MÍMICO Follow story

dissecando Edison Oliveira

Creio que um medo que eu tinha na infância ( e talvez até hoje ) era sobre aquele tipo de figura que fazia mímicas nas ruas. Não sei explicar, era apenas medo e algumas vezes não sabemos explicá-los. O que tentei passar aqui foi exatamente isso ; como ter medo de algo que nem sequer fala. O mímico vai lhe mostrar como. Boa leitura.


Horror Monster literature Not for children under 13.

#conto-terror-horror-fantastico
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MÍMICO

1


Ainda não sei ao certo se quero contar o que pretendo contar aqui. Esse tipo de coisa ainda me arrepia as vezes. Quando penso em tudo que aconteceu — no modo como aconteceu, melhor dizendo — sinto como se fosse sufocar.

Acho que qualquer homem sentiria o mesmo. Um homem bom, certamente. Mas qualquer homem bom iria lhe dizer que o que fiz foi errado. Só que eu não fiz, exatamente ; acho que eu apenas pensei na coisa e BUMMM!! Sabe, como acender o fósforo próximo ao galão de gasolina destampado.

E assim sendo creio então que eu sabia como tudo iria acabar. Mas, quero deixar claro desde já que eu não sou uma pessoa ruim. Talvez tenha cometido alguns erros ao longo do percurso, mas, isso me parece tão naturalmente humano. E por outro lado, como diabos eu iria saber? Aquele sujeito não fazia o tipo " tome cuidado comigo " ou algo assim. Diabos, ele nem sequer disse uma palavra. Uma única palavra.


2


Era uma tarde de verão aquela. Um domingo tão quente que meu avô diria que daria para fritar um ovo no asfalto. A praça estava lotada, com crianças correndo como se houvessem fugido de alguma prisão, com as bocas lambuzadas de sorvete e berrando umas para as outras naquele dialeto que só diabinhos com menos de dez anos poderiam entender.

Havia uma longa carreira de bancos que percorria boa parte do entorno da praça ; atrás passava uma ciclovia que naquela tarde estava abarrotada, mas nem tanto quanto dois domingos atrás, era o que eu achava.

Num destes bancos estavam Fernanda e eu. Ah, o retrato típico de um casal aproveitando a tarde enquanto o mundo girava e girava, naquele ciclo tão comum que chega a ser chato. Ela estava usando um vestido branco que ia até os joelhos - o vestido que eu dera para ela em nosso aniversário de namoro fazia uns dois meses ,- e eu a mesma bermuda jeans de sempre e a camiseta pólo verde de sempre. E o boné com um símbolo que até hoje não sei o que significa, é claro. Eu gostava dele. Me fazia parecer descolado. Fernanda não pensava deste modo ; ela sorria ( aquele sorriso que vem com uma placa de deboche presa na testa ) e diiza que o boné me deixava com a aparência de um " pivete de rua ". Eu apenas sorria e não dizia nada, pensando apenas em como aquele vestido à deixava com cara de puta, daquelas que você olhava e imaginava o quanto deveria cobrar para cavalgar numa tarde como aquela. Ainda assim, naquele instante, ambos usávamos nossas peças favoritas de roupa. Porque era assim que tinha de ser. Era assim que brigas eram evitadas e os namoros rumavam para casamentos insatisfeitos, onde, talvez dali uns anos eu fodesse com alguma vizinha atirada e ela fugisse com algum caminhoneiro gordo e bigodudo.

Havia uma sombra maravilhosa onde estávamos e uma brisa agradável soprava bem de leve, me deixando com aquela sensação de preguiça típica dos meios de tarde.

Eu bocejei e não levaram cinco segundos para levar uma cotovelada de leve.

— Estamos em público, César — resmungou ela. Não estava irritada, mas com certeza estava indo pelo caminho certo. — Só pessoas mau educadas fazem isso diante dos outros.

— Isso o que?

