Gatinha Follow story

u15552862861555286286 Jade B. Sand

Quando um pequeno equívoco muda tudo. Fernando, um contador recém-chegado na cidade, se encanta com a jovem que está sentada à sua frente na recepção de um consultório de dentista. Seus olhos grandes, sua roupa bonita e sua pele perfeita, livre de qualquer maquiagem, instigam o rapaz e o fazem esquecer da cirurgia que o aguarda. Mas duas coisas inusitadas logo chamam a atenção de Fernando: o nome da beldade, que é Paulinho, e seus curiosos dentinhos felinos. Paulinho é um jovem vendedor de lingerie e produtos de beleza que circula pelos escritórios do centro da cidade. Com sua mala de rodinhas e sua simpatia desinteressada, ele esbanja elegância por onde passa. Mas Fernando está convencido de que, por baixo daquelas roupas estilosas e daquela inocência, existe uma gatinha manhosa que morde e arranha. Uma gatinha cheia de segredos. Romance gay


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I

Minha primeira semana de trabalho no respeitável escritório de Contabilidade do qual eu sempre tinha ouvido falar foi inacreditável. Ambiente familiar: sim, era a mãe, duas filhas e duas netas, e a estagiária, prima de uma delas. Vamos diversificar, disse dona Lucia, mulher bonita com seus cabelos azulados de mais de setenta anos. “Vai ser bom ter um rapaz de outra escola, de outra cidade. Temos muito a aprender uns com os outros”. Outro rapaz também foi contratado no mesmo dia que eu. De cara, eu tinha gostado da visão da fundadora do tradicional escritório. Uma vez lá dentro, senti que havia sido enganado, ou que talvez tivesse tido expectativas erradas. Ou que estivesse tendo uma semana ruim apesar do emprego bom que tinha conseguido.
As mulheres eram todas da mesma família. Elas brigavam. Falavam sobre coisas íntimas. Me deixavam profundamente irritado. Apesar disso, resolviam as coisas com tanto tato e rapidez que eu ficava constrangido. A mais velha das duas filhas, uma mulher com quase cinquenta, mas que aparentava bem menos, estava me olhando de forma curiosa enquanto eu falava sobre a declaração de IR de uns dos clientes. Mordi a bochecha e quase gritei de dor. Ela percebeu.
“Sorria” — ela pediu.
Não entendi.
— Quê? — perguntei.
“Sorria. Seus dentes estão tortos. Devem ser os sisos”.
— Ah, sim — eu disse. — Meus sisos estão nascendo. Mais do que atrasados, mas estão. E estão me matando. Mordo a bochecha desse lado — pus a mão no lado direito — várias vezes ao dia.
— Por que não disse antes, meu jovem? Vá resolver isso logo!
— Mas e esse tanto de trabalho acumulado?
— Aqui nós somos uma família, para o bem e para o mal. Você é novo na cidade, não é? Está bem instalado? — Balancei a cabeça afirmativamente duas vezes. — Vou ligar para uma amiga e ela vai te atender.
Antes que eu pudesse retrucar, ela já estava com o celular e a dentista amiga, já estava na linha. Marcar um horário (encaixe) para mim, durou apenas dez segundos e o restante da conversa (homem, roupa, fim de semana) continuou por mais alguns minutos. Na tarde daquele mesmo dia eu deveria ir até o prédio em frente, onde havia vários consultórios, e procurar pela Priscila, secretária da doutora Kátia, que iria dar um jeitinho de me atender.
No almoço, depois de morder a bochecha pela terceira vez e soltar umas pragas completamente impróprias para o horário sagrado, eu agradeci à iniciativa de minha colega de trabalho. Tinha que dar um jeito naquilo.
Dezesseis horas eu estava lá. E não era o único. Havia mais quatro pessoas e senti que aquilo ia demorar. Tudo bem. Eu tinha sido liberado do trabalho e podia esperar, e tinha sido avisado de que era um “encaixe”. Havia três cadeiras verdes e três de cor creme, às verdes à esquerda, as creme à direita. Havia o bebedouro e um display de revistas velhas de um lado e a mesa da secretária do outro. Uma moça de notáveis cabelos crespos presos estava sentada e ao telefone. Vestia branco e verde e parecia muito profissional.
Duas das cadeiras creme estavam ocupadas por mulheres, ambas absortas em seus celulares. Uma consultava o relógio de pulso com frequência, como se o celular não fosse capaz de lhe fornecer a hora certa. Era uma forma de demonstrar impaciência e dizer que seu tempo era mais valioso que o dos outros. A outra era uma adolescente muito bonita, de cabelos curtos castanho-claros, olhos marcantes e bem vestida. A blusa branca parecia um modelo “vintage”, com camafeu e rendas no pescoço. Usava uma espécie de casaco preto bem cortado e calça. Tinha uma mala de viagem ao seu lado, mas não parecia com pressa de viajar; na verdade, ela estava concentrada em seu celular rosa de purpurina.
