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dandelleon Alisson Ramos

Antes do Tratado pelos Direitos Ômega, desenrolou-se uma época em que tanto Alfas quanto Ômegas eram caçados como animais. E, anterior a um passo grande da evolução, pode se dizer que eles realmente eram bestas. Mas pode ter certeza, nada disso está escrito nos livros de história. Yuri Plisetsky, recém descoberto um dos únicos Ômegas livres, conhece Otabek Altin, o homem que pode representar a eterna liberdade para os Segundos - ou sua eterna perdição.


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#yuri #yoi #yurionice #otabek
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I saw him playing the piano

É de conhecimento geral que os bares no centro da cidade fedem a cigarro, whisky barato e sangue.

"Foi um massacre."


"Vocês viram os corpos?"


"Não deixaram pedra sobre pedra."


Sempre cheios dos mais variados tipos de pessoas. Pobres ou ricas, simples donas de casa, trabalhadores, ladrões — especialmente esse último tipo. Iam para conversar, se embebedar, esquecer as dores do dia até que entrassem em coma alcoólico ou um funcionário fosse obrigado pelo chefe a chutá-los para fora do estabelecimento.

Em ambos os casos, não era uma cena bonita de presenciar. Principalmente se algum policial estivesse por perto. E, caso estivesse perto demais, podia acabar se sujando de sangue e vômito do bêbado infeliz. Nesse dia específico, sangue.


"As famílias devem estar devastadas..."


Um dos melhores exemplos dessa descrição é o Madness, um bar um pouco mais afastado da bagunça de carros e do barulho ensurdecedor das massas após um dia cheio de trabalho duro. Instalado há mais de vinte anos ao lado de livrarias e companhias jornalísticas. É um verdadeiro paraíso de fofoqueiros de plantão e berço de boatos desumanos.


"Soube que eles foram pegos por uma matilha."


Os murmúrios de surpresa coletiva surgiram e transformaram-se em risadas. No balcão se encontrava Hiroko Katsuki, uma imigrante japonesa que possuía mais posses do que altura, e se mantinha informada de tudo que acontecia na cidade. De pequenos casos de adultério e roubos de carteira a assassinos em série.

Com alguns trocados e rodadas de Johnny Walker era possível conseguir todas as versões possíveis da história desejada. Claro que ler o jornal diário era bem mais barato — a mulher sabia bem como convencer alguém a prosseguir bebendo — porém a Sra. Katsuki era bem mais completa e interessante de se ouvir.


"Isso, continuem rindo. Não vão dar risada quando acontecer a vocês, bastardos." Se pôs a limpar um copo agressivamente, sem notar o rapaz loiro sentado à sua frente.


"Disse que foram mortos por uma matilha?" Passou uma nota de dez pelo balcão de madeira escura, e os olhos da outra brilharam. Colocou uma dose no copo e arrastou para ele, que virou de uma vez.


"Cuidado com isso, Yuri. Não quero que volte pra cá arrastado pelos homens do Feltsman. Chega de problemas com a polícia esse mês."


"Sei me cuidar, baba*." Se serviu de outra dose, e Hiroko o encarou com uma careta no rosto. Via no jovem Yuri Plisetsky um filho de certa forma, e como mãe, era seu dever cuidar para que o loiro não se metesse em problemas. "Agora continue, quero ensaiar daqui a pouco."


A Sra. Katsuki serviu a si mesma antes de continuar. Pelas faces coradas da mesma, não estava levando a sério seu próprio conselho. Com o aumento de policiais na área, vários bares estavam fechando pelas medidas rigorosas contra o álcool. Se a japonesa não conhecesse cada um de seus clientes, não andaria com garrafas ilegais de bebidas alcoólicas a mostra tão descaradamente.


"Eu estava conversando com uma das vítimas antes de acontecer. O rapaz dos Hamilton, sabe. Filho único, um bom rapaz. Estudioso." Mais um gole. Dessa vez Yuri se viu obrigado a acompanhar. "Ele estava acabado. Olheiras, pescoço vermelho e manchado, como se tivesse passado horas se coçando, tentando arrancar a pele. Dizia que iriam pegar ele, matá-lo como todos os outros. O chute na hora foi ele estar devendo uma grande quantia de dinheiro, era o mais provável. Não é novidade para nenhum de nós o quanto algumas pessoas devem para os peixes grandes, sabe, garoto? Eu mesma —" Tragou o cigarro e soltou a fumaça para cima. "Tive meus dias de cão por dever para as pessoas erradas. Perguntei se ele precisava de um empréstimo, pelo menos até as coisas se acalmarem e ele estabilizar a suposta dívida."