Ela me lançou um olhar fulminante. Eu já havia visto ele outras vezes — quando arrotava após terminar de beber o refrigerante ( propositalmente ) e quando usei chinelos com calça jeans pela primeira vez ( isso eu fiz sem intenção alguma de provocá-la ).

— Você sabe o que e não se faça de besta, — ela retrucou. Agora já nem olhava mais para mim. Eu sabia sobre o que ela estava se referindo mas, era a mesma situação do vestido de puta ; não valeria à pena dizer uma palavra para não estragar o momento.

— Como está a sensação agora, aliviou um pouco?

— Um pouco, — ela respondeu. — Mas ainda sinto como se tivesse comido exageradamente.

— E acho que foi isso mesmo. Sei que a sua mãe cozinha bem a beça, mas você mandou ver com aquela lasanha.

Ela esboçou um pequeno sorriso. Se tinha algo que amava em Fernanda Sanches, era o seu sorriso. Ele me desmontava. Eu poderia estar uma pilha de nervos ( como quase sempre durante o período em que namoramos e depois noivamos ) mas, era só ela lançar ele para mim que eu desmanchava como se fosse feito por peças de lego.

— Eu sei que exagerei no almoço, mas... — ela foi parando aos poucos, olhando para mim enquanto o fazia. Ela nem precisava concluir. Eu já sabia onde ela estava querendo chegar com aquele papo. E Deus sabe que eu preferia não continuar com aquilo, mas ainda assim tive de continuar. O que diabos eu poderia ter feito?

— Olhe, Fê — eu comecei, devagar, não querendo demostrar que não estava afim de falar sobre aquilo, embora ela soubesse que aquele papo me deixava nervoso. — Sei que você está achando que possa estar.... bem, grávida. Mas você já se enganou antes. Mais de uma vez, para dizer a verdade.

Ela ficou em silêncio. Parecia estar refletindo sobre o assunto ( só que acho que não era bem isso, acho que ela estava contando mentalmente se havia sido mais de uma vez que ela havia se enganado em relação à estar grávida ) e então um instante depois disse :

— Pode até ser, não é? E também não seria a primeira vez que você ficaria feliz com isso.

— Certo, lá vamos nós...

— Sim, nós vamos, César Magalhães. — E aquele era um sinal ruim. Ela só me chamava pelo nome completo quando estava disposta a abrir uma discussão. — Porque nós precisamos falar à respeito. São quase três anos de namoro, certo?

Eu fiz que sim com a cabeça. Acho que estava tão habituado com aquilo, com a mesma ladainha de sempre, que eu até já havia criado uma espécie de proteção em torno de meus pensamentos. Uma redoma de vidro que surgia magicamente em volta do meu corpo toda vez que Fernanda Sanches vinha com a sua historinha sobre relacionamentos e bebês. Então eu havia feito que sim com a cabeça de forma mecânica, não natural. Mesmo que aquilo já fosse algo natural para mim.

— E em três anos, acho que a felicidade esteve sim em nossas vidas. Não dentro de casa, como uma convidada ilustre. Mas podemos dizer que ela fica por ali, no jardim, espiando pela janela como uma vizinha fofoqueira. E o que todo casal que se preze precisa fazer para construir um lar por completo, César Magalhães?

— Não necessariamente precisam ter filhos. Conheço casais que vivem muito bem apenas sendo um casal. Sem um terceiro elemento.

Os olhos dela se arregalaram e seu corpo recuou um pouco para o lado. A típica reação de espanto do ser humano, não é incrível?

Naquela tarde não era, não.

— Então quer dizer que é isto que um filho significa para você? Um terceiro elemento? Apenas um fardo que um casal precisa carregar, como se fosse um tumor adquirido após anos fumando sem parar ou mantendo uma alimentação ruim?

— Não precisa usar este tipo de termo. Você fala como se eu fosse um monstro, Fê. Eu apenas não simpatizo com a ideia.

