O Invasor Follow story

guilhermerubido Guilherme Rubido

Sara tomava banho quando um estranho som chega aos seus ouvidos. Sozinha em casa, ela desce até a sala onde vê que a morte agora escorre sangrenta pelas paredes de sua casa. Em uma vã tentativa de contatar a polícia, Sara, trancada no banheiro, abandona a ligação e aguarda a chegada de um terrível assassino.


Short Story Not for children under 13.

#horror #suspense #terror #criaturas #conto #brasil #medo #288 #monstros #cósmico #stephen-king #rei-de-amarelo
Short tale
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O Invasor


Pelo celular apoiado na janela a voz de David Bowie em Starman ecoava pelo minúsculo banheiro que, com seu tamanho, parecia poder comportar não mais do que duas pessoas em pé. Em uma cômica tentativa de acompanhar a música que tocava, Sara cantarolava empolgada. Sua voz esganiçada e desafinada recitando uma língua estranha que Sara acreditava firmemente ser o inglês.

A água escaldante derramava-se sobre seu corpo, fazendo a pele queimar em vermelhidão e os longos cabelos parecerem grudentos e sufocantes em sua cabeça. Sara estava acostumada com esse tipo de banho. Não conhecia o botão da água fria nem mesmo nos dias mais quentes. Além disso, tinha de se conter para que seus banhos não durassem horas. Se a deixassem, ficaria ali para sempre; pensando sobre qualquer coisa. Mas as constantes batidas de seu pai à porta criaram um alarme automático em sua cabeça. Quando tocava, Sara sabia que já era tempo de sair. O que a pressão não faz, pensou ela.

Sara não gostava de olhar para cima durante o banho. Pois, sobre ela, um chuveiro com fios à mostra sorria maliciosamente, como quem diz “cuidado, garota, se demorar muito posso acabar explodindo aqui”. Uma vez Sara lera na internet que chuveiros elétricos eram como caixas da morte prontas para explodir. Misturar água e eletricidade realmente não parecia uma boa ideia aos olhos de Sara. Contudo, deixava para que as pessoas que entendem do assunto falassem sobre isso.

Não bastasse a falta de espaço do lugar, Sara fazia-o ficar ainda mais sufocante fechando a única janela que havia ali. Assim, o vapor da água quente escapava do box mas, sem encontrar alguma saída, espalhava-se pelo pequeno forno que era o banheiro, fazendo com que tudo ficasse embaçado e úmido.

A estranha voz de Bowie prosseguia recitando seu famoso refrão que reverberava pelo ambiente como em uma caverna.


“There’s a starman waiting in the sky

He’d like to come and meet us

But he thinks he’d blow our minds”


Sara acompanhava com entusiasmo quando algo chamou sua atenção. O que ouviu cortou-a como uma lâmina fria. Seu corpo subitamente congelou por inteiro e fez com que toda aquela empolgação se dissipasse com rapidez no ar, dando lugar a uma vergonha e um receio contido. A música de repente se tornou distante e irritante. Ali, com a água deslizando sobre ela, pensou ter ouvido um barulho vindo lá de baixo. Não qualquer barulho; já que se assim o fosse, ela não o teria escutado por conta da música alta e do ambiente totalmente fechado. Foi o som de algo caindo com força no chão. Algo que a fez não apenas ouvir, mas sentir. Sentiu-o pelo vibrar do chão. Foi como quando um martelo vai de encontro com a parede. Quis dizer a si mesma que aquilo era apenas o barulho de seus pais voltando das compras. O som da porta do carro e da casa fechando; as sacolas carregadas com o plástico prestes a se partir sendo colocadas com força no chão. Talvez até mesmo alguém caindo. Porém, sua mente juvenil e alimentada de filmes de terror sobre cabanas desoladas no meio da floresta e espíritos bagunceiros pesou em sua mente assustada. Fazendo com que ela começasse a conjecturar os mais terríveis cenários possíveis: desde arrombadores de porta entrando para roubar a casa, estupradores e assassinos até espíritos zombeteiros.

