Belum Arammu Follow story

u15514544731551454473 Luiz Fabrício Mendes

Um novo jovem astro do pop emerge... Mas, quando uma fã ensandecida começa um apocalipse zumbi, ele descobre que pode ser mais que aparenta ser.


Fantasy Epic Not for children under 13.

#mitologia #lenda #mito #Mesopotâmia #Babilônia #Suméria #Sumérios #Mesopotâmica #Epopeia #Gilgamesh #Ishtar
Short tale
0
3355 VIEWS
Completed
reading time
AA Share

Capítulo Único

Belum Arammu


Conto inspirado na mitologia mesopotâmica, originalmente publicado no ebook "Deuses", da Editora Infinitum Libris.


I love you, babe!

I love you, babe!

I could steal the Tree of Life for you…


A voz do jovem cantor ecoava pelo estádio lotado, a agradável entonação sendo intensificada pelos fortes alto-falantes. Um frenesi de luzes era projetado sobre o palco e a imensa multidão diante do mesmo, banhando em todas as cores do arco-íris tanto as faces das frenéticas fãs do astro – que gritavam delirantes – como a delicada face deste, quase tão alva quanto giz. Os cabelos loiros estavam empapados de suor, mas tal fato não tirava do ídolo musical adolescente seu apelo entre as garotas. Vestindo roupas despojadas e lançando beijos para a platéia, o rapaz se despediu agradecendo junto ao microfone, ao mesmo tempo em que as guitarras e a bateria da banda que o acompanhavam a cada apresentação gradativamente se silenciavam.

Ignorando as garotas que desmaiavam em meio à aglomeração tanto de emoção quanto por conta do cansaço causado pelo show que se estendera por horas a fio, o astro pop desapareceu numa cortina de fumaça pirotécnica, ganhando os bastidores com os músicos ainda lançando suas últimas notas ao fundo.

Alguns empregados da trupe de sua turnê mundial vieram rapidamente ao seu encontro. Uma tímida menina de avental branco, não muito mais nova do que ele, trazia-lhe uma garrafa de água mineral numa bandeja. Um homem uniformizado já de certa idade, responsável por boa parte do que ocorria atrás do palco, recebeu seu microfone. E, em meio aos dois, logo apareceu a familiar figura de um homem um tanto obeso, careca e sempre metido num terno negro de grife. Seu fiel empresário, o senhor Enk.

- Belo show, Gil, belo show! – ele era só elogios, como de costume. Trazia, naquela ocasião, o exemplar de um conhecido jornal numa das mãos. – As manchetes não mentem! "Gil Amesh faz Justin Bieber parecer cantor de chuveiro entre o público teen"!

- Hã? – replicou o ídolo, passando uma das mãos pelos cabelos e sorrindo numa expressão de deboche. – Quem diabos é Justin Bieber?

Enk riu da piada – e o astro não soube determinar se o fizera por ter achado graça, ou apenas para bajulá-lo.

A carreira do jovem cantor mostrava-se, até o momento, meteórica. Alguns meses atrás lançara o single "Uruk", antes disso constituindo completo desconhecido. Sua ascensão dera-se de forma intensa e vertiginosa, com o garoto de dezessete anos logo ilustrando as capas de todas as revistas adolescentes, sendo por elas agraciado com o título de "Senhor do Amor" – por sinal, nome de uma de suas músicas. Até os mais críticos reconheciam que sua voz era estupenda, divina – parecendo até dádiva concedida por força exterior à Terra. Já o nome artístico fora idéia de seu empresário: "Mattween Jones" não era lá um nome muito impactante para um ídolo pop; além do que, poderiam acabar confundindo-o com uma outra "Jones" que havia no meio. "Gil Amesh" soava exótico, era algo oriental – e coisas assim andavam na moda entre os jovens. Se bem que Gil não sabia dizer se essa alcunha vinha da mesma parte do Oriente que os mangás e animes...

O cantor adentrou seu camarim, acompanhado de perto por Enk. Tomando um gole da água mineral, o jovem acomodou-se na cadeira presente diante de um espelho iluminado, enquanto usava a outra mão para enxugar o suor de sua face com uma toalha. Ansiava por um banho, mas antes tinha de ouvir o que o empresário tinha a lhe falar. Ele sempre precisava falar algo.

- Diga! – Gil cedeu-lhe a palavra sem muito entusiasmo.