— É, e só foi me contar depois de um ano de namoro. Sinceramente não sei como ainda estamos juntos.

Não fosse pelos berros dos pestinhas correndo pela praça e por alguns passarinhos cantarolando sobre nossas cabeças, o silêncio seria esmagador. Eu estava remoendo em minha cabeça ( e isso bem antes daquela tarde ) a possibilidade de pedir uma pausa. O que as mulheres costumam chamar de " um tempo para nós dois ".

Creio que Fernanda também estivesse cogitando a coisa. Por vezes havia pegado ela ao telefone falando com a mãe. Ela dizia que não se sentia feliz, não por completo. Que o sonho dela era ter um bebê e que se não fosse comigo seria com outro. Ela também dizia que eu era um amor de pessoa, mas que não estava na mesma sintonia que a dela. E eu ouvia tudo isso escorado na parede ao lado, pensando onde diabos aquele relacionamento iria nos levar. Aonde eu havia amarrado o meu burro.

Eu acho que estava prestes a falar alguma coisa — confesso não me lembrar muito bem — quando eu o vi.

Ainda estava um pouco distante, mas ainda assim consegui notar a pintura em seu rosto e as vestimentas pretas. Aquele sujeito à alguns metros de distância sem dúvida era um mímico.


3


Depois que um velho passou a nossa frente arrastando as sandálias e nos cumprimentou com um aceno sútil de cabeça, Fernanda finalmente decidiu falar alguma coisa. Não que ainda não houvesse falado o bastante. Acho que ela herdara a mania da mãe mas, honestamente, não era algo que eu estava preocupado em descobrir na época. Tampouco nos dias de hoje.

— Sabe o que me deixa triste, César? — ela me perguntou, com os braços cruzados e os olhos apontados para mim. E, mesmo antes de dar uma resposta à ela, ela mesma tratou de fazer isso por mim. — O fato de toda vez que eu sentir um enjôo, você inventar as mesmas desculpas baratas de sempre. Você faz isso toda vez, querido!

E até aí eu pude escutá-la com uma certa clareza. E um tanto de raiva, também. Depois os meus olhos não conseguiam se afastar daquela figura de preto.

Ele vinha caminhando com pequenos saltinhos delicados, praticamente sem fazer barulho algum.

Suas mãos estavam para trás e ele parecia assobiar. À meus olhos, ele lembrava um ator interpretando algum musical em plena praça.

— Eu só gostaria de saber, — falou Fernanda em algum lugar da minha cabeça, me trazendo de volta daquela visão interessante. — Se foi apenas comigo que você adotou essa postura. Se eu fui a felizarda no caminho do " senhor não quero ter filhos ". E, caso a resposta seja positiva, então significa que o problema sou eu. É isso? Eu sou o problema, César?

— Não diga besteiras, Fê — respondi, mas não estava olhando para ela. Eu olhava ao lado do rosto dela, para o mímico que agora estava um pouco mais perto. — Eu já disse, não fui feito para ser pai de ninguém. É uma cultura que levo comigo na bagagem.

— Então o que ainda faz comigo? Por que não pega a sua bagagem egoísta e dá no pé?

— Eu gosto de você, — falei, e foi quando o mímico sentou-se ao lado de Fernanda. Ao fazer isso, os pés dele se ergueram numa cômica imitação de exaustão. Meus lábios se contorceram num curto sorriso.

— E por que diabos esse risinho, agora?

— Ora, porque o...

— Ah, esqueça! — interrompeu ela, erguendo uma das mãos e sacudindo a cabeça. Ela estava ficando impaciente, conhecia bem Fernanda Sanches. Ela nem estava dando importância para o sujeitinho magricela e vestido de preto ao lado dela.

Eu pensei em me levantar e apertar a mão do rapaz ( uma maneira clara e desesperada de desviar o rumo da conversa ) mas então Fernanda pareceu ter a mesma ideia que eu.

