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Agora sim ele está perdoado

Perdão? Essa palavra não existe no meu dicionário. Querem saber por quê? Pois bem, deixe eu me explicar. Nasci numa família miserável; pai, mãe, oito filhos, quatro homens e quatro mulheres; na casa tinha um cachorro também, tão magro que dava dó do coitadinho, era um dos famintos daquele pobre casebre. Meus pais acordavam antes das cinco da manhã todos os dias, pegavam suas enxadas e partiam rumo à lavoura. Os filhos homens iam junto, cada um carregando um saco de pano, as meninas ficavam em casa, cuidando da limpeza e do almoço, isso quando a geladeira oferecia algo para comer, porque na maioria das vezes só tinha água.

Estava um sol de rachar, meus pés doíam enquanto papai e mamãe abriam covas em meio à lavoura; eu e meus irmãos íamos atrás jogando sementes: tinha abóbora, chuchu, pimentão, cenoura, um pouco de tudo, legumes que seriam posteriormente vendidos pra algum fornecedor, e isso renderia dinheiro e com esse dinheiro meu pai compraria comida pra gente. Errado! Meu pai gastaria tudo no bar, com cerveja, com cigarro e com mulheres da vida. Pobre da minha mãe que morreu sem saber de nada. Desgraçada da vida. Abria o sorriso toda vez que meu pai trazia um pedaço de carne embrulhado num pedaço de papel e alguns poucos legumes que haviam sobrado; mal sabia ela o destino daqueles vinténs.

A alegria era tanta que ela junto de minhas quatro irmãs preparavam um delicioso ensopado de carne com legumes. Em tempos de garrafas d’água na geladeira aquilo poderia ser considerado como um banquete digno da realeza. E comíamos todos sentados à mesa, saboreando lentamente cada pedaço de carne. Era maravilhoso sentir a cenoura se desmanchar na boca, e a cada mastigada na carne uma sensação de prazer nos envolvia completamente.

Mas as coisas começaram a dar errado quando meu pai começou a jogar baralho no bar. Maldito carteado, graças a ele perdi minha família. Sobrevivi por sorte, pois com certeza não estaria aqui para contar essa história.

As nuvens estavam se escondendo, o sol descia lentamente enquanto a lua subia dando o ar da graça. Estava no meio do mato, sozinho, de estilingue na mão caçando passarinho, foi quando ouvi o primeiro estrondo. Parei onde eu estava. Não sabia se corria para casa ou se ficava ali em meio as árvores, o medo de morrer me impediu e eu me culpo até hoje. Voltei a casa o mais depressa assim que os estrondos terminaram e encontrei minha família sem vida, cada um num canto, meu pai estava debruçado na cerca, uma vaca leiteira magra o fitava sem entender, eu tão pouco compreendia; na porta da casa, caído de lado, com a boca escorrendo sangue e de olhos entreabertos estava meu irmão mais velho, um pouco mais adiante estava minha irmã Luiza, sentada, encostada na parede, a cabeça abaixada e a blusa de renda manchada de sangue no peito e minha mãe caída próxima a ela, com vassoura em mãos, parecia querer se defender.

Parecia um filme de terror de péssima qualidade, gente morta espalhada pelo chão, sangue na parede, cheiro de queimado e um silêncio que cortava na carne. Jurei vingança e não perdoaria o filho da mãe que destruiu minha família.

Há foi fácil descobrir que o dono do boteco, um velho magro, de cabelos brancos nas laterais e poucos fios em cima fora o grande responsável. Peguei a espingarda de papai, botei a munição e parti. Andei todo trajeto a pé, entrei naquele lugar fedorento, e uma nuvem de fumaça de cigarro me fez perder a visão por um segundo.

O desventurado estava lá. Debruçado no balcão, mastigando sei lá o que enquanto me olhava com aquela cara nojenta. Seus dentes eram sujos de nicotina e ele era cego de um olho. Nem pensei muito, apontei a espingarda e atirei nove vezes, foi um tiro pra cada um. Não morri, mas precisa dar o tiro que me representasse. Aproximei-me e olhei em seus olhos, sorri, enfiei o cano da espingarda em sua boca e puxei o gatilho. Agora sim ele está perdoado.

FIM!!!

April 19, 2019, 11:11 p.m. 0 Report Embed 0
The End

Meet the author

Fernando Camargo Escrevo desde os oito anos de idade, culpa da professora de português. De tanto gostar de fazer isso (escrever), resolvi estudar jornalismo. Formado, atualmente eu passo meus dias a criar personagens e novas histórias.

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