- Nesta madrugada tomaremos o jato às três e meia rumo ao México. O fã-clube de Acapulco enviou uma série de presentes. A maior parte é comida.

- Ótimo, adoro tacos! – riu o astro. – Algo mais?

- Aquela fã misteriosa enviou-lhe flores novamente. É o trigésimo sétimo buquê em um mês. Ainda se recusa a ter um encontro com ela? Poderia ser bom para sua imagem na mídia. Até vejo os tablóides: "Gil Amesh realiza o sonho de uma fã".

- Está brincando, né? Essa mina só pode ser doente! Por enquanto nós apenas a ignoramos, mas já estou ficando com medo. Vai que ela decide dar uma de fã do Lennon. Ligue pra ela e mande ela parar de enviar coisas!

- Mas, senhor... – Enk parecia, por algum motivo, mais inseguro do que deveria.

- Que foi? É só uma fã. De onde saiu essa, há outras milhões. Não vai nos fazer falta, garanto.

- Bem, se assim deseja...

Dizendo isso, o empresário, com ar pesaroso, dirigiu-se até a estante onde eram colocados presentes das fãs do cantor. Dentre um amontoado de fotos, cartas e até peças de roupa íntima, Enk logo apanhou um buquê de rosas vermelhas, arrumado em belo arranjo. O pequeno cartão possuía um número de telefone e a mensagem "De Tharsi para Gil Amesh, com amor e admiração".

- Como é mesmo o nome dela, "Tharsi"? – Gil indagou com desdém. – De onde será ela? Do Iraque?

Sem responder, Enk caminhou até uma lixeira no canto da sala e nela atirou as flores. Retirou em seguida seu celular do bolso e saiu do camarim, enquanto o ídolo se trocava, para fazer a ligação que lhe fora ordenada...


X - X - X


Após o banho, Gil pudera dormir bem pouco até que o horário para a viagem rumo ao México chegasse. Já estava habituado à agitada rotina – portanto não mais se incomodava. Sentando-se na improvisada cama do camarim, acionou bocejando o interruptor de luz na parede. Sala vazia, porta trancada. Logo Enk viria conferir se ele já estava pronto para seguir até o aeroporto, tendo poucos minutos para se arrumar. Estava disposto, porém, a fazer as coisas com calma daquela vez, e o estranho silêncio do lado de fora o motivou a abandonar a pressa. Levantou-se, calçou as meias e ligou a pequena TV existente no recinto. Àquele horário os canais costumavam transmitir programas impróprios para menores – e nenhum adulto estava por perto para impedi-lo de assisti-los...

- Atenção para o boletim de emergência...

Quê? Parecia que o telejornal ainda não havia acabado, e a mesma coisa se repetia em todos os canais. Gil passou a alternar-se entre eles, constatando que todos exibiam reportagens ao vivo pelo mundo. A sonolência foi passando, e logo o garoto pôde identificar as paisagens de Paris, Cairo, Nova York... mas todas com vários focos de incêndio, pessoas correndo aos gritos pelas ruas e polícia mobilizada. Achou estar dentro de um pesadelo tragicômico quando leu o título da maioria dos boletins:

- Os mortos andam?

Os repórteres desesperados apontavam para pessoas com sangue em suas roupas e partes do corpo faltando que, movimentando-se como sonâmbulas, atacavam cidadãos por todo o globo ao vivo. As tomadas em tempo real se confundiam com vídeos de câmeras de segurança mostrando cenas como os cadáveres de um necrotério acordando ou um defunto destampando seu próprio caixão durante um funeral. O pior era que as pessoas atacadas pelos mortos canibais se levantavam pouco depois convertidas em mais deles. Nas poucas horas em que Gil dormira, o fim do mundo aparentava ter se iniciado a todo vapor!

Súbito, a porta do camarim foi aberta num estrondo. O rapaz, coração disparado, voltou os olhos para fora, temendo que os zumbis o houvessem encontrado. Mas tratava-se apenas de Enk, e ele estava... vivo. Se bem que, com as vestes ensopadas de suor e o olhar totalmente transtornado, apresentava-se em estado que o jovem nunca vira antes.

- Você sabe o que está aconte...

- Gil Amesh! – bradou o empresário, olhos arregalados e respiração ofegante. – O que você fez?

- Eu? Eu não fiz nada! Algum vírus que fez... sei lá!