Ela virou o rosto para o lado e para minha surpresa não disse nada. Ficou apenas olhando para o outro lado, os cabelos castanhos voando na direção dos meus olhos.

Por um instante, ela parecia estar admirando o mímico ao seu lado ; era como se olhasse para além da maquiagem e visse um homem bonito, talvez até um artista de teatro, alguem que estivesse apenas ensaiando para uma peça qualquer que aconteceria no próximo fim de semana.

Seria ele o " outro " que lhe daria um bebê? O mesmo que ela disse com ênfase no telefone ao falar com a mãe?

Se não for César será com outro, ela disse aquela vez e eu só pude ouvir e depois abrir a geladeira e pegar uma cerveja.

E foi quando os meus pensamentos estavam se perdendo que finalmente consegui notar. Era uma maluquice, mas pude perceber mesmo assim.

Fernanda não estava enxergando o mímico ao lado dela.


4


Eu só consegui perceber tal coisa depois que vi o sujeito olhando não para ela, mas através dela. Era quase como eu estava fazendo um instante atrás.

Os olhos dele estavam em mim. Apontados para os meus. E vou falar que não foi a melhor sensação do mundo.

Eu via apenas dois buracos negros num mundo de maquiagem branca. Os cabelos dele eram curtos e tinham uma repartição bem no meio. O batom vermelho lhe deixava com um sorriso sangrento, como se tivesse acabado de devorar uma pessoa. Na ocasião foi exatamente o que eu pensei, e aquilo me deu um arrepio.

— Fê? — chamei. Acreditava que ela poderia estar vendo o sujeito, mesmo que minha cabeça dissesse o contrário.

Ela virou o rosto para mim.

— Que é?

— Você poderia... — fui dizendo, após ter pensado em algo que eliminaria a minha dúvida. — Poderia sentar um pouco mais para lá. É que está começando a bater o sol aqui e está quente pra burro.

A minha esperança ( e eu estava agarrado nela como um cachorro tentando transar com a perna de alguém ) era de que ela me olhasse com aquela cara de indiferença que ela adorava me mostrar as vezes e dissesse : não vê que tem um homem aqui do meu outro lado, querido? Você é cego ou é burro mesmo?

Só que Fernanda Sanches não falou nada disso. Ela apenas olhou para o meu ombro, viu que o sol já começava a me beliscar porali e afastou o traseiro um pouco mais para o lado. Ela teria sentado no colo do mímico se houvesse um ali.

Meu coração passou a dar murros no peito quando vi que ele estava diante dela, com um dos joelhos escorados no chão. Parecia estar diante de uma criança. Ele olhava para ela com aqueles olhos sombrios, depois olhava para mim. Sorria enquanto fazia estes movimentos. Em algum lugar bem distante em minha mente — talvez onde o pânico ainda não houvesse chegado — aqueles movimentos me fizeram lembrar de alguém assistindo à uma partida de tênis.

— Você está menos enjoada, Fê? — eu perguntei. Só que não olhava para ela. Olhava para o mímico. Não tinha como não olhar.

— E isso importa?

— Porra, aliviou ou não?

O rosto dela se virou para mim, pronta para me fazer se arrepender de ter nascido, mas então outra coisa deve ter chamado a sua atenção.


O mímico! Pensei. Ela finalmente viu o sujeito. Ou já o tinha o visto mas não estava nem aí, assim como costumava fazer com alguns amigos meus.


— Por Deus, César, você está bem?

Era para o meu rosto que ela olhava. Fiquei desapontado e logo em seguida uma preocupação começou a escalar o meu corpo pelos calcanhares. Ela havia percebido que eu não estava bem. E eu não saberia lhe dizer o porque.

— É claro que estou bem. É você quem está enjoada, não eu, Fê.

— Não. Você parece que viu um fantasma.