Tremendo, os dedos molhados tatearam o celular na tentativa de interromper a música. A tela do celular estava embaçada e a água na ponta dos dedos fazia-os deslizar, sem que o celular respondesse aos comandos. Enquanto tentava encerrar a música, Sara pensou que deveria desligar o chuveiro ou ao menos secar as mãos antes. Contudo, seus pensamentos estavam embaralhados. Uma raiva começava a brotar e a curiosidade temerosa apressava-a como se houvesse um chicote estalando sobre suas costas. Enfim, desligou a música e girou a válvula interrompendo a água. O banheiro silenciou-se sem o barulho produzido pelo chuveiro.

Preparando-se para sair do box, Sara ouviu o estrondo novamente. Dessa vez o som foi bem mais forte, reverberando pela casa como se algo bastante pesado tivesse sido jogado no chão. Nua e com o corpo gotejando, Sara aguardou assustada. Paralisada pelo poder do estampido. Em pé no banheiro que era preenchido apenas pelo gotejar final do chuveiro, conseguiu ouvir alguns sons leves vindos lá de baixo. Lembravam um distante arrastar.

Girando com cautela uma chave prata, Sara destrancou a porta do banheiro e saiu para o corredor do segundo andar, deixando o ar frio da casa invadir o banheiro esfumaçado, fazendo com que todo vapor se esvaísse. Seu corpo quente enrijeceu diante da mudança para uma temperatura mais normal. Parada na porta com a toalha enrolada no corpo, Sara hesitante chamou sua mãe. A voz saiu como um ganido fraco: -Mãe? -Aguardou a resposta, querendo ouvir apenas a voz de sua mãe dizendo algo como “Oi, filha, chegamos do mercado” ou qualquer coisa do tipo. No entanto, não foi essa a resposta que obteve, mas sim o completo silêncio perturbador.

Durante alguns segundos, pensou que poderia simplesmente ter ouvido coisas. Deveria voltar para o banho, colocar uma música para tocar e ignorar tudo aquilo. Para sua infelicidade, suas experiências anteriores não permitiam que fizesse isso. Certa vez, quando ainda era muito nova, alguns ladrões entraram na casa de sua tia. Nunca se esqueceu do medo que sentiu enquanto corria para se esconder em baixo de uma cama. O portão da entrada da casa sendo forçado; a gritaria; os pés que corriam de um lado para o outro; o cheiro de mofo da cama velha. A lembrança viva de uma barata escalando seus calcanhares debaixo da cama, as pequenas patinhas fazendo-lhe cócegas enquanto subia. Sara não podia gritar ou se contorcer se não quisesse ser pega. Quando tudo acabou, o pavor dançava nos olhos distantes dos familiares. Desde então, tornara-se uma pessoa, alguns diziam, paranoica com esse tipo de coisa.

Assim, o desejo e a imaginação clamavam por algo que não fosse nada além do vento ou da chuva. Apenas um barulho, e nada mais. Entretanto, tudo isso foi logo despedaçado pela realidade fúnebre e terrível que havia se espalhado pela sala de sua casa e que ela ainda haveria de conhecer. Lá em baixo, a morte escorria pelas paredes.

Com inegável realidade, o som forte de mais outra batida escalou pelas paredes da escada, soprando-lhe o rosto molhado como uma doença pestilenta. Estremeceu diante dele, tendo a confirmação de que seus temores eram, de algum modo, verdadeiros.

Esgueirando-se nas pontas dos pés úmidos, Sara começou a descer lentamente a escada em forma de um “jota”. Seus pés umedecidos deslizando sobre o mármore escuro e frio que formava os degraus. Na virada dos degraus, ela olhou furtivamente para a sala. De onde estava, uma parte do cômodo era tampada pela parede que acompanhava a curva da escadaria.

