Zéfiro e Volúpia Follow story

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Por vezes é preciso sonhar, arriscar uma viajem em busca da felicidade, mesmo que não a atinjas. (Seek the impossible, perhaps it will marvel you)


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#procura #limite #céu #mar #eternidade #conto #sonho #amor
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Zéfiro e Volúpia

ZÉFIRO


O dia estava quente, apesar de um pouco constipado, pois, de quando a quando, espirrava uma ventania.

Lá fora, o homem virou a esquina em passos largos e deixou-se devorar nas entrenhas do bar mais próximo.

Chegou-se ao balcão, despiu vagarosamente o seu pesado casaco de escamas de atum e ordenou ao velho corvo, que já só tinha um olho, uma garrafa de asa pura.

Despejou dois dedos de asa na taça que era um búzio e engoliu tudo de um trago.

Sentiu-se lindamente e hidratado.

Num gesto vigoroso, fez embater sobre o tampo de ostras polidas, a taça que era agora uma concha, transformando-o em uma onda deslizante, que percorreu o balcão de uma ponta à outra, até rebentar, perfumando o ar com um intenso cheiro a maresia.

Ali se manteve por uns momentos, sem se mexer, seguindo com os olhos o atarefado corvo por detrás do balcão. Ao fundo, uma voz amarfanhada ecoava de uma velha jukebox que nem sempre funcionava.

De subito, sentiu um ligeiro tremor seguido de um violento espasmo, que quase o atirou ao chão.

Tentou-se equilibrar, apoiando uma mão ao tampo e curvando-se ligeiramente para a frente. Sentiu cavalgando, a metamorfose correr-lhe no corpo, acelerando-lhe a respiração e fazendo pular o coração.

Por fim, após uma coreográfica dança de convulsões, despontou a primeira asa, dourada e bela.

Esperava a segunda asa, pois sem par não poderia voar, ou voaria talvez torto, e o céu, que é sensível, não iria gostar.

Enquanto esperava pediu à velha ave zarolha, um shot de harmonioso amor natural, que veio servido na casca de um mexilhão.

Ao fim de um instante, rebentou a segunda asa, enorme e magistral. O mexilhão tomou a forma de uma estrela do mar.

Disse adeus ao barman e recitou um vigoroso poema aos demais, que bebiam alarvemente raiva visceral.

O céu estendia-se rosa sobre a sua cabeça, chamando-o com toques em forma de festas no seu cabelo comprido.

Olhou a estrada que à sua frente se fazia, e nela correu, como um Pégaso alado, saltitando de queixo levantado e costas inclinadas.

Lá longe, bateu as asas e beijou a nuvem que lhe pareceu mais bem esculpida.

No ar, o ser das asas voava em acrobacias mirabolantes, desafiando o vento em corridas que não conseguia ganhar, mesmo que as suas asas continuassem a crescer e a sua graciosidade se torna-se imperial.

Ele Brilhava como o ouro a cada vez que o sol refletia.

Sentia-se livre, eternamente apaixonado. O seu pensamento era multi-colorido e sonhava em abraçar a sua princesa magnífica.

No alto aparentava divindade.
Todos os seres aéreos o invejavam e admiravam, e à sua passagem, pediam-lhe festas e abraços.

Quando tinha fome, anjos e dragões traziam-lhe bandejas de nuvens doces, cristalinos pingos de chuva e sucolentas maçãs verdes.

Ia pensando nela e se ainda o esperaria.

Lá em baixo o mar parecia-lhe devorador. Preferia, sem duvida, as asas ao licor de barbatanas. Nunca tinha gostado muito dos prazeres do mar.

Mas as horas correram no teto do mundo, e o tempo foi passando incansável.

O sol, gordo e farto, aliviava-se pelo o seu dia estar a terminar.

As horas quebraram-se em segundos e as asas foram-se pondo tristonhas.

Perdera demasiado tempo na embriaguez dos céus.

Lá em baixo, o mar abriu-lhe a boca em convite para uma cerimónia. Respirou fundo, e a pique deixou-se ir, numa queda sem fim, de encontro à devoradora hospitalidade do oceano.



VOLÚPIA

Do outro lado do Oceano sem fim, a amada era delicada e não gostava de nada, a não ser do homem das asas.

Esperava-o , sentada num montículo de areia, enquanto o comboio passava nas suas costas, devagar, cortando por momentos a paisagem em dois.

Contemplou o horizonte, lá longe, bem no fim do mar, e nele se desejou banhar enquanto esperava pelo seu amor alado.

Estava tão bonito o mar!

Ela era esbelta, de olhos cintilantes, que se fundiam com o cristal da água que ondulava platinada.

Brincava com as ondas, fazendo-lhes cócegas. Elas retribuíam alegres e vivas, salgando-lhe sexo e os seios.

A sua pele eriçava-se de prazer, e as gaivotas piscavam-lhe o olho à passagem para o cais.

O liquido, fresco, arroxeava-lhe a pele, dando-lhe a tonalidade das romãs do Outono.

Neptuno delirava excitado.

Ao fim de um tempo, a doce amada já estava cansada e com frio.

Os peixinhos deixaram de ter graça por cada vez que lhe mordiscavam os pés.

Quis sair, mas sempre que o tentava, vinha uma onda de mansinho, que a abraçava e a devolvia ao Oceano.

Efim entristeceu-se, e de uma lágrimas fez uma pérola, oferecendo-a ao mar para que este a devolvesse à margem.

Depois deu-lhe muitas pérolas.

Mas Neptuno, que se apaixonara, manteve a sua vontade.

Nenhuma pérola o fariam adiar as núpcias.

Bailavam algas sobre as suas costas. Conchas e búzios aninhavam-se nos seus cabelos cor de mel, criando uma sumptuosa grinalda.

Os seus olhos, imensos, olhavam o céu profundo procurando o amante.

A água cada vez mais salgada, turva-lhe os olhos.

O céu ondulava suavemente, fugindo-lhe da vista. Achava-se a flutuar nele, com o ser das asas líquidas.

tranquila, adormeceu no fundo do seu leito a convite do Oceano.



ZÉFIRO & VOLÚPIA


O céu beijou o mar por uma ultima vez, e num abraço eterno, envolvido por ondas e pó de estrelas, desejaram um dia se reencontrar.


(Seek the impossible, perhaps it will marvel you)

Tiago P. Freitas

May 20, 2019, 4:53 p.m. 0 Report Embed 119
The End

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tiago freitas Excepcional amante do maravilhoso, explorador de sonhos e compulsivo leitor de histórias.

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