Então algo me ocorreu. Tirei o boné e passei uma das mãos na cabeça. Senti os dedos se umidecerem de suor. E não, não era pelo calor. Foi ali que descobri que o medo te faz transpirar.

— É este calor, — menti, ainda segurando o boné. — Olhe, você não quer dar uma caminhada?

— Para você cair desmaiado na minha frente? Não, vamos esperar a sua cor voltar, pelo menos.

Comecei a abanar o boné diante do rosto. Enquanto o fazia, não parava de encarar o mímico. Ele continuava exatamente como antes ; um dos joelhos apoiado no chão, os olhos dançando de Fernanda para mim e de mim para Fernanda. Mas havia algo de diferente.

O sorriso. Ele parecia mais arreganhado, como se estivesse se divertindo com alguma coisa, alguma coisa que eu ainda não sabia o que era.

Parecendo perceber isso ( ou simplesmente para compartilhar o seu sentimento de felicidade ) o mímico ergueu as duas palmas das mãos para mim num claro sinal que pedia para que eu esperasse um pouco.

Uma menina de uns seis anos passou correndo por trás dele gritando e apontando para alguma coisa do outro lado da praça. Ao ver aquilo Fernanda sorriu. O mímico nem sequer deu importância.

Ficou de pé e com um dos braços fez um movimento circular diante da própria barriga. Ele sorria enquanto fazia aquilo. Se fosse uma prova de adivinhação, eu teria acertado aquela facilmente. Era a clara imitação de uma grávida. Eu quase abri a boca para lhe indagar quando, inesperadamente, ele puxou um prego enferrujado do bolso traseiro de suas calças com a outra mão. Ele sorriu, ergeu as sobrancelhas e espetou a própria barriga com o prego. Ouvi um estouro como se uma bexiga houvesse explodido e cheguei à dar um pulinho no banco. Fernanda não percebeu e na hora eu fiquei agradecido.

O mímico então puxou sua camiseta para frente e confetes coloridos caíram dali. Ele tapou a boca com uma das mãos, como se tivesse feito alguma travessura e depois apenas abanou para mim com a sua outra mão. Pensei em retribuir o gesto e não cometi aquela burrice, graças a Deus. Fernanda não só acharia que eu estava louco. Ela teria certeza.

Acompanhei o mímico se afastar aos poucos, saltitante, uma visão cômica da minha própria sanidade se despedindo.

Ele cruzou por diversas pessoas ( se desviou de todas elas, por alguma razão que até hoje eu não faço ideia qual seja ) e sumiu depois de dobrar por um corredor de árvores. Tive a impressão que ele ainda olhou para mim e abanou, mas não posso afirmar com certeza.

— Acho que já podemos ir andando, Fê — disse, já me pondo de pé.

— Bem, sua cor parece ter voltado pelo menos.

Estendi a minha mão para ela e ela aceitou. Ainda nos dávamos bem naquela época, apesar das brigas. Não tão bem como deveríamos, mas era o suficiente para mim. E acho que para Fernanda também, no fim das contas.

— Mas o que raios houve com você? — ela me perguntou, enquanto começavamos a caminhar.

— O calor, Fê. Deve ter sido o calor.


5


Não sei se ela acreditou em mim naquela tarde ( creio que sim ) mas cerca de dois meses depois Fernanda entrou em casa quase aos prantos e me abraçou com tanta força que se não fosse a parede eu teria caído.

Eu lhe beijei a testa e perguntei se estava tudo bem. Foi só então que vi que ela não apenas havia começado a chorar, como estava sorrindo também.

— Está tudo ótimo! Eu estou grávida, querido. Gravidíssima!

— Você tem certeza disso? — eu juro que tentei não parecer desagradável, mas acho que alguma coisa no meu tom de voz acabou me entregando.

Fernanda se afastou um pouco e outra vez os seus olhos estavam querendo me matar.

— Não é dor de barriga como você gostaria, César. É um bebê. Seu bebê, também. Por mais que isso lhe incomode.