Apesar disso, o pequeno vislumbre que teve do lugar já foi o bastante. Em uma das paredes, uma mancha de sangue escarlate -junto de outras coisas que Sara não conseguia identificar- deslizava preguiçosamente até o chão, onde, finalmente, se reunia de volta com sua fonte original. Jogado debaixo do rastro vermelho estava o corpo de seu pai. Ali, despejado como se tivesse sido lançado, o corpo estava coberto de cortes e mutilações. A roupa inteiramente rasgada como se mil lâminas o tivessem cortado. Retalhos de roupa descansavam no chão, grudando-se ao sangue pegajoso que escorria do corpo. Metade de seu rosto estava mutilado. E, como uma peça restante de um quebra-cabeça, onde antes havia olho, orelha e cabelo, uma cratera se abria. O pescoço pendia para o lado com um visível amassado na região da garganta. Sara achou que aquilo que deslizava suavemente como um caramujo pela parede ensanguentada acima dele era o restante do rosto de seu pai. Sara não pôde evitar uma forte tontura quando a luz do sol de fim de tarde entrou pela janela e iluminou a cratera no rosto morto do pai. O sangue brilhou forte como fogo e a claridade permitiu um pequeno vislumbre do pouco que estava exposto do crânio cinza.

Não sabia quanto tempo aguentaria em pé. Precisava sentar e respirar antes que um colapso a derrubasse. Enquanto olhava atônita para a violenta cena, o som de batida retumbou mais uma vez pela casa. O som veio pela esquerda, da cozinha. Avançando um pouco mais na escada, conseguiu ver a sala inteiramente. Respingos de sangue espalhavam-se em alguns cantos. Escorriam sobre a tela preta da tv e pingavam dos enfeites da mãe.

À esquerda, a porta da cozinha se abria como um portal para o inferno. Ali, apoiada na arcada da escada, Sara encarou o lugar. A porta permitia ver apenas a entrada da cozinha. O resto estava tampado pelas paredes. Os ângulos e paredes da casa zombavam de Sara, escondendo os acontecimentos como um labirinto. Assim, no chão da entrada, um longo braço preto brincava com o corpo de sua mãe. O que sustentava aquele braço escuro como o mar na noite não estava visível.

Com uma força assustadora, a mão do assassino envolvia o rosto de sua mãe, suspendendo-a preguiçosamente no ar como um brinquedo, para, depois, levá-la com força ao chão novamente, fazendo o som que ouvira no banho ressoar ainda mais perturbador em sua mente agora que sabia que era o corpo de sua mãe que produzia aquilo.

Uma poça de sangue já se formara sob o local em que o corpo era batido, de forma que, toda vez que o braço o suspendia, o sangue se agarrava como um piche carmesim às costas de sua mãe.

Em um momento de loucura extrema, Sara pensou ter visto os olhos de sua mãe revirarem-se em agonia para ela. A ideia de que sua mãe ainda poderia estar viva e sentindo tudo aquilo fez seu estômago revirar. Um cheiro nauseante de morte penetrou suas narinas e o gosto amargo da bile subiu em sua garganta. Sara apalpou desesperada em busca de apoio para não cair, as mãos suadas escorregavam por onde tocava. Apoiando-se na parede, conseguiu conter o forte enjoo que havia se insinuado. As marteladas continuavam vindo da cozinha; ritmadas como um metrônomo. A imagem de sua mãe tirou-a do torpor letárgico em que estava. Tenho que sair daqui. Sua mente repetia em um alerta. Tenho que sair.

Como se farejasse o medo, a mão que erguia o corpo paralisou-se no ar e, pousando-o com leveza de volta ao divã de sangue que havia se formado, recuou apoiando-se no chão, pronta para se erguer e deixar para trás o corpo com que brincava.