"Mas os Hamilton tem dinheiro, não? E ele é o único filho e mimado, os pais são idosos. Ele só precisava de um pouco de conversa mole pra cima do pai, conseguir dinheiro e quitar a dívida. Então..."


"Não havia dívida. Quem quer que estivesse atrás dele e dos outros, queria outra coisa. Acontece que dois dias antes, uma das minhas amigas do lado leste sugeriu que alguma raposa tivesse entrado em seu quintal para roubar galinhas. A pobrezinha tem a visão debilitada, ora... Não saberia diferenciar uma raposa de um javali. Aquelas pegadas eram maiores. Mais firmes. E o cheiro... Ugh." Se aproximou do ouvido do loiro com um brilho sádico no olhar. "Eram patas de lobo. Um enorme lobo."


Um barulho de sirenes foi ouvido ao longe, e uma grande agitação se instalou no bar. Hiroko rapidamente chutou uma parte solta do piso de madeira, e em segundos todo álcool havia sumido. Borrifou perfume por toda a loja e, se alguém passasse e visse apenas a frente, só pensaria que era uma casa de chá qualquer.

O disfarce havia funcionado bem desde o início da lei seca, mas a Sra. Katsuki se mantia alerta. Ela possuía um dos maiores estoques de bebidas ilegais da cidade, e seria triste perder tudo por um erro bobo. Além de que o bar era sua maior fonte de renda mensal.

Quando os carros da polícia pararam à frente do bar, Yuri sentiu um arrepio na espinha. Junto dos tiras, três carros de luxo se instalaram em frente ao local. De dentro, homens engravatados e musculosos observavam tudo como falcões.

Hiroko, discretamente, deu um comando para que o loiro chutasse os clientes mais bêbados pela porta dos fundos. Arrumou o xale por cima do vestido preto, algo em seu interior gritava para que não se aproximasse dos homens de terno cor de piche. Eram familiares, com suas gravatas bem apertadas e os símbolos desconhecidos tatuados que desapareciam sob as roupas engomadas e a aura de arrogância que exalavam.

Então seus olhos se arregalaram. Lembrou-se de um ocorrido monstruoso há três verões. Procurou o jovem Plisetsky discretamente, a bile subindo rapidamente pela garganta. Suor escorria pela nuca a medida que as memórias se acumulavam em um bolo vermelho-sangue. Se distraiu tanto em seu próprio desespero que não notou o homem de olhos azuis congelantes se aproximar.


Flashes carmesins atingiram-na como um tiro.


"Boldo", disse simplesmente. Uma alavanca foi acionada no cérebro da japonesa. Aquilo era, supostamente, uma casa de chá. Pôs-se a esquentar a água com cuidado, separando as folhas para a infusão. Um olho no peixe e outro no gato, ficaria atenta às intenções do homem de terno.


Soltou um assobio que poderia ser encarado como uma simples demonstração de felicidade, mas os poucos ouvidos treinados no bar se atiçaram e começaram os movimentos. Tinham códigos específicos para situações assim. A vida nas ruas a ensinara como lidar com pessoas suspeitas. Alguns falsos consumidores se levantaram, anunciando de forma grosseira que iriam ao banheiro. Se estivesse certa, devia achar Plisetsky e tirá-lo dali o mais rápido possível.

Mas assim como os fregueses alcoólatras, o loiro havia desaparecido como fumaça. Tentou não mostrar aflição quando o inspetor Feltsman se aproximou, com o charuto fumacento pendendo dos lábios gordos e rachados. Beliscou um doce de feijão da tigela sobre o balcão, com sorte ele ignoraria o cheiro insistente de bebida em si. Fez uma prece silenciosa, aguardando.


"Sra. Katsuki, Bom dia. Espero não estar incomodando."


"Nunca, Yakov. O que veio fazer aqui?" Hiroko pôs uma xícara de porcelana finamente trabalhada sobre a bancada, em frente ao homem de olhos azuis. O mesmo se mostrou bastante satisfeito, inalando o cheiro delicioso do chá de bordo. "Pensei que estivesse muito ocupado com a investigação."


O velho Yakov sentou-se num pequeno banco, que rangeu com o peso. Rindo, depositou o charuto barato no cinzeiro transparente. Algumas veias saltaram na testa calva.


"Pode falar que estou sendo preguiçoso, Katsuki. Não vou te denunciar ou algo assim por causa de algumas palavras tolas." Hiroko pisou em cima da madeira solta por precaução. Porco velho e bastardo, rindo daquela forma. A matriarca Katsuki se recordava da última vez que ele estivera em seu bar, revirando tudo e arrastando suas crianças para a cadeia. Corrupto igual todo o resto, se deixou levar por alguns milhares de dólares. Soltou todos dias depois, mas o suborno abriu um buraco permanente em seu bolso.


