou mais no assunto da moça com belas pernas e Maciel até esqueceu do que viu, — se é que de fato vira algo — quando ela mencionou que os custos do projeto de demolição seriam grandes.

Contornaram o pátio dos fundos até chegarem no pálio branco que estava no estacionamento. Maciel retirou o capacete, abriu a porta do motorista e se jogou ali para dentro.

Vitória fez o mesmo do outro lado.

— Que horas amanhã? — Ele quis saber.

— Lá pelas oito creio que esteja bom. Os caminhões já estarão poraqui.

— Perfeito.

Girou a chave na ignição e o pálio avançou até deixar o antigo Belo shopping para trás, ficando apenas no campo de visão do retrovisor.

No dia seguinte, eram quase duas da tarde e Maciel Arantes ainda não havia aparecido.

July 23, 2019, 11:03 p.m. 1 Report Embed 5
The End

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tiago líreas tiago líreas
Eu senti uma analogia nisso. "É uma coisa ruim. Uma coisa podre." Como se se referisse a como ser modelo pode estragar o caráter das pessoas; torna-as convencidas, orgulhosas, vaidosas.. azedas por dentro.
Aug. 16, 2019, 3:43 p.m.
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