Antes que pudesse terminar seu movimento, Sara começou a subir as escadas. Virando-se rapidamente, seus pés ainda um pouco molhados fizeram-na escorregar quando pisou em falso. Limitada pela toalha de banho, seu joelho lançou-se contra a quina de um dos degraus. O choque do impacto percorreu seu corpo e ela teve de conter um grito de dor. O joelho desligou no mesmo instante, latejando com uma dor excruciante. Cambaleando, Sara apoiou as mãos suadas no chão e, arrastando o joelho, escalou apressada a escadaria de quatro. Chegou ao segundo andar, entrou no banheiro, trancou a porta e permaneceu em silêncio. O joelho doía sem parar. Sara mexia-o sem parar, esfregando a mão sobre o local da dor. Atrás dela, não escutava nada. Homem ou mulher, aquilo parecia ter desistido.

Sentada com as costas no azulejo frio do banheiro, percebeu que estava em pânico. Sua mente nublada começava a organizar os acontecimentos na tentativa de entender o que havia ocorrido. As imagens lá de baixo surgiam como flashes macabros. Por um momento, um completo descontrole apavorado ameaçou tomar as rédeas de seu corpo; mas foi logo rechaçado pelo terror catatônico, seguido de uma frieza apática. Apenas sua vida importava. Estranhamente, o medo lhe dera uma carga de frieza obstinada que nunca tinha visto em si mesma. A adrenalina que antes sentia começava a se diluir. Seus sentidos pareciam mais aguçados, dando carga a uma resiliência intensa.

Seus olhos vidrados fitavam os azulejos brancos da parede, úmidos pelo vapor. A audição estava atenta a qualquer menção de aproximação vindo do andar de baixo. Sara levantou seu corpo anestesiado e caminhou -dentro do que era possível naquele cubículo- até a janela onde deixara o celular. Com mãos enrijecidas agarrou o celular e aproveitou para fechar a pequena e única janela que havia no banheiro. A janela interligava-se com o banheiro do quarto de seus pais e, apesar de estar em uma altura elevada, não seria difícil para alguém arranjar uma maneira de olhar por ela; principalmente após ver o tamanho daquele braço. Então, abaixou uma espécie de alavanca e a janela se fechou como uma persiana; deixando ver pelo vidro esverdeado apenas uma turva visão do que era o lado de fora.

Nenhum som se ouvia pela casa. O mundo parecia ter estagnado lá fora. Pensar nos seus pais mortos no silêncio mórbido da sala quase a fez perder novamente o controle. Escondida no banheiro, sentiu-se como no dia da casa de sua tia. A pequena Sara escondendo-se debaixo da cama enquanto o caos se arrastava na superfície.

Sentou-se no chão do banheiro e, com o celular em mãos, discou o número da polícia. Em meio ao silêncio profundo, os longos toques de espera do telefone se tornaram assustadores. Ela esperou. Como o sino de um mal presságio, os apitos ressoavam em seu ouvido. Vinham e desapareciam ao longe, e, quando o silêncio se insinuava, um novo toque começava. O telefone tocou quatro vezes até que alguém do outro lado atendeu.

-Alô, Polícia Militar, com quem eu falo? -A voz feminina era tranquila demais do outro lado, parecendo quase irônica. Sara questionou-se por um momento e tudo aquilo era real. Se havia algum perigo.

Tentou responder a atendente, mas só um arfar fraco saiu de sua boca. Não havia percebido ainda o quanto o choque causado pelo medo havia lhe despedaçado. Tomando novo fôlego e tendo cuidado para manter a voz baixa, ela respondeu laconicamente em uma mistura de sussurro e choro suplicante: -Alg...Alguma coisa matou meus pais. Eles estão na sala. Pr...Preciso de ajuda. Tem sangue por todo lado... Me tranquei no banheiro.

-Senhora, por favor, eu preciso que se acalme. Está bem? Quantos anos você tem? Está sozinha? Tem certeza de que seus pais estão mortos? Preciso que passe seu endereço. Pode me dizer melhor que coisa atacou seus pais? É um homem?