- Aquela fã... não era uma fã qualquer!

- Como assim?

Trêmulo, Enk ajoelhou-se junto à lixeira, conferindo mais uma vez o bilhete junto ao buquê desprezado... "Tharsi". Anagrama, um passatempo dos povos antigos...

- Ishtar – ele concluiu num tom sério. – Deusa Ishtar.

- Do que está falando, Enk?

O empresário suspirou e respondeu:

- Digamos... que seu nome artístico não foi uma mera escolha para seguir a moda!

- Como assim?

- Já ouviu falar de Gilgamesh? Seu xará?

Sim, ele já ouvira na escola, quando o professor de História explicara sobre a antiga Mesopotâmia e suas lendas – não que houvesse ligado muito para isso. O tal Gilgamesh, parte homem e parte deus, era protagonista da primeira história de herói conhecida, registrada em tábuas de argila. Ele buscava a imortalidade ou algo assim. De certa forma conseguira...

- Que tem ele?

- Gilgamesh conseguiu a imortalidade graças a um pacto secreto com o deus Anu. Disso a lenda não fala. A cada geração, Gil reencarna sua essência num novo corpo, assim jamais abandonando o mundo dos mortais. Alguns dos novos nomes dele constituíram personagens de grande importância na História. O primeiro famoso foi Alexandre Magno...

- Como assim, você não pode estar falando sério... Eu sou um deles, então?

- Correto.

- Só pode estar de brincadeira comigo!

- Eu gostaria de estar, meu rapaz.

- E eu não poderia ter dado o fora nessa deusa?

- Ishtar sempre foi apaixonada por Gilgamesh, mas ele a ignorava. Da primeira vez ela pediu ao deus Anu que lhe emprestasse o Touro Celeste para que punisse o meio-deus pela ousadia. Caso ele não cedesse o animal, Ishtar despertaria os mortos para devorarem os vivos. Anu com isso lhe concedeu o Touro, que acabou derrotado pelo astuto Gilgamesh. Ishtar nunca desistiu de seu amor, mas continuou sendo rejeitada por suas reencarnações. Anu sempre lhe emprestou o Touro para se vingar; mas da última vez, na Segunda Guerra Mundial, ele acabou causando destruição demais. Creio que agora Anu tenha negado a ela o animal...

E os mortos despertaram para devorar os vivos. Ótimo. Perfeito apocalipse zumbi.

- O que posso fazer para reverter isso?

- Agora não há escolha: terá de aceitar Ishtar como sua amante. Só isso fará os mortos dormirem novamente!

Quando o garoto deu por si, havia alguém mais na sala. Uma garota de cabelos pretos, pele bronzeada e olhos cheios de delineador. Vestia sobretudo escuro, com botas marrons, e seu ar impunha medo ao ambiente. Sua idade era, aparentemente, a mesma de Gil. Ishtar era uma adolescente ousada.

- E então, meu lindo? – ela inquiriu, voz impositiva. – Aceitará minha gentil oferta?

- Eu tenho outra opção? – o garoto demonstrava medo, algo que contrastava tanto com seu glamour de pop-star quanto com sua dita origem lendária.

- Se quer salvar essas pessoas... – e a garota lançou um olhar traiçoeiro para Enk. – Não.

Vendo-se acuado e suando, Gil também trocou olhares com a jovem Ishtar e seu empresário, antes de finalmente replicar, torcendo para não se arrepender e se esforçando ao máximo em ver o lado bom da situação... Se é que realmente havia um:

- Sim...

Uma namorada para o rei do pop cairia bem, afinal de contas. Divinamente bem.

May 22, 2019, 6:52 p.m. 0 Report Embed 0
The End

Meet the author

Luiz Fabrício Mendes Goldfield, alcunha daquele em cuja lápide figura o nome "Luiz Fabrício de Oliveira Mendes", vaga desde 1988. Nasceu e reside em Casa Branca - SP, local que se diz ter sido alvo da maldição de um padre. Por esse motivo, talvez, goste tanto do que é sobrenatural. Atualmente é professor de História, mas nas horas vagas, além de zumbi, se transforma em agente de contra-espionagem, caçador de vampiros, guerreiro medieval, viajante do espaço ou o que quer que sua mente lhe permita escrever.

Comment something

Post!
No comments yet. Be the first to say something!
~