— Não, isso não me... — mas ela já estava indo para a sala.

Eu fiquei aonde estava, olhando em volta tentando encontrar uma explicação. Só que não iria encontrar nenhuma. Estava feito. Eu havia colocado a minha sementinha na barriguinha dela e fim de conversa.

Eu poderia alegar que não era meu, mas... isso teria sido uma covardia. Não havia qualquer possibilidade daquele fruto não ser meu. Fernanda poderia ser uma mulher rabugenta ( talvez até o que as pessoas grosseiras costumam chamar de " chá de merda " ) mas infiel não era compatível com o seu caráter. E eu confiava nela.

Enquanto estava de pé, escorado na pia da cozinha, comecei a desenhar na minha cabeça como seria o cenário dali para frente.

Os enjôos que Fernanda teria. Os desejos malucos que toda grávida costuma ter. As visitas cada vez mais constantes dos familiares dela ( os meus, apenas Renan e Diogo, meus irmãos, moram longe demais para se importar ) e um pouco mais adiante os gastos com toda a preparação para a chegada do pequeno Magalhães ou da pequena Sanches. Então eu seria cobrado para ter mais dinheiro. Porque o meu salário como ajudante de carga e descarga no frigorífico CARNE BOVINA E SUÍNA DOS IRMÃOS GOUVÊA não era lá essas coisas.

Eu certamente ouviria coisas do tipo : eu disse que ele não era homem para você, diria a mãe dela, a senhora Lourdes Sanches que à mim lembra facilmente uma coruja por causa daqueles olhos enormes.

Eu sei, mas agora que engravidei desse paspalho, não tem outro jeito, diria Fernanda, sempre sacudindo a cabeça num lamento sem fim.

— Puta que pariu, — falei para a cozinha cheirando a fritura.

E foi só o que consegui dizer.


6

Os dias que seguriam tiveram altos e baixos, todos eles sempre com aquela sensação de que nós só continuavamos juntos por causa do que estava crescendo na barriga dela.

Em tese não era de tudo verdade ; não creio que bebê algum segure um casamento, mesmo que hajam inúmeros casos que provem o contrário.

E Fernanda não era do tipo que precisava de um homem para sobreviver. Ela sabia se virar muito bem — mesmo eu achando que o sonho dela sempre fora encontrar um bastardo rico em algum lugar porai.

Mesmo assim, nós continuavamos juntos. Ela ligando cinco vezes por dia para a mãe ( nenhuma palavra sobre estar junta de um paspalho, isso tenho de admitir ) e eu chegando do trabalho sempre com as costas doloridas e a cabeça doendo como se houvessem batido nela o dia inteiro com um pedaço de pau.

Depois eu tomava um banho ( quase uma hora dentro do banheiro, pensando em que eu havia me metido enquanto a água escorria pelo meu corpo ) e saía de lá com a expressão de um sujeito sem esperanças, iguais aqueles que saem de uma entrevista de emprego onde sabem que não vai adiantar ficar esperando a ligação em casa. Encontrava Fernanda deitada no sofá com a mesma expressão que a minha, olhando para a tevê como se ali dentro daquela caixa preta houvesse a salvação de nossas vidas. Ou pelo menos da dela.

Então eu me sentava na poltrona segurando uma lata de cerveja e também tentava encontrar o mesmo dentro da tevê.

Levavam horas para que ela me perguntasse alguma coisa. E quando perguntava o que saía era o já conhecido roteiro de um relacionamento em crise : como foi o seu dia no trabalho hoje? O que na verdade significa : só estou fazendo a minha parte. Não me importa o que aconteceu com você hoje na porra do trabalho.

E assim Fernanda ía para cama. Levantava com uma preguiça daquelas, saía arrastando os pés como se já estivesse prenha de uns oito meses e se atirava na cama com um resmunguinho para acompanhar.