Sara não entendeu as perguntas e a calma despreocupada da atendente a encheu de súbita raiva. A pergunta sobre seus pais machucou-a profundamente. Tem certeza?, pensou, Não. Não quero ter... Mas continuou: -Tenho 19. E, ah meu deus...dói muito dizer isso, mas sei que eles estão mortos. -As lágrimas deslizaram subitamente quando disse isso. Sentiu um aperto forte no coração. Prosseguiu agora com a voz um pouco mais descontrolada: -Aquela coisa que os matou ainda está por aqui; de resto estou sozinha! Não sei se é um homem...é grande demais pra ser uma pessoa. Forte demais... Talvez seja algum primata grande, eu não sei. -Houve um momento de pausa e Sara soube que nem ela nem a atendente haviam entendido essa descrição. Sentiu-se uma idiota e algo dizia a ela que a mulher pensava o mesmo. -Moro na rua Visconde de Ouro Preto, 72. É uma casa, vocês vão ter que pular o muro. Venham logo, pelo amor de deus, moça, por favor!

-Tudo bem, Sara. Agora, preciso que me diga a cor do muro de sua casa. Ele é alto? Tem algum jeito de entrarmos aí? Já estamos envi...

Atônita, Sara pousou o celular sobre o tapete, deixando a atendente falar sozinha no outro lado da linha. Culpava-a por qualquer coisa que viesse a acontecer. Afinal, a mulher não parecia estar levando aquilo a sério; e, se estivesse tentando acalmar Sara, não estava se saindo muito bem.

Parada ali no chão, ela aguardou. Impotente, ouvia o barulho opressivo da coisa pesada e lenta que vinha até ela, cada vez mais próximo, subindo pelas escadas em vagarosas passadas. Os pés produzindo um baque prolongado de sacos de areia pelo chão. Para Sara, cada passada demorada parecia exigir um esforço tremendo; ou apenas o desinteresse monótono daquele que já conquistou sua presa.

Quando os passos pararam no último degrau da escada, o que quer que fosse aquilo começou a se mover pelo corredor. A primeira porta que se via era a do banheiro onde Sara se escondia feito um rato em sua toca. Tinha certeza de que aquilo lá fora não andava. Se arrastava.

Trazendo nova quietude ao corredor, os ruídos rastejantes cessaram em frente à porta. Encolhida contra a porta, Sara pôde ouvi-lo respirar do outro lado. O som a deixou aterrorizada; deu a ela o vislumbre cruel da morte e a certeza da inumanidade daquela presença. Profundo e distante, o respirar de um gigante celestial adormecido ressoava lá fora; uma réplica perniciosa do sonolento canto de uma baleia cachalote nas profundezas do mar.

Hipnotizada pelo canto, Sara sentiu-se submersa. O corpo estremecendo em um horrível calafrio. Suas entranhas transformaram-se em água e a náusea abateu-se sobre sua cabeça. Tudo à sua volta girava em pares. Seu corpo inteiro estava adormecido, anestesiado pelo por alguma coisa. A ânsia subiu-lhe à garganta e, em um espasmo para se segurar, seu corpo se dobrou, fazendo as costas se chocaram contra a porta em um estrondo alto.

Desnorteada, recuou até o vaso sanitário, amaldiçoando-se mil vezes pelo que fizera. Encarou a porta esperando uma investida vinda do corredor. Com o tamanho que aquilo devia ter seria fácil levar ao chão uma simples porta de madeira. Porém, nada aconteceu. Sara o subestimara. Achou que, como um animal esfomeado, ele simplesmente investiria sem parar contra a porta, até que, por força, ela cedesse. Mas o que houve foi o lento girar da maçaneta. Sara viu racionalidade naqueles movimentos. Um abaixar rápido, seguido de mais uma conferida truculenta.

Gozou de um alívio momentâneo por ter se lembrado de trancar a porta. A criatura logo pôs-se a se mover novamente, levando consigo o som das profundezas marítimas. Ela podia escutá-lo andando pelo estreito corredor, arrastando-se pelas paredes e chão -talvez até o teto- como se um oceano vivo e habitado caminhasse por sua casa. Ouviu-o deslizando pelo corredor, adentrando sem pressa o quarto de seus pais e passando até o banheiro da suíte, onde parou em frente à janela que Sara havia fechado.