"Então, o que está fazendo, afinal? Devia estar fazendo coisas mais importantes do que checar um bando de desocupados que não fazem parte dos seus." O desconhecido ao lado de Yakov olhou para cima por um momento, ciente da tensão formada. O chá permanecia intocado sobre a mesa, fazendo Hiroko questionar ainda mais seus propósitos. De certo, não era um amante de chá. Curioso.


"Este é um dos pontos que uma das vítimas visitou antes do assassinato. Eu e meus homens estamos apenas buscando por pistas. Claro, não é algo que alguém como você entenderia, Katsuki." A mulher sentiu seu sangue acumular nas faces. Sabia exatamente o que o velho queria dizer. Alguém como "ela". Hmpf.


Para preservar seu bem estar emocional, apenas revirou os olhos e tirou alguns copos da prateleira, limpando-os violentamente. O Sol já se escondia atrás dos milhares de prédios da cidade. A essa hora, os transeuntes honestos se recolhiam na segurança de suas casas. Mas, para pagar as contas e a alta taxa de proteção cobrada por grupos criminosos no distrito, devia manter as portas abertas até, no mínimo, três da manhã. O horário era propício a delinquentes ricos e a parte corrupta da lei disposta a pagar mais alto por um bom drink. E quanto mais bêbados, mais fofocas conseguiria arrancar dos mesmos, dando abertura para mais dinheiro em troca de informações. Era um ciclo sem fim para ganhar dinheiro.


"Certo. Não sei de nada, antes que pergunte. Então mova sua bunda velha para longe daqui, antes que eu..." Antes de completar a frase, sentiu um aperto amigável no ombro.


"Ei baba*, o palco está pronto e as dançarinas estão esperando. Onde estão as chaves do camarim?" O olhar do russo praticamente gritava para que Hiroko dobrasse a língua. Ambos tinham um certo comportamento impulsivo, e vez ou outra deviam lembrar um ao outro do que uma palavra em tom diferente poderia causar.


"Espere um minuto, querido." A mulher dobrou o pano de prato no punho, tirando um molho de chaves do bolso.


"Obrigado. Já separei as mesas." O jovem de olhos esmeraldinos mordeu o lábio, e Hiroko captou suas intenções imediatamente.


"Não, Yuri. Hoje não" Se sentiu triste pelo garoto. Mas não podia arriscar expô-lo com aquele bando de engravatados com olhos de águia rondando-os de forma tão incômoda. Iam fazer algo, tinha certeza. E estava longe de ser bom. Porém, para a eterna alegria de Yuri e danação eterna da japonesa, Yakov Feltsman limpou as cinzas da lapela e soltou a bomba:


"Plisetsky. Meu jovem rapaz, há quanto tempo não o vejo." Deu dois tapas firmes nas costas dele, a estranha expressão dando a impressão de um sorriso. "Como vai o melhor pianista que conheço?"


Hiroko inspirou profundamente, torcendo o nariz para o comentário de Feltsman. De fato, Yuri era um exímio pianista, os dedos finos e bonitos, tão rápidos quanto uma flecha. Vez ou outra, a Sra. Katsuki o deixava se apresentar no bar junto das dançarinas. Atraía um público enorme. Ás vezes, a japonesa achava que aqueles marmanjos cheios de malícia não estavam lá apenas para ver belas mulheres dançando, ou pela cerveja barata, ou porque não tinham outro lugar para ir a noite, já que a esposa os havia expulsado de casa por um comportamento arrogante e violento. Não, definitivamente. Yuri tinha alguma coisa no olhar. Ele tocava com paixão. Tocava a alma das pessoas.

Claro, com Yakov não era diferente. Sempre que Yuri arranjava tempo entre as encomendas para tocar no Madness, o velho ia visitá-los apenas para vê-lo. Não perdia uma única música.

"Não seja exagerado, velho. Estou enferrujado" Garoto esperto, pensou Hiroko. "Preciso voltar a praticar."


"E por que não? Katsuki, não tenho muito tempo sobrando. Sabe como é, estou cuidando muito de meus colegas desocupados." Decidida a manter a postura superior e evitar brigas, Hiroko apenas se voltou para as estantes repletas de falsas caixas de chá. "Que tal permitir que o jovem toque para nós?" Não queria. Não queria deixá-lo ir. Mas o que Yakov representava era grande demais para ser ignorado. Na pior das hipóteses, haveria um massacre — na pior, algumas balas perdidas. Por precaução, deixou a chave da terceira gaveta bem presa, ao lado de seu relógio. Tomara que não precise usá-las.