Eu só ía para o quarto tempos depois. O suficiente para saber que ela já estava dormindo, digamos. Eu não queria mais trepar. Não que eu não achasse Fernanda atraente ( ela era uma mulher sexy, com belas pernas e um par de seios de fazer o pau ficar duro na hora ) mas era complicado. Ela estava grávida. Tinha uma coisinha ali dentro e eu não conseguiria fazer nada, tipo isso. Só de imaginar a coisa toda eu já brochava na hora.

E ela sabia que eu estava evitando. Fernanda não era ingênua. Alguém que perdeu a virgindade aos treze anos atrás da escola com um cara chamado Mauro sei lá o que não podia se chamar de ingênua. E tudo foi indo assim naquele mês, aos tropeços, como um bêbado tentando voltar para casa.

Uns dias depois ela foi levada às pressas para o hospital. Ligaram para o meu emprego para avisar. Eu tentei demonstrar preocupação, mas creio que não tenha me saído muito bem.

Eu não sei explicar o que houve. Porra, nem o médico soube. Ela simplesmente perdera o bebê.


7


Duas semanas depois nós decidimos nos separar.

Ela voltou para a casa da mãe na capital e eu continuei na casa que antes chamávamos de nossa.

Não houve discussão alguma ( e isso foi uma surpresa para mim e tenho certeza que para ela também ). Nós estávamos por um triz antes mesmo da gravidez aparecer e acho que de certa forma nós tentamos prosseguir unicamente pela criança. A coisa que mais me perturba ainda nos dias de hoje é o fato de saber exatamente o que aconteceu.

Porra, eu fui o único que o vi. Ele estava do lado da Fernanda e ela não sentiu nem o suspiro dele. Depois ele me mostrou a barriga e espetou ela com aquele prego enferrujado. Uma travessura daquelas, sem dúvidas. Eu não sei como ele sabia. Não sei como poderia saber, a não ser ( que é a minha sugestão e apostaria alto nela ) que eu estive diante do próprio diabo naquela tarde.

Eu apenas pensei nessa hipótese há um bom tempo e ainda penso até hoje. Aquele mímico sabia de tudo. Sem dizer uma única palavra ele me assombrou durante vários verões, mesmo sem nunca mais tê-lo visto depois daquela tarde. O que vou dizer pode parecer cruel, mas minha vida só melhorou depois de tudo.

Eu encontrei um emprego novo onde recebo o triplo do que recebia antes. Nada mais de carregar carne nas costas ; agora eu comando um pessoal numa loja de departamentos de higiene. Lugarzinho bom de trabalhar. Eu estou reformando a minha casa e ela está ficando com a minha cara, como diria o meu velho pai.

Também conheci Ana Muniz. Ela é secretária de um advogado bacana que atende no centro da cidade. Ela tem quinze anos à menos do que eu e, veja só, não quer ter filhos. Ao menos não por enquanto. É um desejo distante que espero não partilhar, sinceramente.

De vez em quando a senhora Lourdes Sanches me telefona para ver como tenho andado e falar sobre a Fernanda. A coitada encontrou um novo namorado ( o " outro " à qual ela tanto se referia ) e já perdeu outros três bebês no meio do trajeto. Aquele prego enferrujado do mímico é de fato poderoso.

Ontem mesmo conversei com a senhora Lourdes por alguns minutos. Ela me disse que a Fernanda estava grávida outra vez e me pareceu estar chorando. Como eu já havia dito, eu não sou um homem ruim. Desejei sorte para ela. Mas duvido muito que irá funcionar. Aquele prego enferrujado é um bocado poderoso.

July 17, 2019, 12:11 a.m. 2 Report Embed 2
The End

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Rafael Reis Rafael Reis
Eu gostei mas também esperava mais coisas do mimico.
3 days ago
Tiago Líreas Tiago Líreas
Acho que o mímico teve menos relevância na história do que deveria, pra ter o nome literalmente estampado no título.
3 weeks ago
~