Ao passo em que ele se aproximava, Sara levantou-se. Com o corpo ainda adormecido, entrou dentro do box e, apoiando-se com as costas na parede, escondeu-se da vista da janela. As costas contraíram-se em contato com os azulejos frios da parede. Encostada ali, estava em um ponto cego à direita da janela; seria difícil vê-la. Ainda tinha uma chance. Iria aguentar em silêncio até que a polícia chegasse e a resgatasse. Afinal, dera todas as informações necessárias para a mulher. Não dei? Falei o número da casa? Não lembrava mais. Talvez simplesmente pensem que foi um trote. Preferiu não pensar muito aquilo. Deixou a esperança de um resgate permanecer. Além disso, a janela estava fechada. Só poderia ser aberta por dentro. Estava segura. Ao menos por enquanto. Mais uns cinco minutos e a polícia apareceria.

Contudo, seu ponto de segurança foi dizimado tão rapidamente quanto sua confiança e o arremedo de coragem que nutria. Por uma ínfima brecha entre o vidro, a criatura fez algo que seria impossível para um humano. Com um membro negro e gelatinoso, contorceu o que devia ser a mão pela fresta. Como se tivesse vida própria, a disformidade farejou à sua volta feito uma cobra. Debatendo-se em espasmos frenéticos, avançou até a alavanca que abria a janela e, envolvendo-a tal como uma serpente envolve sua presa, abriu-a com facilidade.

Sara não teve reação. Estava paralisada pela forma abrupta como suas esperanças foram destroçadas. Poderia ter batido na coisa, segurado a janela, mas não teve a coragem necessária. Já estava muito além de qualquer ato heroico; ainda que fosse por sua própria vida. Desnorteada, vagava loucamente pelo mar da impotência. Agora percebia que a porta trancada não era um impeditivo para aquilo. Era apenas uma brincadeira tenebrosa.

A horrenda mão sumiu, escorregando de volta pela janela por onde viera. Deixando atrás de si apenas um rastro mórbido e o repouso que antecede o horror.

De seu ângulo, Sara conseguia enxergar apenas a parede do banheiro dos pais. Seu corpo suava e as mãos agarravam com desespero a parede. Esforçando-se ao máximo para grudar-se à ela.

O ambiente ordinário que a janela ostentava logo deu lugar a uma cena abominável. Como a silhueta negra de um vulcão titânico, uma figura arrebatadora ergueu-se diante da pequena moldura. Sua sombra escureceu o banheiro por completo. Metade de seu corpo estava escondido pelo vidro esverdeado. Pelas aberturas, olhou para dentro do cômodo onde Sara se escondia e, como uma sentinela, um olho pulsante vasculhou o ambiente. Seus traços demonstrando completo desinteresse. A pupila mexia-se em um movimento pendular, dançando da esquerda para a direita, até que, em um ângulo bizarro diagonal, a pupila vazia e insana encarou de soslaio uma Sara apavorada. Vidrado, o olho emoldurado por uma cara indescritível de primata encarou-a silenciosamente. Olhou para dentro do banheiro da maneira como Deus olharia para a Terra. Do jeito que uma criança olha para dentro de uma casa de boneca por uma imitação de janela. Paralisada sob o olhar de uma serpente, Sara aguardou seu fim.

***

As luzes vermelhas e azuis das sirenes refletiam-se em giros pelos prédios e casas à volta. Rostos curiosos debruçavam-se pelas janelas para tentar ver o que havia ocorrido. Alguns vizinhos tinham descido de suas casas até a rua para chegar mais perto e compartilhar informações. Nem todos eram sinceros. Um ou outro vinha acompanhado de um cachorro na coleira com a desculpa de “ei, eu estava passeando com ele e acabei vendo os carros da polícia”. Havia também os fumantes que, de repente, despertavam ávidos por um trago na janela. Os murmúrios corriam entre os espectadores. Uma senhora raivosa bradava para todos que vários gritos tinham acordado ela e seu cachorro. Ninguém mais os ouviu.