"Yuri, meu querido, venha aqui um minuto." O loiro estendeu o braço para a senhora japonesa, que o agarrou em um sinal de desconforto desesperado. Conduzindo-a pelo bar até os fundos do local onde dava o camarim, começou a falar: "Escute-me pelo menos uma vez na vida, criança. Assim que a primeira música acabar, invente que torceu a mão. Melhor: finja isso no meio dela. Assim, não precisa ficar tão exposto." As bochechas do Plisetsky se tingiram de vermelho. Se sentia enfurecido. Só queria tocar um pouco! "Por favor. Não gosto desses homens que chegaram aqui. Quero ver-te protegido e, se possível, longe daqui por um tempo. Pare as encomendas. Já tivemos aquele problema mais cedo." Subitamente, Yuri se soltou do braço da outra, que segurou suas mãos de modo maternal. "Yuri, por favor..."


"Não vai fazer mal algum eu tocar alguns minutos em uma única noite! Você ficou tão neurótica desde aquele dia! Não preciso que cuide de mim!" O Plisetsky imediatamente se arrependeu quando as palavras escaparam de sua boca. Os olhos da senhora perderam o brilho, e ele pôde jurar que viu lágrimas se formando antes que Hiroko virasse as costas e dissesse com frieza:


"Eu apenas não quero que você morra." E saiu, o xale balançando atrás de si num efeito mórbido, como se um pedaço dela própria houvesse morrido naquele momento.


Incapaz de correr atrás da mulher e já atrasado para o show, Yuri deu as costas e abriu a porta do camarim.


☽✩☾


As teclas de marfim pareciam congelar sob seus dedos.

O loiro se sentia culpado por ter brigado com a japonesa daquele jeito. Apesar de todo o jeito super protetor da mesma, ele sabia que era justificável.

O bar se encontrava repleto de homens que o russo nunca vira em sua vida, e sentia que estava sendo observado. Não como se estivesse em cima do palco recebendo atenção como artista, mas como se alguém anotasse cada passo seu, prestes a cair matando. E sabia que, naquele lugar, tudo era possível.

Respirou fundo várias vezes. Assim que as dançarinas assumiram suas posições e a música começou, tudo se perdeu. Tudo se encontrou.

Foi como um baque, os dós e mis se juntando e se separando, novas melodias e novas histórias sendo contadas conforme a música progredia. Mais importante, era sua história sendo contada. Não notou as lágrimas sendo derramadas junto ao som, e nem se importava. Os sapatos das dançarinas batiam no chão de madeira e provocavam um ruído oco, acompanhando as batidas de seu coração.

Quando tudo acabou, ele finalmente se lembrou de respirar. Estava tão absorto na música que perdera o foco do mundo real. E no momento que abriu os olhos, se arrependeu de não ter permanecido nas fantasias musicais de sua mente.

Olhos negros e assustadores como o inferno o observavam de modo sombrio.

Na última fileira, com uma taça de vinho tinto intocada ao lado da mão enluvada, se encontrava o perigo do qual Hiroko o alertara. E o pior: conhecia aqueles olhos. De apenas algumas horas atrás, ele os conhecia. Havia tocado para eles.

Com o coração a mil, se lembrou das instruções que Hiroko lhe deixara antes da briga. Agradeceu brevemente com a cabeça enquanto as palmas se tornavam mais e mais altas, deixando o palco em uma velocidade que só podia demonstrar uma coisa: medo.

Correu para o camarim, ignorando as dançarinas que desciam e lhe parabenizaram pela performance espetacular. Agarrou sua mochila e, com uma gota gelada de suor escorrendo sob suas costas, grudando na camisa branca. Um trovão fez-se audível ao longe, e uma dor de cabeça estranha surgiu.


Medo. Medo. Havia apenas medo.


"Droga. Yuuri! Eu não devia ter lhe oferecido o carro de manhã!" Sem tempo para arrependimentos. Um peso foi retirado de seu peito quando finalmente saiu do bar, e os olhos castanhos apavorantes logo seriam uma figura triste que não gostava de recordar. Uma chuva começou, e, por mais que fosse desagradável chegar em casa encharcado, era melhor do que não chegar nela.


Apertando o passo, Yuri abriu um sorriso. A rua aberta estava logo à frente, e a quantidade de pessoas seria suficiente para que não precisasse se preocupar. O excesso de testemunhas era tranquilizante.


Mas não podia ser tão fácil.


Esse foi seu exato pensamento quando sentiu o cano frio da arma ser apontado para sua testa.

May 11, 2019, 7:28 p.m. 0 Report Embed 0
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