Ao meu lado estava um rapaz e ele estava completamente absorto na jovem à nossa frente. Ficou encarando-a até que ela levantou os olhos pretíssimos embaixo dos cílios longos e sorriu. Foi um sorriso simpático, apenas de lábios. Que rosto! Branquinho, sem nenhuma mancha, e nenhuma maquiagem aparente. Os lábios pareciam rosados de forma natural, assim como as bochechas.
No relógio da parede, o tempo passava. A mulher impaciente foi chamada. Elisângela. Se levantou num pulo e acompanhou a bela Priscila através das portas brancas. Ouvi a voz encorajadora da doutora Kátia e senti um calafrio. Nunca tinha me sentido bem em consultórios de dentistas. O que estava me distraindo era a jovem à minha frente e o rapaz ao meu lado tentando flertar com ela.
Peguei uma revista que estava sobre a outra cadeira e comecei a folheá-la para me distrair, mas vez ou outra dava uma vista de olhos na jovem e no rapaz ao meu lado para ver se as coisas tinham avançado. Não tinham. Por mais que o homem se esforçasse, a bela de olhos negros parecia estar num patamar superior, só dela e de seu chamativo celular cor-de-rosa. Para não a encarar e dar margens a interpretações errôneas, eu olhava mais para o chão, onde os pés calçados de botas sem salto estavam cruzados.
Vinte minutos depois, a paciente saiu, e o rapaz ao meu lado, Robson, foi chamado. Ele entrou entristecido, tentando chamar a atenção da mocinha pela última vez. Em vão. Quando a porta se fechou, ela revirou os olhos e sorriu para mim, do mesmo jeito de antes, só de lábios. Só de deliciosos lábios volumosos e naturalmente rosados. Mas passou os próximos vinte minutos entretida com seu celular e não me deu bola. Não insisti para que ela não revirasse os olhos quando eu desse as costas. Também fingi que não a estava vendo.
Quando o Robson saiu, passou por nós e foi embora, a secretária sorriu para mim e perguntou se antes de me atender, a doutora poderia dar uma palavrinha com o Paulinho. E que o Paulinho estava esperando há horas. Gaguejei. Sim? — respondi. Onde estaria o Paulinho?
O próprio se manifestou. Não acreditei.
— Não tem problema, querida, eu espero. Imagina, pode atender ao rapaz!
— Pode entrar — disse eu. — Eu vim sem horário.
Ele fez um gesto com as mãos delicadas onde uma pedra cor-de-rosa reluzia.
— Estou com tempo. Vai você primeiro.
Ante a insistência da… bem, do Paulinho, eu entrei. A secretária ficou lá com ele conversando animadamente.
Foi uma consulta muito produtiva onde a dentista avaliou, me encaminhou ao raio-X no consultório ao lado e marcou o dia da cirurgia. Foi tranquilo. Mais de quarenta minutos e quando saí, Paulinho ainda estava lá, calmo como se tivesse acabado de chegar. Estava de pé junto à mesa da secretária e mostrava coisas numa revista.
Quando se virou para mim, eu o avaliei dos pés à cabeça. Não que eu costumasse fazer isso, mas a curiosidade foi maior. Era tudo muito perfeito. Pequeno, delicado. Por que se chamava Paulinho? Até a voz era macia, grave, é verdade, mas macia. E o rosto… bem, é claro que existem os recursos, mas tudo parecia tão limpo.
Vendo mais claramente, “Paulinho” não estava usando nenhum objeto tipicamente feminino. Não tinha brincos, só um piercing no alto da orelha esquerda; as roupas, apesar da delicadeza dos detalhes, eram apenas um modelo antigo, e os sapatos eram comuns. Eu mesmo já tinha tido botas daquele jeito. E por que então eu tinha pensado…? No fim, analisando friamente, Paulinho era apenas um adolescente bem-vestido, que gostava de rosa, e que tinha um rosto perfeito. Talvez a delicadeza do rosto fosse devido à idade. Quinze anos, talvez? Mas falava muito bem; ao mostrar as coisas na revista, falava como uma vendedora. Talvez tivesse uns dezessete e já trabalhasse, por isso a desenvoltura.
Bem, devia ser isso. Não era a bonequinha que eu tinha pensado, mas que era bonitinho, isso não tinha como negar. Na verdade, era uma… — nesse momento ele sorriu, e distendendo os lábios até o fim, mostrou os dentes. Dentes muito pequenos com caninos levemente proeminentes. — … Gatinha!
Ele tinha me enganado. E muito bem. E mais ainda ao rapaz, o Robson, que tinha sido atendido antes de mim. O que ele pensaria se soubesse que aquela gatinha se chamava Paulinho? Fui embora pensando mais naquele rosto do que na cirurgia que eu faria dali a três dias.

April 15, 2019, 11:20 a.m. 0 Report Embed 0
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