-E então, o que aconteceu lá dentro, chefe? -Perguntou o jovem que, pelas espinhas e a penugem que chamava de barba, não devia ter mais que 24 anos.

-Sinceramente, eu não sei, garoto. Havia sangue por toda parte na sala. Parece que o pai da garota foi morto lá; talvez espancado e esfaqueado até a morte. Eu não sei. Pra falar a verdade, nem quero saber. -Olhou em volta para o bando de gente curiosa que se aglomerava na calçada. Tinha certeza de que nenhum deles entraria na casa sem vomitar. É sempre assim. Estão interessados quando o corpo já está coberto em cima de uma maca. -Seguimos um rastro de sangue que começava na cozinha, subia pelas escadas e ia até o banheiro. O corpo da mãe estava lá. Deve ter sido arrastada pela escadaria ainda viva, tinha marcas na parede, até que foi morta no banheiro. Sei lá, só tô pensando no que vi quando olhei nos olhos deles. Coitados. Não consigo imaginar o que está passando na cabeça daquela menina agora. Ela me contou que ficou escondida no quarto. Ela que nos acionou. Menina inteligente. Vai se dar bem. -Puxou de um dos bolsos um isqueiro Bic e acendeu um cigarro. Seu semblante estava tomado de tristeza.

-Terrível. Já viu muita coisa, chefe, mas essa parece ter te abatido de verdade. Qual o nome da garota?

Deu um trago profundo no cigarro, soprou e falou: -É, terrível. A garota vai precisar de ajuda psicológica por um bom tempo, eu acho. O nome dela é Sara. Mas deixe-a descansar, rapaz, ela vai precisar. Em uma cidade pequena a tv vai ter muito o que dizer por um bom tempo. -Deu outro trago e amassou o cigarro com o coturno.

Em volta, os vizinhos assistiam tudo sem entender; os rostos tornados mascaras fúnebres pela noite e pelas cores que vinham dos carros da polícia. Olhavam sem saber que estavam diante de algo muito maior.






























































































































May 22, 2019, 12:19 a.m. 2 Report Embed 125
The End

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HunterPri Rosen HunterPri Rosen
Eu tô impactada, Brasil O_o Sei nem o que comentar, sério hahahhahaha Mas vamos lá! Adorei muito a história e o desenvolvimento foi perfeito do começo ao fim. A cada parágrafo a tensão aumentava, o medo pela Sara ia ficando mais acentuado e as descrições (tanto dos acontecimentos, sensações da protagonista diante da ameaça e do próprio invasor super bizarro) ditaram um clima de horror supimpa de maravilhoso! Tenho que dizer que me identifiquei com a Sara no banho, canto, demoro e faço minha sauna particular hahahhahahah E quando ela subiu a escada e se trancou no banheiro, só consegui lembrar do filme Pânico, quando falam que a mocinha sempre foge escada acima ao invés de sair pela porta da frente. Tá aí a Sara, dando o exemplo mais uma vez (mas também na hora do medo, vai saber o que a gente não faria, né?) Parabéns pelo conto fabuloso! Com certeza lerei suas outras histórias, sua escrita é muito envolvente, as tramas excelentes, fui conquistada *-* PS: Como ouvir David Bowie depois desse conto? Arre égua...
1 week ago

  • Guilherme Rubido Guilherme Rubido
    Que ótimo! Fico extremamente feliz em saber que você está gostando dos contos! Só posso agradecer pela sua leitura. Acho que a Sara deu o seu melhor. Afinal, o que fazer quando um ser inconcebível vem te visitar? Acho que a maioria se sentaria em prantos, haha. Agora, sempre que ouvir Bowie, lembre-se do Starman. Ele vai estar lá, te olhando de algum lugar distante. Mais uma vez, obrigado. 1 week ago
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